Domingo, Novembro 29, 2009

Partilho agora um novo espaço, A Regra do Jogo. Continuarei a respirar, este é um projecto de escrita que se vai manter sempre, embora sofra claro com o meu derrame que neste momento acontece noutras escritas, nomeadamente a jornalística, experiência à qual voltei com a paixão dos meus vinte anos abertos.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Jantar em família

O que uma bolonhesa consegue fazer pela literatura que apenas mais um tem dentro de si.

Ficar em casa

Trabalhar ao fim de semana tem as suas vantagens. Ficar em casa a um dia de semana. Acordar com tempo para namorar. Sorrir para o despertador e dizer-lhe, hoje levantas-te tu, se quiseres. Sair à rua para comprar pão e ouvir o vozear da rua. Todas as ruas têm um vozear próprio. O da minha concentra-se toda no cruzamento desta com a rua descendente de Sapadores, fazendo uma caixa de eco onde se juntam serventes, trolhas, comerciantes, roça-paredes, o barbeiro quando sobe cá acima para um penalty, algum taxista que parou para pedir trocos, o chocalhar das socas das donas de casa que abrem a porta dos seus quintais de onde começam a sair cheiros de comida caseira. Basta subir um pouco para ficar de novo no silêncio dos prédios novos, estruturas de argamassa e betão cada vez mais inodoras, insonoras. Olho o rio antes de entrar em casa, é um ritual diário, não me despeguei dele nunca, subo as escadas com energia enquanto me benzo, invisivelmente, para que nenhum deus mais atento não me possa acusar de algum género de religiosidade vadia. Ao chegar a casa, empoleirado à janela, depois de me meter com o Jeremias e a Mia, um casal de gatos, ainda hei-de saudar os vizinhos de baixo, são do teatro, os artistas têm horários de morcego, como dizia a minha mãe quando há muitos anos me via sair de casa às cinco da tarde para ir trabalhar, ele está agachado no canteiro de terra com uma pequena tesoura de podar. Corta as ervas daninas mas não as arranca, estranho, é para fortalecer a terra, responde-me, nunca tinha pensado nisso, é muito novo o meu vizinho mas interessa-se por estes saberes da terra, das plantas, das folhagens. Os nossos quintais são pequenos logradouros, com um canteiro de terra ao fundo, mas ele consegue, com a ajuda de toda a sorte de vasos, fazer crescer uma pequena floresta colorida e refrescante. Para minha felicidade. A janela do quarto é como uma pequena televisão onde me esqueço do tempo a passar. E daqui a nada é noite, e amanhã folgarei de novo.
Vou finalmente poder perguntar-te, oficialmente, sem nenhuma provocação: - Quando é que te casas? Estou ansioso.

Agora sim o casamento entre pessoas do mesmo sexo

Agora que parlamentarmente existem condições para aprovar a proposta da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, relembro as questões, e objecções, que aqui, acerca de um ano, levantei ao modo como esta questão tem sido discutida. Acabo de ver uma sessão dos prós e contras. Eu e ela estamos divididos. Embora dividíssemos o sofá aninhados por este frio a fingir - ou que parece que ainda não veio - ela estava sentada na bancada dos prós e eu, andava por ali a cirandar, sem encontrar lugar que me coubesse. Congratulo-me com o facto do meu país ir dar um passo importante na constituição formal dos direitos dos casais do mesmo sexo. No entanto continuo a registar a minha incompreensão pela forma como o debate público tem escamoteado questões importantes. Não fiquei muito esclarecido sobre muita coisa que acho importante, nomeadamente, como é que se vai lutar pelos direitos civis daqueles casais de pessoas do mesmo sexo que não querem validar a sua união através do casamento. Também, repito, esta proposta, inovadora e arrojada do ponto de vista politico, é, do ponto de vista cultural, porque segue a agenda lgbt sem lhe introduzir nenhuma criatividade, de um conservadorismo escusado. Já aqui o defendi e torno a repetir: gostava que em Portugal houvesse uma profunda reforma do casamento que permitisse o aparecimento de um novo instituto que assinalasse, para todos, a profunda viragem positiva que hoje podemos ter sobre a forma como as novas dimensões da sexualidade e da afectividade se projectam na família. Não vou repetir todo o argumentário. Eu sei que os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo não gostam de ouvir isto, mas mais uma vez, verbero-lhes o seu grande conservadorismo. E intolerância sobre a dimensão cultural e simbólica que o casamento tem para a vida de todos aqueles que têm a ideia de casamento como uma união entre sexos opostos.

Domingo, Novembro 15, 2009

Escuta-me...

Não percebo nada do que se passa no país onde vivo. E tenho algum receio das palavras que escrevo. Sinto, como nunca o senti, que quando a dimensão ética se perdeu na cidade é cada um de nós que tem de a reinventar para si mesmo, na relação com os outros, com a comunidade. Não vou falar dos casos do dia. Nem para inventar indignações, nem para me desdobrar em acusações baseadas em factos que não têm aquela qualidade de factos com que, antes desta avalanche de lama, a nossa realidade se habituara a certificar os acontecimentos da vida. Quando eu fui para a escola preparatória apaixonei-me pela história por causa disso. Os factos, diziam-me, eram credíveis. Não quer dizer que tivessem acontecido. Podiam não ter acontecido. Por exemplo, o meu amor pela história renovava-se quando um novo historiador, lembro-me quando Borges Coelho chegou ao meu conhecimento, aparecia a reinventar a história. Ora não se pode reinventar a história senão se assumir que ela foi mal contada. Não, a credibilidade não tinha tanto a ver com a natureza dos objectos produzidos, os factos, mas com o esforço de imprimir rigor ao controle de produção que havia na fabricação dos factos. Nunca pensei escrever uma coisa como esta, embora soubesse que mais tarde ou mais cedo também eu me tornaria vulnerável ao argumento: não confio nesta realidade, esta realidade perdeu o real. E quanto mais passivamente a aceitarmos como real mais estamos a deixar que a qualidade da nossa vida se desvaneça. Votarei de novo daqui a quatro anos, a dois, quando suas excelências quiserem. Mas até lá assumo dolorosamente a minha incapacidade de ver a realidade através deste circo histérico com que, como se valquírias debutantes, passam em meu redor o circo dos senhores procuradores, dos juízes, dos deputados, dos ministros, dos comentadores e jornalistas. Falem-me, quando me quiserem de volta ao vosso real, do colibri, do guarda-rios, das begónias, do vento e da insensatez com que a morte ceifa sem critério nem medida . Ou daquele jovem que hoje, pelas quinze horas, escolheu o canto mais recatado e isolado da basílica da estrela, para sofrer - num espasmo de dor tão silencioso que, como um grito, me sobressaltou - a dor de uma rapariga estupidamente levada desta vida.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Novo filme de Teresa Villaverde

A realizadora de Os Mutantes, Transe e a Favor da Claridade prepara um novo projecto e para isso procura um actor jovem, que tenha entre 18 a 25 anos, com ou sem experiência. Contactar através do email: alcefilmes@sapo.pt .

A menina do cão do fiat e o seu amante

Não tenho escrito muito aqui, não me tem calhado. Alguns projectos de natureza pessoal. Primeiro foi a preparação de um projecto de doutoramento, antes, durante e depois tenho estado a ajudar o Marcantónio e o João Didelet a divulgar Figuração Especial (termina já no próximo domingo), depois das obras o projecto do serviço educativo e de animação lá do teatro começa finalmente a dar os primeiros passos, tudo isso, para além da realidade, a querida realidade, tornaram-me arredio quer do respirar, quer de outros lugares onde por vezes ía escrevendo. Um deles é o Olivesaria, lugar de afecto, de nascença, de vivença. Mas no outro dia, ao sair de casa da minha mãe, o post veio atrás de mim.

O Solista

Não nos tem saído mal a segunda-feira. Depois de Abraços Desfeitos, belíssimo filme, este extraordinário Solista.

Dois anos

Há dois anos um bate-pé levou-nos ao infinito. Agora erguemos o copo, compramos flores mas no fundo sabemos, um amor assim não se mede assim, pelos anos. Os tubos de ensaio afilados no laboratório falam de nós. O sangue, o suor, o sémen, a dor, o riso, a festa, o choro. Quantas revoluções já couberam em 24 meses? Dias, horas? E quantas ainda por encetar?

Domingo, Outubro 25, 2009

Obrigado Mega Ferreira

Sempre que para aqui venho, e por um estranho flashback, sinto-me no futuro. Lembro-me de tudo. Da Petroquimica mal cheirosa, cheia de perigos, dos contentores que não só atravancavam a vista da cidade como também tornavam aquela zona um lugar excluído, a excluir. Ontem, foi terreno para um delicioso passeio de uma hora, em que voltámos a ser amigos e aventureiros. Eu, a lembrar-me, e a virem-me à boca palavras de gratidão por um homem que sacrificou tanto da sua energia para fazer tanto e tão imensurável bem a toda a gente.

PH de uma vida improvável

Há muito que palavras tão compridas como felicidade deixaram de fazer sentido para eu me compreender na minha vida. A consciência do mundo onde vivo matou por completo a possibilidade de eu ser feliz. Como já se compreendeu, não foi a minha vida que mudou, que se tornou mais cinzenta, foi a minha maneira de a entender. O que é saudável, parece-me. Se a minha maneira de ver o mundo e as coisas fosse, aos 47, a mesma do que as de um jovem de 17, talvez a minha revisão da matéria vivida tivesse de ir num outro caminho. Mudou a minha consciência de vida e mudaram também os meus indicadores. O meu indicador de que a improbalidade em que se constitui a minha vida é uma circunstância feliz é quando muda a hora. Se automaticamente penso, mais uma hora para dormir, é melhor sairem da minha frente. Ao invés, como agora, se sentisse uma alegria por ter mais uma hora para saborear o dia, seria sinal de que podia até faltar quase tudo cá em casa, mas que de esperança e fé, estava aviado.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Cantam as nossas almas

Ontem foi um dia que começou dificil. Ao entrar no teatro, a notícia que já adivinhávamos: oO Miranda, o João Miranda, o luminotécnico do Trindade tinha apagado as luzes do mundo, do seu mundo. Duas horas depois desta entrada, uma sms, anunciava-me um novo João no mundo. Veio com pressa, num repente, os Joões são uns valentes, não tardam. E foi assim, a cantar, que continuou o meu dia.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

A regra do jogo

Mais um blogue de ideias para o confronto de razões, nas razões que a ideia de cada um promove. Entre os outros os meus vizinhos Eduardo Graça e Luis Novaes Tito, a quem saúdo.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Bernardo Santareno merecia mais

Sou um grande admirador da obra dramática de Bernardo Santareno. Fiquei por isso muito contente ao saber que na sua cidade tinha sido criado um Instituto com o seu nome e que este, entre outras atribuições, promovia um prémio que é, a nível nacional, o mais importante concurso literário. E concorri. O que já não vai sendo muito o meu hábito porque infelizmente tenho sabido de tantas ou tão poucas sobre concursos deste género que vou, como em tudo na vida, desistindo a pouco e pouco de concorrer. Poupa-se no papel, poupa-se nas árvores, e são uns não sei quantos filhos da p. que deixamos de legitimar. Por isso, deixei uma porta aberta para o prémio Bernardo Santareno. Não só pelo valor monetário, também por incluir a representação e a edição da obra. E pelo prazer de concorrer a um prémio que homenageia um dos maiores dramaturgos portugueses do século XX. Mas de repente, sob o céu limpo, começam a vir as nuvens. A primeira, foi quando ao fazer uma pesquisa sobre o Instituto encontro esta carta aberta ao seu presidente. Não é de facto o melhor cartão de visita, mas pensei, são coisas locais, isto é um prémio nacional, haverá certamente outro decoro e recato. Por isso quando soube do anúncio dos premiados, fiquei contente, felicitei até os distinguidos que estavam mais à mão. É então que começam a vir ter comigo informações sobre metodologias de merceeiro utilizadas para a selecção dos textos. Não posso contar mais, como agora se diz, há que proteger as fontes, o próprio fontanário, resta-me apenas o desabafo: Bernardo Santareno merecia mais.

Os dias assim

Quando eu tinha dezanove anos lia Brecht,
Rousseau, Vitor Hugo,
acreditava na redenção dos aflitos, dos pobres,
das madalenas e de todos os humildes que comiam o pão
que o diabo amargou.
Não tinha ideologia. Tinha bandeiras. Desfraldadas pelo vento norte,
foram épicos os meus dezanove e os vinte e
ainda mais uns tantos que se seguiram.
O cosmos era uma laranja cortada em duas metades
cujo sabor, significado,
e sentido,
estavam ao alcance da minha compreensão.
Não me posso queixar do que se seguiu. Entre esse tempo e os dias de hoje
passaram-se vinte e oito anos o que quer dizer
que me posso considerar abençoado por um deus a que,
por nele descrer,
não pago tributo.
E se, por vezes,
quando sou preterido de um concurso qualquer,
sejam os jogos florais ou literários da minha rua,
o casting para fazer de homem-sanduiche,
de louco ou de polícia sinaleiro,
o campeonato da sueca,
ou até o totoloto,
série um, série dois ou euro milhões,
praguejo, berro, grito
com a incompetência do julgamento que me excluiu,
a verdade é que,
em relação ao grande desafio,
o maior de todos os maiores concursos
o que verdadeiramente conta,
o de, dia a dia,
acordar do lado dos vivos,
dos que têm de,
oh grande angústia da existência e do drama humano!,
tomar o café matinal,
descer as escadas três a três,
ouvir o chilreio na árvore em frente,
em relação a esse,
olho a minha vida,
o que fiz, o que não fiz, o que talvez venha a fazer,
a quantidade de gente que todos os dias fica por aqui,
sem um aceno sequer de despedida,
e não percebo porque é que o grande júri,
o supremo tribunal
desta vida,
continua a deixar-me ir a jogo. Vou, e isso é que (me) importa.Já não leio Brecht,
Rousseau,
- abro parêntesis, ainda me emociono com a saga de Jean Valjean-
creio tanto no mistério dos aflitos
como dos abençoados pela sorte e
pela fortuna,
e o meu único combate é
chegar ao fim do mês,
de cada mês.
Não tenho relógio. Não preciso.
Dou pelos dias a passar pelas tarefas de que
estou,
solenemente,
investido.
Pagar a renda de casa.
Regar a hortelã. Pouco. Mais a salsa.
Menos ainda o cacto aloé. Ou
a lucialima. A água,
também encharca.
Dar a quinzenada ao petiz.
A água quando é demais afoga.
Traçar a bissectriz.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Farm Ville

Agora que já elegemos os nossos representantes,
o primeiro-ministro,
os deputados e as deputadas nacionais,
os deputados e as deputadas europeias,
o presidente da comissão europeia,
os e as presidentes de câmara,
os e as presidentes das assembleias municipais,
das juntas de freguesia,
das comarcas,
do clube de futebol do bairro, da cidade,
do país,
agora que até já elejemos Barack Obama
no qual não votámos por uma mera circunstância formal,
podemos voltar ordeiramente à realidade
dos dias
e das noites
e fingir que a vida que construímos
é realmente vida,
vida a sério,
vida com V grande,
de vitória,
acabou-se a história.
a
a
Acabou-se a história,
pensamos enquanto nos afundamos,
no estertor do sofá
pago a 24 meses na Moviflor,
quando não está ninguém do outro lado do plasma,
a 36 meses na wortem sempre,
até o raio do jantar que se azedou
no estômago,
trazido em sacos de plástico
com o cartão do Continente,
acabou-se a história,
hoje o Grissom despede-se,
diz adeus,
vai-se embora,
o adn da nossa desvida,
a azia passa-nos do estômago para
o coração,
nós não queríamos,
a leveza não está à venda,
nem a beleza,
tigresa,
acabou-se a memória,
esqueci-me, dizemos,
esqueceste-te de quê?,
perguntam aqueles pares que inventamos para
não percebermos que estamos
fora
fora do mundo
fora do sítio
fora da vida
os putos cresceram
, dizemos
as fotografias espalhadas na sala
são pequenos troféus felizes
os nossos dias
passados assim, agora
que já elejemos os nossos primeiros e segundos e terceiros
representantes
na rua, no bairro, na cidade,
no país, no continente, no mundo
esquece-te outra vez de viver,
de saborear a maçã,
a grande maçã livre,
o pecado original
e põe-te novamente
como fazes sempre,
na fila
para a distribuição de benesses
e de milagres
do santo antoninho.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

O MEP em Lisboa

Já expressei aqui o meu sentido de voto em relação às próximas eleições autárquicas. Reforcei essa minha convicção quando fui à apresentação do programa cultural a que se dedicará Catarina Vaz Pinto, proposta de António Costa, para a vereação cultural da cidade. Tenho vinte e sete anos de ligação à cultura e nunca vi, a este nível do poder político, um discurso tão clarividente sobre a actividade cultural. Há pouco no entanto tomei conhecimento com a candidatura do MEP, bem como o programa político que a suporta. O cabeça de lista à Câmara é José Costa Ramos cuja delicadeza humana - e como eu, tantas vezes bruto de sentimentos, um paquiderme numa loja de porcelanas, aprecio a delicadeza alheia! - já tive o privilégio de desfrutar. A generosidade com que ela foi construída , a riqueza das suas ideias, " que bonita é a cidade com que José Costa Ramos sonha!", faz-me sentir que é um dever espalhar a palavra, neste caso o link. Até porque ela corresponde a algo que é cada vez mais profundo, a necessidade de que a política se transforme, deixe de ficar tão refém de interesses partidários de natureza corporativa, e seja a vontade de sonhar com a cidade, com uma determinada cidade. Apetece-me dizer, obrigado José Carlos.

Domingo, Setembro 27, 2009

Última nota

O analista de sofá em que, prazenteiramente, me transformei hoje, fecha a sua análise com uma última nota: se as projecções se confirmarem, o Partido Socialista, independentemente do seu ideário e património político de esquerda, e no espectro político nacional, torna-se inquestoonavelmente no partido do centro. Um partido cuja composição política, cujo ideário e património político é de esquerda, mas que, entre dois blocos parlamentares claros, o da esquerda e o da direita, está inequivocamente ao centro. Nesse contexto é curioso ver um Bloco de Esquerda dizer que há um reforço da esquerda em Portugal quando pode ser precisamente o contrário: a esquerda ter perdido muitos votos, porque perdeu os votos do PS, que, por causa do alargamento de uma esquerda mais radical foi mais empurrado para o centro. Ou será que o Bloco e a CDU que tanto lutaram contra a política de direita do PS, agora, que ela foi revalidada, já analisarão os votos do PS como de esquerda? Ou seja, se o PS tem uma politica de direita, porque é que antevi no discurso de Louçã, um discurso de vitória? Por terem tirado a maioria absoluta ao PS? Mas esse é um louro que têm de disputar com o PP, com a CDU e com o PSD, e nessa caldeirada ideológica onde situar o contributo do Bloco! E como ficarem contentes com o perderem uma maioria absoluta de um adversário, que tanto os fez crescer politicamente? Como vão crescer agora? Eu não dava nem um cêntimo para estar na pele de Louçã. Quanto mais deputados tiver mais protagonismo terá a pulverizar o seu e isso será dificil de gerir através da metodologia de controlo de poder que realizou até agora. Quando passar o folclore político da cobertura televisiva das eleições, um pouco ao ritmo de um desafio, de um jogo, a poeira vai assentar e vamos descobrir que provavelmente o bloco de direita pode ter ficado, pelo menos durante os próximos dois anos, mais forte. É que Cavaco conta.

A maioria relativa, lida pelo lado da alegria

A verificar-se uma maioria relativa onde o Partido Socialista tenha mais votos do que qualquer um dos grandes blocos políticos, a esquerda e a direita, temos um cenário político que será ainda mais vantajoso para o Partido Socialista já que é de facto uma maioria que lhe permite uma absoluta tranquilidade na legislatura - assim saiba ter a inteligência (ou o instinto de sobrevivência) política - e ao mesmo tempo lhe retira a antipatia, o incómodo e os problemas de uma maioria absoluta.
Porque, nesse cenário, a menos que o PS ensandeça, só por um enlouquecer político de uma das outras forças política é que poderíamos ver o Bloco de Esquerda, ou o Partido Comunista, a juntarem-se ao CDS e ao PSD, para derrubarem o PS. É que neste cenário também não seria suficiente um acordo entre o Bloco e o PSD, ou entre o PSD e o PCP, e todos sabemos o que o surrealismo destes cenários poderiam vir a ter no novo acto eleitoral.
Se assim for, o Partido Socialista tem todas as razões para exultar: revalidou o seu mandato, sendo que o deverá exercer num clima de uma maior vigilância democrática da Oposição, que não terá capacidade, senão academicamente, de derrubar o governo, mas que poderá exercer uma maior pressão social. Por outro lado, o Partido Socialista tem um lider com uma energia política fortissima, com uma capacidade de exposição política impar e que por isso estará também em boas condições para exercer um magistério governativo nestas condições. Sobre isso não deixa de ser significativo que um dos actores principais de confronto com o Governo socialista na área da educação, Mário Nogueira, esteja associado a uma força política que poderá vir a perder representatividade política. É claro que, haverá no PS, muitas pessoas que gostariam de ter uma maioria absoluta e que nesse sentido estarão bem longe dos exultantes. Mas esses são talvez os mesmos a quem o país se preocupou em negar que governassem nessa condição.

A maioria relativa, lida pelo lado da preocupação

Balanço entre a alegria dos resultados projectados, uma maioria relativa onde o PS tem mais do que o PSD e o PP, e a preocupação de uma maioria relativa onde o PS esteja refém, à esquerda, de uma força política como o Bloco de Esquerda.
Considero esse último cenário de uma enorme gravidade política - um eleitor da área do centro direita, vulgo PSD e PP pensará o contrário - já que Cavaco Silva poderá nele vir a ter um papel verdadeiramente imprevísivel .
Esse cenário tem vindo aliás a ser preparado por Marcelo Rebelo de Sousa ao dizer que face a uma situação de crise, iremos ter um governo para dois anos. Ora, por muito que me desgoste esse tipo de raciocínio por parte de Cavaco Silva, há que convir uma coisa:
- a Constituição Portuguesa confere ao Presidente da República uma grande responsabilidade já que, ele não tem apenas de cortar a fita da inauguração de um novo governo, ele vincula-se à escolha que fizer.
Ora, face a uma situação política onde uma forte crise financeira, económica, social e política necessita de um quadro governativo com alguma estabilidade programática, alguém poderá censurar Cavaco Silva por escolher uma maioria relativa formada por um PSD e por um PP, baseada num ideário programático comum em relação às questões-chave da economia,(e não estou a pensar num Cavaco Silva que pense como eu ou aquele eleitor comum mas um Cavaco Silva que pense como Cavaco Silva, o que é, preocupantemente, alguém que pensa de uma forma muito parecida com Manuela Ferreira Leite), em vez de uma maioria relativa por um Partido cujo programa foi violentamente atacado à esquerda e à direita, e cujo principal aliado à esquerda seja um Bloco de Esquerda, que fala como fala das nacionalizações ?
Confesso que enquanto não souber os resultados do Partido Socialista, do Partido Social Democrata e do Partido Popular, não respirarei de alívio. Lembro-me muito bem da angústia e da desilusão a que um homem que sempre considerei sensato, Jorge Sampaio, nos votou, quando fez uma interpretação pessoalíssima, mas que a Constituição legitima, dos resultados eleitorais da altura.
É claro que, como já aqui foi referido (na caixa de comentários do post anterior), um acordo pós-eleitoral pode ser feito tanto à direita como à esquerda, mas a verdade também é que se até eu duvido da consistência política desse acordo, o que é que dele pensará Cavaco?! É preciso não esquecer o papel negativo que Cavaco Silva tem tido ultimamente.

Quando eu for votar

Ao fim de muitos anos vou voltar a votar em Lisboa. Voltei à cidade. E de certa maneira, tenho sentido isso nos últimos tempos, é um regresso à emoção de votar. Quero ter a sensação de poder escolher. Digo sensação porque é essa a franja de existência que concedo à ingenuidade de que escolhemos alguma coisa. Quero ter a sensação de poder escolher. E também, é a primeira vez, excepto nas presidenciais, em que sei de antemão em quem vou votar. Geralmente caminhava para a minha mesa eleitoral apenas com uma certeza, a daqueles a quem queria derrotar. Desta vez o meu voto, na sua ambiguidade, é de uma clareza quase absoluta. O que me espanta, porque a campanha eleitoral, à esquerda e à direita, esmiuçados os confrontos, os debates, foi de uma pobreza confrangedora. E também não tenho medo de fantasmas, como o da maioria absoluta. Mesmo que espere muito sinceramente que ela não se dê. Olho para trás, para os últimos quatro anos, e percebo que a maioria absoluta só prejudicou o partido do governo. A começar e a acabar na educação: não acredito que na educação tivessem sido cometidos tantos erros se o partido do governo não se sentisse resguardado por uma maioria absoluta. A única coisa que não gostaria, a única coisa que me estragaria a paz dos dias, é se os partidos da direita tivessem mais votos que o partido do actual governo. Imagino, ou será antes, temo, que em Belém, com um rápido acordo pós-eleitoral, a frase, o presidente da república convidará para formar governo tendo em conta os resultados eleitorais, seria interpretada de maneira muito diferente da vontade da maioria dos portugueses. Por outro lado, um espectro político fragmentado e pulverizado à esquerda, também pode ser visto pelo seu lado positivo, já que esse aumento da representatividade parlamentar de um pequeno agrupamento político tornaria-o definitivamente, um partido de poder, com responsabilidades de iniciativa e não apenas de protesto. É assim com alguma tranquilidade que, na minha ansiedade, caminho para a minha mesa eleitora. Quando for votar irei lembrar-me apenas de uma coisa e não é coisa pouca nem de somenos importância: o cheiro a lavanda que ainda terei nos bolsos, de uma folhagem que apanhei ontem à noite.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

O amor nem sempre é o que parece. É preciso chorar, é preciso zangar, é preciso gritar, é preciso quase sentir o peito a rebentar para percebermos a enorme injustiça do amor : na sua improbabilidade, ou seja, independentemente de existir ou não, é capaz de nos levar tão depressa ao céu como ao inferno do existir. Como tão bem o cantaram Vinicius, Betânia.
O amante sofre tanto de um falso amor como de um amor verdadeiro, e isso só pode parecer injusto para os que se dão conta de que acabaram por se entreter com um falso amor. E mesmo assim os errantes do amor podem tomar a seu favor a semelhança que há entre um e outro. E contarão sempre com a nossa compreensão. Não há nenhuma praça que se ria, que zombe deles e isso porque em todas as praças das nossas cidades há homens e mulheres apaixonados que sabem o quanto é improvável o verdadeiro amor. O que o distingue não são as palavras ditas ou proferidas, os gestos e suspiros da carne a exaltar-se, mas o bálsamo que é para o espírito, confrontar-se uma alma com a revelação da verdade do seu amor. Epifania que pode surgir das formas mais inusitadas. Há pouco percebi que ela era o meu amor mais verdadeiro quando interrompi o que estava a fazer no computador para colocar aqui um charleston para ela poder ensaiar uma dança para uma festa de um grupo de teatro de uma comunidade inglesa a que está ligada. Entretanto o pequeno filme do you tube chegou ao fim e ela continuou a marcar o charleston trauteando um ritmo. Fiquei embevecido a olhar para ela, para os seus gestos, tão ingénuos, tão delicados, tão compenetrados. Há muito que me entrego ao prazer único de ser um espectador privilegiado da sua expressão de mundo.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Foi você que falou em agenda oculta?

Mais uma achega para a história conturbada do jornalismo nacional: http://simplex.blogs.sapo.pt/296326.html. Joaquim Vieira, o provedor do Público, critica duramente o trabalho realizado pelo jornal e levanta uma suspeição que fere.

O Presidente de alguns portugueses

Cavaco Silva deverá ser o primeiro presidente da república eleito após o 25 de Abril, a não ser reeleito para um segundo mandato. Não escondo nem o meu contentamento com esse facto, nem a surpresa pela determinação de Cavaco Silva, e do seu staff, em conseguir esse palmarés.

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

O Homem Livre

O Homem Livre, de Filipe Verde, ao qual chego através do José Flávio. Vou depois dar à entrevista que lhe fez Gustavo Rubim, e onde se entrevê o brilhantismo do pensamento do seu autor, por quem tenho uma simpatia verdadeiramente invulgar face ao pouco tempo de convívio que até agora tivémos. Deixo aqui um naco:
"Chama à filosofia de vida dos Bororo "naturalismo ético". Para eles não há moral sem compreensão da natureza e do lugar dos humanos na natureza? Ou basta dizer que no pensamento Bororo aquilo a que chamamos "moral" não existe?
Não quero resumir o que se condensa na ideia de "naturalismo ético", nem é esse o propósito da pergunta, suponho. Há que ler o livro para ter uma visão da coisa. Mas no essencial trata-se do seguinte: um corpo de ideias sobre o homem e a acção pela qual o conformar dos comportamentos às necessidades da vida social (a renúncia à mera lei do desejo e da violência) é concebido não como o resultado de uma aprendizagem cultural ou de submissão a uma coerção social, mas como expressão e manifestação de propriedades centrais da natureza e dos processos vitais (natureza que é a mesma para homens, jaguares e aranhas). Nesse sentido, a compreensão da natureza é aquilo a que nós chamamos "moral". Uma moral que está presente, e como!, de uma forma que permite conciliar o inconciliável: enorme liberdade individual com uma ordem e paz social que roça a nossa ideia de utopia, mas uma moral que nunca se formula como tal. É uma moral do mesmo tipo que encontramos na Grécia de Homero, antes de Sócrates e Platão a terem tornado uma coisa prescritiva, e de a moral se ter casado com a religião e com a filosofia, que a ergueram contra a natureza e nos tornaram muito inautênticos, cada vez menos livres. E muito neuróticos. "

Domingo, Setembro 13, 2009

Estou preocupado

Tenho pena de há muito estar inclinado para votar em José Sócrates. Gostava de ter visto este debate pelos olhos deslavados de intencionalidade política. Sou daqueles que temem verdadeiramente o regresso de Manuela Ferreira Leite ao poder. E por isso queria tentar perceber se Manuela Ferreira Leite também me pareceria tão falsa, tão arrogante, tão de mau-gosto, tão impreparada, tão economista provinciana, se em vez desta inclinação política eu estivesse nutrido por um verdadeiro ódio a Sócrates. Ainda ontem Belmiro Azevedo na RTP (em plena asfixia democrática)dava conta desse rancor. Tenho uma sincera pena de conseguir olhar os grandes falhanços deste governo e mesmo assim pensar que ele merece um segundo mandato. Agora queria perceber até onde pode levar o ódio a José Sócrates. Parece-me quee ele vai causar muita mossa nas eleições legislativas. E tenho um pavor pelas consequências que a mentira eleitoralista (lembro-me do vencimento político que teve a do "país de tanga") poderá vir a ter. Porque o ódio é também o coma da razão.

Rasganço

Aqui, esta pérola.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

A minha ausência tem mais uma razão: estou, de alma, coração com a Figuração Especial.

Declaração

Para que conste: não estou cansado de respirar o mesmo ar. Trata-se apenas de um confronto entre um excesso de realidade ( mais do que de realismo) que sempre as férias trazem. Ainda não há fins de tarde virtuais que se comparem àquele manso despedir-se do dia em 4 Águas ou na Praia Grande, ao contraste de um banho frio nas águas do mar, a um rodízio de peixe no Vela 2, a um mergulho na piscina ou a um darmos-nos conta, repentinamente, como uma brisa fresca que interrompe o ar quente, de como amamos quem está ao nosso lado na vida e de como esse amor carece de gestos, de olhares, de carne, de moleza, de denguice, de conversa. Ainda tentei: comprei todos os dias os jornais e acompanhei assim o caso da TVi. As sequelas da campanha, em qualquer um deles, Portas, Louçã, Sócrates, Ferreira Leite, a quem, por mais que mantenhamos a nossa lealdade política no dia 27, apetece em demasiados momentos - como sugere um cartaz de produtividade política mais que duvidosa - mandar, com bilhete de ida e volta logo se vê, em excursão de turismo popular para a Conchichina. Apetecia-me também falar da asfixia democrática mas como, se nem aqui tenho fôlego para alimentar os que aqui vêm na ilusão de um pouco de ar, de uma sombra fresca. Poderia dizer-vos, em jeito de sms, "embriagai-vos sem cessar, para que não sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.” Ou de amor, de sexo, noites de verão, serões com amigos. Se este sítio ainda tem visitantes, esta é uma explicação que merecem, pela teimosia. Voltarei, renovado, feliz, com tempo.