quinta-feira, julho 31, 2003

prioritário...

...a manhã de notí­cias na SIC subiu ao Porto: a feira começa com dois homens um pouco maiores do que dois anões a sairem de um carro muito grande, secundados por dois assessores, muito eléctricos, ou não fosse um macho, o outro, fêmea. Não é isso que os distingue. À primeira vista parece que foram escolhidos por causa do tamanho. para não desporporcionarem os seus respectivos chefes. O carro é que não. nem o motorista. o que o obriga a uma permanente vénia que, alongando a curvatura do pescoço, lhe diminui, momentaneamente o tamanho. depois, porque o circo não tem só feras e animais amestrados, ouve-se o jornalista a anunciar o importante da agenda deste conselho de ministros. não é muito claro mas percebe-se: " ...estes projectos visam também apoiar o sector da construção civil, área vital e prioritá¡ria para o desenvolvimento do país...".

quarta-feira, julho 30, 2003

Abruptamente...

o abrupto foi assaltado por um outro, Pacheco Pereira. e eu, sem vergonha, saltei o muro, caí em Rendimento Máximo Garantido. Não é que P.P. não tenha razões, que todos nós conhecemos, para afirmar o que afirma. É só que, para mim, o mundo de Rendimento Máximo Garantido é muito mais justo.

memória inventada...

Concedo-me uns tantos minutos de zapping. Chego a este post de Memória Inventada, e de repente há uma palavra mágica, em mim, claro, que me desperta deste sono: Olivais. Sigo o texto, com curiosidade. E tenho a estranha sensação de estar ali a ver o Afonso a jogar. E é verdade, está a chover. Abrigo-me debaixo da árvore e neste percurso inventado da memória sigo para os Viveiros, para as aulas. Quando chego lá, encostado ao parapeito, o Afonso não está só. Está com o Facadas e o Toninho, ambos da Vila Catió. Têm o jornal A Bola aberto, devoram tudo. E discutem, falam sobre as notícias, preenchendo assim as tardes. "MetaBolismo" em exercício, pousam o jornal e atiram-se ao "esférico" redondo. Metabolismo é a palavra estranhamente exacta para definir este exercício decantatório a que os dois se entregavam ao ler o jornal "A Bola". Anos mais tarde hei-de encontrá-los não a ler, mas a escrever nesse mesmo jornal. Imagem a que me socorri muitas vezes para melhor compreender Roland Bhartes quando ele dizia : " ler é escrever". [ fecho os olhos para dentro, abro-os para fora. esta viagem aos Olivais poderia bem ser infindável, lembro-me que...]

Adormeceu como se fosse uma pedra...

[ Cruzes, Canhoto, depois de andar a chás e caldos de galinha, felizmente já voltou. A propósito do meu texto sobre posts narrou um episódio sobre a comunicação com um banco vazio. E foi bom ouvi-lo, claro. É sempre bom ouvir quem aceita esse preenchimento dos bancos quando eles se esvaziam. E nenhuma ideia de homem substitui com exacta propriedade, a presença do homem. A ser assim o teatro por exemplo, não teria tanto sentido hoje. Mas também é verdade que não podemos aceitar que os bancos se esvaziem sem lhe contrapormos o preenchimento possível. Pode ser até que o homem já tenha desaparecido sobre a terra, ou sobre esta esteja em vias de extinção e que o que ainda subsista, seja uma ideia de homem. Não sei. Lembrei-me também desta história muito antiga de um amigo que, há muito tempo, compartilhou um quarto num hospício, com um doente que tinha toda a sua família dentro de uma pequena caixinha de fósforos.] "Serafim E a tua mãe, Besouro? Acreditou em ti? Besouro Acreditou. Virou-se para o lado e adormeceu como se fosse uma pedra. Parecia um bebé. Serafim Um bebé, Besouro? Besouro (anuindo com a cabeça) Desde que morreu ela ficou muito diferente. Aceita melhor as coisas, é muito mais fácil falar com ela...a morte fez-lhe bem... Serafim A morte torna-nos sensatos... Besouro Eu no outro dia disse-lhe isso. Serafim Disseste-lhe? E ela? Besouro Ela também se sente outra mulher desde que morreu. Disse-me que só agora é que reparara que eu sempre chamara por ela. Só que quanto estava viva, ficava lá entretida com as suas coisas, não me ligava.. "

terça-feira, julho 29, 2003

O lugar do outro...

quem se deu ao prazer de visitar o Dicionário do Diabo e o Outro, Eu, nestes últimos dias, assistiu a uma polémica sobre o esquerdismo da TSF, que afinal de contas até parecia despropositada. De facto P.M. não tinha feito mais do que explicar porque é que era adepto da TSF, deixando apenas escapar um pequeno acto de contrição sobre o facto de esta rádio de ser incrivelmente esquerdista. CVM acusou o toque e respondeu. Tudo teria ficado por aqui se P.M. tivesse compreendido a dimensão do que tinha dito e de como isso tinha assumido uma forma que andava ali a raiar o insulto. A coisa até já está encaminhada, com Pedro Mexia a andar de Hi-Fones pela rua a ouvir Pessoal e Transmissível, e com Carlos Vaz Marques a recitar poemas de Pedro Mexia, mas, para quem tem de respirar o mesmo ar, subsiste uma questão, que aliás provoca o meu post anterior, que é esta incapacidade que muitos julgam endógena mas não é, é cultural, de reconhecermos o lugar do outro. [Se não fosse tão tarde, não tivesse de andar a correr entre este blog e o metablogue e ainda por cima não tivesse de reformular o site de escrita teatral fazia um novo blog, inteiramente dedicado ao "reconhecimento do outro".] 1. Dizer que insurgir-se contra a definição da TSF como uma rádio incrivelmente esquerdista seria tão absurdo como se Pedro Mexia pegasse em armas por acusarem o Independente de ser de direita, revela desde logo que Pedro Mexia, embora escreva em jornais, fale em rádios, não compreende o que é um jornalista. Principalmente jornalistas que reputa de sérios e imparciais. 2. Também o Outro, Eu, mostra não compreender totalmente que uma rádio não é só o que quem a faz produz, é também o modo como quem escuta o que ela produz, constrói dela um entendimento. E, por mais que Pedro Mexia tivesse sido desastrado a escrever o seu acto de contrição por ter de ouvir uma rádio incrivelmente esquerdista, o que é facto é que o mundo fica mais colorido por ele exprimir que sente - ainda para mais no seu blogue, caramba- que a rádio a quem confia o seu mundo é incrivelmente esquerdista. Se nos rimos dele, já é outra questão. [espero não me ter metido em seara alheia. mas respirar o mesmo ar, assume, sem com isso se tornar esquerdista, trotskista, leninista ou evangelista, o seu maior empenho nesse grande trabalho interior do reconhecimento do outro.]

segunda-feira, julho 28, 2003

Fora de cena quem não é de cena...

Diz a TSF: Adelino Granja garantiu que, do que conhece de Mestre Américo, não acredita que este fosse capaz de abusar sexualmente de uma antiga aluna da Casa Pia. «Já lhe deixei uma mensagem. Estou surpreendido. Espero falar o mais brevemente possível com ele. Sou amigo dele, fui aluno dele e, agora, há que tomar as providências necessárias para que se acautele a sua defesa», disse. Adelino Granja considerou estranho o facto de só agora ter surgido a denúncia relativa à alegada prática de abuso sexual por parte do Mestre Américo. "Acho estranho que só agora surja uma denúncia deste nível. Desde 1975 que o Mestre Américo sempre procurou combater, dentro da Casa Pia, o abuso sexual, tanto de rapazes como de raparigas», concluiu Adelino Granja. [não é o que ele disse agora, ele disse apenas o que qualquer pessoa que apresenta a convicção que ele apresenta diria, mas pelo que ele disse antes, quando outros, com a mesma convicção que ele agora alardeia, disseram o mesmo de outros envolvidos neste escândalo. "O temos de confiar na justiça", o "ninguém pensa nas crianças violadas e maltratadas", o "não compreendo esta pressão sobre a justiça", afinal eram de uma pessoa que se mostrava incapaz de se colocar no lugar do outro, a menos que o outro seja ele mesmo. Fora de cena quem não é de cena...]

verdade e politica

Hanna Arendt, em Verdade e Política: “...enquanto se pode ir até recusar a pergunta de se a vida inteira valeria a pena ser vivida num mundo privado de noções como a justiça e a liberdade, o mesmo, estranhamente, não é possível relativamente à ideia, na aparência muito menos política, de verdade. O que está em causa é a sobrevivência, a perseverança na existência, e nenhum mundo humano destinado a durar mais tempo que a breve vida dos mortais nele, poderá alguma vez sobreviver sem homens que queiram fazer o que Heródoto foi o primeiro a empreender conscientemente."

pois...

escreves posts muito compridos, disseste. nem todos, respondi eu. e calei-me, como diz o abrupto, isto é um blog, não é um buldogue...grrrr......

a arder em remorso...

acabei de descobrir o blog das mães e dos pais também. antes do pedro nascer, prometi a mim mesmo o meu diário de pai. já se passaram mais de mil dias e só ainda consegui escrever com a pele, com os cheiros, com o toque, com o riso e o movimento.

a internacionalização do teatro...

venho com o Teatro Mínimo do FIAR, em Palmela. falamos do convite para "Oé, Oé, Oé" se deslocar ao festival de Teatro do Mindelo, em Cabo Verde. um mal estar evidente. O Festival não tem dinheiro para as viagens da Companhia. E a Companhia também já recebeu todas as negas que é possível obter. Todas ou quase todas, porque provavelmente ainda é possível requisitar os bons ofícios de algum amanuense de algum oficial instituto ou serviço para carimbar as três letrinhas da palavra "NÃO", conforme a conjugação que calhar: não há verbas; não há ideias; não há conhecimento. Não há oportunidade. Qualquer coisa se há-de arranjar. A arte dos amanuenses é essa. [É por isso que muitos de nós preferem o silêncio oficial. É dificil respirar o mesmo ar quando a incompetência e a incapacidade atávica dos nossos primeiros oficiais se juntam para tocar concertina e dançar o solidó.] E o grupo são apenas três actores e dois técnicos. Cento e sessenta contos cada viagem. Oitocentos contos. Faz-se as contas para sacrificar um técnico. É a filosofia mínima. Que, para falar verdade, nem é propriedade do Mínimo. Ficam a faltar seiscentos e quarenta contos. "E se tirássemos o outro técnico? Eles lá não arranjam um? ", sugiro. Os meus companheiros do Teatro Mínimo olham-me como se de repente dessem conta que têm andado a "dormir com o inimigo" . Mandavam o plano de luzes e som antecipadamente, talvez arranjassem um técnico...Assim só faltavam quatrocentos e oitenta contos...". Ainda arranjo coragem para propôr soluções ainda mais draconianas. Que mandem o texto e que os organizadores tentem arranjar três actores no Mindelo. Ou que mandassem uma gravação. "Oé, Oé, Oé" em versão radiofónica. Era bom para todos. O Festival ficava todo contente por ter uma Companhia de Teatro Profissional de Portugal no seu programa. Portugal também daria graças por ter uma sua Companhia de Teatro a representá-la. E a Companhia propriamente dita, podia justamente colocar no seu curriculum mais uma internacionalização, o que dá sempre jeito. Felizmente de Palmela a Lisboa é um pulinho. Mal acabo de dizer isto ouço um arrastar violento dos travões de um carro. Primeiro, apercebo-me que é o carro do José Boavida. Depois que é aquele em que também estou. José Boavida sai, abre a porta do carro do meu lado e começa a fazer aquelas caretas que lhe ensinaram a fazer nos Malucos do Riso. O Pedro Alpiarça ri-se, mais lúcido e satisfeito, está vingado. Coitado do Vicente Morais. Olha-me com cara grave, ele leva isto muito a peito. Ainda me quer emprestar um casaco, mas eu orgulhoso, não aceito. Tiro um cigarro, e enquanto me faço à Ponte Vasco da Gama começo logo ali a alinhavar um post sobre a internacionalização do nosso teatro. [ não sei porquê, se do frio, se do vento, se do facto de estar na ponte de um dos nossos maiores icones das descobertas, ou talvez tão somente porque "Oé, Oé, Oé", na versão portuguesa que deste texto realizou o Teatro Mínimo relata as aventuras de três afficionados da nossa selecção que vão a Sevilha, lembro-me da grande representação par(a)lamentar que esteve nesta cidade espanhola. E fico contente, ainda há esperança. .] Então cá vai finalmente o post sobre a internacionalização do nosso teatro: O problema da internacionalização do nosso teatro não tem a ver com a internacionalização. É mesmo só um problema do nosso teatro.

a face oculta da cultura e da arte...

desço a encosta do castelo de palmela onde o Bando celebrou Pino de Verão ( é o termo, as representações do Bando aproximam-se cada vez mais da liturgia, uma liturgia popular, ritual de comunhão que devolve ao teatro a conjugação da partilha com a espectacularidade, a ocupação do olhar), segurando na mão a monografia sobre os vinte e cinco anos do Bando. comprei-a porque sim, porque a compraria sempre. mas também porque não, porque não existe outra forma de garantir a memória, de salvaguardar o traço a grosso que a experiência colectiva de tantos imprimiu na experiência teatral dos últimos vinte e cinco anos. acredito que para muitos isso não seja relevante. mas para mim é. a voz autorizada do grupo falando de si, construíndo o registo que auxiliará a história do teatro a poder incluir no seu discurso esta teimosia e resistência de projecto, não deveria ser o único elemento que eu, enquanto cidadão tenho disponí­vel. o Bando cumpriu o seu dever. e quem diz o Bando diz a Comuna. a Cornucópia (os que agora, de memória, me ocorrem, entre outros que apresentam monografias sobre os seus percursos). mas há alguém que a esse mesmo dever se furtou. se furta. e eu não compreendo isso. independentemente da orientação de natureza polí­tica que cada um de nós imprime ao seu trabalho de reconstituição do passado, todos nós temos por adquirido que só uma cultura que perserva os materiais que o reconstituem, pode ambicionar a sua persistência, a sua sobrevivência, e, mais do que isso, a sua existência. não se trata só de teatro, decerto, mas se cada um falar das realidades que melhor conhece, talvez o puzzle se complete. nem se trata de uma peleja polí­tica porque está provado à saciedade que quase toda a governação cultural, à esquerda e à  direita, tem dado pouca importância a este aspecto. [exceptuo apenas manuel maria carrilho, mas em relação a esse há que lembrar que foi, por parte do próprio partido que sustentava o governo que integrou, um dos mais mal amados governantes, o que quer dizer muito sobre a identificação que os socialistas fizeram com a sua politica cultural) Algumas iniciativas têm sido feitas. Água mole em pedra dura, vitor pavão dos santos conseguiu arrancar a ferros a existência do museu do teatro. mas nem ele nem agora josé carlos alvarez conseguem o que ainda parece ser tarefa impossí­vel: fazer atribuir a este projecto os meios e os recursos necessários à missão de quem se propôs intervir numa das áreas mais neglicenciadas da acção pública no domínio da cultura e. específicamente, do teatro português. Também o Observatório das Actividades Culturais. Que adiciona uma componente prospectiva a um trabalho analítico que implica a constituição de um "corpus" consistente e fidedigno sobre as múltiplas vertentes do trabalho cultural, e também, necessariamente, do teatro. Também ele carece de meios e recursos para fazer recuperar a actividade cultural do atraso a que sempre esteve sujeita. Enquanto a memória e a investigação e reflexão - que são transversais às diferentes concepções de Estado e de Sociedade inerentes aos diversos projectos políticoss que têm governado Portugal - não merecerem uma atenção continua, mesmo que com modelações de orientação decorrentes das ciclícas alterações polítcas, é dificil assumir que a recorrência da dramatização do tema do subsí­dio, não seja um muito conveniente véu que esconde a real incompetência/incapacidade pública de formular claramente a sua missão no campo do desenvolvimento da actividade teatral.

domingo, julho 27, 2003

No outro dia escrevi aqui que

este blog não é para ser escrito, é para ser lido. aliás, o que escrevi antes tinha sido, "os blogs não são para serem lidos, sim para serem escritos". mas reformulei, as palavras, as minhas também, inadvertidamente podem deixar cair um sanha modeladora que nem mesmo inadvertidamente, principalmente as minhas, devem ter. [ na altura o Cruzes Canhoto, respondendo a um convite meu, veio até cá e mandou-me um email de boas vindas, dizendo que não sabia se era bem assim, que ia pensar melhor. eu não me apetecia entrar em polémica, até porque não tinha por onde, partilho simultaneamente do seu ponto de vista, mas prometi a mim mesmo voltar ao assunto. o que hoje aconteceu.] 1. tenho quarenta anos (mais um, mas não precisamos de ser assim tão picuinhas). não sabendo medir em porcentos o existir sei no entanto que grande parte da minha vida foi feita no reconhecimento da necessidade de comunicar. na comunicação aplicada. no palco. na rua, nas casas, nos bairros. na sala de aulas. nos jornais. na escrita dramática. nas outras escritas. em encontros. ou desencontros.... na criação de sites ou páginas web. até em experiências televisivas ou radiofónicas. nos estudos academicos. 2. não tenho volta a dar-lhe, faz parte de mim. nem que corra o risco da tagarelice, lutarei sempre, contra aquele silêncio queimado nas pontas. 3. diz-me, é o meu username, o meu minimo modo de ser, tão concreto e defenível quanto a impressão digital que trago nos dedos. comunicar, nicar em comum a vida, é uma das minhas primeiras frases feitas. abnomino as zonas de trânsito proibido na e entre a linguagem. tudo pode e deve ser proferido. [é certo que eu sempre tive uma razão especial para abjurar violentamente o segredo. o não dito. tinha coabitado mais de duas dezenas de anos com um, mediando a minha relação com o meu pai.] 4. por mais que o resultado da aventura de alguns de nós – e eu estarei quase sempre neste grupo - no território da expressão seja a extensão, a verdade é que a condição que a realiza é a tensão. assim sendo, a minha inscrição no terreno da comunicação, não pode ambicionar relatar mais do que uma intenção. 5. é que, por vezes, um extensivo rol de palavras sobre a folha de papel, parece ter-nos o condão de fazer-nos esquecer que antes desta usurpação, deste prolixo preenchimento, a folha se quedou em branco. e que essa condição em branco, permanece encrustada na folha usurpada ou se quisermos, preenchida. [ na idade da minha infância, em Mafra - e os lugares de onde viemos são, na nova galáxia onde chegámos, lugares em extinção – tinha um clube de detectives inspirados nas várias sagas de Enid Blyton, que usavam uma escrita com sumo de limão, que, depois de passar pelo ferver do ferro, denunciava a escrita que habitava na folha em branco. eu sei, éramos crianças, mas já nessa altura sabíamos com clareza que a folha e a escrita eram duas realidades diversas, coabitantes] 6. o que eu quero dizer é que no escrever está incrustado o gesto de não escrever. De não usurpar a folha, ou, se não quisermos levar o romantismo tão a peito, de a preencher. De a ocupar. E aí, libertámo-nos do romantismo mas temos de confrontar-nos com a condição política, a reacender a discussão sobre a natureza do gesto que habita a folha. [o fazer em teatro conhece bem esta realização em tensão. o vazio do palco resiste mais facilmente à ideia de ocupação do que uma folha em branco, que, até podemos dobrar e meter no bolso. rasgar. amachucar.] 7. Exprimirmo-nos e Comunicar-mos não são, para mim, exactamente a mesma coisa. Não posso exprimir-me sem comunicar. Nem comunicar sem me exprimir, decerto. Mas tudo depende do acento. Ou da acentuação. [ sempre me deliciei com esta ideia de que o acento tonifica um determinado sentido da palavra, levando-a por aqui ou acoli, conforme a nossa orientação acentuadora] Quando comunicamos, procuramos o menor denominador comum do entendimento. Quando nos exprimimos, assumimos a possibilidade do incomum, do maior denominador do desentendimento, vulgo modo, a solidão. E não é somente a solidão de não estares aqui quanto te olho ou de ti preciso. Haveria sempre mil formas imaginárias de te trazer à minha presença. Falamos da solidão sem freio, a que assume o risco de, na sua incessante procura identitária, se ausentar do próprio labirinto do eu que a promove. [Por falar nesta ausência. Dizia-me no outro dia alguém que se um tipo assumir a interrogação até às últimas consequências está a comprar uma rifa para o sorteio da loucura. Talvez. Esse é o medo que nos assalta. Mas também respondi ao outro, na folha de rastreio do guichet do hospício há uma lista de talvezes e alguéns que estão ali exactamente por isso, por não terem levado a interrogação até às últimas consequências. O medo da loucura também pode levar ao enlouquecimento] 8. Quando avançamos pelo território da comunicação, corremos o risco, não suficientemente calculado, de que, de denominador comum em denominador comum, atinjamos o ponto zero da linguagem. Pensamos muitas vezes que o ponto zero da linguagem é o sítio onde nada dizemos. Mas não é. O ponto zero da linguagem é o local onde os enunciados perdem a sua dimensão ética e, numa concubinagem exaltada, se libertam da referencialidade . O que, quer dizer, da cartografia. Da localização. Enunciados de ninguém, de nenhures, de todos, em todos os lugares. 9.Quando desbravamos os campos rudes da expressão, da expressão que tensiona a nossa existência, arriscamo-nos a perder-nos no labirinto do devir identitário, risco muitas vezes sobreavaliado pelo facto de percorrermos esse caminho pelas ruas esconsas e mal iluminadas de uma solidão forçada. [Há luz na sala lá ao fundo, a minha mulher e o meu filho estão sentados no sofá, brincam, e eu aqui, escrevo, ela diz que aquilo a que eu chamo escritório é um lugar no de lá daquilo a que, comummente, chamamos nossa casa. Onde não se aplica a máxima da comunicação,” a tua casa fica à mesma distância da tua que a minha da tua”. Daqui à sala são cinco passos curtos, à distância de um olhar, fio de linha que une três continentes anões, mas da sala aqui é são uns tantos milhares de anos-escuridão.] Mas um dia encontramo-nos no de lá da linguagem, da loucura, da viagem. Alguém nos trouxe ao território denso da partilha, da festa que nisto houver, através da mão delicada e domesticável de um livro, de um palco, de uma tela...de um blog. [E a linguagem do mundo nesse instante adiciona-se com o colorido do local, da referência. Eu estive em Artaud, e trouxe esta frase, vês? Olha, eu e a Esmeralda nestas férias fomos a Gaughin, fica tão bem neste cantinho da sala, não fica?] 10. Na acentuação entre expressão e comunicação, há um diferendo que, no mundo em que vivemos, assume uma dimensão ética. [Eu disse, diferendo. Não escrevi fronteira. Nem falei de ghetos. Mas já que falas disso, também te digo que criticamos mais facilmente a tralha umbiguista de um texto do que o lixo comunicacional gerado por todos aqueles que querem ser comunicação. Aqui não há apenas uma dimensão ética. Há também uma posição política. Escondida com o rabo de fora ou assumida. Uma posição política. Lembro-me de ouvir o João Mota dizer, naquela sala de trabalho da Comuna onde em 1981 adicionei alguma argamassa e uns tijolos decisivos à minha arquitectura de gente, “ O ético precede o estético”. E o político, acrescento agora.] 11. Há uma dimensão utópica da Blogosfera que me interessa explorar. Quando escrevi que criticamos mais facilmente a tralha umbigista do que o lixo comunicacional, estava, na minha cabeça, a isentar a Blogosfera desta atitude. Atribuindo-lhe um estatuto especial. Este: independentemente de nos ser difícil deixar de replicar uma atitude receptiva com que costumamos decifrar a realidade a que, com muito custo e quase nenhum sustento e proveito, vamos chamando real, o que é facto é que esta dupla condição de editores/receptores, nos coloca num plano de uma maior delicadeza e simpatia com a expressão de cada um. E isso é ocasião para nos surpreendermos muitas vezes por encontrarmos uma maior produção de empatia, de troca comunicacional em lugares que recusam veementemente atribuir-nos um estatuto de destinatários dos enunciados ali produzidos. E o contrário. 12. Há uma dimensão tecnológica que não pode ser esquecida. O meu suporte de comunicação dá primazia ao post. Ao escrito. Claro que me permite o “view blog”. O lido. Estou-lhe reconhecido por isso mas o obrigar-me a sair do momento em que escrevo para ler é uma mensagem tecnológica que escuto atentamente. O contrário se passa com a Blogosfera, como acentuou no outro dia um Reflexo de Azul, propondo que o verdadeiro blog permitiria a escrita do leitor. Aí tudo esta dimensionado para a leitura. A interactividade possível obriga-me a sair do Blog. A blogosfera suportanto a escrita, é para ser lida. 13. Este movimento de vaivém entre a expressão e a comunicação, é refrescante, mesmo para alguém que se assume um comunicador. "Chegou a hora de ir cada um à casa de cada um...", escreveu Raul de Carvalho em "um e o mesmo livro". A Blogosfera responde ao apelo do poeta, dando-nos essa possibilidade. A comunicação segue dentro de momentos. Talvez alguém possa passar por aqui e assinalar que foi com este instante de não comunicação que sentiu a sua maior empatia. Ficarei-lhe eternamente grato por isso mas continuarei, sempre que escrevo aqui a gritar para o inconsciente do meu gesto escrevente: "Desande. Xô! Um blog não é para ser lido, é para ser escrito". [ está decifrado o meu anterior blog em que parecia ter uma atitude provocatória com o leitor que por aqui passasse. era com o leitor que tenho dentro de mim que eu falava. o que me permitiu a intimidade no trato] 14. Daí que seja tão natural para mim reconhecer que este blog não é para ser lido, é para ser escrito, sem pressupor daí que a minha existência no Ciber Espaço, ou mesmo na Blogosfera, esteja condicionada por este facto. Sem dúvida que não penso o mesmo de Metablogue ou até do Livro em Branco. Ou do site da Escrita Teatral. Este é o lugar onde...

sábado, julho 26, 2003

Hoje no FIAR...

Como aqui ao lado, avisa Campo de Afectos, Giroflé, pelo Circolando...

Ontem no FIAR...

em Palmela. O outro lado da existência para além dos Blogs, o arranque do Festival Internacional de Artes de Rua...organização do Bando e da Câmara de Palmela. A primeira acção tem uma carga simbólica. Precorrer os vários espaços onde será apresentado o FIAR, sendo que em cada um deles o artista iria colocar um determinado material hasteado em forma de estandarte...pretexto excelente para ficarmos a conhecer os locais do Festival mas não só. Também para que pudessemos averiguar dos lugares reais antes que sobre eles ecludam os diferentes gestos expressivos...para que, pudéssemos partilhar um movimento, a procissão, que está lá, na nossa memória mas que provavelmente, está, em tempo de reformulação do conceito de mobilidade, em extinção. Também da cultura de um povo em cujas práticas é frequente este salto para o lado de lá das casas. A procissão, que de repente, enquanto ideia, surge dinamizada por uma marca referencial onde coabita o gesto religioso, que tem muito de reiteração do calvário, e o gesto político, na sua dimensão mais inconformista, da revolta, da rebelião, da revolução, da emergência da rua enquanto lugar de poder. [lembrei-me agora, não vem a propósito do texto, de um poema de Herberto Hélder que se me desata na língua e corre do palato aos caninos, saboroso. "Falemos de casas..." é assim que o poema começa a predizer...] Não tenho a nostalgia dos lugares, senão daqueles que não vivi, ou vivendo, antes não tivesse vivido. Mas ao percorrer, com aquele magote de artistas e populares os lugares de revelação deste FIAR, senti a dor do mutante. Ainda não com chips no lugar dos olhos e do pensamento, mas a caminho. Como se o reconhecimento intelectual que fazia daquele movimento de um lado para o outro, fosse também, em mim, a denegação da emotividade da festa, do encontro, desta coisa muito telúrica de sermos uma nova realidade quando nos plasmamos no Outro. [ morreu algo em mim que eu não matei. pelo menos no sentido escrupuloso, consciente, desse delito.]

sexta-feira, julho 25, 2003

A correr para o FIAR, lembrei-me do Manuel João Gomes...

Nesta pressa de arranjar as últimas coisas que faltam para ir ter com os meus companheiros do Teatro Mínimo, vamos à inauguração do FIAR, uma daquelas associações de ideias que levam muito tempo a explicar, mas que se resume à falta que ele faz ao teatro, lembrei-me do Manuel João Gomes. É um momento breve de paragem que de repente se distende no tempo e se espraia por cerca de vinte anos da minha relação com o teatro. E em quanto me puder lembrar, lembrar-me-ei.

obras em casa...

Post escrito em dois momentos: 1º momento: hoje decidi a mudar o aspecto aqui do lugar. enquanto a pintura não arrefece nas paredes, há problemas. os acentos, etc. nem tudo está perdido: nos arquivos, tudo está como era dantes. saudosismos... 2ºmomento: a situação mudou-se entretanto. este não é o espaço que estava a preparar. mas sabe bem. como quando temos obras em casa e vamos um dia de estendal montado para casa de amigos ou familiares. se entretanto alguém me souber ajudar com aquele problemazinha dos assentos, obrigadinhos e desculpem qualquer coisinha. 3. com todas estas coisas nem falei do metablogue. uma aventura em que me meti e consegui envolver o Socio[B]logue. Que nasceu deppois de um email simpático que me mandou o Cruzescanhoto, o meu Blog de referência aqui na net. É de lá que parto e a lá que chego quando me lanço à descoberta da blogosfera. um dia vou refazer uma dessas viagens, aqui.

quinta-feira, julho 24, 2003

a mente, esse universo dentro de nós...

Ando meio perdida, confessaste. Tentei passar ao lado, louvei-te a vida boa. Vida boa?! A minha mãe tem Alzheimer há dois anos... [ Porra, esqueci-me! O raio dos Blogs, das prisões preventivas, do teatro, o meu universo de dores próprias e específicas, esqueci-me. Esqueci-me. Nem dá para o chiste com que costumo brincar com estas falhas de esquecimento. Agora não dá.] está a viver contigo? não, está lá em casa, no Gerês...com o meu pai...já não o reconhece....nem a mim...felizmente não tenho irmãos...sempre os quis ter, achava que uma casa com muita gente era abençoada, mas agora não...ainda bem que não... mas nem te reconhece? tu não sabes o que é a doença de alzheimer?! [não sei mesmo. nem me vou desculpar com o tempo que gasto a escrever os meus textos, blogs, sites...não sei mesmo. a seguir a estudar o código penal sobre as prisões preventivas e escutas, vou atirar-me à enciclopédia de saúde...ou perguntar ao médico explica...] eu já nem peço que ela consiga lembrar-se de mim...só queria que ela não destruisse a casa, que aprendesse a urinar no bacio...qua deixasse o meu pai um pouco menos dolorido... não consigo perceber o que o se está a passar contigo...lembro-me que com a morte do meu pai senti que o mundo tinha desabado mas isso...não consigo, Ana. [Deixei-te ir, rapariga forte, minhota dos sete costados, a minha solidariedade contigo fica um degrau abaixo do que é possível fazer...é tremendo o fim da memória...é tremendo...as coisas que desaparecem...talvez um novo objecto em via de extinção Abrupta...

alvo 21379

Vou dizer isto uma e somente uma vez. Há aqui qualquer coisa de politicamente monstruoso. Não aferindo de razões jurídicas, há aqui qualquer coisa de politicamente monstruoso. Quem persistir nesta fórmula de que "à política o que é da política, aos tribunais o que é dos tribunais", não reconhece que o que está em causa não é mais do que aquilo que a política conferiu como sede de poder-fazer aos tribunais. E é isso que nós, cidadãos como outros quaisquer queremos, que seja urgentemente discutido. Por que em tempo tal não foi devidamente discutido, acautelado, salvaguardado pelo poder político. O que se passa é que o lider do maior partido politico português da oposição está cerceado na sua capacidade de liderar o maior partido político português da oposição. Quem não souber responder a isto politicamente, a despeito de uma cesariana sentença, tem da democracia uma concepção abortiva e não tem capacidade para estar na política a representar-nos, devendo ocupar o seu justo lugar neste lado da bancada, do sofá, do blog. Fim de citação.

Os olhos dela...

Disseste, estou cansada. Tenho os olhos cansados. Comecei a usar óculos. Entro aqui na agência de manhã, saio há noite. Noite cerrada, aquela noite baça, sem nada. Apetece-me ser gente outra vez. E a tua voz... A tua voz também está cansada, sumida, acrescentei. Achas?- respondeste, pedindo o contraditório. Encolhi os ombros e abanei afirmativamente a cabeça. [ Lá fora os carros a subirem e a descerem a Luciano Cordeiro. Cansados, exaustos. Escusas de arranjar uma epopeia nisto, não consegues, disse, de mim para mim. Nada há aqui de heróico. Nem de poético. Há de humano, claro. Tudo isto é demasiado humano.] A propósito do humano...começei a escrever num blog. - disse. Um blog? Aqui na agência está tudo maluco com isso...Passam horas agarradas ao êcran... [Contei-te do Blog do Bragança de Miranda. Já não te lembravas dele, no terceiro ano tinhas ido para publicidade, tinhas feito a cadeira dele a correr, já tinhas um lugar na Agência. Mas ouvias-nos a falar dele com garra e admiração, quiseste saber o nome do blog. Falei-te do post dele sobre a Liberdade. Rimo-nos, era verdade.] As pessoas já não têm tempo para se encontrarem... Nós detestamo-nos encontrarmo-nos. A internet e os blogs são um óptimo pretexto para isso. Podemos ausentar-nos e continuar on-line. É uma teoria...- respondeste. [ Pois é, não deixa de ser uma teoria. Lá nos separámos. Deixei-te à porta da Agência, lembras-te? Não deste conta, eu já ía sózinho, mas quando te deixei os meus passos iam pesados, esburacando o chão da avenida como se fossem patadas de um dinossauro em vias de extinção (hei-de propôr esta animália à colecção do Abrupto). Bem queria ter-te entusiasmado, tirar-te esses olhos baços, cansados. Como sempre gostei de tentar fazer. Mas o poço da energia secou. Ninguém desentusiasmado pode semear um pouco de alegria e vigor nos outros, aprendemos depois. Não quando crescemos. Quando decrescemos. O descrescimento impotencia-nos. Torna-nos ocos por fora, amalgamados por dentro. Mas havia qualquer coisa que eu ainda podia fazer. Cheguei a casa, mandei-te um email: " Acredito em ti, não acredito neste nosso mundo, no teu, no meu, mas acredito em ti."!". Não são bem as pazes com a vida, somente umas tréguas com estas horas que me faltam até o calendário vagarosamente rodar a caminho da próxima lua. ]

quarta-feira, julho 23, 2003

acto de pensar.O impossível ....

Em Reflexos de Azul Eléctrico, depois da necessária destrinça entre escrever e pensar, esta ideia de que acto de pensar tem de se misturar com o ruído do mundo para almejar ser pensamento. Ocorre-me estoutra ideia, de Sartre, numa entrevista surgida no Jornal Novo do século passado: "Pensar e escrever é comprometermo-nos. Comprometermo-nos é trabalhar para os outros." ideias a correr os dedos da memória dedilhadora...acordes de uma música... não, não acordes, deixa-te assim ficar mais um pouco mundo-mundo...

terça-feira, julho 22, 2003

Agora o descansaço, em Dubrovnik...

Agora, depois desta conversa longa com um post , o descansaço...em Dubrovnik, Outro, Eu. À janela de saltos altos, ou a cidade, às 16.09. Mais vinte minutos do que aqui. Agora. Coincidências. Encontros. A nossa vida está cheia deles, dizias tu. Olha aqui tens outro. Antes de me ir, para, ao som dos pedais, ter com aquele que finalmente conheceste. Fiquei feliz, claro.

Sociológicamente o importante é...

[Para quem ainda não percebeu estou a acabar uma conversa com um post do SocioBlogue] "As questões sociológicas fundamentais estão, em primeiro lugar, em compreender porque é que o caso de Paulo Pedroso provoca tantas discussões em torno dos «problemas processuais». E, em segundo lugar, em perceber como é que problemas que eram anteriormente desvalorizados, secundarizados e negligenciados são agora classificados como essenciais e incontornáveis." 1. A pergunta é bem mais terrí­vel se a deslocarmos, pelo avesso da questão, do plano sociológico para o plano da nossa mundivivência. Até porque a sua formulação no plano sociológico, tem implicito, eu ouço-o, uma voz de relativização (é essa a função da ciência, não nos espantemos com isso) que se pode articular facilmente com a atitude com que o senso comum gosta de tratar todas os pensamentos: a desautorização. Porque, no vaivém entre o anúncio do problema e a sua resolução no campo científico, o que fica - a ciência não suspende o mundo e a nossa necessidade de continuarmos a existir com respostas, por mais atabalhoadas que sejam - é chão para a entrada galopante daquele dedo em riste que o pensamento portuga estica tão bem: " - Como é que podes dizer isso tu, tu que nunca ergueste a voz contra...." 2. Disse, o terrí­vel é o avesso dessa questão, aplicada na nossa vida de todos os dias. É a constatação da fragilidade máxima dos sistemas complexos em que vivemos. E faz muito bem o SocioBlogue em trazê-la, e fazemos melhor todos nós, em tentar alargá-la aos limites da nossa prática de vida. Como hoje, quando se consensualiza que, independentemente da oportunidade, mais tarde ou mais cedo, o sistema das escutas tem de ser revisto. O sistema da prisão preventiva. Etc, etc. Porque o problema não é unicamente se só agora, porque em causa própria, os politicos percebem os contornos das leis que fizeram. O problema é que temos sistemas que governam todos os nossos dias, na saúde, na justiça, na segurança, a quem atribuimos uma inteligência e uma capacidade de perceber os limites da realidade que regulam, que afinal não têm. E porque é que não têm ? E como poderemos começar a percorrer o trilho para que tenham? Essas, independentemente da indiscutível pertinência das questões sociológicas, é que me parecem, enquanto cidadão, mais importantes. Mais sem resposta. Mais terrí­veis nesta noite do pensamento desaparecente.

Ainda a prisão como horizonte...

Vou utilizar este espaço pela segunda vez [a primeira foi quando reagi a um tí­tulo do Campo de Afectos, que se debruçava sobre a demissão de João Grosso] , tentando dialogar com o texto do "SocioBlogue" aqui citado, que merece ser lido com muita atenção, não só pela riqueza da proposta de discussão que ele contém, também por alguns aspectos relacionados com a dimensão comunicacional que está presente, inevitavelmente neste texto.] Vamos a estes últimos: em primeiro lugar, SocioBlogue, implicitamente legitima-se através de uma autoridade de uma ciência da qual ele é, pelo menos, praticante autorizado. E digo pelo menos, dado que a presença na blogoesfera, com o que isso tem de imediatismo, produz um ganho de subjectividade, descontextualizando, ou desfocando, automaticamente o protocolo científico inerente à prática sociológica. O que quer dizer que o leitor, desprevenido, poderá tombar um pouco neste terreno escorregadio que o sociólogo, corajosamente, aceitou trilhar, e, não tão preparado quanto ele, legitimar de outra forma o exposto, que não pelo próprio valor do enunciado apresentado. Isto assume particular importância quando o texto em referência se coloca numa posição de recentramento do debate. E fá-lo de duas formas: uma que me parece especialmente produtiva, de trabalhar a vulgata que corre da boca do povo para a dos jornais e destes, já, para algum discurso político. Discurso sobre uma justiça redentora, justiceira dos humilhados e ofendidos deste mundo que, cega, surda e muda, trata com o mesmo despudor, poderosos e humildes. A tese de que a justiça não trata de igual modo poderosos e humildes, que todos temos por um tanto ou quanto verdadeira, não resulta de uma qualquer discursividade própria da arquitectura jurídica de um regime democrático, que se saiba. Mas de um conhecimento empírico com que vamos identificando uma perversão na aplicação dos princípios porque se rege a nossa prática neste domínio. Esta distinção é fundamental para se perceber que textos como o de Santos Silva, não vão, no contexto desta diferenciação de tratamento judicial entre poderosos e humilhados, inscrever-se numa discursividade já existente, de explicita defesa dos poderosos. Pelo contrário. Paulo Pedroso poderá, para nós, ainda não ter deixado de ser um poderoso deste reino, no entanto está implícito no discurso de Santos Silva que, ao escrever, ele sente que está a escrever sobre alguém a quem, por lhe atribuirem um determinado poder, está sujeito à mais desabandonada das impotências e fragilidades. São precauções fundamentais. O senso comum pode inscrever automaticamente o discurso de Santos Silva, ou de outros, como o de Vital Moreira hoje no Público, num discurso de defesa dos poderosos e senhores do reino, desautorizando a palavra antes mesmo de ela ser proferida. [Sempre o senso comum pôde fazer tudo o que quis, até achatar o redondo da terra e torná-lo num campo, aparentemente, sem fim.] É verdade que o SocioBlogue refuta esta tese do senso comum e não segue por aí. Nem outro caminho seria de esperar a um blog que se autoriza num campo de peleja com esta sorte de pensamento em vulgata. Mas tem encontro marcado com o senso comum, quando afirma " até a insinuação de que Paulo Pedroso não está a ser tratado como os outros também parece ser justa". Como se desmontasse a tese de que Santos Silva esteja realmente a pedir que Pedroso seja tratado como os outros, dado que Santos Silva saberia que Paulo Pedroso não é tratado como os outros. E isto porquê: "Nem todos os reclusos têm «direito», por exemplo, a visitas fora-de-horas, a estar na Ala F do EPL, a celas individuais com casa-de-banho pessoal e a outras simpatias da DGSP que estão longe, muito longe, de estar generalizadas no nosso sistema prisional e de beneficiar a maioria dos reclusos menos mediáticos. " Antes de mais, uma dúvida: já ouvi várias versões sobre as visitas fora-de-horas. Uma delas, diz-me que elas não têm a ver com a especialissima condição do detido, sim com a dos visitantes, nomeadamente a dos deputados, que poderão não estar sujeitos ao mesmo tratamento das visitas comuns. Não me quero meter por aí­, mas fica-me a dúvida. [ desloquemo-nos um pouco da questão do Paulo Pedroso para reflectir na dimensão terrível que este enunciado carrega. No séc.. XXI, ter direito a uma cela individual com casa de banho pessoal, é um recurso disponível a apenas a alguns, os abençoados locatários da Ala F do EPL. E isto não seria nada, senão nos confrontássemos, no prosseguir do texto, com as "benesses" a que todos os outros, mais humildes, são obrigados. Deixemos, definitivamente, de tecer loas à nossa humanidade e às nossas superioridades democráticas. Até pode ser que sim, noutros contextos. Mas agora confrontemo-nos com a desumanidade com que tratamos alguns de nós, mesmo que as estatísticas digam que haja a probalidade de alguns de nós nunca sermos realmente nós.] Ora esta argumentação é uma amálgama muito retorcida, da qual não se pode extrair certidão de pensamento. A Ala F do EPL, se existir, foi criada como um fim e encontra-se enquadrada no sistema penal. Não foram vistas gruas, betoneiras nem aquele magote de trabalhadores que ali na circunvalação acabam à velocidade da Luz estádios de futebol, deslocando-se para o Estabelecimento Prisional de Lisboa para trabalharem nos aposentos de Sua Majestade, o Dr. Paulo Pedroso. Não havendo nenhuma causualidade ou relação entre uma e a outra, não estando enquadradas, um pertence ao sistema penal português, outra a uma argumentação de um político, de um sociólogo, de um amigo, não podem desautorizar-se uma à outra. Eu não disse refutação. Disse desautorização. Tanto a argumentação que permite que haja celas especiais (confesso que o que a mim me revolta é a persistência das outras celas não especiais) como a de que diz que personalidades mediáticas como Paulo Pedroso talvez não estejam a ter a mesma presença perante a lei podem ser refutadas, claro. Mas não assim. Suspeito aliás que o próprio SocioBlogue pressentiu isso ao tentar um recentramento apressado do debate, dizendo "a questão central não está em perceber se há, ou não, igualdade de tratamento entre os presos preventivos mediáticos e os outros. Esta questão é , sobretudo, de Índole política ou de Âmbito jurídico. " Para o SocioBlogue "As questões sociológicas fundamentais estão, em primeiro lugar, em compreender porque é que o caso de Paulo Pedroso provoca tantas discussões em torno dos «problemas processuais». E, em segundo lugar, em perceber como é que problemas que eram anteriormente desvalorizados, secundarizados e negligenciados são agora classificados como essenciais e incontornáveis". Não sei como classificar esta atitude em termos de prática comunicacional. Vou tentar fazer o desenho dramático desta situação, para ver ela é mais clara: Entra A. Santos Silva. A.S.Silva: Paulo Pedroso não está a ser tratado como todos os outros em relação ao seu direito ao recurso. Entra o SocioBlogue: SocioBlogue: Paulo Pedroso está a ser mais bem tratado que os outros. A.S.Silva: O quê? SocioBlogue: Nem todos os reclusos têm «direito», por exemplo, às mordomias da Ala F do EPL... A.S.Silva: Mas eu estava a falar de... SocioBlogue: Além disso essa questão não é a mais importante em termos sociológicos. Só tem relevância política e jurídica. Sociologicamente o que é importante é que.... Mas sobre as questões sociologicamente importantes também quero dar a minha palavra. Não autorizada. Já venho.

A prisão como horizonte...

No SocioBlogue, este post sobre o quel quero conversar um pouco. (.../...)Até a insinuação de que Paulo Pedroso não está a ser tratado como os outros também parece ser justa. Mas no sentido inverso ao que Santos Silva sugere. Nem todos os reclusos têm «direito», por exemplo, a visitas fora-de-horas, a estar na Ala F do EPL, a celas individuais com casa-de-banho pessoal e a outras simpatias da DGSP que estão longe, muito longe, de estar generalizadas no nosso sistema prisional e de beneficiar a maioria dos reclusos menos mediáticos. E Paulo Pedroso está, além do mais, longe de sentir os efeitos das elevadas taxas de sobrelotação prisional e das enormes taxas de densidade carcerária; as celas partilhadas; os baldes higiénicos; o bacilo de Kock; o risco de ser espancado ou «suicidado»; as arbitrariedades de alguns guardas; o despotismo e prepotência de alguns directores e chefes de guardas; os castigos ilícitos; etc. Não tenho dúvidas de que alguns aspectos do processo em questão possuem contornos «kafkianos». Mas também não tenho dúvidas de que entre os 3.859 presos preventivos muitos deles possuem processos igualmente «kafkianos». Mas a questão central não está em perceber se há, ou não, igualdade de tratamento entre os presos preventivos mediáticos e os outros. Esta questão é, sobretudo, de índole política ou de âmbito jurídico. As questões sociológicas fundamentais estão, em primeiro lugar, em compreender porque é que o caso de Paulo Pedroso provoca tantas discussões em torno dos «problemas processuais». E, em segundo lugar, em perceber como é que problemas que eram anteriormente desvalorizados, secundarizados e negligenciados são agora classificados como essenciais e incontornáveis. " (.../...) [excerto de um post em que o SocioBlogue, muito oportunamente, nos fala sobre uma investigação sobre as prisões portuguesas. A tresler..]

domingo, julho 20, 2003

exprimir/comunicar....

A seguir a ter escrito este post, rompi com aquilo que era a minha prática em relação a este blog. Mandei emails a outros bloguistas que tinham escrito sobre este assunto, quer no Blog de esquerda, quer em A Praia. E mais. Assumo, queria ser lido e não daquela querença que sempre anima quem escreve, a de que alguém, em algum lugar se toque com algo que escrevemos, não, fiz tudo o que sabia para promover a sua leitura. Eu, que já algumas vezes escrevi que os blogs não são para serem lidos, sim para serem escritos. O que também assumo. Embora já não o profira com aquela voz generalista de quem ameaça doutrinar o mundo. Este. Este Blog não é para ser lido, é para ser escrito. Há outros lugares para a comunicação. Lugares que nos deixam exaustos, exauridos, vazios. Com aquela alegria intranquila de quem se troca. Mas também vazios. Quero procurar o silêncio encrustado na minha linguagem. Essa é a minha viagem. Numa espécie de solidão em comum. Online. Visiveis os invisiveis traços. Não me perguntem porquê. Demorava muito tempo a explicar e não descobririamos mais do que isto. Com mais palavras entretanto. A propósito de palavras. Pensei em tirar daqui os meus posts mais longos. Para facilitar a comunicação. O Zapping. Vou fazer exactamente o contrário. Vou apagar tudo o que seja inútil, conversa com leitor escondido com rabo de fora. Apetece-me pensar ma impossivel comunicação que acontece quando alguém se exprime e, exprimindo-se, tenta ir mais ao fundo daquela força que nunca nos é totalmente revelada. Novamente, não me perguntem porquê. De um homem, ou de uma mulher, tem de ser feita a sua vontade. Mais uma vez, não nos iludamos: podemos respirar o mesmo ar, não o mesmo tempo.

sábado, julho 19, 2003

dia de aniversário...

Paulo Pedroso foi preso no dia em que fiz 41 anos. Não me esquecerei facilmente desse dia. Antes de tudo: sou daqueles que partilha aquela ideia que Abelaira uma vez escreveu na água, cito de memória, a de que " pago os meus impostos para que o Estado possa encarregar pessoas de fazerem aquilo que eu nunca seria capaz de fazer: julgar o meu semelhante". 1. Ao ler na banca dos jornais que Paulo Pedroso iria ficar até dia 31 de Janeiro preso, houve qualquer coisa de muito intimo que me aprisionou com as mesmas grades que cercam os seus passos vigiados. Devia haver a possibilidade de cada um de nós que se sente indignado com esta situação poder trocar um dia que fosse da sua liberdade para permitir que Paulo Pedroso possa apreciar a liberdade, e aí eu gostaria de entrar no sistema da prisão rotativa. Que por mais absurda que pareça não o será tanto como a sua comadre, a preventiva. 2. Se acredito ou não na inocência de Paulo Pedroso, não vem ao texto, este. E se ele é inocente ou culpado, muito menos. Nada daquilo que aqui penso sobre o processo que o deteve e que assegura a manutenção da sua prisão preventiva se altera com esse facto. 3. Dizem-me com alarvidade que eu só me indigno porque ele é uma pessoa conhecida, poderosa, mediática. Tudo adjectivos que o fragilizam ainda mais e que visam constituir uma auréola redentora e vingativa sobre a Justiça. Que há milhares de prisões preventivas e que eu nunca me preocupei com isso. Talvez. Talvez seja por ele ser uma pessoa conhecida. Por até já me ter cruzado com ele e ter dele uma excelente imagem. Talvez isso seja um ponto de partida para a solidariedade que sinto para com ele. O que em nada diminui a minha posição, pelo contrário, torna-a mais consciente das armadilhas que a emoção pode estar a pregar á minha razão. 4. Não hesito pelo menos nisto: quero Justiça. Quero Justiça para as vitimas da pedofilia. Quero Justiça para as vitimas da Justiça. E quero mais ainda, porque nascer em ditadura e ter crescido em democracia me tornou ambicioso. Quero acreditar na justiça. Quero sentir-me seguro. Quero poder confiar na justiça. O meu sufrágio pessoal e intimo sobre este caso é irredutível: eu que não sou pedófilo não me sinto mais seguro hoje do que antes de Paulo Pedroso ter sido preso. Pelo contrário. Se isto tem alguma importância para quem administra a Justiça, não sei. Mas na minha opinião devia ter. Porque não sendo o edíficio jurídico validado pelo voto, não deveria ser imune à confiança que os cidadãos nele depositam. 5. Outra coisa: se eu hoje não acredito tanto na justiça, isso deve-se unicamente à actuação de alguns daqueles que tem a missão espinhosa de a aplicar. O Procurador Geral da República. O juíz de instrução. Os investigadores que, tendo como base aquilo que veio para os jornais sobre as escutas, deixaram transparecer um abnominável amadorismo, uma tremenda falta de respeito por aquilo que está sempre no horizonte de qualquer investigação penal: a possível privação da liberdade de alguém. 6. Quanto ao Procurador da República uma ressalva. Se as suas primeiras intervenções iniciais foram desarticuladas, estranhas, confusas e com algum corporativismo a vir à flor da pele, não se preocupando tanto com aquilo que devia ser a sua preocupação fundamental, a de nos manter a confiança que devemos ao sistema judicial, a evolução do seu comportamento tem ido no sentido de, pelo menos, a restabelecer. À confiança. 5. Já o juíz Rui Teixeira, involuntariamente decerto, tem o condão de com o seu comportamento mudar a imagem que eu tenho da justiça. Já quase que a imagino uma espécie de roleta russa. 6. Primeiro foi o caso triste e lamentável das escutas telefónicas. Diz-nos o bom senso que há algo em excesso, neste caso. Não só nos alvos de escuta. Mas também nesta arrogância de agir como se tudo fosse pressionável. O Bastonário da ordem dos advogados. O Presidente da República. O Procurador Geral da República. Menos ele. 7. Como dizia MST hoje no Público, há aqui o mecanismo do double mind em relação ao comportamento de Paulo Pedroso quando soube que era citado no processo. A rapidez com que agiu no sentido de limpar o seu nome e colocar-se á disposição da justiça funcionou como uma agravante para a sua situação. Tivesse feito como o deputado Silva e talvez outra tivesse sido a sua sorte. 8. Outra vez a porra da sorte neste texto!!! Pelo meio ficou o conhecimento de que o Juíz por sua vontade tinha colocado Paulo Pedroso incomunicável. Não pôde. Haja ainda coisas que o estado policial a que chegámos, não possa fazer. 9. E se a tese da cabala a que o Partido Socialista recorreu logo aos primeiros tempos parece hoje pouco sólida, se cabala houver terá sido a dos políticos que não acautelaram com seriedade as liberdades e garantias dos cidadãos que os elegeram, o que dizer da teoria conspirativa que vive na cabeça do juíz Rui Teixeira? Segundo ele António Costa e Ferro Rodrigues, agiriam em complot com Pedroso contra o processo judicial apenas para livrarem um amigo, um dirigente do partido destes. Que amargura deve estar a passar neste momento o juíz, sabendo que os mafiosos governam as suas redes da cadeia. De cada vez que vê entrar o irmão de Paulo Pedroso, a namorada, os amigos, os colegas de partido, Rui Teixeira deve sentir-se a pior das penélopes, como se o seu ardoroso labor se pudesse desvanecer em fumo. 10. Eu, que não sou mediático, e nunca me preparei convenientemente para julgar o meu semelhante, compreendo o drama de alguém que se vê envolvido nesta situação e que, crente na sua inocência, a presunção da inocência dá-lhe esse direito, pretende contribuir para o esclarecimento da verdade, de modo a que a sua imagem, e a imagem pública para um político é um bem fundamental - por isso muitos de nós e eu próprio, sentimos a mesma solidariedade com Sá Carneiro quando em todas as praças e largos deste país a sua honestidade era, levianamente, posta em causa - seja o menos possível afectada. Podemos valorizar ou não esta atitude, mas poderemos não a compreender? Será confiável a produção de juízo de alguém que se mostra incapaz de compreender isto? 11. A ideia da incomunicabilidade é uma ideia tenebrosa, que pode bem ser articulada com a ideia anterior. Se for como nos filmes, quando alguém é detido, há a leitura dos seus direitos e nele um que se tornou célebre: "Tem o direito de ficar calado, porque tudo o que disser pode ser utilizado contra si". O Juíz Rui Teixeira perverte esta regra, invertendo-a num " Tenho o direito de o mandar calar porque tudo aquilo que disser será certamente utilizado contra mim". 12. É como se a justiça que detêm um homem e o priva de quase todos os seus direitos fosse uma entidade tão frágil que não suportasse o exercício de viver do próprio e dos que lhe estão afectos. Pior ainda: que não suportasse as consequências da presunção de inocência que atribui aos presumidos culpados. Como se dissessem, até conseguirmos provar a tua culpa podes presumir a tua inocência, mas não mais deves agir como outra coisa que não o proprietário da culpa que te atribuímos. 13. Por último a machadada final no sistema judicial: ao antecipar a manutenção da prisão preventiva, inibindo o Tribunal da Relação de ajuizar sobre os fundamentos da prisão preventiva, o Juíz Rui Teixeira deu sinais de um ardil - que na terra onde antes trabalhou e que eu conheço tão bem se designa por esperteza saloia - que demonstra que além de parecer não confiar nas figuras do Presidente da República, do Procurador Geral da República, do Bastonário da Ordem dos Advogados, também não confia nos seus pares da justiça. 14. Diz o povo, se queres ser digno de confiança, confia. Será confiável um indíviduo que leva ao a este extremo a sua desconfiança? 15. Na recta final deste já longo post: Somerset Maughan escreveu um dia em "Exame de Consciência", e novamente de memória, que "gostaria de ver nos tribunais de Old Bailey, juizes que ao lado da marreta, tivessem também um rolo de papel higiénico. Isso os lembraria de que são humanos". 16. E eu só espero que o Juíz Rui Teixeira saiba o que é a privação da liberdade, e mais do que isso, a privação da liberdade nas cadeias portuguesas. Porque entre o decretar da prisão e a concretização da mesma, pode ir um passo de gigante se quando o juíz a profere, estiver a referir-se a uma modalidade em abstracto, enquanto figura do código penal, e não à sua concretização no dia a dia de um preso preventivo nas nossas cadeias. E já que o juíz parece vencer este passo gigante com um incrível salto jurídico, só nos resta esperar que ele tenha uma consciência o mais aproximada possível do drama que lhe está inerente. 17. A tal ideia de roleta russa que referi atrás.

Quando a ventania vem do lado do mar...

Em Aviz, encontrei isto, que catrapisco para aqui porque às vezes escrevemos com as palavras dos outros: "Repito: está tudo tão à vista, aqui — os que contam as visitas e as page-views, os que não resistem a dizer que foram citados. Mas há os outros, sim: os que escrevem — e pronto. Os que dizem o que querem dizer. Os que se estão nas tintas. Os que têm uma palavra que não nega que gostava de ser lida? É isso um pecado assim tão criticável, tão menosprezável? Quando é que as pessoas escrevem — e pronto? Quando é que passam a escrever o que querem mesmo dizer, escondendo aquilo que acham que é para manter escondido, e não estão com muitas justificações, lapsos, vulgaridades, paralaxes? Há nos blogs uma fragilidade muito evidente: são coisas que se escrevem porque sim, porque apetece naquele momento, porque nos lembramos, porque alguém falou disso, porque a ventania vem do lado do mar, porque o pó se levantou no meio do deserto em frases curtas, em textos longos, ou porque começou a chover no domingo" e assim, escrevendo por mão alheia, já posso ir para aquilo que desde manhã. altura em que li o jornal Público, me apetece escrever.

sexta-feira, julho 18, 2003

E, mais uma vez, o filho mais velho provou ser o ‘sage’ que me fazia falta na vida.

Em Guerra e Pas , onde fui, confesso, depois da referência do Abrupto, encontrei este texto. Que me lembra outro. Mas a lá iremos. Depois. "Ontem o nosso filho mais velho informou-nos que não queria ir para o céu. Não que prefira o Inferno, mas pura e simplesmente não quer morrer. Como as crianças deliram quando os seus pais resolvem os seus problemas, optei, numa decisão que demorou um décimo de segundo a tomar, por discorrer sobre o tempo, dizendo-lhe que faltava muito tempo para ele ir para o céu. Fi-lo repetindo a palavra “muito”, muitas vezes. A conversa tinha começado na véspera, quando ele me perguntou quando é que eu iria morrer. Eu e a mãe. Tendo 3,7 anos, o jovem é esperto que nem um alho. Eu sabia que estava implícito na pergunta dele que ele não queria uma resposta do tipo ‘o pai não vai morrer’. Ele queria a verdade, o que me causou um problema, porque eu não sei quando é que me fino. Optei pela perspectiva conservadora e disse-lhe que quando eu tivesse barbas brancas e muitos netinhos aí sim, aí iria para o céu. Na cabeça das crianças o mundo vai-se compondo muito depressa. A sua pergunta seguinte foi, com muita lógica, como é que se vai para o céu. As ‘asinhas’ não me pareceram uma resposta cordata ou sequer satisfatória e dissertei então sobre o facto de enquanto falarmos das pessoas elas continuarem connosco. E falei do meu pai – que o meu filho nunca conheceu – que morreu fez ontem 11 anos, dizendo ao meu filho que a prova que ele estava connosco era o facto de estarmos a falar dele naquele momento, mesmo depois de ele estar no céu. E, mais uma vez, o filho mais velho provou ser o ‘sage’ que me fazia falta na vida. De facto, o meu pai continua vivo."
Abelaira, via Blog de Esquerda que fez um link para uma última entrevista que vale a pena ler: "Esse interesse de escrever e de ter algum eco, hoje já não me estimula. Escreve-se para quem? Escreve-se para o próprio, escreve-se para a namorada, escreve-se para um público abstracto? É um problema interessante. No fim de contas a escrita literária é um diálogo com alguém, não é um monólogo. Dostoievsky, para quem escreveu? (.../...)O indivíduo provavelmente escreve para ver através da escrita se descobre alguma coisa que ele não sabe... (.../...) O que me tem acontecido é que quando eu percebo, num dado momento, na página duzentos e tal, que não encontrei aquilo que procurava, que qualquer coisa me escapou, nessa altura termino o livro, seguindo para outro método, um outro caminho. Depois, nesse livro acontece-me exactamente a mesma coisa: aquilo que queria dizer mas que não sei o que é que queria dizer . Mas se não cheguei lá escrevo "Fim" e vou ... e vou escrever outro livro seguindo outro método. Em princípio, no dia em que eu chegar lá... "Ai, era isto! Descobri!" - nesse dia nunca mais escreveria, naturalmente. É preciso o aguilhão de querer descobrir qualquer coisa que não se sabe. "

quinta-feira, julho 17, 2003

Agora o silêncio: "Marcel Marceau(.../...)sube hoy por última vez a un escenario. Será en Atenas, la ciudad donde nació su disciplina. El héroe silencioso cuelga el uniforme (.../...)En rigor, cuesta imaginar a Marcel Marceau, Chaplin francés según la crítica inglesa, lejos de los escenarios, pero esta vez la determinación parece definitiva. El lugar no es casual: los griegos inventaron la pantomima. “Para mentir sólo se necesitan las palabras, que me parecen muy pobres y peligrosas porque nunca pueden decirlo todo”, ha dicho este ocasional escritor y pintor, que construyó una gramática universal del silencio, para comunicar sensaciones comunes a todos los pueblos. in Celcit Silvina Friera.
antes que me esqueça: não escrevemos para sermos grandes, escrevemos porque somos pequenos e isso nos incomoda até ao osso. outros que nos lêm, podem encontrar nessa luta entre titãs, a luta de cada um com o que não se pode dizer, com o que não se pode compreender, alento e matéria de outras descobertas e até engrandecimento. e por isso colocam-nos às vezes num ponto vísivel para, à luz de gambiarra, iluminarem um pouco mais os becos esconsos da nossa contemporaneidade. não há nenhum mal nisso. mas deixai-nos, pelo menos na blogoesfera, zombar das feiras, da....

quarta-feira, julho 16, 2003

Desde que criei o meu blog uma das coisas sobre as quais me questiono, é o modo como aqui estou, principalmente por me dar conta de outras maneiras e modos de ser e estar nos blogs. Por exemplo: No Campo de Afectos, CAM, escrevia há alguns dias, a propósito de um maldito contador que lhe estava a atazanar a a cabeça, que procurava não tornar o seu blog algo umbilical, fechado. No Abrupto, JPP, escrevia também, a propósito da inclusão dos emails que lhe enviavam, que tentava fazer uma edição, como se de um jornal se tratasse. No Prazer Inculto, PC, tem comentários online, o que pressupôe uma ainda maior abertura à comunicação. No Blog de Esquerda, há para além do mais, uma intenção de actualizar um debate político, mesmo que de uma forma mais aberta do que aquela que geralmente atribuimos à referida prática. Tudo isto está muito bem e que assim continue. Sendo um espaço destruturado, a net, a forma como nele nos preenchemos é que é estruturante desse mesmo espaço. E se para uns ele é o site que não poderiam ter de outra forma, dada a simplicidade e o imediatismo desta linguagem, para outros, e provavelmente estarei mais perto desta ideia de blog, ele é uma oportunidade para uma escrita diária, ao sabor dos humores, afectos e obsessões do momento. A blogoesfera vem refrescar o ciberespaço com uma área onde cada um pode assumir que mesmo que sem nenhuma carga útil, a escrita, escrever, pode ser gesto poderoso de auto reformulação. Que bom poder escrever sem a preocupação de ser lido. Continuo a pensar isso, embora seduzido também pela forma como outros blogistas andam por aqui ( e já falei de alguns deles que mais me atrairam), que a blogoesfera não é para ser lida, é para ser escrita. É claro que isto só é cristalino quando é proferido. Basta as palavras escarrapacharem-se na folha virtual ficam logo, perplexas a duvidar disso. Se é para ser escrito porque ponho contador? Porque ponho avaliação que dá direito a entrar num painel de links para blogs? Dou-me conta no entanto que essas estratégias de comunicação incrustadas na própria arquitectura do blog não desafiam o essencial desta conversa de cada um consigo mesmo. E de repente a sairmos do nosso umbigo e a irmo-nos perder-nos noutros umbilicais blogs. Como me aconteceu ontem com o sem querer penso, em que me perdi na beleza das imagens, dos textos...ou hoje com outros blogs que ainda não linkei. Conversa que fica a meio...outra vantagem dos blogs...
De Lesiones Incompatibles con la Vida, da dramaturga Angélica Liddell: A los hijos que no voy a tener. No quiero tener hijos. No quiero ir más lejos. Soy una epidemia de ressentimento. No quiero tener mas hijos. Es mi manera de protestar. Mi cuerpo es mi protesta. Mi cuerpo renuncia a la fertilidad. Mi cuerpo es mi protesta contra la sociedad, contra la injustícia, contra el linchamento, contra la guerra. Mi cuerpo es la critica y el compromisso com el dolor humano. Quiero que mi cuerpo sea estéril como mi sufrimiento. Mi cuerpo es mi protesta. Mi cuerpo es mi pessimismo. Gracias al pessimismo puedo hacer-me perguntas. Alguién debe quedar en mitad de los hombres haciendose preguntas. Alguién debe quedar como um idiota. Alguien deve quedar como excremento, alguién debe fracassar definitivamente. "

precisava de uma mulher que fingisse ser minha...

passeio matinal à blogosfera. ainda a digerir Lesiones Incompatibles con la Vida, da dramaturga Angélica Liddell, encontro este texto delicioso do Gato Fedorento: (.../...)Em vez de um número para onde ligo para ouvir uma mulher fingir que está a ter relações sexuais comigo, o que eu precisava era de ligar para um número onde uma mulher fingisse que era minha mulher. A conversa podia ser assim: “- Estou? Querida? - Amor! - O que é que estás a fazer? - O jantar. O teu favorito. - Como é que estás vestida? - De avental e chinelos. - Oh! E a que é que cheiras? - A refogado. E a bolsado. O mais novo vomitou-me em cima... - Sim! Sim! E o teu cabelo, como é que está? - Não tive tempo de ir ao cabeleireiro. Está todo desgrenhado e oleoso. - Oh, sim! Oh! Mais!" E era assim até ao clímax." ZDQ

terça-feira, julho 15, 2003

pedro viva depois de ler o post "Esquerda, Direita, volver..." entrou na conversa assim: "O silêncio é o pior dos serviços públicos que se faz à nação. De que serve reclamar da direita quando se apoia uma esquerda do pincel. De que serve ser de esquerda apenas no blog, no jornal e no café e se vota no eterno bloco central que desgoverna esta m. à beira mar plantada? O PS não é um partido que lute pela nossa liberdade, pugna pela democracia, tem gente simpática, algumas boas ideias, mas e a LIBERDADE? Exijo ser LIVRE e por isso sou contra o Bloco Central! E tu, és ingénuo ou colaborador encaputado?" ( mais: em Cidadão Alerta pedro viva promete continuar a atear esta fogueira sobre a Liberdade, razão mais do que suficiente para a sua inclusão na lista de blogs de respirar o mesmo ar. quanto à questão final é bom lembrar que tendo em conta o tempo considerável que passamos no blog, a ler jornais e no café e o minúsculo tempo em que passamos pelas mesas de voto, talvez, não sendo de facto de uma grande coerência, até nem seja um mau serviço à esquerda. mas a polémica é para continuar, claro...)
numa visita à página do IPAE, encontrei o precioso anedotário que dá pelo nome de Comunicado Oficial do IPAE. um extraterreste que o leia daqui a uns anos, marciano, venusiano, seja lá de onde for, escreverá " Corria o ano de 2003 e os criadores portugueses estavam felizes e contentes. Ainda mal tinha passado meio ano e já quase todos eles tinham recebido a quase totalidade dos apoios do Estado para a Criação Artística". É por essas e por outras que este Governo tem como destinatários preferenciais extraterrestes, marcianos, venezianos, seja lá de onde forem.
Ainda a Esquerda e a Direita... Ou não. Talvez seja só entre a verdade e a mentira. Fiquei chocado quando o Vital Moreira escreveu hoje que "estamos agora em condições de saber que, quando Bagdad denunciava como mentiras as alegações de Washington relativas às armas de destruição maciça, era do lado iraquiano que estava a verdade". Claro que também a mim me apetecia zurzir o pau de marmeleiro sobre todos os fabricantes desta monstruosa mentira mas não posso. A menos que glopeie o ar como um Quixote sem dom nem Sancho Pança. Por isso estou contra Vital Moreira. Ele não tinha o direito de escrever isto. O regime de Saddam Hussein é uma ditadura e "as democracias ocidentais" são, passe o pleonasmo, democracias. Não é concebível que um democrata, e Vital Moreira é um dos nossos mais brilhantes democratas, venha escolher, sobre que pretexto for, a barricada da defesa das ditaduras (e não me venham com essa de que a Babilónia é o berço do Mundo, também do nosso, também nós já tivemos Cruzadas e Inquisição e isso não nos impediu de hoje sermos "o berço das novas democracias"). Já basta que tenhamos de conviver com a vergonha de que as nossas "democracias" sejam tão pouco verdadeiras democracias e ainda menos nossas. Agora dizê-lo, proferi-lo, e culpa maior ainda para o Público que se aproveitou do facto de José Manuel Fernandes estar enfiado em caixotes e caixotes com as provas daquilo que não existiu para meter em caixa alta este excerto do texto de Vital Moreira. Há uma coisa que é preciso dizer de uma vez por todas a esta intelectualidade rasca que nunca soube apreciar o laborioso trabalho dos sabujos: é preciso perceber que é muito mais rigoroso, muito mais dificil montar o ardil do que dizer a verdade. Falsas ou não as provas do comprometimento do Iraque custaram muito mais aos bolsos dos contribuintes do que a verdade. E não respeitar este persistente trabalho de montagem, principalmente porque altamente arriscado, já que nunca souberam os seus promotores se alguma vez iríamos acreditar nas suas patranhas, parece um exercício de uma indisfarçável arrogância. Mais do que isso, e talvez esse seja o maior pecado de Vital Moreira: não perceber que, se estava em causa uma guerra entre o Iraque e a Civilização Ocidental é da maior abnegação democrática prestar-se ao trabalho menos limpo de fabricar o embuste, única e altruísticamente para que nós, povo, cidadãos, pudéssemos continuar a acordar todos os dias do lado certo da verdade e da vida. Aliás não sei porque é que num país onde já se condecoraram Pides, os bravos cidadãos que colaboraram intelectualmente nesse encobrimento como Durão Barroso, Luís Delgado, José Manuel Fernandes, António Ribeiro Ferreira, entre outra escuderia menor, não foram ainda propostos para receberem as mais altas insígnias da República Portuguesa.

segunda-feira, julho 14, 2003

Eu não disse mal da vida que levamos, Maurício!

Ele há coisas. Tinha andado com um post minimo na cabeça. Esse pegou-se a outro. Era um pequeno excerto de um texto dramático. De repente fui à procura e entrei por "Seis" a dentro. E talvez este seja o post mais longo que tenha feito. "Seis" é um texto de 87. Foi a minha primeira peça "a sério". Em que me deixei contaminar pelos ambientes, pelos personagens. Pelos silêncios. Nessa altura era actor no Teatro Experimental de Leiria. Foi uma experiência um tanto ou quanto esquizóide. Ficava todo o dia em casa e hás seis da tarde corria para a representação de "A Noite Antes da Festa!", no Mercado de Leiria. Nos primeiros momentos de contacto com os outros, ainda estava com a voz entarmelada, metida para dentro. Soltava-se pouco a pouco. Depois do espectáculo ceava rapidamente, muitas vezes com o Valdemar Sousa, o Rui Sérgio e o Pedro Oliveira, e lá ía a correr para aquele apartamento no fim do mundo que o TELA me tinha arranjado. E lá me ía meter dentro do texto, porque é verdade - o Abel Neves disse-o no outro dia e eu gostei de o ouvir - vivemos dentro dos textos que escrevemos, podemos inventar portas e janelas mas é no interior destes que nos colocamos, que nos escondemos, que nos revelamos. Aqui fica, é logo a entrada da peça: Prólogo ( Há um desenho progressivo das personagens que pode ser traduzido por luz, som, etc...É noite. Jorge (um), Antónia (uma), Duas (Duas) Maurício (Dois) estão numa esplanada perto da praia.) UM (Jorge) Teus olhos, Sabes? UMA (Antónia) Sei... UM A sua cor... UMA Um espelho de languidez... UM Ou uma cratera. Dois buracos no imenso. UMA A paixão com que falas, Jorge...falar é feminino... JORGE Falo muito pouco...por pudor...não sei... UMA Fascina-me isso no teu olhar, nunca sabes... JORGE Mas falar por falar não... (silêncio) JORGE Eu disse que falar por falar não... (Silêncio) JORGE Lembras-te ainda, Antónia?! ANTÓNIA Claro que me lembro... (Silêncio) JORGE Não é todos os dias que se vivem certas coisas. ANTÓNIA Pois não, Jorge. (Charlie Parker. Jazz) DUAS Não são amorosos os dois... (Dois ri-se de gozo.) JORGE A vida desenrola-se diante do esquecimento... ANTÓNIA Um dia deixamos de existir... (Jorge ri.) DOIS A sua mulher tem razão. Um dia deixamos de existir. DUAS Ninguém disse que ela não tinha razão, Maurício. MAURICIO Claro, querida. ANTÓNIA Só damos por isso quando pagamos o cortejo fúnebre. MAURÍCIO O próprio oficial de cerimónia... JORGE Morrer não é uma cerimónia...é um desacato. (Continuava a ser Parker. O incrível Charlie Parker.) DUAS Há um lugar que eu nunca conhecerei... JORGE (Sorrindo) A tua casa? MAURICIO (Perturbado) A nossa casa?! DUAS Esse lugar é a memória. (Silêncio algo comprometedor.) DUAS Ás vezes apetece-me falar... MAURICIO Está a ser difícil não está, querida? Também estou farto de andar de um sítio para o outro... DUAS Não faz mal, Maurício. Era um desabafo. JORGE Não podem mudar a música? Estou farto de ouvir Charlie Parker. (Silêncio. A música calou-se bruscamente.) DUAS Charrie Parker era negro. MAURICIO Na nossa casa haveremos de ouvir Charlie Parker... DUAS Eu não disse mal da vida que levamos, Maurício. MAURICIO Eu sei, querida... (o empregado avisa-os de que o café vai fechar.) MAURICIO Vamos? DUAS Nós vamos ficar mais um pouco Maurício. ANTÓNIA Até amanhã, Jorge. Tenta não fazer barulho quando te deitares. (Antónia e Maurício saiem) CENA 1 A luz da esplanada acende-se e apaga-se três vezes. Eles levantam-se, começando a caminhar. O som do mar aproxima-se. DUAS Detesto o mar. Sempre o detestei. (Jorge não responde) DUAS Detesto o mar, Jorge. Sempre o detestei. Desde pequena... (Jorge ri.) DUAS Não dizes nada? (silêncio) DUAS Podias ser mais atento. JORGE Detestas o mar, desde criança... DUAS Há pouco tinha dito que não sei o que é a memória... JORGE Também ouvi. DUAS Não te parece contradição? Não sei o que é a memória e lembro-me... JORGE Não querias falar ao pé do teu marido. DUAS Eu amo o meu marido. JORGE Eu sei. E detestas-me. No entanto sou o único que ainda te ouço. DUAS Fala-me de ti...prometo que daqui a pouco pensarei que és humano... JORGE Estou aqui para te ouvir...e ao mar, se não falares muito... DUAS Odeio psiquiatras. Odeio-vos. Têm dentro de vós todas as doenças de todos os doentes do mundo...Odeio-vos... JORGE Mas precisas deles. É o drama de muitos, necessitarem daqueles que odeiam. (Duas anda de um lado para o outro. Silêncio demorado. Pára) DUAS Reconheço-te uma certa razão. JORGE Infelizmente, também. DUAS Detestas a tua profissão. JORGE Estamos aqui para falar de ti... DUAS E para ouvir o mar... JORGE Eu sei. DUAS Porque preciso de gente como tu?! (silêncio) DUAS És desconcertante... JORGE É a minha oportunidade de ser útil. Para o resto não sou necessário. DUAS Queres dizer que só me lembro do que quero? (Silêncio) DUAS Então porque me lembro das coisas que me desagradam? JORGE O quê, o passado? O passado não dói, não sangra. Mergulhas nele, aconchegas-te às tuas mentiras, as tuas ilusões. O desagradável é o presente. É do presente que tu tens medo. DUAS Posso lembrar-lhe que é o meu psiquiatra? JORGE Vai à fava! (PersonagensJORGE AUGUSTO- Médico psiquiatra. Tem entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Pai de Pedro e marido de Antónia/ ANTÓNIA - Mulher de Jorge, mãe de Pedro. Doméstica, filha nova do que Jorge./ DUAS-Mulher de Maurício, mãe de Inês. Reformada. Tem entre quarenta e quarenta e cinco anos./MAURÍCIO- Marido de Duas e pai de Inês. Caixeiro Viajante. Tem entre quarenta e quarenta e cinco anos/ PEDRO- Filho de Jorge e Antónia. Vinte e três anos. Estuda./INÊS- Filha de Duas e Maurício. Vinte e cinco anos.- Desempregada) (Acção: Jorge, o psiquiatra de Duas, que está a ter problemas com a evolução do tratamento de Duas, antes de deixar de ser o seu psiquiatra, sugere que esta vá, com o marido, passar uma semana com ele e Antónia, a sua mulher.)
Esquerda, direita, volver... De tempos a tempos a direita conquista o poder e, invariavelmente, ocorre lembrar-me do 25 de Abril. Depois, seja o Cavaquistão, ou este Paraíso na Terra, a cultura começa a levar coices. Coices e pontapés. Com a mesma falta de imaginação com que ocorre o 25 de Abril na minha memória de paquiderme, vem ao texto a questão dos subsídios, do que isso era em camas de hospital, sopas para os pobres ou impostos para o Principe João, desmonta-se o pouco que estivesse a funcionar, sempre com o brilho da mudança, do rigor, da contenção, e eu começo mentalmente a mudar de país, a sentir que não sou daqui. Com a agravante de que agora quando começo a falar muita gente olha para mim como se eu estivesse com uma grandecíssima dor de corno. E isto é se não souberem da minha recente inscrição como militante do Partido Socialista, porque aí apanho com aquele relambório todo das moscas mutantes, do desbragamento do déficit público, de como os xuxialistas deram cabo disto tudo. Eu ouço-os, há nos meus olhos lassos ironias e cansaços e só penso: Ide-vos f. cambada!

sábado, julho 12, 2003

"ELA: Os imbecis são felizes . Já deu conta? Com os imbecis passa-se um fenómeno estranho... Quando eles são imbecis há muito tempo, temos tendência a reconhecer neles uma certa inteligência. É contraditório, não é? Como se houvesse uma certa inteligência em um tipo conseguir-se manter imbecil com o passar dos anos."

quinta-feira, julho 10, 2003

Mãe, esconde-me naquele poço....

Dezoito..., anos, é o nome da crónica de Pedro Strecht no Público de hoje. confesso que não li o texto até ao fim. não porque o pedro strecht tenha cara de anjo e os anjos sempre me tenham assustado. ele é uma figura respeitável e ao abrigo da maledicência, vício que nem gosto de praticar com desmedida. não li porque não li, chega. Li o título, o lead e depois escorreguei para outras memórias, as minhas. Em Mafra. Quando a paisagem obrigatória era o Convento, onde, no seu lado direito se impunha o quartel e no lado frontal, um largo espaço onde os magalas faziam o seu juramento de bandeira, muitos deles antes de partirem para uma comissão de serviço em África. Nessa altura o meu medo maior era fazer dezoito anos. E curiosamente esse medo de fazer dezoito anos manteve-se, depois da guerra ter terminado, da liberdade ter vindo por aí. Só perdi esse medo infantil no exacto dia em que celebrei o meu 18º Aniversário. Em Ilusão de 'África, texto cuja acção se desenvolve num bar de música africana, e numa certa contaminação autobiográfica ( que não gosto de revelar, mas os blogs servem para isso também, para escrevermos mais do que aquilo que gostaríamos de escrever) Antero também conheceu esse medo. ILUSÃO D'ÁFRICA, 1997, publicado em cenas de amor e guerra, Éfémero Edições, Aveiro, 1997 4ª Cena ( Antero avança para pista. Ouve-se uma morna. Antero dança e canta também. Começa a ficar comovido. Chora ) Antero Um homem nunca chora! Hep! Sentido! (Desmancha) Eu vi-os partir caramba! Os sinos tocavam, havia lenços brancos e negros e aqueles sacanas não se mexiam! (Chora e bebe) Os gajos juravam bandeira ali, tesos que nem um carapau...( Vai buscar o copo. Cai. Enerva-se. Grita) Eu atirava-lhes com fisgadas de arames... Os tipos pareciam uns soldadinhos de chumbo...(Tropeça novamente. Fica sentado no chão) Iam e a única dor que levavam era umas fisgadas de clipes entre o tronco e as partes baixas! (Levanta-se. Deixa-se levar pela música. ) É por essas e por outras que se alguém falar mal do vinte e cinco de abril lhe enfio um pau pelo...Tinha medo de crescer ... (Grita) Eu vi-os partir! A única porra que os abanava eram uns arames atirados com pontaria de guerrilha (Chora enquanto soletra a letra acompanhando a canção cantada) Os gajos foram e voltaram e não perceberam nada de nada, caramba! (Chora) Era por causa deles que quando eu era puto ía pedir á minha mãe para não me deixar fazer dezoito anos! (Chora) “Mãezinha, esconde-me no poço que há lá atrás na horta e não digas a ninguém onde estou !” (Chora) É por essas e por outras que se alguém falar mal do vinte e cinco de abril lhe enfio um pau pelo... (Ela entra. Senta-se na mesa. Bate palmas. Ele pára de dançar, faz uma reverência e caminha para a mesa )

quarta-feira, julho 09, 2003

Blag-Blag-Blag... Se veio aqui parar vá embora. A sua presença é desnecessária, gesto de voyerismo inútil. Um Blog não é para ser lido, é para ser escrito. Lipotevski anunciou, em "A Era do Vazio", que um dia cada um de nós se tornaria expressão e riso de si mesmo. A Blogoesfera cumpre a profecia com rigor. Desande. Nem é preciso insultá-lo para perceber que esta não é a sua casa. A Blogoarquitectura livra-nos da maldição de estarmos constrangidos a ser contemporâneos uns dos outros. Quatro paredes num alicerce indestrutível, a minha solidão em comum com a sua, fornece-nos a password indispensável. O meu tempo não é o seu. Desiluda-se, aqui não seremos nunca contemporâneos. E não é nada contra si, não comece a fazer-se de vitima. Acredito que você seja diferente. Mas se lhe abrisse a porta a si, tinha de deixar entrar o resto. Tinha de conceder que vivo no mesmo tempo de personagens do meu horror. Até teria de servir chá e os bolinhos da avó a tipos como o Bush, Berlusconni, Aznar, Portas, Le Pen, Fraga Iribarne, Bin Laden...xô! Xô!. Não, vá-se embora. Havia alguém que dizia (referindo-se ao Diário de Anne Frank), citado por Alçada Baptista numa crónica já bolorenta que tenho aqui no meu sotão, que numa ditadura o diário é o único diálogo possivel.. Substitua-se ditadura por HOJE e diário por BLOG, e o resto que fique como está. NADA DE CONFUSÕES. SOMOS OBRIGADOS A RESPIRAR O MESMO AR, NÃO O MESMO TEMPO.
Estrangeiro... Saiu hoje no Público mais um livro da colecção Mil Folhas. "O Estrangeiro". Lembro-me de que quando tinha dezasseis anos o meu melhor amigo ter começado a ler o livro e de ter parado, com medo de que se pudesse tornar como o herói desta obra de A. Camus. Pode parecer pueril esta força que atribuímos à palavra impressa. Mas pueril também seria escrever se esta possibilidade de um encontro transfigurador não estivesse no horizonte da mão que escreve.
"Saúde é a alegria de Viver e de Criar" Escrito na parede de uma casa dos Olivais onde NÓS fomos gente. Há mais de trinta anos. As paredes sobreviveram a quase tudo menos à solidão.
Os subsídios vão ser pagos, diz uma nota oficial do Ministério da Cultura, publicada hoje no "Público". "Jorge, podes vir, mamã enfim morta!"
No outro dia em [Campo de Afectos] ao ler o excerto da entrevista de Teresa Coelho a Rui Nunes que CAM destacou, lembrei-me de Arno Gruen e de "A Loucura da Normalidade", editado pela Assírio. "para aqueles que se apropriam da aparência de um comportamento "normal", porque não conseguem suportar a tensão das contradições entre a realidade que nos é imposta e o mundo interior, para gente assim, muito rapidamente deixa de haver sentimentos verdadeiros. Em vez disso, operam com conceitos de sentimentos, sem terem com eles alguma experiência. Apresentam sentimentos fingidos e renunciam aos seus sentimentos verdadeiros. Quanto mais "saudável" a imagem da identidade que assumiram, tanto maior será o sucesso dessa manipulação. E é de manipulação que se trata, já que a sua intenção não é exprimirem-se, mas a de convencer o parceiro de que agem, pensam e sentem de uma forma adequada. São estas as pessoas que quero apresentar como realmente loucas entre nós. Poêm-nos a todos em perigo, porque são incapazes de encarar de frente o caos, a raiva e o vazio que os preenchem. Ao passo que o esquizofrénico mantém de pé, num mundo sentido por ele como contraditório e inquietantemente mau, a convicção básica de que o amor verdadeiro tem validade, naqueles que iludem a loucura, a luta pelo poder é a única maneira de se defenderem do caos interior que os assola e da destruição interior. Para não terem de reconhecer o vazio como o seu próprio vazio interior, espalham a destruição e o vazio à sua volta. O paradoxo do esquizofrénico é que tenta protejer o seu interior escondendo-o. Operação essa votada ao fracasso, porque o Eu só pode viver no intercâmbio vivo, e, por isso, o esquizofrénico paga essa tentativa muitas vezes com a perda total de bom senso, lógica e comunicação. Ele faz a si próprio o que o mundo lhe fez. Já não quer ser amável para impedir as outras pessoas de se sentirem culpadas pelo seu estado. Aqueles, no entanto, que querem fugir à consciência do seu estado interior, impõem "a sua ordem" aos outros, e com isso a sua maneira de se relacionarem consigo próprios."

terça-feira, julho 08, 2003

Não consigo perceber isto. Não consigo perceber o mundo onde vivo. As casas, as formas que elas têm, o modo como as habitamos. Não percebo. Se calhar não é para perceber. Eu não percebo. Não percebo as ruas, a maneira como nelas nos movimentamos. O trabalho, a escravidão dissimulada. O estarmos sempre aquém ou mais para lá do que poderia ser um lugar. Não percebo a modo como falamos, comunicamos, nos trocamos. Não percebo esta suposta superioridade com que nos ufanamos e vangloriamos dos nossos mundos, das nossas democracias, das nossas casas, até da nossa própria espécie. Não faço disso um cavalo de batalha mas não percebo.
Casal Lilás O álbum de fotografias esconde-se atrás do vulcão impossível. Quando os sinais não perduram no âmago dos gestos ácidos, torna-se necessário convocar as labaredas para que o fogo retorne à casa-mãe. Há uma memória sonâmbula no atrevimento de falar de amor. Na tensão do crispar das amêndoas doces a que vulgo, chamamos olhos, desalinhados no tapete persa, sem autorização de voo. Eles são os fálicos objectos do nosso inexplicável êxito de marfim. O não-sofrer labrego. Na circunscrição da irremediável previsão do inexacto, os putos multicolores.Imagens abruptas do pecado, da serpente sem maçã livre. Moroso resfolegar daquilo a que, por convenção torpe, chamamos mãos, mesmo quando empanturradas de trampa mole. Sombra enquinada de uma leve perturbação que, na infância das noites, nos conduziu à passerelle das imagens grávidas de salinidade. Brincadeira de suicida escrupuloso. Três metros por seis de pus, espuma e fúria amarela. O amor obrigatório de um permanecer que se esvai, pose do fóssil ressonante, estrela fugitiva no ziguezague do eterno. Entre a parede e a casa levanta-se uma tempestade, uma catástrofe, o uivar de um desmoronamento, o intranquilo choro da criança lilás. O soporífero não abranda a morte que trepa pelas paredes alvas. Acontece uma cor superlativa com que principia o desastre do universo incandescente. Ao atravessar a passadeira zebra o casal lilás é apanhado em contravenção. A máquina vomita o cartão de plástico e,airosamente, avisa que o céu não está à venda. Éo código, explica envergonhado o homem lilás, é o código. Pode ser que seja, exclama a metafísica subterrânea que sangra no passeio. O casal lilás gagueja, intromete-se no gingar maravilhoso do mundo. Há uma palavra por ferir. Gestos por sangrar no tecido poroso do bairro, amálgama retorcendo-se de gana, nos passos sem retrovisor pintando a lilás o céu que não se vê. O homem peida-se heroicamente.

sábado, julho 05, 2003

serviço público...

Em [Campo de Afectos] continua o debate sobre os subsídios ao teatro. Desta vez com um texto saí­do em [Cruzes, Canhoto], em que "J" defende um financiamento misto aos grupos, constituido pelo apoio público e privado. Assim, para que o financiamento privado tivesse uma maior motivação na concretização desse mecenato "talvez a única solução passasse por maiores incentivos às empresas e particulares para servirem de mecenas ". Também defendo esta tese e mais do que isso, parece-me que há aqui uma porta aberta para deixar entrar na politica oficial para o teatro essa ideia de serviço público que anda tão arredada da alma do IPAE (também por isso as declarações de Paulo Cunha e Silva surgem tão prometedoras face ao comprometedor atavismo e cinzentismo da politica actual ). Porque a questão principal não é se se deve subsidiar, ou não. A questão principal é que não se justifica que o Estado gaste um centimo que seja num aparelho burocrático, ou num organimso relacionado com o Teatro se este não tiver inscrito, desde a testa aos pés, a missão de desenvolver a arte e a cultura teatral em Portugal. Da testa aos pés. E se este objectivo informar toda a iniciativa desse organismo, e se isso for tão claro que não haja qualquer hipótese de cada um dos colaboradores deste organismo terem alguma dúvida sobre isso, nenhum deles pode funcionar sem que seja defenido, em cada uma das esferas de actuação, o modo de cumprir esse objectivo. Por exemplo, num modelo misto em que vivemos hoje em Portugal, em que o Estado realiza parte das actividades relacionadas com o teatro e que encarrega os actores teatrais e culturais privados da realização de outra parte dessas actividades, 1. Sendo os teatros nacionais, as escolas artisticas públicas(independentemente dos níveis), os institutos ou serviços públicos (como o Camões, o Inatel, o Museu do Teatro, o Observatório das Actividades Culturais, as autarquias, os instrumentos de que o Estado directamente dispõe para concretizar a parte que lhe cabe na missão de desenvolver a arte e a cultura teatral em portugal, eles, sobre esta missão concreta, devem estar ajustados e coordenados numa estratégia comum e partilhada por todos; 2. Sendo os diferentes actores teatrais e culturais privados os recursos a que o Estado pode recorrer, contratualizando, para a concretização de serviços que complementem a parte da missão de desenvolver a arte a a cultura teatral em Portugal que ele, estado, não tem capacidade de, por si só, garantir, há que ter a coragem de não só definir principios para a realização dos serviços contratualizados, como de, consequentemente, ter uma atitude proactiva em relação aos diferentes actores teatrais e culturais, ajudando-os a melhor prestarem os serviços que com eles foram contratualizados; 3. Sendo os recursos financeiros destinados à  missão de desenvolver, directa, ou indirectamente, a arte a a cultura teatral, limitados e escassos, há que aumentar esses recursos, quer através das fontes de financiamento públicas, e fazendo para isso algum trabalho de casa sobre a comparação com outras polí­ticas para o teatro no espaço europeu, quer incentivando a criação de novas fontes de financiamento (receitas de bilheteira, patrocinios, apoios). Um organismo criado para implementar as poli­ticas públicas para o teatro deveria ter como objectivo a coordenação de todos estes campos , e principalmente da criação de um clima de confiança entre todos eles. No domínio da acção directa do Estado, este Organismo só teria justificação se conseguisse aumentar a eficiência da acção do Estado através de todos os seus serviços e organismos; no domí­nio da acção indirecta do Estado, se conseguisse criar as condições para os agentes privados desenvolverem do melhor modo o serviços que lhes são pedidos, devendo para isso ser proactivo; Por exemplo: sabendo que muitos grupos, porque são organizações de natureza empresarial ou associativa muito frágeis, têm grandes dificuldades em cumprir os seus compromissos fiscais, antes de se confrontarem com o facto consumado de o mesmo grupo não se poder candidatar a um apoio por não ter cumpridas essas exigências legais, porque não trabalhar, antecipadamente, com os grupos, as finanças e a segurança social, no sentido de estabelecer compromissos que possibilitem o reingresso dessas organizações no sistema? Trata-se apenas um exemplo, para dar conta de que um Organismo do estado como o IPAE ou o novo IA, deverá ter genica, alma, objectivos e estratégias, mobilizando todos os seus recursos na prossecução dos mesmos. E que não seja tão ineficaz quanto o IPAE na gestão do dossier Artistas Unidos. Há um lado perverso de toda esta ideia que acabei de desenvolver. A da criação de um dirigismo teatral e cultural que, a pretexto de um alter ego consubstanciado numa estratégia, poder sentir-se autorizado a dizer o que se deve ou criar em Lisboa, no Porto ou em Trás os Montes. Há que voltar a ele, até porque dadas as características da nossa administração pública, não é um aspecto negligenciável.
Augusto Abelaira morreu. Já há muito que tinha deixado de escrever na água, o que para aqueles que, como eu, cresceram a ler Abelaira, era um desaparecimento prematuro de uma lucidez partilhada nas páginas de jornais. Só que agora, foi de vez. Volto ao sotão, para reler as páginas amarelecidas dos recortes de "O Jornal", que tantas e tantas vezes comprei únicamente para encontrar Augusto Abelaira. Sendo que reler Abelaira é também reencontrar um tempo onde a crónica fazia viver o corpo dos jornais.