sexta-feira, janeiro 30, 2004
De que é que
falamos quando falamos de amor? Ontem, antes do filme de Woody Allen, ajudei a criar o clima próprio para a atmosfera dos "alliens" ( seguidores de woody allen), escarrapachando-me ali, no meu não sensus. Dizia-me no outro dia uma amiga: "o paradoxo da dor é que ela dói não tanto no sítio onde se faz ferida, mas mais no lugar e no tempo em que se cicatriza. "
Barnabé, na primeira pessoa
Ontem, na fila do cinema, encontro o Daniel Oliveira, simultaneamente orgulhoso e preocupado com o facto de terem acabado de ultrapassar o pipi: " é estranho, quando vês que tens duas mil visitas diárias começas a pensar se isto ainda é gozo ou não começa a ser um pouco obrigação, trabalho. Primeiro foi quando ultrapássamos o abrupto, agora o meu pipi. Eu penso que isso também se deve ao facto de sermos uma equipa que "posta" muito, diariamente. " Talvez. Embora o Barnabé, mesmo que nem sempre se concorde, seja um dos mais mais aguerridos e combativos blogues cá do pedaço, e por isso a sua popularidade seja conquistada dia-a-dia. É claro que a presença anterior do Daniel - que tem nome de poeta, um dos maiores que a terra nos deu - no Blog de Esquerda, onde era um dos mais activos e dinâmicos blogadores, também tenha ajudado ao desenvolvimento deste projecto que também contou com o novo ambiente de trabalho disponibilizado pelas ferramentas do weblog.pt. O mais interessante deste facto, que o Barnabé seja o blogue mais visitado, é que ele é, indiscutivelmente, um blogue de discussão, de opinião, de confronto, e sendo assim, não é só ele, mas também uma certa ideia de blogosfera, que sai, por agora, vencedora.
Quanto a política cai em mim ( resposta)...
"Caro Quim: Votar nulo não é o mesmo que abster-me, principalmente quando alguns dos meus votos nulos foram constituídos por colagens pornográficas que por si só já representavam uma tomada de posição. Eram muito mais do que uma simples rejeição ou brincadeira. Um verdadeiro voto de consciência, de quem já não tem mais força para votar no mal menor e que não receia o surgimento de uma ditadura. Hoje ela já existe. A ditadura da globalização, do liberalismo selvagem, do egoísmo de cada um. Também não é o voto que vai mudar isto. Por isso, estou de consciência tranquila. O meu modo de agir, todos os dias, é o meu contributo para o mundo, a minha forma de fazer política. O meu imperativo categórico é que me salva. Mesmo se melancolicamente descrente. Porque temos de desabafar. E mesmo assim já não fui a tempo de evitar a úlcera. Já tinha escondido dentro de mim muita coisa que não deixei sair. A palavra, ainda e sempre, pode servir-nos de consolação. É um oásis, para matar a sede de uma vida melhor. Cheers! "
Luís Graça
29-01-2004 18:54:13
quinta-feira, janeiro 29, 2004
No meio desta histeria...
duas notícias da SIC que me deixaram contente. Uma a de que Ricardo Espírito Santo, realizador da SIC, a assegurar a cobertura televisa do jogo trágico para Fehér, não demenciou. Nas minhas retrospectivas do meu estágio na SIC, ele é uma das presenças agradáveis na minha memória.
Por outro lado, li, no contexto de uma resposta a Eduardo Cintra Torres (meu nóvel companheiro da Direcção da APAD), a resposta de Daniel Cruzeiro a uma crónica de ECT. Lembro-me de que, quando foi anunciado o nome de Celso Cruzeiro para defensor de Paulo Pedroso e vi o noticiário da SIC desse mesmo dia, ter pensado para mim, para os meus botões " Ah! Grande Daniel!". Imaginei-o lá, a dirigir as operações. Calculei-lhe o sofrimento. Não estava, sei-o agora. Mas se estivesse, teria sido o mesmo. Fui, fomos, assistindo ao Daniel enquanto jornalista a fazer-se, ainda na Faculdade, ele já na SIC. Depois voltei a encontrá-lo no meu estágio da SIC. A forma como toda a redacção tinha por ele um grande carinho, enchia-nos a nós, aos da Nova, de um grande orgulho. E ele sempre a crescer, ainda no jornalismo desportivo, depois conquistando a sua carta de alforria deste campo. O advento da SIC Notícias veio fazer o resto na afirmação profissional do Daniel. Que além de excelentíssimo jornalista, é também, como diziam as avós de antanho, uma jóia de moço.
[E, curioso, também, não conhecendo Celso Cruzeiro, imaginei que ele estava a falar para os jornalistas com aquela paciência explicativa com que falaria para o seu próprio filho.]
quarta-feira, janeiro 28, 2004
De quando a política cai em mim...
Comecei a escrever este texto [entrada de Seg Jan 26, 12:06:14 PM ] e não o acabei. Tal como Mercado de Almas [ entrada de Quarta, Jan 21, 11:00:28 AM ]. Como já tinha acontecido antes com Blogosfera. Cumpre-se assim a natureza do blogar. Escrita em aberto. O texto tem avançado mas enquanto não ficar concluído ficará lá. Aberto á discussão dos peregrinos também.
terça-feira, janeiro 27, 2004
Reencontros
Desço até ao Rossio, combinei com o meu primo um café para comemorarmos uma nova morada. Com uma vista deslumbrante (era assim que dizia o anúncio e depois de pagarmos, acabamos todos por ser anunciantes dos reclames que consumimos) sobre o dorso da cidade. E sobre o estuário do Tejo. Com binóculos poderei mesmo ver os Artistas Unidos em acção no Teatro Taborda. É neste estado de pré-exaltação que ali, na dobradinha da passagem de peões que dá acesso à Rua Augusta dou de caras com o Pedro. O Pedro do Triato do Beato, grupo com o qual tive uma grande proximidade, como aconteceu com todos os grupos criados em torno da Máscara Teatro de Grupo ( o designativo indica desde logo a filiação com a Comuna), projecto teatral nascido e morrido nos anos oitenta.
Passamos para o lado de lá. Dois dedos de conversa, digo-lhe que estou a trabalhar com o Pedro Alpiarça e o Teatro Mínimo, que o Pedro Wilson tem uma encenação com o Cénico de Direito na Guilherme Cossoul:
"- Onde é que estás?
O Pedro, rindo, com ar malandro, adivinhando o meu baque:
- Sou adjunto da Manuela Ferreira Leite.
- O quê? - Recuperei a tempo.- E está tudo a correr bem? - Que pergunta mais cretina. Ele percebeu a minha total insinceridade. O que eu queria dizer era, quando nós conseguirmos que a MFL dê um trambolhão monumental espero que sejas do que tenhas menos nódoas negras, ou qualquer coisa do género.
E lá nos afastámos sorrindo. Havia ali um fosso terrível. Não tem nada a ver com o facto de eu estar nas antípodas deste Governo. Sim com o facto de eu ter a consciência muito clara de que Manuela Ferreira Leite é, no que corresponde à sua prática política, uma calamidade pública, e não faço a coisa por menos. Só de pensar que o Pedro pode ter contribuido para aquela ideologia miserável que perspassa pelo programa deste governo, para a sua retórica destrutiva, gonçalvista, congela-me o sangue nas veias.
segunda-feira, janeiro 26, 2004
De quando a política cai em mim...
1. Um comentário do Luís Graça sobre a entrada "Aforismo Político", fez-me cair na minha relação com a política. Não apenas a mais recente, mergulhei num eixo que vai até ao verde da minha infância.
2. A razão porque falo no verde, que é tanto o musgo viçoso dos muros como a terra fresca junto do regato, é porque ele é fundamental para eu me apropriar do sentido da política, já que também aqui, há uma força anímica que se constitui enquanto discurso antes mesmo de chegarmos à fala. E depois, quando a ela, à fala, acedemos, muitas vezes construímos discursos que parecem contradizer esse ânimo..
3. Digo que parecem contradizer. Em primeiro lugar porque este primeiríssimo ânimo é da ordem da matéria, do orgânico, do bio. Sendo o movimento, seja ele qual ele for, tenha ele o sentido que tenha, o primeiro auspício da política em nós, ele habita num nível anterior, o da acção que se reproduz sem comando nosso. É assim preciso um pouco mais do que o discurso para que o discurso da não vida, da não política, ou da anti-vida ou da anti-política, possa constituir-se como negação desse tal ânimo que nos vem do tempo em que ainda não verbalizámos o verbo que em nós já aconteceu. E esse pouco, ou muito mais é da ordem da violência, sabemo-lo.
4. Aqui como num texto anterior, coloco em planos que podem parecer quase opostos, a questão da verbalização e a da intuição. E mais do que isso, de uma forma que pode denotar uma obsessão recente. Tenho alguma esperança de que não seja nenhuma obsessão. E também não será, e isso sei-o ao certo, tão recente em mim. Embora, seja relativamente novo, um ou dois anos, este fastio insuperável pela névoa de mentira, de propaganda. E hoje, o divórcio que sinto com o mundo onde vivo é essencialmente uma fractura que passa ao nível da linguagem. O meu drama pessoal é sentir que apenas o silêncio me pode dar alguma paz individual e que, no entanto, este calar é, face ao odiento da propaganda e da mentira, e ao verdadeiro crime contra a comunidade que elas representam, uma forma de nunca ter paz. Não que me importe. Só que não reconheço, senão momentaneamente, algum sentido nessa luta. Principalmente porque só a sei travar com a linguagem. Choque de linguagem contra a linguagem. E senão me é permitido acreditar nem desesperar, que me seja ao menos acessível ferir a minha expressão com a angústia. Bastar-me-ei, feliz e contente como uma criança, com isso.
5. E se, nem que seja por momentos, desabitarmos este mundo flácido, pastoso e viciante das palavras, apercebemo-nos de uma fonte de energia que antecede a nossa construção da política e que é em si mesma a sua génese. O sem abrigo que dorme na Almirante Reis, sabe-o bem. Se lhe formos perguntar o seu partido ele dir-nos-á, como o Luís Graça, o disse aqui, badarmerda prós políticos, foram eles que me conduziram a este atoleiro. Mas depois, acabámos de virar as costas, dobrar-se-á sobre si mesmo e ajeitará o papel de jornal sobre o cartão, como se uma dobra de lençol de linho fosse, e nesse gesto estará encrostado todo um tratado, se bem que não aristotélico, da política no mundo, nos seres, nas coisas. Para que este tratado se interrompa é preciso um tanto de violência. Que poderá ser a morte, essa violência intrínseca ao movimento. Ou poderá ser a recriação da morte que, através da violência, praticamos com bastante frequência. Seja o que for: não bastará a verbalização da violência.
6. Porque é que esta questão do lugar da linguagem é importante na política? Em primeiro lugar se todo o programa político parece assentar na linguagem, na sua expressão, e se nesta ele atinge um tal modo de sofisticação que torna imperceptível a sua ligação à música, ao batimento cardíaco, a esse lá natural, é importante perceber que o grau zero da política não existe, ou melhor, não existe na linguagem. Eu posso dizer que estou-me ralando para a política, para os políticos, que não sustento chulos, que não voto, e tudo o mais que a minha retórica abstencionista sustentar, mas a verdade é que enquanto eu respirar, eu estou a inscrever-me num movimento diacrónico com este mundo, participando nele, estando disponível para todas as retóricas que saibam captar e conviver com o meu abstencionismo.
7. Parece demodé e pouco prático, falar em fascismo contemporâneo. E não é de facto adequado. Mas se substituirmos fascismo por totalitarismo, apercebemo-nos de como é que a retórica totalitária é a que melhor se adapta, convive, suga e explora a retórica abstencionista. Porque o totalitarismo é um circulo vazio que recai sobre todas as cabeças.
8. Porque o totalitarismo é um circulo vazio que recai sobre todas as cabeças. Até, e isso é um tema insuficientemente explorado, sobre o tirano, quando o havia. No totalitarismo não é só todo o mundo que é obrigado a sujeitar-se ao pensamento do tirano. Foi este o primeiro a abdicar do seu pensamento, encarnando uma suposta voz e pensamento de todos. Muitas vezes, com o destroçar das tiranias, apercebemo-nos, em relação aos tiranos, das suas alcofas, dos seus quartos escuros, das suas mansardas, e aí damo-nos conta de que eles também se escravizaram numa voz que não era a sua.
9. É importante voltarmos a esta ideia de totalitarismo e abstencionismo. Sabendo de antemão que estamos a falar de totalitarismo no viver e de abstencionismo no linguarejar. Ao abstencionismo no viver só acedemos através do fim da respiração. A primeira ideia que tem de ficar clara é de que o totalitarismo entre nós só pode suportar-se na morte, ou na suspensão do pensamento, ou seja, do indíviduo. O totalitarismo, enquanto voz para todos, é voz de ninguém. Sabémo-lo, nem do próprio tirano, quando os totalitarismos mais artesanais necessitavam deles.
10. Totus tu. Creio que era isto que os católicos que foram acolher João Paulo II quando ele veio a Portugal pela primeira vez, tinham nas t-shirts, nos pregões, nas almas. Todos teus. A ideia de totalitarismo, e ao falarmos da ideia de estamos a falar do totalitarismo na linguagem, cumpre-se pela entrega, pela violência, ou pela diluência. E se o todos teus dos manifestantes católicos se realizava na linguagem, o todos teus dos totalitarismos mais arcaicos e artesanais atingia a submissão na linguagem através da tortura e da sevícia, o todos teus dos novos totalitarismos realiza-se numa demissão, numa abdicação que não é expressa pela linguagem. Que recusa a linguagem como forma de expressar a sua individualidade.
11. Atrás escrevi, totalitarismo no viver e abstencionismo no linguarejar, e agora não concordo. Sem tempo de rever, assinalo esta discordância comigo mesmo. Assim, como aqui aparecem, são ambos realizados na linguagem. Se o abstencionismo no viver é o fim da respiração, o totalitarismo no viver será um lugar utópico, onde tudo o que a linguagem pode proferir já está enunciado antes da proferição. Onde a linguagem não é necessária. Ora não se vê, quer dizer, não se avista, que lugar é esse.
(incompleto. os textos que estão incompletos serão colocados numa nova entrada quando concluidos)
sexta-feira, janeiro 23, 2004
Crime contra a Comunidade
Nunca me ouvirão dizer que Durão Barroso ou Paulo Portas são dois criminosos. Mesmo que eu pense, e efectivamente penso, que deveria ser crime contra a comunidade o uso de estratégias de conquista do poder político que tenham de utilizar a delapidação da esperança e da alegria de uma comunidade.
Amnésia
Uma agravante ao trabalho dos discursos anti-política da direita, é de que quando ela se torna poder efectivo - e em Portugal a parceria Durão Barroso/ Portas, pela fragilidade do primeiro faz com que seja a primeira vez que a direita esteja, efectiva e maioritariamente, no poder - o descrédito sobre a política e sobre os políticos que ela laboriosamente produziu, induz um comportamento amnésico, que torna improdutiva a confrontação de posições. Não sendo o fascismo, é bom lembrar que todas as formas de impedir a possibilidade de refutação, seja pela violência seja pela diluência, são expressões de um comportamento totalitário.
quinta-feira, janeiro 22, 2004
Aforismo político
Duas das razões porque me incomodam os discursos generalistas sobre a corrupção, inépcia e incapacidade dos politicos são, a primeira, a de que, de uma maneira geral, me incomodam os discursos generalistas, e, a segunda, a de que os discursos generalistas sobre a política, bem como os discursos anti-política, são, geralmente, o cavalo de tróia das estratégias de conquista do poder político pela direita.
Blogs 2 - Absorto
Apenas as boas vindas a este outro blog. Por agora. Ainda direi mais, em tempo. Por agora apenas o leve indicar com o dedo indicativo, no reconhecimento de uma amizade, solidamente forjada num projecto comum. E um pequeno roubo à sua entrada de 14 de Jan. sobre a apresentação de mais um livro em branco. Os sublinhados são do respirar:
"Não sei se alguém está verdadeiramente interessado, e tem capacidade, para questionar a deriva político/mediática do Dr. Pedro Santana Lopes e a sua ligação aos desígnios políticos futuros do Dr. Portas. Eles encarnam ambos o modelo dos políticos que nunca exercem, em pleno e a fundo, as funções para que foram eleitos mas que se mostram, sem subterfúgios, sempre interessados em saltar para "outro lugar". Não sei se estarei a ser injusto mas sei que o Dr. Jorge Sampaio, hoje Presidente da República, e antes Presidente da CM de Lisboa, nunca deixou transparecer, no exercício desta função, a aspiração ao exercício daquela outra. A função que lhe compete exercer, o Dr. Jorge Sampaio exerce-a, em cada momento, com determinação, honestidade e competência. Concorde-se, ou não, é um modelo de político que o país não pode dispensar. Esta questão do perfil pessoal e político do PR é uma questão de fundo. É cedo… É tarde… Por mais que se diga que ainda vêm longe as eleições presidenciais o Dr. Santana Lopes será a única hipótese de tornar o Dr. Portas maioritário…perceberam?
Blogs 1 - Outro, Eu
Umas botas em ângulo recto, numa esquina, foi o última entrada do Outro Eu. Depois disso o Carlos Vaz Marques, foi-se deixando ficar, e um dia perdeu mesmo a chave da casa. Há aqui uma lição essencial sobre o blogar. Sobre o que é ser acessível ou inacessível na blogosfera. Contas feitas à vida, e à memória, CVM optou pela nossa sugestão: mudou a casa de rua. Outra lição daqui: podemos mudar as casas de uma rua para a outra de tal modo que não precisamos de dizer, como cá fora: mudei de casa, agora a minha casa é...basta dizermos, a minha casa agora mora em...O que para lá da economia do verbo é também mais confortável para quem nos visita...é a mesma casa, mesmo se de um Outro, Eu.
Para mim, que me habituei em ter no Outro, Eu uma visita regular, numa altura em que eu andava com frequência pela blogosfera, estou numa fase de arrefecimento global, é um regresso que saúdo com alegria.
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Cinco anos
A Sofia escreveu um texto longo, comovente. A Inês tem agora uma mão inteira, dedo a dedo. Eu sei, eu liquefaço-me com alguma facilidade, terei também assim o coração piegas. Principalmente agora que vivo o maior desafio da minha vida: como reiterar a minha presença, nesta ausência. Desafio tranquilo, a meias. Aliás, a trio; o petiz, a perdiz, também, percebendo alguma coisa pelos espaços em branco, ajuda.
A propósito: não estou a falar do meu caso mas às vezes magoa-me a minha masculinidade. Quando penso que nesta nossa sociedade de machos sempre nos castrámos voluntariamente de um dos maiores privilégios da vida (crescer.com ). E que essa tradição se refecte em todo o edíficio que estabelece como natural a vinculação da mãe à cria, independentemente do estádio de desenvolvimento desta. E a desvinculação natural do pai. Não estou a falar do meu caso, não só porque não estou, nesse domínio saíu-me o treze no totobola, também porque nunca me atreveria a falar dele aqui. Estou apenas a tentar perceber-me nesta ideia muito simples: a nossa sociedade será tanto mais justa para os seus homens e para as suas mulheres quanto for mais justa a sua ideia de homem e de mulher.
Mercado das Almas
No outro dia estava a ser julgado pelo meu afecto muito especial pelo B'leza. Era uma conversa muito abstracta, muito generalista, como convém. Ou porque convém. Dizia-me uma amiga, e havia ali dedo em riste escondido, que se encontro alguém é no B'leza. E não sendo verdade, e não sendo de todo verdade, até pela força da realidade que não pode ir agora transmutar-se para cumprir a sentença, há algo de espantosamente verdadeiro e luminoso nela: é que de facto, se procurasse alguém seria no B'leza que o faria. Embora aqui, tenha vindo laboriosa e continuadamente a escrever este aforismo cujo sentido extravaza de longe as minhas melhores noites b'lezianas: "felizmente aquilo que encontro não é aquilo que procuro..."
Há na noite b'leziana um segredo que frutifica o próprio mistério que habita a noite, todas as noites. Mas que depois plana, como um condor, sobre a única única noite que desabita um homem, uma mulher, da escuridão que, como uma praga, uma maldição está suspensa sobre as nossas próprias cabeças. Eu sei, estas são palavras-gerais.
Naquele palacete onde ecoam as memórias de uma certa noite lisboeta, aquela que se bifurcava à saída do Ritz Club , em direcção quer às noites longas quer ao lontra, ouviam-se as vozes de uma ideia de áfrica que, a partir de um número reduzido de acólitos, se espraiou por todos aqueles que como eu, nunca tendo estado em áfrica, se reviram do avesso aos primeiros acordes desse fado chorado, a morna. Sôdade di Futuro, em crioguês, bem poderia traduzir a alquimia que torna possível este encontro naquelas paredes decadentes, enfumadas de um salão de festas colonial.
Voltemos ao Mercado das Almas. Traficar almas é sempre iniciativa complexa, errante, indefenida. Alguns chamam-lhe mesmo actividade predadora.
Não sei. A lógica do domínio desinteressa-me. Mesmo que um dia venham comprovar-me que as minhas células falam a linguagem das espécies e que nestas a dicotonomia dominar/ser dominado é o principio estruturador de todo o linguarejar, eu espero ter algumas palavras de reserva, livres, indómitas, para, na altura certa, me revoltar contra essa imposição.
E para esse tráfico de almas elejem-se lugares santos. Conheci gente que se ajoelhava na Kapital, que rezava convictamente no Kremlin, que se entregava naqueles varandins maravilhosos do Lux. Sacerdotes, acólitos, iniciados, ou meros crentes. De uma religião universal que é esta inquietude, este agitar de alma, este tenho a morte toda para dormir, estou aqui e sou ali, serei agora e sempre, em toda a parte, o teu pequeno deus deste momento, as capelas beatas deste mundo encerraram as suas portas às 21h. A igreja católica que é tão estúpida como aquele céu onde se abriga, onde se esconde, onde se revela, devia abrir-se ao mundo, abrir lojas de conveniência 24h sobre 24h, vem até mim e serás salvo, esta é a casa do senhor, não, a partir da meia noite só os lugares pérfidos, vem-te em mim, que se f. a salvação, digam o que disserem há uma pacto de tortesilhas assinado entre deus e o diabo, por iniciativa deste, e desmazelo do outro, claro...poderia ser só isto mas não é, nem seria bastante. Insisto na questão da comunicação. Da forma como falamos daquilo a que não conseguimos aceder pela linguagem: se os três esses ( sexo, solidão, sacanagem e solilóquio ) fossem a única forma de justificar todos os circuitos, todos os itinerários, todas as deambulações, a noite já teria morrido há muito. Também de onanimismo. Poderemos tentar exprimi-lo. E talvez algures a poesia o tenha conseguido. A mim agrada-me a ideia de que há uma elaboração do poema nos passos nocturnos, no som da sola contra a calçada, da pele contra o soalho. Ou melhor, que é aí que o poema se elabora.
Não sei assim o que é que um lugar precisa para constituir a sua santidade, mas sei que o B'leza é esse meu lugar. É um lugar como outro qualquer. Mas é o meu lugar. E mesmo sabendo que no esgotar das horas nocturnas há uma sábia felicidade " em aquilo que encontro não ser aquilo que procuro", voltarei também de novo à ideia de que, independentemente da alma que encontre, o que me define, o que me faz gente, é a natureza e qualidade da(s) alma(s) que procuro. E essas, sei-o de antemão, são varridas por esse mesmo zénite, 30 graus de longitude, ali, entre a D. Carlos I e a Calçada Marquês de Abrantes.
(incompleto)
segunda-feira, janeiro 19, 2004
A dignidade do ser inerte
Falar com as árvores é uma arte que não está ao alcance de todos. É preciso preparação. Antes de tudo é preciso saber amar o que nos rodeia. Depois, pacientemente, perceber a dignidade do ser inerte. Saber a língua dos seres que deixam cair folhas no Outono e zumbem de noite, em diálogos com o vento.
Luís Graça
14 de Janeiro de 2004
Sem justificativo
Escrevi " A minha vida, a nossa vida, não tem alguma justificação, seja ela qual for".
E a retórica deste nilismo, ao mesmo tempo burguês (há qualquer coisa de luxuoso em um de nós poder, pelo pensamento, prescindir do sentido da vida) tem de ser desmontada.
[porque nem a todos é dado abrir as portas destas trevas do pensamento. há gente entre nós que vive o inferno na pele, no sangue, nos ossos dos dias e dos minutos. e dizer a esses que não há esperança é ir ao fundo de uma desumanidade cabrã, malsã.porque sabemos que sem ela deixam pura e simplesmente de resistir. ]
Quando digo que, do lugar onde hoje habito, a minha vida, a nossa vida, não tem alguma justificação não quer dizer que atingi esse ponto de clarividência sobre a minha vida e sobre os demais que me permite dizer que a vida, a nossa vida não tem sentido.
Quero apenas dizer que eu, racionalmente, filosoficamente, (não quero, dirás, e talvez o digas com propriedade) não consigo chegar à formulação dessa justificação.
Face aos paradoxos, às monstruosidades, ao desperdício humano desta existência, à miséria moral que é ver sofrer o outro e não podermos fazer desse outro sofrer o nosso próprio dilaceramento, eu não consigo articular, formular nenhuma justificação. Sei de cor e salteado todas as conjunções possíveis, as frases a metro e de pacotilha, mas tudo isso, mesmo que dito pela gente mais respeitável, é tão pífio, e simultaneamente indecoroso, que mais vale calar.
Ou seja, em relação a este aspecto, a justificação da existência, assumo a fractura não entre pensamento e linguagem, mas entre a linguagem do pensamento e a linguagem a que o meu pensamento não consegue aceder. Que é a deste animismo que me devolve, manhã após manhã, à vida.
E que assim, na sua própria linguagem, formula um sentido cujo borbulhar de palavras ( nem sei se é com palavras que ele fala) me é tão traduzível como o ladrar de um cão, o grasnar daquele bando de cisnes que agora saiu do lago ou o troar da lengalenga repetitiva dos meus passos a fazerem-se à Calçada do Monte.
Metáfora Felina
muitas vezes pensei na minha vida através de um paralelismo com a vida dos gatos, os tais que só ao fim de sete tentativas acertam as vezes com a Criação. Era uma espécie de travejamento afectivo com o tema da transmigração das almas que escutei pela primeira vez em Somerset Maughan em Exame de Consciência, e ao qual, filosofiamente sempre aderi.
há uns dias ao escutar-te a glosar este meu tema, distanciei-me dele. tenho apenas uma vida, bicéfala, claramente bicéfala, mas também, não menos distintamente, uma só vida.
bicéfala:
1. até hoje, mais coisa menos coisa, a minha vida foi construida na ideia de que só se justificava cumprindo-se numa ideia de comunidade, fosse ela qual fosse. E este ressoar colectivo em cada um de nós, era pedra de toque para que cada um procurasse a sua solidão de gentio, a sua expressão própria.
2. a partir de hoje, mais ano menos ano, estou à porta das minhas próprias trevas [digo pela última vez, sacudo as almas piedosas como quem enxota moscas, a luz que pressinto nesta escuridão é que me guia]. A minha vida, a nossa vida, não tem alguma justificação, seja ela qual for.
sexta-feira, janeiro 16, 2004
Quando nos lembramos
É porque houve um trabalho anterior de esquecimento. Eu sabia disso. Mas tinha-me esquecido. Até me lembrares disso.
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Ainda o silêncio...
mas agora o seu murmurar. leio um a um cada post e a inteligência e o humor daquele que murmura cativam-me. E claro que fiquei perturbado com esta notícia.
quarta-feira, janeiro 14, 2004
O silêncio
Ao ler o que a Sofia escreveu, rompendo o seu silêncio sobre o caso da Casa Pia, eu, que já não falo sobre isto porque me parece que já falei em demasiado deste assunto, começo por me deliciar com a sua expressividade. Há nele (neste silêncio) algo que é amável. Algo que se propicia a constituir-se como objeto amoroso. E antecipo em mim uma viagem pelos bairros onde o meu trabalho de animador me levou, de uma forma ou de outra. Desde a Pedreira dos Húngaros ao Alto da Damaia, da Quinta da Calçada à Quinta das Laranjeiras ou ao Bairro da Boavista. Vejo centos de crianças com quem cresci de forma decisiva. Vejo até o pequeno Anselmo, um miudo com seis anos e meio e uma cara de anjo. Estávamos no pátio da escola, ao pé de uma pereira, a brincar com os meus fantoches e ele, era o dia mundial da árvore, pergunta-me:
- Também já plantou uma árvore, Joaquim?
- Não, ainda não, Anselmo. Mas já falei com elas hoje. Dei-lhes os parabéns.
- Deu nada...
- Dei sim. Eu costumo falar todos os dias com as flores e com as árvores. E hoje lembrei-me que elas faziam anos.
- Falar com as árvores?
- Não queres experimentar?
- E o que é que eu digo?
- Que gostas muito delas.
- Como se fosse minha namorada?
Sorri benevolente, sem pensar no que viria a seguir:
- Sim, pode ser. Podes fazer uma declaração amorosa.
Em menos de um ai o Anselmo, um puto loiro com merda na face, salta para cima da árvore e começa a cavalgar em cima dela:
- G'anda vaca...ganda puta...toma...toma...- dizia gingando a anca - toma sua g'anda vaca...puta...
Fiquei colado ao chão, claro. Quando contei isto à psicóloga da Equipa, começaram a vir, como um novelo, histórias de visitas regulares à barraca da mãe do Anselmo, um cubículo onde a respiração ofegante e cavernosa dos homens ficava ali, colada aos ouvidos, aos olhos do pequeno Anselmo. É também isto, estou certo, que a Sofia chama de terror.
E eu gostava, mais por causa de nós mesmos que do Anselmo, que fosse possível pensar, nem digo pensar, digo esperar, que a mesma sociedade que pariu o terror, esteja agora a construir o seu antídoto. Mas não posso. No fundo daquilo a que chamo a minha lucidez, concubina de olhos lassos e cansados que se enrijece de medo sempre que atiço a escuridão para a conseguir encontrar, eu sei que esta comunidade de vózes só está a refastelar-se com uma purga para poder continuar, pelos séculos dos séculos, a aterrorizar-nos.
E não é pessimismo. Pessimismo é não olhar o mal e a sua natureza de frente.
ESTREIA NO GIL VICENTE...
Pois é Carlos, se fosse no Gil Vicente que mora ali ao fundo da Rua do Sol à Graça, já lá estava. Mas assim vou ter de ver as aventuras extraordinárias do príncipe e do castor pelos olhos dos afortunados que, vendo-o, generosamente o contarem. Custos da insularidade.
SOUS LES PAVÉS, LA PLAGE !
Um pouco mais de blog... É assim que Rui Bebiano, o editor da NON, anuncia que caiu na rede dos blogs. Diz ele, rendeu-se. Eu também não preciso de esperar para me declarar desde já rendido.
sexta-feira, janeiro 09, 2004
Uma graça nunca vem só...
Amo também as manhãs. As manhãs como esta em que um homem sente que se pode apaixonar por uma casa. Quer desça a Calçada do Monte em direcção à Rua do Bem Formoso, quer se atire ao Martim Moniz pela Calçada da Graça, em direcção à Rua de São Tomé. Precorro os olhos à procura dos telhados, das águas furtadas, das vistas para o rio. Imagino-me lá, naqueles lugares onde roça o meu olhar, aqui, é aqui que eu quero amar e pertencer a esta cidade. Irei talvez saltitar de ponto em ponto, o amor não é uma questão de perspectiva, a paixão sim, o amor não, o amor entesa-se e enrija-se com a perspectiva, aliás, o amor é cego, entesa-se e enrija-se com tudo.
Amo também as manhãs. As manhãs em que a arquitectura se anuncia meio carne, meio argila. Não uma combustão nem uma fusão. É uma comunhão. Ardem em mim os caboucos desta casa que ainda não existe mas que, existirá. Lembro-me da Pilar, de um eterno paraíso, "na minha vida as pessoas são como casas e as casas assemelham-se a pessoas". Estou no Martim Moniz.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
Utopia e Desesperança
No outro dia, num chat, encontrei alguém que, quando lhe disse que não tinha alguma esperança no ser humano, me defendeu o mais vigorosamente que pôde, um mundo de utopia. De crença numa determinada ideia de Justiça. Para ela 3%/97% não era de modo algum a falência do projecto humano. Pelo contrário, de dedo em riste, vituperava os 3% que andam a dar cabo do mundo.
[3%/97%, era um nome de um espectáculo já com muitos anos de um grupo inglês que se constituia nesta terrível equação: 3% tem 97% dos recursos, 97% têm 3% dos recursos.]
Não que esta não seja, como outras, estratégia legítima de tentativa de salvamento do naufrágio eminente. Mas há medida que tentava compreender melhor esta lógica incriminadora, percebi que a minha interlocutora não se considerava nem nos 3%, nem nos 97%. Tanto uns como os outros eram pronunciados através do pronome pessoal eles. Eles os 3% que lixam o futuro dos 97%. Eles os 97% por cento que são lixados pelos 3%. Creio que não lhe disse o que pensava desta lógica. Arrisquei apenas, como despedida, dizer-lhe que para mim, não há eles nem outros, nesta história. Talvez seja uma decantação profunda de uma mocidade cristã embrulhada com os valores de uma democracia acabadinha de chegar, mas a verdade é que para mim não é uma figura de estilo dizer que a "corda que ata o outro também me prende o pé". E que a morte do outro me morre a mim também.
[É por isso que não suporto mais essas caras de espanto que imagino em alguns de vós quando lêem que não tenho esperança no ser humano. Parecerá até doentio, nilismo provocante, desestruturador, dirão entre vós. Ou os mais piedosos, o que se passará com o jpn? Nada, caríssimos idolatradores de sois incandescentes, continuo como vós e convosco a adorar a lua, as estrelas, cadentes ou carentes, os cometas. E àquela poeira cósmica que nos confunde. E até, no sobressalto de uma noite tranquila a lua por vezes acorda-me com um beijo, um abraço, pleno de sabedoria antiga. E amo a vida com todo o vigor das minhas células, do meu sangue, daquela inteligência que me antecede e sucede ao pensamento. A superior inteligência das coisas e dos seres. A superior inteligência das coisas e dos seres, esse teorema que me acompanha desde os quinze anos. E não é só de noite. Amo também as manhãs. As manhãs como esta em que a arquitectura se enlaça com o homem.]
Diário de um desligamento?
Uma das muitas faces da sedução de escrever num blog foi para mim o de uma maior ligação. A escrita tem essa componentes mágica, pode afirmar até a morte do mundo mas, enquanto proferição, enquanto sopro antecedendo e sucedendo à fala, constitui-se como mais uma achega para a sua prova de vida. E nem sempre estaremos a falar de coisas tão graves e descomunais. Neste caso apenas da solidão de um homem. De uma perda de conectividade. Vai longe o tempo em que o que em mim brilhava era esta vontade de ligar, religar, refazer, unir. Outros são os tempos. As cintilações. As constelações. A haver algum instante de luz própria o que em mim reluzir neste momento será este desconectar, este desligar, este desunir. Pelo que agora, continuar a escrever aqui não me seduz. O blog, honra lhe seja feita, não se abre nem se enuncia como um lugar de desligamento.
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Não trabalharás no Dia do Senhor !
A morte não respeita os meus Domingos. Comecei pela Basílica da Estrela, segui para o Alto de S.João, onde uma prima minha foi cremada. Agora, isto. A morte do Eduardo Guerra Carneiro. Sempre esta estranheza perante a morte, esta garantia da injustiça. Apenas meia-dúzia de palavras trocadas com o Eduardo. Mas sempre a saber-lhe o rosto a espreitar no balcão do bar "Tertúlia". Lembro-me dele dos debates promovidos pela APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) uns metros abaixo, no "Targus", há uns dois anos. Sempre aquela fleuma pensante. Mais um elemento da minha tribo a desaparecer. Mais um familiar que se foi. A morte não respeita os meus Domingos. E lá fora ecoam cornetas a saudar vitórias de um futebol que também já morreu, ferido pela violência e pela mediocridade. Procuro refúgio nestes apartamentos escritos por amigos, que se chamam blogs. E recordo o azul maravilhoso do céu de hoje. Ainda há esperança.
Luís Graça
4 de Janeiro de 2004
sábado, janeiro 03, 2004
No Chiado, entre um filósofo e um poeta se faz um fim de tarde...
Ontem estava com o meu primo, quando de repente apareceu ele, ali derretemos "une bonne demi heure", o filósofo, cumprido o seu dever da amizade soltou-se rumo à biblioteca em movimento que nasceu ali onde antes eram os grandes armazéns, deu lugar ao poeta, vinha a subir por uma realidade inclinada que está no top expresso para os 10 melhores livros de 2003. A realidade inclinada. Gosto deste título. De cada vez que o leio tem a força de uma imagem. Onde também cabe aquela poderosa metáfora de Sam sobre o poder: uma cadeira com o tampo inclinado. Ideia que lhe tinha surgido, disse-nos ele uma vez numa entrevista, ao pensar no nosso ditador.
O jogo das diferenças
"Como se assinalar as diferenças fosse olhar no passado do outro um percurso singular que o trouxe até nós. A tua diferença é esse tempo que cresceste sem mim"
Tempo, que nalguns casos, será realmente o tempo que teremos de precorrer para nos encontrarmos.
Bricolage e depois o quê?
Uma vida o que é? Ao desfazer pela segunda vez uma casa apercebo-me de que cada vez é mais fácil perceber que o essencial não é nem sequer uma pequena mala de mão. A única coisa de que não me apartaria - e mesmo isso não sei se um dia...- é deste corpo que, alimentado a tratos de polé, insiste em resistir. É claro que eu juntaria sempre mais algumas glórias. Livros. Discos. Uma ou duas marionetas. Dois ou três cds.
[Um deles com tudo o que eu escrevi até hoje. Escrevo há mais de vinte anos e ainda não escrevi, daquela escrita que fica, com a sua impressão digital, mais de 700 MB. Nem nada que se pareça.]
Redacção
"Quantas semanas faltam para terminarem as aulas? - Para terminarem as aulas faltam duas semanas."
Foi também assim que eu passei da 1ª para a 2ª classe, estávamos ( estávamos quem, perguntas tu!) em 24 de Junho de 1969. E hoje ao reler esta simples frase, no sussuro daquela voz de comando, "quando se algo nos pergunta, deveremos - candidamente- começar por incluir a terminação, quer dizer, o fim da pergunta" percebo porque é que nunca poderei ser feliz. Antevejo até uma fila, que digo eu, um carreirrinho de coros perfilhados. Diante deste descontentar contentinho de quem inclui sempre a terminação no começo de uma frase. De uma frase? De tudo. De tudo, c.! Filhos de uma g'anda p.
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