quinta-feira, junho 30, 2005

Enamoramento

Vive em mim como uma doença mortal, a paixão. Mas até ela não resiste ao racionalismo estóico onde construí toda a minha vida. Digo-o estóico e deveria talvez dizer masoquista, há anos que o desanco e ele continua aqui, imóvel no seu desejo de me arrancar ao sofrimento da existência. Ao enamorar-me de ti transformo-te numa transparência por onde acedo aos mundos que em ti vejo. Eu poderia dizer-te que é por ti que me enamoro, que me apaixono. E andaria próximo do real. Só que faltaria à verdade do que quero. Estou desde sempre ferido de morte por esta obsessão de mundo. Amo os mundos que sou capaz de entrever. Amo-os tanto e tão delirantemente que um dia percebi, eu iria morrer cedo se não arranjasse uma forma de suster a paixão pelo universo. Não me foi dificil. Olha à nossa volta. Tudo é quase isso, um sonambulismo militante. O problema não foi adormecer, foi decidir despertar da letargia em que me encontrava. Por isso admiro tanto o que a palavra querer faz à tua vida. É em vão que me tentas aquietar. Como uma porta aberta para o universo todo, tu és mundo em mim.

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