quinta-feira, agosto 04, 2005

Deposito na banheira os meus restos mortais

No elevador descalço-me. Não tem nada a ver com o ruído que posso provocar, porque não uso sapatos altos. Até me consigo equilibrar e não me importava nada de ser mais alta, mas desde os catorze anos que os deixei de partilhar com a minha mãe. Atavio estilizante, mas pouco prático. Gosto de correr para as coisas: para apanhar um autocarro, alguém conhecido na rua, empolando a surpresa com um cerco inopinado ou com um salto inesperado. Um susto. Gosto de poder saltar os muros do caminho, sempre que os há. Certas mulheres ficam para trás de certeza, com sapatos de salto. Doem-me muito os pés, o dilema são sapatos novos. Prendo a sapatilha do pé direito com o pé esquerdo, descubro o pé branco e faço o mesmo com o outro. Estou cansada. Percorro o caminho do patamar do andar até à porta de casa, em pés nús de lã. Sinto-me sorrateira e é delicioso. Que pena não fazer sentido continuar. A casa vazia, tudo de férias. Rodo a chave na fechadura. Chego a casa de vez. O corpo pede cama. Mas antes de "depositar na cama os meus restos mortais" como frágil se sentiu Jorge Palma, encho a banheira de água quente quase ao nível do transbordo e mergulho-me lá. Sem espuma, para poder ver-me, o verniz estalado das unhas dos pés. Uma intimidade desconcertante a da banheira. A pele repuxa de quente que está a água. O confronto é obrigatório. Estico as pernas acima do nível do corpo. Os pés. O momento em que mais reflicto a relação com o meu corpo é durante um banho de imersão. Não é um exercício narcísico. É um reencontro depois de ter passado vários dias sem o ter pensado. Sou contrária à idéia platónica de corpo enquanto "recipiente", "prisão" da alma. Se uma alma existe contempla o corpo como uma continuação e meio de acção. O mundo das ideias não é contraditório ao mundo físico, baseia-se na dor que eu sinto nos pés, no corpo que vejo, nas letras dos livros que me tocam. Dispersa e volatilizada como água de uma nuvem de vapor, sou seduzida pelo sono.

2 comentários:

TMara disse...

bom banho k permite tais reflexões. Bjs e;)

maresia disse...

quando volto do mar, como agora, levo dois ou três dias até me sentir à vontade na água doce... habituada a outros ondulares, seca-me aquela água sem sabor. e que, logo ali, me parece sem saber. mas quando acontece, quando o doce vence o salgado, é "o" reencontro com toda a minha pele. lavo o sal, esfrego as escamas, revejo os arranhões, as nódoas negras e sei, sei que, se sobrevivi ao regresso, se voltei, foi apenas na certeza de me reencontrar para voltar.lá. onde o mar se faz mais ao Mar.

bom banho!