quinta-feira, agosto 11, 2005

A longa noite dos assessores

A primeira vez que ouvi dizer que Mário Soares seria candidato às Presidenciais sorri. Pensei que seria alguém a querer provocar Sócrates a decidir-se. Quando ouvi que Sócrates apoiava a candidatura de Mário Soares compreendi que não. Não se tratava de nenhuma brincadeira. O que tem a ver com a conversa sobre o pensar. A política portuguesa está esvaziada de pensamento próprio. É um mero jogo de estratégia. Os políticos portugueses estão a ficar cada vez mais ocos. Dentro da cabeça não têm ideias, nem opiniões. Têm um enorme medo de pensar. E assessores. O problema é quando se analisa a cabeça de um assessor. Os assessores -e os assessores de Sócrates são iguais a todos os outros - também não têm um cérebro normal como os de um cidadão comum. Eles têm uma caixa em cima do pescoço, no lugar da cabeça. Uma caixa quadrada com um tampa. Abre-se a tampa e o que se vê lá dentro? Múltiplos jogos de encaixe, de acção-reacção guardados em pequenas caixas. É por elas que reconhecem o mundo. Vivem num mundo encaixotado. Para melhor armazenarem a informação as suas cabeças são quadradas. Lá dentro milhares, milhões de caixinhas. Na cabeça dos assessores de Sócrates há, de entre essas milhares de caixas uma que tem escrito, Cavaco. Cavaco Silva. Quando abrem a caixa têm dois papelinhos. Um é laranja, o outro é rosa. O laranja diz Cavaquismo. Se tiver sido escrito por algum assessor mais diligente em letra miudinha, inclinada, tem a palavra Cavaquistão. No papel rosa tem Mário Soares. É uma espécie de reflexo condicionado. Os assessores de Sampaio não são diferentes. São tão iguais que quase se diriam os mesmos. É por isso que o Presidente recebeu os dois candidatos a candidatos e nem se deu ao luxo de receber a única candidata declarada. E recebeu-os um de cada vez. Não recebeu os dois ao mesmo tempo porque desde que morreu politicamente não sabe o que há-de fazer ao tempo. Recebendo-os em separado sempre se vai entretendo um pouco mais. É claro que não estou a dizer que Sampaio não tem nenhuma originalidade política. Claro que tem. É muito british e por isso tem uma concepção muito monárquica da República, pormenor aliás que levou à sua extinção política, há uns tempos. Quis falar com os dois candidatos a candidatos como se tudo isto já estivesse traçado. Como se não houvesse povo. O problema de Sampaio é acreditar demais nos seus assessores e de menos no povo. Mas o problema de Mário Soares poder ser candidato não é de Sampaio. Nem de Mário Soares que não está morto politicamente e tem todo o direito a travar os combates que entender. O problema de Mário Soares poder ser candidato é do Partido Socialista. Ele mostra a incapacidade dos socialistas constituirem um candidato que demonstre à saciedade que Cavaco e Silva só é um candidato temível enquanto se agitar o papão do Cavaquismo. Sem o papão do Cavaquismo o que é Cavaco? Um homem que sempre nutriu um desprezo especial pela política, que surge desprovido das qualidades que tanto à direita como à esquerda se esperam do presidente da República. Se o Partido Socialista não conseguisse, tanto na fileira dos seus militantes como nos independentes que nele se revêem, encontrar um candidato ou candidata que desmistificasse Cavaco como homem providencial, deveria mudar os seus azimutes e começar a concentrar-se apenas nas eleições para presidentes de câmara ou de juntas de freguesia. Mas não é assim. Helena Roseta, Manuel Alegre, Rui Vilar, Ferro Rodrigues, Maria de Belém Roseira, são apenas alguns dos nomes que numa primeira ideia me ocorrem. Mas há muitos mais. Talvez isso agora interesse pouco. Soares está aí. Já falou até com o Bloco de Esquerda. O Bloco de Esquerda tem menos assessores mas também não faz diferente. Nem a diferença. Tudo isto é uma conjugação torpe de um enorme medo de pensar e de perder o poder e um enorme desprezo pela comunidade. Pela própria democracia. Tudo a temer desta longa noite dos assessores em que mergulhámos.

5 comentários:

ed disse...

De acordo no essencial.O problema é o povo ... e a expressão da sua vontade no modelo da democracia representativa: uma cabeça um voto.

Anónimo disse...

O que se diz aqui não é sobre a ESSÊNCIA do problema do exercício do poder neste país.
Neste país não há "medo de pensar". Não é um problema de assessores, peões de segunda categoria, nem das suas “caixas quadradas”.
O que é um "cérebro normal de um cidadão comum"? O que é o “povo”? O povo português? Sampaio "morreu politicamente"? Considerar hipóteses como Alegre, Roseta, Roseira, Vilar, Rodrigues para Presidente da República?
Penso que aqui se pensa, mas como se pensava há vinte anos atrás. Com rótulos. De uma forma naïve, diria mesmo.
Porque é que aqui não se fala de Sócrates? Da responsabilidade de Sócrates? Da última centelha perdida?
O que há de excesso neste país são ideias, todos nós temos boas ideias para governar o país, para a táctica que deveria decidir o jogo, até os assessores têm muitas ideias, não duvido.
O problema é, uma vez mais, cultural. De MENTALIDADES. E, muito importante, de AUSÊNCIA DE JUSTIÇA. É a partir daqui que tudo é possível e permitido.
O país real é basicamente alicerçado em ignorância (o "povo" a agitar-se para receber as fátimas felgueiras, os isaltinos morais, os majores) e em corrupção, numa nova longa noite de trinta anos, mas agora com contornos diferentes: o da clientela política, da subordinação do Estado aos interesses económicos, de fraudes no aproveitamento dos dinheiros comunitários, na mentalidade tacanha de que fugir aos impostos é que é ser esperto, no tráfico de influências, nos autarcas com tentáculos em todos os domínios da sociedade, impedindo as polícias de aplicar a lei (estou-me a referir àqueles comissários e polícia que ainda resistem, mas neste caso, são imediatamente transferidos...), aos lobbys com muitos telhados de vidro. E ao desprezo enorme pelo ambiente.
Políticos que nascem das fileiras da militância partidária, e com curriculum para gerir a casa deles.
Porque o segundo problema grave deste país é não existir nesta clientela partidária gestores de qualidade, e de um dia para o outro, estão a gerir os nossos impostos e um aparelho de estado que é um verdadeiro absurdo, da forma mais absurda.
Volto a questionar: porque é que aqui não se critica Sócrates? Porque é que o ex-ministro das Finanças não aguentou? Ota, TGV, CGD? Mudanças estruturais, onde estão elas? Talvez em ideias mágicas como o novo programa de educação sexual no secundário, as reformas aos 65 anos para TODAS as profissões (vamos ver educadoras de infância tendo à sua responsabilidade salas de 25 bebés para embalarem, mudar fraldas, pegarem ao colo, polícias a correrem atrás de bandidos...), enfim, para não ser muito extensivo, e citando Abrunhosa, talvez, talvez f....
A mim, particularmente, resta-me um sonho doce: a abolição do feriado de 1 de Dezembro, que deveria ser considerado desonra nacional, uma sublevação a nível nacional exigindo a contratação de gestores a outros países ou, caso isto não venha a acontecer brevemente, ir viver para um país DECENTE.
Concordo que tudo isto é um “ENORME DESPREZO PELA COMUNIDADE”.

JPN disse...

Caríssimo anónimo, compreendeu mesmo qual o tema sobre o qual falei? Quanto àquilo que a despropósito queria que eu falasse, sejamos honestos: você fala de uma forma discipienda em relação àquilo que eu digo e não se mostra nada interessado em contra argumentar. A única coisa em que mostrou algum interesse foi em mostrar-nos o que você pensa. Que lhe tenha feito bom proveito o9 usufruto deste espaço, é o que lhe desejo!

Anónimo disse...

Bom, gostaria de lhe agradecer a possibilidade que tive para me ler a mim próprio. Muito obrigado.
Não me parece, no entanto, que o autor deste blog respire muito bem com críticas negativas.
Até porque não se tratou exactamente disso. Foi contra argumentação, sim!
Futuramente, só deixarei aqui elogios!
Até porque, na generalidade, aprecio o seu blog.

JPN disse...

Caríssimo anónimo, parece-me que está a confundir as coisas. E antes que venha aí com elogios, que esses sim me deixam sem graça, vou então partir do principio que contra-argumentou. Parece-me que há uma diferença em contradizer e contra-argumentar. Vamos lá então.
1. Começa por dizer que o que se diz aqui não é sobre a essência do problema do exercício do poder neste país. E eu perguntei-lhe se tinha compreendido o tema sobre o qual falara. É que eu estava a criticar um aspecto muito concreto, a putativa candidatura de Mário Soares. Porque é que haveria de falar sobre a essên cia do problema do exercícicio do poder deste país? O que sei eu sobre isso?
2. Eu disse que os politicos portugueses tem medo de pensar. Caricaturizei a situação, claro. Exagerei. É claro que ninguém tem caixas quadradas no cérebro. Deu-me gozo pensar que sim. E a brincar falei de uma coisa que me parece muito séria: a emergência de instâncias de mediação tais a nivel da consultadoria, da assessoria que os niveis de decisão politica quase nunca têm contacto com o "problema em bruto". Você disse que neste país não há medo de pensar. O que é uma afirmação extraordinária. Que não é um problema destas instancias de mediação. Diz-me que contra-argumentou? Ok! Então eu vou contra-contra-argumentar: - há sim senhor medo de pensar. e sim senhor também é um problema destas instâncias de mediação. Fico, entusiasmadissimo, à espera da sua contra-contra-contra argumentação.
3. E, sem perceber qual a relação com a candidatura de Soares, sem ser aquele "isto está tudo ligado", pergunta-me porque é que eu não falo do Sócrates. Ou da Ota, TGV, etc. E eu digo, e repito, que tal surge a despropósito.
4. Faz-me muitas perguntas que não o são, são frases com um ponto de interrogação no fim, o que é diferente. Pergunta-me o que é o povo? O povo português? Sampaio morreu politicamente? È isso a que chama contra-argumentação?
5. Depois diz-me que as minhas ideias têm vinte anos. O que talvez peque por defeito. Comecei a pensar antes dos 23. Chama-me rotulador. Naife. É uma contra-argumentação? Parece-me que não.
6. Depois fala daqueles que para si são os problemas deste país. Tem todo o direito, tenho o maior prazer em que aqui as exponha e disse-lho. Com algumas identifiquei-me mais, com outras menos.
7. De facto não respiro muito naturalmente com criticas. Sejam elas negativas ou positivas. Chamo-lhe ou sindroma do filho do meio ou sindroma da criança rebelde. E por acaso lido melhor com os desmanchos do que com os elogios. Tento trabalhar isso de todas as formas e uma delas é este blogue. Tento ser melhor aqui. Tento ser aqui para ser melhor. E exponho-me, como se vê pela figura junta.
8. Quanto a si, venha quando quiser. E deixe-se de histórias, de julgamentos prévios, até porque, na generalidade, aprecio as suas criticas.