Uma das razões porque me parecem tão fascinantes estes tempos que vivemos, é a de que a aventura da expressão e da comunicação de repente chegou ao pé da vida de cada um. Claro, com um telemóvel os meus filmes nunca serão filmes como aqueles que vamos ver aos cinemas, as minhas reportagens nunca serão como aquelas reportagens que podermos ver nas televisões mas, tudo contado e relativizado, esse privilégio de me poder abeirar da vida de um outro e de tentar elaborar a partir dele uma estória, é gesto possível não apenas através da artesania da escrita, também a partir da imagem em movimento partilhada nesta feira-franca da expressão que é a blogosfera. Nos anos setenta do século passado alguns dos nossos antecessores inventaram uma fórmula que serviu de leitmotiv a muitas das práticas de animação cultural: ler é escrever. Era a revolta contra o fazer, o fazer, o fazer, essa profusão de fazedorismo que ainda nos arranha a pele. Tudo isso foi necessário para voltarmos à escuta, à urgência de pararmos diante do outro. Entretanto passaram-se muitos anos e já não queremos todos ser artistas. O paradigma mudou: escrever é ler. O criador de filmes que já vem com o programa do computador é rudimentar mas já nos permite brincar no pátio desta ruptura epistemológica. Antes de nos afundarmos na guerra, na destruição do nosso habitat, um grito de euforia breve: Viva o século XXI.
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sábado, junho 05, 2010
sexta-feira, janeiro 18, 2008
Esboços de Lisboa
Há uns tempos participei num atelier com Sanchis Sinisterra (para ser mais exacto, a primeira fase de um atelier que visou a constituição de um grupo que, julgo, irá assinar a escrita de um espectáculo a incluir na programação próxima do Teatro D. Maria II). Para além do prazer que é sempre a relação com um autor como Sinisterra, a experiência trouxe-me o contacto com a sua metodologia de trabalho e de experimentação, que, entre outras propostas, consiste na realização de exercícios de escrita tendo como pontos de partida base algumas condições, quer a nível das situações, quer a nível do desenvolvimento das personagens, quer a nível do tratamento espacio-temporal. Lembro-me que na altura, em meia dúzia de dias, escrevi mais para teatro do que por vezes em meio ano. Resolvi trazer esse exercício para aqui também, beneficiando também da percepção do que é que uma história é ou não é, do que é que cada história diz ou não a cada pessoa que as lê. Os textos que se seguem nesta categoria, Esboços de Lisboa, são exercícios online. De certa forma é uma maneira de me garantir por estas bandas, arranjar forma deste exercitar meio desgovernado e diletante que blogar é, também possa fazer sentir-me um pouco mais útil. Estes personagens, Roberto, Luís, Margarida, Rosa, e tantos outros que por aí andam, são os meus estereotipos, aqueles que dançam na minha cabeça dia e noite sem eu saber. Alguns deles existem há muito tempo (Roberto era o nome do romance Linha Quebrada, iniciado (e não terminado) pelo meu pai em 1950, em que ele falava da sua vida de antigo seminarista), outros nasceram de forma expontânea ao escrever aqui. Vou deixá-los sair sem nenhum afecto especial. Com alguma curiosidade para saber onde me pode levar esta ginástica descritiva e ficcional.
quinta-feira, janeiro 17, 2008
Ele descia a rua. Cruzaram-na na esquina, ao pé do quiosque dos jornais. Há muito tempo que Roberto não o encontrava.
- Soube que te tinhas divorciado.- disse-lhe.
O outro encolheu os ombros.
- Já estávamos separados de facto.
Tinha-os conhecido na Faculdade. Luís andava em Arquitectura mas quase todas as tardes marcava presença ao lado de Margarida, na esplanada da Universidade Nova. Ela estudava história e dava aulas no ensino público. Ao fim de vinte anos de casamento apaixonara-se por um miúdo, um aluno. Luís, o seu companheiro, foi o seu primeiro confidente e cúmplice enquanto ela, durante dois longos anos, esperara pacientemente por ele, até que ele atingisse a maioridade.
- Admiro muito o que fizeste. - disse-lhe Roberto, passando-lhe a mão pelo ombro.
O que Roberto lhe queria dizer mas não teve coragem era, és um banana, um picha mole. Mas só lhe saiu aquele cumprimento meio fúnebre.
- A sério?
- Sim, claro.
- Eu não. Eu admiro-a a ela. Eu apenas fiz o que um qualquer banana, um vulgar picha mole teria feito.
Roberto engasgou-se, tossiu. De repente lembrava-se de que Luís sempre fora uma pessoa muito singular, diziam que lia os pensamentos dos outros. Sentiu-se nú, como se radiografado ali no meio da rua. A sua vontade era desaparecer mas por um estranho impulso que nos leva por vezes a fazer exactamente o contrário do que queremos fazer, pegou-lhe pelo braço e levou-o para dentro do café. Sentaram-se. Havia barulho de pessoas a entrar e a sair. Roberto começou a sentir-se deprimido.
- E a Margarida agora?
- Agora o quê?
Maldizeu-se. Ainda há pouco se sentia tão feliz, tão contente consigo, com a vida que levava. Tinha começado até a trautear aquela música dos Pink Floyd que o acompanhava desde a adolescência. E agora isto, esta vontade de desaparecer, de transpor este obstáculo constituído pela massa bruta do corpo de Luís que se entre punha entre ele e a porta. É por isso que não o apanhavam nos jantares anuais de turma.
- E a Clarinha ficou contigo?
Era uma bóia de salvação, os filhos, o tema. Lembrava-se que Margarida casara já grávida, Clarinha, que ele só tinha visto uma vez, devia agora ter vinte anos. Luís desatou a rir, descontroladamente:
- Não, ficou com ela.
Ainda pensou em perguntar-lhe qual era a piada mas isso ia fechar ainda mais esta difícil conversa. Luís pressentiu-o:
- O puto depois de andar a comer a Guida apaixonou-se pela Clarinha.
Roberto sorriu pela primeira vez desde que se tinham encontrado.
- Os putos são tramados!
Luís contou, agora mais entusiasmado, todos os pormenores. Bruno e Clarinha estavam juntos há mais de seis meses e esperavam um bebé. Margarida estava empenhadíssima no seu papel de avó e estava-os a ajudar a mobilar a casa, a planearem a vida. Não voltara ao ensino público entretanto. Pedira dispensa sem vencimento e dava algumas explicações de história e de ciências sociais, enquanto trabalhava em par-time numa florista.
- Costumam falar?
- De vez em quando almoçamos juntos. Ela traz-me uma flor e eu pago-lhe o almoço.
- Não a odeias?
Há aqui um pormenor importante. Luís sempre tivera o condão de o fazer sentir bronco. As palavras nunca eram certas, havia sempre qualquer coisa fora do lugar quando falava. Era por isso, e não por alguma especial amizade, que se arrastavam as conversas entre os dois. Roberto só conseguia acabar o encontro quando tinha dito duas ou três coisas seguidas sem se sentir corar de humilhação. E mesmo assim, enquanto desfazia o cumprimento e se soltava de Roberto ainda fazia sempre uma careta de alívio.
- A única coisa que odeio é a vida que levava, Roberto.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Rosa
- Tudo é possível.
- O quê?
- Tudo é possível.
Não fez nada. Deixou-se estar, o tempo que foi preciso.
- Eu sei que tudo é possível mas queria ouvi-lo da tua boca.
- Nunca te darei esse prazer.
- Tu odeias-me, não odeias?
Não o odiava. Perdera o cheiro do ódio não sabia onde. Há muitos anos. Desprezava-o. Ele já não contava. O problema do desprezo é que ao mesmo tempo que apagamos os outros, deixamos também nós de existir. Ela não estava na mó de cima. Nunca estivera. Mal ele tinha acabado de jurar-lhe fidelidade eterna, ela olhara o padre, uma vozinha interior tinha-lhe dito, estes filhos da puta protejem-se todos uns aos outros, que ela percebeu que com ele nunca estaria na mó de cima, era uma ilusão, tudo a fingir. Tal como a marcha nupcial, os laçarotes de cetim rosa, o ramo de flores, os bagos de arroz. Perdera o respeito por si própria, pelo mundo onde vivia. As ruelas.
- Não, infelizmente não te odeio.
- Amanhã mato-me.
- Não estou ansiosa, Carlos.
- Não?
- Não.
- Ía jurar que querias que eu morresse.
Ela a dizer-lhe coisas para passar o tempo. Talvez ele amanhã, finalmente, se matasse.
- E quero. Mas não estou ansiosa, Carlos. É pecado esperar ou desejar a morte de alguém.
- És capaz de falar de pecado?!
Quando as coisas deixam de ter importância. Onde é que vamos buscar as forças?
- Não grites. Só aqui estou eu. E não é por falares mais alto que te vou dar atenção.
- Tu ensurdeceste.
- Não, apenas deixei de te ouvir.
- Estás a querer provocar-me?
Era só um poucochinho de ódio. A torneira pingava apenas. Como a vida que ela levava.
- Não vale a pena.
- Não vale a pena?
Ele tinha-se tornado um bocado de eco. Rosa olhou-o finalmente com premeditação e um pouco nada de rancor, azedume.
- Amanhã se houver sol na minha vida tu matas-te e depois, vou odiar-te agora ainda? Para quê?
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