Ao lado do cais de embarque dos ferrys em Cacilhas há, desde há um ano, um farol. O ferro fundido, cuidadosamente pintado de vermelho já está, na base, coberto de rabiscos de amo-te teresas, vanessas, corações mal desenhados, frases bombásticas. Um farol plantado na praça é, do ponto de vista da arquitectura, ainda um farol. Mas não é um farol na verdadeira acepção do termo. Um farol tem de ser um lugar de solidão, um lugar separado do resto do mundo. Seja lá o que for o mundo, um farol é um lugar que comove quanto mais não seja porque nos lembra que guiar pela noite escura, seja na poesia, na escrita, no teatro, na pintura, na arquitectura, na própria política, é um lugar de uma tremenda solidão. É como se a humanidade, enquanto lugar povoado, só garantisse visibilidade do seu sentido, do seu devir, através do despojamento existencial.