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domingo, março 28, 2010

A Primavera que nos salve

Nasci em Maio e por isso sempre achei natural uma inclinação minha pela Primavera. Hoje pude finalmente tomar o café da manhã no quintal, enquanto lia o jornal. O sol batia-me na cara, vinha-me o cheiro da hortelã, da salsa, da lucia-lima a brotar, ouviam-se os sinos de S. Vicente de Fora, as vozes dos vizinhos, e eu pude perceber porque é que, intimamente, gosto de sorrir enquanto vivo. A vida dá uma trabalheira dos diabos no sentido em que o tempo de percebermos algo em relação a uma situação quase nunca é o tempo em que podemos vivenciá-la. As coisas faltam nos sítios onde as queremos. A própria querença nos desabita amiúde. Os escreventes pimba como eu fazem-se de generalizações mas a verdade é que apetece dizer que a maioria das pessoas vive preteritamente. Vive: ama, faz, desfaz, pensa. Raras são as vezes em que nos damos conta de que podemos viver de outro modo. Conseguimos as mais das vezes condescender e dizer: poderíamos ter vivido de outra maneira. E não nos damos conta, ao viver, que até no pensar assim, agimos preteritamente. Deviamos poder largar o passado e mergulharmos, mais incisivamente, na força agorética da vida em estado bruto, larvar. É por isso que a Primavera me emociona tanto. Eu já me estou ralando para a poesia da vida, a força do pino do verão, o amouchar do outono, o soçobrar do inverno. Tudo isso não passa de ideologia disfarçada de modo de vida, de humanidade nossa. E eu agora já só tolero a ideologia em estado íntimo, com ela. Eu chamo-a, ideologicamente, de meu amor, discuto com ela, grito, zango-me não menos ideologicamente, e isso, mais um ou outro convívio de amigos -e cada vez menos convivo menos - é a rara reserva de ideologia com que, nos meus tempos livres, ainda vou condescendendo. A ideologia com os outros, e principalmente com desconhecidos, é qualquer coisa que, para o que sou hoje, é uma quase obscenidade. É a Primavera que verdadeiramente nos redime. A força da terra a rebentar. Quem me ouvir a falar no meu quintal pensa que eu tenho, em plena cidade, uma courela cheia de couves, melancias, batatas, cebolas e demais hortícula. Nada disso, tenho um canteiro e depois vasos onde rebenta aquilo que me dão. Mas há num pedaço de terra, por mais pequeno que seja, desde que o deixemos sobreviver até à Primavera, uma lição de vida. Deram-me estas margaridas em Maio. Aguentaram até ao verão, depois, queimadas, desfaleceram. Desapareceram até, tão transparentes que ficaram. Foi uma amiga, ela própria Margarida, que as ofereceu. Disse para mim mesmo, no Inverno, sempre que passava por ela, moribunda: "-A Primavera que te salve!". A única coisa que fiz foi deixá-la estar no vaso. Deixei-a estar. E a Primavera salvou-a. Salvou-a a ela, da mesma forma que nos salvará a nós.

quinta-feira, abril 03, 2008

Primavera

[Botticelli]
Saúdo a primavera com um passeio ao sol, antes de me enfiar no metro. Está um sol quente, apetece viver. Compro, conjuntamente com o Público o dvd duma das minhas maiores heroínas de infância: Pipi das Meias Altas. Hei-de vê-lo com ele, comparando ícones, ídolos e fantasias de infância. Linha verde de um extremo ao outro. Leio as notícias que me interessam. Por exemplo, sinto que há uma razão primaveril quando um ditador vê cair por terra os seus truques eleitorais. Tudo o resto pode estar em suspenso. Até o futuro de Robert Mugabe. O modo como muito regularmente os ditadores são afastados do poder, com exílios dourados, incentiva o crime político. Passo por cima disso. Leio as notícias que me interessam. E quando estas acabam no finito que é este maço de papel diário, filtro as outras notícias lendo-as de modo a torná-las interessantes. Que diabo, não há-se ser só o jornalismo a manipular a minha realidade, há-de haver também um lugarzinho para o vice-versa. Vice-versa, palavra que entretanto caiu em desuso, fenómeno linguístico que quanto a mim devia merecer mais atenção já que talvez tenha sido por essa pequena porta, ou janela, que provavelmente entrou o senhor paradoxo que hoje vive comodamente na mais chã retórica quotidiana. Continuo a ler o jornal e o rescaldo das declarações de Jaime Gama sobre o seu ex-Bokassa. Fico particularmente comovido também pela provável notícia da ida de Jorge Coelho para a liderança de uma construtora líder do mercado nacional do cimento e da argamassa. Talvez por a ter lido depois desta não me comoveram, nem me estarreceram as declarações de António Borges ao Público sobre a conversa que terá tido com Manuel Pinho. No que faço mal. O assunto é mais grave do que parece não só porque nas letras miúdas das notícias há-de vir que o valor global dos honorários andaria pelos 3,4 milhões de euros (um dia ganharíamos todos se fosse tornada pública uma tabela correlacionando os valores destes chorudos contratos com os benefícios angariados pelo Estado com estas prestações de serviços). Também porque, para o cidadão comum, justifica-se que sejam feitos alguns esclarecimentos adicionais. Primeiro o de saber se efectivamente Manuel Pinho entende os contratos do Estado como uma arma de pressão e chantagem política. Depois, o de saber porque é que António Borges demora tanto tempo a entender que a denúncia de um contrato por razões políticas é uma inaceitável pressão e chantagem política sobre a actividade da sua empresa. A atitude de Manuel Pinho - para além de tudo o que se possa dizer no plano ético e político - é também ilegítima do ponto de vista contratual e poderia vir a ser merecedora de um pedido de indemnização por parte da empresa. A menos que António Borges não encontrasse nenhum justificativo ou interesse do Estado para a manutenção do contrato. Ou seja, há infelizmente indícios de que António Borges seja muito parecido com Manuel Pinho e que também entenda os contratos com o Estado com uma forma de arremesso político. E, como é óbvio - e estas cada vez mais frequentes presenças de ex-governantes na direcção de empresas privadas deveriam, neste contexto, preocupar-nos - os nomes de Manuel Pinho e António Borges não têm importância nenhuma senão o de poderem corresponder a um modo de actuar de figuras de relevo dos dois maiores partidos portugueses. Estação Baixa-Chiado. O Público debaixo do braço. Faço-me ao sol, a esta primavera incrível.
[É por estas e por outras que dos poucos cargos que em sonhos não me atrevo a desejar seja o de procurador geral da república: por exemplo, para além das dores de cabeça com o apito dourado e a criminalidade cada vez mais sofisticada, teria de escolher entre o dar prioridade de investigação à violência nas escolas enquanto sinal de delinquência juvenil ou de a fazer recair na investigação da virulência política como sinal de tráfico de influências.]