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sábado, maio 08, 2010

Miserere

Quando estava a trabalhar na reportagem de Miserere, para a Rua de Baixo, encontrei esta entrevista na Pastoral da Cultura. Surpreeendeu-me saber que havia uma Pastoral da Culturae a forma como se dedicava a olhar o trabalho de um grupo e de um encenador que de certa forma, coloca em causa o olhar da Igreja. Já na conversa colectiva que tinhamos tido a seguir ao ensaio de imprensa eu tinha encontrado essa surpreeendente fragilidade em que Cintra se aceitava colocar, expondo-se com grande franqueza, na sua busca pessoal. Tenho pena, que no mercado das cousas culturais, tudo isto passe como se o pudéssemos meter na caixinha minguante da atenção que damos ao teatro, aos objectos teatrais.

sexta-feira, março 05, 2010

A minha rua

É a Rua de Baixo. Sempre quis a fazer jornalismo teatral. Foi um dos motivos que elenquei para justificar a minha saída antecipada do DN Jovem ( naquela altura não sabia ainda que a maior motivação, era o de eu ser um desistente. Fiz-me desistente para não sofrer com o sentir-me a sombra do meu irmão. E ainda bem que não sabia: naquela altura teria sofrido muito com isso, tinha uma posição muito arrogante sobre a fraqueza, os fracos). Tinha acabado de fazer a cobertura do III Encontro de Expressão Dramática no Conservatório Nacional, tinha entrevistado o Ryngaert, a Gisele Barret, o Claude Vautelet. E a luta imenso para os textos sairem. Chateei-me. Nessa altura tinha começado a escrever na revista O Actor, onde podia escrever, escrever, escrever. O meu irmão era o Director Gráfico e a revista começara a nascer em minha casa, nas conversas entre ele e o Miguel Abreu, que começava a dar os primeiros passos com a Cassefaz. A edição era só de 500 exemplares, eram fotocópias A3 dentro de uma capa de um LP, feitas algumas delas à surrelfa num organismo público, era um brincadeira, mas publiquei lá algumas reportagens de grupos que já não existem. Sobre a Máscara Teatro Grupo, sobre o Teatro Espaço, sobre o fim do Contra Regra, sobre os épicos Encontros de Teatro para a Infância e Juventude, com entrevistas ao João Brites, ao Luis Aguillar e ao José Caldas. Um desdobrável de trinta e tal páginas onde ainda cabia um texto do Carlos Porto (que tinha desancado a revista no primeiro número, por ser uma coisa inconsequente, uma brincadeira, excepto a minha reportagem sobre a Máscara. Embora tenha feito coro com os outros, fiquei todo orgulhoso e lá pensei, o Porto nem é mau tipo.) Escrevi também um texto, reflectir sobre a escrita teatral, onde desancava, à minha maneira, na crítica que se fazia. Tenho de reconhecer que, infelizmente, mantenho o essencial da crítica: o poder da critica teatral num jornal é inversamente porporcional ao peso editorial do teatro no mesmo. Quanto menos reportagem, quanto menos entrevistas, quanto menos notícias, mais ele está dependente de uma critica que muitas vezes não sabe reconhecer a sua impotência e a transforma em soberba. Era assim a crítica desta altura. Hoje já não escreveria o mesmo. Verifico haver criticos que se preocupam em começar por enquadrar informativamente o espectáculo, deixando escapar lá para o final um pequeno apontamento ou sugestão de leitura. Agrada-me isso. Poderia falar mais sobre isso, até de uma outra perspectiva, trabalhei recentemente, durante muito pouco tempo, é certo, em assessoria de imprensa. Fiz o percurso inverso e pouco usual, hoje nos ensaios de emprensa encontro-me com os jornalistas que convidava para irem assistir aos espectáculos que divulgava. Mas falava eu da Revista O Actor. Quando ela acabou tentei fazer um projecto, Revista de Teatro, que era feita num grupo que tinha editado a Revista de Cinema, e onde estava o Jorge António, realizador de quem fiquei grande amigo. Esteve quase a sair, mas eu tinha posto para mim, como fasquia, que só avançaria quando tivesse a edição de 4 números garantida. Consegui ter um e meio e desisti. Era um projecto editorial que não valia a pena ser feito senão fosse para criar mesmo um espaço de reflexão e investigação. Tenho os meus arquivos cheios de revistas que fazem cinco ou seis números, muitos deles excelentíssimos, mas que depois acabam. A Revista de Teatro do Norberto de Ávila, a do TEUC, os Ensaios do Teatro de Viana, a Adágio de Évora, os Percursos da APED. E outras, bastantes outras. Sobrevivem ainda as dos Artistas Unidos, creio. Depois disso ainda escrevi na Revista Ego, quer dizer, tinha lá o nome mas verdadeiramente só escrevi um texto, e não foi publicado porque a peça, no Teatro Aberto, saiu de cena, depois da morte abrupta - e não o são todas?!- do Carlos Daniel. E as minhas aventuras jornalísticas (ah, fui Coordenador do Jornal Teatro e Educação da APED, mas aquilo só teve um número) ficaram por aqui. Até que, estava a acabar o ano de 2009, o desejo de guardar os testemunhos de muitos dos protagonistas do movimento teatral dos últimos trinta, quarenta anos, me vez pensar em escrever. Comecei pela Tempo Livre e depois um pedido de colaboradores para a Rua de Baixo, fez-me avançar. E cá estou eu, sempre a aguardar com curiosidade a nova edição.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

A voz humana

Para mim é da ordem do mágico, o gravador. Gravar uma voz, nessa tessitura subentender uma vida, uma história, um país. Tudo aquilo a que num repente de lucidez e de ternura chamámos O outro. Vou parecer antigo: sou do tempo em que a magia do Outro nos fazia reverbrar. Gosto por isso da magia das reportagens e das entrevistas. Aprendi, desde muito novo a gostar de ler Oriana Fallaci. Ou a ler as entrevistas aos meus filósofos de culto e afecto, Bertrand Russel, Sartre, Karl Popper. Bergson. Guardo, já nem sei onde, mas sei que algures neste mundo há caixotes de recortes de jornais que eu coleccionei, com entrevistas a todos eles. Há pouco tempo, a propósito de umas entrevistas que fiz a Marcantónio Del Carlo e ao João Didelet, para ajudar à divulgação do espectáculo (eu fiz a assessoria de imprensa de Figuração Especial), voltei ao género e gostei. Já antes, para o making off da Desobediência tinha entrevistado (com imagem do Joaquim Diabinho) o Rui Mendes. Eram coisas que eu deixara de fazer há muitos anos. Tinha-o feito para a Revista o Actor e para o Dn Jovem. Levo muito a sério isso. Gosto de ler, pesquisar a informação e gosto do pequeno confronto que há numa entrevista. É uma espécie de jogo em que, quando vale a pena, ninguém sabe muito bem quem conduz o quê. Foi o que me aconteceu quando falei com Faustin Linyekula. Eu estava com receio, o meu francês estava empoeirado. E pela primeira vez tinha um repórter fotográfico comigo. E entrava e saía gente do camarim. Eu conheço os ambientes. Fiz assessoria de imprensa no Teatro da Trindade. Mas eu só pensava, estes gajos todos vão perceber que eu não percebo nada disto. O próprio Linyekula, um tipo simpático e disponível mas que queria fazer a conversa comigo antes do ensaio, e a quem eu disse que esperava o tempo que fosse preciso mas que só falaria com ele no final, vai chatear-se comigo e dizer-me, precisamos de tradutor. E eu vou enfiar o rabo entre as pernas, matar aquele sonho incompleto de entrevistar, pensar, perdi muito tempo, agora só se voltar a acreditar na transmigração das almas - teoria que fugazmente segui quando me apaixonei por Somerset Maughan (meus deus, sou tão antigo!!!) -e esperar que na próxima reencarnação seja desde muito novo jornalista. Felizmente não aconteceu isso. Gostei da minha estreia na Rua de Baixo. Aqui. E já agora, saboreiem as imagens do Rui de Freitas.