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domingo, maio 16, 2010
Novas Oportunidades
De repente tornámo-nos num país. Um país a sério, com uma história, uma vontade. Um sentido comunitário. A querermos dar a volta por cima. Sócrates e Passos Coelho talvez apenas tenham tido a sensibilidade política de perceber que não suportaríamos que eles não se dessem conta do que está a passar-se connosco. Bloco, PP e PCP o que irão fazer?
sábado, maio 15, 2010
Despacho: Afixe-se
no Jumento
Uma das razões porque estou optimista em relação à crise que está a montar tenda na tabanka lusitana (para além da que decorre do meu pessimismo anterior sobre o sentido que a nossa vida levava) é a de que ela reacende a minha esperança de que também possa servir de enquadramento para assinalar muitas situações que minam a nossa vida económica e social. Em todos os sectores. Por exemplo, o Estado vai ter de emagrecer, de fazer uma dieta, e essa dieta desta vez, espero, vai ter de passar pela parte de leão que é o resgate de toda a energia e recursos públicos que são gastos para satisfazer esta lógica clientelar da passagem dos partidos pelo exercício do poder público. Todos, sem excepção que, como bem se viu no caso de Ricardo Rodrigues, o corporativismo político é de tal ordem que em certos níveis da vida política há um véu que cobre todos os quadrantes. Sou completamente contra a demagogia que tenta desacreditar a política e, consequentemente, os políticos - no outro dia vi com agrado uma iniciativa de cidadãos a pedir o reforço da participação pública na vida partidária - mas tenho de reconhecer que há muitas situações, e esta foi uma delas, em que são os agentes políticos os principais responsáveis pela desacreditação da vida política. Quando olhamos para a vida laboral no nosso país e verificamos os privilégios laborais que têm os deputados -alguns deles que até seriam justificados e legítimos se não fossem absurdos pelo constraste com o quadro da actividade laboral no país - fazemos uma pergunta: mas que entidade patronal é esta, tão generosa, que consagra para os seus trabalhadores todas estas cláusulas protectoras?, e apercebemo-nos do óbvio: os trabalhadores e a entidade patronal coincidem.
Não só a entidade patronal como os trabalhadores coincidem. Também os recursos que utilizam são observados à luz de uma patologia desresponsabilizadora que afecta a nossa relação com o bem público: é do Estado, portanto é de todos, logo não é de ninguém. Não é justificável, senão à luz do aproveitamento em causa própria, que um trabalhador possa receber uma reforma vitalícia pelo seu trabalho parlamentar ao fim muitos poucos de actividade profissional. Não é justificável, senão segundo o prisma do auto-governo, que um trabalhador possa ao fim de quatro anos de actividade pedir um subsídio de reintegração no mercado de trabalho quando, se essa realidade fosse estudada, a do percurso profissional dos deputados, se veria que grande parte deles têm, na sua breve passagem pela AR, o índice curricular que lhes permitirá uma existência desafogada na longa e pesada máquina estatal.
Não leiam o que não escrevi: eu não disse que a crise económica e financeira que atravessamos vai cuidar de nós. Não. Apenas escrevi que ela pode ser uma excelente oportunidade para isso.
terça-feira, março 02, 2010
Santiago do Chile | Lisboa
No outro dia tive a ideia de entrevistar pessoas que tenham estado em situações de guerra, de conflitos, de grande instabilidade. Interessa-me este vaivém entre estabilidade e instabilidade. Não sei de onde herdei esta convicção de que a instabilidade nos pode ajudar a perceber os dispositivos ideológicos com que concebemos a nossa ideia de estabilidade, reconheço apenas que ela produz sentido em mim. Ontem percebi que tinha rádio da internet no meu telemóvel. Fui para o trabalho ouvindo uma rádio polaca. Não percebi nada do que diziam mas cheguei a emocionar-me com o andar com os pés assentes nas ruas de Lisboa e com os ouvidos e as imagens interiores em Cracóvia. Hoje, talvez porque me deu uma súbita vontade de abraçar o meu irmão em Santiago do Chile, sintonizei as rádios chilenas. A primeira que apanhei foi a Rádio Cristiana, que, na minha desatenção de turista, só percebi que se tratava da rádio cristã quando vejo um sacerdote a explicar o terramoto do dia anterior com o desapego a deus e aos seus universos particulares de redenção das almas. Encontrei depois a Rádio Zero, com quem passei boa parte da manhã. Os dias seguintes à catástrofe são impressionantes e a rádio dá para captar, de uma forma muito especial, essa dimensão de desiquilibrio, de espanto, de interrogação, de impeto, de vontade de começar tudo de novo.
A primeira intervenção que apanhei foi a do ministro da Saúde, sobre a instalação de hospitais de campanha, que vêm um pouco de todo o lado. Também da União Europeia. O tema da ajuda internacional, da coordenação interna desse apoio, dominou a conversa com o ministro. Depois houve um momento curioso: um jornalista no estúdio, em Santiago do Chile, conversa com um ouvinte que está em Concepcion que diz que não há nada aberto, nem uma tenda onde se possa comprar um bocado de pão. E ainda me admiro de eu não compreender nado do que se está ali a passar. A trezentos e poucos quilómetros de distância o jornalista estava incrédulo:
- Mas não há mesmo nada? Como é que as pessoas fazem para colocar comida na mesa? Estamos na terça, o abalo foi no domingo de manhã...
- Hombre! É o que te digo. Não sei se as pessoas tinham reservas, se têm o produto dos saques, a verdade é que nem uma tenda encontrei aberta no centro de Concepcion. Nem uma.
A emissão há-de voltar ao estúdio. Agora conversa-se sobre a resposta tardia do Governo, que demorou muito tempo a perceber que estava diante de uma catástrofe de porporções gigantescas, tanto na perda de vidas como na destruição de equipamentos e instalações. Há um clima de primeiro dia, de sensação de que se está no momento em que as coisas acontecem. Alguém diz, curiosamente é nestes momentos que as pessoas trabalham mais. Há um maior frenesim, as pessoas querem reconstruir, fazer. Os seus tempos de lazer diminuem, são desviados para a mobilização, para a ajuda.
E começam a chegar à antena relatos, testemunhos dessa efervescência social. Muitos voluntários, jornalistas, técnicos, médicos que foram para o Haiti estão agora no Chile. As zonas de catástrofe natural dominam este arranque da segunda década do novo milénio. Há quem interprete isto como sinais anunciados. Talvez, quem sabe. Para mim este momento em que nos tornamos muito conscientes da fragilidade das nossas vidas, também são, como dizia um chileno há pouco, alturas em que descobrimos que podemos mudar tudo. Ou quase tudo.
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