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domingo, março 07, 2010

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"Além disso, se o BCE apoiou os bancos de forma tão activa e empenhada, não se compreende que se mostre agora tão relutante em apoiar os Estados que salvaram os bancos da crise que estes geraram. Porquê esta diferença? "
João Rodrigues, Ladrão de Bicicletas e Arrastão

sexta-feira, junho 06, 2008

"Gosto destes tempos de crise",

seria uma frase que nem mesmo por puro devaneio literário seria capaz de escrever. mesmo que eu esteja convencido que esta crise, como outras, inevitáveis, que se seguirão, são dores de crescimento social, que há nelas uma possibilidade fantástica para a alteração dos nossos parâmetros de vida, para o desenvolvimento a nível global de uma maior consciência de que é a nível global, mundial, que os fenómenos se influenciam, mesmo que tudo isso aconteça eu seria incapaz de escrever que gosto destes tempos de crise. há gente por detrás dos indicadores económicos em baixa, há sempre gente por detrás dos indicadores económicos em baixa. preciso de dizer porém o que gosto naquilo que estes tempos de crise trazem. é certo que me habituei a gostar das crises como fenómenos. é neles que se joga o momento de transformação, seja lá de que crise estejamos a falar. uma das coisas que antevejo como extraordinamente positivas é que vamos todos ter de perceber que a escalada de consumo como suplemento de construção identitária de cada um de nós - eu sou o que consumo, consumo logo existo! - sobe através de um elevador faustoso e sedutor e desce através de umas escadas que, apesar do seu aspecto paupérrimo, conduzem a um lugar apetecível, onde podemos ser melhores. é um insulto à inteligência humana que no mesmo mundo onde se morre de fome também se morra de enfartamento, e isto a todos os níveis. há algo sobre o qual reflectimos muito pouco: quando endeusamos o mercado como sistema capaz de produzir e distribuir a felicidade humana nos seus vários subprodutos esquecemo-nos de vários aspectos importantes: o primeiro é que que ele consegue esse grau de eficácia retórica porque parece que se casa perfeitamente com o sistema democrático (ora se ele realiza algumas das condições essenciais da democracia, manifesta bem pouco interesse por outras não menos essenciais);
depois que grande parte dessa eficácia retórica resulta da sua capacidade de assimilar os diferentes discursos críticos, retirando-lhe a carga in/out que cada ideia contém e tornando-os subprodutos ideológicos da sua doutrina; e por último a sua estabilidade como modelo sistémico: se hoje olharmos o sistema de mercado ele já não condiz com o referente que a teoria económica nos fez interiorizar dentro de nós , o sistema de mercado não é, como hoje se passa, um sistema que tem a sua base de sustentação na pura especulação do valor dos diferentes produtos, e onde as cadeias de valor dos mesmos só aparentemente têm por base as condições com que esses mesmos produtos surgem nos mercados. e no entanto a defesa que é feita desse movimento especulativo é feita a partir da defesa incondicional do sistema de mercado. estamos já num outro patamar. o sistema actual tem tanto a ver com o sistema de mercado quanto este tinha a ver com as feiras e mercados da era feudal: nada, mera filiação genética.

quarta-feira, abril 30, 2008

Todos iguais

Ontem o Apicultor veio cá. Tenho um enorme orgulho em ser seu amigo. É um privilégio. Veio falar-me da terra e do filho. Brindei-o com um resto de pimento e tomate recheado, uma delícia. Pedi-lhe conselho para as alfaces, para as couves. Ou sobre a origem de algumas plantas. Depois falámos sobre a crise dos cereais, dei-lhe a ler uma reportagem do Público sobre um pastor da Mauritânia, que me tinha revirado do avesso. Ele partilha da tese de que tudo isto se deve, para além de uma intensa especulação, ao aumento de consumo de carne em países como a China ou a India, provocado por uma exportação do nosso modo de vida a camadas da população que vivem melhor. O consumo de carne, a alimentação dos animais são para ele uma grande justificação para o aumento do consumo de cereais. E fiquei a pensar nesta nossa existência paradoxal. É este querermos ser iguais que perpetua, tragicamente, a escravidão. Há-de alguém no futuro vir dizer-nos aquilo que alguns de nós já sentem como a sua dor de pensamento: a escravidão do humano é uma realidade não política. Conseguimos bani-la da política mas não acabámos com ela. Só a expulsámos das nossas imagens, das nossas imagens conscientes. Para que o pai abastado da criança europeia possa adormecer a sua cria sem o doloroso pesar de se inscrever numa comunidade esclavagista. Depois, ao limpar a tijela da fruta apercebo-me de que a pera abacate que comprara apodrecera. Também uma banana. Deito-a para o lixo e digo ao Apicultor:
- Acabei de deitar para o lixo o suficiente para saciar hoje a fome de uma pessoa.

quinta-feira, abril 24, 2008

Arroz global

Não quero ouvir. Ouço na televisão a voz do apresentador dizer que os especialistas dizem que a subida do preço do arroz pode levar à morte de cem milhões de pessoas. Depois, logo a seguir, ouço o apresentador tranquilizar-nos. Em Portugal não deve haver racionamento. E logo a seguir uma imagem de um panelão de arroz de cabidela. E eu sinto-me aflito, aflito. Ou terrorista, como confessava no outro dia a Isabela. Ouvi também que esta crise do arroz só nos chegará daqui a seis meses, quando se tiverem de comprar os novos stocks. Ou seja, já estou a ver os especuladores a guardarem o arroz em stock para o poderem vender mais alto. Não sei o que dizer.