sexta-feira, abril 30, 2004

Lição sobre a Irresponsabilidade

"1. A irresponsabilidade é ilimitada. 2. A irresponsabilidade é masculina. Coisa de pilas ou entre elas. É o nosso caso, claro. Se tu fosses uma mulher admito que ela pudesse ser dona, feminina e a expensas da tua mãe. E nem te vou expor todas as dúvidas razoáveis que mesmo assim mantenho sobre o assunto porque isso seria o mesmo que confidenciar-te o mais terrível dos segredos: neste país quase nunca casamos com as nossas apaixonadas amantes, sim com as suas dulcíssimas mães. Mas assim, caríssimo, sou eu que te irei levar pelo trilho alegre e descontraído da irresponsabilidade. E ensinar-te-ei também o que é "em sede de contraditório" quando me vires a abanar a cabeça com ar austero diante da severidade das lições de responsabilidade da tua mãe. 3. A irresponsabilidade tem regras. Por exemplo: "Se a responsabilidade nos manda adormecer antes das 10h, nós só adormeceremos quando todos os nossos melhores monstros, demónios e espadachins partirem para o Castelo do Nunca. E mesmo assim, com esta lanterna, ainda tentaremos algumas sombras fantasmagóricas na noite escura." 3. A irresponsabilidade tem razões que a responsabilidade desconhece. Por exemplo: só adormeceremos irá alta a noite a zombaria mas iremos para a cama até às dez para que no dia seguinte estejam intactas - e até redobradas por este aceno de rebeldia e subversão - as nossas energias. 4. A irresponsabilidade não faz denúncias. E censura queixas, urde uma teia de cumplicidades e silêncios que impedem a sua localização. "

' Tou que tou. ' Tou de Pai.

Todo eu tremo. Estive vinte minutos ao telefone com a minha ex. "- É em jejum? E come o quê, de fruta? Bebe leite? Só leite? E de quanto tempo em quanto tempo é que ele come? Não te esqueças do roupão...olha, vou-lhe dar banho de manhã...De manhã não há tanto frio... E prá pele? Vais mandar aquela mistura com vaselina? Não te esqueças do casaco. Vai estar frio. E eu quero-o levar ao mirador antes de nos deitarmos. ' Tou que 'Tou. Tou de Pai. É a primeira vez que ficaremos a dormir na minha casa e na dele. "O Pedro tem duas casas, não é pai? Tem uma casa que é do Pedro e da Mãe e outra casa que é do Pedro e do Pai." Já conhece a casa. Sabe onde é a cama dele. Onde é que ficam as marionetas do pai. O Castelo de S. Jorge que se vislumbra da janela. E o rio. " Vamos jantar fora hoje, hoje vamos jantar fora. Também não lhe faz mal nenhum. Vou levar também a bicicleta e o capacete." De manhã já andei a medir os passeios livres de carros na Damasceno Monteiro, arranjando uma filada que me dê para chegar são e salvo com ele. É dificil. Muito díficil. Talvez demasiadamente dificil para aquilo que seria desejável ou aceitável pensando que muitas daqueles carros são de famílias com crianças. Não irei fazer teoria sobre o assunto. A consciência cívica é a última das revoluções. E o pior que a sua ausência pode fazer é despertar em nós desejos recalcados de polícia sinaleiro. Assemelhamo-nos tão facilmente aos nossos monstros. Tou que 'Tou. Tou de Pai. Já imaginei a estrada imensa que se seguirá. Já pensei na magna lição, a primeira: "Lição sobre a Irresponsabilidade" Ao jeito das que ele gosta, como a do Peter Pan.

quarta-feira, abril 28, 2004

Maio, por estes dias...

Maio é o meu mês. Começo a sentir a sua vinda. Está a chegar. Nada a dizer ou a fazer. Apenas manter-me no meu posto. O resto já não é comigo.

Jardim do Cerco, diz

Para quem vive no meio do verdejante, da frescura da erva e do musgo, no estilhaçar ritmado dos regatos, com a Tapada por companhia diária, um jardim tem de ser algo muito especial. Foi assim o Jardim do Cerco da minha infância. Lugar onde saltitavam veados e coelhos. Ou as rodelas de nenúfares em torno dos pequenos lagos circulares. Ou os muros de vegetação, que começaram por ter a minha altura até que, por fim, foram minguando, minguando, minguando, enquanto eu, na exacta medida contrária, crescia, e podia enfim saltar por cima da sebe. O que de mais precioso o Jardim tinha era o tempo. Calhou que quase todas as minhas memórias dele sejam ao fim de tarde. E também, que a última, seja a de um passeio que demos a Mafra, por sinal o último passeio com o meu pai. A vida e a morte deviam ter sempre esta tranquilidade de um entardecer sereno. Se eu fosse Deus, era assim, com um estertor silencioso e com um raio de luz sorridente que todos, um e cada um, se despediam do número dos vivos. E provavelmente sentados num banco de jardim, ao fim de tarde.

terça-feira, abril 27, 2004

Abébia Vadia

Para que não haja dúvidas a Abébia Vadia apresentou-se de dicionário em punho no acto notarial de registo da sua abertura de actividade, realçando a dimensão de dádiva e participação das vozes múltiplas e vadias dos seus autores. Entre os quais vislumbro Eduardo Graça, do Absorto e José Rebelo, professor no ISCTE e recentemente condecorado com a Ordem da Liberdade. Aos quais saudo, bem como aos outros autores deste novo blogue.

Tempo

Ontem mais uma vez antevi a minha morte. Dei-me algum tempo para morrer tranquilamente. Mais ou menos aqueles períodos máximos que os bancos atribuem para os nossos empréstimos. E não só não me assustou como me pareceu que eu ia ter tempo para tudo. Disse que ía ter tempo para tudo. Não é exactamente verdade. Não contei com o tempo de perder tempo. Para esse faltavam-me dias, horas, minutos.

segunda-feira, abril 26, 2004

Amo-te, Felicidade...

Não interessa onde, nem por quem. Vi esta frase escrita numa tela onde se inscreviam pequenas excitações pessoais sobre o 25 de Abril. E hoje, ao pensar de repente em coisas tão dispersas como o romantismo em mim e a revolução que ontem nos levou à Av. da Liberdade, voltei a pensar nela, na sua ideia. É talvez a única coisa que nos une a todos, brancos, vermelhos, laranjas, amarelos, pretos, lilazes. A felicidade. A sua procura. O modo como nos lhe devotamos. Tenho perfeita consciência de que uma tristeza sem fim que adoptei, desde há alguns anos, é antes de mais uma forma de me incompatibilizar com os meus semelhantes. Como se zombasse da felicidade alheia. Como se o dificil não fosse ser feliz mas sim, o reconhecimento de que podíamos prescindir dessa ideia de felicidadezinha e mesmo assim não vivermos enclausurados numa incapacidade de rir, de nos alegrarmos, de cultivarmos a bonomia, a desamargura. Mantendo em alerta máximo a nossa consciência política contra o egoísmo com que encetamos todos os dias estes mini-cruzeiros para a terra da felicidade sem, ao mesmo tempo, nos tornarmos produtores associados da fel, amargura & desânimo. E ao ler aquela frase "Amo-te Felicidade", que podia ser ingénua, naif, fora de moda, não tivesse eu pegado na mão que a escreveu e linha a linha da sua palma descoberto o brilho de quem fez da sua vida um poema, estremeci e estremeço pelo programa que nela encontro e que da mesma forma intuitiva adopto, fazendo-a conviver com est'outra tristeza sem fim de que já não posso separar-me. Está há muito morto quem não morre todos os dias diante do devastador grito da morte que banha o mundo, o nosso mundo, mas também não pode entregar-se a esse ofício guerreiro de morrer sem fim quem não saboreia do palato à cobra, esse estremecimento diário e renovado do amor.

sexta-feira, abril 23, 2004

Carl Djerassi, o contrabandista

Carl Djerassi foi-se embora ontem. Tinha vindo para a estreia de "Esse Espermatozóide É Meu!", no Teatro da Trindade. O texto foi traduzido e adaptado por Luís Filipe Borges, das Produções Fictícias e fundador do blog Desejo Casar. Foi um prazer conhecer e contactar com Djerassi. Espero que da conversa de ontem, na Eterno Retorno, tenha ficado um bom registo audiovisual. Porque pessoas como ele são raras. Porque experiências como a deste cientista e escritor são únicas. Porque a sua simplicidade é infinita. Dele fica-me uma ideia, como uma chave. Quando falávamos de como é que um homem da ciência envereda pelos trilhos da ficção, ele foi muito claro na palavra que utilizou - e quem com ele fala percebe bem o valor que ele atribui à precisão das palavras - para explicar: "- Para fazer contrabando de ideias. No meu trabalho científico não consigo ter esse efeito. Mas através das minhas histórias consigo." O que me parece notável nisto é um homem, perto do dobrar dos setenta, enveredar por um novo caminho apenas para fazer contrabando de ideias. Quando, pelo que se vê no texto em cena no Trindade, não é tanto as suas ideias que importam, mas esse espaço à especulação e à interrogação, ao debate. Ou seja, e lá voltamos sempre ao mesmo, em fazer tudo o que podermos pela inteligência das coisas e dos seres.

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - XI

Acabo de receber uma notícia estúpida: uma amiga, que viajou anteontem para os Estados Unidos, foi recambiada, tendo chegado hoje de manhã ao Aeroporto de Lisboa. Fez 42 anos ontem e celebrou-os assim, de pés e mãos atados, entre um aeroporto que, ironia das ironias, ainda se chama JFK e outro, o de Londres. Porquê? Porque há uns anos atrás foi constituída arguida no conhecido processo das FP-25 de Abril. Tendo sido absolvida. O mais interessante é que há uns anos atrás, não muitos, tinha estado também em New York. E não tinha tido algum problema. O que mudou entretanto? O mundo, ele próprio, tornou-se um lugar mais estúpido. Onde a estupidez do cadastro informático que não sabe explicar a diferença entre um arguido e um condenado, medra. Como não o tinha feito antes, uns anos atrás. Um mundo mais estúpido tem muito menos capacidade de filtrar a estupidez. É só por esse pequeno promenor que, mesmo quando tudo parece igual a tudo, e assim, incrívelmente inscrito na estupidez reinante, faz algum, todo, o exacto sentido procurar a inteligência das coisas e dos seres.

quinta-feira, abril 22, 2004

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - X

Sempre pensei que o facto de eu não ter sabido antes que viviamos numa ditadura se devia ao facto de ser ainda muito pequeno. É verdade em parte. Mas não é toda a verdade. Houve muitas crianças como eu que tiveram de perceber o país em que viviam antes de terem sequer idade para saberem o que era um país. A razão principal terá sido o facto de viver numa pequena vila da região saloia e dos meus pais pertencerem áquela grande massa que com o seu não querer saber , foram extraordinariamente convenientes a um regime que, mesmo assim, preferia dobrar as consciências, a quebrá-las. Não tenho por isso grandes memórias do antes do 25 de Abril. Memórias com intencionalidade. Talvez já tenha falado nisto aqui, mas há três pequenos acontecimentos que se sobressaiem nessas recordações. Um, já falei decerto, foi quando a minha mãe teve de ir à Faculdade de Letras. O outro, numa manhã das eleições em que o MDP/CDE disputava as urnas, que também já referi. E este último, que aconteceu quando Américo Tomaz foi ao Brasil levar as ossadas de D. Pedro V. No anedotário luso corria então que ao chegar, os brasileiros ficaram um pouco indecisos, a olharem para um e para o outro, sem saberem qual das ossadas pertencia ao fundador do Brasil. Ouvia-a em casa, à mesa de jantar, sem qualquer aviso de recato. No dia seguinte fui para casa do Cachucho depois das aulas e estava a dar a transmissão da cerimónia. Logo contei a anedota que tinha ouvido na noite anterior. À noite, na noite desse mesmo dia, à hora de jantar, a minha mãe olha-me com indiscutível aquele olhar severo e diz-me: -Quim Paulo, as conversas que ouves cá em casa não são para as dizeres lá fora. Tudo isto era pueril, leve, não estava a segurança nacional em causa, como é evidente. Lembro-me no entando do que senti. Que entre mim e as minhas acções não havia apenas a sombra tutelar e ao mesmo tempo sancionadora, dos meus pais. Uma outra sombra, governava os meus pais que eram a sombra que me governava a mim.

terça-feira, abril 20, 2004

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - IX

Abril com "R" Trinta anos depois querem tirar o r se puderem vai a cedilha e o til trinta anos depois alguém que berre r de revolução r de Abril r até de porra r vezes dois r de renascer trinta anos depois Trinta anos depois ainda nos resta da liberdade o l mas qualquer dia democracia fica sem o d. Alguém que faça um f para a festa alguém que venha perguntar porquê e traga um grande p de poesia. Trinta anos depois a vida é tua agarra as letras todas e com elas escreve a palavra amor (onde somos sempre dois) escreve a palavra amor em cada rua e então verás de novo as caravelas a passar por aqui: trinta anos depois. Manuel Alegre [fisgado no absorto]

segunda-feira, abril 19, 2004

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - VIII

R(e)volução. Disse, há qualquer coisa de estranho e bizarro nesta discussão sobre se o 25 de Abril foi ou não uma revolução. 1. Ao olhar os cartazes da Câmara Municipal de Lisboa com a comemoração dos trinta anos do 25 de Abril percebe-se o corpo do estranho, o bizarro. No canto inferior direito, um pequeno logotipo de Abril é Evolução. Na programação actores sociais, politicos e artisticos que defendem que o 25 de Abril foi uma revolução. 2. É produtivo analisar o que se passa socorrendo-nos de um dos axiomas fundamentais da pragmática da comunicação, tal como ela foi trabalhada por P. Watzlawick e G. Bateson, aquele que diz que num acto de comunicação a relação pontua os conteúdos. O que quer isto dizer, em traços grossos: que havendo um acontecimento, o 25 de Abril, e duas mensagens, uma, a da direita, dizendo que o 25 de Abril são 30 Anos de Evolução, a outra, a da Esquerda, que responde dizendo que o 25 de Abril foi uma Revolução, os dois conteúdos, não contraditórios, são desvalorizados em função daquilo que é realmente valorizado, e que é a relação entre Esquerda e Direita. Relação pontuada pela aparente necessidade da Esquerda e da Direita se contradizerem perpetua e eternamente. 3. Disse-o na entrada anterior, o que é decisivo nesta necessidade da Direita construir um discurso próprio sobre o 25 de Abril é o facto da Direita ser poder.Como nunca o foi desde o 25 de Abril, nem nos tempos mais duros da AD. Encurralada entre a sua novel condição de ser poder e a necessidade de assumir que os trinta anos de evolução que se seguiram à Revolução de Abril tornaram inquestionável a presença e a marca deste acontecimento na sociedade portuguesa, a Direita deu um salto para a frente. Fê-lo com inteligência política, encontrando a fórmula que lhe permite contemporizar o seu ódio ao 25 de Abril com a necessidade de com ele conviver. 4. É claro que de 25 de Abril de 74 a 25 de Abril de 2004 são trinta anos de evolução e esse é o maior elogio que se pode fazer à Revolução do 25 de Abril. Ao reconhecer que Portugal trilhou trinta anos de evolução a direita portuguesa presta finalmente a sua homenagem ao 25 de Abril. Faz as pazes com ele. Ou pelo menos, arranja uma fórmula que lhe permite não desviar os olhos quando se cruza com ele na rua. A partir de agora para a Direita, nas suas próprias palavras, trinta anos de evolução começaram com a revolução de Abril. Nem com a primavera marcelista. Nem com o 25 de Novembro. Com o 25 de Abril. 5. Sem dúvida de que há aqui um apoderar do 25 de Abril por parte da Direita. E se juntarmos isso a essa mescla de idiotia e de arrogância que promoveu um marketing político que atirou para cartazes, para anúncios, uma fórmula que só não fere a sensibilidade de todos nós porque é, no seu próprio enunciado, ridicula. Porque se a evolução é a partir de 25 de Abril de 74, é porque nesta data aconteceu algo que não é da ordem da evolução. Senão a contagem do tempo seria feita antes ou depois. Como alguns o fazem, mentalmente, quer na primavera marcelista quer no 25 de Novembro. 6. A forma como muitas vozes da Esquerda reagiram a esta alteração do padrão de comportamento da Direita em relação ao 25 de Abril foi também uma manifestação de propriedade. Como se dissessem, lá está a Direita a querer apoderar-se do 25 de Abril, do nosso 25 de Abril. E a não perceberem o positivo que é esta necessidade da Direita assumir uma história que não se engasga ao dobrar da noite de 24 para 25 de Abril de 1974. 7. O 25 de Abril foi uma Revolução, o 25 de Abril é Evolução, o 25 de Abril ainda é uma criança, o 25 de Abril é sempre que um homem quiser, tudo depende de quem a olha,onde a olha, com que tempo dentro de si a olha. Parece-me igualmente ridiculo que alguém queira fazer marketing político não percebendo que só tenta afirmar que Abril é Evolução, porque sabe que o 25 de Abril foi uma Revolução, como pensar que o 25 de Abril vai deixar de ser uma Revolução só porque a Direita, em calhando estar no poder no aniversário dos trinta anos deste movimento revolucionário, organizou assim o salão de festas, os discursos, as próprias festas. 8. Falarmos de um assunto estranho e bizarro como este é também correr o risco de não deixarmos aclarar o que dizemos. No mote que o Governo deu às comemorações dos trinta anos do 25 de Abril, há tanto que reconhecer a inteligência como assinalar a arrogância. O rídiculo. De tudo isto talvez sobreviva este desejo de fazer balanço e de nesse balanço olhar o futuro com um sentido positivo. Porque a fórmula Abril é Evolução , como contraponto a algo que nem é assumido, a negação da revolução, essa será tão efémera como este governo. 9. O que há a dizer e isso há que dizê-lo com total veemência, é que ao celebrarmos trinta anos da Revolução de Abril temos um Governo retirado do Portugal dos Pequeninos. O que há a dizer e isso há que dizê-lo com total veemência, é que hoje é tão previsível onde o pau bate, que há que voltar a olhar para o que aconteceu naquela madrugada há tanto esperada e perceber onde estão os vencidos e os vencedores de então e como é que o Estado, afinal aquilo que pretendemos resgatar, se comporta em relação a cada um deles. 10. Apenas isso.

sexta-feira, abril 16, 2004

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - VII

R(e)volução. Há qualquer coisa de estranho e de bizarro nesta discussão sobre se o 25 de Abril foi ou não uma revolução. Por um lado a Esquerda, ao defender que foi uma revolução, divide-se, surge pulverizada na perspectiva que adopta sobre o desenvolvimento dado a esta revolução. E aí o 25 de Novembro surge como uma relevante divisória. O que é que foi o 25 de Novembro? Uma contra-revolução? Um apoderar reformista de um movimento revolucionário? E então, hoje vivemos numa democracia parlamentar porque houve o 25 de Abril ou porque houve o 25 de Novembro? E o que serão hoje, as conquistas de Abril? O cartaz do Bloco de Esquerda, sobre a relativa infantilidade da revolução de abril, fala de quê? E a direita, e sem dúvida de que este discurso evolucionista não está de acordo com a experiência social democrata e é mais uma conquista de Paulo Portas, ao defender que é uma evolução mais não faz do que arranjar uma fórmula que lhe permita, enquantor poder, conviver com a importância do 25 de Abril para a sociedade portuguesa. Mas também, esta engenharia ridicula dos populares esfrangalha e pulveriza a direita, que entre nós, com revolução ou evolução, sempre alimentou um ódio visceral ao 25 de Abril. Há qualquer coisa de estranho e bizarro nesta revolução não cumprida que começou em 25 de Abril de 1974.

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - VI

Lembrei-me do LSD (Louvado Seja Deus), jornal editado por jota jota, tozé alpiarça e vitor ávila no Liceu D. Dinis, através de uma associação de ideias peregrina, por causa de uma nota do absorto e de EPC, a propósito de uma entrevista de Ana Sousa Dias à fadista Aldina Duarte. Foi aí, no LSD, a primeira vez que ouvi falar dela. Aldina Duarte, que nessa altura teria, creio, 13 anos, escreveu um poema que nos emocionou a todos, pela força e vontade de viver.

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - V

Dos meus breves tempos da UEC uma das recordações mais prazenteiras são as conversas que eu e o Rui tinhamos enquanto vinhamos de do Liceu, em Chelas. Tinhamos doze, treze anos. Um dia discutíamos a ameaça americana, o perigo de uma invasão e ocupação americana. A perda da identidade nacional. O campo aberto que isso seria ao reviralho fascista. Era o linguarejar da época. Tinhamos na referência os filmes de Costa Gravas. Eram esses os nossos fantasmas. Falávamos da Esquadra da NATO presente no estuário do Tejo ( não sei se foi por alturas do célebre comício do Pinheiro de Azevedo no Terreiro do Paço). O Rui sossega-me: "- Em Portugal nós resistíamos. - Mas como? Somos tão pequeninos. - A União Soviética ajudava-nos. - Tens a certeza? - Absoluta. Eles íam ajudar o povo a enfrentar os americanos. Eles são uma super potência.." E lá fui eu nesse dia mais sossegado para casa. Os americanos podiam vir, nós dávamos conta do recado. Já imaginava um exército de forquilhas, de pás, de enxadas, uma daquelas multidões saídas das pinturas murais do MRPP. E, na retuaguarda, os soviéticos. O mundo naquela altura era tão à nossa imagem e semelhança, com os bandos de beligerantes e rufias alinhados em torno de um ou outro líder. E era isto que fazia mover o relógio da sala.

terça-feira, abril 13, 2004

O Mundo, disse ele

No outro dia, um destes de Páscoa, acordei mais uma vez com o noticiário da TSF, mais uma vez com João Paulo Baltazar. Surge uma notícia sobre as mortes na estrada. A que se sucede uma outra sobre um encontro entre Bush e Ariel Sharon. Vale a pena ir buscar estas duas peças aos arquivos para se perceber como é que a edição, sem manipular, é um investimento narrativo pessoalíssimo e que a diferença entre uma rádio e um posto emissor se constrói por aí. Como é natural, não sou capaz de transcrever as duas notícias, mas espero conseguir recuperar aquilo que nelas me apareceu como vigoroso, como marca de escrita. Na notícia sobre os mortos na estrada, JPB, constrói-a como se de uma guerra se tratasse. Fala até, creio eu, "do aumento de violência" na noite anterior. E a certa altura, quando já deu a notícia, quando nos fez pensar o que é que desta vez esta incrível matança de Páscoa tem de diferente das outras que se sucedem como uma rotina, uma maldição, o seu tom de voz torna-se menos grave, agarra um registo quase trauteado, para ligar a uma outra guerra, a do Iraque, através de dois personagens do nosso terror, Bush e Sharon, embalando-os também nessa melopeia, levando-nos subliminarmente a uma associação com as histórias mil vezes repetidas. O que mais me pareceu espantoso é a capacidade de conjugar estes dois níveis, o explicito e o subliminar, na linguagem sem fios para criar estas duas notícias, uma a seguir à outra, dois minutos de rádio. Dois minutos de rádio!!! Dois minutos da rádio num outro mundo, o seu.

quinta-feira, abril 08, 2004

Livrarias, diz: Livraria Popular

Não havia livraria nos Olivais. As minhas primeiras livrarias não eram propriamente livrarias. Eram bazares, onde eu, entre os onze e os quinze anos, prolongava a relação com os autores das estantes lá de casa. Era o tempo das Belazés, das D. Isauras, que estranhavam aquele consumidor frequente de Livros do Brazil e da Colecção Dois Mundos que lhes entrava pela porta adentro. Até que, com alguma relação com a Caminho, parece-me, surge nos Olivais uma livraria, que julgo ter-se chamado Livraria Popular. Creio que estava ligada a uma Cooperativa. Onde a par daquele fundo teórico que vinha na vaga de fundo de uma Revolução ainda próxima, encontrávamos desde os grandes autores até autores muito próprios de um certo fetichismo cultural de uma incerta geração de soixant huitards. Discos. No ar respirava-se os cantautores, os cantores de abril. Havia ali uma amizade entre os livros e aqueles que os vendiam, que passava para quem entrava. A mim passou-me. Ficou-me. Dois andares de estantes corridas, saborosas, o meu porto de abrigo. Ali mesmo ao pé do Vale do Silêncio. Um dia fechou, abriu falência. Ou, foi engolida pela silenciosa maldição do bairro em relação à cultura.

terça-feira, abril 06, 2004

Escurifica

"Tenho apreciado esse teu deleite com a escuridão, com a penumbra. Esse (re) corte inacabado de luz sobre o teu dorso. Também gosto de dançar no breu e não é a luz que me segue. És tu nos passos que, meus, te procuram."

À Paris, c'est le Printemps

Há um cansaço superlativo neste existir. Nunca o atingiremos, é certo, mas há. Tal e qual como o devir infindo deste sabor a maçã que me escorre pelo palato bem pouco original no seu pecado, há um superlativo neste cansaço de existir.

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - IV

Lembro-me do recolher obrigatório. Do mais de quatro pessoas juntas é considerado uma manifestação. Dos chaimites a passarem, a intervalos regulares, depois das 21h, na rua de cima. Era o tempo do COPCON. Sentados na relva a descortinarmos, de golpe em golpe, o sentido destas coisas. Ao fundo um chaimite. Separamo-nos. Três e dois, separados dez metros, a artitmética possível. É claro que eles não nos iram fazer nada. Éramos cinco miudos sem pelugem na revolução dos homens barbados e cabeludos. Mas na nossa cabeça afastámo-nos. Não sei se era o 28 de Setembro, o 11 de Março....não era decerto o 25 de Novembro. Esse só viria mais tarde. Ocorre-me como se fosse hoje a colina de homens a serpentearem os prédios em frente ao meu, na rua cidade da beira. Foram assim até ao Ralis. A guerra do Solnado. Mas ouviram-se tiros para o ar vindos do aeroporto. Salvas de canhão. A minha casa ficava num triangulo não perfeito entre o Aeroporto e os Ralis, estes mais ao fundo. Lembro-me claramente dos tiros e das salvas de canhão no Aeroporto. Havia fumo. Fogo. Não era a brincar. Não sei precisar quando. No 11 de Março eu e o Paulo pegámos nas nossas biclas, descemos quase toda a Rua Cidade da Beira, cortámos a direito em direcção aos bombeiros, fomos à Encarnação e fomos ter ao Ralis. Éramos gente na multidão. Anos mais tarde encontramo-nos nos relatos, nas provas testemunhais que nos chegam. O Carlos Fragateiro, com quem trabalho hoje, estava lá também, vi-o no outro dia na revista da Visão, ladeando Jean Paul Sartre. 25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? Há qualquer coisa de exaltante nisto. No 28 de Setembro fomos para cima do telhado xingar os aviões que passavam, tentar interceptar, com dois walk-talkies , comunicações com a torre de controle do Aeroporto. Já era hábito. Uma vez tivemos mesmo direito a Polícia a entrar pela rua. O que nós corremos. Saimos pelo 87, rastejámos pelo telhado rumo ao 88 e saímos pelo outro prédio, onde escondemos os nossos aparelhos. E depois, passando pelo meio da polícia, metemo-nos nas nossas casas. Debaixo das saias das nossas mães. Éramos tão pequeninos que ninguém dava por nós. Os policias, talvez por medo do ridiculo, procuravam sabotadores encorpados, não uma meia dúzia de putos charilas, macacos sem pila.

segunda-feira, abril 05, 2004

Ensaio sobre a Lucidez

Estava eu a regalar-me com as imagens da chacota de que G.W. Bush era alvo por um miúdo que assistia ao seu discurso, quando ela, não embandeirando em arco, diz: - É apenas um miúdo malcriado. Mas - tentei eu ainda puxar a situação a meu favor - e o facto de ele ter gozado Bush, assim, perante milhões de pessoas: - Faz dele um miúdo mais mediático mas não menos falho de uma boa educação. - E para que eu não tivesse alguma dúvida de que não tinhas achado piada nenhuma àquele miúdo - É igual ao Bush. É tão insolente quanto o Bush. Senão nem estaria ali.

Almanaque Ribeirinho

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - III

Insisto na memória deste 25 de Abril em calções, de palmo e meio. Aderi à UEC em fins de 74 e ainda não ia a meio 75 já eu entregava o meu cartão de militante e dizia adeus a uma das experiências mais fantásticas da minha vida, principalmente graças à camaradagem do Duarte, o amigo que me levou até à Serpa Pinto. - Anda comigo inscrever-te na UEC. - Vamos. Era o tempo dos melhores amigos e a estes nunca se diz que não. Porque nunca nos levam por maus caminhos. Assim foi, assim será. Fomos a pé dos Olivais até ao Campo Pequeno, onde perto funcionava a sede do PCP. Não tinhamos dinheiro para ir e vir, fomos a pé para lá e guardámos o dinheiro para a volta. Depois de nos inscrevemos demos de caras com uma bilha de barro que dizia: "Camarada, o teu partido precisa do teu contributo". Nem pestanejámos. Colocámos lá os quinze tostões do bilhete de autocarro e viemos a pé, à chuva. Havia uma coisa que nem eu nem o Duarte previamos. Era engraçada a vida partidária, a minha controleira era uma espécie de irmã mais velha, mas mesmo naquela altura não era confortável ouvir, tanto à esquerda como à direita, o "uec-uec, abriu a caça aos patos" com que todos nos xingavam. Aliás, essa estranha unicidade xingatória aos comunistas era a expressão do maior consenso político ocorrido em Portugal antes das eleições do general Eanes. E um dia, o dia em que eu descobri - pela boca do Prof. Lourenço, que discutia com o Luis Trotski e com o Paulinho da UEC - que a União Soviética até tinha o COMECON, ai foi demais. Apressei-me a voltar a casa e a bater à porta do Duarte. - Preciso de falar contigo. Com ar grave contei-lhe tudo. Da discussão entre o Trotski, o Paulinho e o Prof Lourenço, na sala de convívio do D. Dinis. E como este tinha calado todos quando lançara o seu demolidor: "- Porque a URSS também tem o COMECON." O Duarte assegurou-me que não sabia, senão tinha-me contado. Respondeu-me: "-Também eu já não aguento mais isto.". Isto era os olhares de censura da Laura, uma rapariga da UDP que, enquanto o xingava, desejava-o : "uec-uec, abriu a caça aos patos" . E o pobre do Duarte, um excelente moço, sem saber para que lado é que se havia de deitar. Desfizémos ali mesmo o nosso pacto. Pegámos no jornal do Avante e, como em todas as semanas, fomos buscar os microfones duplos da aparelhagem lá de casa dele e lemos , com nobreza na voz e firmeza no coração, a lista completa do comité central do partido comunista português. Depois disso olhámo-nos e combinámos telefonar aos nossos controleiros. Eu não sabia que o PCP e a UEC eram tão conservadores como pude constatar quando falei com o meu controleiro. "- Viva. Precisava de falar contigo. Tenho que sair da UEC... - Porquê, camarada? - Por causa do Come... - menti. Algo me disse que estava a explicar as coisas pelo caminho mais complicado. - ...por causa dos meus pais. Eles não gostam que eu seja da UEC. - Camarada, a família está primeiro!- E logo ali me prometeu tratar de tudo para me poupar a mais chatices, nunca mais ninguém me faria perguntas. ." E assim foi comigo. Porque o Duarte não pôde explicar a história da sua Laura. Ela não tinha, nos códigos conservadores dos comunistas, o mesmo peso que a minha família. Nas quatro semanas seguintes um misto de pena e remorso acompanharam-me enquanto via o Duarte a reservar o melhor da sua tarde precorrendo as alamedas do Vale do Silêncio, ombro a ombro com o seu controleiro, que lhe explicava aquilo que eu só mais tarde vim a descobrir, numa aula de nocões práticas de economia em que o tema foi a EFTA e o ...COMECON .

No Mercado um link vale um milhão de palavras

" A discussão pública acerca da participação popular em eleições acendeu-se com a posição de Saramago acerca do voto em branco. Parece ser uma campanha de publicidade ao seu livro colocado, recentemente, no mercado. " em o Absorto.

sexta-feira, abril 02, 2004

25.4 de 74/ 25.4 04. Trinta anos de Quê? - II

Algures entre Outubro de 74 e Junho de 75. Deambulava eu - assim se chamava o verbo que nos cozia os passos, deambular - pelas Azinhagas de Chelas, entre o Liceu D. Dinis e os Olivais, à procura de alguma pontaria no cravanço de um cigarro, de uma bia, entrei numa Assembleia de Moradores com o MFA. Nem sei o motivo da reunião. Mas aquilo compensava. A malta da revolução eram menos semíticos com os putos cravas e lá se íam fumando uns cigarritos. Entro no anfiteatro. Posiciono-me de modo a ter alguma cobertura visual sobre a origem dos diferentes novelos de fumo que se soltam no ar. Sem me dar conta o orador que está na mesa reapara em mim e incorpora-me na sua retórica: "- Precisamos de ouvir os jovens. Os jovens é que são o futuro. Olhem à vossa volta. Olhem para este jovem que acabou de entrar. - Apontando para mim - Camarada, podes falar! Aqui podes falar! O que é que vieste aqui fazer? - Queria pedir um cigarro. - Recebi uma avalanche de palmas. Nessa tarde levei para casa uma data de cigarros avulso, desde o português suave ao sg ventil.

O Cigarro e a Formiga

A Sofia de A Natureza do Mal está a abandonar o cigarro. Espero que consigas. Estive trinta anos a fumar consecutivamente, todos os dias. Acordava com o cigarro na boca e deitava-me com ele. Só de pensar em deixar de fumar ficava mal disposto. E era também ele que, em certas noites, me acordava. Um dia, faz amanhã cinco meses, atirei o tabaco fora e não voltei a comprar nem a fumar. Gostava de lhe dizer como foi, mas não sei. Ainda hoje sinto que foi um outro que não eu que tomou essa decisão. A mim só me coube respeitá-la. Por isso Sofia, não te preocupes. Se for o tempo de deixares de fumar, sabe-lo-ás.

25.4.74 / 25.4.04 . 30 anos de quê? - I

Estou a seguir com muito interesse as notas pessoais sobre o 25 de Abril que Eduardo Graça está a publicar no seu Absorto. Nascido em Maio, em 25.4 de 74, tinha quase doze anos. Ainda estava a tentar colocar os pés no chão à seguir à primeira revolução que foi para mim, um ano antes, a minha vida para a cidade, tinha vivido em Mafra até aí, quando de repente me cai em cima uma outra revolução, nas ruas. Com tropas, carros de assalto, chaimites, megafones, palavras de ordem. Com RGAS no Liceu D. Dinis, com Assembleias de Moradores em Chelas. Com sessões programadas de pancadaria entre comunas e revisionistas no Técnico (a que eu nunca ía). Com vivas á Aliança Povo- MFA quando os magalas encostavam as sopeiras lá do prédio àquela esquina mais tarde designada canto do amor. O 25 de Abril foi, sei-o hoje, uma enorme ludoteca da liberdade, do excesso e da cor, onde os acontecimentos vinham em catadupla, sem os entender. E é por isso que me está a interessar seguir as notas pessoais do Absorto. Havia, naquela altura pessoas para quem aquilo tinha um sentido perceptível, sentido no qual eles participavam. No meio daquela euforia, daquele non sense com que um miúdo de doze anos olhava a sua rua, a sua cidade, o seu país, o seu mundo, havia pessoas que sabiam ler e entender o que se passava. Eu não era um desses. Lembro-me, como se fosse hoje, de, nessa manhã, ter chegado à varanda do nosso andar e ter olhado para o Duarte, o meu vizinho de cima e o meu melhor amigo: - Está a dar na rádio. Hoje não há aulas.! - Há uma revolução. - O que é isso? - Não sei. O meu pai sabe. Ele tem cá um livro de um general em que fala disso. Ele logo explica-me e depois eu conto-te. - Mas não há aulas, mesmo? Foi assim, sem tirar nem pôr, que eu soube que havia uma revolução. Na televisão passavam as imagens do Carmo. Ouviam-se tiros na António Maria Cardoso. Quebrando o impasse, Marcelo e Spínola, encontram-se. Nunca me esquecerei de Marcelo Caetano a sair de chaimite, a ser cuspido pelos populares. Na altura não gostei. Ele era companhia relativamente assídua dos meus sábados, depois do banho familiar, a seguir aos Ranchos do Pedro Homem de Melo e do Se bem me Lembro do Vitorino Nemésio.

quinta-feira, abril 01, 2004

A hora e o tempo da política

Alta reactividade. Um amigo mandou-me um email chamando-me a atenção de que, na entrada anterior, ao escrever que " Há um tempo para a verdade e só quando essa chega e monta morada, é que é a hora e o tempo da política. " poderia ser entendido como um sinal de desistência. É que, explicou ele, a hora e o tempo da política é também e sempre trabalhar para que o tempo da política seja possível. Ou seja, há que não dar descanso àqueles que pela mentira se vão, pelas leis da vida, governando, e no seu governo, se aplicam com infinito desvelo em tornar as nossas vidas mais ácidas, mais díficeis e insuportáveis. Não posso estar mais de acordo. E embora não quisesse dar conta de nenhuma desistência, o importante é deixar bem claro, não posso estar mais de acordo.

quarta-feira, março 31, 2004

Tratar da Política

Neste retomar lento à Blogosfera, vou ao Absorto, meu vizinho da blogosfera, mantido por Eduardo Graça, antigo presidente do INATEL, que comecei a conhecer desde finais de 1999 quando - ao apresentar-lhe um pedido para regressar ao Teatro da Trindade - fui por ele desafiado a trabalhar para o seu Gabinete, ao qual estive ligado até ao inicio de 2003, altura em que ele foi exonerado pelo actual Ministro que tutela este Instituto. Tenho evitado aqui escrever sobre tudo isso, e vou continuar a fazê-lo, por várias razões. Continuando ligado ao Instituto que Eduardo Graça dirigiu, esboçar um gesto em sua defesa é também defender um projecto no qual trabalhei e acreditei e por isso, será um gesto de auto-defesa, legítima sem dúvida, mas também inútil. O que fizémos ou deixámos de fazer, no campo da inovação e da modernização do Instituto já não nos pertence. O que fizémos ou deixámos de fazer, no campo da inovação e da modernização do Instituto não poderá deixar de ser ponderado por quem quiser continuar a servi-lo. Porque a vida seria ainda mais penosa e injusta se nós fossêmos avaliados não pelo que fizémos, sonhámos e projectámos mas pelo que outros viram nos nossos actos, gestos e projectos. Há um tempo para a verdade e só quando essa chega e monta morada, é que é a hora e o tempo da política. Sem isso, e não precisamos de Hannah Arendt para o saber, seria o seu fim. Mas, ao ler as notas pessoais de Eduardo Graça, a propósito dos trinta anos do 25 de Abril, salta-me à vista o "anti-autoritários e de esquerda toda a vida..." com que ele define um geração com a qual partilhou toda uma prática política. E por muito que esta afirmação tenha um tanto de um apologético romantismo, tanto quanto essa geração é um universo dentro de outro universo, a verdade é que foi por causa do seu exemplo que eu, ponderando um maior envolvimento político a seguir aos momentos dificeis que se sucederam à fuga de Guterres, aderi ao Partido Socialista. Exemplo de conciliação de valores que muitas vezes consideramos antitéticos como irreverência e autoridade, seriedade e humor, consagração da gestão e louvor da poesia, inovação e tradição, além de um grande apego à vida, à juventude, de recusa do mofo e do conservadorismo.

terça-feira, março 30, 2004

EM NOME DO PAI

[Ontem foi o primeiro dia em que me encontrei com a nossa C. depois da morte do seu pai. Ela, meio allien, dizia, nem sei ainda como me sinto. Sei-o, é a dor mais terrível; como uma sombra, como uma núvem pesada e triste e traiçoeira enlaça-nos, abraça-nos, abriga-nos. Sem sequer dizer o nome, donde vem, para onde vai. Depois da água, depois da cascata, o deserto. O de nenhures. Disse-lhe, vou-te dar um texto que escrevi - publicado no Natal de 94, no VENTO NOVO, onde assinava regularmente a crónica Olho da Rua - quando o meu pai morreu. E depois emendei, três meses depois. A correcção linguistica disfarçando o inexpiável: morte de pai é intemporal. Acontece uma vez, uma única vez e para sempre. Aqui fica o texto. Também para ti. Deixei de te ver em ti, guardo agora o teu amor naquela criança que fere a calçada com o seu passo de gigante anão. Não te amo menos por isso. E um dia ele perguntar-me-á quem tu foste, e eu responderei quem tu és, meu pai. Ainda me lembro de ti, deitado na minha cama, a chorares aquela água da fonte seca, da fonte rude, agreste e... terna com que foste educado logo desde que nasceste, a dizeres-me "- Eu não me importo de morrer, não queria era que fosse já. Apetecia-me viver mais um bocadinho". Exactamente aquilo que uns anos antes, nesse entre a ficção e o real que tem sido a minha vida, a Ti Miséria me respondia, na entrevista que lhe fiz a propósito de "Nós de um Segredo", do Bando.] Bem queria escrever sobre outro assunto. Aproxima-se o Natal, vejo a mesa composta, os pratos, os talheres, os doces e as carnes, imagino até aquele cacau a circular antes da cerimónia das prendas, há um manancial de temas habituais de conversa, mas não consigo falar de outra coisa senão da morte. Qualquer palavra que escorra para o papel será a seu modo sempre uma evocação da dor e da saudade de um filho que, depois de ter deixado de acreditar no seu pai do céu, perdeu o seu pai da terra. Ao mesmo tempo essa evocação é qualquer coisa de tão intima em que não quero, não posso misturar o leitor. Terei então de me ocupar da morte como se falasse de vida. O que não é tão díficil quanto à primeira vista pode parecer. A vida e a morte, a noção que temos de cada uma delas, encontram-se tão misturadas que uma sem a outra não têm qualquer sentido. E hoje nós sabemo-lo como ninguém. É que se antes, num tempo extraordináriamente recente, a estrutura da nossa vida quotidiana conseguia separar claramente, na terra, o que era morte e o que era vida, hoje já não se passa assim. Cada vez mais encontramos ao nosso lado pessoas que têm de negociar em vida com essa tragédia de um dia já não estarem connosco. No outro dia um amigo de bairro, que já não via há muito, trazia no corpo os sinais da devastação da peste, da sida. Estava magro, pálido, aquela humidade deste inverno manhoso que temos tido trazia-o mal-disposto, inseguro. Talvez tenhamos estado uma hora à conversa. Falámos de tudo menos de morte, da ideia de morrer. Contou-me os seus projectos de trabalho, o modo como queria fazer um atelier gráfico em sua casa e espantosamente falou-me da vida. Na sua boca a vida tinha um tal cunho de autenticidade que me fez estremecer. Embora fosse a morte anunciada que estava ali a falar comigo, conversar com ele era descobrir na vida uma vivacidade que eu desconhecia. E, por mais dolorosa que tenha sido para mim a perda de meu pai, compreendi que o seu desaparecimento fez parte de uma celebração muito antiga que a natureza tem com o homem. E que o verdadeiramente trágico não é irmos embora de vez, é partirmos sem termos experimentado as possibilidades que temos de nos realizarmos como pessoas. É abandonarmos este gigantesco palco mundial sem termos contribuido para enriquecer a experiência colectiva que o homem vem, desde há milénios, concretizando. Esse sim, o maior momento de dor e perda que nos pode atingir. Uma ausência irreparável. Porque colectiva, de todos nós. Daí também esse estranho dever e direito de cada um não abdicar de lutar por essa experiência individual de escolha e liberdade que tem ao seu dispôr. O meu amigo, e todos que estão com a morte estampada na testa fazem-nos lembrar que todos nós somos efémeros. E que antes de irmos embora pudemos tentar, já que nunca saberemos porque viemos e iremos, dar um sentido à nossa presença aqui. Boas Festas, leitor!