Há uma ideia vencedora para este país que não tem vencimento no país que assim se canta vencedor.
Que ideia é essa amigo, que te põe de bem contigo e mal com os outros?
segunda-feira, junho 21, 2004
Ai Portugal Portugal 0-4
Há uma ideia vencedora para este país que não tem vencimento no país que assim se canta vencedor.
Que ideia é essa amigo, que te põe de bem contigo e mal com os outros?
Ai Portugal, Portugal 0-3
Haveriam, se o quisessem, conseguir explicar-me que ideia superior de nação, de portugalidade, de pátria estava na cabeça daquelas criaturas que ontem entupiram o Martim Moniz buzinando incessantemente ali, paredes meias com um dos maiores hospitais da cidade. Haveriam mas, tão ufanos e tão categóricos nos seus direitos de festejar, de colocar ao rubro este país, até das próprias razões se esqueceram.
Ai, Portugal, Portugal 0-2
Não sou especialista em psiquiatria e sou até muito pouco apologista dos psicólogos de sofá, que se apressam a diagnosticar à irmã, ao pai, ao filho, à mãe, à vizinha, uma esquizo, ou uma neura, ou uma psico. No entanto a ideia de demencial com que EPC se serviu para caracterizar o país, é muito produtiva. Há no entanto que não confundir demencial com louco e estou-me a cingir-me aos comportamentos observáveis e que observo. É que o louco não necessita que nós sejamos loucos para assumir e viver a sua loucura. O comportamento demencial, pelo contrário, é tipo jacinto da água. Necessita que todos saltemos, que todos gritemos, que todos usemos bandeiras, que todos cantemos o hino. Porque será?
Ai, Portugal, Portugal 0-1
Há uma criatura, que não deixa de ser um imbecil por ganhar avantajados milhares de contos e por ter o país a seus pés, que fala do futebol como se fosse uma guerra e por isso alguns dos seus últimos avisos aos seus guerreiros são o de levarem material bélico da maior contundência. Há gente muito bem intencionada e muito menos imbecil que encolhe os ombros diante destas revelações. Ou porque dêem o desconto ou porque lá no íntimo pensem que se isso servir para ganhar à equipa de futebol espanhola então até é compreensível.
Não acho nem compreensivel nem compreendo. Penso até que Scolari e quem o contratou e não o despediu depois de tais afirmações devia ser julgado como um criminoso de paz. Eu sei, é um delírio meu, pensarão alguns, e um delírio meu pensar que este país pode ser um país digno, representado pelos seus melhores, com garra, com genica, alma. E não tenho mesmo nada a contrapôr. É inteiramente verdade.
domingo, junho 20, 2004
Mãe, mudei...
Hoje, por volta das sete e pouco da manhã, depois de um dia de trabalho, depois de ter dançado a última morna no Bleza e de ter apanhado a última valsa do Jamaica, cheguei a casa completamente zombie e o meu primeiro e último pensamento não foi fazer um afundanço na cama, não, meio acordado meio a dormir, fui fazer uma máquina de roupa, só depois, com o barulho entorpedecedor e relaxante do motor da maquineta fechei os olhos e aí sim, mãe, aí, por breves momentos voltei a parecer-me com quem eu era.
Quase...
Ao contrário do que seria de esperar fiquei imensamente contente por saber que Scolari não dá entrevistas aos media espanhóis. O mundo está quase perfeito. Agora só falta aos media portugueses.
O detrás da Europa
Há uns anos João Grosso - por quem tenho verdadeira estima - cantou o hino nacional numa versão mais ou menos herética num programa televisivo. E disse que estávamos no cu da Europa. Viu a cabeça a prémio na RTP, no mandato de Carlos Pinto Coelho. Hoje, no programa de Jorge Gabriel - por quem tenho verdadeira gratidão - e depois de este também ter demenciado e pedido a cada português uma bandeira, toda a gente cantou o hino, o nosso hino. Num momento de invulgar proxenetismo que não terá consequências para ninguém. Ainda bem. A liberdade de expressão é o maior de todos os bens inestimáveis.
Um dia...
O ser blogue é nestes momentos de demência um privilégio. Aqui estou eu, com outras tantos e mais como eu, a tecermos a nossa existência, re existindo também. Dói-me menos este país demencial quando me sento aqui e respiro este ar, todos os ares, todas as correntes que dele se desprendem. Ninguém está a seguir de helicópetro este momento em que vos escrevo, ninguém está a pedir que me acompanhem cantando o hino, mas eu estou aqui e isso basta-me. Um dia a nossa vida, a vida de todos nós, será um pouco melhor por não termos demenciado.
Stand up Comedy
Ao ver António Sala inflamar-se de um sentimental nacionalismo e tecer loas à pátria, aos bravos do pelotão, ao que hoje e nos restantes dias do Euro estará em jogo, tive por breves momentos um relampejo de nostalgia e saudade diante da evocação das suas renomadas anedotas.
sábado, junho 19, 2004
O efeito dos blogues na vida das margaridas...
...(que é como quem diz, das flores) é tremendo. Ela desceu as escadas quatro a quatro, tal e qual como a calçada do poema e Luísa ía assim, cansada, com todo este universo a tombar-lhe na pedra do passeio, e ía imaginando posts, ela dizia blogues, ainda não estava muito madura na árvore da blogosfera, mas esta condição de poder escrever o mundo libertava-a, azulava-a, ela dizia, lembrei-me agora de um blogue que quero escrever, alinhava-os mentalmente, este é o primeiro, e de repente o mundo era inexplicavelmente mais expressivo. Assistir a isto, assistir verdadeiramente a isto, a forma como a expressão toma posse em cada um, é um privilégio.
Coerente de Ar
Tenho, mesmo se com algum atraso, realizado a maior parte das minhas projecções e sonhos. Tanto na escrita, como no teatro, como na animação cultural ou no ensino. Há sempre um problema de escala, claro, mas confesso que isso nunca me danou. E também se pode dizer, admito que sim, que os meus sonhos são particularmente pequeninos. Aí talvez não concorde. Ter trabalhado na Quinta da Calçada e ter feito com a Luísa Sousa e Silva a Rádio Nascente, criado a Malta das Ideias no bairro da Quinta das Laranjeiras com o Bernardo e a Sara Corte Real, ou no Bairro da Boavista ter feito a Televisão Independente da Boavista com o Manuel Peixoto, são para mim sonhos enormes, dos maiores que a terra pode dar a um homem de boa vontade. Dizia eu, tenho realizado a maior parte das minhas ambições e sonhos. Há duas que não fiz:uma, fazer documentários que sejam algo entre a escrita, a ficção e aquilo que a custo vamos chamando real. Fazê-los autonomamente, quer dizer, garantindo desde a recolha e captação até à produção. A outra, comprar uma caravana e fazer teatro nas escolas, nos largos, andando por aí, sem eira nem beira. A minha primeira peça, Geraldo Carne e Osso, fala disso mesmo. Não sei se alguma vez realizarei estes dois meus sonhos. O que eu sei é que a ideia de vida, esta vida, a minha vida, não me seria suportável nem tolerável sem essa corrente de ar que por este sonho escorrega.
Coisas do Diabo
Em atenção para com aqueles que continuam na blogosfera, e simultaneamente para com Pedro Mexia, tirei este link. Para a arquelogia dos lugares blogonautas talvez haja amanhã aqui uma inscrição dizendo que aqui se escreveu um dicionário. Hoje no entanto não vivemos de vestígios, de sinais, sim de ciência em carne viva. Não me coloco na grelha de partida para a discussão sobre este apagão dos arquivos do Dicionário do Diabo. Fui eu que um dia aqui escrevi que só mantinha este blogue porque nas ferramentas do blogger havia a expressão "delete blog". Que não gosto, não gosto. Que acho pires, acho. Que penso que muita gente respeitável, respeitadora e respeitante não tem em conta que ao governar-se com as alarvidades próprias de um mundo de proxenetas e campónios está também ela a tornar-se proxeneta e campónia, penso. Que, alinhando com essa moda intelectualmente correcta de salvaguardar os destinos poéticos de Pedro Mexia, digo que os únicos livros que espero comprar dele são de poesia, sim. Porque ele há mesmo coisas do diabo.
quarta-feira, junho 16, 2004
As Democracias dos Partidos
Ferro manifestou-se candidato. Lamego chegou-se á frente. Sócrates, espera. João Soares deverá avançar. O que me espanta é que estes movimentos sejam tidos em muitas análises como afrontamentos a uma liderança ou como enfraquecimento de um projecto político. E não é tanto espantar-me. É pensar que isso terá algo a ver com uma caracterização muito peculiar das democracias dos partidos - e o plural já surge aqui para perturbar o sentido - onde a ideia da estabilidade surge associada a uma outra ideia, a da liderança incontestada. E eu apenas imagino e desejo uma convenção socialista animada pelos jogos eleitorais na clareira da prática política. Tenho para mim que Eduardo Ferro Rodrigues ainda tem um excelente contibuto a dar e que ele passará por ser o candidato a primeiro-ministro que há muito a esquerda merece. Tenho aliás pena de que a vida dos partidos está mesmificada ao ponto de perfis como o de secretários gerais dos partidos terem de ser cumulativamente os de candidatos a chefes de governo. Este é um aspecto de menoridade política da vida dos partidos que espero poder ainda desfrutar de modo diferente. Governar um Partido e Governar um País são tarefas totalmente diferentes. Ferro Rodrigues aparece-me como um candidato natural a primeiro ministro, assim como, entre outros, José Socrates. Já António Costa ou Paulo Pedroso, que não têm para mim perfil para chefes do governo, me parece terem o perfil para criarem um projecto de vida partidária que seja um contributo para a actividade política nacional. É um delírio meu, eu sei, mas como eu gostaria de ter na próxima convenção socialista uma proposta para um candidato socialista a Primeiro Ministro, e uma outra para um candidato a lider do Partido Socialista...
Especiaria chinesa
Assomou-se claro, um sopro de ciúme. Vem mesmo a calhar, enquanto o prato está no lume e o seu destino pode ser tudo o que dele se quiser.
segunda-feira, junho 14, 2004
Acredito em ti, Peter Pan
1. Também, como ela, as ligações que tenho aqui ao lado são dos blogues que leio. Ou li, já que ao olhar a lista tenho rapidamente uma ideia do meu percurso aqui, na blogosfera. Tive, como a generalidade dos meus companheiros de blogar, espero, algumas estratégias iniciais para ser lido por quem eu gostava de ler. Comentários nos blogues que eu queria, primeiro, que soubessem que eu existia, segundo, que gostassem do meu existir.
2.Eram tempos de febre blogonauta. Que me fazem lembrar uma outra comunidade de escrita a que pertenci, o DN Jovem. Mas esse estado febril já passou, confesso. Alegra-me muito ver o meu amigo fazer uma profissão de fé neste modo de expressar ideias e opiniões e até digo que pode ser que sim, mas sou cada vez menos entusiasmo, cada vez mais céptico em relação a esta capacidade da internet blogonauta regenerar os sistemas viciados de nos fazermos representar. É claro que já não se trata de nos fazermos representar por outros iguais a nós, sejam políticos, futebolistas, princesas ou vedetas televisivas, nesse sentido a internet blogo é uma revigorante conquista de um espaço pessoal -pronto a montar e transportar - de análise e reflexão (seja lá como for a escrita tem essa capacidade endémica de ser retroacção).
3. A minha dúvida e o meu cepticismo - tenho de reconhecer, ele é ainda mais profundo do que aquilo que eu posso ambicionar ser capaz de explicar - é a de que por um lado estes espaços sendo já prontos a montar e a transportar sejam também, nesta bricolage da expressão, prontos a pensar.
4.E assim, por mais bem intencionados que sejamos, e somos e seremos sempre delirante e comovedoramente bem intencionados, escapa-nos, escapar-nos-á, a palavra essencial. Já nem digo a palavra essência, é mister que esta se escapula pelas nossas mãos gordurosas, digo, a palavra essencial. E nem mesmo é dessa que eu falo, refiro-me apenas e somente à palavra, a este artefacto, instrumento, dispositivo, cinzel com que escarafunchamos à procura, à procura de quê?, perguntas tu, não respondo, não tenho que ter resposta para tudo, essa é uma armadilha da escrita, de uma certa escrita, pensar que não se justifica senão se conseguir justificar, senão conseguir encontrar o fio da meada, a razão, a verdade.
5. Tenho de o reconhecer. O tempo físico em frente desta plataforma iluminada a que chamo êcran, mas que poderia bem entender como um espelho, dificulta-me o pensamento. E já não é apenas esta questão de os textos se tornarem, ponto a ponto, ou grão a grão, demasiado longos e de isso impedir a troca. Talvez isso apenas arrefeça a interactividade mais imediata. O problema é que sou eu próprio a enfastiar-me com a extensão do problema que detecto.
6. Penso até, mentalmente, em dividir esta entrada, em mais outras duas. Uma delas explorando esta ideia do "meu cepticismo sobre esta capacidade da internet blogonauta regenerar os sistemas viciados de nos fazermos representar". Outra sobre o meu cepticismo, ele mesmo.
7. Este texto não existe. Começou por ser uma coisa, uma referência a um blogue que descobri porque falou do Respirar. E que referencio não por o ter assinalado mas pela maneira como o fez. Agradou-me, principalmente pela forma como descobriu uma cumplicidade entre este respirar e esta flor, na areia. Mas depois este parece um texto do não é. Dispara em todas as direcções e angustia-se porque não pode tocar no essencial, não tanto por causa do essencial-ele-próprio, mas por antever nessa impossibilidade uma incapacidade de ser-em-pensamento. E por isso me pergunto, o que faço eu aqui, entre tantos actores da escrita festa, da escrita em festa, da escrita mais ou menos ingénua profissão de fé?
8. Talvez a minha mais valia seja essa. Fincar os pés e permanecer. Não sendo crente, também não sou descrente. Dar testemunho disso. Num texto de solavancos, de pára-arranca, dar testemunho disso. Ou não terei direito a existir por não ter nenhuma crença?
9. Nenhuma crença, perguntas. Nenhuma, respondo. Olhas para mim com esses olhos aflitos. Pudesse eu tirar-te a aflição dos olhos, meu deus. Nem mesmo no homem?, insistes. Nem mesmo no homem, respondo, e agora sou eu que me aflijo, nos olhos, no âmago (não está certo um não crente falar em alma, pois não?), principalmente no homem. Deixaste de ser magoada, agora magoas, tornas: nem mesmo nele acreditas, no Peter Pan Grande??
10. Esta tua última pergunta consegue pelo menos algo, suspender. O texto. O cepticismo. Quase a respiração. Não estou a chorar, não. Seria impúdico fazê-lo diante de um êcran que é tanto espelho como palco. O palco mundial. E não digo, penso, o silêncio é isso, é o dizer para dentro, cá dentro, penso que por mais que eu saiba que um dia o cepticismo também irá chegar a ele, ao Peter Pan Grande, ele tornar-se-á um homem e eu também deixarei de acreditar nele, agora, desalmadamente, creio nele, creio nesta capacidade de voarmos quando queremos, de nos transformarmos em dragões, dinossauros, Winnies de Poth, creio em ti, Peter Pan.
Bandeiras
Este aceno de nacionalismo serôdio pendurado nas janelas, nas portas, nos autobuses, nos táxis, atravanca-me o pensamento com ideias que, sem serem de contrabando, não são facilmente declaráveis. E nem discuto nada. Entrego assim por assentimento tudo o que quiseres, a pátria, a estirpe, a verve e o próprio poeta. Fico apenas com esta pequena ideia de comunidade a enbranquecer-me a alma e o contentamento, o meu país é este chão de nós feito de sal, riso e dor de quase nunca ser quase sempre.
Dou-vos um ensinamento novo...
a esperança: "A mentira não é uma fatalismo da política.". O melhor tributo que podemos prestar a cidadãos e políticos como Sousa Franco e Eduardo Ferro Rodrigues é acreditarmos na política.
Aforismo político
Já várias vezes tentei dizer isto, e disse-o gastando centenas de palavras, tanto em "Tratar da Política" como nas sucessivas respostas ao Luís Graça. Por isso gostei de o encontrar aqui, de forma tão sintética e clara "O melhor serviço que podemos prestar aos maus políticos é dizer que todos os políticos são maus." Quem for daqui a este texto encontrará também esta provocação que, independentemente da sua pontaria, dá que pensar: "Porque é que a esquerda não pode ser sedutora, leve, flexível? Porque é que tem que ser tão séria e pesada? Feia?
Das artes do mundo
"Se me perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas."
De Herberto Hélder, com a devida vénia a Espelhos Velados.
sexta-feira, junho 11, 2004
O Contraste
"os que decidiram que esse jogo teria de passar pela lota de Matosinhos, esses, deveriam prestar contas ao Partido, se este ainda tiver gente e força para isso." Luís
1. Olhar a fotografia de Sousa Franco entalado entre Narciso Miranda e Manuel Seabra, é um exercício violento, do domínio do asco, da revolta, do desejo de vingança. Exercício que só é suportável porque ajuda a que façamos a nossa catárse desta tragédia, e porque nos surpreendermos com o assomo de bondade que mesmo naquelas condições díficeis insistia em chegar-se ao rosto de Sousa Franco. A minha sorte é que não sou de Matosinhos. Senão nunca mais conseguiria olhar para um boletim de voto na vida. Narciso Miranda e Manuel Seabra, meus camaradas de partido, podem ser excelentes pessoas. Mas de hoje até não sei quando, sou sincero, não consigo vê-los senão como a antítese de Sousa Franco, simbolizando o pior que a politica portuguesa têm, o caciquismo e esta incapacidade de ver o bem comum para além da própria luta de conservação do poder.
2. O contraste que Sousa Franco faz com Narciso Miranda e Manuel Seabra é algo que está para além dos factos, algo que perdurará numa mitologia da politica. De um lado um homem que para servir uma causa que era a sua num Partido que não era o seu se sujeita às mais pequeninas estratégias de sobrevivência pessoal, dando até a vida para isso.
3."Os que decidiram". Talvez fosse muito fácil dizer que apenas Narciso Miranda e Manuel Seabra decidiram que passasse pela lota mas em boa verdade não foram eles que decidiram. As fugas de informação sobre aquilo que a direcção de campanha pretendeu fazer e não conseguiu fazer não surtem algum efeito quando estamos a falar de consequências como a morte de um homem generoso e combativo. Os que decidiram são aqueles que mesmo preocupados com os problemas que poderiam advir esperaram tirar algum beneficio politico da ida aos ósculos temperados com escamas, tripas e ovas.
4. É mau que haja politicos que pôem as suas estratégias pessoais acima do interesse da comunidade politica onde se integram. Mas mais grave, muito mais grave do que isso é que haja direcções políticas ou de campanha que permitam que os partidos sejam assim manobrados.
5. Não há outra forma de homenagearmos Sousa Franco do que, do mais humilde ao mais distinto militante, dizermos que queremos uma política com outros caminhos, com outras formas de nos relacionarmos com os cidadãos. E para isso aqueles que decidiram que Sousa Franco fosse à lota têm de assumir as suas responsabilidades. Depois do acto eleitoral de domingo.
quinta-feira, junho 10, 2004
Ventos do Sul
Tive o privilégio de ajudar algumas pessoas a criarem o seu próprio blogue. Embora tenha conhecimentos informáticos próximos da linha de água, tenho alguns milhares de horas de voo no meu brevet de internauta e como sou um entusiasta da rede, basta que alguém faísque os olhos em direcção à frase fazes-me um blogue? para que o baptismo se faça. Um dos que mais orgulho me deu criar foi o Levante. O Levante do Nélio era/é um lugar raro. Sempre o foi. As suas entradas estão lá para demonstrar a inteligência fina e delicada com que ele se entregava à escrita. Coimbra, os amores, a filosofia, este meio um pouco inóspito do pensar e escrever rápido, da abjuração dos textos longos, um projecto de uma revista cultural, tudo isso o tiraram a pouco e pouco da rede. E é pena. Para além de tudo o mais o Levante era também um lugar ao sul e por mais que isso nos desnorteie, precisaremos ainda de um pouco mais de sul....
quarta-feira, junho 09, 2004
Nós
Ao escrever a entrada anterior hesitei entre a primeira pessoa do plural e a primeira pessoa do singular ( já que como não sou jogador de futebol a 3ª do singular não me faz muito sentido). Não foi nenhum plural majestático. Aqui a interactividade é também marca autoral cravada no blogue.
No Comments
As mudanças no aspecto deste blogue tiveram desde logo uma vitima: os antigos comentários colocados nas várias entradas. Para além dos comentários de Blogues com os quais temos relação mais directa, outros pertencem a blogues que nos visitaram e que a partir de agora já estão nas ligações fixas do Respirar como Lugar Efémero, Welcome To Elsinore , Mocho, Retorta, Metografismos e Musas Esqueleticas. A todos eles mas muito especialmente a Luís Graça e a Éclair que não têm blogue mas que eram passageiros frequentes do respirar peço desculpa por estas obras inadvertidas e repito, não me conformo.
"O Povo Não Come Défice"
A morte de um homem bom, como lhe chamou o seu mais directo adversário à campanha europeia, traz-nos uma brisa inteligente e sensível à face descarnada. Recorda-lo-ei como o ministro que conseguiu criar uma política económica com forte preocupação social e atenta a objectivos comunitários bastante rigidos; e como o ex-governante que percebeu o ovo da serpente que estava pronto a estalar da propaganda depressiva da coligação do PSD/PP e desmontou, ponto por ponto, na Revista Visão, a falácia argumentativa desta. Se alguma dúvida poderia ter do que que iria fazer este domingo, perdia-a totalmente.
terça-feira, junho 08, 2004
Corrente de Ar
Fechei a janela às correntes de ar. Não foi voluntário. Ao mudar o template não consegui introduzir os comentários. Foi aliás a única coisa que não consegui fazer. E também não consegui ficar com aqueles que o novo template já traz, quando é criado originalmente. Qualquer ajuda será bem vinda, claro. Talvez seja um problema temporário. Até lá, a interactividade possível através do email. Se isso quer dizer algo, então digo: não me conformo.
Ân sia
1. Estremeço. De ânsia, de inquietude, não sei. Não sei. Passa-se tudo na minha cabeça e depressa demais. Momentos depois, minutos, por vezes horas, descubro o que me fez assim, assim, quase vertiginoso, na eminência de um desabamento. Por vezes foi um nada, um nada exponenciado num absoluto incontrolável. Quando tinha dez anos ia dar uns pinotes, comer açúcar, jogar futebol, gritar com os meus irmãos.
2. Dez anos depois, no começo da vintena, já acreditava que a ânsia era aquela energia donde beberia aquilo que eu pretendia fosse a expressão e revelação de mim (é preciso que o diga, aos vinte anos era bem mais pretensioso, dizia, a minha arte). Ainda a gritar, já não com os meus irmãos, agora com os meus demónios, na sala vermelha do Casarão Cor de Rosa da Comuna, ou no meu quarto, em frente da Princess, a máquina de escrever que era do meu pai e para mim passou, teclado hcesar, a minha primeira princesa a sério. Ou a dançar.
3. Mais dez anos à frente e o pc substituiu a princess. A minha princesa que fazia cem mil vezes menos ruído que o silêncio que deste martelar do tempo adveio. Ainda tinha uma perspectiva romântica deste estado de estremecimento, inquietação, é só inquietação, porquê não sei, só sei que não sei ainda, mas começava a abrandar, a ter receio, a respirar fundo, como é que eu fazia?, a procurar os meus karmas, a respiração, sempre o respirar, a pôr-me na sombra.
4. Agora, aos quarenta. A ansiedade é um estertor que se liga directamente ao centro do meu corpo, ao temor, ao tremor. A ansiedade é quando tremo, e ao dar-me conta, parece que tremo mais. Nervo agitado que me liga à vida, que me desliga dela.
5. O que é esta doença, este mal de ser? O quê, onde acontece? E teríamos de ter esta falha sismíca para sermos humanos? Poderíamos sê-lo sem estremecimento?
6. O elogio do desiquilibrio. Ocorre-me Pepe Monleon, à porta da sua casa em Madrid, despedindo-se, elogiando o desiquilibrio das suas análises, dos seus exames, suspeitando que daí é que lhe vinha a força, a vontade de investir na sucessão dos dias.
7. Cansaço. Esta guerra de cada um com o seu próprio corpo, êxegese dos sinais disponíveis, prostra-nos, deixa-nos prostrados. Hermenêutica tensionada pela prenúncia mais do que pela pronúncia, aliás, é quando é possível o pronunciar que o ser se aplaca, se distende, ganha confiança. Que ri. Vista deste lado a tempestade é suave, tranquilizadora, este azul que há aqui, mundo de mim para ti, fim de tarde, entardecer. Por mais violento que possa ter sido, o anseio é movimento. Azul alquebrado sobre a linha do horizonte...
After shave
Tem ocasiões,poucas, raras, em que até eu mesmo chego a acreditar que sou pedra, rocha. Mesclo-me com um olhar quase cinematográfico, projecto-me a mim mesmo como um duro, um daqueles arquétipos que a 7ª Arte inculcou dentro de mim. Como quando era miúdo e roubava o aftershave ao meu pai. Em frente ao espelho dava umas palmadas na cara, tal e qual como na publicidade, e no ressoar das pancadas ecoava em mim uma masculinidade propósita, inovadora da minha condição de imberbe. Mas outras vezes, a maior destas, sou estremecente.
sábado, junho 05, 2004
Flor de Areia
Nasceu na noite dos blogues. Há muito que se acercava. Timidamente. Sinto-a na minha ilharga, a duas polegadas do meu nariz e não me estranha. Nasceu um novo blogue para as noites e os dias do dedilhar no teclado intranquilo. Não digo mais. Viro o meu nariz duas polegadas para o lado e, tenho na minha ilharga um êcran, não digo mais.
sexta-feira, junho 04, 2004
Um amigo para sempre
Fazes-me falta, Peter Pan.
Não te disse, tive medo que não compreendesses, mas quando soube que tu na segunda feira tinhas feito um desenho, e que uma das frases que explicava o desenho era "gosto de fazer companhia ao pai", fiquei ali a empanturrar-me de silêncio e dor. Dor, perguntas tu? Porquê dor? Dor porque sim, respondo-te eu, imitando-te nas tuas novas respostas. Dor porque amamos para escondermos a dor mas de repente amamos tanto que é a própria dor que se destapa e assim, destapada, doi de novo.
quinta-feira, junho 03, 2004
A Palavra Alongada
Foi a Tampere e escreveu-nos notas de viagem naquele teclado nórdico, estranho e sem acentuação. Ficámos, à espera de um regresso, de uma escrita promenorizada, acentuada. Havia, já disse, apontamentos de viajante, como este. E agora, que voltou ao calor e aos acentos, sentamo-nos momentaneamente numa escrita cuja grafia outra é também o relembrar que não ee esta a uunica maneira possiivel de escrevermos.
Talvez seja mais econoomico utilizar os acentos mas esta reiteracaao da vogal ee como que um eco que se cola ao prooprio corpo da palavra e que lhe daa um incriivel alongamento de sentido. Vemos a palavra alongar-se e nesse prolongamento de mateeria, de palavra, preencher um outro espaço. Um outro espacco que o acento diz naao ser seu mas que, bem vistas as coisas, naao se percebe porque naao deveria ser. A minha sombra também me pertence, faz parte do meu espaço vital e se algum dispositivo me viesse roubaa-la (sim, claro que me lembrei agora desse A Sombra de um Homem, como podia esquecee-lo) eu ficaria um pouco menos do que desassombrado. Dessombrado. E sem saber o que isso ee ecoa-me como uma maldicaao, uma praga.
A palavra que se acentua ee no fundo uma palvavra que se alonga, duplicando-se. E se ee assim essa palavra seraa mais exacta, ou mais exactamente excessiva, acompanhada do seu eco, do que, aquela que resulta de uma parcimónia gráfica, ditame de uma economia qualquer, subtraída à sua extensão.
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