quarta-feira, janeiro 10, 2007

O caminho para a felicidade

Quando eu tinha dez, onze anos, perguntava-me muitas vezes se voltaria a ser feliz. A ideia de felicidade é uma daquelas recorrências a que não consigo escapar. O que por vezes me chateia, outras me alegra por ser oportunidade de fazer a minha revisão, em alta, da ideia de felicidade. Hoje o meu problema é que a vida, a vida que me parece merecer a pena ser vivida, é um exercício de despojamento tal que, no seu desvincular-se, no seu tomar de deserto, se despoja até da própria ideia de felicidade. Antevejo assim o meu êxtase feliz quando a necessidade de uma ideia de felicidade me desabitar por completo.

O diário de todos os dias

Esta ideia de escrever num blogue que se torna assim num diário público, faz-me remontar à minha relação com a escrita diarística. O primeiro diário que me entusiasmou a sério para este estilo foi o de Anne Frank. Eu na altura lia muito e lia com uma pureza e uma inocência que nunca mais consegui recuperar. Nutria-me com aquilo que lia como, depois, me passei a alimentar do que escrevia. O meu primeiro diário comecei-o aos treze anos e era já o relato de uma falha. Uma perda. Faltava-me o lugar da infância. Fazia-me confusão tudo. O cheiro a podre da Petroquímica, as pessoas não me reconhecerem todas no meio da rua, os grandes prédios, o elevador que roncava, o seu espaço exíguo e aquela compressão de olhares encabulados enquanto o ascensor ía debitando andares, uma revolução que desordenava o meu pequeno, alinhado e seguro mundo. O grande supermercado. A pressa. Não fui grande amante da cidade, quando a conheci. E o meu diário era isso, o registo vivo da dor de um campónio. Depois travei conhecimento com outros diários. O Exame de Consciência, de Somerset Maughan (foi com ele que comecei a sonhar com Paris), foi talvez o mais importante. Num miúdo de treze anos, ainda por cima no epicentro de uma revolução, o ler e o escrever eram retirados a tempos essenciais como os de jogar à bola na rua, descer o Vale de Silêncio de carrinhos de rolamentos, conquistar países com um prego espetado na terra molhada, jogar ao bilas, deitarmo-nos de papo para o ar comendo gelados de cinco tostões enquanto decidiamos se a miúda mais gira dos prédios era a Mocha ou a Belinha, isto tudo sem contar com mil e um trabalhos revolucionários que por vezes nos acudiam, como ir vender papelão ao ferro velho para comprarmos um maço de português suave ou ritz. Além disso não eram universos partilháveis com a maralha. Não se podia misturar esses prazeres com o falar de Steinbeck, Maughan, Pearl Buck, Morris West, William Faulkner e tantos outros que se alinhavam na Colecção Dois Mundos. A escrita e a leitura eram espaços de solidão, de solidão compartilhada, escolhida. Só mais tarde compreendi que a vida é um beco sem fim por isso mesmo, porque a porta de saída é também a de entrada. Sem disso ter consciência eu criava um refúgio onde reexistia, sem isso poder adivinhar, eu estava a criar um entrincheiramento do qual nunca mais me conseguiria escapar.
Farias trinta e cinco anos hoje, se ainda cá estivesses dentro do sino que marca as horas e as meias horas na Igreja da Graça.
Se ainda cá estivesses, juntarmo-nos-íamos todos à tua volta, saudando o dia em que nasceste. É um costume dos vivos como qualquer outro, um ritual. É ainda o mesmo ritual, mas já não um costume, que nos vai juntar hoje. Já não para celebrar o teu nascimento, esse é um fenómeno de quem vive do lado de cá do relógio que marca as horas na Nossa Senhora da Graça, mas para comemorarmos esse teu atrevimento de teres trocado uma vida toda ao pé de nós por um instante junto a um glaciar.
Imagem: Miguel Costa

A luta de classes segue dentro de momentos

".../... Os verdadeiros problemas dos trabalhadores assalariados, em particular, os mais jovens e os mais idosos, tais como as reformas precoces, o envelhecimento activo, a discriminação pelo género ou raça, a higiene e segurança no trabalho, entre outros, não motivam qualquer espécie de reivindicação, inovadora e estimulante, que tenha expressão pública."
A ler, no Ir e Voltar, de Eduardo Graça, uma reflexão sobre o trabalho do sindicalismo hoje.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Cláudia

Hoje, no espectáculo da Margarida Guia no Trem Azul uma das primeiras palavras foi o teu nome. E quando me abraçou no final, eu senti um aperto maior. Como se em mim fosse a ti que abraçasse. É nessa união que as coisas fazem sentido.

domingo, janeiro 07, 2007

O que faremos com as nossas vidas é o que fazemos com as nossas mortes

as coisas não serão mais fáceis se não forem difíceis. as coisas não são fáceis, ponto. era o que me faltava. que fossem fáceis.
são difíceis. são as coisas que eu quero na dificuldade de as pensar, de as sentir.
sei isso tudo. só não sei, nem quero saber, isto.

Caderno de capa preta

Não era bem um moleskine, era um simples caderno de capa preta. Ele também não era bem um poeta, era um homem que assentava rimas. Trocadilhos. Sorriu por isso quando descobriu, pois é, espirros rima com esbirros. Tinha ganho o dia.

sábado, janeiro 06, 2007

Vou tornar-me uma mulher

Neste começo de ano, à força de ter de pensar nalguma coisa, e ainda reflexo da morte de Gisberta, lembrei-me de uma história já amarelecida por alguns anos. Um dia recebo uma mensagem de um amigo meu. Era do F., vou chamá-lo assim. O seu bilhete era lacónico e urgente:
- Vem jantar comigo. Preciso de te contar. Prepara-te.
Quando lá cheguei F. tinha a mesa posta. A tábua do queijos, tostas, pastas, e um vinho tinto alentejano. Arranjou-me uma bebida. Uma caipirinha.
-Senta-te. - pediu ele.
Sentei-me. Ele olhou para mim com olhar desafiante.
- Vou tornar-me uma mulher.
Foi assim.
E o que a seguir me contou deixou-me perplexo. Eu sempre encarara como uma grande naturalidade as questões do género e a sua determinação pelo tipo de orgãos sexuais que temos. Nós nascemos homens e mulheres e, a menos que seja um fenómeno ou uma aberração da Natureza, a correlação entre o nascer homem e ter um pénis e dois testículos era a mesma de nascer mulher e ter uma vagina e os seios mais protuberantes. Eu não sabia que aos cinco anos, a idade que o meu filho tem agora, já um miúdo pode enfiar a pila para dentro das pernas para se sentir um pouco menos homem, para se sentir um pouco mais mulher. Eu não sabia que querer ser o que se sente, aquilo para que se tende, se podia tornar numa obsessão terrível, numa luta interior demolidora. O meu amigo tinha perto de quarenta anos e tinha passado os últimos trinta e cinco sabendo que tinha nascido no género errado. Ao longo do jantar foi desfiando tudo aquilo que tinha sido a sua vida. À medida que me contava eu ía ficando cheio de vergonha. Onde é que eu estive, pensei, onde é que eu estive para não dar conta da dor do meu amigo? É que cinco anos é uma idade em que estas coisas do género não se sabem assim, pelo menos pela negativa. Cinco anos é uma idade ainda muito cedo para se sofrer por alguma coisa que esteja relacionada com pilas e pipis. Eu não consigo perceber este sofrimento humano que decorre desta experiência de negação. Não consigo percebê-lo, não consigo entendê-lo, não consigo compreendê-lo. Acho a porporção demasiadamente grande para aquilo que uma vida pequenina como eu pode calcular em termos de dor, de dor psíquica. O erro natural aparece-me como monstruoso. No hipermercado da nossa espécie as prateleiras do adn deveriam vir salvaguardadas contra estes enganos de reposição do stock humano. E o erro natural agrava-se com a monstruosidade do erro humano. Nós deveríamos saber conviver com isto com mais humildade. Reconhecer o erro natural e corrigi-lo mais atempadamente. Se a sexualidade é uma dimensão fundamental da nossa vida, como aceitar esta realidade? Tudo isto me passava velozmente pela cabeça. Eu estava cabisbaixo, envergonhado. Eu não sabia como, mas tinha a consciência de, no meu não saber, ter sido cúmplice desta barbaridade. Falou-me das colecções de roupa de mulher que ía comprando e deitando fora, escondendo-as no armário, as férias grandes eram sempre um momento de felicidade, de reencontro, a família ía para a província e ele ficava em casa, livre, ela, mulher.
-Eu estava-me ralando para o dinheiro que elas me custavam, eu só queria o gozo de as vestir, de andar por aqui pelo quarto, imaginando que um dia iria ser finalmente uma mulher.
Eu estava prostrado.
-Queres ir-te embora?
-Para onde? -
respondi . Ele sorriu.
-Eu nunca saberei explicar o que é esta sensação. Tenho ido a sites de pessoas que passaram pela mesma experiência do que eu e arranjo algum conforto nisso, mas mesmo assim, pensar que desde os meus cinco anos a minha maior ambição, o projecto de toda a minha vida, é poder ser uma mulher...fazer as tréguas entre o meu corpo e aquilo que sinto...
- E a Cristina, já lhe contaste?
- Foi a primeira pessoa a saber.
- E então?
- Não se conforma.
- Não se conforma?
- Não.
- E então?
- Só aceita se eu me tornar fufa.
- Se tu fores...
- Ela quer ficar comigo.
- E tu?
- Quero ser uma mulher, Quim. Uma mulher linda.
- Gostas de homens?
- Estás com medo?
- Não.
- Não, ainda não gosto.
- Ainda?
- Eu sou heterossexual. É bem provável que continue a sê-lo. Mas isso virá com o tempo.
- Tem a sua lógica.
- Podes achar estranho.
- Tu és meu amigo. Isso não é estranho.
- Estava com medo que tivesses essa reacção.
-Qual?
- Essa. As frases feitas. Claro que isto é estranho. Para mim é estranho à trinta e cinco anos. Nada é lógico. Contei à Cristina e contei-te a ti. Os meus pais ainda não sabem.
- E a tua irmã?
-Também não.
- Como é que podeste aguentar essa solidão?
- Isso agora não interessa. Quero falar-te de como as coisas vão ser daqui para a frente mas primeiro preciso de saber: o que é que vais fazer?
- Eu nada.
- Não vais fazer nada?
- Como é que te vais chamar?
- Alice.
- Alice parece-me muito bem.
- Quero ser uma mulher linda.
Aí vinha o lado mais complicado. O processo de mudança de sexo suportado e apoiado pelo Estado iria ter uma fase de um tratamento hormonal que lhe permitiria tornar-se exteriormente uma mulher mas se quisesse completar a transformação teria de a fazer a suas expensas. E eu conhecendo bem Alice, sabia que iria ser assim.
Esta história não acabou aqui. Alice, quando me chamou, estava eufórica. O processo de acompanhamento psicológico que tinha feito com que a sua transformação fosse apoiada pelo Estado tinha sido moroso e ela tinha atravessado um longo caminho. Compreendi-lhe por isso a euforia: - A partir de quando é que te devo chamar Alice?
Ele não me respondeu. E eu senti-me mal por estar preocupado com o meu pequeno problema.
- Alice...
-É difícil, eu sei...
Seis meses mais tarde encontrei-o. Já não estava tão eufórico. Iniciara o tratamento hormonal, mas tudo estava a ser muito mais lento. Muito mais lento do que parecia, principalmente para quem tinha vivido trinta e cinco anos no género errado. Um novo problema. Alice, que ainda era um homem, na sua identidade enquanto cidadão, tinha de procurar um novo emprego. Como fazer? Assumir-se como mulher? Como homem? Apresentar o processo de mudança de sexo que estava a viver? Não era fácil. E nem vos vou dizer o que Alice escolheu. Creio que foi a melhor solução.
Qual é que acham que foi?
Entretanto passaram-se os anos e eu lentamente deixei de ter contacto com ela. Comunicavamos por email e umas duas ou três vezes por ano telefonava-me, a sua voz estava cada vez mais macia, com uma fina perturbação metálica. Eu sabia que a sua vida não era fácil, o trabalho, os tratamentos, a ansiedade. Um dia telefonou-me muito agitada já perto da meia-noite.
- Boa noite.
- Boa-noite, Alice.
- Despediram-me.
Alice estava endividada. Não é preciso muito para perceber o drama porque passava. Tinha cortado com a família e por isso não tinha nenhum apoio familiar. Alguns de vocês estão agora a pensar que se eu colocar Alice a chupar pilas e caralhos no Parque Eduardo VII, ou ali no Conde Redondo, estou a ser um blogger desinspirado, cheio de tiques, de clichés, de frases feitas. É bem provável que sim. Então, a coberto da magia da época que agora finda, conto-vos a verdadeira história de Alice: depois de desligar o telefone foi a um bar gay. Conheceu um engenheiro electrotécnico alemão por quem se apaixonou e com quem vive, mais a sua filha adoptada, sendo hoje a pacata Sra Alice Stauber, que vive algures num chalé na Floresta Negra, nas margens do Danúbio.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

À volta do mundo

Onde é que estás? A sério, onde? Se eu procurar, mas procurar a sério, encontro-te, não encontro? Tu tens de estar num lugar qualquer, ninguém desaparece mesmo.

Uma noite em Nova Iorque

Ontem à noite agarrei de novo em Paris Nunca se Acaba. Abri a página no momento em que ele escreve: "vivo em Barcelona, atrai-me e fascina-me muito essa Paris que nunca se acaba, mas não me iludo, gostaria de passar mais tempo em Nova Iorque, onde, claro, só passei uma noite em toda a minha vida". E por um daqueles processos empáticos tão vulgares entre leitor e escritor, deixei que Vila-Matas continuasse a falar de mim. Tenho gravadas no meu cortex de campónio cada uma das dezoito horas que passei naquela cidade.

A esta hora o furacão Catarina já chegou à Costa Leste. Nova Iorque está - de novo - a salvo.
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Mais sobre o Maracatu aqui, em NATION BEAT.

Margarida Guia em Portugal

É já na próxima segunda-feira que Margarida Guia vai estar no Trem Azul Jazztore, num espectáculo de voz e poesia. Quem é ela? Revejo-a integralmente nas palavras de Susana Paiva *:
"O universo musical de Margarida Guia é como uma das pequenas caixas de música que ela tão frequentemente utiliza nos espectáculos – uma extraordinária caixa de ressonância, onde a madeira se tornou corpo e as notas musicais foram substituídas por vogais e consoantes.
Há nesse pequeno grande instrumento, que é a sua voz, toda a poesia universal do quotidiano, cruzada com as palavras dos poetas e autores que ela tanto aprecia. De Samuel Beckett bebeu a mestria da pausa, respiração entrecortada, entre silêncio e palavra. Do Jazz herdou uma extraordinária capacidade de escuta e improvisação, a fórmula ideal para fazer aquilo que mais gosta – tomar a voz dos outros e, entre sussurro e canção de embalar improvisada, devolve-la a todos nós."
* "Um pequeno universo de enorme poesia",Paris, Dezembro 2006

quarta-feira, janeiro 03, 2007

As horas

Primeiro filme do ano. Desde o começo, com Virginia Woolf (Nicole Kidman) a entrar dentro do rio, que a articulação entre os três planos narrativos tem um efeito curioso, tanto se apaga, pela forma natural como é feita, uma voz que vem do plano anterior e que continua agora o seu caminho, numa outra dimensão, tanto se reforça, através de raccords de movimentos e gestos que nos colocam sempre na consciência da artificialidade do enredo e da ficção. Os ambientes de cada época, e esse engenho de se colocar o plano da recriação do livro na actualidade, como se fosse assim, uma história sempre reactualizada ao tempo de quem a vê narrada, a relação entre a leitora e o livro, o poeta laureado pela sida e pela mundanice que se torna, quase no final, na criança atormentada por uma mãe confusa entre o seu desejo de viver dentro de um livro e a incapacidade de viver fora dele. Um filme onde tudo parece triste, melancólico, mas ao mesmo tempo feliz, porque dele emergem actos de vontade e de vida, mesmo quando se entra pelo rio adentro, ou quando nos atiramos de uma janela ou quando vamos enfiar a nossa vida numa biblioteca de Ontário. Tentarei não me esquecer tanto disso este ano: procurar abrigo, protecção, asilo existencial junto de uma obra de arte autêntica.

terça-feira, janeiro 02, 2007

O meu avô


Francisco António Figueira, meu avô, que era um homem piedoso e bom, tinha a letra miudinha e impecavelmente justa de comerciante meticuloso. À grafia dos homens e das fêmeas juntei eu outra, a dos comerciantes. Porque é que escreves assim, vô?, é para as pessoas confiarem em mim, respondia ele. Começou cedo no meu mundo a aprendizagem de que a triversidade do mundo não se esgotava no género masculino e no feminino. Sendo que estes entendia-os como uma (im) posição com que a Natureza escrutinava os vivos. Havia também o género ausente, o género que, na ausência de género, está no principio deste mundo da representação. Não é uma escrita oblíqua e tortuosa como um esconderijo dos homens feridos, não é uma escrita aberta e elegante e dócil como a das fêmeas. É uma escrita que se escreve assim ou assado para que tu confies nela. E confiavam. Vá-se hoje ver os livros de capa negra, com um traço a azul e a vermelho, o deve e o haver, o razão, da Congregação do Bom Senhor da Piedade, na Igreja de Elvas, e lá deve estar o traço fino e apurado com que Francisco António Figueira encomendava a confiança do mundo. Era um comerciante respeitado e respeitador e eu gostava de passear com ele pelas ruas de Elvas. Garboso, alto, magro, cuidadoso e meticuloso na roupa, no aprumo, no modo como segurava o chapéu, como levava a mão à testa enxugando a testa do suor, a canícula em Elvas é um tormento, homem de poucas falas, mas com os verbos certos. Costumo dizer de um homem, de uma mulher, excepto de um canídeo, que o vejo bom e confiável quando vislumbro nele a sua infância. É uma mania que tenho, a de descascar a pele a um gentio prescrutando na epiderme visível o infante, devo assumi-lo. Abri apenas em toda a minha vida uma excepção. E foi, justamente, para o meu avô, Francisco António Figueira. Nele, o que mais se impunha era a sua juventude de aprendiz de armazém, de rapaz sem estudos, que foi progredindo por si mesmo, que tomou em mãos a loja onde trabalhou como fiel a mando de outrém, imagino-o sempre com aquela bata de fazenda, sempre meia suja meia limpa, mas nunca nem vergonhosa nem calaceira, imagino-o sempre com os seus sapatos martirizados pelos joanetes, em toda a minha vida nunca vi ninguém a usar joanetes como ele, pensava até que era uma coisa especialmente inventada para o meu avô, imagino-o a abrir a loja, entravamos pela rua das Arcadas, e a loja abria-se na Rua do Arco da Cadeia, um dia falarei desta loja, dos cheiros, das cores, dos recantos, dos dias, das horas que ali passei, dos caramelos espanhóis, não falarei dos sugos, dos sugos de hortelã pimenta não falarei. Francisco António Figueira era um homem raro. A cabeleira alva, fina e delicada, lavada com vinagre. O meu avô tinha as mãos compridas e ágeis com pequenos nódulos nos artelhos, nunca vi ninguém a manejar tão bem o rolo de fio branco de atar maços, ora aqui está uma prática desaparecente, em algumas pastelarias ainda há quem o saiba fazer, era uma arte. O licor Figueirinha, os paios de elvas, os figos, as ameixas, as receitas por todos cobiçadas. Como eu gostava de ir pela sua sombra, o Sr. Figueira. Comecei este texto pelo avesso da sua conclusão, na minha cabeça o texto que se impôs era: O terceiro género era o dos contabilistas e comerciantes. Escreviam para confiar neles e nada há de menos confiável que um merceeiro, do que um contabilista, do que um comerciante. Emendo a mão, a mesma mão que segurava os seus dedos nodosos, o seu olhar suave mas tão firme. Tão firme. Nunca que me lembre lhe disse não. Talvez lhe tenha dito, mas não me lembro e isso diz tudo, também sobre a memória, como nos lembramos ou olvidamos, mas essencialmente daquele homem sempre vestido de três peças, sapato preto, mãos carinhosas e afectuosas. Ás vezes encontro em mim um afecto que não sei de onde vem, que me parece estranho, excessivo, feito de canícula e regard. É um afecto que me vem do Sul, que me leva para o Sul, lá, quem ama o longe perto lhe parece, é uma afecto que me trespassa aquela mão, esqueci-me de muitos dos nomes, recordo apenas o olhar de respeito e afecto por aquele homem alto, garboso, de cabelos alvos e tão macios, perfumados a vinagre e sabão azul e branco. Como eu gostava de ir pela sua sombra, penso, enquanto emendo a conclusão do texto: O terceiro género é o dos contabilistas, merceeeiros e comerciantes. Escrevem para confiar neles e se não tivesse havido aquela mão e dentro dela o meu avô, eu nunca teria percebido a diferença -aquela diferença que anos mais tarde me permitiu subir a um palco e regressar sem me tresloucar - entre acreditar e confiar.
[A recuperação de uma fotografia antiga criou a ocasião para voltar a este post. já publicado, aqui, escrito na sequência dest'outro. ]

A exaltação da solidão

Logo que me apareceu eu soube que este teria de ser o primeiro post deste ano. Escrevo-o a sério. neste segundo dia do ano varrido por notícias que sou incapaz de hierarquizar, para mim o facto de Saddam Hussein cuidar de um pequeno jardim de ervas daninhas - como nos testemunhou o seu enfermeiro - ocupa-me muito mais o pensamento e a disseminação poética que nele, por vezes, ocorre, do que o avançar das águas pelas dunas das praias de S. João da Caparica que tanto pesam no memorial vivo em que me fui constituindo.
E quando escrevo, a exaltação da solidão, não é, como poderia parecer, e como talvez devesse ser se isto em vez de um post fosse um texto marcado pela seriedade de um papiro, um panegírico sobre a solidão. Escrevo sobre o efeito que a solidão, a condição solitária, provoca no espírito de um homem ou de uma mulher. Exalta-os. Coloca-os no de fora de algo que será o interior das suas próprias ideias de mundo. O que há de terrível na solidão, é que ela começa por ser uma exaltação do espírito e continua porque é, pelo menos, o efeito de um espírito exaltado.
Por muito estranho que isto possa parecer, ainda mais estranho por ser no segundo dia do ano, sem passas, sem champanhe, sem outras ressonâncias que não sejam as do bater cardíaco, eu escreva aquilo que afinal, seria o único que poderiam esperar de mim: espero que este novo ano nos encontre a sós, iluminados pela exaltação do espirito solitário. Por muito que amemos os nossos filósofos, os nossos poetas, os nossos melhores bardos, e eles são sempre a expressão máxima de uma exaltada solidão, é no interior das nossas solidões de pedra que escavaremos a pepita inexistente. Espero que este novo ano nos encontre a sós, e no meio do tremor, do medo, da raiva que uma solidão quase sempre não consegue deixar de ser, nos apercebamos do estado miserável a que deixámos chegar o mundo onde vivemos.
O meu desejo para 2007: que a politica, a solidariedade, nasçam de uma solidão exaltada.

domingo, dezembro 31, 2006

Diário do Homem-Sofá

Ontem passei a noite pregado ao televisor. A excelente série 2:4 foi o motivo. Entretanto descobri o The Daily Show do não menos brilhante Jon Stewart . Eu sei, é uma descoberta tardia. O homem desde o século passado que espalha o seu humor corrosivo pela tv. Mas para mim, já cansado de explicar porque é que o trabalho do nosso humor portuga não me agita muito o espirito, foi um reforço de alma importante: precisamos dos nossos melhores cómicos como da água que bebemos.

sábado, dezembro 30, 2006

Já há postais para dizer que não há nada para celebrar?

A execução de Saddam Hussein

Que um ditador seja julgado pelo próprio país que teve de suportar a sua tirania, parece-me apropriado e conforme aos princípios da justiça. É uma afronta divina que os tiranos possam morrer de velhice, como Pinochet.
O que não parece nem apropriado nem conforme aos princípios da justiça é que o empenhamento ocidental neste julgamento tenha mais a ver com o facto desta personagem sanguinária ter afrontado o poderio ocidental, do que pelo terror que provocou ao povo iraquiano. O que parece ainda pior é que esta personagem só se tenha tornado insuportavelmente sanguinária quando enfrentou o Ocidente.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Grande 2007

a todos e todas que blogam,
que postam,
que comentam,
que linkam,
que passam,
os e as que ficam,
que deixam endereço,
aos anónimos e às anónimas,
aos e às avatares de si mesmos,
aos nomeados e às nomeadas,
aos e às da nomencaltura,
aos amigos e às amigas,
aos conhecidos e às conhecidas,
aos e às que vêm porque lhes falaram,
até aqueles e aquelas que por aqui passam só para comprovarem a miséria em que se tornou este respirar,
e também a essa multidão que aqui veio saudar a nossa blogger mais ausente,
a Celta,
a todos e a todas* um 2007 ao pé de nós.
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Em tempo: Este fervor totalitário deve ser ainda resto da festança das filhós, dos sonhos, das azevias. Não. Todos e todas não. Somos muitos. Mas não todos nem todas. Nem tantos assim. E há muito espaço por aí. Não precisamos de estar assim tão juntinhos. É isto a miséria da cousa humana: o desagregar da humanidade começa antes de acabarmos a frase, uma pequenina e insignificante frase de boa vontade.

Último dia de trabalho

Fecho o pc. Voltarei para o ano. Deste não terei saudades. Só, paradoxalmente, uma imensa e inconsolável saudade.

O meu msn

Estado: Ausente. Fui apanhar (o) sol.
Actualizado

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A casa às costas

Tinham-me dito que quem passa a fazer e desfazer malas se habitua a lá colocar pouca coisa. Se acostuma à ideia de não depender desses objectos- dispositivos para reavivar a memória de quem somos. Agora que a minha mala está mais leve (não tanto quanto estará um dia, para o bem das minhas costas) tenho muito medo de esquecer quem sou, os lugares, as palavras exactas dos amigos. O cheiro do oceano quando o sol se põe.

Noite dentro

A palavra insónia - com as dores de dentes e a sensação de dejá vú -fez parte integrante da minha adolescência. As noites de insónia eram noites de algum desbragamento. Fumava muito, escrevia mais, levantava-me vezes sem conta para apreciar a noite, a inextinguível e insuportável noite, muitas vezes fria, outras vezes quente, não eram as estações que a regulavam. Com o passar do tempo desfiz-me de tudo o que podia provocar essa insubmissão contra a dormência, o apaziguamento. Com artesanato próprio desmiolei-me até ficar totalmente oco. Não só a consciência, também os sonhos, a ambição, tudo. Pensei nessa altura, nunca mais voltarei a essa inquietação nocturna. É uma ilusão. As paredes do meu corpo, o lado de dentro deste lado de fora, guardou ligeiríssimas partículas não sei se de inquietação, de intranquilidade, se apenas da sua memória. Um traço de Kaspar, lembro-me de uma inquietude que em tempos existiu, assola-me a um corpo que inexiste no lugar onde habito. Alguma coisa é. E como não a quero reconhecer, fecho os olhos, como se dormisse. Penso utilitariamente. Digo para mim mesmo, se esticar as pernas, se respirar, pelo menos alguma parte do meu corpo físico poderá pagar a conta do dia seguinte. Porque já não é um sonho, uma utopia, um desejo, uma intranquilidade, que procuro nestas minhas noites em branco. O que procuro é a sobrevivência no dia seguinte. É desta miséria moral que vivo.

Problemas: Indicações e Resoluções

Estavámos em 1954, na Escola do Bairro Delegado do Operário, em Évora. A educação pressupunha, e bem, que para um determinado problema havia de, no lado esquerdo do quadro negro de ardósia, escrever-se a indicação, e, do lado direito, a resolução. O problema era simples (*). A Fernanda tinha comprado duas dúzias de ovos a 10 centavos cada um e pretendia-se saber quanto tinha ela gasto na compra dos ovos.
Tudo estava ordenado. No lado esquerdo a indicação. No lado direito a resolução. No centro, no meio, no lugar da virtude, o crucifixo. As batas eram brancas, a da professora, minha mãe, e a dos alunos. As secretárias de madeira tinham um espaço para o tinteiro, outro para os lápis. Uma prateleira em baixo do tampo onde escrevíamos permitia guardar as pastas e os cadernos. No cimo do quadro, o crucifixo. Talvez não vísivel, a foto de Craveiro Lopes. O mapa do corpo humano. O mapa de Portugal e o mapa colonial.
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(*)Os outros problemas, não seriam tão simples. Muitos deles ainda subsistem. Eu parece-me que sim. Ainda no outro dia, era dia de Natal, vi o Cardeal Patriarca falar na sua mensagem de Natal e fazer abertamente campanha pelo não no referendo do aborto. Haverá gente que dirá, mas que poderia ele fazer de diferente? È um problema dele, não meu. O meu problema é que o regime democrático tenha dado um canal à Igreja, que se desfez dele deixando que ele fosse alienado para uma finalidade muito diferente daquela que tinha originado a sua concessão, e que agora eu tenha novamente o Cardeal Patriarca, na televisão pública, como se nós fossemos ainda aquele país que punha os crucifixos no centro do problema.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Esconderijo

Apetece-me esconder-me debaixo da mesa de camilha e passar outra vez uma tarde inteira a espreitar pelo mais fino buraco do tecido. Apetece-me ser pequenino, outra vez do tamanho de um feijão.

Os dias desavindos

Em dias como este aprecio a delicadeza com que a vida entra dentro de mim. O dia tem de vir manso. A luz, subalterna, ligeira, crepuscular. O tempo, esparso, cuidadoso, delicado. O próprio pensamento tem de vir cerimonioso, como se dissesse, posso entrar?
Começo por me tornar desavindo com os dias como este. Tudo parece ser demais, ou de menos. E de repente, aquilo que era frio torna-se doce. Doçura. E eu acabo por gostar dos dias desavindos.

Evidência

É da tristeza ser triste. Há alguma alegria, ou felicidade, em cada coisa ser aquilo que é. Eu não sou triste. Sou alegre e feliz.