terça-feira, janeiro 30, 2007

A luz que de nós vem

Começou ontem, no Teatro D. Maria II, o atelier com o Sinisterra. Durante uns dias eu vou ser disto, escrever. É de manhã, faço um exercício. Coloco no leitor um cd com sons um pouco etéreos, pianos, pássaros, sons da terra para bébés, veio há muito com uma Pais e Filhos. Eu já não sei o que é o sentido da vida e também já não consigo achar a minima piada e orientação naqueles ímpetos e slogans com que me auto-controlava evitando descarrilar. Perdi todos os meus deuses. Sou quase capaz de dizer que o amor, a verdadeira divindade que ainda não destronei, esse amor loquaz e exarcebadamente declarativo, está também em processo de decantação e não me admirarei se mais tarde ou mais cedo abandonar a minha existência. E nem o sexo, a sua exaustão, o substitui. Às vezes digo foder para tentar compensar a minha falta - ou o meu excesso - mas soa-me sempre a falso. Até o meu amor se ri da minha voz de falsete. Fui educado e cultivado num manto de ternura e é nessa comoção que, ido o pensamento, a fé, o ideal, as minhas células ainda me reconhecem e se dispôem a continuar a processar-me. O que eu queria dizer - e nem sei se verdadeiramente o desejava confessar - é que já não sei o sentido da vida mas, quando escrevo, quando me sento a escrever, quando preparo o ambiente para saborear este acto de escrita, penso que sou um gajo cheio de sorte por ainda me reconhecer neste gesto meio oficinal de procurar as imagens das palavras e de as descrever, sabendo que o que expresso, é muito menor do que o poema que neste momento me comove. O mais engraçado é que toda esta conversa começou na minha cabeça porque ontem, quando Sinisterra disse que " há um princípio coercivo (fábula, história, enredo) que é impossível dissociar do trabalho dramatúrgico, porque, entre outras razões, o homem está biologicamente programado para procurar o sentido" eu o contraditei logo ali, no meu pensamento. Talvez o que nos distinga não é o estarmos biologicamente programados para procurar o sentido. Lá em baixo, no pátio, o cão da vila fá-lo muito melhor do que eu. O que me distingue, é que biologicamente eu estou programado para me dissociar do sentido, para o perder. É isso que me distingue de todos os seres vivos que conheço. Só na minha efabulação da vida é que eu consigo perceber que um animal perdeu o sentido da sua existência. O animismo que o sustenta é um movimento e o movimento é, em todos os seres vivos menos nos homens e nas mulheres, sentido. A (im) possibilidade do humano, não é a procura do sentido. É a possibilidade de o perdermos. É isso que nos ilumina.

Guardar uma mulher

Nos dias a seguir eu sou do amor. São muitos dias e são assim: depois dela se evaporar da minha língua, dos meus lábios, da minha boca, adio o mais que posso o desaparecimento do seu cheiro dos meus dedos, indicador e polegar. É lá que a guardo. Por vezes, no meio de uma reunião, de um trabalho, de um passeio, sinto que me falta. Levo então ligeiramente os dedos às narinas e sou outra vez uma criança. Não há perfume nenhum que apague o odor do sexo de uma mulher. É aí que o mundo, o nosso mundo de homens e mulheres, começou. Hoje quando estava no balcão do café, levantei a mão e levei os dedos novamente às minhas narinas. Ao meu lado estava um outro macho. Foi um breve momento. Mas eu senti que ele sentiu o cheiro que estava no ar. Coloquei as luvas e sai, meio atabalhoadamente, para o meio da rua. Aquele cheiro era só meu.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

SIGLA (S.A.R.L)

Entro num alfarrabista por causa de " As cruzadas vistas pelos Árabes", de Amin Maalouf. Por um sortilégio resolvo pagar com multibanco e tenho por isso de ir por um percurso entre móveis e estantes até um cantinho onde estão também discos em formato LP e Singles. Lembrando o tempo de quando o mundo rodava a 33 e a 45 rotações. Pergunto, só por curiosidade - tenho a certeza de que um dia o voltarei a encontrar na casa materna - se tem o Maxi Single do FMI.
- Ah isso não sei, tem de ser os clientes a procurar. - Procuro. O primeiro disco tem assinatura de José Mário Branco. Poemas de bibe, ditos por Manuela de Freitas e Mário Viegas. Angola é nossa, Os Pauliteiros de Miranda são outro. De repente vejo uma cara conhecida na capa de um disco. Olha, é o Ary dos Santos, digo de mim para mim. Há muito que procuro, sem encontrar sequer referências na sua poesia editada, o poema SIGLA (S.A.R.L). E lá está, depois de Minha mãe que não tenho, o poema há tanto procurado. Já ganhei o ano.

"Tenho aqui um problemazinho"

DN de hoje. Uma viagem ao mundo do aborto clandestino, de Sónia Morais Santos.

Espalhem a notícia - Milhares de pessoas assinam contra Marcelo

É um imperativo fazer correr um abaixo assinado para até dia 11 ou retirar Marcelo dos serões de Domingo ou impedi-lo de se debruçar sobre o referendo. Os juristas que avancem. Os ciber especialistas que façam uma petição online. Por duas razões:
- "Marcelo deslegitima as posições do Não, acolhe as posições fundamentais do Sim, e defende o Não ao referendo.
Está-lhe a ser dado espaço para que, através da televisão pública, e fora dos espaços de campanha, ele faça, de forma enganosa, a vinculação ao Não;
- "Marcelo tem o seu grande argumento no facto de este referendo não servir para nada".
Está-lhe a ser dado espaço para que, através da televisão pública, e fora dos espaços de campanha, ele faça, de forma vergonhosa, a justificação da abstenção;
De qualquer forma até que uma providência cautelar possa retirar Marcelo Rebelo de Sousa da televisão, promova-se o boicote à emissão do programa (desligar a tv, fazer zapping) e à pressão para que o DN, na sua selecção das Escolhas de Marcelo, não colabore com esta situação. Queixemo-nos à Comissão das Eleições. O assunto é sério. Até ao referendo, o Marcelo deve ir -não para a rua - para os espaços de campanha do Não.

O argumento de Marcelo Rebelo de Sousa

Não sou grande especialista em Marcelo Rebelo de Sousa. E acho que o país que lhe compra, ouve e regurgita os palpites dominicais tratando-o por Professor Marcelo é pacóvio, provinciano e dado às artes do proxenetismo. Acontece que por motivos que não sei explicar, quando na vida começo a sentir falta de uma certa vitalidade positiva - não vou ser como a minha vizinha do prédio em frente que acha que tudo isto é falta de sexo- vou muitas vezes buscá-la a uma irritação profunda. E devo-o admitir, quando tudo me falta Marcelo irrita-me profundamente. Para além do mais o Respirar não é um meio de comunicação social e não obedece àquelas regras deontológicas dos mesmos, mas, caramba, eu tinha-o aqui citado a semana passada, queria ver o que é que o homem tinha a dizer sobre o caso de Torres Novas.
Tive por isso a oportunidade de ouvir o argumento de Marcelo Rebelo de Sousa. O que mais uma vez me fez pensar que é verdadeiramente escandaloso que a este homem lhe seja dado o espaço que lhe é conferido. Já falei nisso lá em cima e esgotei os meus insultos por post.
O argumento de Marcelo Rebelo de Sousa - que não é dele, começa por humildemente dizer, já Freitas do Amaral o tinha escrito- é o de que, nem às 10, nem às 12, nem às 24 nem nunca, uma mulher deve ir presa ou sequer a julgamento, sim ser acompanhada, psicologicamente, socialmente, financeiramente para que nunca mais volte a cometer tal acto, e que há condições para que isso aconteça no Portugal de hoje.
É preciso combater esta hipocrisia militante por mais que a campanha tenha o beneplácito do horário nobre da RTP. O que Marcelo Rebelo de Sousa está a dizer, inexiste. No Portugal de hoje, onde até os partidos políticos com legitimidade para fazerem aprovar uma lei que estanque de imediato a morte, a humilhação e o perigo anual com que se confrontam milhares de mulheres - leia-se a reportagem de hoje da Sónia Morais Santos no DN para gravarmos na nossa carne telepática, empática, a violência a que se submetem as nossas mulheres - foi diferida para um referendo, o que Marcelo Rebelo de Sousa disse não é possível de acontecer. Marcelo sabe-o. Enquanto apoiante do Não, Marcelo sabe-o bem demais.
A hipocrisia está no facto de que aquilo que ele disse deslegitimar a posição do Não, acolher os enunciados fundamentais do Sim, e, porque não é um incentivo ao voto abstencionista - no fundo o grande argumento é de que este referendo não serve para nada - fazer tender a votação para o Não, que além de tudo é a posição assumida pelo comentarista.

Blogoteca do Sim

Este texto de José Miguel Júdice, recolhido por Daniel Oliveira. E também este, com um excerto de um discurso de Simone Veil. E toalha de linóleo, de Rui Bebiano. E agora o post que mais me impressionou, as razões da apoiante do Sim que não vai votar.

domingo, janeiro 28, 2007

Dizem-me que nevou. Acordei já com a neve ida, lembrei-me do nevão do ano passado. Ainda respiravas o mesmo ar.

Dizer adeus

Digo-o sem nenhum azedume com o universo dos vivos: ando a preparar-me para morrer. Não quando acordo. Aí ainda não consigo. É quando me deito. Tomo o chá, ponho o pijama em cima do aquecedor eléctrico, sento-me na minha existência de homem écran, e começo a sentir que me falta uma unidade menor para cronometrar o saboreio de um adeus. Os segundos são uma eternidade. Subo à cama e deito-me pensando que a minha vida seria mais feliz se eu cumprisse, emocionalmente, este desígnio biológico de morrer todas as noites. É o meu corpo que o pede. Há no sono, o apaziguar de um moribundo. Cerro os olhos e recuso-me terminantemente a imaginar que há um amanhã. Desligo, uma a uma, todas as secções do meu corpo. Deixo de sentir os pés. O desligar sobe-me pelos tornozelos, levo a mão ao sexo, apago-o, depois o tronco, os pulmões, as costas. Já estou quase morto. Ainda sinto o traquitear cardíaco. É neste momento dificil em que assumo desligá-lo, que me apercebo da festa de existir. Morro em paz.

Blogoteca do Sim : "Eu abortei"

Seguindo a ligação que Leonor Areal nos deixou no Sim ao Referendo vamos dar a uma série de testemunhos de mulheres que interromperam a sua gravidez. De salientar que no blogue pedem o testemunho de quem tenha praticado a IVG.
Dobram as badaladas pelo Tugir, de Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro. Ainda me lembro que o meu primeiro contacto com o Luis Novaes Tito foi através de um desentendimento sobre o lugar e a presença dos partidos na blogosfera. Eu tinha razões, e algumas delas causavam até um vistaço, mas não tinha razão. Ou melhor, o desenvolvimento futuro da blogosfera veio tirar-me toda a razão. O importante não é isso. O importante é que, como me aconteceu com o João Nogueira (com quem, a partir de um diferendo desenvolvi o Metablogue), ou como me acontece por vezes com o Luís Januário, a Zazie, o Zé Flávio, o CBS, o Rui Bebiano, a Câncio, os diferendos revelam-nos, aproximam-nos. E ao longo de três anos tive oportunidade de ir contactando com aquele que é sem dúvida um dos mais importantes bloggers portugueses. O seu fascínio pelo ciberespaço, pela blogosfera, a sua atenção permanente pelas ligações, a sua combatividade, a sua capacidade de estar nas lutas que valem a pena, fazem com que sempre que há algo importante eu passe pelo Tugir para ver o que o LNT pensa.

sábado, janeiro 27, 2007

Homem- Écran

Eu explico: chego a casa, pouso os adereços do meu dia e sento-me, não importa que seja o sofá, sento-me, diante do écran, diante desta suferfície luminosa, este ruido permanente do portátil, digo, quase que o incorporei nas minhas veias, este fluir cibernético. É o meu ágora. Aqui, solitário. Eu gosto muito da minha vida. Não vejam em mim o que não sou. Levanto-me e canto interiormente a um deus que não existe. Bocejo alarvemente e rio, por cada poro. Saio para rua e gosto de perceber que os meus vizinhos são gente que em algum momento se me aparentam. A velhota do lado. Desde que me roubaram o escadote é a ela que peço que me empreste a escada, para poder subir à arrecadação. Bato à porta e ouço sempre uma voz que vem do fundo, receosa de abrir a porta, Quem é?, sou eu vizinha. Dou-lhe sempre uma palavra a mais. No outro dia ía a sair tinha a ajudante domiciliária da Santa Casa a bater-lhe à porta. Não respondeu, estava a dormir, deixou-se ficar, disse-me mais tarde. Naquela manhã apanhei um pequeno susto. Não foi um susto a sério, eu sabia que não podia ter acontecido nada de grave, ou ela tinha ficado em casa do filho, ou tinha ficado a dormir, ou tinha mesmo morrido, mas não seria nada de sério, no fundo a pequena representação que fiz do meu cuidado era apenas uma forma de me sentir um pouco menos só. De qualquer forma hoje quando lhe fui levar o escadote disse-lhe, tem de me deixar o número do seu filho, para lhe podermos acudir se for preciso. Ela deu-mo toda contente. Eu percebi que há muitas vezes que ela fica só e tem medo. Tenho menos trinta anos do que ela mas conheço esse seu medo, sou solidário com ele. O medo não tem rugas, tempo. Tenho os mesmos medos que tinha quando era criança, menos claro, a infância é a nossa idade média, povoada de cavaleiros andantes, brumas, castelos que se erguem de montes sombrios, o nosso imaginário é a grande maravilha da nossa vida, da vida humana. Sinto-me em casa, quando saio para a rua. No prédio ao lado uma actriz com quem partilhei o mesmo palco, há uma boa mão cheia de anos, em Leiria. No andar de cima um jovem pintor saotomense, que está por aqui à um mês e que conheço desde o ano passado quando não fui à sua ilha. Na esplanada encontro frequentemente amigos e conhecidos. Sabem-me bem as sopas do restaurante de baixo. O descoffee no Café da Vila. Eu gosto muito da minha vida. Não vejam em mim aquilo que eu não sou. É por isso mais verdade quando, como esta nortada impiedosa, um frio lúcido, cai sobre a minha vida e eu percebo que a minha satisfação não resolve em nada o atoleiro que é a merda de mundo em que vivo. O medíocre modo como nela pairo. E não só este écran. Tudo, os outros, as ruas, o meu ofício, é uma superfície espelhada onde me revejo, onde me procuro. Tocam os sinos em São Vicente de Fora. Parece que a rebate. Imagino uma vida de causas, assim. Como se fosse um inventário. Causa número um, a esmeralda perdida. Causa número dois, a IVG. Causa número três...qual é que era a número três? Baralho-me. Reorganizo-me. Renumero as causas. Causa número um, ser um super-herói de quinze em quinze dias. Causa número dois...faço uma pausa para respirar. O teatro, a escrita, a vida, o que isso interessa. Esta minha propensão para a ciência das coisas em movimento acaba sempre por me pacificar. Tudo é duplíce. O riso de um amigo, o passe mágico de uma pirueta no tablado, as mãos dos amantes. O que acontece. A nossa interpretação. Aqui, diante deste écran, existo sempre duas vezes.
Imagem: Susana Paiva

Janela virada para o rio

Enchi a despensa de víveres. Tranquei a porta. Antes de chegar à sala já as lágrimas me correm, gordas, nutridas, saborosas, pela face. A solidão para a qual me preparo é tanta e tão prazenteira que nem o cd ponho a tocar. Uma voz, um acorde, uma melodia, seria o suficiente para me distrair agora. É de esvaziamento que me percorro. Abro a janela. Lembro-me de um poeminha antigo, juvenil, nas águas tranquilas do Tejo encontro o rio mais triste da minha vida triste. O ar frio que vem por aqui a dentro desperta-me. A minha tristeza é hoje uma festa dos sentidos.

A tragédia do Jackpot

Há vezes em que sinto que tenho com a minha vida a mesma relação que tenho com uma slot machine. Começo a jogar tranquilamente. Não faço cálculos mas também não me empolgo. Não espero senão o que me acontece, versão recauchutada, revista e modernizada do há-de de ser o que deus quiser que nos trouxe a todos até aqui. Tudo isto seria assim por toda a eternidade com que nos predispomos a encarar toda a nossa vida senão fosse a tragédia do jackpot. E como é que um prémio assim pode ser trágico? Não sei. Em mim é. Abre-se uma crise, um veio no próprio chão, transformo-me no personagem liliputiano, precário, que nunca deixei de ser. É assim com todas aquelas parcelas em que decompomos a nossa existência vulgar. Não escrevi a vulgaridade da nossa existência. A esta altura, quando ainda tenho nas mãos o restolhar das moedas caindo na prateleira da slot machine, perdi toda a capacidade de dar palpites morais. Eu quis apenas dizer, uma existência vulgar, luminosamente normal. É diante de uma slot machine que eu compreendo que não há nada de tão terrivelmente lúdico, viciante, irracional, apaixonante, como a pulsão de viver.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Em defesa da vida: blogoteca

Faltam menos de quinze dias para o referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. É natural por isso uma certa ansiedade na nossa respiração. Para que se note menos irei, com paciente militância, trazer aqui os linques das postadas que mais me interessaram sobre o assunto (por favor, nos comentários podem indicar posts relevantes que tenham encontrado na Blogosfera). A face do próprio blogue vai dar, até dia 11, a primazia à informação sobre a IVG e o Referendo, destacando as várias plataformas do SIM. Não é só o ser uma oportunidade de virarmos uma página no modo como a política se deixou contaminar pelo obscurantismo religioso e se distraiu daquilo que é verdadeiramente político: ajudar-nos a viver melhor. Quando se luta por vidas, quando se luta pela capacidade de vivermos a nossa vida em decisão e responsabilidade, todos somos poucos. Sem nenhuma ordenação que não seja a da ordem de "ligação", juntamo-nos a:
Blogoteca
- Vida Mas Não Toda do Luís, na Natureza do Mal. Ver também os comentários.;
Fazer um aborto, da Susana Bês, no Lida Insana;
O 8º Regresso (ou onde, sem vontade se interrompe. E apesar disso se continua), da Elisa, em O Livro no Espaço Triste. Também na Elisa, ballad-for-unborn , em Bebedeiras de Jazz e Dia 442 em Um dia a menos para a Morte;
Pelo Sim #7, Pedro Vieira no Irmão Lúcia;
Argumentário Liberal a favor do Sim, do CAA, no Blasfémias;
A levar em conta, de f., no Glória Fácil;
A Rota Esquisita, de Marta Rebelo, no Linha de Conta;
Sim, de Eduardo Graça no Absorto;
O PS e o Sim, LNT no Tugir em Português;
este post de Vieira do Mar, em Maresia ;
alt-ctrl-del, pelo D em Coimbra B, na Linha do Norte;
"Comigo foi assim", pela Oito e Coisa, no Oito e Coisa, Nove e Tal.;
"Culpa", de Leonor Areal, no Doc-Log;
"O Meu Sim- Versão Minima", de Vasco M. Barreto, no Sim ao Referendo.
Entradas no Respirar o Mesmo Ar:
- A vida enquanto argumento; Queixa contra o Desconhecido (teatro); Tornar-se Pessoa ; Tratar da Política: O aborto e a organização do crime ; Obrigado, Woman on Waves ; Regressou a casa do pai ; Praça do Chile ; Os homens também abortam ; O aborto espontâneo também é crime? ; O efeito Zita Seabra na interrupção voluntária da gravidez ; A Malícia do Aborto ; Uma ideia em gestação ; Problemas: Indicações e Resoluções
[Em actualização]

Confissão

Vou votar sim porque penso que a mulher não deve ser criminalizada por interromper uma gravidez. Falta-me pachorra para entender aquelas pessoas que pensam como eu e mesmo assim vão votar na não alteração da lei que criminaliza a prática do aborto. Pachorra e entendimento.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

A violência doméstica e o "incentivo ao voyuerismo"

A história tem passado por aí: uma equipa do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência), elaborou um inquérito destinado a avaliar a dimensão do consumo de drogas e os riscos que lhe estão associados e promoveu-o num universo de cem mil alunos, dos 12 aos 18 anos, de 860 escolas de todo o país. Este estudo repetia um outro feito em 2001, incluindo desta vez também questões sobre a violência doméstica. O vou devagar que tenho pressa, não terá sido o lema finalizador do trabalho que, face à necessidade de ser lançado ainda em Dezembro, acabou por não passar por alguns controlos de qualidade do mesmo. Entretanto uma escola do 3º Ciclo não aceitou a realização do mesmo e houve protestos de um pai junto do próprio IDT. Era o início de um processo que levou à retirada do famigerado inquérito.
A forma como tudo se passou foi tão exemplar e tão lesta que nem mereceria mais destaque não fosse uma pequena crónica de Ruben de Carvalho, na última do DN, vir lembrar-me que a iniciativa, o estudo, era ignóbil porque " é o incentivo ao voyeurismo" aqui sugerido, a par e passo com um comportamento de observador de intimidades que roça a espionagem policiesca, coerentemente acompanhado com o incentivo a julgamentos moralistas numa situação de natural carência de referentes inerente à idade".
Ora o pior que poderia acontecer é que uma abordagem mais infeliz, ou como tem sido referido pelo presidente do IDT, "mais crua e técnica" pudesse inibir os investigadores do IDT de se aproximarem de uma realidade, como a violência doméstica, que necessita de ser avaliada e estudada.
Esta história - e tudo hoje é uma estória - faz-me lembrar um caso passado comigo quando, no final de 80, trabalhei na Quinta da Calçada. Tinha estado, a pedido da psicóloga do ATL onde trabalhava como animador de expressão dramática, a fazer uma sessão de exploração com fantoches com o Rui, onde explorava aspectos relacionados com o seu problema de enurese. No final da sessão saímos para o pátio, estava um dia bonito, era o Dia Mundial da Árvore, e conversa puxa conversa, lá lhe explico que este dia serve para nos lembrarmos de como gostamos das árvores. O pequeno Rui, que tinha seis anos, pergunta-me:
- Como se fossem as nossas namoradas?
Eu sorrio, sem adivinhar o que por aí vem. Condescendo. E, incendeio:
- Se fosse a tua namorada o que lhe dizias?
Era uma árvore de pequeno porte. Ramificada em duas penadas. Antes de eu poder fazer alguma coisa ele salta para cima da árvore, sentando-se no veio do meio e grita, cavalgando, com uma expressão de ódio que transfigurou toda a sua meninice:
- Sua puta...vá, fode-me...ganda puta...
Fê-lo com tal violência que a fricção na árvore o arranhou nas virilhas.
Fiquei em estado de choque, claro. Lá tentei pôr a minha cara mais natural do mundo mas não sosseguei enquanto não fui falar com a psicóloga. Viemos a descobrir depois que o miúdo vivia numa barraca com a mãe, que se prostituia, e que, no seu pequeno quarto, ouvia os diálogos desses encontros.
Por isso, o meu apelo ao primeiro ministro, ao ministro da saúde, ao presidente do IDT, aos próprios especialistas do IDT: façam felizes as perguntas mas não deixem de ir lá, aos sitios e aos lugares onde descobrimos aquilo que torna a nossa vida um pouco mais sombria.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

A vida enquanto argumento

Eu, que sempre senti que a questão do referendo deveria ter sido resolvida com a coragem política, não delegada, resultante de um determinado programa eleitoral, começo a pensar que afinal de contas fazemos bem em andar nisto. É claro que muitos dos nossos argumentos parecem muito fracos. É preciso pensar que esta filosofia de ponta de colocar um país inteiro a falar sobre onde começa a vida e o que é que é que ela pode ser, junta calceteiros e doutores do reino, juízes e lavadeiras, professores e cabeleireiras, estivadores e lentes, das mais diversas classes sociais e níveis etários. Não se vê por isso como esta discussão pudesse ser um momento de um grande brilhantismo intelectual. A própria propaganda e publicidade tem deixado muito a desejar. Cartazes que são lidos de forma ambígua, outros que são mal escritos, são utilizados tanto pelos partidários do sim como pelos partidários do não.
Há no entanto uma questão que nos deve fazer pensar: a justiça e o bom senso da opção escolhida depende não da capacidade argumentativa dos defensores de cada uma das opções, mas da forma como cada uma das opções conseguir estabelecer-se como um programa coerente e dirigido a fazer da nossa vida algo melhor.
Ou seja, se o sim à despenalização da interrupção voluntária da gravidez vier a ser sufragado pelo referendo, a nossa vida será melhor não se a nossa sociedade se tornar num dispositivo industrial de destruir embriões, como temem os defensores do não, mas se, protegidos os vivos que estão mais directamente ameaçados com as consequências da penalização, se salvaguardada a tomada de decisão que torna a aventura da paternidade e da maternidade num momento tão transcendente da nossa existência, conseguirmos, nem que seja por este processo de discussão pública, envolvermo-nos todos mais, socialmente, na tentativa de erradicação de muitas das situações que levam as pessoas a abortar.
Da mesma forma, se o não à despenalização da interrupção voluntária da gravidez vier a ser sufragado pelo referendo, a nossa vida será melhor se nos envolvermos todos mais, socialmente, na tentativa de erradicação de muitas das situações que levam as pessoas a abortar ( para além desse imenso combate contra a tutela que a religião mantém sobre o nosso sistema político e legislativo e na solidariedade para com as famílias que possam vir a ser julgadas, que sem dúvida muitos dos que defendem o sim sentirão necessidade de continuar).

E isto que parece uma evidência sempre, ainda o é mais num caso em que as ideias dos defensores do não e dos defensores do sim não são contraditórias nem antagónicas. Estão em oposição, no dia 11 de Fevereiro, estão em oposição na vida de todos os dias, mas não decorrem de argumentos contraditórios. O sim dos defensores da despenalização, pode perfeitamente trabalhar com os mesmos argumentos do não. Quando os defensores do não dizem que não se deve fazer a IVG porque está em causa, no embrião, uma vida humana, os defensores do sim podem reconhecê-lo e mesmo assim dizer que não estando em causa apenas isso, defendem não só que seja possível fazê-la, como também que seja possível fazê-la em condições de saúde que garantam a integridade e a dignidade da mulher. Se fossem contraditórios, a posição do Sim só ganharia provimento retórico se conseguisse provar que não há no embrião humano, vida. Da mesma forma, a posição do Não só teria algum sentido argumentativo se conseguisse demonstrar que, às dez semanas, a vida embrionária tinha um estatuto de pessoa e que por isso o poder de decisão do par ou da mulher sobre o seu destino seria uma espécie de infanticidio.

Não. Para muitos o que acabei de dizer parece um rotundo disparate: o antagonismo entre o Não e o Sim no próximo referendo, não parece ser, como aqui se diz, essencialmente um antagonismo posicional, parece mais ser um profundo antagonismo de natureza ideológica e politica.

E isto acontece porque, como sempre acontece nestas coisas, há um acantonamento ideológico e político - embora haja já muitas pessoas que defendem a diluição do posicionamento político partidário - o que faz com que, se tiveremos alguma pressa, poderemos agrupar e caracterizar social, politica e ideologicamente a comunidade do sim e a comunidade do não. Embora, se nos demorarmos mais algum tempo, e no movimento existente isso é muito claro, verifiquemos que o enquadramento esquerda e direita não produz uma decisiva mais valia discursiva sobre o esclarecimento das posições do sim ou do não.
Como muito bem sintetizou Vasco M. Barreto, o que vai estar em questão no dia 11, é saber se vencem aqueles que têm uma concepção maximalista ou os que têm uma concepção minimalista da forma como a sociedade deve, moralmente, regular-se.

O que vai estar em questão no dia 11, é assim saber se vencem aqueles que pensam que as pessoas viverão melhor se o ideal de vida que partilham for o mais elevado possível, independentemente da qualidade da vida que realmente vivem, ou se vencem aqueles que defendem que as pessoas poderão ter um melhor ideal de vida, se nos empenharmos em melhorar as condições reais da vida que vivemos.

E nem sei se é falta de hábito ou de vontade

Olho a empena da colina que vai da Nossa Senhora do Monte até ao Martim Moniz. Sempre que a descia pelos lados da Rua do Terreirinho dava-lhe um toque no telemóvel. Quase nunca nos encontrámos assim. Muitas vezes ela estava longe, às vezes em Viana, mas riamos, parecia que estavámos assim muito mais perto. Perdi, entretanto, a noção das distâncias.

Desculpe, foi engano

Subo a Rua da Trindade, do Carmo para o Teatro. O passeio é apertado. A meio da rua uma mulher. Sorri. Abre os braços. Pensei que era uma adepta daquele vídeo dos abraços livres. Sorrio. Abro os braços e tiro os óculos de sol, costumo fazê-lo. Aí a mulher baixa os braços, retira ao sorriso roda a intencionalidade ficando nele apenas um resíduo biológico e diz-me:
- Desculpe, foi engano!
Subo, meio desiludido, o resto da rua. Não era engano nenhum. Eu estava mesmo a precisar daquele abraço.

Ainda não me habituei à ideia de que isto é a sério

Como é que contamos a eternidade, pergunto-me enquanto vejo que não postas há cinco milhões, quatrocentos e quarenta e três mil e duzentos segundos, noventa mil, setecentos e vinte minutos, mil quinhentas e doze horas ou sessenta e três dias?

Caso de Torres Novas - fim de citação

Releio todos os posts que escrevi sobre o caso da Esmeralda para saber se era verdadeira a minha sensação de que aquilo que escrevi não era explicitamente uma defesa ou um ataque de alguns dos intervenientes deste caso. A minha reacção começou com um editorial de Nuno Pacheco, que achei miserável, e que despoletou em mim um sentimento de indignação tão forte - principalmente porque contrastante com a ideia que tenho daquele editorialista do Público - que quase se diria que eu tinha incorporado a sensação de injustiçado que antevia em Baltazar Nunes (mais tarde clarifiquei que a minha empatia com ele tinha também a ver com outro aspecto, que será objecto de um próximo post, desde já anunciado, a aventura da decisão). Mas aquilo que tematizou de uma forma vincada a minha persistência na discussão sobre este caso, foi um trabalho de intoxicação informativa que vi ser feito no espaço público, envolvendo todos. Não eram só os media. Era de tal modo grave que cada pessoa se tornou uma câmara de eco de um determinado enredo e argumento. Àquela pergunta, então e este caso, agora?, que fazemos para nos instalarmos na conversa, a resposta era automaticamente a mesma, falasse eu com quem falasse: " esse malandro nunca quis saber dela e agora que lhe cheirou dinheiro é que apareceu", ou então " aquela juíza é que devia estar presa, condenar um pai que está ali por amor". Foi por isso com algum conforto que vi a minha tribo reconstituir-se a partir da disponibilização do acordão, que mesmo sendo uma visão parcialíssima, nos permite aceder a uma factualidade que estranhamente já estava disponível - o que permite dizer-se com propriedade que isso era matéria publicada - mas que não actuava na construção do argumento emocional que nos vinculou com a história. E a minha tribo é assim a daqueles que dispensam a intoxicação informativa e que têm como importante não só o pensamento, também o controlo sobre os dispositivos pelos quais produzimos pensamento. Tudo isso, o que cada uma das tribos pensa, é já muito claro, e eu tento assim encerrar a minha participação nesta discussão. Não sem antes dizer algo, que só escrevi uma vez, penso que na caixa de comentários da Natureza do Mal, e que é sobre a prisão de Luís Matos Gomes. Mesmo sentindo que houve aplicação da justiça, ou seja, independentemente da intencionalidade, o casal premeditadamente lesou e provocou prejuízo no pai, parece-me injusta, demasiadamente pesada e ainda por cima, parece-me ser uma pena que só agrava a situação. Porque por mais que achemos condenável a atitude de Luis Matos Gomes, é óbvio que a maior pena é dirigida directamente à pequena Esmeralda. Nem o próprio Baltazar Nunes reconheceu algum conforto com essa prisão. Como dizia a M., e ela será sempre a minha especialista para esses casos, aqueles são os adultos daquela criança e devem estar com ela. Por isso, paradoxalmente, encontro no movimento do habeas corpus uma generosidade que tem de encontrar correspondência com aquilo que se irá passar com Luís Matos Gomes. Ele tem de ser libertado (da mesma forma que o pai e a mãe têm de poder ser integrados na relação com a criança). Nem Luís Matos Gomes, nem Adelina, nem Baltazar, nem Aidida são os super heróis da colecção de cromos de Esmeralda - e ela um dia crescerá porque terá de aprender a amá-los mesmo deixando alguns espaços em branco na caderneta - mas são os seus adultos. Da mesma forma que o bom povo de Cernache de Bonjardim, de Mação, da Sertã, a comunidade de especialistas, os fazedores de opinião, os com opinião feita, talvez não tenham sido a melhor comunidade de acolhimento para esta criança mas serão, muito provavelmente, a comunidade onde ela terá de viver. Fim de citação.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Somos uma casa de gente séria mas por vezes...

Anúncio publicado no Jornal Primeira Página, de Palmela. Via Oito e Coisa.

O direito à indignação

"O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção, Luís Villas-Boas, considera que o acolhimento de Esmeralda pelo casal Luís Gomes e Maria Adelina não tem valor jurídico. A adopção é um vínculo jurídico produzido apenas em Tribunal e por uma sentença de um juiz. Não havendo isso, não há nenhuma adopção. O acolhimento particular de uma criança não confere direitos sobre ela”.
EVITAR TRAUMAS
A maior preocupação neste caso deve ser proteger o superior interesse da criança e evitar situações traumáticas, considera Luís Villas-Boas. O responsável pelo Refúgio Aboim Ascensão adianta que o facto de Esmeralda não conhecer o pai poderá ser minorado com vinculação progressiva. “Uma hipótese viável é o acolhimento temporário num centro com outras crianças e aí promover a aproximação ao pai biológico”, sugere.
CELERIDADE
Segundo Luís Villas-Boas, “a Lei portuguesa tem de ajudar Baltazar Nunes a assumir a paternidade.O não cumprimento da ordem do Tribunal é uma desobediência qualificada.” O psicólogo clínico apela a maior celeridade nos processos, seguindo o exemplo da nova Lei que encurta os prazos de adopção.Os tribunais têm de ser mais ágeis quando os problemas envolvem crianças".
Luis Villas-Boas era ontem na televisão um homem indignado, quase provocando um orgasmo telúrico em Fátima Campos Ferreira quando falou na democracia dos afectos. A 5 de Fevereiro do ano de 2005 falava assim ao Correio da Manhã (na mesma peça ver a entrevista de Aidida Porto). As pessoas podem mudar de opinião. Mas sendo especialistas a quem provavelmente os litigantes recorrem nos seus processos de fundamentação, poderiam pelo menos ter uma lembrançazinha sobre o que defenderam no passado. Quer dizer, há dois anos, mais coisa menos coisa. Como é que querem que a malte não ande confusa?!
[Link Correio da Manhã via Bloguítica, [138]que o tinha recolhido da caixa de comentários de Portugal dos Pequeninos]
Outras leituras (não necessariamente com pontos de vista coincidentes) sobre este assunto:
- "1500 euros" - de Rui Cerdeira Branco, Adufe;
- "Jornalismo interpretativo", de Sofia Loureiro dos Santos, em
- "Defender sabe-se lá o quê...", de João Pedro Henriques, Glória Fácil
- "Ler. Ajuda a perceber", de Eduardo Pitta, no Da Literatura
- o pai adoptivo leva seis meses de prisão, Vieira do Mar em Maresia;

Guardar peixes no rio

"MARIANA
Porque é que tu não tens nada?
JOÃO COM TUDO
Já te disse, porque assim tenho tudo.
MARIANA
Mas isso é porque não tens nada?!
JOÃO COM TUDO
E por isso tenho tudo. Crio peixes nos rios, fruta nos pomares, pássaros nos céus. Tudo o que vejo cabe no meu mundo e o meu mundo é tudo o que a minha vista alcança. Ter não é agarrar e meter dentro dos bolsos, é guardar aqui.(leva a mão ao peito)"
[in Geraldo Carne e Osso, texto que o Teatro Minimo levou à cena em 2005 e 2006. Para a M..]

A angústia do jornalista diante de um título

Lembro-me de que quando fiz o estágio final do meu curso na SIC, assistia-se naquela altura a um crescente mal-estar dos jornalistas perante aquilo que começava a ser a sua caracterização: uma televisão comprometida com um projecto de excelência da informação e uma empresa de entertenimento apostada em ganhar a batalha do público não parecendo ter muitos limites nesse campo. A forma como resolviam esse mal-estar era mais ou menos o habitual nestas situações: balcanizaram-se entre os da informação e os da programação (dirigidos por uma mesma pessoa). E tanto era assim que, naquela altura (e o meu estágio durou, em 1994, apenas três meses) na redacção se cultivava um alheamento e desconhecimento sobre a programação da estação em que trabalhavam. Ocorre-me isso ao lembrar-me do caminho percorrido: num mundo onde a dinâmica empresarial é cada vez mais acentuada e entra pelo próprio trabalho informativo, aquilo a que recebemos como notícia, ou informação, é um produto para cujo processo de fabricação concorrem tanto os repórteres como aqueles que a editam e ou os que dirigem o chamado fecho do jornal. O que gera muitas vezes uma tensão - provavelmente não tão acentuada como aquela que relatei em relação ao meu estágio - a cartografar. Tanto os editores como os repórteres são, em regra, jornalistas. Não deixa por isso de ser curiosa esta frase da resposta que recebi do Provedor do Público quando lhe enviei os links dos dois posts em que referi o Público, e onde chamava a atenção, entre outras coisas, para a divergência entre título e corpo da notícia: "...a única coisa que lhe posso dizer neste momento é que os títulos não são elaborados pelos jornalistas, mas pelos editores e/ou director de fecho.". É claro que o provedor, na sua atenta e simpática resposta, queria dizer repórteres. Aquilo que me parece sintomático é que, sendo neste caso o provedor um jornalista, esta declaração dá conta de que esta ideia produz sentido e significado. E permite, por exemplo, entender com naturalidade que um jornalista defenda a qualidade do trabalho jornalistico efectuado num determinado caso (veja-se o post anterior), desvalorizando a forma como ele foi apresentado. Transforma-se por isso a argumentação e a contra-argumentação num diálogo de surdos. Ao falar de intoxicação informativa falo principalmente de uma enorme pressão social desenvolvida pela comunicação social como um todo, e onde se ligam muito mais facil e produtivamente os enunciados constituidos pela titulação dos vários produtos jornalisticos. Pressão não só sobre os leitores, também sobre o trabalho de informar, já que os jornalistas não vivem numa redoma informativa. Por outro lado quem argumenta sobre a justeza do trabalho jornalístico neste caso, naturalmente que argumenta referenciando-se aos trabalhos dos jornalistas que instintivamente reconhece (e donde, eventualmente, até excluirá, tal como o provedor do Público, o trabalho dos editores e dos responsáveis do fecho). Tudo isto se torna mais importante quando a relevância que o trabalho que os media escritos fazem na agitação das consciências é reduplicado na banca dos jornais (e há já programas de tv onde se dedica algum tempo a mostrar a cara dos jornais). Banca onde o que comunica é exactamente o trabalho desses não-jornalistas. Este é um problema a que, como leitor não posso dar nem solução, nem sugestões. Nem sei se esta angústia de um jornalista diante do título é uma questão resolúvel. Creio até que a permanente suspensão desta questão sobre o trabalho do repórter pode tensioná-lo positivamente. Mas isso sou eu, o da ciência positiva sobre todas as coisas em movimento.

O veneno e o antídoto

Talvez a Fernanda Câncio, no Glória Fácil, esteja a exagerar o suposto disparate alheio: é muito claro para quem leu jornais e ouviu televisão nos últimos dias que houve uma torrente de emotividade que se sobrepôs à factualidade disponível, manchando esta actividade de noticiar. Não restam disso nenhumas dúvidas e a Fernanda Câncio pode citar todos os trabalhos jornalísticos que considera dignos desse nome que não consegue desmentir de forma objectiva o trabalho da comunicação social na construção do roteiro ficcional que se impôs neste caso: a batalha do pai biológico contra o pai adoptivo, a caracterização do primeiro como um homem sem qualidades, sem amor, provavelmente ofuscado com os trinta dinheiros (a expressão não é minha), sem capacidade de prover ao sustento e à felicidade da sua filha e por isso sem legitimidade para requerer o poder paternal, e o segundo como um ser heróico, grande na sua dimensão humana, que apenas é caracterizada pela expressão o que ama, o que cuida, o que vela; também, o não desmontar suficientemente claro da ideia de que o colectivo de juízes (e não a juíza) que julgou o sargento Matos Gomes não decidiu a tutela do poder paternal e portanto não julgou hoje sobre com quem deve estar a criança, mas sim, avaliou e julgou o comportamento de um homem e de uma mulher que durante dois anos e meio sonegaram a filha a um contacto com aquele que tinha, legalmente a tutela do poder paternal; ao não desmontarem isso, que também deveria ser notícia, avalizaram assim a torrente que se constituiu na opinião pública de que a juíza (e esta errada personalização de um colectivo de juízes não foi suficientemente esclarecida e desmontada) tinha, aos cinco anos da criança, decidido entregá-la a um estranho o que é de todo falso; por exemplo, não vi nenhuma entrevista a nenhum pedopsiquiatra sobre os efeitos negativos que a subtração de uma menor a um contexto de enraizamento social poderia ter, quando isso é uma das matérias mais relevantes da problemática em causa e que poderia ajudar-nos a perceber da bondade do comportamento do casal que tem a sua guarda; vi relatos de que o médico pediatra teria comprovado, há alguns tempos, o estado da criança, mas não vi ninguém a colocar a questão sobre o que aconteceria (ou se já tinha acontecido) se a criança precisasse de ser tratada numa unidade de saúde onde a sua identificação pudesse levar à denúncia da situação de ilegalidade em que se encontrava a sua guarda; na dicotonomia pai adoptivo versus pai biológico, insistiu-se na caracterização de que era assim que deviam ser apresentados os protagonistas porque interessava à construção ficcional do argumento servido, sem pensar que objectivamente, o sargento não era pai adoptivo, nem Baltazar surgia agora nesta história por ser o pai biológico, mas sim por deter, legalmente a tutela do poder paternal (eu sei que a diferença é subtil, mas de quanto subtileza foi feita a intoxicação informativa), quando está por provar, no acordão isso não é claro, que o que valoriza, junto do colectivo de juízes, a posição de Baltazar, seja o de ele ser o pai biológico e não o de ser ele quem detem o poder paternal); mais, sendo muito claro a partir de certa altura que a comunicação social tinha tido um trabalho francamente entusiasmado sobre este caso (veja-se a forma como noticiou um abaixo assinado que, ainda era uma ideia, já era apresentado de forma divergente na titularia (como um facto) e no corpo da notícia (como um projecto), erro onde incorreram tanto o Público como o DN, e que não sabemos que peso terá tido nessa imensa maré emocional que levou à assinatura do habbeas corpus) não realizaram aquilo que costuma ser useiro e vezeiro em outros casos deste tipo: o chamarem à colação pessoas capazes de analisar o próprio furor mediático criado. Aliás, basta ir-se ao site que divulgou o acordão para se perceber o continuado aparecimento de comentários de pessoas que entenderam que o acordão exibia uma factualidade que não tinha dominado o trabalho informativo que tinha sido realizado (e que não são só as peças de reportagem, é também a forma como ela é servida, titularia incluida).
Numa coisa Fernanda Câncio tem razão * . O trabalho jornalístico tem sido o veneno e o antídoto (que tem vindo progressivamente a ser administrado ao paciente, digo, leitor, à medida que este caso avança) desta intoxicação informativa. E portanto poderá encontrar, a começar pelos trabalhos realizados no DN - que arrancou mais tarde que o Público no destaque feito mas por isso mesmo ganhou mais em objectividade - momentos de um trabalho jornalístico empenhado mais na revelação dos factos do que na manutenção do status quo ficcional (e emocional) que nos foi servido nos últimos dias. Poderá e deverá - se isso não servir de ocultação ao trabalho de envenamento público - prazentear-nos com a excelência do antídoto.
[* Há (mais) um aspecto em que a Fernanda Câncio é pertinente: a disponibilização do Acordão provocou-nos uma imersão numa factualidade que não estava assim, valorizada, mas também omite, por natureza, uma questão importante. É que se entre o que se passou com Baltazar, Adelina e Matos Gomes foi possível a constituição de prova através do recurso ao contraditório, naquilo que se terá passado entre Aidida e Baltazar, só temos, no Acordão, a posição da defesa de Baltazar. Ou, indirectamente, aquilo que disso podemos deduzir na defesa do casal.]

Democracia Virtual

Durante o Prós e Contras tive várias vezes um flash-back das assembleias de moradores, das reuniões plenárias e de outros eventos próprios da euforia revolucionária. Aliás foi essa patine revolucionária que me fez seguir com mais atenção o programa onde Fátima Campos Ferreira se conseguiu suplantar a si mesma na sua absoluta falta de qualidades para imprimir alguma seriedade ao serão. A plateia estava bem composta e unânime. Ainda bem que aquilo não era um tribunal popular. O advogado de Baltazar, um juíz desembargador, o Director Geral da Segurança Social, uma procuradora que testemunhou no processo e Vilas Boas, um psicólogo, responsável por uma instituição de guarda de menores. Na plateia os promotores do habeas corpus, e muitas pessoas ligadas aos centros da segurança social de todo o país. Para além da mãe biológica. Uma coisa importante ficou ali discutida e foi reforçada tanto por Miguel Gaspar como pelo director do Refúgio Aboim Ascenção e pelo juíz Madeira Pinto: há uma componente de afectividade e emotividade que é necessário tornar sócias da racionalidade jurídica. Outro ganho: o perceber-se que uma coisa é a situação penal do sargento Matos Gomes, outra é a resolução da situação daquela criança.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Coisas de mulheres

"O meu voto é pelo direito das mulheres decidirem. Acho inacreditável que em pleno século XXI as mulheres portuguesas possam ser presas por coisas que só a elas compete decidir". No inquérito do DN, responde assim João Botelho. A maior parte dos que por aqui passam sabem a minha posição sobre o referendo. Votarei sim. Pelo direito de decisão. Das mulheres, dos homens, dos casais. Parece-me no entanto absurdo essa desvinculação do homem de uma decisão tão dificil como o é a de interromper voluntariamente uma gravidez. Concordo que a mulher possa decidir se vai ou não ter a criança, mesmo que o homem com quem se acasalou não o queira. Ou seja, que em última instância, a decisão é da mulher. Mas isso é em tudo diferente do que dizer que é uma decisão que só compete a elas. O meu lado mulher diz-me que não.

Caso de Torres Novas - Como se constrói uma mentira (1)

"Como é possível regular o poder paternal de um pai biológico, sem ouvir nessa regulação aqueles que há quatro anos actuam formando e educando aquela criança?" *
Marcelo Rebelo de Sousa, em as Escolhas de Marcelo na RTP 1
Nota: O processo de regulação do poder paternal dá entrada no Tribunal Judicial de Torres Novas no dia 16 de Outubro de 2003, sendo a sentença datada de 13 de Julho de 2004. Esmeralda nasceu no dia 12 de Fevereiro de 2002 ( e o seu pai assumiu a paternidade e vontade de regular o poder paternal no dia 27 de Fevereiro de 2003, após teste). É só fazer as contas do Prof Marcelo.