sexta-feira, março 02, 2007

Optimismo

Apeteces-me.

Agenda política

não tenho. falhei ontem o fragateiro no ccb, soberbo no seus 7% de share político. Correia dos Santos nas urgências. o brilharete de Sócrates no parlamento. a Opa à PT. a universidade independente. a despedida de Paulo de Macedo. os jogos de guerra verbais no Golfo. as tempestades. o degelo. as metamorfoses na banca dos jornais. não o digo nem com orgulho nem com basófia: esta semana acordei sem agenda política.

quinta-feira, março 01, 2007

Prateleira dos blogues: Ponte de 3 Entradas

Ainda não tinha colocado A Ponte das 3 entradas na prateleira de blogues por perguiça. Tenho-o aqui em baixo nas referências e ía lá por aí. Há muito que o tenho como um blogue de leitura obrigatória. Moram lá três bloggers com os quais me cruzei há muito, no DN Jovem. Fui dar a ele pelo J. que sigo, há muitos anos, em várias atmosferas, respiração de muitos poros. E foi com saudade que reencontrei LP, um dos poetas que mais apreciava no DN Jovem de há vinte e tantos anos e é com prazer que o leio sempre. Assim como o mais iconográfico, PB, cujo traço muito admiro .

O outro lado

Não demorei assim tanto a dizer adeus. Despedi-me das pessoas essenciais. Olhei as paredes do velho teatro. As minhas horas nelas. E à saída da porta de caixa entrei, tal e qual a Alice, numa porta enorme, que rangia.

Carteiro de giro

Eu creio que foi o Luís que mexeu os cordelinhos. A carta vinha assinada pelo Luís Nazaré mas tenho a certeza absoluta que foi ele que se mexeu e remexeu até conseguir a minha reintegração como efectivo no corpo nacional de carteiros. Ainda não sei qual é a minha zona mas claro que aceitei. Apetece-me voltar às origens. Ser carteiro de giro. Andar pelas ruas faça sol ou faça chuva. Dizer bom dia e boa tarde e ser reconhecido. O meu indíce de popularidade vai subir muito, muito. Tem umas partes mais aborrecidas, mas é como dizia a Maria Porto, ser carteiro deu-me também as horas mais felizes da minha vida. Pús uma única condição e confesso que a medo, pensei que iria deitar tudo por água abaixo. Falei-lhe no Luís, o quanto admirava a descrição que ele faz da repartição dos correios, queria também escrever livremente sobre o meu trabalho, sobre os meus chefes, soltar o fígado, libertar a vesícula, doesse a quem doesse. Nunca tive geito para cartas anónimas, para a maldicência sem assinatura mas o poder de " qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência" apaixona-me desde miúdo, quando fingia ser o Clark Kent e assim me libertava dos horrores da guerra fria, da proibição de ver O Santo e O Fugitivo ou até, da repartição de tarefas domésticas. Fiquei espantado com a resposta positiva, sem pestanejar. Os CTT mudaram muito desde a última carta que entreguei. Fiquei tão impressionado que até me esqueci do meu cavalo de batalha de há vinte anos: não usar farda. Que se lixe. A farda nunca matou ninguém.

Lista de prioridades

Ando há dias com este na cabeça: pedir uma licença sem vencimento e oferecer-me como voluntário e ir por esse mundo fora. Mas depois estaco. Não cultivei, na minha vida, nenum ofício que pudesse ser útil aos outros. Não creio que fazedor de blogues esteja na lista de prioridades desse mundo urgente onde quereria estar agora.

A confissão

Quando eu era miudo havia uma altura em que eu deixava de ser aquela espécie de calimero feliz que cultivei por toda a minha vida: era quando o meu padrinho me convidava para almoçar. No final da refeição tinha uma tablete de chocolate debaixo da mesa. Os meus irmãos ficavam podres de inveja amarela. Eu ia ter conversas de adultos e voltava de lá ainda com uma tablete avantajada com avelâs inteiras. Tomei-lhe o gosto e pela vida fora aprendi a gostar de falar com os mais velhos. Não me esquecem as conversas no Grémio de Elvas com o sr. Miguens, companheiro de damas do meu avô. Ou as tardes à conversa com o meu tio Joca. Por razões que não contam estive vinte e tal anos afastado do contacto com o meu padrinho, até que há cerca de uns treze anos voltámos a encontrarmo-nos. Hoje, quando preciso de norte, telefono-lhe. São sempre conversas longas, e em que o passado traz algo que ainda não sabia. Ele foi colega de meu pai no externato. E desvendou-me enfim a história do encontro dos meus pais. O meu pai uma vez foi fazer uns sermões para o colégio em Vila Viçosa onde a minha mãe estudava para professora. O meu pai era um grande orador. Consta que o Cardeal Patriarca o mandava por esses altares adentro distribuindo laudes e sermões. Os de Vila Viçosa deviam ter sido muito inspirados. Porque aquela alentejana, que viria a ser minha mãe, logo ali se tomou de vontades de o conhecer. E como? Era expedita a moça minha mãe. Quis-se então confessar, para com ele chegar à fala . Presume-se no entanto que se tenha confessado primeiro a minha mãe e depois o padre, meu pai. O que disseram está guardado na memória. Da confissão não reza qualquer registo. Da sua consequência, andamos cá quatro.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A telefonia sem fios

Gosto da rádio. Gosto de ser voz e desta ir onde o corpo não consegue imaginar. Há muito que não ìa a um estúdio. Sabe-me bem aquele espaço em restrição. A luz vermelha de No ar. Gosto das vozes timbradas dos locutores, dos jornalistas. Há muitos anos tive algumas aventuras em Leiria, em duas rádios piratas. Muitas vezes sonhei em caminhar na noite, soltando conversas com espectadores adormecidos pela letargia do quotidiano. O meu sonho irrealizável é a rádio.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A morte é uma estrela, Princesa

A contar os dias novos, aqui.

Dormir

Se tivesse que arrumar a palavra sono, o marcador seria a palavra infância. E à cabeça vem-me a memória do meu avô Figueira, um dos homens mais saudáveis que conheci. Até nos provérbios com que conduzia a sua vida e a dos que o circundavam. Crescer, ganhar ramagens, ser árvore foi um longo percurso de desafectação com momentos como o sono. Aos bons conselhos e provérbios do meu avô sucedeu-se o temos a morte toda para dormir. As directas passaram a ser as epifânias de uma vida que se queria aventurosa. Ainda hoje tenho como record pessoal de vigília os meus dezanove anos. Tirava o décimo primeiro ano, horário de manhã e tarde, às sete da tarde estava na sala vermelha do Casarão Cor de Rosa a ouvir o João Mota conduzir-nos pelos mistérios da incorporação dos personagens, das histórias, dos ambientes, estávamos nisto até às onze, e depois oferecíamos-nos para o apoio ao café-teatro e restaurante,onde se estreava, por aquela altura, o Deixós Poisar. Eram horas e horas de conversas, de descobertas, o corpo era uma flor a abrir-se devagar ao toque, à sensualidade, ao arisco e tudo isso acabava invariavelmente às cinco e tal da madrugada nas escadas do metro de Palhavã, onde aqueles que íam para os Olivais se aninhavam do frio, avançando nas artes do aconchego. Depois era entrar de manhã em casa, ver os olhares reprovadores dos meus pais, tomar um duche, e ir, meio a dormir meio acordado, para a Escola. Foram seis meses nisto. É claro que uns tempos mais tarde apanhei um esgotamento cujas causas mais próximas sempre atribui a coisas como a insegurança, o choque cultural, a minha platónica pela Rosalinda ou a dureza do meu primeiro emprego. E daí para cá tem sido sempre essa relação desconfiada e tensa com o dormir. Dantes levantava-me de noite para escrever e fumar, para fumar e escrever ou apenas só para fumar. Ou ía dançar, passear. A noite parecia-me uma musa muito mais recomendável do que a claridade brusca e intrusiva do dia. As insónias não eram tanto um mal, mais uma condição. Hoje já não consigo fazer uma directa sem inexistir no dia seguinte, mas passo muitas vezes semanas com cinco horas de sono diárias. A menos que esteja acompanhado - e mesmo assim com alguma disciplina e domínio ao longo dos tempos, era recorrente as mulheres da minha vida queixarem-se de que adormeciam sós - ir para a cama parece-me sempre um trabalho, uma fadiga. Abri uma excepção este fim de semana. Dormi que nem um nababo. Lembro-me também de ter sonhado profundamente. É que se o sono repara o corpo, o sonho restaura a alma. Só estou com um pequeno problemazinho: chegado do lado de lá, da terra dos sonhos, esta segunda-feira parece-me realidade pouca, tão pouca.

Dar-te-ei um beijo

No outro dia encontrei-a. Era uma mulher a fazer-se. Uma mulher por dentro, uma mulher a crescer por fora. Não foi votar, não podia. Não tem identidade e as eleições, os referendos são actos cívicos de cidadãos cujo primeiro acto de existência é a conferição do nome. Ao princípio houve em mim aquele indicador de estranheza. Como quando há quase trinta anos descobri o meu irmão a beijar outro homem. Não me sinto estranho por estar estranho mas sinto a estranheza. É como um indicador para vigiar os meus gestos, os meus actos de fala. Consegui com todos, menos um: a despedida. Estava com uma amiga. Beijei-a, adeus. E a ela apertei-lhe a mão como se ela fosse um ele. Ela estendeu-me a mão, morta, e eu compreendi. E pensei, para a próxima beijo-te.

Paradoxismo II

Não era ainda isto que eu queria dizer. O que eu queria escrever é que quanto mais em mim cresce a convicção de que os nossos dias devem ser festa, alegria, dádiva, solidariedade, comunidade, tanto mais me parece do mais elementar bom senso abrir as portas ao pessimismo, ao derrotismo, à apoplexia, ao desalento.

O paradoxismo

Identidade em movimento é o que sou, o que somos. Sou uma massa corporal cujo movimento no espaço e no tempo constrói uma identidade, uma história. O meu corpo tem cicatrizes, marcas, sinais. próteses. Através delas decifrar-se-ão alguns dos meus segredos e mistérios. Não era isto que eu queria dizer. O que eu queria escrever é que quanto mais em mim cresce a convicção de que esta aventura humana é desprovida de algum sentido, tanto mais me parece do mais elementar bom senso que os nossos dias sejam festa, alegria, dádiva, solidariedade, comunidade.

domingo, fevereiro 25, 2007

Insularidade

Estou cansado de ser ilha. De me deitar com a única finalidade de acordar todos os dias para um dia novo quando já não acredito que os dias possam trazer alguma novidade. Quando sei que nada de novo possa vir aos meus dias quando por eles apenas consigo fechar os olhos e esperar que a tragédia não mais se repita.

Estado de Sítio

Pedro Mexia cada vez mais recomendável.

Agenda do Quotidiano

Respirar a sombra viva. Passar-te a mão pelo pêlo. Dizer-te.

Algumas coisas simples

Há uma grande diferença entre uma pessoa ter poder financeiro para comprar um jornal ou um grupo de media e ser um empresário da comunicação social. Independentemente de quanto tempo as primeiras continuam a ter ou não títulos na sua mão, são as segundas que definem as regras do jogo. Isso é mau e é bom, depende da perspectiva.

sábado, fevereiro 24, 2007

Contributo da dialética para a atitude acrítica

De um lado quem diz que sim. Do outro lado quem diz que não. O combate inicia-se. Começamos a medir a inteligibilidade da afirmação pela inteligibilidade da negação. E raramente nos apercebemos de uma questão que devia ser do mais rudimentar bom senso: não basta ganhar um debate para ganhar a razão.

Para lá do resto

Gosto desta cidade porque posso ser do teatro e posso ser do Colombo. E nem a gente do teatro me reconhece do Colombo nem a gente do Colombo me reconhece do teatro.

No fantástico mundo da referência e da ligação (I)

Encontro algum paralelismo na discussão que se tende a fazer sobre a imprensa de referência e o jornalismo popular com uma querela em que me formei teatralmente, o teatro independente versus o teatro comercial.
Bastaria essa proximidade para, trinta e tal anos passados sobre o epicentro desse diferendo, percebermos que quase sempre a discussão começa por alguns mal-entendidos em torno do linguarejar e que não nos ajudam em nada a compreender a realidade nem a forma como ela chegou até nós. Hoje aqueles que na altura fizeram o teatro comercial encontram-se, na sua grande maioria, empresarialmente inactivos, e muitos daqueles que militavam no teatro independente, estão hoje prosperamente vinculados a projectos onde predomina a componente comercial.
O ponto de partida não é o ponto de chegada. Assim, não foi pelo facto dos empresários do teatro comercial se legitimarem com o público que este os legitimou com a sobrevivência. Como também não foi o facto do teatro independente ser muitas vezes caracterizado como uma actividade subsidiodependente que ela não forneceu os mais capazes para sobreviverem a uma actividade teatral sujeita aos ditames da oferta e da procura.
E se assim for então talvez fosse bom começarmos por duvidar da forma como nos aproximamos deste universo em discussão. O que é a imprensa de referência?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Caixas para guardar o vazio

Apercebo-me que o meu corpo, o teu corpo, os nossos corpos, toda esta matéria-corpo, é como que uma caixa onde guardamos o vazio.
Segunda percepção fatal: podemos encher uma caixa de vazio, e enchê-la de tal forma que ela fica a transbordar, cheia de si, do seu vazio.
Esse milagre da fisica quântica é o nosso dia-a-dia.
Todos os dias todos os corpos, os nossos corpos, o teu corpo, o meu corpo, se enchem, até ao limite insuportável do transbordo,
de vazio.
Apetece-me chorar.
No teu limite possível do vazio que transvaza das fronteiras que definiste - sem nenhuma preparação nem conhecimento de causa, diga-se - como o máximo de vazio que o teu corpo pode guardar dizes,
apetece-me chorar.
E choras. O teu choro não é o dilúvio. É um pedaço de corpo. E porque o corpo é uma caixa para guardar o vazio,
o teu choro é um pedaço de vazio de que o teu corpo, o nosso corpo, o meu corpo,
se desvinculou.
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Caixa para guardar o vazio
, é também o título da escultura performativa de Fernanda Fragateiro no CCB.

Barracos pré-fabricados

Alexandra Lucas Coelho escreve hoje no Público. A certa altura fala de uns barracos pré-fabricados que faziam de Escola e que hoje deram lugar a um Centro Comercial. Leio-a e deixo-me aprisionar pela memória. Quando viemos para Lisboa, em 1972, a minha mãe foi dar aulas para essa Escola e só lá saiu para se reformar, quase vinte anos depois. Eu gostava de ser o filho da senhora professora, confesso. Como agora gosto de a imaginar na sua bata branca, no seu rosto jovial e também, determinado. As tardes da sua ensinança eram sempre tranquilas para mim. Às vezes eu vinha com um pretexto qualquer para lhe cravar dinheiro, quase sempre para comprar tabaco, entrava no corredor, era a primeira porta à esquerda quando se entrava no pátio, batia à porta, metia a cabeça para dentro, ela fazia-me sinal para entrar, eu ía lesto, por detrás dela, bichanava qualquer coisa que ambos sabíamos que era mentira, se ela estava bem disposta ou concentrada no trabalho dava-me o dinheiro, senão dizia-me que depois resolvíamos o que fosse. Outras vezes eu chegava pela tarde em que as professoras estavam na hora do chá ou do café, aquele café de manga, com cheiro forte, comia um pão com manteiga e um bocado de leite com café, como era delicioso o cheiro do café, o pão macio, a manteiga farta! Por vezes também a minha mãe dava-me uma folha e eu ía para um lugar vazio fazer desenhos. As miúdas da sala olhavam-me com admiração e eu, pela segunda vez, ficava todo contente por ser o filho da senhora professora.

O que se pode pedir a uma canção?

" Direita, esquerda. São noções que ainda determinam a sua relação com o mundo?
Não de forma maniqueísta. Nunca fiz isso e hoje ainda menos. Estamos sempre a mudar dentro daquilo que somos profundamente. A verdade é que a minha formação de origem é cristã. Até ao fim da adolescência eu ia regularmente à missa, assistia ao santo ofício, confessava-me. Hoje passa-se algo como o regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, evidentemente, mas percebo que no fundo tenho uma concepção religiosa do universo. Vi um dia destes O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini, e fiquei perturbado. E estou a ler autores como São João da Cruz e São Francisco de Assis. Há uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional e eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que têm fome e sede de justiça.
E o marxismo, o leninismo, o maoísmo, a extrema esquerda?
Há um cruzamento dos dois tipos de formação. O marxismo, em sentido lato, não esgota o que eu penso, muito embora continue a reconhecer as suas descobertas fundamentais, como o conceito da alienação, a mais-valia, até mesmo a luta de classes. E há ainda o existencialismo. Fiz aliás a tese de licenciatura, má, sobre Sartre, e em particular sobre O Ser e o Nada. De resto nunca disse que era marxista, stricto sensu – aliás seria incapaz de ler alguma coisa como O Capital, no seu conjunto. O meu envolvimento nas coisas foi sempre de carácter existencial, a partir da observação directa de situações que me revoltaram e que têm a ver com o mundo do trabalho, da família, ou com noções muito gerais como a luta anti-imperialista, o direito dos povos à autonomia, etc. É algo que passa mais pela sensibilidade, pela maneira como cada um se move no mundo, do que por questões de principio ou de filosofia.
É uma imagem bastante mais tolerante do que aquela que se cola ao seu perfil público.
Não renego nada do que fiz, mas também não receio corrigir a minha imagem perante mim próprio adoptando atitudes nas quais me sinto bem e combatem os meus álibis internos e autojustificativos.
Que álibis?
Finalmente sou um pequeno-burguês, filho de um juiz supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marca de cuja importância muitas vezes só nos damos conta muito tarde. Quando fui preso tive bem consciência das minhas limitações.
Que limitações?
Bem, não estou a fazer uma confissão para que me absolvam, mas tenho mais pés de barro do que se poderá pensar.
Mas você é tido como um intelectual que sempre esteve do lado oposto ao poder, de todos os poderes, e que age de acordo com as suas convicções. Corajoso e frontal.
São palavras.
Enfim, é o que pensa muita gente.
Frontal, sim. Corajoso, não. O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. O medo a que se sobrepunha uma sensação de angústia, género “como é que me vou comportar em tal ou tal situação?”. Pouco depois dos Acordos de Alvor fiz uma digressão com o Fausto a Angola e vivemos situações difíceis. Também aí tive medo, várias vezes.
Disse-se na altura que lhe tinham querido bater em palco.
Ou mais do que isso. Tudo começou numa conferência de imprensa em que eu defendi o MPLA contra os outros movimentos. A partir daí as provocações acompanharam-nos por todo o lado. Tipos da UNITA, da PIDE, que ainda por lá andavam, da FNLA, etc. Foram uns bons cagaços.
Mas alguma vez deixou de fazer, por medo, alguma coisa que entendia dever fazer?
Em geral não. Mas houve uma vez, durante a campanha de Otelo, em 76, o carro dele tinha sido baleado ali para os lados de Lamego e a certa altura põe-se o problema de ir ou não ir a Viseu. Dizem-nos que a cidade estava agitada com uma data de retornados que nos queriam limpar o sebo. Bem, eu fui dos que fez pressão para não irmos, e não fomos. (…) Após o 25 de Abril pus-me à disposição das comissões de trabalhadores, moradores, de grupos, para animar as lutas que faziam nos seus locais de trabalho. Então recebia cartas, telefonemas, deputações de facções opostas que reivindicavam a liderança das lutas e a justeza das teorias que apresentavam. Acabei por ser obrigado a analisar montes de documentos antes de decidir se havia de ir cantar ou não ao sítio tal, e como. Mas este tipo de coisas não se passou só comigo, há pessoas que se desgastaram bastante mais. Os tipos do GAC, por exemplo. Ou o Adriano. O Adriano chegava a ter de andar à porrada por essas aldeias fora. Houve casos em que o padre da terra utilizava a missa para avisar a população contra os comunistas que iam chegar. Em Maceira da Nazaré as pessoas puseram-se uma noite ao largo durante o espectáculo, ou na soleira da porta, ou atrás das janelas, empoleiradas, etc, por causa do padre. E cantámos com microfones mais do que rudimentares ligados a cornetas de circo em vez de colunas. Era uma coisa que acontecia com frequência, e se perguntávamos aos organizadores “mas vocês querem que a gente cante com cornetas?”, os tipos admiravam-se muito. “O quê? Vocês duvidam desta aparelhagem? Olhem que isto faz um berreiro dos diabos!”. E fazia, claro. Era um cagaçal de tal ordem que acabávamos por pedir que desligassem aquilo e púnhamo-nos a cantar vira. Apareciam então uns velhinhos do asilo ou coisa parecida que fazem pares à boca de cena e dançavam… Outras vezes, como éramos um grupo que defendia a iniciativa popular, convidámos para cantar quem quisesse. E aconteciam coisas do diabo, do género um tipo a cantar fados marialvas à brava depois de nós termos acabado de fazer uma prelecção a favor da igualdade de sexos. Ou uma voz lá atrás a gritar “A gente quer é gajas!”. Esta das gajas foi num foyer, em Paris, numa sessão para portugueses, marroquinos e espanhóis. Estava a casa cheia. No fim eles vinham até junto do palco e punham-se a olhar para as nossas mulheres. Os comentários eram de desarmar qualquer um. A pouco e pouco perdi por completo as esperanças de atribuir aos cantores qualquer papel providencial, senti-me mais como uma Supico Pinto de esquerda a distribuir engodos. Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar “Ò meu Portugal tão lindo / Ó meu Portugal tão belo / Metade é Jorge de Brito / Metade é Jorge de Melo” e aparece ao meu lado um espontâneo coxo que à cadência da música atirava a perna incrivelmente longe e gritava “Não há pai para o coxo / Não há pai para o coxo…”. São momentos verdadeiramente memoráveis das campanhas de politização da Música Popular Portuguesa.
Se voltasse a cantar faria um percurso diferente?
Não voltaria a cantar.
Em nenhuma circunstância?
Em nenhuma circunstância. Para o público, não. Até porque possivelmente não teria nada de novo a apresentar. E acho que as coisas devem acabar quando não adiantam nada. De resto sou obrigado a concluir que o meu trabalho como cantor é menor… A crítica em geral reduz-me ao autor das Cantigas de Maio, o que quer dizer que antes e depois não fiz nada que preste. É uma bela crítica de música, a nossa! Tem-me proporcionado notáveis baboseiras sobre o trabalho de colegas, trabalho esse que em qualquer país decente seria suficiente para afirmar o mérito dum cantor, pelo menos. Não voltaria a cantar, é claro nesse ponto e já explicou porquê. Mas está arrependido de ter participado em toda essa actividade de agitação?
De forma alguma, e que isso fique também claro. Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. De resto nunca confundi as coisas, sempre disse o que hoje continuo a dizer: uma viola é uma viola, uma canção é uma canção, e não se pode confundir isso com armas e granadas. Nenhum instrumento musical faz tiro curvo.
Que pode pedir a uma canção então?
Que faça bem aquilo que tem a fazer, que é do domínio da fruição musical, com o que isso implica de voz, arranjos, ritmos, intenção, energia. No meu caso o que fiz foi procurar conciliar isso com as raízes da nossa cultura musical reflectindo uma certa ordem de preocupações sociais, de solidariedade e afectividade.
Musicalmente fez o que queria fazer?
Não. Gostaria de ter trabalhado muito mais na investigação dos instrumentos, das lendas, da música regional. E fiz demasiadas sessões sem concretizar o que queria, como se depreende do que estou a contar.
Na última fase da sua carreira manifestou desejo de suscitar o interesse dos jovens para o seu trabalho. Em que consistiria essa fase?
Gostaria de ajudar a mostrar à juventude que há alternativas, no estrito campo da fruição musical, a certas correntes puramente comerciais, como a maior parte do rock que nos metralha os ouvidos de manhã à noite. A música irlandesa nunca passou por aqui, tal como a occitana, a afro-cubana, e mesmo muito da música africana.
Tem pena de não ter realizado esse trabalho?
Não. Afinal de contas tudo o que fiz como cantor foi porque não pude continuar a ser professor. Em resumo foi cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor. Estou preparado portanto para renunciar de boa vontade ao que não fiz.
Esse tom de renúncia não se aplica contudo à política.
Não, embora hoje confira um papel mais modesto à luta política. Pode modificar estruturas, mas não remove uma sociedade, não transforma um homem noutro homem. Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde existe opressão, seja a que nível for. De resto tenho pouca autoridade para falar porque a minha contribuição foi bem pobre. Nunca estive na luta armada, nem sequer fui torturado.
Mas esteve preso várias vezes.
Sempre pequenas detenções. A maior foi de 21 dias. Estive incomunicável mas nunca me torturaram fisicamente. "
[Excertos da entrevista concedida por José Afonso ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985 e publicada no Fanzine "Coice da Mula", nº7 de 2005 e divulgada pelo blogue Livratemundo (http://livratemundo.blogspot.com)]

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A tortura do pensamento não acaba no deixar de pensar. A verdade é que a
tortura do pensamento
nunca acaba. É com fadiga que pensamos,
é no cansar do pensamento
que deixamos de pensar.
.
O deixar de pensar tem todo o encanto de um não-lugar. Mas não é um não-lugar. É um lugar onde as pessoas vão, e muitas vezes nem precisam de ir, ficam, e onde o torniquete do pensamento parece libertar.
.
O avanço do totalitarismo na estepe humana, sabe-o.
.
Não há nenhum charme invísivel na tortura do não-pensamento.
.
Tudo isto poderia ser dito de outro modo. E seria, provavelmente, mais compreensível. Mas nem sempre há uma hermenêutica disposta a saltar da cama e a ir ter com o intangível. O que eu tento dizer não morre nas minhas palavras.

Amabilidade

.
O sorriso debaixo do tapete da entrada.
Chegar a casa.
Telefonar à minha mãe.
Abrir a porta com confiança.
Olhar a pilha de livros e perceber que tudo está na mesma.
Respirar de alívio.
Perguntar-lhe pelos meus irmãos.
Olhar-me no espelho e não me assustar se a minha morte aparecer à minha frente.
Estarei vivo quando ela olhar para mim.
Antes de desligar, dizer-lhe que a amo.
Carregar no botão da chaleira eléctrica.
Esperar.
Olhar a janela e sentir-me aquecido pelo ar frio.
Respirar profundamente.
Ouvir música. Não uma música ou até a música.
Ouvir apenas música.
Pegar numa folha de papel vazio.
Sentir a doçura, a leveza, o grito da folha de papel vazio.
Recomeçar tudo de novo.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Revisão (em alta) da teoria das catástrofes

Apercebo-me, pela leitura de alguns comentários, ou até de msms, de algo absolutamente fantástico, inusitadamente feliz : no ser à deriva que sou,e ou melhor, na minha condição de ser à deriva, posso por vezes, e sem que nada tenha feito para isso, constituir-me como sextante, bússola, carta de marear para uma outra pessoa, não sei qual. É o efeito-borboleta. Não posso deixar de sentir uma ternura inconsolável por todos os poemas de Rimbaud, Baudelaire, que de repente reuniram todos os fragmentos da minha experiência adolescente e a depuraram de uma dor, de um sofrimento que eu nunca teria sabido suportar. Quantos possíveis suícidas ainda hoje vivem na exiguidade dos seus escritóriozinhos de madeira embutida em luz parca e difusa porque no dia aprazado para os seus suícidios começaram, inadvertida e incontrolavelmente, e sem saber que assim era a própria morte que protelavam, a citarem poemas de Mário de Sá Carneiro ?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Cortar a raíz ao pensamento

".../... E eu acho que foi a observação de ver aquilo que penso que os outros entendem se não quando lhes comunico , que levou Descartes a cair naquela coisa ingénua de dizer "eu penso". Ele sabe lá quem pensa? Ele apenas poderia dizer que "se pensa", que existe pensamento. Se é ele que pensa ou se a cabeça dele é apenas uma máquima de transmitir o pensamento que anda no mundo, como as nossas máquinas transmitem os milhares de imagens que andam correndo pelos ares, que foi o ser secreto ou uma caixa de osso que o levou a dizer "eu penso" , quando ele não podia dizer senão, pensa-se, alguém pensa, alguma coisa pensa, o pensamento existe."
Agostinho da Silva, Vida Conversável, Assírio e Alvim, 2ª edição, 1998, Lisboa

Crise hermenêutica

A adesão ao novo blogger provocou uma crise de interpretação. Todos os posts da Intérprete mudaram de assinatura. Pouco a pouco tudo, mesmo nos arquivos, voltará ao normal.

Regresso

Volto a interpretar.