domingo, março 11, 2007

A estrela mais brilhante

Estavamos a jantar. Pela janela olha o céu, diz:
- Aquela estrela é o meu avô.
Não o conheceu, apenas em fotos. Mas desde há uns tempos percebe que o meu pai foi muito importante para mim e perfilhou-o.
- Eu sei que é ele porque é a estrela com um brilho mais forte. No outro dia fui para Cernaje e ele veio sempre atrás de mim.

Pintura abstracta

Faz um desenho. Vou fazer o pai, diz. Depois faz outro desenho.
- O que é isto?
- Isso não é nada.
-Não é nada?
- É pintura abstracta. E a pintura abstracta não é nada.
- Não é nada?
- Não. O pai não sabia? A minha professora sabe.
Peguei no desenho. Disse-lhe que era engraçado. Que me fazia imaginar uma bicicleta. Apontando outra zona, ele viu um autocarro. E eu um homem a correr. E ele um porco. Aquelas linhas multiplicavam-se em significados. Voltei-lhe a perguntar:
- Ainda achas que a pintura abstracta não é nada?
Fez uma careta, corrigindo a sua ideia. E depois comparámos com o meu retrato, concreto e definido. Por acaso nessa noite cruzamo-nos com Kwame, jovem pintor são-tomense que habita aqui na vila. E falámos sobre a pintura abstracta. Subimos a sua casa e o Kwame a certa altura pede-lhe para escolher um quadro, quer oferecer-lho. Escolhe uma pintura abstracta. E por mais que o pintor tenha dito que tinha pintado mulheres, quando saímos de casa, vamos atribuindo significados diferentes. As mulheres transformam-se em árvores, em torres, até em dedos da mão. Estamos deslumbrados com o jogo de possíveis do abstracto.

A missão

Ele está cada vez mais crescido. É como o pé de feijão do João. Cresce da noite para o dia. Quando me critica, sorrindo. Quando desmonta uma birra porque percebe que não vai dar. Ou quando se entretem com os seus desenhos, os seus livros, os seus pensamentos. Quando me faz perguntas difíceis à espera de respostas fáceis. Quando me faz companhia. Ou quando quer ir à casa de banho sozinho. De quinze em quinze dias há sempre uma coisa nova a lembrar-me de que ele é uma nave que viaja à velocidade da luz pelo espaço. É bom, mas antes de ser bom nem sempre é fácil. Ou então sou eu que sou assim. Estava eu nisto, a pensar em como já não sou preciso para nada quando ouço uma voz vinda da casa de banho:
-Pai, pode vir cá?
- O que é que foi?
- Fiz cocó.
- Boa! - E fecho a porta voltando à minha vida.
- Pai, venha cá.
Abro a porta.
- Pode limpar-me o rabinho, pai?
Desfiz-me em ternura. Ainda tenho uma missão.

sexta-feira, março 09, 2007

Memórias de um Carteiro

Só ao meu terceiro dia como carteiro conheci o meu chefe. Estávamos todos em fila, encostados à parede. Na secretária tinha uma folha com os nossos nomes e as nossas fotos. Um lápis vermelho e um lápis de carvão em cima da folha. Falou do respeito, da autoridade, do respeito e da autoridade. Quando íamos a sair lembrou-se de um tema que lhe era caro e que ainda não tinha sido abordado, o respeito e a autoridade:
- Quem está mal, muda-se!
Não disse nada. Não me apeteceu arranjar chatices logo na primeira semana. Mas o Luís, antecipou-se:
- Sr. Cebola, quem está mal muda. O chefe olhou-o severamente, pegou no lápis vermelho e escreveu qualquer coisa com traço grosso à frente da sua foto. Não importava. Para nós começou ali a construir-se um herói, um herói para os nossos dias cinzentos.

Despedida breve

"(...) É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que nos causa perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos a morte não é, e quando a morte é somos nós que já não existimos! (...)" *
Ontem quando cheguei à capela mortuária e vi o corpo do meu primo Nuno estendido no caixão, não sei se era pela serenidade e tranquilidade das suas mãos cruzadas uma sobre a outra, não sei se foi pelo bonomia que se soltava da sua face, apercebi-me, com uma clareza inabitual, e quando eu digo que me apercebi com uma clareza inabitual quero dizer que o aceitei com uma clarividência que não era apenas cognitiva, era também afectiva, ou seja, que não havia aí algum temor, nenhuma interpretação, que quando somos a morte não é, e que quando a morte é somos nós que já não existimos.
Subsiste ainda por mais alguns momentos o problema do corpo com a cara da pessoa viva. Mas até isso neste caso, pensava eu enquanto nos dirigíamos ao crematório do Cemitério dos Olivais, dura pouco mais. Nada disso me pareceu especialmente triste. Ou a única coisa verdadeiramente triste, sem subtítulos nem legendagem, que por ali encontrei, foi o sofrimento e a dor dos vivos.
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* De Epicuro, Carta Sobre a Felicidade, trad. João Forte, Lisboa, Relógio d'Água, 1994 retirado de O Bem Viver em Skapsis.

Pensar, andar à chuva, vento crescente, chove mais

A notícia da morte de Jean Baudrillard chegou aqui à aldeia ontem. Voltei a lê-la aqui. Simulacros e Simulação é uma obra da qual eu gosto de citar, re-citar, invocar pequenos fragmentos de razão. E "Le Complôt de L'Art" que descobri uma vez numa livraria do Quartier Latin, é uma das minhas provocações de culto. Há uma meia dúzia de anos tive o prazer de o ouvir, numa conferência organizada pelo Bragança de Miranda, creio que na ESBAL . Veio falar sobre o apocalipse, sobre a nossa atracção para com as mitologias do fim. Ouvir Braudillard é uma experiência que tende a inexistir. O contacto com um tipo de pensamento que perde o seu lugar porque invoca uma experiência crítica indomável que tem muita da sua produtividade, e também do seu glamour, na insubmissão, na rebeldia. Para mal ou para bem, os fundamentos da razão mudaram. E isso é pouco perceptível através do pensamento, porque ele é um dispositivo que está terrivelmente programado para apagar as pistas da sua dissolução. Hoje já ninguém levaria a sério Agostinho da Silva quando ele vituperava Descartes pela inverdade da sua famosa asserção, "penso logo existo", contra argumentando que o apóstolo do racionalismo cartesiano não poderia nunca saber se era ele que pensava, se não seria antes, a falar por ele, a voz da máquina reprodutora de ideias em que o labor do mundo se constitui. Hoje achamos e pensamos é a mesma coisa. Isto é bom e é mau, como dizia o professor. É bom para o achismo, é terrível para o pensamento. No outro dia quase fui desancado - eticamente, de despóta para cima - por chamar a esta nova forma de produção de ideias, pensamento acrítico. Confesso, a primeira vez que li Lipovetzky, depois de ter lido o pós modernismo explicado às crianças, do Lyotard, pareceu-me tão fascinante como aterrador. E não posso deixar de sorrir. Eu tive como aterrorrizador Lipovetzki, e instalei-me, como todos nós, candidamente, no terror que ele anunciava. E, como escrevi atrás, isso é pouco perceptível através do pensamento, porque ele é um dispositivo que está terrivelmente programado para apagar as pistas da sua dissolução. Essa mudança de chip - e não há dúvida Ana, a expressão é contagiante - é muito mais notada na função crítica que tradicionalmente esperamos do humor. Na mercadocracia, o humor tornou-se num produto. O humor dos Gatos, do Herman, do Tochas, do Levanta-te e Ri, dos Pastéis de Nata. Os processos de legitimação deste humor confundem-se com os processos de confecção (é de facto um receituário). Onde antes tinhamos risos enlatados que a montagem distribuia por piadas anódimas, sinalizando o lugar onde o espectador se devia rir, agora temos uma plateia de pessoas iguais a nós que se riem nos momentos consignados para tal. Tudo isso não esconde uma realidade dura : os mercadocratas não sabem rir-se de si mesmos. E isso é parte de um mal maior, a improbabilidade do pensamento.

quinta-feira, março 08, 2007

Skapsis não é mais um blogue. Um blogue onde se cita Epicuro, não é mais um blogue.

Telefonema breve

- Olá, sou eu.
Era a minha irmã.
- É para te dizer do Nuno.
- O primo?
- Sim. É o que estás a pensar.
- Eu não estou a pensar em nada.
- Estava a dormir. A mamã já está em casa da tia, estão lá todos. Depois quando se souber mais alguma coisa eu ligo-te.
- Beijo.
-Beijo.

Memórias de um Carteiro

Entrei para os Correios no dia cinco de abril de mil novecentos e oitenta e dois. Faz por isso este ano vinte e cinco anos que cá trabalho. As únicas interrupções foram nos três primeiros anos. Entrei para suprir as faltas provocadas pelas férias dos carteiros. Erámos os carteiros assalariados. O meu primeiro posto de trabalho foi no EPA, Entreposto Postal Aéreo, no Aeroporto da Portela. Lembro-me de muita coisa, principalmente do cinzento. Eram cinzentas as nossas batas. E as estantes separadoras do correio. As paredes também. Não eram cinzentas as sacas azuis do correio internacional mas como eram colocadas num lado da sala onde não havia luz logo que ali chegavam adquiriam o tom pardacento de tudo o mais. Os selos eram coloridos. Os selos dos postais, dos envelopes, as próprias tiras identificadoras do correio aéreo, eram a cor necessária para que o cinza dominasse o ambiente. Aprendi ali que uma vida pode carecer de tudo menos de uma janela. A janela dava para a pista, para o movimento dos aviões. E desciamos as escadas, íamos dar à própria pista. Aí podiamos conduzir uns carros eléctricos, que levavam os atrelados onde vinham os sacos de correios. Era o meu prazer supremo. Sentar-me num atrelado a tomar um galão e um pão com manteiga e imaginar os lugares para onde iria se me enfiasse dentro de uma saca de correio. É preciso tão pouco para saciar o espirito.

quarta-feira, março 07, 2007

Bolsa de valores

Cheiro-os. És tu neles. Os meus dedos hoje são de ouro.

Rua do Terreirinho, respirar a sombra viva

Agora vou falar como se estivesses viva. É um efeito literário. Não te preocupes. Nem eu estou louco nem tu terás de voltar de novo a esta choldra a que chamamos mundo. É um mero efeito literário dedicado a ti, que nos enchias de poesia os dias com a tua tertúlia de correio electrónico. Um aparte: no outro dia, ao descer a Rua Garret cruzei-me com a tua irmã Elena. E quando lhe disse que nos primeiros dias me consolava porque tudo tinha sido em nome de um glaciar magnífico que te empanturrou os olhos, ela, com razão, disse que não, que isso era fraco consolo, que o que te fazia especial era teres o mesmo deslumbre por um glaciar ou por uma golfada de ar. E não sei se foi por essa conversa que se me deu comigo quando comecei a descer a Rua de S. Tomé, não sei se foi pela tua persistência na poesia como explicação maior sobre tudo isto que nos sucede, pela primeira vez na vida comprendi o poeta quando ele escreveu, respirar a sombra viva. No rame-rame da minha vidinha por vezes assaltava-me essa ideia de uma forma quase fantasmagórica, como se as sombras irrompessem do chão e as respirássemos. Ou como uma metáfora que nos ligasse aos universos da sombra, da escuridão. E eu que nos últimos meses tenho por vezes feito a sombra que sou eu, descobri a ciência exacta que também pode existir num poema: a sombra viva somos nós. E eu não sei como explicar o quanto isso me reconciliou com o universo de ternura do qual não consigo dissociar a minha vida.

"Peço desculpa"

No Caracol da Graça, sala de chuto improvisada, mais uma vez. Agora é um homem novo, à volta dos trinta anos. Logo que pressente gente encolhe-se e sem olhar diz para o ar:"-Peço desculpa!". Eu sei que a ONU, através do seu Instituto com a área das drogas, defende que as Salas de Chuto não devem ser permitidas porque as duas únicas saídas legalmente autorizadas nesta área são as do tratamento médico e as da investigação. Mas também sei que a posição defendida pela ONU nada tem de consensual a nível dos especialistas na área da toxicodependência, a começar pelo nosso IDT. É uma questão que mais uma vez tem a ver com o pragmatismo. Para acabar com a humilhação, dizia um cartaz de uma campanha recente. Eu não sei se é humilhante para este homem ter de se injectar a céu aberto. Para mim é humilhante olhá-lo e saber que o sistema que aparentemente me inclui, o exclui a ele. Exclui-o de um mais eficaz controlo da propagação de doenças como a sida ou a hepatite ou de uma prevenção de overdoses. Exclui-o a ele de um estudo sobre as condições em que é feito o consumo de drogas duras. Exclui-nos a nós desse conhecimento. A próxima vez que descer o caracold a Graça serei eu a dizer, peço desculpa.

terça-feira, março 06, 2007

Metamorfose no DN

O novo director do DN diz que vai manter o DN com a "sua orientação histórica de independência e rigor" e o seu patrão complementa que o "DN vai continuar fiel às suas raízes". Sobre o mesmo assunto escreveu, no Público, Eduardo Cintra Torres: "A mudança no centenário diário lisboeta é um acontecimento que marca positivamente a história do jornalismo português recente. " O cruzamento dos discursos de Oliveira, Marcelino e Cintra Torres parece uma montagem dos Gatos. Diz Eduardo Cintra Torres que "as mudanças que se projectam com a chegada de João Marcelino resultam de que, para não fechar o jornal, o novo proprietário teve de cortar a contraciclo com uma tradição, poucas vezes interrompida, de ligação do DN ao poder e ao governo do momento. " Pelo que nem Oliveira nem Marcelino vão ter a vida fácil. Com os profetas da desgraça conluiem-se os arautos da boa nova. Nem tudo é mau. Incólume fica o objectivo de "alcançar uma rápida liderança no segmento" e a necessidade de "ter bons resultados".

PESSOA CANDIDATO A MELHOR PORTUGUÊS DE SEMPRE

Diálogo entre Fernando Pessoa e Álvaro de Campos

(surpreendido por Teresa Rita Lopes)

Cenário qualquer serve: Brasileira, Martinho da Arcada, Irmãos Unidos…Álvaro de Campos entra, estabanado, e senta-se à mesa, na frente de Pessoa, quase lhe derrubando a chávena de café. Pessoa tem um sobressalto: “Oh homem, que lhe aconteceu? Viu alguma assombração?” Campos aquieta-se , encara-o e ri-se : “Estou a vê-lo a si – aqui, hoje, fim de Fevereiro de 2007…” E riem-se, ambos, cúmplices nesta partida que estão a pregar ao Tempo – que oficialmente os anulou há mais de setenta anos.

Mas Campos é sempre o mesmo espalha-brasas. Volta à carga: “Então já sabe?”

Pessoa faz-se desentendido: “O quê?”

- Que está entre os dez mais votados portugueses de sempre, no concurso da televisão!

Mas a sua apresentadora fez tudo para dissuadir as pessoas de votar em si. Vai ter o desgosto de ser batido aos pontos pelo Salazar! Sabe como o introduzem? Dão ao público a alternativa de escolher entre “inspirado” ou “alienado”…E a sua apresentadora, que deveria ser a sua mandatária, parecia era estar ali a defender que você foi o português mais chanfrado e mais bêbado de sempre!…Até contou aquela conhecida anedota em que você se vangloria de beber não como uma esponja mas como um armazém de esponjas, com um anexo ao fundo…Reconheça que não é a sua melhor piada. E citou mesmo o seu último poema a pedir “mais vinho” : “Dá-me mais vinho porque a vida não é nada.”

- “É nada!” “Porque a vida é nada”! Já sabe que eu não suporto que me estropiem os versos!

Continuar a ler "Pessoa Candidato a Melhor Português de Sempre", de Teresa Rita Lopes
[O Respirar O Mesmo Ar agradece a Teresa Rita Lopes, escritora, dramaturga e especialista em assuntos pessoanos, o envio deste texto]

segunda-feira, março 05, 2007

O efeito Paulo Portas

Acabou a hora do recreio. Vem aí o maior demagogo que a política engendrou no pós vinte e cinco de abril. A dissolução política que caracteriza a actuação da liderança do PSD é um perigo acrescido. A contestação popular ao governo, quer na área da saúde, quer na área da educação, poderá parecer outro perigo. E se assim for, esse poderá parecer será um perigo de monta. É que o mimetismo tradicional da política poderá fazer pensar, erroneamente, que a demagogia compensa. No reino da política partidária, aquilo que na vida quotidiana parece ser do mais elementar bom senso - ou seja opôr esclarecimento, informação, consensualidade, à demagogia - surge as mais das vezes como um delírio irrealista. É esse o efeito mais temível da participação de Paulo Portas na política: criar à sua volta um lastro de demagogia tal que o legitime como Grande Demagogo.

O meu luto

Apercebo-me de que ainda estou em luto por uma pequena subtileza dos meus dias tristes: a solidão ainda me aparece como uma paisagem intransponível. É um paradoxo. Foi a partir da falta que me fazem os que se foram que redescobri a essencialidade dos que me rodeiam. O luto é assim o que me exalta no amor por algumas pessoas que me rodeiam e que, simultaneamente, atrasa a festa para a qual esse afecto me arrasta.
Há algo de comovente no espectáculo de uma pessoa a reconstruir-se por dentro. Ou se calhar não há e sou eu que sou piegas diante de uma paisagem emocional que é minuciosamente lenta. A mim comovem-me estes pequenos actos de vontade em que um diz a si mesmo, anda, anda procurar a dança. A sonoridade de um mar ausente, senão na memória. Ou os marulhos, como encontrei aqui. Sou absolutamente incapaz de dizer algo inteligente sobre a vida. Fui educado, eduquei-me, a reconhecer um ser humano por atributos que dificilmente encontro no meu dia a dia. Nem em mim. Mais grave do que isso: fui educado e eduquei-me a reconhecer o mundo de uma forma cognitiva. Ora não há coisa mais radical e utópica do que o pensamento. O pensamento é de tal forma radical e utópico que, paradoxalmente, o desabrido exercício da crítica pode destruir o projecto ético que cada um de nós tende a ser. Sabêmo-lo bem demais. Chamamos ao contornar da razão pura, pragmatismo. É um chavão essencial. Qualquer um de nós que em vez do jornal aparentemente grátis saísse de casa folheando a Declaração dos Direitos Humanos enlouquecia antes de conseguir chegar a algum lado. É por isso que a auto-crítica é entendida como uma terapia do sujeito possuído pelo exercício crítico. O cada um entreter-se com os desvios da sua vida costuma ser eficaz treino da complacência, qualidade essencial para a vida quotidiana. Estava eu a dizer que não sei o que a inteligência possa ainda dizer à vida que levamos. Excepto isto: faz ainda todo o sentido tentarmos reconstituir-nos a partir da amabilidade.

O teatro

não é o palco. nem a plateia. os actores. o público. é o momento onde actores e os espectadores estão dispondo-se a um protocolo de uma cumplicidade devastadora: eu disponho-me a acreditar que tu és aquele que me tentas fazer crer que és. E tu dispôes-te a tentar fazer-me acreditar que tudo, tu, este lugar, este tempo, são outros.

Pueril

Tenho a sensação de que se hoje, ao deitar, pensar na bondade da humanidade, amanhã, ao despertar, há-de haver sol que chegue .

domingo, março 04, 2007

Prova dos Nove

"O DN como jornal de referência não é viável", terá dito Joaquim Oliveira. Não é de estranhar. No campo dos media, Oliveira não é viável como empresário de referência .

sábado, março 03, 2007

Manuel Galrinho Bento, pela mão da Carla. Aqui e ali.

Organizando trilhos

Havia uma coisa que eu não percebia: porque é que sendo tão prazenteiras as idas a Elsinore, já lá ía tão poucas vezes. A razão não abona muito a meu favor. Cada vez viajo menos pela blogosfera e socorrendo-me dos links ao lado, tenho Elsinore no fundo da lista. Reorganizei assim os meus trilhos. Fiz por isso uma lista mais curta. E uma outra com amigos que vim a encontrar por aqui. A bem do meu prazer de blogar.

Janela

sexta-feira, março 02, 2007

Optimismo

Apeteces-me.

Agenda política

não tenho. falhei ontem o fragateiro no ccb, soberbo no seus 7% de share político. Correia dos Santos nas urgências. o brilharete de Sócrates no parlamento. a Opa à PT. a universidade independente. a despedida de Paulo de Macedo. os jogos de guerra verbais no Golfo. as tempestades. o degelo. as metamorfoses na banca dos jornais. não o digo nem com orgulho nem com basófia: esta semana acordei sem agenda política.

quinta-feira, março 01, 2007

Prateleira dos blogues: Ponte de 3 Entradas

Ainda não tinha colocado A Ponte das 3 entradas na prateleira de blogues por perguiça. Tenho-o aqui em baixo nas referências e ía lá por aí. Há muito que o tenho como um blogue de leitura obrigatória. Moram lá três bloggers com os quais me cruzei há muito, no DN Jovem. Fui dar a ele pelo J. que sigo, há muitos anos, em várias atmosferas, respiração de muitos poros. E foi com saudade que reencontrei LP, um dos poetas que mais apreciava no DN Jovem de há vinte e tantos anos e é com prazer que o leio sempre. Assim como o mais iconográfico, PB, cujo traço muito admiro .

O outro lado

Não demorei assim tanto a dizer adeus. Despedi-me das pessoas essenciais. Olhei as paredes do velho teatro. As minhas horas nelas. E à saída da porta de caixa entrei, tal e qual a Alice, numa porta enorme, que rangia.

Carteiro de giro

Eu creio que foi o Luís que mexeu os cordelinhos. A carta vinha assinada pelo Luís Nazaré mas tenho a certeza absoluta que foi ele que se mexeu e remexeu até conseguir a minha reintegração como efectivo no corpo nacional de carteiros. Ainda não sei qual é a minha zona mas claro que aceitei. Apetece-me voltar às origens. Ser carteiro de giro. Andar pelas ruas faça sol ou faça chuva. Dizer bom dia e boa tarde e ser reconhecido. O meu indíce de popularidade vai subir muito, muito. Tem umas partes mais aborrecidas, mas é como dizia a Maria Porto, ser carteiro deu-me também as horas mais felizes da minha vida. Pús uma única condição e confesso que a medo, pensei que iria deitar tudo por água abaixo. Falei-lhe no Luís, o quanto admirava a descrição que ele faz da repartição dos correios, queria também escrever livremente sobre o meu trabalho, sobre os meus chefes, soltar o fígado, libertar a vesícula, doesse a quem doesse. Nunca tive geito para cartas anónimas, para a maldicência sem assinatura mas o poder de " qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência" apaixona-me desde miúdo, quando fingia ser o Clark Kent e assim me libertava dos horrores da guerra fria, da proibição de ver O Santo e O Fugitivo ou até, da repartição de tarefas domésticas. Fiquei espantado com a resposta positiva, sem pestanejar. Os CTT mudaram muito desde a última carta que entreguei. Fiquei tão impressionado que até me esqueci do meu cavalo de batalha de há vinte anos: não usar farda. Que se lixe. A farda nunca matou ninguém.

Lista de prioridades

Ando há dias com este na cabeça: pedir uma licença sem vencimento e oferecer-me como voluntário e ir por esse mundo fora. Mas depois estaco. Não cultivei, na minha vida, nenum ofício que pudesse ser útil aos outros. Não creio que fazedor de blogues esteja na lista de prioridades desse mundo urgente onde quereria estar agora.

A confissão

Quando eu era miudo havia uma altura em que eu deixava de ser aquela espécie de calimero feliz que cultivei por toda a minha vida: era quando o meu padrinho me convidava para almoçar. No final da refeição tinha uma tablete de chocolate debaixo da mesa. Os meus irmãos ficavam podres de inveja amarela. Eu ia ter conversas de adultos e voltava de lá ainda com uma tablete avantajada com avelâs inteiras. Tomei-lhe o gosto e pela vida fora aprendi a gostar de falar com os mais velhos. Não me esquecem as conversas no Grémio de Elvas com o sr. Miguens, companheiro de damas do meu avô. Ou as tardes à conversa com o meu tio Joca. Por razões que não contam estive vinte e tal anos afastado do contacto com o meu padrinho, até que há cerca de uns treze anos voltámos a encontrarmo-nos. Hoje, quando preciso de norte, telefono-lhe. São sempre conversas longas, e em que o passado traz algo que ainda não sabia. Ele foi colega de meu pai no externato. E desvendou-me enfim a história do encontro dos meus pais. O meu pai uma vez foi fazer uns sermões para o colégio em Vila Viçosa onde a minha mãe estudava para professora. O meu pai era um grande orador. Consta que o Cardeal Patriarca o mandava por esses altares adentro distribuindo laudes e sermões. Os de Vila Viçosa deviam ter sido muito inspirados. Porque aquela alentejana, que viria a ser minha mãe, logo ali se tomou de vontades de o conhecer. E como? Era expedita a moça minha mãe. Quis-se então confessar, para com ele chegar à fala . Presume-se no entanto que se tenha confessado primeiro a minha mãe e depois o padre, meu pai. O que disseram está guardado na memória. Da confissão não reza qualquer registo. Da sua consequência, andamos cá quatro.