Encho-me de todas as solidões que um indíviduo chegado à idade adulta consegue suportar. A solidão-rio-de-prata. Solidão irmão-do-meio. Solidão-no-trabalho. Solidão-dor-de-corno. Solidão-lugar. Solidão-da-incompreensão. Solidão-da-palavra-não. Solidão-do-mundo. Uma noite assim, será sempre inesperada. Nenhuma destas solidões é mesmo a sério. É fado. É canção. Poderia ser, com alguma inspiração, poema. Há-de haver uma resposta quando o sol raiar de novo. E eu estarei lá. Nem que haja arco-íris. Fecho os olhos para a música, eu tenho um sonho deste pequenino: viajar um dia, inteiro, integral, para a terra da amabilidade. O resto é só e sempre ódio, de que me desaparto.
domingo, abril 08, 2007
Lua de prata
Encho-me de todas as solidões que um indíviduo chegado à idade adulta consegue suportar. A solidão-rio-de-prata. Solidão irmão-do-meio. Solidão-no-trabalho. Solidão-dor-de-corno. Solidão-lugar. Solidão-da-incompreensão. Solidão-da-palavra-não. Solidão-do-mundo. Uma noite assim, será sempre inesperada. Nenhuma destas solidões é mesmo a sério. É fado. É canção. Poderia ser, com alguma inspiração, poema. Há-de haver uma resposta quando o sol raiar de novo. E eu estarei lá. Nem que haja arco-íris. Fecho os olhos para a música, eu tenho um sonho deste pequenino: viajar um dia, inteiro, integral, para a terra da amabilidade. O resto é só e sempre ódio, de que me desaparto.
sábado, abril 07, 2007
Os sinos da minha aldeia
Tocavam as nove horas quando eu disse que não. Quando acabei de o dizer, repenicaram os sinos. É por ser Páscoa. É por ser Páscoa e as minhas memórias estarem todas ligadas ao tocar dos sinos, pensei. Os carrilhões de Mafra. Um dos maiores orgulhos do meu pai era o de o seu jornalinho ter servido para a campanha que trouxe os carrilhões de volta à vila de Mafra. Nos claustros do Convento, era talvez Verão, o meu pai e a minha mãe usavam um casaco de malha fina e íamos com o ar descontraído, eu e os meus irmãos vestiamos de igual, de cores diferentes, calções curtos, camisete de algodão. Éramos das poucas famílias que se deslocavam ao interior do Convento para escutarem o concerto de carrilhões. E eu não sabia porquê. Afinal era o animador orgulhoso do seu combate que vinha, com os seus. Era um belga que os tocava. E tinha trazido a sua família. Lembro-me da sua mulher, uma senhora belíssima, alta, serena, e os seus dois filhos, um casal. Claro que, enquanto o seu pai tocava, platonicamente, me apaixonei pela filha. Aqueles fins de tarde ainda hoje me parecem momentos do paraíso. Havia talvez uma brisa. O meu pai tinha acabado o trabalho e a família juntava-se toda. O meu pai era um homem muito bonito. Esse foi aliás um dos argumentos que o homem da marcenaria onde ele aprendia utilizou para contra argumentar a vocação para o sacerdócio que a minha avó lhe descobrira. Um homem tão bonito nunca será de Deus, senhor Padre, disse ele. O som dos carrilhões ecoava pelos claustros. Eu comecei a ser feliz assim, na platonia. Na entrega a um amor solitário, fechado sobre si mesmo, oculto dos seus sentimentos. Sou aquele que escreve textos, alguns mais felizes outros menos, sobre o amor. E que o desconhece profundamente no ser em dádiva que ele projecta. Um ser rasgado pela sua incompletude. Sou um celibatário profundo, se é que essa doença existe. Por vezes gostava que sim, que existisse e que existisse enquanto tal, enquanto doença, que eu pudesse marcar uma consulta à minha médica de família e lhe dissesse, olhe, é o meu celibatarismo profundo outra vez, tal como quando se tem cólica renal, diabetes ou hipertensão. É claro que com o tempo vamos aprendendo a conviver com o nosso mal d' espirit. Durante muitos anos fui feliz namorando com estudantes erásmus, turistas acidentais que apanhava no Castelo de S. Jorge, e depois, quando a idade foi avançando, comecei a arranjar namoradas com ofícios estranhíssimos, que me permitiam recolher-me a minha casa como se ela fosse um mosteiro. Namorei mulheres-polícia, vendedouras do mercado das flores, assistentes de bordo nas companhias de navegação aérea e marítima, jornalistas, até uma espia ligada aos serviços alfandegários. A última foi a mais feliz, uma faroleira das Berlengas. Foi o amor mais perfeito que tive na minha vida. Eu ia até ao Baleal, à minha praia de sempre, e mandava-lhe um sms. Ela respondia-me num código de luzes que tinhamos apurado com o tempo de namoro. Uma vez um navio russo interceptou a nossa comunicação e foi parar ao molhe de Viana do Castelo, por causa disso. Em três anos de namoro devo-a ter visto uma dúzia de vezes. Íamos casarmo-nos por correspondência. Já nem sei porque é que acabou por não dar certo. Sou assim, esqueço-me das coisas. Provavelmente baralhei tudo e mandei as longas cartas de amor que me consumiam as noites para o meu afecto anterior, a espia dos serviços alfandegários. Com o fim das fronteiras eles desactivaram tudo. E desde que começaram a vender património, tudo mudou. Talvez os quilómetros de amor romântico e epistolar repousem agora numa mansarda atulhada de móveis, dossiers e papéis velhos. Eu estranhei, as outras não, mas a faroleira era-me muito dedicada. Achei que se tinha esquecido de mim, que tinha encontrado algum marinheiro russo, sei lá. A vida é um saco de surpresas. Tudo pode acontecer. Foi exactamente assim que terminei o telefonema, um pouco antes das badaladas que me levaram tão longe na memória. Tudo pode acontecer.
sexta-feira, abril 06, 2007
Um selo para José Afonso
Recebi um email originalmente vindo do projecto Erva de Cheiro em que se dá conta que os CTT estão a promover uma iniciativa para a selecção de um tema para os selos de 2008 e que existe uma proposta para que um dos selos seja uma homenagem a José Afonso. Quem quiser votar nesta opção, tentando que ela passe à fase seguinte, poderá fazê-lo até dia 8, aqui. É fácil.
E a Boytchévia aqui tão perto
A ideia é exactamente esta: o humor é uma arma. É claro que, como canta o Palma, não há nenhuma arma que não dê ricochete. Diz-se também que isto é uma espécie de repetição da fórmula que tanto sucesso deu no caso da crítica às posições de Marcelo Rebelo de Sousa no referendo sobre a IVG*. Eu gostaria de não dizer o que estou a dizer, até porque este cartaz do PNR deixou-me sem saber o que havia de fazer e pelo menos alguma coisa os Gatos fizeram. Mas o que me parece que foi brilhante, genial no caso do Marcelo, e até autêntico serviço público, porque parecia que não havia a possibilidade de em tempo real se contrapôr com eficácia o desmesurado poder mediático das posições de Marcelo, neste caso pode ter sido uma grande precipitação, podendo vir a acabar de forma inglória através do pagamento de uma determinada coima relativa à remoção do cartaz. Para além disso há todas as razões que nos saltam à evidência: enquanto no caso do Marcelo se neutralizou uma campanha de alguém ( e não de uma partido) que detinha um incompreensível ascendente mediático sobre a televisão pública, e esta neutralização apareceu primeiro conotada a um dos elementos dos Gatos que também era activista na campanha, no caso deste pequeno partido o efeito talvez seja o contrário. Por outro lado, o cartaz do PNR na sua violência verbal, se alguma coisa nos deveria provocar, deveria ser uma resposta política. Nos seus diversos domínios. Política partidária, participação na vida cívica e social. Poderemos todos nesse campo fazer muito por pouco que isso pareça quando um homem sem relevância política se coloca aos saltos e gritos no Marquês de Pombal. Mas uma coisa será cada um dos cómicos dos Gatos, por si ou em conjunto (e não se sabe bem como porque ideológicamente eles são bem um saco de gatos), tomarem uma determindada posição política. Devemos saudá-los por isso e nesse aspecto tenho pelo Ricardo Araújo Pereira, e pela sua coragem e oportunidade, uma admiração que nunca consegui ter por ele enquanto cómico. Outra coisa é a marca comercial de produção humorística, Gatos Fedorentos, e a sua última linha de produtos, a caricaturização das figuras públicas e políticas, adquirir peso político e neste caso, político partidário. Por muito voluntarismo que isso possa albergar, os Gatos não são uma espécie de corpo especial de bombeiros da politica portuguesa. São uma empresa, têm uma marca, têm linhas de produtos humorísticos e é assim que devem ser encarados. E também, por muito cruel que isto possa parecer, os Gatos não mimetizaram, invertendo-o, apenas o discurso político do irrelevante dirigente do PNR. Imitaram também esse enorme pôr-se em bicos de pés que o referido político tinha feito. E, independentemente do sucesso ou insucesso político, há também uma indiscutível tentativa afirmação de uma marca comercial que significa aumento de rendimentos para os seus patrocinadores e que parece fazer com que estejamos a aproximarmo-nos velozmente do delírio boytcheviano. Fica de tudo isto uma boa ideia para rirmos enquanto desejamos que cada vez mais o nacionalismo seja ideia em dissolução: a de que isto só com portugueses é uma seca . É por isso também que mesmo que a CML o remova, daqui já ninguém o tira.
quinta-feira, abril 05, 2007
Não me perguntem porquê
Sou do meu amor. Sou dele quando lhe digo que sim, sou dele quando lhe digo que não. Sou também dele quando me calo. Sou ainda dele quando espero que ela acabe a sua faxine diária e venha tirar-me a alma de misérias. Não me perguntem porquê. Nunca saberia responder.
Educação Sentimental
O momento mais triste foi quando descobriu que aquele ódiozinho era o último resquiscío do amor que lhe sentia.
Antes da festa
O meu amigo
O meu amigo é beleza pura. Olho para ele e dificilmente vejo olhos, nem mesmo aqueles olhos vivos, expressivos, indíos, nem nariz, nem boca, nem orelhas, nem rosto. Vejo tesouros sulcados na terra, no ar, nos mares. É como se a sua face fosse o mapa das histórias que me conta. Há quase sempre algo de épico nelas. Com ele compreendo o verdadeiro sentido da palavra justiça.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
A própria liberdade
Há mais de um mês que não ía ao B.Leza. Hoje uma mensagem amiga ao principio da noite levou-me lá. Eu pensava, na minha ingenuidade, que me tinha esquecido de ser dança. Eu pensava até que, mesmo que me recordasse, era ela própria, a dança, que se tinha esquecido de mim. Engano puro. Não existe amnésia. Talvez um pouco de má vontade. A desculpa esfarrapada, vou só dar-lhes um abraço. A eles sim. À dança, o corpo todo. Há uma inteligência na dança que supera a racionalidade com que toco em tudo o que me rodeia. E eu, no meu voluntarimo e boa vontade penso para mim que essa inteligência bailarina é a essência. A própria liberdade.
quarta-feira, abril 04, 2007
Um amigo para as questões mais difíceis
Já falei disso aqui, tenho estado a ler Uma Teoria de Tudo, de Ken Wilber. E sigo-o cada vez com mais interesse. Tenho alguma vergonha em dizê-lo, os meus mais pequenos e únicos ismos (relativismo, pós-modernismo, cepticismo, agnosticismo, pessimismo) vão ficar mal no retrato, mas este diálogo com o livro está-me a tornar mais optimista na minha relação com o mundo. Não sei explicá-lo com exactidão: da mesma forma que o final dos anos noventa, com o fim da guerra fria, a queda do muro, a desagregação da União Soviética, tinham significado uma abertura sobre a possibilidade de um retorno mundial à justiça e à política, os anos noventa foram terríveis em relação à minha confiança no futuro da humanidade. E foram tão terríveis e tão demolidores que no princípio do novo século, nos seus primeiros anos, não restava nada. O mundo começava a ser para mim um lugar de uma profunda desafecção e quase desagregação do pensamento, e não fosse aquela mão de petiz que se entrelaçava na minha e me entusiasmava para a descoberta, para a vida, para uma outra política que lhe permitiria poder viver num mundo melhor ( o tempo de aprender finalmente a reciclar lixo, a ter atenção aos materiais e recipientes que compro, etc) seria bem o meu suícidio espiritual. O estilhaçar da minha crença de que era possível fazer alguma coisa teve aliás um final curioso: ainda me cheguei a inscrever num partido mas a minha militância não durou mais do que alguns meses e só teve como facto positivo a circunstância de encarar a actividade partidária com muito mais bonomia e compreensão do que dantes, não partilhando hoje os discursos derrotistas sobre o malefício dos partidos para a vida cívica que já subscrevi. E se de todas as teorias que conheci a da tolerância foi aquela que, desde sempre, maior eco teve em mim, parecia que o meu intenso relativismo tinha aumentado em muito a minha aceitação do outro. E ao mesmo tempo crescia em mim um profundo desapego por algum tipo de manifestação de poder. Eu nunca tive vocação para líder, embora com o tempo fosse adquirindo algumas capacidades intelectuais que os políticos gostam de pensar que não são antitéticas com o exercício do poder. E por isso fui às vezes empurrado para situações de chefia ou - eufemismo muito caro àqueles tipos como eu que lidam mal com o poder mas estão embevecidos com um qualquer dinamismo - de coordenação. Por um misto de clarividência e de azedume, desde a deriva direitista do Durão e Portas se ter instalado no poder e na administração pública, interiorizou-se em mim um tal distanciamento em relação à política, ao exercício do poder, que nem mesmo a admito para lutar contra aquelas situações que me parecem injustas e até, inadmíssiveis. Nos meus momentos inspirados penso que há-de haver um outro caminho para lutar contra aquilo que me parece uma falta de capacidade daqueles que me rodeiam, aos mais diversos níveis da actividade, do que ter de me pensar como mais capaz do que os outros. É claro que este tipo de pensamento pode parecer que ruma para a inércia e para o conformismo. Principalmente quando a medida que se instalou por todo o lado, nos media, no trabalho, nas ruas, nos lares, é a de um estado eufórico do sujeito em relação às suas capacidades, à sua valia. É por isso que a leitura de Uma teoria de tudo de Ken Wilber me tem sido tão agradável. Tive um livro assim no Exame de Consciência, do Somerset Maughan, na minha adolescência. Ou, poucos anos mais tarde, O Choque do Futuro, de Alvin Tofller. E A Era do Vazio, de Giles Lipotevski, já nos anos noventa. A Loucura da Normalidade, de Arno Gruen, nos últimos anos. É como se um livro pudesse voltar a ser um amigo que se senta ao meu lado e que me ouve rumorejar, acompanhando-me nas questões mais difíceis.
terça-feira, abril 03, 2007
Diário de um Animador
A Televisão Independente da Boavista
Estavámos no início do ano de 1995. Eu tinha sido convidado, através do Raul Melo e do Rui Rodrigues com quem tinha trabalhado no projecto Olivais Vivo, para trabalhar no projecto PATO (Prevenção ao Alcoolismo, Tabaco e Outras Dependências) que iria desenvolver as suas actividades com a pequena comunidade da Escola do Bairro da Boavista. O projecto tinha algumas características que me atraíram desde o princípio (fazendo-me esquecer a minha aversão à sua designação). Trabalhávamos a relação, envolvendo professores e alunos e apenas com aqueles que assim quisessem. Independentemente de actividades que integravam toda a escola, tinhamos um conjunto de temas que começávamos a trabalhar com o primeiro ano e depois íamos integrando o segundo ano e o primeiro ano até que ao quarto ano do projecto estaríamos a trabalhar com todos os anos. Os temas e propostas de exploração tinham a ver com a auto-estima, o grupo, o bairro, entre outros. Estávamos em Fevereiro e por coincidência na semana a seguir a ter começado a trabalhar eu tive que ir a Gijon, à Féten, uma feira de teatro para crianças, fazer uma comunicação com o Carlos Fragateiro. Prometi-lhes por isso que ía filmar a viagem e que depois veríamos em conjunto o filme. E assim foi. Um nevão nos Picos da Europa tornou a viagem, cinematograficamente, bem mais interessante. Depois, muitos dos participantes da Féten, alguns que já conhecia de encontros de expressão dramática em Portugal, fizeram questão de referir as crianças do Bairro da Boavista. Sem saber tinha um tesouro nas mãos. Quando acabámos de ver o filme eles ficaram emocionados. Era o nome do bairro deles que andava pelas bocas daquelas pessoas que falavam linguas diferentes das deles. Eu tinha filmado também alguns espectáculos e conversado com os artistas e todos eles simpaticamente saudavam as crianças do Bairro da Boavista. E não demorou muito a sugestão: vamos fazer um video sobre o bairro para lhes enviar. Este projecto integrou também algumas elementos dos mais crescidos, que já estavam na terceira e na quarta classe. Um deles, estava mesmo em vias de abandonar a escola e já começara a ir com o tio, bate chapa. Tornou-se o camera e assim lá o aguentámos durante todo o ano escolar de 95. Filmámos o bairro. Entrevistámos o farmacêutico, o Dr. Melo, pai do actor António Melo. Falámos com o sapateiro, um comunista ortodoxo que tinha histórias da clandestinidade. Com o Chefe da Esquadra, num ambiente de grande tensão. Já falei disso aqui. Muitos deles tinham a esquadra como um lugar onde alguns dos seus familiares já tinham sido apanhados e, segundo eles, sem grande meiguice. A conversa começou por isso com algumas acusações e só melhorou quando eles se viraram para as flores que aquele chefe de esquadra cuidadosamente zelava. Era estranho para eles. Havia cães-polícias mas flores-polícias desconheciam. Fomos também falar com o Mestre Filipe que tinha o seu Atelier de Marionetas no bairro. Chamámos ao vídeo a emissão da Televisão Independente da Boavista e ela andou por aí, tendo sido mostrada no CCB e em Metz. [continua]
FARROPE DE POESIA - JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
As terças do B.leza mudaram desde há uns meses, quando a Sofia Marques juntou amigos e começaram a organizar o Farrope de Poesia. Hoje são os poemas de Joaquim Manuel Magalhães. Lidos por Mónica Garnel, Patrícia Silva, Tiago Barbosa e Vitor Gonçalves. Como sempre procuram-se relações entre as palavras e as sonoridades. Desta vez os músicos são Gonçalo Alegria e Benjamin Brejon. É ás 23h, pagam-se 3 €.
Rumor
Ouço música. Música de Câmara, música clássica galega. No violino Evgeny Maryatov e no piano Marianna Prjevalskaya. Tocam a Sonata, Op 37 de Andrés Gaos (1874-1959) e de Manuel Quiroga (1892-1961), Guajira nº1 e 2, Habanera, Alborada e Danza Argentina. Deixo-me ir. A música continua a ser um mistério para mim. A sua base é o ritmo de um corpo e quem sabe o que esse bio-ritmo esconde enquanto acordo íntimo com o mundo, o universo, o príncípio e o fim do movimento? As nossas palavras podem ser quase musicais, as nossas imagens, desde as pinturas rupestres, podem ser delírios, visões, mas nada transcende tanto a humanidade como a música, esse território das sonoridades e das melodias. Diante da música qualquer um de nós se transfigura. Os homens e as mulheres tornam-se possíveis pela música, por esse sussurro, por esse cavalgar harmónico. E tudo o que digo são palavras e as palavras, mesmo as mais belas, morrem no palato. Deixo-me ir. Há uma condição de impossibilidade na relação musical que um corpo estabelece com o mundo. Precisaríamos do silêncio para que essa sinergia estacasse na sua perfeição de apoteose musical. E onde o silêncio absoluto senão na paragem absoluta? Não. Aos vivos não é dado mais que a interpretação do lugar e do momento onde o silêncio ocorre. Podemo-nos calarmo-nos e mesmo assim grita em nós essa ideia de silêncio que nos envolve. Somos rumor, não podemos deixar de ser rumor. Somos rumor em busca permanente do silêncio que, no nosso caso, não é mais do que a articulação melódica do nosso próprio batimento de seres esperançosos, de seres devorados pela esperança.
A vida dos outros
segunda-feira, abril 02, 2007
Lá na terra
Lá na terra tenho uma horta. A esta altura a horta já está morta. As batatas estão podres, porque ninguém as apanha. Quando eu sair daqui, deste hospital, volto à terra.
Às vezes tenho uma raiva à minha Otília, eu magro tão magro que estava e ela nunca mo disse. Só um dia destes em que estava no banho, é que percebi que os ossos dos ombros faziam força para sair e a pele estava mesmo quase a ceder. Eu não ia dizer-te que estavas muito magro, não podia.
Não quero ambulâncias à minha porta, já disse. Lá em casa tenho uma caçadeira. Sou uma pessoa pacífica, não é para fazer mal a ninguém. É mais para me defender.
E eu juro que se ambulâncias à minha porta, eu faço uma loucura.
O campo deu-me tudo. E matou-me a fome. Fui explorado.
Em tempos tive de sair de noite e ir roubar favas e batatas. E não era para vender. Era para comer.
Hoje, enfiar a enxada na terra, ver a chuva cair, arrancar as ervas daninhas, é tudo o que sei fazer. Seria triste não seria? Ver os meus vizinhos a chegarem com sacos de plástico cheios de hortaliça para a Otília fazer sopa.
Era bonito, mas era triste. Não há nada como as batatas da minha terra.
domingo, abril 01, 2007
A Boytchévia
O Coronel Pássaro
A peça de Hristo Boytchev lançou-o na dramaturgia contemporânea. É impressionante o trajecto e o currículo que este texto fez na cena internacional. Subiu ao palco mais de trinta vezes em 25 países. Ganhou prémios como o British Coucil e o Enrico Maria Salerno, dois prestigiados prémios em Inglaterra e Itália, respectivamente. O percurso de Hristo Boytchev também é curioso. Aos quarenta e seis anos este engenheiro de profissão, que estreia o seu primeiro texto dramático com trinta e quatro anos, ganha um subsídio estatal para realizar o filme O coronel pássaro. O ano de 1996 será aliás um ano distinho na sua biografia. Torna-se autor e apresentador do seu programa de televisão e candidata-se a presidente da república búlgara, utilizando o tempo de antena para realizar um happening político-cómico (trinta dias em prime-time) e acaba por conquistar aproximadamente 2% dos votos (terá sido a fonte de inspiração do nosso Manuel João Vieira?). É depois disso que O Coronel Pássaro tem a sua impressionante ascenção na cena teatral internacional. O texto debruça-se sobre a vida num asilo psiquiátrico perdido num Mosteiro, instalado numa zona sem fim, quando aí chega um novo psiquiatra. Os loucos sobrevivem porque a população lhes traz madeira e comida, quando vêm ver as notícias na única tv existente nas redondezas, pertencente a um dos loucos. A televisão não tem som mas como ele aprendeu a ler nos lábios recita as notícias, as falas dos personagens dos filmes. A sua transcrição de Casablanca é um momento de grande comicidade. No asilo a vida passa-se ocupando-se com as diferentes paranóias de cada um deles. Um está imóvel durante toda a primeira parte, com um olhar catatónico, sendo revelado apenas pelo que dele dizem. Outro tem medo que o mundo o esmague, o pise, e por isso constrói um abrigo com a sua cama. Outra era a Maria Madalena de uma fronteira onde paravam os camiões de pesados. Atemorizada pela sua vida luxuriosa arrasta-se agora, mais à sua cruz, por aquele asilo perdido. Um era um ladrão incorrígivel e incontrolável. Havia também o velho cigano que se vinha tornando impotente. O homem tv, o tal da tradução simultânea. Os homens e a mulher dormiam todos no mesmo quarto, para se abrigarem do frio, já que a madeira escasseava. A vida desta pequena comunidade é alterada quando caixotes das Nações Unidas destinados à Bósnia se despenham nas imediações do Asilo. Fardamento e alimentos que tornariam autónomo o asilo por vários anos. Num ápice os loucos transformam-se em garbosos militares sobre as ordens do coronel Fetissov, que tinha estado completamente imóvel e que se vem a descobrir ser uma importante patente da aviação russa. Este coronel consegue também criar um delírio entre todos, que esquecem as suas paranóias e vão sair do Mosteiro em busca da sua loucura, acabando por integrar o psiquiatra, que se apercebe que pouco rendimento teve por ter seguido a razão humana. O texto apresentado agora pelo Teatro da Rainha, numa co-produção com Al-Masrah e Odivelcultur, tem encenação de Fernando Mora Ramos, cenografia de José Carlos Faria, música de Carlos Alberto Augusto e interpretação de José Eduardo ( Davud), Vitor Santos ( Fétissov), Isabel Lopes (Pepa), Jorge Estreia (Matei), Carlos Borges (Hatcho), Pedro Ramos (médico), António Plácido (Ilya)e Octávio Teixeira (PeKto). Estreou a 8 de Março no CCB e está ainda hoje, à tarde, no Teatro da Malaposta, dirigido pelo Manuel Coelho.
sábado, março 31, 2007
João Brites pela Sarah
A Sarah Adamopoulos publicou online a entrevista (fotos de Pedro Azevedo) que fez a João Brites, encenador, cenógrafo, professor, fundador do Teatro O Bando, cuja direcção integra desde o início. A entrevista começa pelo rememoriar da primeira ligação que João Brites teve com o teatro, ainda na infância:
"Lembro-me de fazer umas peças radiofónicas, com os meus pais e com uns amigos. Esse teatro tinha a ver com a oposição de consciência que era feita ao regime, à época, em minha casa. A última dessas peças que fizemos foi "Os Justos", do [Albert] Camus. Nós líamos, tentando interpretar, e depois pegávamos num gravadorzito e gravávamos aquilo. Fazíamos a sonoplastia também, a porta, os passos. Cheguei mesmo a fazer um microfone, artesanalmente, com carvão, lembro-me da minha avozinha achar aquilo muito estranho, aquilo de eu fazer falar a minha voz na rádio. Eu fazia aquilo com um fio e com uma caixa de queijo Tigre, e depois punha esses carvõezinhos nuns buraquinhos, e ligava aquilo tudo a uma pilha de 4 volts e meio. E então nós falávamos para a caixa, e a voz aparecia na rádio. Sempre tive esse lado engenhocas, talvez influenciado pelo meu padrinho, que não era mas parecia um engenheiro de profissão. Lembro-me também de uns textos de cordel, que fazia com os meus primos, isso mais cedo na minha infância. Arranjávamos esses textos, que apareciam nuns folhetos pequeninos, que tinham meia-dúzia de folhas, num papel esverdeado, e montávamos uma cena em casa onde fazíamos essas pequeninas peças cómicas. Nessa altura não havia televisão, e por isso nós éramos levados a fazer determinado tipo de jogos para passar o tempo."Ler mais aqui.
sexta-feira, março 30, 2007
Xenofobia: o que fazer?
Qual é o antídoto? Um pequeno partido que se nomeia representante do ódio e de um pequeno número de portugueses junta os trocos que lhe sobraram da campanha de telefonemas para eleger o Salazar um grande português e coloca no Marquês de Pombal um outdoor provocador, xenófobo e de natureza racista. E nós o que fazemos? Se falarmos disso estamos a dar eco a uma campanha tão pindérica como bem imaginada. Se não falarmos, estamos a reduzir o impacto da propaganda mas estamos a deixar sem um sinal de apreço a comunidade de imigrantes que vivem no nosso país. O que fazer?
Salpicos de luz
No outro dia trouxe este fio de pequenos cristais da Celta. Não sabia porquê. Calhou-me. Está pendurado no seu relógio cinzento, que coloquei na cozinha. E aos poucos reparei que quando o sol dava na janela, a luz se espalhava por todos os lados. Agradou-me essa ideia de que ela se desfazia em luz. Há mais de quatro meses que se foi e e ainda me ensombra a ideia de que não voltará. Venho da esplanada. Olhei lá para baixo, para a Rua do Terreirinho, como sempre o fazia quando queria enxotar a solidão. Nunca mais voltarão. Aceito isso. Estive sentado neste fim de tarde, apreciando esta calma, pensando neles, nestes salpicos de luz que espero, iluminem de bondade a minha vida.
O mundo perfeito
Havia um excesso de perfeição no meu primeiro mundo. As cores eram exactas. Os campos eram verdes na primavera, amareleciam no verão. A alfazema tinha a cor da alfazema. A clara e a gema. Uma era branca, a outra amarela. Era como a adivinha. Qual é a coisa, qual é ela? Tudo tinha a sua cor, o seu som, até, o seu prurido de existir. Havia coisas que existiam devagar. Outras que só se sabiam apressadas. Não era deus. Eram as coisas. O seu sussurro. Estimava da mesma forma o ciclone ou a chuva miudinha, que pintava o rebordo das poças onde eu afocinhava as botas ou os sapatos. Às vezes fecho os olhos para ver se, interiormente, ainda consigo tocar este meu mundo perfeito. E não, se vive, se ainda em mim resta, é o intangível que habita. Lembro-me que a minha primeira tristeza a sério foi porque não conseguia ter por verdadeira a perfeição do mundo, tal e qual como eu o sabia. Tinha crescido dentro de mim a consciência da doença do mundo. Era terrível mas era verdade. Al Gore é importante, mas antes dele já a catástrofe se tinha instalado na projecção de mundo que nos alimenta os dias. Aprendi a desesperançar sem desesperar. Sou filho da guerra fria. Não era isso que eu queria dizer. Nunca é isso que eu quero dizer. É por isso que eu gosto de um blogue. Um livro tem que justificar a importância ou a pertinência das coisas que afirma. É por isso que eu gosto de ter um blogue num lugar onde outras pessoas têm blogues. Os escritores de posts são muito menos importantes e pertinentes que os escritores de lombadas duras e grossas. Já me perdi outra vez. Apeteceu-me. Gosto de me perder. Gosto de ir e vir, de imaginar que sou onda, que sou projéctil, mas não, que me detenho. De perder o sentido das coisas que sinto. O mundo hoje é imperfeito. Injusto. Violento. Não tenho tribo, não tenho matilha. Tenho uma comunidade. É isso que me aproxima da primavera, a comunidade. Este mundo imperfeito. Estou próximo de uma alegria que vai durar sete dias e sete noites. Eu sei. É a imperfeição deste meu mundo que mo segreda.
Primavera
Dei por mim a sorrir. Com aquele ar de miudo inseguro e tímido, abri os olhos para ver se era o sol que se tinha aberto lá fora. Não. Chovia. Era dentro de mim a primavera.
Paisagem sem Título: Envelhecer
"Gosto da ideia de envelhecer, de saber que tenho um fim. A Terra é um lugar demasiado injusto e violento para se suportar uma existência eterna. Aceitar a inevitabilidade do envelhecimento talvez seja uma atitude mais saudável e realista; e estimá-lo, como se estima qualquer outra fase da vida. A juventude, o prazer imediato associado à beleza física, essas coisas todas juntas, não nos trazem felicidade suprema."
Isabela, em O Mundo Perfeito
Leituras: "A dinâmica da espiral"
Não é a tradicional pirâmide com que nos habituámos a estratificar a nossa sociedade, as nossas necessidades. Estamos no tempo dos memes, do integralismo, do holístico. É uma espiral de cores e categorias que - segundo Don Beck e Christopher Cowan, - vão do Arcaico-Instintivo até Holístico, passando pelo mágico-animista, pelos deuses do poder, pela ordem mítica, pela descoberta científica, pelo eu sensível e pelo integrador. Os primeiros seis níveis ou categorias são de "subsistência", marcados por um pensamento de primeira camada. Só a partir deles começamos a observar uma mudança revolucionária da consciência com o aparecimento de "Níveis do ser" e de pensamento de segunda camada. Um aspecto curioso do trabalho destes cientistas é o cálculo da percentagem da população mundial que vive em cada uma das ondas da espiral. Os grandes dois polos são o da ordem mítica (onde encontramos o fundamentalismo religioso, o patriotismo, a américa puritana) com 40 por cento da população e 30% do poder, e o da Descoberta Científica ( patente na banca, na bolsa, no materialismo, a competição, etc) com 30% da população e 50% do poder. Há ainda, com uma expressão considerável, os Deuses do Poder, com 20% da população e 5% do poder. O resto são franjas. O Arcaico-Instintivo e o Mágico Animista, com 10% da população têm 1% do poder, e as ondas da segunda camada são partilhadas por menos de dois por cento da população detendo seis por cento do poder. O que, a fiarmo-nos nesta teoria, parece não nos inspirar grandes optimismos. Esta bipolarização entre fundamentalismo e razão é factor gerador de preocupação. E a aliança entre os Deuses do Poder (onde se instalam as redes de narcotráfico, do gangs e a pirataria) e a ordem mítica, também. Para além do mais estes movimentos, estas ondas não são estáticas e há, circunstancialmente, possibilidade de uma reorganização provocando uma concentração num determinado campo. Lembremo-nos o que aconteceu na altura do ataque ao Iraque, do terrorismo, das caricaturas. Independentemente da sua solidez ética e intelectual quando alguém se sente ameaçado regride e procura a tribo, a matilha, o grupo. Há um aspecto no meio de tudo isto que pode provocar alguma esperança. No nível integrador, um por cento da população detém cinco por cento do poder. E no holístico, 0,1, detém 1 %.
quinta-feira, março 29, 2007
Brinches, no mapa das energias renováveis
Portugal tem a maior estação de energia solar do mundo. Ora aqui está uma marca do Guinness que nos honra.
Duas más notícias de uma só vez
A primeira é de ontem, o Café da Vila já teve a sua última noite. Hoje é para arrumar os móveis, carregar e esvaziar o espaço. mas como se pode esvaziar assim um espaço onde já se viveu tanto? A outra, também na Vila Sousa, é a de que o Pequeno Herói também acabou. Por motivos diferentes, a falta de perspectivas de um negócio livreiro dedicado aos mais pequenos. Muita gente para ouvir as histórias e pouca gente para comprar livros. O Pedro vai ficar tristíssimo. Era a sua segunda casa aqui na Vila. Entrava sentava-se nas almofadas, escolhia um livro e por ali podia ficar horas. Às vezes ía buscar um yogurte para ele e para a Beatriz e ali ficavam os dois. Está bem que todo o mundo é composto de mudança mas logo assim duas, das más, de uma vezada, dói.
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