O espectáculo é de uma tristeza confrangedora. De um lado o primeiro-ministro a querer gerir o melhor possível a sua imagem, sendo absolutamente incredível quando diz que deu tempo para que o processo contra a Independente seguisse o seu caminho. É que um primeiro-ministro que telefona sete ou oito vezes para o Director do Público está, naturalmente, obcecado com as dimensões políticas que este caso pode ter. E é natural que o esteja. Não é preciso nenhuma teoria conspirativa para se perceber que este caso poderia tornar-se numa morte política do primeiro-ministro. Não devia ser assim, deveremos todos reflectir porque é que o é, mas é verdadeiramente hipócrita que se critique a entrevista por se ter tornado naquilo que todos nós esperávamos que fosse: a confrontação do engenheiro técnico José Sócrates com os seus eventuais pecadilhos curriculares. Qual Ota, qual serviço de Urgências, qual Educação, qual Saúde, qual Economia. Nós queríamos novela. E queremos mais, como o lider do PSD, que, para além de acusar de falta de carácter o primeiro-ministro - o que reduziria ao grau zero a possibilidade de alguma discussão política entre os dois se isto da ética política não fosse um jogo a feijões - não se sente esclarecido e quer agora que o primeiro-ministro peça a uma entidade independente do Governo que audite a sua situação académica. É um absurdo, e para mal do radicalismo de Marques Mendes, a menos que se consiga investigar alguma conexão perigosa entre o título académico de Sócrates e um polvo envolvendo o Partido Socialista e a Universidade, esta história parece ter morrido aqui.
Da leitura dos blogues dou-me conta do autêntico clima de suspeição que envolve todo este caso. Não é no domínio do casuístico, do que acontece, mas na forma como alguns acontecimentos se conectam e articulam uns com os outros, uns de forma mais espontânea, outros de forma mais velada, sobrevivendo à custa daquela condição que vivifica a maior parte das nossas novelas públicas: o facto de não se conseguir provar que existe também não quer dizer que não exista. E, por outro lado, são naturalmente valorizáveis alguns indicadores de relações de proximidade, cuja mera existência levanta suspeitas. É por isso que numa sociedade altamente mediatizada onde tudo pode ser escrutinado, temos de saber conviver com a suspeita. Tanto de um lado como do outro. Mas uma coisa será a a suspeita, a dúvida, outra será o forjar de uma história. Por exemplo, é altamente susceptível de provocar suspeita a ligação do referido professor a Armando Vara, ao Partido Socialista, aos negócios na região de onde o actual primeiro-ministro é natural. Até porque o serem servidos no mesmo plano informativo fornece-lhes automaticamente um enunciado narrativo comum. Há que o assumir.
Da mesma forma é igualmente suspeito que um jornal como o Público apresente esse tal enunciado narrativo sem grande consistência (lembremo-nos de como nos foi servido inicialmente) quando uns tempos antes o grupo proprietário do jornal se tinha manifestado profundamente desiludido com o Governo por causa do insucesso de uma iniciativa empresarial que ela tomou. É claro que ninguém minimamente sensato deixará de ter suspeitas e suspeições sobre essa eventual conexão perigosa. Na cabeça de quem vê estas coisas a preto e branco, e são cada vez mais, são tão legítimas as suspeitas de que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner possam estar ilegitimamente conectados em todo este processo, como as de que José Sócrates, Luis Arouca, Armando Vara e o professor das quatro cadeiras o possam estar também. É claro que se acharmos que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner * não estão ilegitimamente conectados poderemos tender para a ideia de que o mesmo não se passa com os outros. E o contrário. Estamos mais predispostos a pensar que eles estão a promover uma vingança contra José Sócrates se tendermos para a ideia de que nada de ilegítimo conecta Sócrates com o seu antigo professor, com Luís Arouca ou com o próprio Armando Vara.
Só que há aqui algo mais complicado: hoje chegámos a um momento onde parece ser insensato não ter suspeitas ou suspeições de alguma espécie. O pior não é tudo poder ser escrutinado. Que o seja. Escrutinado, questionado, interpelado. O problema não é esse. O problema é o elevado rendimento que a suspeição em forma de argumento parece ter. É um produto branco do pensamento social contemporâneo e abriga-se na impunidade a que as fábricas ideológicas têm ainda hoje devido à inexistência de controle de qualidade nos seus processos de fabricação. Aliás, esta frase parece, para a maior parte de nós e do nosso viver, uma piada, uma anedota. Controle de qualidade dos processos de fabricação das nossas ideias?!! É mesmo assim. Suspeitamos que Marques Mendes está apenas interessado em atirar lama para Sócrates, tentando colocar aí o centro do debate político, suspeitamos que José Sócrates telefonou a metade dos directores de jornais deste país para os convencer das fraquezas da história que anda por aí a ser urdida, suspeitamos do professor de Sócrates e das suas ligações a Vara e a umas empresas da Covilhã, suspeitamos da SONAE e do seu instinto de vingança, suspeitamos de José Manuel Fernandes, e porque a suspeita nos está na massa do sangue, somos até capazes de suspeitar do jornalista Ricardo Dias Felner .
Em abono das nossas teses temos todos os argumentos: os telefonemas de Sócrates para os jornais, o tirar e pôr da informação online sobre os seus curriculos, os casos recentes com a Independente, o desagrado de Belmiro, o abalado prestígio e credibilidade de José Manuel Fernandes na imprensa portuguesa, a forma empolada como apareceram as primeiras investigações do jornalista Ricardo Dias Felner, os antecedentes políticos de Armando Vara, as ligações empresariais do professor de Sócrates.
Como é que saímos daqui? Talvez seja uma ideia errada, a de sair. Se isto é o pântano, qualquer movimento para sairmos tenderá a afundarmo-nos mais. Foi uma péssima ideia termos vindo para aqui assentar arraiais, temos de reconhecer, mas aqui chegados, como é que sobreviveremos não ao pântano, mas no pantâno? Talvez seja boa ideia drenar alguns terrenos. Ou seja, habituarmo-nos à ideia de que o pior não é a suspeita, nem a suspeição. É aceitarmo-la enquanto argumento.
---------------------------------------------------------------------
* Não fique aqui a suspeita sobre o seu trabalho enquanto jornalista. É um trabalho de vulto a que ele se vem dedicando e tem-no feito bem, teimosamente, com brio. Tinha aliás há muito pouco tempo feito um excelente retrato sobre o primeiro-ministro. Mas não embarquemos em arco: é preciso um pouco mais para que o bom trabalho de um jornalista se traduza num bom trabalho jornalístico.
Blogoteca (Ligaçoes retiradas de Blogo Existo):
José Sócrates, de Tiago Barbosa Ribeiro / A inversão do ónus da prova, de Paulo Gorjão / Provas, inversões e outras confusões, de Miguel Abrantes / Salvem o jornalismo, de Rui Cerdeira Branco / Em que ficamos?, de Eduardo Pitta / A minha opinião, de Lutz Bruckelmann / Deprimi..., por Cenas Obscenas / Queen Anne is dead, de Filipe Nunes Vicente / Quando os jornais dependem da colaboração dos actores políticos, de Alexandre Guerra / Questões políticas passageiras e questões de Estado, de Rui Pena Pires; A tempestade de João Villalobos; E Agora José?, pela Susana Bês.
quinta-feira, abril 12, 2007
A Grande Suspeita
Acabei por não ver a entrevista de Sócrates. Tenho andado por isso a ler alguns bloggers. E comprei o Público porque, já que tinha sido ele a nascente deste caso, queria também ver como é que ele se satisfizera, ou não, com os esclarecimentos de Sócrates.
Formalmente o Público dedica as suas quatro páginas iniciais ao caso. Nas duas primeiras Ricardo Dias Felner acompanha a entrevista confrontando-a com os seus possíveis, ou não, esclarecimentos, em relação àquilo que tinha sido matéria noticiada. A sua peça tem um lead que destaca o reconhecimento por Sócrates de que a existência de dúvidas era legítima. Isabel Leiria assina aquilo a que a edição chama de reportagem sobre a entrevista, a forma como decorreu e o que aconteceu no local. Depois convida Barreto, Pulido Valente, Miguel Gaspar e Mexia para comentarem. Aos jornalistas cabe o papel de serem mais isentos e conseguem-no, especialmente Pedro Mexia que fala apenas do que, na sua opinião, aconteceu. Miguel Gaspar também o faz mas divide-se entre a critica ao formato da entrevista e a critica ao esvaziamento ideológico do primeiro ministro, que dá o tom ao seu comentário, através da sua piada inicial a propósito da forma como Sócrates termina uma missiva. Pulido Valente não está inspirado e faz um textinho sem chama, à medida daquilo que ele tanto gosta de nos outros zurzir. António Barreto simplesmente não se percebe. Centrando a sua retórica naquilo que um primeiro ministro deve saber reconhecer sobre o que é possível ou não a um deputado ou membro do governo fazer, tem, entre outros, este argumento central, do qual não descortinei lógica: " um deputado ou um membro do governo...não podem nem devem apresentar-se como candidatos a cursos pós-laborais que lhes confiram o estatuto académico a que aspiram." No final da página 3, num lettring quase inofensivo, ou até mesmo envergonhado, os já recorrentes "dixit" de uma grande entrevista. O que é verdadeiramente revelador deste padrão de comportamento que se instalou neste triste caso: todos no Público queriam que o primeiro-ministro falasse, o seu silêncio foi de chumbo, mas quando ele falou atribuiram ao que ele disse a importância de uma pequena mancha no canto inferior da página e, não fosse já suficientemente insignificante, com um lettring que a desprezava.
O espectáculo é de uma tristeza confrangedora. De um lado o primeiro-ministro a querer gerir o melhor possível a sua imagem, sendo absolutamente incredível quando diz que deu tempo para que o processo contra a Independente seguisse o seu caminho. É que um primeiro-ministro que telefona sete ou oito vezes para o Director do Público está, naturalmente, obcecado com as dimensões políticas que este caso pode ter. E é natural que o esteja. Não é preciso nenhuma teoria conspirativa para se perceber que este caso poderia tornar-se numa morte política do primeiro-ministro. Não devia ser assim, deveremos todos reflectir porque é que o é, mas é verdadeiramente hipócrita que se critique a entrevista por se ter tornado naquilo que todos nós esperávamos que fosse: a confrontação do engenheiro técnico José Sócrates com os seus eventuais pecadilhos curriculares. Qual Ota, qual serviço de Urgências, qual Educação, qual Saúde, qual Economia. Nós queríamos novela. E queremos mais, como o lider do PSD, que, para além de acusar de falta de carácter o primeiro-ministro - o que reduziria ao grau zero a possibilidade de alguma discussão política entre os dois se isto da ética política não fosse um jogo a feijões - não se sente esclarecido e quer agora que o primeiro-ministro peça a uma entidade independente do Governo que audite a sua situação académica. É um absurdo, e para mal do radicalismo de Marques Mendes, a menos que se consiga investigar alguma conexão perigosa entre o título académico de Sócrates e um polvo envolvendo o Partido Socialista e a Universidade, esta história parece ter morrido aqui.
Da leitura dos blogues dou-me conta do autêntico clima de suspeição que envolve todo este caso. Não é no domínio do casuístico, do que acontece, mas na forma como alguns acontecimentos se conectam e articulam uns com os outros, uns de forma mais espontânea, outros de forma mais velada, sobrevivendo à custa daquela condição que vivifica a maior parte das nossas novelas públicas: o facto de não se conseguir provar que existe também não quer dizer que não exista. E, por outro lado, são naturalmente valorizáveis alguns indicadores de relações de proximidade, cuja mera existência levanta suspeitas. É por isso que numa sociedade altamente mediatizada onde tudo pode ser escrutinado, temos de saber conviver com a suspeita. Tanto de um lado como do outro. Mas uma coisa será a a suspeita, a dúvida, outra será o forjar de uma história. Por exemplo, é altamente susceptível de provocar suspeita a ligação do referido professor a Armando Vara, ao Partido Socialista, aos negócios na região de onde o actual primeiro-ministro é natural. Até porque o serem servidos no mesmo plano informativo fornece-lhes automaticamente um enunciado narrativo comum. Há que o assumir.
Da mesma forma é igualmente suspeito que um jornal como o Público apresente esse tal enunciado narrativo sem grande consistência (lembremo-nos de como nos foi servido inicialmente) quando uns tempos antes o grupo proprietário do jornal se tinha manifestado profundamente desiludido com o Governo por causa do insucesso de uma iniciativa empresarial que ela tomou. É claro que ninguém minimamente sensato deixará de ter suspeitas e suspeições sobre essa eventual conexão perigosa. Na cabeça de quem vê estas coisas a preto e branco, e são cada vez mais, são tão legítimas as suspeitas de que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner possam estar ilegitimamente conectados em todo este processo, como as de que José Sócrates, Luis Arouca, Armando Vara e o professor das quatro cadeiras o possam estar também. É claro que se acharmos que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner * não estão ilegitimamente conectados poderemos tender para a ideia de que o mesmo não se passa com os outros. E o contrário. Estamos mais predispostos a pensar que eles estão a promover uma vingança contra José Sócrates se tendermos para a ideia de que nada de ilegítimo conecta Sócrates com o seu antigo professor, com Luís Arouca ou com o próprio Armando Vara.
Só que há aqui algo mais complicado: hoje chegámos a um momento onde parece ser insensato não ter suspeitas ou suspeições de alguma espécie. O pior não é tudo poder ser escrutinado. Que o seja. Escrutinado, questionado, interpelado. O problema não é esse. O problema é o elevado rendimento que a suspeição em forma de argumento parece ter. É um produto branco do pensamento social contemporâneo e abriga-se na impunidade a que as fábricas ideológicas têm ainda hoje devido à inexistência de controle de qualidade nos seus processos de fabricação. Aliás, esta frase parece, para a maior parte de nós e do nosso viver, uma piada, uma anedota. Controle de qualidade dos processos de fabricação das nossas ideias?!! É mesmo assim. Suspeitamos que Marques Mendes está apenas interessado em atirar lama para Sócrates, tentando colocar aí o centro do debate político, suspeitamos que José Sócrates telefonou a metade dos directores de jornais deste país para os convencer das fraquezas da história que anda por aí a ser urdida, suspeitamos do professor de Sócrates e das suas ligações a Vara e a umas empresas da Covilhã, suspeitamos da SONAE e do seu instinto de vingança, suspeitamos de José Manuel Fernandes, e porque a suspeita nos está na massa do sangue, somos até capazes de suspeitar do jornalista Ricardo Dias Felner .
Em abono das nossas teses temos todos os argumentos: os telefonemas de Sócrates para os jornais, o tirar e pôr da informação online sobre os seus curriculos, os casos recentes com a Independente, o desagrado de Belmiro, o abalado prestígio e credibilidade de José Manuel Fernandes na imprensa portuguesa, a forma empolada como apareceram as primeiras investigações do jornalista Ricardo Dias Felner, os antecedentes políticos de Armando Vara, as ligações empresariais do professor de Sócrates.
Como é que saímos daqui? Talvez seja uma ideia errada, a de sair. Se isto é o pântano, qualquer movimento para sairmos tenderá a afundarmo-nos mais. Foi uma péssima ideia termos vindo para aqui assentar arraiais, temos de reconhecer, mas aqui chegados, como é que sobreviveremos não ao pântano, mas no pantâno? Talvez seja boa ideia drenar alguns terrenos. Ou seja, habituarmo-nos à ideia de que o pior não é a suspeita, nem a suspeição. É aceitarmo-la enquanto argumento.
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* Não fique aqui a suspeita sobre o seu trabalho enquanto jornalista. É um trabalho de vulto a que ele se vem dedicando e tem-no feito bem, teimosamente, com brio. Tinha aliás há muito pouco tempo feito um excelente retrato sobre o primeiro-ministro. Mas não embarquemos em arco: é preciso um pouco mais para que o bom trabalho de um jornalista se traduza num bom trabalho jornalístico.
Blogoteca (Ligaçoes retiradas de Blogo Existo):
José Sócrates, de Tiago Barbosa Ribeiro / A inversão do ónus da prova, de Paulo Gorjão / Provas, inversões e outras confusões, de Miguel Abrantes / Salvem o jornalismo, de Rui Cerdeira Branco / Em que ficamos?, de Eduardo Pitta / A minha opinião, de Lutz Bruckelmann / Deprimi..., por Cenas Obscenas / Queen Anne is dead, de Filipe Nunes Vicente / Quando os jornais dependem da colaboração dos actores políticos, de Alexandre Guerra / Questões políticas passageiras e questões de Estado, de Rui Pena Pires; A tempestade de João Villalobos; E Agora José?, pela Susana Bês.
O espectáculo é de uma tristeza confrangedora. De um lado o primeiro-ministro a querer gerir o melhor possível a sua imagem, sendo absolutamente incredível quando diz que deu tempo para que o processo contra a Independente seguisse o seu caminho. É que um primeiro-ministro que telefona sete ou oito vezes para o Director do Público está, naturalmente, obcecado com as dimensões políticas que este caso pode ter. E é natural que o esteja. Não é preciso nenhuma teoria conspirativa para se perceber que este caso poderia tornar-se numa morte política do primeiro-ministro. Não devia ser assim, deveremos todos reflectir porque é que o é, mas é verdadeiramente hipócrita que se critique a entrevista por se ter tornado naquilo que todos nós esperávamos que fosse: a confrontação do engenheiro técnico José Sócrates com os seus eventuais pecadilhos curriculares. Qual Ota, qual serviço de Urgências, qual Educação, qual Saúde, qual Economia. Nós queríamos novela. E queremos mais, como o lider do PSD, que, para além de acusar de falta de carácter o primeiro-ministro - o que reduziria ao grau zero a possibilidade de alguma discussão política entre os dois se isto da ética política não fosse um jogo a feijões - não se sente esclarecido e quer agora que o primeiro-ministro peça a uma entidade independente do Governo que audite a sua situação académica. É um absurdo, e para mal do radicalismo de Marques Mendes, a menos que se consiga investigar alguma conexão perigosa entre o título académico de Sócrates e um polvo envolvendo o Partido Socialista e a Universidade, esta história parece ter morrido aqui.
Da leitura dos blogues dou-me conta do autêntico clima de suspeição que envolve todo este caso. Não é no domínio do casuístico, do que acontece, mas na forma como alguns acontecimentos se conectam e articulam uns com os outros, uns de forma mais espontânea, outros de forma mais velada, sobrevivendo à custa daquela condição que vivifica a maior parte das nossas novelas públicas: o facto de não se conseguir provar que existe também não quer dizer que não exista. E, por outro lado, são naturalmente valorizáveis alguns indicadores de relações de proximidade, cuja mera existência levanta suspeitas. É por isso que numa sociedade altamente mediatizada onde tudo pode ser escrutinado, temos de saber conviver com a suspeita. Tanto de um lado como do outro. Mas uma coisa será a a suspeita, a dúvida, outra será o forjar de uma história. Por exemplo, é altamente susceptível de provocar suspeita a ligação do referido professor a Armando Vara, ao Partido Socialista, aos negócios na região de onde o actual primeiro-ministro é natural. Até porque o serem servidos no mesmo plano informativo fornece-lhes automaticamente um enunciado narrativo comum. Há que o assumir.
Da mesma forma é igualmente suspeito que um jornal como o Público apresente esse tal enunciado narrativo sem grande consistência (lembremo-nos de como nos foi servido inicialmente) quando uns tempos antes o grupo proprietário do jornal se tinha manifestado profundamente desiludido com o Governo por causa do insucesso de uma iniciativa empresarial que ela tomou. É claro que ninguém minimamente sensato deixará de ter suspeitas e suspeições sobre essa eventual conexão perigosa. Na cabeça de quem vê estas coisas a preto e branco, e são cada vez mais, são tão legítimas as suspeitas de que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner possam estar ilegitimamente conectados em todo este processo, como as de que José Sócrates, Luis Arouca, Armando Vara e o professor das quatro cadeiras o possam estar também. É claro que se acharmos que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner * não estão ilegitimamente conectados poderemos tender para a ideia de que o mesmo não se passa com os outros. E o contrário. Estamos mais predispostos a pensar que eles estão a promover uma vingança contra José Sócrates se tendermos para a ideia de que nada de ilegítimo conecta Sócrates com o seu antigo professor, com Luís Arouca ou com o próprio Armando Vara.
Só que há aqui algo mais complicado: hoje chegámos a um momento onde parece ser insensato não ter suspeitas ou suspeições de alguma espécie. O pior não é tudo poder ser escrutinado. Que o seja. Escrutinado, questionado, interpelado. O problema não é esse. O problema é o elevado rendimento que a suspeição em forma de argumento parece ter. É um produto branco do pensamento social contemporâneo e abriga-se na impunidade a que as fábricas ideológicas têm ainda hoje devido à inexistência de controle de qualidade nos seus processos de fabricação. Aliás, esta frase parece, para a maior parte de nós e do nosso viver, uma piada, uma anedota. Controle de qualidade dos processos de fabricação das nossas ideias?!! É mesmo assim. Suspeitamos que Marques Mendes está apenas interessado em atirar lama para Sócrates, tentando colocar aí o centro do debate político, suspeitamos que José Sócrates telefonou a metade dos directores de jornais deste país para os convencer das fraquezas da história que anda por aí a ser urdida, suspeitamos do professor de Sócrates e das suas ligações a Vara e a umas empresas da Covilhã, suspeitamos da SONAE e do seu instinto de vingança, suspeitamos de José Manuel Fernandes, e porque a suspeita nos está na massa do sangue, somos até capazes de suspeitar do jornalista Ricardo Dias Felner .
Em abono das nossas teses temos todos os argumentos: os telefonemas de Sócrates para os jornais, o tirar e pôr da informação online sobre os seus curriculos, os casos recentes com a Independente, o desagrado de Belmiro, o abalado prestígio e credibilidade de José Manuel Fernandes na imprensa portuguesa, a forma empolada como apareceram as primeiras investigações do jornalista Ricardo Dias Felner, os antecedentes políticos de Armando Vara, as ligações empresariais do professor de Sócrates.
Como é que saímos daqui? Talvez seja uma ideia errada, a de sair. Se isto é o pântano, qualquer movimento para sairmos tenderá a afundarmo-nos mais. Foi uma péssima ideia termos vindo para aqui assentar arraiais, temos de reconhecer, mas aqui chegados, como é que sobreviveremos não ao pântano, mas no pantâno? Talvez seja boa ideia drenar alguns terrenos. Ou seja, habituarmo-nos à ideia de que o pior não é a suspeita, nem a suspeição. É aceitarmo-la enquanto argumento.
---------------------------------------------------------------------
* Não fique aqui a suspeita sobre o seu trabalho enquanto jornalista. É um trabalho de vulto a que ele se vem dedicando e tem-no feito bem, teimosamente, com brio. Tinha aliás há muito pouco tempo feito um excelente retrato sobre o primeiro-ministro. Mas não embarquemos em arco: é preciso um pouco mais para que o bom trabalho de um jornalista se traduza num bom trabalho jornalístico.
Blogoteca (Ligaçoes retiradas de Blogo Existo):
José Sócrates, de Tiago Barbosa Ribeiro / A inversão do ónus da prova, de Paulo Gorjão / Provas, inversões e outras confusões, de Miguel Abrantes / Salvem o jornalismo, de Rui Cerdeira Branco / Em que ficamos?, de Eduardo Pitta / A minha opinião, de Lutz Bruckelmann / Deprimi..., por Cenas Obscenas / Queen Anne is dead, de Filipe Nunes Vicente / Quando os jornais dependem da colaboração dos actores políticos, de Alexandre Guerra / Questões políticas passageiras e questões de Estado, de Rui Pena Pires; A tempestade de João Villalobos; E Agora José?, pela Susana Bês.
Destaque: Doc Log
No DOC LOG, Leonor Areal transcreve "Cortes da Comissão de Censura enviados por telegrama telefonado para o Jornal de Notícias". São pequenos gestos que mostram a total arbitrariedade dos actos de censura. É claro que não se pediria um livro de estilo da Censura Prévia. O que se torna bizarro é ver que o processo de ocultação não visava apenas os proscritos do regime. Por exemplo, o Major Tártaro não se inibiu de censurar as declarações de Marcelo Caetano aos jornais. Ou as do Ministro da Economia. E as da, ao tempo, nossa sui-generis primeira-dama, a Governanta D. Maria. Chega-se ao ponto dos censores se censurarem a eles mesmos. A 9 de Setembro o Coronel Saraiva dá a indicação para que não se diga que o estado de saúde de Salazar é estacionário. O Major Tártaro umas duas semanas depois há-de indicar para a primeira página a informação de que a saúde de Salazar se encontra estacionária. E há aspectos perfeitamente bizarros: no anúncio da exportação de um milhão de gabardinas não se pode dizer que o comprador é a URSS. O acto de censura parece revelar a meticulosidade do censor, como na noticía do suicídio de uma rapariga em Soutelo, a ocultação de que isso foi depois do seu namorado ter sido mobilizado para Angola. Por outro lado há uma diferença também no estilo. Há censores mais afoitos ao autoritarimso da palavra Cortar, ou Cortar Tudo. Outros que tendem mais para o paternalismo da indicação, da recomendação, como se eles próprios editassem o jornal.
Foto: Salazar no caixão, imagem retirada do filme Brandos Costumes (1974) de Alberto Seixas Santos. Link de DOC-LOG
quarta-feira, abril 11, 2007
Os Portas que Abril abriu
O Paulinho das Feiras, do Forte de São Julião da Barra, a sombra por detrás do homem e, depois, o seu próprio espectro, voltou para falar da Saúde. Os regimentos, as questões sobre as directas, sobre o Congresso ficam para o seu correlegionário Ribeiro e Castro, acolitado pelo seu devoto filho. Ele quer o país. O país também o quer, mas ainda não sabe.
Ironia socrática
Ainda verei o nosso bom do José Sócrates voltar à escola primária para repetir o exame da 4ª Classe?
O que é que eles têm a ver com isto?
O tema de hoje do DN, dia em que o nosso primeiro-ministro vai à televisão desvendar o estranho caso da licenciatura independente, intitula-se Crise na Independente. Ocupa a página 2, a 3 e a 4. A primeira e a segunda tem José Sócrates. Leio-as com o apoio, imprescíndível, do Manual de Instruções sobre o DN Renovado que, pelo rigor conceptual e simultaneamente especulativo, não me admirava nada que se tornasse num Manual de Instruções para a Imprensa de Referência. Leio com prazer. A infografia, os titulos em caixa alta, aquele modo muito especial com que me tratam como se fosse eu mesmo que mandasse na minha leitura do DN. Chega a ser epifânico, eu que nunca mandei em nada do que diz respito à minha vida sentar-me tranquilamente dono e senhor da leitura de um jornal. Só não compreendo o destaque dado na terceira página a uns bizarros personagens que, seguindo os passos do actual primeiro ministro, se inscreveram naquela universidade para tirarem os diplomas. O que é que eles têm a ver com isto?
Cheiro a gás
entro em casa. um forte cheiro a gás. nem ligo a luz. abro as janelas. às alpapadelas vejo se tenho o fogão aberto. não tenho. o cheiro a gás é intenso. saio para a rua e vou até ao largo, participar a ocorrência aos bombeiros. entram em minha casa e não detectam nada. já estou à espera do vexame. seis homens olham para mim como se eu fosse um caginchas com as coisas do gás. e sou. mas cheirou-me a gás, justifiquei, já pensando de mim para mim que não devia ter aberto as janelas. de repente já depois da portada da rua um dos bombeiros estaca. chefe, cheira a gás. encosta o nariz à porta da vizinha. e não é pouco, exclama. a minha vizinha tinha deixado a boca do fogão aberta e estava com a casa cheia de gás. os bombeiros acordam-na e pedem-lhe que não acenda a luz. que abra as janelas. e acompanham-na algum tempo, está meio atordoada. à saída o chefe estende-me a mão, e disse-me, fez muito bem, provavelmente de manhã se acordasse ficava ali. Sorri. Tinha passado de medricas a um pequeno herói.
terça-feira, abril 10, 2007
era uma vez alguém que nasceu. podia ser um rapaz. esse rapaz cresceu. e a sua missão era lembrar todos os hábitos da humanidade. primeiro os instintos, depois relembrou as maneiras infinitas de explorar a natureza e as artes da guerra e de alguma paz nos intervalos. reaprendeu a amar, a esquecer e a ter alguns filhos. depois passou o resto da vida tentando deslembrar-se para ser mais vivo. esquecendo-se de uma coisa por dia chegou a um ponto em que era um rapaz. parecido com o rapaz que tinha nascido. quando já não tinha mais hábitos humanos tinha-se transformado numa rocha da praia que viveu para sempre.
segunda-feira, abril 09, 2007
FARROPE DE POESIA - Gastão Cruz
Amanhã é terça-feira, das cinzas talvez. No B.Leza desde há uns meses que tem sido sempre assim, com poesia. Às 23 h. Desta vez serão lidos os poemas do poeta Gastão Cruz. Com David Almeida, Diogo Dória, Tiago Barbosa e Pedro Lacerda. Nos sons, Benjamin Brejon e Jonhatan Nhy. À entrada deixamos ficar três euros.
domingo, abril 08, 2007
Flores
No outro dia comprei um regador e dois vasos de metal colorido que vi numa das lojas de venda de bagatelas. Era para experimentar no trabalho que uma actriz está a fazer com o poema, "A Morte é uma flor", de Paul Célan. Depois, não sei porquê, no outro dia ao passar no metro do Chiado, deram-me um pacotinho de sementes misteriosas. Digo misteriosas porque não tinham nome e fazia parte do jogo, não saber que plantas eram. Mais tarde comprei sementes ali numa loja do Martim Moniz. E comprei terra numa loja da Graça. Vou ser floricultor, pensei. Num dos vasos coloquei as sementes que comprei, de umas flores muito bonitas de cujo nome já me esqueci. No outro as tais sementes misteriosas. Coloquei-os ao dois lado a lado em cima da máquina de lavar roupa, ao pé da janela. Os dois apanham, durante o dia, para além da luminosidade farta da janela virada para sul, poeira de luz dispersa por aquele pequeno fio de espelhos que veio da Celta. Das plantas misteriosas começou por nascer um pé com folhas verdes, subindo afirmativas. Ao lado, depois, vieram outras duas, muito mais pequenas, duas frágeis folhas encostadas à terra, mas ainda assim visiveis, existentes. De uma vez reguei-as tão abundantemente que a água formou um pequeno dilúvio que alagou tudo e separou as plantas da terra. Agora deixo-as estar. É a luz que as rega e parece que a luminosidade voltou a dar os seus frutos.
Wanted
Seremos dois fora-da-lei. Sem horários nem contratos. Eu quero fazer da minha vida a nossa vida. Achar que se tudo é tão bonito é por causa de ti. Estragar os mundos perfeitos que imaginaste à nascença. E quando me tentares impedir, rir. E fazer rir as tuas angústias. Havemos de as quebrar. Seremos dois fora-da-lei.
Dot.com
Manual de Sobrevivência
É quase sempre assim quando vamos somando decisões adiadas como quem colecciona conchas: quando temos que decidir, protelamos. Algumas protelamo-las conscientemente. Quase como represália pela indiferença que sentimos do outro lado. Isto acontece muitas vezes com coisas públicas que ora se tornam muito urgentes, ora parece que nunca existiram. E vamos assim protelando as coisas, uma a uma. Até que toda a nossa vida inexiste como decisão. Não fazemos a barba, não cortamos o cabelo, não vamos ao cinema, não lemos um livro, não escrevemos um texto, não arrumamos a casa, não organizamos o caixote das fotos. Não telefonamos a um amigo. Em estados mais avançados temos até alguma dificuldade em decidir o que é um amigo ou o que é um mero transeunte. Por vezes, em dias de total desespero entramos no eléctrico e sorrimos para o condutor ou para um passageiro como se ele fosse uma tábua de salvação, a nossa única e maior amizade neste mundo. E logo a seguir somos capazes de responder a um amigo com uma secura e uma dureza como se nunca se tivesse cruzado connosco ou como se ele fosse um vampiro. É dura a vida de um indeciso. Até porque a pressão que o envolve, tensifica-o nessa apoteose do decidir. Parece que a sua vida só voltará a sê-lo se ele decidir. E não devemos esquecê-lo, os quadros de referência que partilhamos em sociedade estão as mais das vezes, completamente virados do avesso. Chamamos decisão àquilo que afinal não é mais do que a pulsão mais mesquinha, mais igualitária e menos favorável á criação de uma identidade. Só que o indeciso não o pode saber. Náufrago da enorme lucidez que é, por momentos ter transviado, transfigura-o a angústia do decidir. É preciso escolher. Devemos por isso encarar com especial candura, no caso dos nossos amantes, familiares, amigos ou vizinhos, e auto-complacência, no caso próprio, o facto de, muito frequentemente, começarmos pelas decisões erradas.
Domingo de Páscoa
Acordei com uma música de um vizinho a dançar-me na cabeça. Uma lentidão no abrir das pálpebras. Aquele prazer de um despertar que vem lá do fundo, aproximando-se, vagarosamente, passando as várias barreiras alfandegárias das diferentes camadas de sonhos que revestem um sono bom. Havia restos ainda do concerto do Fausto, há uns dez anos, que vimos em casa do Molina, ele também lá, frenético, precurtivo, numa visão entrecortada por um dos melhores relances ao Panteão que descobri. A vontade de vir para aqui, escrever um post, como primeira actividade diária deste domingo de Páscoa. Naquilo que é bem o retrato da minha árvore, da minha genealogia, a minha família dividiu-se, uma parte foi para o Norte, para o Minho verdejante das raízes profundas, uma outra, mais pequena, o meu pequeno herói, virou-se para sul que é o lugar do olhar, de tudo o que vejo. É também virado para sul, para o sul que cresce em mim, que eu me abanco nesta sensação indescritível de ser um novo dia.
Lua de prata
Encho-me de todas as solidões que um indíviduo chegado à idade adulta consegue suportar. A solidão-rio-de-prata. Solidão irmão-do-meio. Solidão-no-trabalho. Solidão-dor-de-corno. Solidão-lugar. Solidão-da-incompreensão. Solidão-da-palavra-não. Solidão-do-mundo. Uma noite assim, será sempre inesperada. Nenhuma destas solidões é mesmo a sério. É fado. É canção. Poderia ser, com alguma inspiração, poema. Há-de haver uma resposta quando o sol raiar de novo. E eu estarei lá. Nem que haja arco-íris. Fecho os olhos para a música, eu tenho um sonho deste pequenino: viajar um dia, inteiro, integral, para a terra da amabilidade. O resto é só e sempre ódio, de que me desaparto.
sábado, abril 07, 2007
Os sinos da minha aldeia
Tocavam as nove horas quando eu disse que não. Quando acabei de o dizer, repenicaram os sinos. É por ser Páscoa. É por ser Páscoa e as minhas memórias estarem todas ligadas ao tocar dos sinos, pensei. Os carrilhões de Mafra. Um dos maiores orgulhos do meu pai era o de o seu jornalinho ter servido para a campanha que trouxe os carrilhões de volta à vila de Mafra. Nos claustros do Convento, era talvez Verão, o meu pai e a minha mãe usavam um casaco de malha fina e íamos com o ar descontraído, eu e os meus irmãos vestiamos de igual, de cores diferentes, calções curtos, camisete de algodão. Éramos das poucas famílias que se deslocavam ao interior do Convento para escutarem o concerto de carrilhões. E eu não sabia porquê. Afinal era o animador orgulhoso do seu combate que vinha, com os seus. Era um belga que os tocava. E tinha trazido a sua família. Lembro-me da sua mulher, uma senhora belíssima, alta, serena, e os seus dois filhos, um casal. Claro que, enquanto o seu pai tocava, platonicamente, me apaixonei pela filha. Aqueles fins de tarde ainda hoje me parecem momentos do paraíso. Havia talvez uma brisa. O meu pai tinha acabado o trabalho e a família juntava-se toda. O meu pai era um homem muito bonito. Esse foi aliás um dos argumentos que o homem da marcenaria onde ele aprendia utilizou para contra argumentar a vocação para o sacerdócio que a minha avó lhe descobrira. Um homem tão bonito nunca será de Deus, senhor Padre, disse ele. O som dos carrilhões ecoava pelos claustros. Eu comecei a ser feliz assim, na platonia. Na entrega a um amor solitário, fechado sobre si mesmo, oculto dos seus sentimentos. Sou aquele que escreve textos, alguns mais felizes outros menos, sobre o amor. E que o desconhece profundamente no ser em dádiva que ele projecta. Um ser rasgado pela sua incompletude. Sou um celibatário profundo, se é que essa doença existe. Por vezes gostava que sim, que existisse e que existisse enquanto tal, enquanto doença, que eu pudesse marcar uma consulta à minha médica de família e lhe dissesse, olhe, é o meu celibatarismo profundo outra vez, tal como quando se tem cólica renal, diabetes ou hipertensão. É claro que com o tempo vamos aprendendo a conviver com o nosso mal d' espirit. Durante muitos anos fui feliz namorando com estudantes erásmus, turistas acidentais que apanhava no Castelo de S. Jorge, e depois, quando a idade foi avançando, comecei a arranjar namoradas com ofícios estranhíssimos, que me permitiam recolher-me a minha casa como se ela fosse um mosteiro. Namorei mulheres-polícia, vendedouras do mercado das flores, assistentes de bordo nas companhias de navegação aérea e marítima, jornalistas, até uma espia ligada aos serviços alfandegários. A última foi a mais feliz, uma faroleira das Berlengas. Foi o amor mais perfeito que tive na minha vida. Eu ia até ao Baleal, à minha praia de sempre, e mandava-lhe um sms. Ela respondia-me num código de luzes que tinhamos apurado com o tempo de namoro. Uma vez um navio russo interceptou a nossa comunicação e foi parar ao molhe de Viana do Castelo, por causa disso. Em três anos de namoro devo-a ter visto uma dúzia de vezes. Íamos casarmo-nos por correspondência. Já nem sei porque é que acabou por não dar certo. Sou assim, esqueço-me das coisas. Provavelmente baralhei tudo e mandei as longas cartas de amor que me consumiam as noites para o meu afecto anterior, a espia dos serviços alfandegários. Com o fim das fronteiras eles desactivaram tudo. E desde que começaram a vender património, tudo mudou. Talvez os quilómetros de amor romântico e epistolar repousem agora numa mansarda atulhada de móveis, dossiers e papéis velhos. Eu estranhei, as outras não, mas a faroleira era-me muito dedicada. Achei que se tinha esquecido de mim, que tinha encontrado algum marinheiro russo, sei lá. A vida é um saco de surpresas. Tudo pode acontecer. Foi exactamente assim que terminei o telefonema, um pouco antes das badaladas que me levaram tão longe na memória. Tudo pode acontecer.
sexta-feira, abril 06, 2007
Um selo para José Afonso
Recebi um email originalmente vindo do projecto Erva de Cheiro em que se dá conta que os CTT estão a promover uma iniciativa para a selecção de um tema para os selos de 2008 e que existe uma proposta para que um dos selos seja uma homenagem a José Afonso. Quem quiser votar nesta opção, tentando que ela passe à fase seguinte, poderá fazê-lo até dia 8, aqui. É fácil.
E a Boytchévia aqui tão perto
A ideia é exactamente esta: o humor é uma arma. É claro que, como canta o Palma, não há nenhuma arma que não dê ricochete. Diz-se também que isto é uma espécie de repetição da fórmula que tanto sucesso deu no caso da crítica às posições de Marcelo Rebelo de Sousa no referendo sobre a IVG*. Eu gostaria de não dizer o que estou a dizer, até porque este cartaz do PNR deixou-me sem saber o que havia de fazer e pelo menos alguma coisa os Gatos fizeram. Mas o que me parece que foi brilhante, genial no caso do Marcelo, e até autêntico serviço público, porque parecia que não havia a possibilidade de em tempo real se contrapôr com eficácia o desmesurado poder mediático das posições de Marcelo, neste caso pode ter sido uma grande precipitação, podendo vir a acabar de forma inglória através do pagamento de uma determinada coima relativa à remoção do cartaz. Para além disso há todas as razões que nos saltam à evidência: enquanto no caso do Marcelo se neutralizou uma campanha de alguém ( e não de uma partido) que detinha um incompreensível ascendente mediático sobre a televisão pública, e esta neutralização apareceu primeiro conotada a um dos elementos dos Gatos que também era activista na campanha, no caso deste pequeno partido o efeito talvez seja o contrário. Por outro lado, o cartaz do PNR na sua violência verbal, se alguma coisa nos deveria provocar, deveria ser uma resposta política. Nos seus diversos domínios. Política partidária, participação na vida cívica e social. Poderemos todos nesse campo fazer muito por pouco que isso pareça quando um homem sem relevância política se coloca aos saltos e gritos no Marquês de Pombal. Mas uma coisa será cada um dos cómicos dos Gatos, por si ou em conjunto (e não se sabe bem como porque ideológicamente eles são bem um saco de gatos), tomarem uma determindada posição política. Devemos saudá-los por isso e nesse aspecto tenho pelo Ricardo Araújo Pereira, e pela sua coragem e oportunidade, uma admiração que nunca consegui ter por ele enquanto cómico. Outra coisa é a marca comercial de produção humorística, Gatos Fedorentos, e a sua última linha de produtos, a caricaturização das figuras públicas e políticas, adquirir peso político e neste caso, político partidário. Por muito voluntarismo que isso possa albergar, os Gatos não são uma espécie de corpo especial de bombeiros da politica portuguesa. São uma empresa, têm uma marca, têm linhas de produtos humorísticos e é assim que devem ser encarados. E também, por muito cruel que isto possa parecer, os Gatos não mimetizaram, invertendo-o, apenas o discurso político do irrelevante dirigente do PNR. Imitaram também esse enorme pôr-se em bicos de pés que o referido político tinha feito. E, independentemente do sucesso ou insucesso político, há também uma indiscutível tentativa afirmação de uma marca comercial que significa aumento de rendimentos para os seus patrocinadores e que parece fazer com que estejamos a aproximarmo-nos velozmente do delírio boytcheviano. Fica de tudo isto uma boa ideia para rirmos enquanto desejamos que cada vez mais o nacionalismo seja ideia em dissolução: a de que isto só com portugueses é uma seca . É por isso também que mesmo que a CML o remova, daqui já ninguém o tira.
quinta-feira, abril 05, 2007
Não me perguntem porquê
Sou do meu amor. Sou dele quando lhe digo que sim, sou dele quando lhe digo que não. Sou também dele quando me calo. Sou ainda dele quando espero que ela acabe a sua faxine diária e venha tirar-me a alma de misérias. Não me perguntem porquê. Nunca saberia responder.
Educação Sentimental
O momento mais triste foi quando descobriu que aquele ódiozinho era o último resquiscío do amor que lhe sentia.
Antes da festa
O meu amigo
O meu amigo é beleza pura. Olho para ele e dificilmente vejo olhos, nem mesmo aqueles olhos vivos, expressivos, indíos, nem nariz, nem boca, nem orelhas, nem rosto. Vejo tesouros sulcados na terra, no ar, nos mares. É como se a sua face fosse o mapa das histórias que me conta. Há quase sempre algo de épico nelas. Com ele compreendo o verdadeiro sentido da palavra justiça.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
A própria liberdade
Há mais de um mês que não ía ao B.Leza. Hoje uma mensagem amiga ao principio da noite levou-me lá. Eu pensava, na minha ingenuidade, que me tinha esquecido de ser dança. Eu pensava até que, mesmo que me recordasse, era ela própria, a dança, que se tinha esquecido de mim. Engano puro. Não existe amnésia. Talvez um pouco de má vontade. A desculpa esfarrapada, vou só dar-lhes um abraço. A eles sim. À dança, o corpo todo. Há uma inteligência na dança que supera a racionalidade com que toco em tudo o que me rodeia. E eu, no meu voluntarimo e boa vontade penso para mim que essa inteligência bailarina é a essência. A própria liberdade.
quarta-feira, abril 04, 2007
Um amigo para as questões mais difíceis
Já falei disso aqui, tenho estado a ler Uma Teoria de Tudo, de Ken Wilber. E sigo-o cada vez com mais interesse. Tenho alguma vergonha em dizê-lo, os meus mais pequenos e únicos ismos (relativismo, pós-modernismo, cepticismo, agnosticismo, pessimismo) vão ficar mal no retrato, mas este diálogo com o livro está-me a tornar mais optimista na minha relação com o mundo. Não sei explicá-lo com exactidão: da mesma forma que o final dos anos noventa, com o fim da guerra fria, a queda do muro, a desagregação da União Soviética, tinham significado uma abertura sobre a possibilidade de um retorno mundial à justiça e à política, os anos noventa foram terríveis em relação à minha confiança no futuro da humanidade. E foram tão terríveis e tão demolidores que no princípio do novo século, nos seus primeiros anos, não restava nada. O mundo começava a ser para mim um lugar de uma profunda desafecção e quase desagregação do pensamento, e não fosse aquela mão de petiz que se entrelaçava na minha e me entusiasmava para a descoberta, para a vida, para uma outra política que lhe permitiria poder viver num mundo melhor ( o tempo de aprender finalmente a reciclar lixo, a ter atenção aos materiais e recipientes que compro, etc) seria bem o meu suícidio espiritual. O estilhaçar da minha crença de que era possível fazer alguma coisa teve aliás um final curioso: ainda me cheguei a inscrever num partido mas a minha militância não durou mais do que alguns meses e só teve como facto positivo a circunstância de encarar a actividade partidária com muito mais bonomia e compreensão do que dantes, não partilhando hoje os discursos derrotistas sobre o malefício dos partidos para a vida cívica que já subscrevi. E se de todas as teorias que conheci a da tolerância foi aquela que, desde sempre, maior eco teve em mim, parecia que o meu intenso relativismo tinha aumentado em muito a minha aceitação do outro. E ao mesmo tempo crescia em mim um profundo desapego por algum tipo de manifestação de poder. Eu nunca tive vocação para líder, embora com o tempo fosse adquirindo algumas capacidades intelectuais que os políticos gostam de pensar que não são antitéticas com o exercício do poder. E por isso fui às vezes empurrado para situações de chefia ou - eufemismo muito caro àqueles tipos como eu que lidam mal com o poder mas estão embevecidos com um qualquer dinamismo - de coordenação. Por um misto de clarividência e de azedume, desde a deriva direitista do Durão e Portas se ter instalado no poder e na administração pública, interiorizou-se em mim um tal distanciamento em relação à política, ao exercício do poder, que nem mesmo a admito para lutar contra aquelas situações que me parecem injustas e até, inadmíssiveis. Nos meus momentos inspirados penso que há-de haver um outro caminho para lutar contra aquilo que me parece uma falta de capacidade daqueles que me rodeiam, aos mais diversos níveis da actividade, do que ter de me pensar como mais capaz do que os outros. É claro que este tipo de pensamento pode parecer que ruma para a inércia e para o conformismo. Principalmente quando a medida que se instalou por todo o lado, nos media, no trabalho, nas ruas, nos lares, é a de um estado eufórico do sujeito em relação às suas capacidades, à sua valia. É por isso que a leitura de Uma teoria de tudo de Ken Wilber me tem sido tão agradável. Tive um livro assim no Exame de Consciência, do Somerset Maughan, na minha adolescência. Ou, poucos anos mais tarde, O Choque do Futuro, de Alvin Tofller. E A Era do Vazio, de Giles Lipotevski, já nos anos noventa. A Loucura da Normalidade, de Arno Gruen, nos últimos anos. É como se um livro pudesse voltar a ser um amigo que se senta ao meu lado e que me ouve rumorejar, acompanhando-me nas questões mais difíceis.
terça-feira, abril 03, 2007
Diário de um Animador
A Televisão Independente da Boavista
Estavámos no início do ano de 1995. Eu tinha sido convidado, através do Raul Melo e do Rui Rodrigues com quem tinha trabalhado no projecto Olivais Vivo, para trabalhar no projecto PATO (Prevenção ao Alcoolismo, Tabaco e Outras Dependências) que iria desenvolver as suas actividades com a pequena comunidade da Escola do Bairro da Boavista. O projecto tinha algumas características que me atraíram desde o princípio (fazendo-me esquecer a minha aversão à sua designação). Trabalhávamos a relação, envolvendo professores e alunos e apenas com aqueles que assim quisessem. Independentemente de actividades que integravam toda a escola, tinhamos um conjunto de temas que começávamos a trabalhar com o primeiro ano e depois íamos integrando o segundo ano e o primeiro ano até que ao quarto ano do projecto estaríamos a trabalhar com todos os anos. Os temas e propostas de exploração tinham a ver com a auto-estima, o grupo, o bairro, entre outros. Estávamos em Fevereiro e por coincidência na semana a seguir a ter começado a trabalhar eu tive que ir a Gijon, à Féten, uma feira de teatro para crianças, fazer uma comunicação com o Carlos Fragateiro. Prometi-lhes por isso que ía filmar a viagem e que depois veríamos em conjunto o filme. E assim foi. Um nevão nos Picos da Europa tornou a viagem, cinematograficamente, bem mais interessante. Depois, muitos dos participantes da Féten, alguns que já conhecia de encontros de expressão dramática em Portugal, fizeram questão de referir as crianças do Bairro da Boavista. Sem saber tinha um tesouro nas mãos. Quando acabámos de ver o filme eles ficaram emocionados. Era o nome do bairro deles que andava pelas bocas daquelas pessoas que falavam linguas diferentes das deles. Eu tinha filmado também alguns espectáculos e conversado com os artistas e todos eles simpaticamente saudavam as crianças do Bairro da Boavista. E não demorou muito a sugestão: vamos fazer um video sobre o bairro para lhes enviar. Este projecto integrou também algumas elementos dos mais crescidos, que já estavam na terceira e na quarta classe. Um deles, estava mesmo em vias de abandonar a escola e já começara a ir com o tio, bate chapa. Tornou-se o camera e assim lá o aguentámos durante todo o ano escolar de 95. Filmámos o bairro. Entrevistámos o farmacêutico, o Dr. Melo, pai do actor António Melo. Falámos com o sapateiro, um comunista ortodoxo que tinha histórias da clandestinidade. Com o Chefe da Esquadra, num ambiente de grande tensão. Já falei disso aqui. Muitos deles tinham a esquadra como um lugar onde alguns dos seus familiares já tinham sido apanhados e, segundo eles, sem grande meiguice. A conversa começou por isso com algumas acusações e só melhorou quando eles se viraram para as flores que aquele chefe de esquadra cuidadosamente zelava. Era estranho para eles. Havia cães-polícias mas flores-polícias desconheciam. Fomos também falar com o Mestre Filipe que tinha o seu Atelier de Marionetas no bairro. Chamámos ao vídeo a emissão da Televisão Independente da Boavista e ela andou por aí, tendo sido mostrada no CCB e em Metz. [continua]
FARROPE DE POESIA - JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
As terças do B.leza mudaram desde há uns meses, quando a Sofia Marques juntou amigos e começaram a organizar o Farrope de Poesia. Hoje são os poemas de Joaquim Manuel Magalhães. Lidos por Mónica Garnel, Patrícia Silva, Tiago Barbosa e Vitor Gonçalves. Como sempre procuram-se relações entre as palavras e as sonoridades. Desta vez os músicos são Gonçalo Alegria e Benjamin Brejon. É ás 23h, pagam-se 3 €.
Rumor
Ouço música. Música de Câmara, música clássica galega. No violino Evgeny Maryatov e no piano Marianna Prjevalskaya. Tocam a Sonata, Op 37 de Andrés Gaos (1874-1959) e de Manuel Quiroga (1892-1961), Guajira nº1 e 2, Habanera, Alborada e Danza Argentina. Deixo-me ir. A música continua a ser um mistério para mim. A sua base é o ritmo de um corpo e quem sabe o que esse bio-ritmo esconde enquanto acordo íntimo com o mundo, o universo, o príncípio e o fim do movimento? As nossas palavras podem ser quase musicais, as nossas imagens, desde as pinturas rupestres, podem ser delírios, visões, mas nada transcende tanto a humanidade como a música, esse território das sonoridades e das melodias. Diante da música qualquer um de nós se transfigura. Os homens e as mulheres tornam-se possíveis pela música, por esse sussurro, por esse cavalgar harmónico. E tudo o que digo são palavras e as palavras, mesmo as mais belas, morrem no palato. Deixo-me ir. Há uma condição de impossibilidade na relação musical que um corpo estabelece com o mundo. Precisaríamos do silêncio para que essa sinergia estacasse na sua perfeição de apoteose musical. E onde o silêncio absoluto senão na paragem absoluta? Não. Aos vivos não é dado mais que a interpretação do lugar e do momento onde o silêncio ocorre. Podemo-nos calarmo-nos e mesmo assim grita em nós essa ideia de silêncio que nos envolve. Somos rumor, não podemos deixar de ser rumor. Somos rumor em busca permanente do silêncio que, no nosso caso, não é mais do que a articulação melódica do nosso próprio batimento de seres esperançosos, de seres devorados pela esperança.
A vida dos outros
segunda-feira, abril 02, 2007
Lá na terra
Lá na terra tenho uma horta. A esta altura a horta já está morta. As batatas estão podres, porque ninguém as apanha. Quando eu sair daqui, deste hospital, volto à terra.
Às vezes tenho uma raiva à minha Otília, eu magro tão magro que estava e ela nunca mo disse. Só um dia destes em que estava no banho, é que percebi que os ossos dos ombros faziam força para sair e a pele estava mesmo quase a ceder. Eu não ia dizer-te que estavas muito magro, não podia.
Não quero ambulâncias à minha porta, já disse. Lá em casa tenho uma caçadeira. Sou uma pessoa pacífica, não é para fazer mal a ninguém. É mais para me defender.
E eu juro que se ambulâncias à minha porta, eu faço uma loucura.
O campo deu-me tudo. E matou-me a fome. Fui explorado.
Em tempos tive de sair de noite e ir roubar favas e batatas. E não era para vender. Era para comer.
Hoje, enfiar a enxada na terra, ver a chuva cair, arrancar as ervas daninhas, é tudo o que sei fazer. Seria triste não seria? Ver os meus vizinhos a chegarem com sacos de plástico cheios de hortaliça para a Otília fazer sopa.
Era bonito, mas era triste. Não há nada como as batatas da minha terra.
domingo, abril 01, 2007
A Boytchévia
O Coronel Pássaro
A peça de Hristo Boytchev lançou-o na dramaturgia contemporânea. É impressionante o trajecto e o currículo que este texto fez na cena internacional. Subiu ao palco mais de trinta vezes em 25 países. Ganhou prémios como o British Coucil e o Enrico Maria Salerno, dois prestigiados prémios em Inglaterra e Itália, respectivamente. O percurso de Hristo Boytchev também é curioso. Aos quarenta e seis anos este engenheiro de profissão, que estreia o seu primeiro texto dramático com trinta e quatro anos, ganha um subsídio estatal para realizar o filme O coronel pássaro. O ano de 1996 será aliás um ano distinho na sua biografia. Torna-se autor e apresentador do seu programa de televisão e candidata-se a presidente da república búlgara, utilizando o tempo de antena para realizar um happening político-cómico (trinta dias em prime-time) e acaba por conquistar aproximadamente 2% dos votos (terá sido a fonte de inspiração do nosso Manuel João Vieira?). É depois disso que O Coronel Pássaro tem a sua impressionante ascenção na cena teatral internacional. O texto debruça-se sobre a vida num asilo psiquiátrico perdido num Mosteiro, instalado numa zona sem fim, quando aí chega um novo psiquiatra. Os loucos sobrevivem porque a população lhes traz madeira e comida, quando vêm ver as notícias na única tv existente nas redondezas, pertencente a um dos loucos. A televisão não tem som mas como ele aprendeu a ler nos lábios recita as notícias, as falas dos personagens dos filmes. A sua transcrição de Casablanca é um momento de grande comicidade. No asilo a vida passa-se ocupando-se com as diferentes paranóias de cada um deles. Um está imóvel durante toda a primeira parte, com um olhar catatónico, sendo revelado apenas pelo que dele dizem. Outro tem medo que o mundo o esmague, o pise, e por isso constrói um abrigo com a sua cama. Outra era a Maria Madalena de uma fronteira onde paravam os camiões de pesados. Atemorizada pela sua vida luxuriosa arrasta-se agora, mais à sua cruz, por aquele asilo perdido. Um era um ladrão incorrígivel e incontrolável. Havia também o velho cigano que se vinha tornando impotente. O homem tv, o tal da tradução simultânea. Os homens e a mulher dormiam todos no mesmo quarto, para se abrigarem do frio, já que a madeira escasseava. A vida desta pequena comunidade é alterada quando caixotes das Nações Unidas destinados à Bósnia se despenham nas imediações do Asilo. Fardamento e alimentos que tornariam autónomo o asilo por vários anos. Num ápice os loucos transformam-se em garbosos militares sobre as ordens do coronel Fetissov, que tinha estado completamente imóvel e que se vem a descobrir ser uma importante patente da aviação russa. Este coronel consegue também criar um delírio entre todos, que esquecem as suas paranóias e vão sair do Mosteiro em busca da sua loucura, acabando por integrar o psiquiatra, que se apercebe que pouco rendimento teve por ter seguido a razão humana. O texto apresentado agora pelo Teatro da Rainha, numa co-produção com Al-Masrah e Odivelcultur, tem encenação de Fernando Mora Ramos, cenografia de José Carlos Faria, música de Carlos Alberto Augusto e interpretação de José Eduardo ( Davud), Vitor Santos ( Fétissov), Isabel Lopes (Pepa), Jorge Estreia (Matei), Carlos Borges (Hatcho), Pedro Ramos (médico), António Plácido (Ilya)e Octávio Teixeira (PeKto). Estreou a 8 de Março no CCB e está ainda hoje, à tarde, no Teatro da Malaposta, dirigido pelo Manuel Coelho.
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