segunda-feira, abril 30, 2007

Comuna-Teatro de Pesquisa

Pela meia noite cantaremos os parabéns a um dos colectivos mais importantes da nossa vida teatral. Dançaremos ao som de uma "Kumpania Algazarra". E eu, andarei por onde, por qual tempo, naquele espaço?

domingo, abril 29, 2007

Da degenerescência das coisas substantivas

coisas que não se deveriam escrever, outras que não se deveriam ler. Mas já que as escrevemos e as lemos, fique-nos ao menos um consolo: há ainda um 25 de Abril que nos divide o que, para nós que escrevemos em blogues, não deixa de ser promissor. É claro que, sobre esta questão, o discurso de Paulo Rangel, o principal talvez nos escape entre os dedos e talvez se resuma a um argumento do Luís ( se o próprio lhe prestou a devida atenção é outra questão): " a intervenção de Paulo Rangel é um acto esquizofrénico em relação à actuação do Governo e do seu próprio partido". Ou seja, a intervenção de Rangel enquanto ataque de um deputado da bancada do PSD ao Governo acaba por afundar-se na mera retórica da chincana política e aí a ideia de que aquilo confere dignidade a alguma coisa parece totalmente excêntrica. Dizer que "nunca como hoje se sentiu uma tão grande apetência do poder executivo para conhecer, seduzir e influenciar a agenda mediática" tende, sorrateiramente para a demagogia. O que é o hoje? O hoje de Sócrates? O hoje da sociedade contemporânea, onde integramos a actuação política dos principais partidos? O hoje de Paulo Portas e Durão Barroso onde ainda hoje não se sabe - saber-se-á alguma vez para além da dulcíssima suspeita que se tornou amante de quase todos os nossos actos políticos?- até onde o controlo nas secretas, da agenda mediática, do combate político assassino, condicionou a República? O mais grave de tudo isto é que Paulo Rangel não tendo razão, falou de coisas verdadeiras, coisas que nos deveriam preocupar a todos, coisas para as quais não nos basta a nossa preocupação. Eu não sei explicar isto muito bem mas é mais ao menos assim o que eu penso: estamos a discutir o nosso tempo com o aparato ideológico que herdámos. Só que o nosso tempo, naquilo que ele tem de mais perturbador, já não é este mas o outro que neste se anuncia. Teremos por isso de o discutir com instrumentos ideológicos desse outro tempo que já hoje se anuncia ou então nunca perceberemos nada daquilo que se passa à nossa volta. Parece díficil? O mais complicado ainda está para vir: para construirmos os instrumentos ideológicos que nos ajudarão a compreender o tempo que se está a forjar nas horas, nos minutos e nos segundos que aqui e agora são, temos de utilizar os esquemas ideológicos que temos arreigados dentro de nós. Já parece suficientemente difícil a tarefa? Ainda não é nada. Vamos lá ao nosso aparato ideológico: ele tem lá dentro um lado A e um lado B. O lado A é o da conservação da tribo através dos trabalhos e ofícios de manutenção do paradigma político, seja ele qual for. O lado B é o da sua superação. É a destituição da tribo, a ideia de comunidade inter-tribal. Conhecemos o exemplo de Gorbachov. Cresceu dentro do partido, ascendeu ao poder como voz do lado A e tornou-se uma referência mundial a partir do momento em que organizou o seu discurso político a partir do lado B.
No outro dia tentei aflorar a questão quando falei da forma como todos nós interiorizamos distraidamente o modus operandi totalitário. Sócrates, Portas, Durão, não têm importância nenhuma neste contexto, não é por eles que chegaremos às evidências necessárias. Pelo contrário. Como estamos a construir o totalitarismo em democracia, o que Sócrates avançar no domínio do controlo totalitário sobre a informação que dispomos, que colocamos disponível, será usufuido por um Rangel, um Paulo Rangel que nessa altura já não terá dignidade nenhuma e terá uma revisão em alta das suas gravatas, dos seus fatos, e tudo isso condizirá, não tenhamos disso alguma dúvida, com a estética vigente na época. Não adianta queixarmo-nos. É assim. Cavaco Silva absteve-se no tratado de adesão e foi o primeiro governante a tirar reais dividendos políticos da nossa integração comunitária. Sendo assim o discurso de Rangel é tão importante como a sua gravata descoincidente. Querer que nós vejamos Sócrates como o Grande Ditador - e ainda por cima usando retórica de contrabando como a alusão aos recentes casos mediáticos que envolveram o primeiro-ministro - é um disparate tão grande que só terá alguma produtividade enquanto discurso de manutenção da tribo, mas que, como todos os discursos de tipo A, servem exclusivamente para isso, para esse reforço tribal.
O que o que eu quero dizer é - e não façam ainda festa nem festim da minha incapacidade de explicar o que eu quero dizer - que deveremos analisar o totalitarismo não à luz das antigas permissas ideológicas ( que nos fazem identificá-lo automaticamente com as derivas fascistas e comunistas) mas com uma construção possível nas sociedades democráticas. Politicamente estamos protegidos ideologicamente das derivas totalitárias, mas a Constituição nada nos diz, nem podia dizer, sobre a aventura da totalidade que emerge sobre cada um de nós enquanto sujeito político. Porque por mais que não o pensemos, os nossos mais pequenos actos quotidianos estão carregados de uma dimensão política. É sobre esse paradigma, o da aventura da totalidade, que deveremos discutir esta tentação do Estado controlar toda a informação, ter uma eficiência absoluta sobre os processos de controlo dessa informação. Porque o Estado socrático não se legitima sobre uma qualquer aspiração de mudança de regime - querer imaginá-lo é chegar ao rídiculo de perspectivar Sócrates como aqueles governantes terceiro-mundistas que chegam ao poder democraticamente e se dedicam depois a construir as teias e os tentáculos de um poder discricionário e totalitário - e sim sobre aquela função que lhe parece intrínseca, servir melhor a comunidade. A construção política da aventura da totalidade é apenas um dos seus aspectos. Há anos que qualquer um de nós já se excita com essa aventura de poder estar sempre em todo o lado e em toda a parte. A omnipresença e a omnisciência são duas das condições que qualquer um de nós pede, que digo eu?, pede?!, exige, ao deus tecnológico. Hoje, ao contrário de ontem, o totalitarismo não parece um dispositivo político e ideológico claro, que identifique sem margem para dúvidas opressores e oprimidos. Nem existe repressão, no sentido que nos habituámos a conferir. O que existe hoje é mais suave, chama-se contenção. O Estado, seja o Barroso, o Socrático, contêm as hordas, as tribos selvagens e aí age num pressuposto securitário que encontra eco dentro de nós. Existe antes uma euforia do sujeito entregue à aventura da totalidade. Eu concordo com todos os que se levantarem para exprimirem a sua perplexidade pela forma como esta aventura parece incapaz de nos fazer chegar a uma ideia de felicidade que, como mnemónica de outros tempos, alguns de nós ainda têm dentro de si. E que por isso não a devem esquecer. Devem ser dela testemunho. Para que a perplexidade se instale e a inquietação ainda seja traduzível como sinónimo de felicidade. Há também que não perder de vista isto: a ligação, a conexão, a integração, qualidades que, euforicamente, estamos a explorar hoje, são também elas condições que parecem realizar-se, de uma forma mais plena, ou de uma forma que antes não conhecemos, na aventura da totalidade. Estas atitudes do Estado, que parecem tiques herdados dos totalitarismos tradicionais, não são mais do que emanações da imersão do viver comunitário na aventura da totalidade onde cada um de nós já cedeu, a troco da integração, da conexão, os seus privilégios identitários para um enorme banco comum de dados.
Não vejam nas minhas palavras alguma luz. Eu não sei pensar o que aí vem. Ainda só compreendi a inutilidade de insistirmos em pensá-lo a partir do que já passou.

Revisão em alta do sujeito da enunciação

Apetece-me a vida. É Maio e em Maio tenho sempre este vício, esta vontade de fazer parte da alegria com que a terra engendra os seus pequenos gestos de heroísmo recalcitrante.

Sotão

Quando morei na Ada-Pêra, ali ao pé do Sobreiro, a minha casa tinha sotão. Estava desocupado, com tralhas, caixotes, que nós arrumávamos fazendo dali os nossos espaços de brincadeira. Em dias de chuva o sotão era o nosso lugar de eleição. O João e o Pedro adoravam que eu condescendesse em brincar com eles o jogo dos restaurantes e dos hotéis. Era muito simples. Com uma enxerga velha o meu irmão Pedro ía buscar uma coberta e fazia uma cama. Punha umas velas. Fazia uma divisória com caixotes de revistas. Era um quarto de hotel. O meu irmão João utilizava os caixotes para fazer as mesas do restaurante. Punha-lhes um naperron, feito cm papel ou jornais velhos recortados. As ementas não eram muito variadas mas gozavam com a proximidade que havia entre as escadas de acesso ao sotão e a despensa. Açúcar com água desfeito, para sobremesa. Depois havia uma longa lista de acepipes cozinhados à luz da vela: bolacha maria queimada pela vela, esparguete queimado pela vela. Aparas de bacalhau queimadas pela vela. Uma paparoca qualquer que envolvia manteiga caseira que a minha mãe fazia, cacau e açúcar. O Pedro e o João estavam empenhadissimos em que eu não lhes dissesse não. Por isso, o jogo para eles começava mais cedo. Organizar o restaurante e o hotel e fazer o dinheiro para eu gastar. Nesse entretanto eu andava a fazer viagens pelo mundo e o mundo era o sotão dividido em diversos continentes, todos eles com caixotes de livros, de revistas, de manuscritos. E depois, sob o olhar incrédulo deles que me achavam muito gastador, eu ía derretendo as notas e moedas (passávam o lápis por cima de uma moeda e depois recortávam-na, o João, mais perfeccionista, por vezes até lhe colava um bocadinho de cartolina) que eles me tinham dado. No dia seguinte, se era chuva, lá voltavam ao mesmo. Faziam o dinheiro que eu gastava de forma perdulária, a troco de uma vida de excursionista hospedado nos melhores hotéis da Moradia da Andorinha Negra e barrigadas de acepipes exóticos como aparas de feijão verde cru e pele de bacalhau queimada à luz da vela.

Fazer sexy

Penso que já contei aqui uma vez o privilégio que tive, quando tinha os meus seis, sete anos, de ter ouvido da minha história a verdadeira história sobre a reprodução. No pátio de uma escola que ainda se comovia com as histórias da cegonha fui herói por uma semana. Esse é um mistério que o Pedro já não terá. Hoje, a meio de uma brincadeira qualquer, que invariavelmente, já não sei por que ordem, incluia guerra de almofadas, chamar-me lagarticha gorda e puxar-me as calças para baixo, resolveu vaporizar-me com o seu perfume petit patapon. - É para fazer sexy. Não percebi à primeira. Pareceu-me que seria para ficar sexy. - O que é que disseste?
- Fazer sexy. Não sabe o que é?
- Não.
- É namorar. - disse ele recuando. Entricheirou-se no não querer mais falar. Consegui demovê-lo:
- Não me vais contar o que é fazer sexy?
- O pai depois fica zangado comigo.
- Fico zangado se não contares.
- Não quero falar mais nisso, pai.
- E os teus amigos sabem?
- Sabem. Até dá nos filmes.
- E não me contas?
- O pai não vai gostar e depois fica zangado comigo.
- Olha lá, eu alguma vez me zanguei contigo por causa de alguma coisa que tu me contasses? Eu não sou assim.
- Está bem, mas não quero falar.
- Já estou a ver, toda a gente sabe e só eu é que não. As pessoas vão gozar comigo quando eu lhes disser que não sei o que é fazer sexy.
- Promete que não se zanga?
- Zango-me se não me ensinares.
Aproximou-se da minha orelha:
- São as pessoas a namorarem nuas. Isso é que é fazer sexy.

Romance

Escrevi o meu primeiro e único romance dos catorze aos quinze anos. Escrevi-o à mão, naqueles cadernos sebenta que tinhamos dantes, com capa grossa azul e verde, conforme fossem de linhas, de desenho ou quadriculado. Mostrei-o ao apicultor, que me mostrou um conto de natal que tinha escrito. Desse amontoado de folhas só restarão cinzas e essas, onde já lá vão. Nunca mais me abalancei ao género. Timidez, humildade, sentido das minhas limitações, de tudo um pouco. Uma vez comecei também a escrever uma novela. E escrevi Geraldo Carne e Osso em história corrida, depois de o ter escrito em teatro. Tenho também um conto, um único conto, escrito há muitos anos. No entanto há cinco ou seis anos comecei a escrever uma história sobre a minha geração dos Olivais. Já tinha título e até, princípio de enredo. Comecei-o e terminei-o logo ali às primeiras páginas. Agora voltei a pensar nele. talvez o vá buscar lá acima, à arrecadação e comece de novo a escrevê-lo. Os Olivais, os que lá vivemos, as vidas que projectámos, tudo isso merece uma história. Ainda não me sinto com maturidade para a contar mas é sempre assim, começo primeiro pela vontade.

Caixa de Correio do Respirar

Descubro agora que desde que mudei a caixa do correio (ali na coluna do lado em Respire o mesmo ar) do sapo para o gmail que o endereço aqui colocado, por terminar em gmail.pt, era inexistente. Eu sei que isto para um antigo carteiro não é uma grande glória, mas agora já está corrigido. As minhas desculpas a quem tentou emailar e recebeu o seu correio de volta. Para compensar o incómodo, e com o acordo especialíssimo dos CTT, durante a próxima semana os emails que enviarem para esta caixa não precisam de selo. Nem tão pouco de parecê-lo.

Concílio de Lisboa

Deixei o catolicismo há muitos anos, pelas mãos do Exame de Consciência de Somerset Maughan primeiro, depois com ajuda de o Existencialismo é um Humanismo?, livro prefaciado e organizado por Virgilio Ferreira, teria entre treze e quinze anos. Tenho por isso um longo distanciamento das teorias, das práticas e dos próprios rituais religiosos. Mas aquele somos filhos de Jesus e de Santa Maria parecia-me algo incestuoso e com pouco rigor teológico. Por isso, honrando a formação eclesiástica de meu pai, ao vesti-lo de manhã, aproveitei para fazer um pequeno concílio para revisão da matéria biblíca:
- É verdade, tu ontem disseste que somos todos filhos de Jesus e de Santa Maria?
- Não sabe? O pai não sabe?
- O que tu queres dizer é que somos todos filhos de Deus, não é? Na história que tu me contaste Jesus é nosso irmão e Maria é sua mãe.
- Que parvoíce, pai.
- Então?
- Jesus é nosso pai, nós somos filhos de Jesus.
- Não, nessa história, Deus é o pai de Jesus através do Espírito Santo. E Maria, mulher de José, é a Nossa Senhora, mãe de Jesus.
Olhou para mim, incrédulo. E fechou a conversa, ou este breve Concílio de Lisboa:
- Quando o pai for pequeno, compreende.
Sem o saber estava à porta de uma nova enunciação da teoria da relatividade.
- Achas que eu vou ficar mais pequeno?
Pôe-me a mão no alto da cabeça e pressiona-a, para baixo:
- Eu vou crescer assim, assim, e o pai vai ficar cada vez mais pequeno.

Não sei explicar

Está feito de mel. Abraça-se a mim. Agarra na minha mão. Digo-lhe:
- O que é que se passa?
- Nada.
- Estás muito abraçento.
Ele aninha-se contra mim.
- Gosto.
- Eu também gosto. Quando era da tua idade as alunas da avó andavam sempre comigo ao colo. Fizeram-me tantas ou tão poucas que agora fiquei viciado em abraços, festas, carinhos.
- Não faz mal. Eu dou abracinhos ao pai.
- O que é que tu tens?
- Nada.
- Estavas com saudades?
- Não sei explicar.
Não percebi. Disse-o de forma tão sumida que não percebi.
- O que é que disseste?
-Não sei explicar, pai.

Metade pai, metade mano

Ontem trazia uma novidade.
- O pai não é meu pai!
Acontecem estas revelações, não costumam ser os filhos a fazê-las, mas acontecem. Preparado para tudo não dei de mim quando perguntei:
- Não sou teu pai?
- Não. Nós somos todos filhos de Jesus e da Santa Maria e por isso o pai é meu irmão. Não é meu pai. Os meus amigos também são meus manos. Na Terra somos todos manos uns dos outros.
Hoje, à noite, estavamos enroscados no sofá da sala a ver o Oliver Tsubastu, condescendeu:
- Se calhar o pai é metade pai e metade mano...

sexta-feira, abril 27, 2007

Animador

Tenho um pequeno salpico de dor na alma: gostava de fazer mais, um pouco mais, pelo que me rodeiam. Não é deixar uma marca. Isso já passou. Agora só queria ajudar algumas pessoas a tirarem algumas marcas mais fortes, mais gravadas na carne. É um desperdício que não saibamos o que andamos a fazer neste mundo e que soframos com isso. Devíamos sempre andar a dançar como os anjos, foder como os cães e rir como os loucos. E nos intervalos ouviriamos música, exorcizávamos os nossos fantasmas, íriamos à praia, dançávamos como os cães, fodíamos como os anjos e riamos da nossa loucura. A dor que cada um transporta torna o mundo mais doloroso para todos nós também. Não nos apercebemos disso logo, mas acredito nisso. Por isso, trabalhar para desfazer-as-marcas-na-pele-da-vida-dos-outros pode ser um projecto de uma vida. Quando era criança queria ser missionário. Depois descobri a força, a magia da palavra animador. No outro dia uma professora quiz entrevistar-me para falarmos do meu percurso enquanto animador ( só fiz uma meia dúzia de coisas nesse campo mas como sou bom no falar abrilhanto qualquer trabalho mais ou menos académico). E lembrei-me de que há vinte e quatro anos estava eu a descansar no Jardim da Gulbenkian, aparece-me uma jornalista do Diário Popular a fazer-me uma daquelas entrevistas rápidas em que apanhavam pessoas desprevenidas na rua. Cá em cima aparecia o nome e a profissão. Na minha surgia, animador sócio cultural. Já experimentei muitas actividades. Gosto por exemplo de dizer que sou dramaturgo mas não só isso não existe como a única coisa que agora escrevo de forma regular é isto, estes textículos (como dizia o Luís Pacheco). A única coisa que em mim brilha é esse caleidoscópio de possibilidades contidas na palavra animador.

João Perry, as entrevistas

Ontem a Elisabete França trouxe-nos uma boa entrevista com o João Perry a propósito da sua estreia no Teatro Aberto (gostei quando ele mostrou o seu afecto pelo Teatro da Trindade enquanto espaço). E hoje, num Ipsilon bem suculento, Maria José Oliveira entrevista também este grande actor. Há algo de raro nele. O teatro é o paradigma do movimento, do ser e estar em movimento. Por isso às vezes é tão frenético, tão literal nesta apologia de tudo o que se mexe, ou melhor, na absoluta necessidade de imprimirmos movimento a tudo o que existe. A maior parte dos actores cai nesse engodo. São muito exuberantes nesse excesso de movimento. Adoptam sem questionar o mandamento máximo de "o espectáculo não pode parar!". Pode sim, é o que nos diz João Perry. O estar sempre a trabalhar, o fazer tudo sem critério, torna, a longo prazo, os actores desinteressantes. O palco é essa confluência à procura de equilibrio entre a agitação do mundo e o seu silêncio. Não há teatro sem poesia.

Geleia de marmelo

Penso na coisa mais simples de que sou capaz. A primeira coisa que me vem à cabeça - e é claro que eu estou a fazer simultaneamente este jogo de pensar no que escrevo e de pensar naquilo que digo que estou a pensar - é azedas. Azedas amarelas. Como não há Maio sem papoilas nem espigas também não há campos na infância sem azedas. Aquele suco ácido, refrescante, era a redenção nas tardes quentes. Mais coisas simples: a compota de pera ou de tomate que a minha mãe fazia. Íamos à Malveira comprar a fruta e depois, os três irmãos, descascávamo-la e metiamo-la em alguidares. Lembro-me do pacote de açúcar amarelo em cima da pedra. Agora me dou conta de que a minha mãe era uma perfeccionista. Tinha uma fileira de frascos de tampa escura ( do Nescafé, do Mokambo, da Tofina) em cima da pedra e uns rótulos muito bonitos, com floreados azuis, onde ela escrevia, com a sua letra lindíssima de professora primária, doce de tomate ou doce de pera. E havia ainda a geleia de marmelo. A geleia de marmelo é mesmo a coisa mais simples que eu sou capaz de imaginar.

A ovação

Nunca tinha estado numa despedida assim. A Xana leu o poema que dedicou à Arlete. Logo a seguir alguém coloca um mp3 no chão com o "Eu vim de longe" do José Mário Branco. E depois, quando a canção acaba, rompem os aplausos. Durante longos minutos, os aplausos.

quinta-feira, abril 26, 2007

Idealistas de esquerda

Na despedida da Arlete amigos que não via há longos anos. Uma delas era a Xana, que veio da Holanda para dizer um poema de Carlos Drummond de Andrade. Descubro-a agora, na net, através de um jornal de Cabo Verde, por ser candidata nas eleições municipais holandezas.

Toque terapêutico

Uma pequena homenagem à Arlete, hoje, quando vinha para casa. Corri alguns dos números menos utilizados do meu telemóvel e mandei-lhes uma mensagem. Toquei assim em amigos, conhecidos, até vizinhos. Imagino a ligeira perturbação do outro lado. Alguns daqueles números não utilizo há um ou dois anos. Perdemo-nos com uma grande facilidade. Falta-nos muita vida no nosso viver. Vamos fazer disto uma festa?

Marchinha

Pensavas que o mundo tinha parado? Não parou. Lá vem, redobrado, do pátio da Voz do Operário, ao som das marchinhas. Ainda não cheira a sardinha assada, nem a caldo verde, não é Verão, mas o mundo está a mexer-se.

Código PIN

Eu não sei contar histórias. Às vezes invento-as, outras, por condescendência, algumas pessoas inventam-nas por mim. Mas não sei contar histórias. Por exemplo, como é que eu iria contar que este país já foi uma grande coutada e que depois deixou de o ser e passou a ser regido por PDMs e que, face ao malefício que os PDMs fazem aos negócios, se inventou uma espécie de sigla que é uma mistura modernaça de uma senha, com qualquer coisa bafienta, rançosa, salazarenta, a que nem por decoro, se escusaram de designar por interesse nacional.

quarta-feira, abril 25, 2007

A Indomável Arlete

Telefonou-me o Pedro Queiróz, a dizer-me que a mãe tinha falecido hoje. Há muitas maneiras de recordar a Arlete*. Ela foi a mãe do Pedro mas também de todos nós, os que fazíamos o nosso porto de abrigo na sua casa, em cujas paredes nós podíamos escrever poemas, desenhos. Recordo-a, por agora, numa homenagem breve, com as palavras que o António, seu marido, escreveu por cima da porta da sala que dava para o corredor: "-A indomável Arlete!". E com as que ela própria escreveu, em letras garrafais, na parede do fundo da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar".
E será em Abril, naquele dia 25 que, desde há trinta e três anos, sempre lhe trouxe um cravo vermelho, que se tornará partícula, cinza, poeira, naturalmente cósmica.
[Acabo de passar na homenagem que o João Monsanto lhe fez aqui e percebo a razão de ser da minha alegria, discreta, recolhida é certo - e que de tão reservada quase se diria apática - mas alegre. É que as pessoas como a Arlete não desaparecem assim, à primeira morte que lhes aparece pela frente. ] lk ç l................
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*Arlete Canhoto Abreu foi durante muitos anos professora da Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa tendo aberto, de forma absolutamente pioneira no contexto do ensino da Enfermagem em Portugal, os Cursos de Enfermagem a experiências que valorizavam a animação sócio-cultural, as terapias expressivas, a expressão artistica e a criatividade, tendo marcado gerações sucessivas de alunos. A minha ligação a esta Escola, desde 1992, surgiu a seu convite e foi com ela que trabalhei durante quase oito anos. Referências no Respirar: Vinte anos abertos ;Testemunho de João Monsanto, seu amigo, com quem Arlete Abreu trabalhou de uma forma continuada durante mais de vinte anos, encontrado no seu site.
Informação: O corpo estará amanhã de manhã na Capela Mortuária do Centro Paroquial de Santa Maria dos Olivais nos Olivais Velhos (acesso pela Av. que, na continuação da Avenida de Berlim, segue para a Gare do Oriente) , onde, pelas 12h, haverá uma cerimónia litúrgica. Será cremado pelas 13h30, no Cemitério dos Olivais.

Porque é que acabamos sempre sós?

À tardinha há quem desça o Chiado, ele, o Rogério, o Rogério de Carvalho, eu subia. Cruzámo-nos ali num abraço antes de chegar à Brasileira. Encostamo-nos à vidraça e ali nos plasmámos. Falo-lhe da fotografia que lhe tirei no 25 de Abril, ele encostado também assim a uma parede, no Rossio, num Rossio pejado de gente. - Já nos conhecíamos no 25 de Abril? -pergunta ele admirado, esclareço, neste, o de 2004. Ah, estava lá, pois foi, foi, foi Rogério, e tás no Trindade?, estou, sim, o que fazes?, vamos fazer obras lá, é pá vocês não vão mexer na sala, provoco-o, vamos claro, mas deixamos o lustre, o charme, a boca dele parece um peixe a soçobrar, vão mexer na sala!!!, claro, não temos outro sitio amplo para meter um elevador com vistas, vamos pôr um daqueles elevadores muita giros como há na Zara, sabes, imagina as pessoas a subirem para irem lá acima à mezzanine mordiscar os canapés, as santolas e poderem ver os destroços da coisa, da coisa? perguntas, sim, da sala, respondo, estou a ficar com pena de ti, ainda tenho de chamar o INEM, mas a maldade, a maldade, continuo, e lá em cima um restaurante panorâmico, coisa chique, entendes, é claro que a esta altura eu estou a dar o meu melhor para aguentar a peta, e a sala?, pergunta ele, como se nos escombros tivesse à procura de algo, a sala pra teatro acabou, ninguém quer mais saber de teatro, Rogério, só nós, e nós não precisamos de tanto espaço, um estudiozeco qualquer já nos consola, é um desperdício de dinheiro, ele encolhe os ombros, já nem sabe se por perder um teatro se por perder também um amigo há-de me confessar depois, e por nostalgia, pergunta de encenador, claro, e qual vai ser o espectáculo que vai encerrar a sala?, continuo nas alarvidades, vai ser um espectáculo escrito pelo Freitas com a Teresa Guilherme e com aquele gajo muita conhecido da TVI, e quem encena, o José Eduardo Moniz, e, é nesta altura que deixo de me conter, coitado do Rogério, rebolo-me de riso, ele aliviado também, pregaste-me cá um susto, lá mudamos nós a agulha, ele estava já com taquicardia, é pá, pregaste-me um valente susto, mas tu estavas a cair, este argumento do dinheiro dá para tudo, disse-me ele, pois dá, este argumento do dinheiro dá mesmo para tudo, mudamos de agulha, já está mais tranquilo, até me convida para ir ver o Cerejal, vou, estou com a ideia de que amanhã desço -ou subo?- a Coimbra, do teatro passamos para as nossas vidas, é mentira, nós nunca começamos a falar das nossas vidas expontaneamente, começamos por mulheres, as mulheres, estão cada vez mais bonitas neste começo de outono, uma babilónia no feminino nesta cidade cada vez mais saloia e cosmopolita, pois lá estou outra vez - ele lembra-me, há cinco anos, um pouco mais à frente, ali, ao Camões, estávamos a trabalhar na Fronteira, espectáculo com actores lusófonos, a conversa repetiu-se - agora ele também está, afinal a conversa não é sobre mulheres, é sobre o género, a solidão, eu queria era uma companheira, olho-o, abraço-o, e lá me sai a frase que dá o nome ao texto e que o faz obrigar-me a prometer-lhe escrever uma peça sobre isso, pois é, não se sabe, porque é que acabamos sempre sós?
[A foto foi tirada em 25 de Abril de 2004. O texto escrito em Novembro desse ano mas colocado em rascunho. Estava à procura de textos sobre o 25 de Abril para poder fazer um marcador próprio. E sei lá porquê, salvo este do esquecimento, do rascunho]

terça-feira, abril 24, 2007

Terças ao fim do dia

É já daqui a bocadinho, às 19h, no Teatro da Trindade (Entrada livre) que começa a tertúlia O Trindade no Camarim, onde vão estar presentes actores e actrizes que vão falar da importância que para eles tem esse espaço de natureza provisória, da forma como o organizam.
O camarim , que é muitas vezes partilhado, improvisado, funciona para o actor como o primeiro lugar do ser em transformação que ele é. Vão estar presentes Ângela Pinto, Anabela Brígida, Emanuel Arada, Orlando Costa e Pedro Alpiarça. A conversa será moderada pelo jornalista João Paulo Baltazar.
Há muito que elas e ele fazem publicidade enganosa. O Blogue que ninguém lê é um lugar de leitura repetida onde as palavras tem os cheiros próprios de tisanas variadas e coloridas servidas ao crepúsculo.

segunda-feira, abril 23, 2007

O roxo da soagem

A vida de regresso à planície.

Conta-me como...

Deliciado com a nova série da RTP. Também não é para menos. É um privilégio ter uma série em que nós somos o personagem principal. Pelo menos é assim que me sinto. Tem lá quase toda a minha infância. O Fugitivo, o pão por deus, as revistas, a televisão a preto e branco, o esconderijo (em vez do camião era um moinho), os irmãos.

domingo, abril 22, 2007

Livro de bolso: Contra o fanatismo

O meu livro de Amoz Oz começa a ficar com verrugas, feridas, marcas. Anda comigo no bolso esquerdo das calças há alguns dias. Talvez seja para muitos uma forma desrespeituosa de tratar um livro. E eu, sem grande convicção, anuirei, como quem deixa a banda passar. Compenso-o de muitas formas: com aquele prazer com que, sempre que vou à minha esplanada, descubro que afinal tenho um livro para ler; com a atenção com que me dedico a ler os vários ensaios do escritor israelita. E finalmente, com a boa disposição com que fico depois de ler os seus textos em que uma das maiores tragédias políticas da actualidade é visitada com um sadio humor. Uma ideia de Amoz Oz contra o fanatismo: imaginação para nos colocarmos no lugar do outro.

Respirar

Respiro fundo, como aprendi, há vinte e tal anos naquela sala de tapetes vermelhos onde o João Mota nos conduzia para lugares imensos de calma, de equilibrio, de encontro. Inspiro profundamente, como se fosse um ar azul, calmo, tranquilo, expiro com determinação, como se fosse um ar vermelho, violento,as guerras que tenho dentro de mim. Cada um de nós é a sua história e a ela reescrevemo-la todos os dias. Em cada sopro. As minhas palavras têm a cor do ar que respiro.

Intranheza

Tudo isto tem daquele humor que salga a vida: por vezes nos meus dias dou-me conta de uma estranheza, uma fina película de estranheza que me cobre os gestos, o olhar e que me faz perguntar o que faço aqui nestes lugares a que chamo meus, com estas pessoas a que chamo minhas. Sorrio. Não são sempre estes momentos, são por vezes, e até, poucas vezes. E já não me assustam, nem me entristecem, nem me perturbam, como aconteceu tantas vezes, ciclicamente, desde a minha infância. É essa estranheza que me intranha dentro de mim, que me torna próximo, que me diz que depois de tantas vidas e tantas mortes, ainda sou eu a transportar os meus dias. Sorrio, esses meus momentos fazem-me descansar da realidade. São um pouco como aquele tirar dos óculos da minha amiga a deixar os seus olhos míopes navegarem por sombras, contornos, pedaços de luz.

sábado, abril 21, 2007

Errância

Esperar a noite. Há uma inquietude. Como se fosse uma brisa. Tudo isto, se não fosse assim, poderia ter sido de outra maneira. Há um travo de angústia, como se fosse uma pequena malagueta incorporada no espírito. As histórias mais bonitas são as que nos dão mais vontade de chorar. Outros que não nós merecem-se na certeza. Nós fomos feitos para isto, para errar. Errantes.

férias a cavalo

tenho uma amiga. uma amiga que se ocupa com a maternidade. está em casa, vai buscar o filho à escola e faz-lhe companhia a ver os simpsons. e espera. pelas férias e pelo sol para ir para a praia. o marido gosta de cavalos. o dinheiro que faz com a loja que têm nesse país estrangeiro destina-se aos cavalos dele e às férias dela. ela não percebe os cavalos assim como ele não percebe a areia quente e os pés inchados e a dificuldade em estacionar. nestas férias, por causa da chuva, a rita adiou a ida à praia. ficou com os cavalos. a penteá-los. a conversar com eles. lembrou-se de ir buscar o rádio antigo de cassetes e de pôr a tocar uns tangos roufenhos. as férias acabaram. e os cavalos têm saudades de ouvir tocar o pequeno rádio.

Old Joy

A minha segunda tentativa Indie 2007, desta vez feliz e acordada. Old Joy de Kelly Reichardt. O menino que está debaixo do saco de campismo é mesmo o Will Oldham, cantautor de matiz folk. São dois velhos amigos que já não se vêm assim tanto (um deles já é quase pai e o outro teima em não crescer) seguem viagem rumo às Cascade Mountains, em Oregon. Procuram uma nascente de água quente. Sem o saber ou querer procuram quem foram, quem são e onde vão. Uma busca espiritual que dura um fim-de-semana. Old Joy é a alegria nostálgica do encontro, a constatação de que a cumplicidade não se esgota, nem acaba, mas antes sofre o poder transformador do tempo. Tão concentrados que andamos na conceptualização de maniqueísmos, surpreendemo-nos com a dica da personagem de Will: Sorrow is nothing but worn out joy. A tristeza não é assim tão contrária à alegria. É filha dela.