domingo, maio 13, 2007

Viagens interiores

Onde o corpo é sedentário, o espirito é sedento. Tudo é breve neste cais. As palavras são breves. Os sentimentos são breves. Os gestos, mesmo os de adeus, são de uma brevidade que, na sua simplicidade, chega a doer. Tudo é pensado na condensação da bagagem do viajante.

sábado, maio 12, 2007

sexta-feira, maio 11, 2007

Vadiando

A estrear os jardins digitais. Escrever na rua. Para uma alma vadia, esta é uma aspiração máxima.A noite aproxima-se aqui do jardim, a esplanada está naquele pousio da hora de jantar, o post fecha-se por ele mesmo, tiritando.

Lisboa à vista?

Caiu a Câmara. O Eduardo, no Absorto fala disso e, com conhecimento de causa, refere os mandatos de Sampaio e Soares na CML, o projecto, o plano, as realizações. A cidade mudou nesses mandatos. E mesmo os erros graves feitos em matéria de realojamento, foram realizados à base da ciência social disponível na época, muito centrada na eficácia do controle social e político, no culto da uniformização, na primazia ao baixo custo, e na não-valorização cultural das populações realojadas. Participei nalguns projectos de animação para bairros-de-deslocados-em vias-disso. Estávamos errados. Ou melhor, estávamos certos com o que sabíamos mas sabíamos tão pouco. E entretanto tinhamos que ganhar a vida. A Câmara caiu. Avançaram os independentes. Helena Roseta, que quis discutir com Sócrates o posicionamento do PS face ao futuro da cidade e apanhou com o silêncio do lider socialista. Entregou o cartão e apresentou-se como independente. Espero encontrar a sua lista de assinaturas pelo caminho. É um bom exemplo. É um bom exemplo de como deve ser a política. Como também o é António Costa, de que se começa a falar. O importante é que Lisboa tem eleições à vista. E haverá que ter o pragmatismo necessário para sentar socialistas, comunistas e independentes a uma reunião de trabalho para que possam voltar a pensar juntos num programa para Lisboa. A cidade já perdeu muito tempo com o culto da personalização.

Um Mal que se me deu

Eu não poderia concordar mais com isto, e mais aquilo, e ainda com aqueloutro.

quarta-feira, maio 09, 2007

Um post lindo, de antologia. Lembrei-me do Pedro, à jogar sozinho no pátio, dizendo "ela é a minha melhor amiga", copiando as palavras que vira num dos vídeos do Olivier. E depois, com o comentário da M., sobre os meninos que têm gente dentro de si, lembrei-me de mim, há tantos anos, a fazer concursos que duravam uma tarde, atirando uma bola de meias à cara do poster da Gioconda que estava no fim do corredor. Era uma luta de titãs. Eusébio e Yazalde, chutavam á vez. Eu acho que além de rematar pelos dois ainda fazia de locutor reclamista. Eram tardes incríveis, cheias de gente. Talvez de loucura também.

matéria esfumaçante

quando deixei de fumar, há quatro anos, não me tornei num antitabágico. eu tinha passado os últimos trinta anos a contaminar os ares, os ambientes, que não era capaz de passar agora a ser um férreo defensor dos espaços limpos de fumo. se achava que o ar estava poluído com um elevado teor de matéria esfumaçante, tentava delicadamente ir para ambientes mais limpos. creio até que foi essa minha não crispação com o tabaco que ajudou a que esta separação de trinta anos de fumo fosse uma experiência tão pouco sofrida e tão gratificante. parece-me aliás que há uma grande dose de hipocrisia na forma como a sociedade se desvinculou subitamente da sua responsabilidade na construção social do hábito de fumar. a produção de tabaco foi uma actividade economicamente importante em que o Estado esteve envolvido. a própria plantação de tabaco teve a sua importância do ponto de vista das políticas coloniais. creio que tem havido nesse aspecto alguma correcção da atitude pública, com uma maior preocupação em ajudar as pessoas a deixarem de fumar. a dependência tabágica é uma doença.
mas também não me tornei um anti movimento antitabagista. a minha experiência de não fumador deu-me para perceber os horrores a que durante anos os não fumadores foram sujeitos pelos nossos hábitos esfumaçantes. como diz a f., só por amizade, só por uma profunda amizade diante do sofrimento da privação, um não fumador partilhou espaços fechados, pouco ventilados, com uma elevada concentração de fumo. as nossas crianças foram educadas num espaço totalitário desenhado à medida dos fumadores. é tempo de dizer não. os fumadores têm de fazer um esforço, um esforço simétrico ao que os não fumadores faziam, e ainda por cima têm o privilégio de o fazerem por uma boa causa. ao mesmo tempo fumadores e não fumadores, a sociedade, tem de ser muito clara na intervenção pública para ajudar os fumadores. a violência antitabágica pode ser muito compreensível do plano dos não fumadores, as vítimas, mas não é tolerável e é contraproducente, e até pouco ético, do ponto de vista de um Estado que lucrou com o negócio.
é tão simples, ou tão complexo, como isto.

terça-feira, maio 08, 2007

a minha mão esquerda, a minha mão direita

Não tinha previsto ontem acabar a noite prolongando o tema em discussão no Prós e Contras na minha esplanada preferida, num debate acalorado com o Rui Otero, meu parceiro de dissonâncias políticas variadas - principalmente quando, há um ano e tal, tive a infeliz ideia de, para lhe demonstrar a minha inadaptidão crónica para a militância partidária (e digo infeliz porque provocou nele um efeito contrário), lhe mostrar o cartão de militante do PS que tive desde Abril a Setembro de 2002 (curiosamente o meu outro cartão de militante partidário tinha sido na UEC de Maio de 74 a Setembro de 74, sobre o qual já falei aqui ). Tinha percebido, de forma categórica, que devia aceitar com a maior naturalidade a circunstância de que não tenho qualquer préstimo para a militância político partidária. Por características idionssicráticas o meu prazo de validade para a imersão na luta política é muito curto, como se verifica aliás pela durabilidade das minhas duas militâncias partidárias. Só voltaria à militância política partidária com receituário de uma psicoterapia, e breve, destinada a tratar uma qualquer patologia da desistência. Aprendi no entanto algo que me foi e é muito caro para o desenvolvimento de um optimismo pessoal. Os partidos não são o antro de oportunistas, de incapazes, de yesman - e yeswomans, já agora, diria a minha amiga especialista em género - que muito do discurso protofascista, e populista, sobre a política, e muito especificamente sobre a política partidária, anuncia. Claro que há disso. A mediocracia está fulgurante, espampanante, em número e em género. Em todo o lado. Até tu e eu, os últimos incorruptíveis, competentíssimos e belíssimos exemplários do bestiário humano somos à vez, seres estranhamente predispostos à mediocridade dos nossos dias. No entanto naqueles cinco a seis meses de filiação partidária testemunhei debates vivos e animados que íam desde a candidatura de secção, distrital, ao congresso nacional. Guardo no Outlook emails in extensio sobre a discussão estatutária enviados por camaradas anónimos - pessoas de reconhecida competência profissional em áreas tão diversas como a engenharia, o direito, a sociologia, a medicina - e dedicavam muitas vezes horas do seu lazer, da sua relação familiar, a discutirem o manifesto eleitoral de um determinado candidato, de um determinado programa, ou até, a reforma estatutária do Partido. Fui a reuniões diversas para organização, para um trabalho de discussão e apresentação dos lideres concelhios, da discussão temática de aspectos relacionados com a actividade política no seu sentido mais abrangente (educação, saúde, cultura, etc) em que os representantes discutiam com os militantes anónimos. Para mim que tenho desde sempre um vínculo à vida associativa, foi um prazer poder ter uma outra ideia sobre a vida partidária. O resto já nós sabemos. Mas muitos dos malefícios da influência da vida partidária na actividade política está directamente relacionada com a tendência para o não (re) conhecimento generalizado do trabalho associativo de natureza político que existe fora dos partidos. Aquilo a que chamamos sociedade civil ainda se encontra muito maltratada pela incapacidade de observarmos nela a diversidade da sua manifestação. Isto para dizer que se sobre a minha militância na UEC, tinha doze anos, encaro isso como um aspecto excêntrico na minha experiência política, a minha breve passagem pelo PS ( espero que eles encarem o não pagamento de quotas como uma desvinculação porque de facto, é outro problema meu, nunca me dei ao trabalho de lhes escrever a pedir a desfiliação) foi motivo de um grande enriquecimento pessoal e político. Guardo o meu cartão de militante com o mesmo empenho que conservo o de cartão do CLAC (clube dos amigos da comuna), ou os da escola secundária dos viveiros e da universidade nova. Esta conversa sobre o cartão, a militância parece aquela intrusa que entra e toma conta da festa. O que eu queria falar, e muito menos, era sobre a esquerda e a direita. Para dizer esta coisa pequenina: o que me entusiasma nesta erupção identitária que caracteriza hoje a aventura quotidiana é também a ideia de que os príncipios filosófico-políticos que organizavam o mundo em esquerda e direita servem mais para explicar a história, o passado - e nesse sentido, mas só nesse sentido, são importantes como condições para um mais produtivo trabalho prospectivo - do que para abrir o livro do futuro. Amanhã a política é outra coisa.

segunda-feira, maio 07, 2007

Conversa de um homem nascido em Maio (1)

Uma amiga deu-me o mote: festa de desaniversário. O José Mário Branco gritou um dia, quero desnascer. Eu não diria o mesmo. Apetecia-me apenas uma máquina do tempo para avivar a memória das cores, dos sons, dos ambientes da minha vida. Para que fosse mais rápido ir e regressar. É puro saboreio e prazer o ir, mas demora muito. Essa luta contra o tempo em que se constitui uma caminhada, mesmo que pareça muitas vezes arrastada por um atavismo descontente. Nos últimos tempos tenho aproveitado o tempo que tenho para dormir para fazer algumas dessas viagens. Chamo hoje sábios àqueles que se devotam a tentar tornar as primeiras idades, lugares de uma experiência sensível. São construtores de novos mundos. Até aos dezoito anos andamos tão entretidos na aventura identitária que nem desconfiamos da revelação que nos será dada mais tarde: quando ainda temos tudo para viver, já moldámos em grande parte o modo como iremos viver.
l Quando ainda temos tudo para viver, já moldámos em grande parte o modo como iremos viver. Eu, porque Super Homem não era naquele tempo profissão tributável, queria ser advogado. Mas um dia os meus pais quiseram que o meu irmão mais velho fosse violinista. Ou melhor, aprendesse a tocar violino. Ainda hoje me lembro da minha revolução interior para tentar captar a estima dos meus pais: também quero ser artista. Andei numa hesitação, numa angústia terrível. Coleccionador de azedas, de papoilas, de amoras não me parecia ser uma verdadeira arte. O que havia de fazer? Tempos a seguir, que eu não sei explicar quando, fui ver o Teatro do Gerifalto ao Monumental. Viemos de Mafra para isso. Não me peçam pormenores. Talvez tenham dado uns bilhetes ao meu pai, não sei. Ficámos no piolho, no galinheiro. Ouvia-se lá em baixo um recitativo indistinto de um auto vicentino. Não me lembro de mais nada. Só me recordo que a certa altura senti uma evidência, um chamamento: eu iria ser actor. Foi tão forte o chamamento que pouco tempo mais tarde, numa récita escolar em que eu só tinha que marchar com uma adaga de madeira presa à cintura e um chapéu de soldadinho feito com papel de jornal em cima da toleima, senti um tal peso da responsabilidade que passei o tempo apanhado por um ataque monumental de riso, expressão de um incontrolável nervoso miudinho.
Eu era assim, uma vitima do incontrolável riso, não muitas vezes, mas em situações sempre muito comprometedoras. Uma vez fiz parte de um pelotão de fuzilados pelas reguadas da D. Henriqueta, que nem era minha professora, mas era a má da escola, e ainda por cima a Senhora Directora. Não tinhamos feito nada de especialmente grave, a D. Amália tinha faltado e nós, decididos a fazer da gazeta um dia memorável, saltáramos o muro que nos separava do pátio das raparigas. Não mostrámos pilas, não fizémos gestos obscenos, nem soletrámos palavrões. Apenas nos escancarámos diante das minudências femininas que se vislumbravam pelo minúsculo recorte da fechadura da porta da casa de banho. Elas até estavam a gostar. Menos uma, a filha da D. Marcolina. E lá fomos lá para a sala da D. Henriqueta. O meu irmão mais velho estava lá dentro, era aluno dela. Nós fizémos uma fila que ía da porta da sala até à secretária, e tal como se fosse a distribuição do pão por deus , íamos desfilando com um correctivo aplicado na mão direita. Três reguadas públicas, não mais e naquele dia ela até estava especialmente disciplicente. Só que quando chega a minha vez desmancho-me a rir. Lá volto atrás e ela repete o correctivo. E eu a rir. Mais uma e outra vez vez. De repente a minha mão direita já era pequena para tanta vermelhidão e tanta dor, eu ria e chorava ao mesmo tempo, vai na mão esquerda. Eu nunca deixei de rir. Felizmente a D. Henriqueta sentiu-se vingada quando as lágrimas que me caíam na face eram tão pesadas que, como uma cortina, tapavam o riso que teimava em desconcertar-me. Nunca mais deixei de querer ser actor. O meu tio dizia-me que eu tinha má dicção, que devia procurar outra coisa, mas aos quinze anos tive opção de teatro na Escola e, na récita escolar, mais uma vez, fiz figura com um poema do Brecht. Parecias um profissional, diziam-me colegas, amigos, vingando-me de todas as desconfianças por causa de não dizer bem os érres e de, devido a um desvio do septo, nasalar muito as palavras. Lembro-me de ter voltado ao Monumental, mas agora do lado de fora. Na altura estava lá O Zero à Esquerda, com a Laura Alves e o Paulo Renato. O cartaz, pintado, como já não se usa, com as letras garrafais do nome dos actores. E eu no lugar do Paulo Renato comecei a ver, Joaquim Paulo. Era eu. Dali para o estrelato, a fama, era um pulinho. Eu queria ser actor contra todos e contra tudo, especialmente a minha própria natureza. Para além da dicção, da voz nasalada, eu era brutalmente tímido, introspectivo, sonhador, virado para a realização na terra dos sonhos.
E como era muito perseverante, outra característica forjada num episódio da minha infância, eu iria conseguir. Estava a terminar o Secundário, tinha feito dezoito anos, amparado por uma amiga que era bailarina, inscrevi-me num curso da Comuna. Aí descobri, para além da amizade, dos primeiros namoros não inscritos na platonia vigente, uma outra dimensão do teatro: a revelação, o querer ser. Estreei-me como amador numa colectividade de Xabregas com um texto de Tchecov, O Canto do Cisne, entrecruzado com um poema de Herberto Hélder, o Poemacto. Ainda hoje me lembro da angústia, das dores de estomâgo. Era eu contra mim próprio e pouco tempo mais tarde profissionalizei-me num pequeno grupo dirigido pelo Horácio Manuel, um colectivo que trabalhava totalmente virado para o público e espaço escolar. Nunca fui um bom actor embora, paradoxalmente, o teatro me tenha ajudado a desenvolver qualidades humanas que brilhavam performativamente, em cena. E durou pouco esta vontade de ser actor. No final dos anos oitenta, se ainda tivesse ilusões de que não queria ser actor profissional, perdi-as completamente ao recusar duas propostas de trabalho, uma para uma peça a ser encenada com o Castro Guedes em Vila Real, outra para uma digressão à Suiça com o Teatro em Movimento.
[continua]

O fenómeno Jardim

Não foi por acanhamento que eu não disse nada sobre a campanha legislativa na Madeira. Nem antes, nem durante, nem depois. Foi porque não sabia o que dizer. Os quase setenta por cento que obteve esclareceram-me sobre a bondade da minha ignorância. A única coisa sobre a qual arrisco artes de adivinhação: sei que neste momento estão um conjunto de assessores políticos em torno de José Sócrates a dizer-lhe que foi melhor assim. Que a luta não será na ilha, onde tudo está suficientemente minado. É entre o governo forte do continente e o governo enfraquecido de Jardim. Que, por estar Cavaco em Belém, Alberto João Jardim será um sempre latente perigo político para Marques Mendes e para o PSD. E um seguro político para minorar eventuais danos colaterais noutras áreas, da saúde, à educação e à cultura.

Nicolas Sarkozy, pour la France

Há partida parece um paradoxo, o elevado rendimento político que um discurso antisocial consegue produzir nas populações socialmente mais desfavorecidas. Ou, o grande rentabilidade política que um discurso que tende a fechar a França sobre si mesma produz nas comunidades emigrantes. Não será tão estranho se pensarmos que aquilo que comunica com as pessoas, que aquilo que constitui discurso, não é só a expressão verbal, também as diversas dimensões da comunicação não verbal. Em França os emigrantes, de primeira, de segunda e de terceira geração, são uma parte importante do tecido social e político. Para esses, o climax do discurso de abertura da França aos emigrantes será verem Nicolas Sarkozy subir ao Palácio do Eliseu, bater no peito e jurar pour la France.

Blogoteca: Southandnotnorth e Sing Singh

Southandnorth e Sing Singh , dois novos blogues para a estante dos amig@s na blogosfera. E esta ideia, madrugadora, de que alguns silêncios se podem tornar ensurdecedores.

domingo, maio 06, 2007

Uma mulher vitoriosa: Ségoléne Royal

Teria gostado que ela tivesse ganho. O discurso de vitória do novo presidente foi, de tão egocentrado, deprimente. Ségolene surpreendeu-me no tradicional discurso da derrota. Ela sorria, vencedora.

Urgente: Um milhão de assinaturas para Darfur

Através do Absorto
, fui dar a esta petição que o Collectif Urgence Darfour está a coordenar para pressionar a ONU a intervir no local e apoiar os que escapam aos massacres. Assinar aqui.

Tortura e morte

No Canal História vejo um documentário sobre a luta entre o Juíz Garzón e o velho ditador Pinochet. Os depoimentos sobre a tortura. Uma mulher a quem obrigaram durante três meses a estar num espaço minúsculo, sem se lavar, com o odor do seu sangue, das expulsões cíclicas do seu sangue, com as marcas das agressões, os paus na vagina, os golpes de karaté nas costas, e a dizer que tudo o que a fazia sofrer mais era a violência psiquíca, a tortura da mente. Como naquele dia em que a obrigaram a assitir à tortura e assassínio, a golpes de corrente, de um companheiro de cela, um rapaz novo, vigoroso - que tornou a tortura mais demorada, mais violenta . Um empresário amigo de Pinochet mostra-se consternado com o que aconteceu ao seu velho amigo, para ele são coisas que se passaram à mais de trinta anos e que foram feitas segundo o juízo legítimo de eliminação do comunismo. Penso no país do meu amigo. A grande batalha da conciliação nacional é juntar vitimas e carrascos numa mesma evidência histórica. Penso em Bernard Henri -Levy que agora lançou a Vertigem americana. Eu não sei o que tudo isto significa, as mortes que importamos, exportamos. Ou melhor, o que sei não me satisfaz.

Figuinhos da Mina

O tempo que isto é: há vinte e sete anos o Abílio tocava nos Dustra, uma banda dos Olivais. Reconheço aquele baixo. Comprou-o com o primeiro ordenado dos Correios. Tocou nos Grajaú, outra banda formada nos Olivais mas que foi um pouco mais além. E depois a sua vida tem sido isto: música a gozar. Com o Valdez e as Piranhas e agora com estes Figuinhos da Mina. Um bom som, paródico, rapsódico. Música a gozar, a brincar. A seriedade que é necessário para que o gozo se constitua.

Património afectivo

Há muito que na consolidação do sujeito a noção de património passou a ter um sentido mais amplo que a dimensão material. No outro dia falaram-me de um termo, património erótico, entre casais, e abriram-me a caixa de pandora: agora tudo o que é aventura identitária passa pelo crivo da existência patrimonial. Ontem dei por mim a descobrir, com uma clareza inabitual, que temos um património afectivo. E que toda a nossa vida é isso, a sua constituição. É pelo que amamos (e quando falo do amor falo de um sistema, que tal com o ódio, governa a nossa existência) e pelo que odiamos que nos vamos educando sentimentalmente. Olhando a minha vida assim, vejo que não amei tanto como poderia. Muitas vezes deixei o ódio ocupar partes da minha vida. Eu sei, foi pouco. Mas foi demais.

sábado, maio 05, 2007

E foram muito felizes

Uma vez pediram-me em casamento e eu não resisti. Foram muito felizes esses anos. Os anteriores também tinham sido. E recordo-me, quando me divorciei foi igualmente a utopia da felicidade que me animou o destroçar. A minha vida é, de uma forma genérica, tão pacóvia e ordinária quanto feliz. Não tenho por isso aquela matéria empírica que poderia tornar interessante qualquer coisa que eu dissesse sobre o casamento. Ainda há pouco, ao procurar na wikipédia, descobri uma forma de casamento que desconhecia e o qual tenho praticado com abundância: o nuncupativo, que é realizado oralmente e sem formalidades. Não me entendam mal. Eu gosto dos casamentos formais. Tenho ainda o fraque do meu. Lembro-me da boda, senti-me um príncipe. Ela arranjou raminhos de flores, alfazema, eu caixinhas de cigarrilhas e charutos. Andámos de mesa em mesa, como putativos candidatos a uma felicidade combinada, contratualizada, testemunhada. Depois da festa, a lua de mel. O casamento é um espectáculo, tem as suas luzes próprias, os seus néons, e, vou surpreender novamente, gostei muito que o meu casamento tivesse tido aquele charme ofegante da pequena burguesia. Nunca mais me casarei, sou homem de uma só mulher, mas o cerimonial intenso que aquilo representa ainda hoje me comove. Tornei-me beato com a solidão. Gosto de me levantar cedo nas manhãs de domingo e ir de igreja em igreja, de capela em capela, à procura de casamentos. É um prazer intímo, talvez um pouco perverso, mas gosto de ver um casamento ainda em flor. Sento-me nas pedras da igreja, longe o bastante para poder ter um ângulo de visão suficientemente abrangente de todos os movimentos dos nubentes e imagino-lhes a caminhada, a descida lenta e piedosa aos infernos em que hão-de tornar as suas vidas. Os filhos, as promissórias, as noites em branco, as dívidas, as dúvidas, as raivas, esse enfurecer sem chama, as traições, @s amantes. Tenho um caderninho de capa preta onde aponto os casamentos que não irão vingar. Podem durar um mês, um ano, até uma vida, mas não irão vingar. Num de capa branca assento os casamentos duradouros, que perduram para lá dos seus destroçares. Não sou propriamente uma pessoa normal, igual às outras. Alimento-me do drama humano. O meu caderno branco está quase vazio. Há-de haver, mais cedo ou mais tarde, uma traição. Porque o casamento, na sua alvura, no seu riso, na sua imensa plasticidade, tem em si os germes de uma doença tão grande como o mundo: a mentira, a traição, a dor, a exclusão. Por exemplo, na vida normal, se houvesse vida normal, não lhe chamaríamos traição. Diríamos, actos de vontade. É a vontade que nos coloca aqui. Ou que nos faz ir embora. Mas os casamentos, na sua aparente estabilidade de marfim, na sua excentricidade, são actos que tentam exaurir cada vida da (im) possibilidade de (in) felicidade que ela contém. Eles são actos todos eles para o meu caderninho preto. Mais cedo ou mais tarde. É nisto que gastamos a nossa vida. A dura caminhada. Cada um arranja os seus truques para sobreviver. Os meus de escriba são evidentes e vêm-me da infância, dos tempos das primeiras semanas de aulas. Comprávamos os cadernos para a escola e depois arranjávamos rolos de papel plastificado para forrá-los e protegê-los dos gastos da usura. Era uma segunda capa que acompanhava toda a vida útil das sebentas e cadernos. Faço o mesmo com os meus caderninos onde anoto esta felicidade avulso que encontro por aí em capelas e sacristias, ou até, nas conservatórias do registo civil. O caderno preto está forrado com um papel multi-resistente, branco, de uma brancura radiante, extrema. E o branco, quase vazio, de um papel negro, escuro, que se confunde muitas vezes com a fuligem do inferno. É assim que sobrevivo e que vou chamando felicidade a esta fina retícula de poeira que me cobre o horizonte, enquanto vagabundeio à procura da brisa-beijo.

sexta-feira, maio 04, 2007

Apetece-me dizer bem...

...de ti quando acordo nos teus olhos. Da minha vizinha que me cumprimenta da sua janela quando chego ao pátio. Do Café do Monte onde eu imagino que sou, por breves mas felizes momentos, parisiense. Do Moinho da Juventude na Cova da Moura. Do restaurante vegetariano das Escadinhas do Duque. Do Nobai, meu fim de tarde preferido. Para começar por algum lado, das Susanas: a que fundou uma ongd e que vai construir uma biblioteca em Moçambique, a que tem desenhos mágicos dos tempos em que o rei era sabão e aquela que fotografa as sombras e nelas repercute a luz. De Lisboa, a minha cidade provinciana. Dos amig@s de todos os dias. Desta primavera que chegou. Da poesia e dos poetas. Da música, dos cantores. Dele e de como me comove quando luta pelo seu país.
Apetece-me dizer bem dos blogues.
[no outro dia ao ler um exercício bendizente de Marçal Grilo pensei em fazê-lo aqui também. Para passar a outro e não ao mesmo, lanço o desafio à M. da Linha do Norte]

Carmona desafia Marques Mendes

Eu não sei o que é o jornalismo de referência, o jornalismo tablóide e não tenho gostado por aí além daquilo a que por se vem chamando o jornalismo do Marcelino. E ainda bem que não sou especialista dos média porque senão os meus vatícinios íam ser muito pesarosos para o senhor Oliveira. É que eu não acredito no supremo mal. Acredito nele a conta-gotas, aos pingos, chuva-molha-tolos, mas para andar cá todos os dias preciso de descrer no reino de Satanás. Assim, um dia ainda espero subir ao Café-Paraíso e colocar ao lado do café e do pastel de nata um jornal a sério, com notícias a sério, e onde me contem a história de um homem que foi engordando, engordando com o país do futebol, com histórias incríveis sobre trapalhadas imensas nos direitos das transmissões televisivas, nos seus negócios, e que depois rebentou, rebentou, como tudo o que incha para além das suas próprias possibilidades de estiramento. Mas esse dia está muito longe, mesmo na minha imaginação. E entretanto eu acho que o seu jornal, o jornal do senhor Oliveira, vai vender mais alguns exemplares na sua guerra do Público. Não é que tenha mais notícias. Ou melhores. É que tem títulos a sério. Carmona desafia Marques Mendes é um título de um jornal, enquanto que Carmona recusa-se a sair e tenta resistir à realização de eleições, é qualquer coisa colocada no lugar do título. É por isso que, mesmo em dia de colecção de discos, começo a ler o Público na banca de jornais, emprestando-lhe os títulos do DN.

Privilégios do poeta

"Quero ver um Cristo ateu
a blasfemar em grego
como um marinheiro
dançando entre as panças
rubicundas
sem os anjos moles
do cristianismo de rendas
1
1
quero ver esse primeiro deus ateu
a entrar nos templos
de consumo
a correr com os padrecas
dos impostos
e dos telemóveis
e com os outros de sotaina
à paisana
1
1
quero ver esse Cristo Viriato
de Pentelho à Vista
a incendiar
o E$pírito Santo
na terra da procissão
timorata
e da Virgem Velha e Usada
1
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quero vê-lo
a entrar no telejornal
e a perturbar
a missa do futebol
pouco me importa que
seja careca
e tenha a língua torta
e asas de escaravelho
e cague na pátria 1
1
quero vê-lo a mijar
na República
e a mostrar que
nunca houve um Crucifixo
a não ser na
cabeça podre
dos que querem submissos 1
1
e a dizer que não há messias
nunca houve
há só pássaros raiva pura
desejo nevoeiro e maresia."

1

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XTOS ANARKIKOS, de Miguel Drummond de Castro. Privilégios do poeta, da poesia.

quinta-feira, maio 03, 2007

Uma Luz ao fundo do Túnel

Todos teremos razão enquanto Carmona Rodrigues sai pela direita baixa: não havia condições para continuar. Haverá agora que fazer jurisprudência e extrair outras conclusões de algumas relações de proximidade perigosa, nomeadamente do caso de Oeiras.

quarta-feira, maio 02, 2007

Namanha Makbunhe

Durante o próximo mês vou ter o prazer de ver por aqui o Andrzej Kowalski, que dirige este projecto, que tem, no seu propósito, a transposição da estrutura dramática e poética de Macbeth para o universo africano. Um mês de ensaios com sons de cora, de batuques, de cânticos. Soa-me muito bem.

1º de Maio

Ontem peguei na bicicleta e fui até à Alameda. Segui depois para Alvalade, apanhando o cortejo do Oprecariado ali ao pé da estação do Areeiro. Reconheci uns amigos e lá fui em marcha lenta, ao som de palavras de ordem como "País Precário/Sai do Armário", ou "Movimento Flexi", glossando a coreografia muito em voga nos espaços disco do "movimento sexy". O oprecariado era sem dúvida a zona mais criativa e mais imaginativa deste passeio de 1º de Maio. Senti-me solidário com eles, eu que só sou precário quando escrevo e já escrevo tão pouco! Encontrei também rostos que já não via há mais de vinte anos, uns, de dez anos outros, os mesmos abraços de circunstância, mas cada vez mais frios, mais passos em falso, vazios. A certa altura tive vontade de ir embora, aquele cortejo não me parecia de vida, os jovens estavam vivos, os seus slogans também, mas havia ali um cheiro inexplicável àquele bafio do tempo. Há coisas que não são para explicar. Podemos partilhá-las assim em bruto, com quem se oferece assim ao entendimento, mas os seus significados escapam-se por entre os dedos explicativos. Depois do cortejo chegar à Cidade Universitária foi a vez de falar Carvalho da Silva. Tenho-o como um homem honesto, íntegro, de ideais e por vezes, na tv, gosto de o ver quando colocado junto a uma paleta de políticos descarnados, desmemoriados. Faz figura. Mas ali à frente de não sei se um milhar de pessoas, a falar para o vazio como se aquela grande alameda estivesse repleta de espíritos e corpos vibrantes, parecia um daqueles tesouros deprimentes dos Gatos Fedorentos. Tudo no que dizia era velho, gasto, sem força. A única sombra de luminosidade que passou pelo seu discurso foi quando reconheceu que os trabalhadores estão desmotivados com o movimento sindical e que não lhe darão muito mais oportunidades do que a próxima greve geral. O momento a seguir foi patético. Uma outra voz veio dizer que depois do camarada Carvalho da Silva ter falado já nada havia para dizer mas que havia ainda uma moção de apoio à Greve Geral para votar, leu-a, e depois perguntou, alguém se opôe?, ouviram-se uns gritos, uns hurros e umas palmas, e logo, célere, expedita, a conclusão, a moção foi aprovada. Sorri. Há muito que tudo isto não me entristece. Já nem significa. A marcha da exploração do ser humano por outros seres humanos está, como sempre esteve, aí. E parece imparável, quando vista pela perspectiva destes movimentos de contenção do capitalismo, como o movimento sindical, que o Séc. XX exacerbou. Porque o grande problema, e a grande oportunidade, é que já não é pelo dizer que libertamos a nossa vida. É pelo fazer. A exploração do proletariado urbano ou rural, agrícola ou industrial pelos grandes detentores do capital poderia ser um título para uma fascinante viagem no tempo, mas já não nos ajuda a perceber as formas actuais de exploração do ser humano pelo ser humano. Os mitos da propriedade já eram. A propriedade só existe enquanto possibilidade de sobre ela se construir um determinado discurso de sedução. As dinâmicas do consumo são muito mais fortes porque fornecem um padrão universal de catárse e de libertação do sujeito. É na tentação autofágica das grandes classes médias do mundo que podemos encontrar uma das principais explicações para o sofrimento social contemporâneo.
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Foto do Absorto

A intranquilidade vista do lado da bonança

Há um momento em que estamos intranquilos porque nos entregamos a uma preocupação qualquer. Serve qualquer uma. Na farmácia do bairro duas mulheres mediam a tensão arterial. A primeira, que já deveria andar pelos sessenta anos, obesa como o são regularmente muitos dos portugueses, tinha vinte e quatro-doze. Não tinha um ar intranquilo. Era a sua acompanhante, com pelo menos mais uns dez anos em cima, que explicava ao farmacêutico, não anda a tomar os medicamentos, esquece-se. O esquecimento neste caso poderá ser, se não for uma patologia, sintoma de uma preocupação. O espírito ocupa-se com algo a que dá primazia e depois não pode acudir às tarefas do dia. Olhei-a de alto a baixo. Às mãos, aos pés, sapatos, cabelo branco, papos por baixo dos olhos. E comecei a vesti-los de preocupações várias, todas elas enormes. É um erro de lana caprina dos literatos. Dar grandeza às nossas preocupações. Às vezes são tão pequenas. A segunda mulher tem dezanove-oito. Está preocupada porque a médica lhe substituiu os três comprimidos que tomava por um só. É o remédio que não está a fazer efeito, tenho de lá ir. Ela logo me disse, tome e veja como é e depois venha cá ver se continuamos. Vou lá dizer-lhe que quero voltar aos outros, sentia-me muito bem com eles, andava sempre nos dezassete. O farmacêutico anui com a cabeça. No jogo das preocupações, não tenho dificuldade em atribuir uma a esta mulher. Está ansiosa com a mudança de medicamentação. Está demasiado centrada nesse problema para poder escutar-lhe outra preocupação qualquer. Saio da farmácia e entro no taxi. Comecei a ler há instantes "Viagens no Tempo no Universo de Einstein" de J. Richard Gott II, e não lhe dou atenção. Mas ao chegarmos à Rua da Conceição ele faz uma travagem brusca. Ia tentar ulttrapassar uma fileira de carros e eléctricos, em contravenção, quando reparou que o carro detrás eram dos geninhos. A explicação sobre o termo da gíria taxista solta-lhe a lingua que só estava à espera de um pretexto. Confidencia-me, estou com uma irritação enorme com a minha mulher e a minha filha. O motivo era comum: o carro. A primeira porque lhe andava com o carro mas não punha ar dos pneus, resultado, ontem a caminho de Torres Novas rebentou-se um pneu. Como se não bastasse, o porta-bagagens onde tem o pneu sobresselente estava atulhado de coisas da filha. Reproduz-me, textualmente, a conversa, os ultimatos que deu à filha para a remoção imediata daquelas traquitanas. Com a mulher foi diferente. Ela que tem uma chave do carro pediu-lhe a chave dele. Foi ao carro e depois esqueceu-se dela dentro do carro. Resultado, teve de estragar a fechadura do porta-bagagens. Aquilo estava a dar cabo do pobre homem. Foi nessa altura que olhei para ele. A cara inchada, vermelha, cheia, insuflada com aquele ódio a que nos entregamos com um inexplicável e inatingível amor. Ele sabia disso, já estava na fase da negação da irritação. Eu não posso deixar que isto me possua. Dei-lhe umas palavras de consolo e pú-lo na fila da minha galeria de personagens preocupadas. Estive quase para lhe dizer, olhe, esqueça o porta-bagagens e a fechadura, isso não vale uma preocupação. Mas isso já ele sabia. E eu tinha chegado ao cotovelo da Rua Nova do Trindade onde me costumo apear do táxi. Enquanto tirava o dinheiro do porta-moedas dou um olhar de relance à rua, passa uma mulher, podia dizer que era bonita ou esbelta, a verdade é que não reparei, era uma mulher, o exemplo que precisava, disse-lhe, olhe, pense nelas, nas mulheres, vai ver que ajuda, ontem choveu, hoje o sol está a romper, vai ver que olhar para elas é como olhar para um campo de flores. E dou-me conta de que não era este o post que queria escrever, tinha outra ideia. Queria falar sobre a forma como muitas vezes, a seguir à fase da nossa ocupação excessiva com um determinado problema, nos intranquilizamos com a obsessão em nos tranquilizarmos. Os trabalhos da desinquietação, ou não fosse a nossa natureza tão paradoxal, ao mesmo tempo que nos proporcionam o alívio necessário para as mazelas espirituais quotidianas, tornam-se muitas vezes a nossa preocupação central, tão obssessiva como qualquer outra.

ABRAÇO COLECTIVO

Vamos ter aulas lá em baixo, sim, na sala de matrecos. Estranho, tens mesmo a certeza. Está bem, já vou, o quê ?? Não, nunca me lembro desses recados especiais, já sabes. Roupas confortáveis.

Olivais, cercanias da velha igreja,

Figura estranha, voz arranhada, olhos doces, próximos de toda a gente. Chama-se Arlete, é a nossa professora de uma disciplina de OPÇÃO – Dinâmicas de grupo. Uma roda de gente, Pedro deitado na praia, Pipa a remexer no cabelo da futura presidente Mara, a Anita a espreitar para um outro lado da sua formosura, hipnose, é o que eu chamo a isto. Hipnose, só pode ser. Ou então, uma charlatã de uma dessas coisas obscuras. Quem é mesmo esta senhora ??? O que é que viemos aqui fazer??? Isto é um curso de enfermagem, não é lugar para estas coisas imprecisas. Vá, vamos embora, Psst, Psst…Não queres vir, NÃO!!!...

as costas de um centro paroquial,

Pintar um cartaz com as nossas imagens, as nossas referências !!!! Ah, sim, já percebi. Estamos num atelier de expressão plástica. Muito bem, quantos cursos superiores estão cheios de coisas inúteis. Mas porque é que toda a gente está a sorrir, tanta espontaneidade, e cores várias a dar forma a esse papel pardo. Desculpa, sei que não tenho jeito nenhum para isto, não, não vale a pena, trago muito peso lá de fora, o pincel pesa demais nesta mão direita. É quase uma inaptidão…..Apetece-me deitar, juntar-me ao chão, talvez segurar no lápis de carvão, um azul, e outro verde, alguma coisa há de sair…Não sei se consigo disfarçar este prazer, alguém estará a reparar??? Aquela presença, o seu olhar.

Fábricas, carrinhas brancas cheias de mercadoria

Estamos tão próximos, sinto a tua pele, sinto-te a pulsar. Estás calma, e tu também, suas muito das mãos, que tal soltar a mão, já percebi, não queres romper o cordão. Mãos dadas, o olhar do outro, uns muito malandros cheios de reviengas, outros a pedir colo, muito moribundos, aquele está muito nervoso, será da presença dela, não sei. Outra a vez a fazer coisas sem sentido, tem mesmo que ser assim? Agora são os braços que se tocam, se cruzam, ficamos em nó. Aparentemente indissociável. Estamos juntos, é só isso que se exige. Muitos braços em roda e o silêncio. Porreiro. Estás sempre aí, aparentemente de fora em observação, mas não consegues evitar colocar-te dentro, no meio, ao lado. Estás aqui. Estás.

Gentes da faculdade, o olhar cabisbaixo do Sr.Ramos, o coração amanteigado no dizer da Dona Aurora, um outro coração susceptível, no meu dizer.

Estou deitado, braços firmes junto ao tronco. Espero. Sinto o toque. Dedos a fazer piruetas na minha cara bolachuda. Coreografia de prazer, proximidade. Quantos bailarinos pisam assim o meu rosto?? Coisa boa demais, confesso no meu outro sotaque. Continuem, não parem, continuem, não se vão embora, acomodem-se. Por favor, eu apelo à Prof.Arlete, por favor, queiram parar eternamente no meu rosto.

estava encontrada a capela mortuária

O centro da roda. Um duelo, as armas, as nossas vidas. Cadeiras, corpo empurrado à frente, o meu discurso cheio de bolor, a ultrapassar claramente o prazo. O passado. Não, não, não, não, quero falar disso. Já posso sair, ainda tenho que ficar mais, porquê a vossa cara assustada, meus colegas, meus amigos. Tenho que acabar com isto. Não quero falar mais, não quero. Dizes-me enfim alguma coisa. Gastei todos os cartuchos. Ficam as tuas palavras, fica a tua companhia, a impressão que não estava a falar pró boneco. Continuas aí, obrigado. Talvez tenha sido bom disparar umas quantas balas.

a névoa, os contornos do ritual instituído, o corpo coberto

Ninguém quer aceitar o final das suas aulas, nem mesmo eu. Falas do grupo, das pessoas, de como podemos estar na vida de uma outra forma. Desejas que sejamos bons enfermeiros, palavras de circunstância, ainda assim, as tuas palavras. Urge fazer qualquer coisa, meus amigos, seguramente estão a sentir o mesmo que eu. Sim, é isso, ABRAÇO COLECTIVO. No uso de uma outra linguagem, diria que estamos em estado fusional. Massa de betão. Qualquer coisa de indivisível. Esta, coisa boa. Deixa-me encostar a cabeça. Tão bom. Quentinho.

As minhas lágrimas, o saber transformado em legado , o abraço. Para sempre.

Ricardo Rodrigues

terça-feira, maio 01, 2007

TÁXI-TVI

Também acho pouco emocionante o destino de Pina Moura. Não é de agora. Há alguns anos que partilho desse desinteresse. E também sempre achei um escândalo a atribuição de um canal à Igreja. Já falei disso aqui vezes sem conta. É para mim um dos maiores casos do país posterior a Abril. Porque antes já se sabe. E mais escandaloso que a Igreja tenha passado essa licença de radiotelevisão a um grupo empresarial que não concorreu para a sua aquisição . Como se as licenças de televisão fossem aquele estranho negócio de atribuição/trespasse de licenças de táxi em vigor na capital. É um escândalo que mostra muito bem como vivemos num país de saloios, das senhoras de, sejam à esquerda ou à direita. Não vi nenhuma grande investigação conclusiva no Público, no Independente, no Diário de Notícias, no Correio da Manhã, na SIC, na RTP, na TSF, na Procuradoria Geral da República por este escândalo à vista desarmada. Dos partidos com assento parlamentar, não ouvi nenhum pedido de abertura de inquérito, nenhuma posição pública. PS, PSD, CDS, PCP, Bloco de Esquerda, Verdes consentiram pelo seu silêncio político. O caso era político mas parece ser também da esfera criminal. O Estado concedeu (extra-concurso, creio) uma licença de radiotelevisão à Igreja Católica Apostólica e Romana . Esta passou um bem, do qual só detinha o usufruto, a um grupo empresarial privado. Este nem olhou para o projecto que a Igreja tinha apresentado para solicitar o alvará de televisão. Parece ter havido aqui um crime lesivo dos interesses do Estado. Não sei onde, nunca percebi. Se no desleixo do legislador que outorgou o alvará televisivo e não cuidou de que, no fim do seu projecto de exploração ele deveria retornar ao Estado, se na prevaricação do explorador do alvará que indevidamente o terá trespassado, se na conivência do poder político e judicial sobre o não esclarecimento público de como é que tudo isto se passou . E já agora, por mera curiosidade, o que é que se passou de facto?

O 25 de Abril nas escolas

Ao ver o lamento deste seu aluno lembrei-me da sorte que eu tive. Por conta de um neto de um exilado político cubano - um fabricante de gelados que, felizmente para nós, trouxe a sua arte consigo - tive, no primeiro ano do ciclo, uma demorada lição sobre a revolução cubana, e, no ano a seguir, a partir das férias da Páscoa, estávamos em 74, uma série de intensas e emocionantes aulas sobre a revolução de Abril. É um privilégio que nunca esquecerei. Colecciono os cromos, as fotografias, as imagens em movimento esperando o dia em que me sentarei ao lado do meu filho e lhe contarei, a minha revolução de Abril.

Revisão da ideia de "independência"

Uma vez à conversa com o J., disse-me, decerto para me consolar, que, ao contrário dos grandes mitos da nossa adolescência, não era o carro que nos dava a independência, sim uma casa. O carro só nos daria, e não é pouco, mais mobilidade. No outro dia soube que eu estava, pela enemésima vez, a tirar a carta de condução. E como bom amigo, para me entusiasmar, arranjou-me a solução.