domingo, junho 17, 2007

Oração laica

O mundo é um poema. Deveremos morrer laicamente por ele. Aceita-te. A aceitação não é um poema. É o que te permite continuar no trilho da poesia. A minha mãe reza todos os dias ao acordar e ao deitar. Reza também durante o dia. A sua vida constitui-se cada vez mais como uma longa e ininterrupta oração. Eu não rezo. Digo que o mundo é um poema. Que deveremos morrer de laicicidade. Quer dizer, de aceitação. Digo isso da mesma forma continua e reiterada como a minha mãe se constitui oração. Hoje, quando adormecer, não vou praguejar contra a solidão. A solidão não existe. A solidão é uma invenção minha para poder continuar a escrever posts e sentir-me cada vez menos só. Hoje ao almoço, de amigos de há trinta anos, falámos do meu último amor platónico, estávamos nos Olivais. Alguém referiu que deveria estar só. Não sei, não se lhe conhece blogues nem posts. Respondi a sério, que não tenho nenhumas saudades dos meus amores platónicos. Os meus amores platónicos são todos eles imortais. E não têm precedência. Não há nenhum amor melhor que o outro. A rapariga de odivelas da praia de carcavelos tem o mesmo valor da malvina que a inspirou, e amo esta com o mesmo ardor que me consumiu diante de jeanne moreau, ou da mimi, ou da ana, a rapariga de quem falávamos e nenhum destes amores sobrevive à ideia de que tiveram como única e exclusiva missão levarem-me pela mão da adolescência ao fim da juventude. Conheci muita literatura com eles. Mas nenhum me ensinou a textura, a cor, o cheiro, a voz de um corpo feminino. No entanto, porque falar das coisas é reacendê-las em nós, senti por momentos a vontade de ter tido um amor que levasse pela mão, desde a aventura da juventude, até hoje. Hoje, quando me deitar e me entregar ao meu sonho laico, fecharei os olhos do meu amor de há vinte e sete anos e imaginarei que será a proximidade com o seu calor que me envolve. Que sempre estivemos juntos. Dir-lhe-ei boa noite, perguntar-lhe-ei pelos nossos filhos e esperarei que ela adormeça. Só depois fecharei os meus olhos. É uma promessa antiga, velar-lhe assim o sono. E de manhã, antes de despertar, acorda-la-ei com a força dos meus olhos. E ela vai agradecer-me não ter dormida para a velar. Um amor de vinte e sete anos tem de ter esta dor, esta cumplicidade.

O amante de Harold Pinter

Ontem, na Guilherme Cossoul, mais uma apresentação de O Amante, de Harold Pinter. Excelente texto, com diferentes níveis de leitura. O trabalho dos actores, do encenador, do cenógrafo muito equilibrado, inteligente, eficaz. é pena estar a acabar.

O razão

Não sofri o bastante para a alegria que regressa assim ao meu corpo, ao meu olhar, cheguei a pensar. Amo a vida que dela mesma se alimenta.

Uma nação é uma flor

Deu-lhe um beijo por engano. Ele sorriu, sem o retribuir. Estendeu-lhe apenas a mão, os dedos, cinco. Para que ela os sentisse a estremecer. O que se passa no fim de uma dança já não é da ordem dos pés abruptos e dóceis. Já não é poesia. Lembrou-se de cada segundo. Não se morre em vida para esquecer. Ao princípio tudo parecia a cor de um engate. Um amigo pediu-lhe. Queria dançar com a outra. Ele, mal a viu, percebeu-lhe os olhos, o lance de chão que eles alcançavam, a festa, e pensou, é ela. É ela, a bailarina de pés de fogo. Tudo parecia no entanto destinado a não ser. Primeiro foi ela que convidou um branco, que estava à deriva na pista. Depois foi o negro com cara de criança. Ele não desistiu. Pelo menos foi assim que eu percebi o seu recuo para a janela. Deixou a música acabar e dirigiu-se à pista. Ela tinha ficado momentaneamente sem par. Ele sentiu-se um lince. Num segundo já estava a fazer a festa. Era um dos seus funanás preferidos. Sorriu, cantou, dançou. Às vezes o seu corpo soltava-se, afastava-se dela uns bons dois metros mas uma teia os ligava. Via-se a olho nu. Eu vi. A coisa foi de tal forma brutal que toda a pista parou para os ver dançar. Quem são aqueles dois?, cochichavam as vozes. Eram os dois brancos. Os seus corpos explodiam como se fizessem o mais violento e festivo sexo que dois corpos entrelaçados são capazes. Como souberam que eu estava ali para contar chegavam-se a mim pessoas vindas de todos os lados. Estão a foder?, perguntavam-me. Respondia-lhes o mesmo que agora escrevo: nunca vi uma mulher a simular o orgasmo que uma dança pode ser. Aliás, não foi isso que eu disse. Respondi: nunca em tempos da vida do mundo um homem ou uma mulher podem simular a fusão que uma dança é. Uma dança verdadeira, aquela que se sobrepôe ao sexo do mundo, um bailado, um batimento cardíaco. Era indescritível o prazer, a certeza. Uma dança, quando é dança, é uma investigação ao local onde a vida se constitui. A incerteza do movimento que vem aí, a batida segura de um compasso ritmíco que reproduz a vontade. A tesão.
Podia tudo ter acabado assim, ali, e já seria um acontecimento único, excedentário. Ainda era pouco. Eu fui testemunha de que não bastava. Vi-lhes os corpos ávidos de poesia. Era preciso uma morna para ajuramentar os corpos, para os fazer de massa, barro, misturando-os. E eu nunca vi nada igual. Ele falava-lhe num sussuro que se ouvia profundamente, como ressoasse na aparelhagem da discoteca. Perguntou-lhe, de olhos fechados, ainda estamos no B.Leza?, será que morremos?, é isto morrer?, desaparecemos no colo do mundo, ou num glaciar da Patagónia, enquanto a abraçava como se os seus dedos lhe rasgassem a carne, a matéria carnal. Nunca em dias da minha vida tinha percebido que o corpo de uma mulher é como a matéria ondulante de um saxofone, disse ele dedilhando-lhe a pele, as entranhas. Era tudo em volta que tinha fugido de dimensão. O tempo tinha parado. Já não era uma dança. Era a fusão do mundo que se aproximava. Em suspenso. Já a música tinha sido outra, já eles se soltavam, lassos, quando ela lhe deu um beijo. Foi por engano, disse ele, sorrindo-lhe. Uma nação, o nascimento de uma nação, é como o crescer de uma flor. De uma paixão como não há, nunca houve.

sexta-feira, junho 15, 2007

O que é que se passa lá fora?

Não é o barulho do vento. Hoje fui supreendido pelos relatos da violência na Palestina. Não vejo televisão. E já não leio os jornais do Oliveira, nem do Belmiro. Quer dizer, por vezes encontro-os, ao lado dos metros, dos destaques, no Vertigo, mas quase nunca vou só e já nem os leio. Dou de caras com as notícias e sinto-me em falta. Eu aqui preso às minhas paisagens interiores, a falar de ódios uterinos e um grande ódio a tomar conta de todo o horizonte na Palestina. O que se passa?

Raízes, hastes, corola

Tenho alguma nostalgia da bonomia com que, aos vinte anos abertos, encarava a possibilidade de uma namorada minha ter tido um caso com outro homem. Ainda me lembro de uma cena que fiz no cais das colinas quando a C., no regresso de umas férias do Porto, me contou que tinha ido para a cama com um antigo namorado. Fiz uma cara horrível, disse-lhe que nunca mais a queria ver, virei a face para o sentido dos barcos do cais do sodré e no segundo seguinte estava de novo a olhá-la, disse-lhe, agora que já me zanguei és minha outra vez?
Tornei-me ciumento com a idade. O que é uma causa maior de sofrimento. Porque intelectualmente cada vez convivo pior com essa ideia de posse. Se durante os meus vinte anos a sensação de mal estar apenas se entretinha com casos pontuais em que, por algum motivo, eu não podia sair do contexto onde estava a acontecer o possível flamejar de uma atracção, e por isso eu podia tratar racionalmente da questão, hoje as coisas chegam a situações tão extremadas como ter ciúmes do ar que a outra pessoa respira.
É claro que, como qualquer pessoa, tenho algumas armas da razão para combater o meu desvairio. Uma delas é uma fractura comigo mesmo: eu não reconheço um privilégio de razão no ser que grita dentro de mim próprio, que se sacode, que grita, ela é minha, e que caparia todos os machos em seu redor. Ou que lhes tiraria os olhos, o gingar, o cheiro, até a presença, porque se uma mulher for como um homem, tudo lhe pode provocar torpor e paixão. E tesão. Este não reconhecimento é tanto de mim para mim como de mim para outra pessoa. Não consigo compreender as pessoas que pensam que por gritarem, por serem coléricas, têm razão. Falo alto, muitas vezes grito, parece que tenho uma panela de pressão a rebentar dentro de mim, mas sempre, em perda acentuada de razão.
Outra arma da razão: reconhecer-me no ser que grita dentro de mim próprio, que se sacode, que grita a sua posse. Sou eu e sou muito antigo. Comecei a odiar o mundo, o ódio começou a ganhar vez dentro de mim, há muito tempo. Já o contei aqui milhares de vezes, como muitos de nós, a minha condição de segundo filho escancarou-me a porta para esse sentimento de preterido. Quando eu cresci não se davam duas prendas aos dois filhos, não se dividiam os olhares ao meio, as ternuras. Não havia a Pais e Filhos. A minha mãe e o meu pai aprenderam a ser pais comigo e com o meu irmão. E eram de outros tempos, eles por sua vez ainda mais antigos. Amo-os muito, sempre os amei. Ao meu pai amava-o principalmente quando à tardinha na rua domingos machado esperávamos que ele voltasse da F.O.C. e entrasse na rua. Ainda hoje se me pedirem uma definição de extâse e de felicidade dou essa ideia de entardecer em que uma família se fecha sobre ela mesma, tranquilamente. À minha mãe era diferente: o meu amor por ela incluia uma admiração sem limites pela sua actividade de professora, que fui obrigado a partilhar, em muitos dos meus tempos livres. E é assim: quando o ciúme me atazana, meto a cabeça na areia, quer dizer, no meu passado e vou lá atrás ver os lugares onde comecei a odiar. Entretenho-me tanto lá que quando volto já não consigo odiar nem a mulher nem o macho que pressenti a rondar perto dela. Sou todo amor outra vez. O que é uma sensaboria.
Tornei-me ciumento com a idade. A idade nos apura e refina, não só no domínio da razão, também no da emoção, mas o modo como isso acontece é muitas vezes tempestuoso. Ora uma tempestade de areias emotivas, apaixonadas, é muito mais furiosa aos cinquenta, do que aos vinte. Se me perguntarem do que é que eu tenho mais medo na vida, seria natural que, pela forma como uso e abuso do pensamento, eu dissesse que seria alguma doença degenerativa da razão. São terríveis, impensáveis, concordo. Mas não é nelas que antevejo o inferno. Sinto que as minhas células foram educadas para um tal apego à vida que mesmo que o meu pensamento não cumpra mais razão do que uma alface, serei feliz. O terrível para mim é a degenerescência da alma, do coração, do afecto. E essa maleita terrível só pode ter uma causa: o ódio.
Anteontem deixei-me envolver com um filme belíssimo: Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera. No meio de um lago, um sábio educa um jovem para o conhecimento. A certa altura conhece uma mulher, que ama. Depois do amor, vem a necessidade de separar as águas e com elas as vidas. O jovem não aceita e parte em busca da mulher. O Sábio diz-lhe que ele vai entrar no território do ódio.
Tudo isto se passava no meio de um lago propenso à sabedoria como não o são as nossas cidades, as nossas aldeias e os nossos habitats, cujas construções sublinham a possibilidade de ódio que qualquer natureza humana não pode deixar de contemplar. É uma questão que não convém deixar unicamente à arquitectura, embora esta esteja neste momento a ser o grande motor de renovação do lugar. Cansou-se dos construtores civis, da engenharia, e começa a entretecer-se com a filosofia, a própria poesia. A abrir espaços pelo meio dos caminhos cerceados do ódio. Eu sei que estou a escrever num eixo paradigmático muito restrito, muito pobre: disse ódio cinco ou seis vezes neste texto e em bom rigor poderia ter falado de outras coisas, com outras palavras. Só que todas as palavras juntas são ainda apenas uma: ódio.
Não sei se resolverei este problema alguma vez mas aceito o programa: tentar arrancar a minha capacidade de odiar, sem perder a de amar.
O ser que diz sou teu abre a porta ao ser que diz, és meu. Aceito como natural a necessidade de dádiva, de entrega. Eu não consigo perceber-me sem ela. Seria menos que uma couve, uma alforreca. Sinto que sou teu e fodo o silêncio dizendo, sou teu. Não foi por mal, acabei de estragar tudo. A linguagem torna-se objecto, e depois de longamente possuída pelo desejo, permanece lá. A palavra. Torna-se desejo de posse. E não me parece que seja um caso apenas humano. Aliás, nos animais essa passagem será mais violenta. Ou então sou eu que não os entendo. Porque nunca ouvi um cão a dizer, sou teu. Mas já o entendi muitas vezes a gritar para uma cadela, para o outro macho que a rodeava, és minha.
Talvez seja bom continuarmos aqui ao pé das palavras. Talvez neste caso, no da longa purga de um ódio, a linguagem, por mais vacilante que pareça, produza sentido.

quinta-feira, junho 14, 2007

Carta Astral

Há pouco uma amiga insistiu em fazer a minha carta astral. É fácil. Data, local de nascimento e hora. Tirei as dúvidas sobre o meu signo. Sou Taurus. E sou do sol, da lua e do ar. E a certa altura ela pergunta-me: porque não fazes do teu filho? Insiro os dados a medo. E começo a ler. E a ficar contente imaginando a história que ele terá. Descobri uma forma de melancolia nova: imaginar o seu futuro.

Respirar a solo

Já estavam previstas há muito algumas mudanças na lista dos colaboradores. Tanto a Textura como a Intérprete (para já não falar da Celta) têm uma presença fugaz pelo respirar. E por outro lado a abundância com que eu escrevo faz com que se apague o rasto dos seus posts. Era injusto também para as suas escritas que não podiam assim criar uma identidade com os leitores deste blogue. Vamos ter saudades dos posts delas, de ambas. Os seus posts eram raros e fortes como só as pessoas raras e fortes sabem escrever. Fico contente por saber que ambas permanecem na blogosfera.

Posts rupestres

Às vezes perguntam-me como é que sou capaz de escrever aqui coisas tão intímas. Um dia haveremos de falar mais demoradamente disto, da vinculação da realidade do blogger à vida da pessoa que, blogando, se constitui enquanto blogger. Mas enquanto essa conversa não ganha vez, a resposta possível: eu nunca seria capaz de escrever sobre a minha vida aqui. Por milhares de razões mas principalmente por esta: eu nunca a acharia suficientemente interessante para fazer dela história pública. O que escrevo é sempre uma vida outra. Mesmo quando se parece tal e qual como a minha. Não fui eu que inventei isto. Há uns milhares de anos uns nossos antepassados, nas grutas, talvez do Paleolítico, começaram a figurar a realidade. A partir daí, com mais ou menos sofisticação, tudo ficou inventado.

quarta-feira, junho 13, 2007

Dizer adeus em Lisboa

Milhares de pessoas à porta de casa. É isto o Santo António. Saio de casa para comprar sardinhas. Fiz caldo verde ontem. Sento-me no meio da minha solidão e como sardinhas. Eu gosto dos santos populares. Gosto de Alfama. A rua da Adiça. Gosto do dançarinhar ao som de uma marcha. Este ano no entanto resolvi ficar só. E nem resolvi. Fui resolvendo. Amigos telefonaram-me para ir ao Adamastor, somos muitos, disseram-me, é um grupo muito grande, e eu pensei, não, não me apetece. Reconheço uma face, duas, três, quatro, o máximo de cinco rostos por noite. Tudo o que passe isso é demais, demasiado agora. A certa altura vou tomar o café lá fora. Encontro uma amiga. Descubro mais tarde que ela está pendurada numa outra amiga que tem ligações a uma festa numa casa do largo, que conhece mais duas pessoas. Agrada-me. Gosto da ideia de rede, da teia. Uma delas é amiga do J. O que mais me agrada. Pensar nos amigos que não estão é um prazer. Estou só. A idade nos refina, nos apura. Lembro-me que da última vez que me despedi de um amor pensei que iria entrar em acting out. Eu não sei como se passa com os outros homens mas comigo é um desastre. Começo rapidamente a elaborar uma lista mental de todas as mulheres que, por uma razão ou por outra, não foram. E penso em comê-las a todas, em dias alternados. Tudo isto seria cruel, tanto para as mulheres que não amei como para as mulheres que amei, não fosse patético, ridiculo. Os amores que não amámos serão sempre amores por amar. Tudo o que não vivemos teve uma razão para não ser vivido e não foi uma questão de oportunidade. Nenhuma cópula resolverá isso de modo satisfatório. Desfaço-me da lista interior. Viro-me para dentro. Estou tão virado para dentro de mim que até o sexo ideal me parece ser a masturbação. Uma das coisas boas de se ser adulto é poder-se fazer-se o que realmente se gosta. Quando era miúdo masturbava-me debaixo dos lençois, na casa de banho. Agora posso fazê-lo onde quiser. Não tenho espelhos interiores. Quebrei-os. Masturbo-me muitas vezes a ver o rio. Não sei se é por ser verão, não sei se é por já me ter entristecido tudo, acontece-me sorrir interiormente. Eu faço parte disto. Estamos em 2007 e eu faço parte disto. Tenho alguns amigos verdadeiros. Entro no café. Olho a televisão. Lisboa, de Wim Wenders. Lisboa, aquela luz magnífica. Despeço-me de um amor em silêncio. Um amor, quando verdadeiro, nunca nos abandona. Faz parte de nós. Eu não sei de amores tristes nem da tristeza no amor. Não há nenhuma cópula que destrua isso de modo satisfatório.

Ai meu rico Santo Antoninho

Estávamos em 1971. Eu tinha nove anos. Na Ada-Pera, entre Mafra e o Sobreiro, fizémos a festa. Como sempre. A fogueira. Vieram os primos de Lisboa. Os amigos das redondezas. Os vizinhos da outra metade da vivenda. Pusemos uma mesa grande na garagem, cavaletes em cima de um tampo grande. Eu, o João e o Pedro tinhamos estado toda a tarde a ajudar o meu pai e a minha mãe. No quintal , afastado da zona onde tinhamos cultivado as nossas pequenas hortas (eu e o João erámos os hortelãos da casa, o Pedro nosso magarefe) fizémos duas fogueiras. Uma maior, onde saltávamos todos nós, e uma mais pequena, para a minha mãe. Na verdade não era bem uma fogueira. Era apenas um pequeno conjunto de ramada baixa. A minha mãe estava grávida, a acabar o tempo, já com quarto marcado na Clínica de S. Miguel, em Lisboa, onde nascemos todos, menos o João, que tinha resolvido nascer numa casa ao fim da rua (e que por isso era o único saloio numa casa de alfacinhas). Passámos toda a noite na brincadeira. Tanto eu como os meus irmãos adorávamos os meus primos de Lisboa. De manhã, quando acordei, tinha á cabeceira da cama o António Oliveira, amigo dos meus pais. - A tua mãe foi para Lisboa! E durante a tarde nasceu a mana mais desejada por quatro galfázios, incluindo o pai. calhou que muitos anos depois, já tinhamos dobrado o milénio, recebo no Santo António um manjerico com um verso corrido que me encharcou de loucura e euforia. Ía ser pai.

terça-feira, junho 12, 2007

Interpretação de um mundo imperfeito

"O amor que fomos, que vivemos, que sentimos e de que morremos uma única vez é a nossa sombra até ao fim dos dias. "
Na caixa de comentários do seu post , a Isabela.

domingo, junho 10, 2007

A ideia do amor

Ontem choquei as minhas amigas quando a meio do serão, já as nossas crianças estavam deitadas, disse com frieza:
- O amor é uma ideia e é uma ideia que em último grau serve um trabalho de dominação política.
A Ireneia perguntou-me logo de que geração eu era. Foi uma forma delicada de me dizer, isso já foi no século passado, entendes? A Dulce, menos diplomática, estava cansada, tinha vindo de Londres nessa madrugada, estava a fazer vinte e quatro horas sem dormir, foi categórica:
- Tens consciência da palermice que acabaste de dizer, não?
Não voltaria mais ao tema não fosse o Luís ter escrito este post. Aí eu percebi que há que avançar.
A ideia do amor é um assunto demasiado sério para ficar apenas entregue aos amantes. Não que eles não o soubessem explicar. Eles são o próprio amor em explicação. Só que nada de pior podemos fazer ao amor do que tornar os amantes propagandistas do amor. Até porque sejamos honestos: os verdadeiros propagandistas da ideia do amor vivem em cavernas forradas a napalm e a papel verde, nas basílicas, nos claustros, nas praças vermelhas deste mundo, nunca amaram, nunca amarão, nem percebem aliás que o amor possa servir para outra coisa que não seja fazer progredir os seus negócios. São pessoas tristes, descoloridas, como aqueles ciprestes queimados pela geada, pelo frio, pela nortada. Falta-lhes sul, o sul em tempero, em cor, em maldição. Os amantes não precisam da ideia do amor, basta-lhes amar. O amor em acção. Em advérbio. Tudo o resto é cultura feita política, ideologia, e comércio. Mudam-se os meridianos, os paralelos, e mudam o cheiro dos amantes. As cópulas. As palavras. Os beijos. Mudam-se as mãos recostadas sobre as ancas. As penetrações. As próprias zonas erógenas. As imagens do amor.
O cinema tem aliás feito um trabalho notável - remarcável para os comerciantes, para os políticos, para a religião, bem entendido - para unificar a linguística e a semiótica amorosa. Uma só linguagem, uma só hermenêutica. A bem do negócio. E não há domínio, não há actividade humana mais varrida pelo instante cinematográfico do que o amor. Casablanca. Em Rosa Púrpura do Cairo, inusitadamente, a protagonista entra pelo cinema adentro. É um momento raro, cinematograficamente. Geralmente é o cinema, de uma forma subreptícia, a entrar pelas nossas vidas adentro. É um vaivém inimaginável, quer dizer, sem imagens, entre o espectador e o filme. Só que o filme não existe indistintamente da produção ideológica que o constituiu. Muitos dos que lutam contra um determinado tipo de hegemonia na representação do mundo sabem contra aquilo que lutam: contra a perda desse peso que o meridiano pode fazer no modo como amamos, gingamos, bamboleamos, acariciamos.
Há um peso enorme da longitude e da latitude no trabalhar do amor.
Lembro-me que uma vez fui amado por uma mulher oriental. Eu estava numa terra distante, tudo me parecia demasiado longe. Ela veio com todos aqueles estereotipos que eu poderia ter sobre as mulheres orientais - ou não fosse ela um sonho - e deus sabe que, desde Pearl S. Buck ou Somerset Maughan, a minha maior fantasia era ser devorado amorosamente por uma mulher cultivada sobre o prumo do Sol Nascente. Trazia óleos, sorrisos suaves, mãos de cetim. Quando ela me começou a tocar eu começei a chorar convulsivamente, como uma criança. Eu já tinha vivido bem mais de dois terços da minha vida e imaginei que poderia ter morrido sem ter sido longamente devorado pelo amor daquela mulher. Quando quis contar aos meus amigos é que percebi a raridade do que tinha vivido. Eles perguntavam-me pelos objectos, pelos gestos amorosos: como é que elas faziam ou desfaziam o sexo, a sua flôr, como é que o enfeitavam com os seus próprios objectos e pertences, como é que cheiravam. E eu não conseguia explicar-lhes o furacão que me tinha varrido. Eu antes dava muita importância ao sexo, à sua prontidão, à sua rigidez, ao simbólico rasgar de uma fêmea que a penetração do macho contém. Eu por exemplo não sabia que se podia foder com os olhos. E principalmente que essa cópula de um olhar poderia ser com eles abertos para dentro, pálpebras encostadas, corridas, fechadas para o fora do sujeito que eu sou quando amo. A educação dos rapazes nunca me ensinou isso e também, as mulheres ocidentais, seres infinitivamente belos e sábios, não me puderam nunca ensinar que eu, como homem, poderia ter um orgasmo tão secreto e doce como o feminino. Ainda me lembro dessa noite, da voz a crescer-me nas entranhas, o tropor a cavalgar-me por dentro, aquele desejo a arrebatar-me até uma espiral que me sugava.
Não estou apenas a falar da execução carnal dos amantes. Quando digo que o meu amor oriental foi o meu mestre, digo que ele me levou para o momento em que a minha identidade se tornou a de ser-em-procura-de-estado-de-dádiva. Aliás, aquilo que o meu amor oriental verdadeiramente me ensinou foi a duvidar do amor de que vos falo.

sábado, junho 09, 2007

escrever-pensar

está calor, mas não muito. há uma aragem fresca, a medida certa. o rio, sempre, sempre. o riso de uma criança natural. sou pai de uma criança de riso farto e natural. é o meu filho. já tentei ter a mesma evidência no corpo e no espírito de uma mulher, por vezes consegui, percebo sempre, há qualquer coisa de precário no amor. neste preciso momento em que escrevo sou tão do mundo como tudo aquilo em que me deixo, suavemente, emergir. continuo sem acreditar em deus. a constituir-me sua criatura, à sua revelia. o pensamento é em mim, sempre o lugar. por vezes o mundo pesa-me, como se fosse uma bolha que fosse rebentar, e aí eu maldigo o pensamento, pensar. são lágrimas secas, provisórias. mais à frente hei-de lembrar-me novamente de reconstituir os laços, as teias, os nós, pelo ofício, ou será gesto, de pensar. não é um ser livre que recomendo, é o que me calhou. estavam os deuses, os espiritos, a jogar à bisca lambida com o desígnio do mundo, a mim calhou-me em sorte este preocupar-me e despreocupar-me através do pensamento. há uns anos atrás tive um privilégio quase divino: subi a um palco. fui actor. digo-o sem alguma nostalgia. eu nunca fiz nada para aprender um ofício que não fosse o do pensamento. um dia gostava de ser uma pedra, um cão, um pedaço de vento. apenas pela curiosidade imensa de saber como pensa um canídeo, um mineral ou um pedaço de sopro. era tanta a minha curiosidade que matei o rapaz tímido, complexado, inseguro que sempre fui. e descobri uma coisa importante, que me arrastou do território da loucura onde um ser, qualquer que seja, pode estar. o meu corpo pensa. o meu corpo é pensamento. o pensamento que articula estas palavras é pensamento mas não é o único-único pensamento. há mais pensar no mundo. há mais pensar no mundo quando me calo, quando me silencio, quando deixo de ouvir o eco em que me tornei. e esse pensamento transfigurado, desfigurado, sem rosto, é festa. a festa.

"E depois arranquei as penas"

Na imperfeição do mundo, uma palavra justa. Cruzando-se com uma outra, parábola, perfeita.

sexta-feira, junho 08, 2007

O choque existencial

Ao ver este blogue sou levado um pouco a fazer uma viagem na memória e de repente dou por mim a olhar e a pensar na minha vida. A pensar a minha vida. Os meus verdes anos. Não há nada nela de verdadeiramente extraordinário. Vivi até aos dez anos num lugarejo, numa vilória, que não teria outra importância senão aquele convento que se impunha em redor do povoado. Depois, ao começar dos anos setenta, vim para Lisboa, para os Olivais Sul, um bairro onde a ideia de vizinhança muito se aproximava à que eu trazia de Mafra. Mas mesmo assim o choque existencial que isso significou para mim foi imenso. Cultivei a nostalgia. Eu sonhava que vivia em Kripton, que abria os braços e voava, visitando não só um amor perdido que tinha deixado em Mafra como os meus melhores amigos. Quando cheguei a Lisboa foi o cargo dos trabalhos. Não só estava cheio de imagens do verde dos campos, das brincadeiras pelas desoras do lugarejo onde vivia, do trigo, dos passeios no rio, dos clubes de investigadores, de uma liberdade que hoje o meu filho não pode disfrutar, também a minha integração foi dificil. Eu dava-me bem na relação interpessoal, tinha bons amigos, mas dava-me mal com os grupos. Se tivesse levado a sério metade das patifarias que me faziam teria tido uma existência traumatizada. Principalmente naquele longo verão de 77 ou 78, quando na minha rua começaram a chegar grupos vindo de fora e eu me tornei o alvo preferido das perseguições do grupo que fazia excursões à minha pila de não-circuncisado. O termo técnico era amostras e acabava, invariavelmente, sempre com um calmeirão que lhe sobrava em tamanho o que lhe faltaria em juízo, a assegurar-me cientificamente que o meu pénis era pequeno e que eu nunca poderia ter filhos. Já contei isso uma vez. Esse meu azar acabou por ser a minha sorte. Por causa dele, dediquei-me a conhecer e amar mulheres sensíveis, delicadas, e que, antevia eu, não me envergonhassem. E tenho tido sorte. Ao procurar mulheres sensíveis e delicadas encontrei-me também a mim, na afectação à delicadeza e à sensibilidade. Eu comecei por pensar que só as mulheres ficavam belas e únicas e doces com esse travo fresco de hortelã, tomilho e manjericão e dei por mim a descobrir que tudo, tudo mesmo, ganha expressão no silêncio delicado e sensível de um ser a destapar o pedaço de mundo em que toca.

quinta-feira, junho 07, 2007

Ponte encerrada ao trânsito

Quando olho para os blogues que existem tenho alguma dificuldade em explicar a mim mesmo o que é a blogosfera. O acto de escrever um blogue, na diversidade que assume (registo político, artístico, poético, confessional, grupal, diarístico, etc) tem tendência a fazer esquecer a percepção sobre o próprio acto. Ando cá faz por estes dias de Junho quatro anos, e ainda não sei o que é escrever aqui. Não é alimentar um site, embora seja aqui, na web, e o blogue pareça uma espécie de site, não é escrever para o DN Jovem, embora seja aquela festa e aquela adrenalina que era ver a nossa expressão pública em papel de jornal, não é um chat, embora a interactividade dos comentários seja muitas vezes tão intensa que pareça que tudo está a ser feito online, não é nada do que até já aqui fizémos, pensámos, realizámos. É como se ao escrever num blogue, tivessemos uma borracha que apagasse o trilho, o rasto. Escrever um blogue o que é?, fica sem resposta minha. Como a vida. Há no entanto um momento onde o que é escrever num blogue ganha uma centelha de luz. Quando um blogue fecha a porta. LP, J, PB, que conheci pela primeira vez no DN Jovem, fecharam a sua tabanca. Uma daquelas pontes diárias que atravessava. E ao ir novamente lá e perceber que se os quiser encontrar vou ter de pegar num telefone, seguir um rasto na web, ou ficar à espera dos novos caminhos que aqui voltarão a fazer, tive uma pequena ideia do imenso que a blogosfera é.

quarta-feira, junho 06, 2007

Bafatá club

Um grupo de amigos lançaram um blogue sobre a Rua Cidade Bafatá nos Olivais. É a primeira rua que conheci em Lisboa, ainda estava em Mafra. Moravam lá os meus primos e cedo se constituiu como um território mágico para mim. Nunca fiz parte da rua, dos seus hábitos, era um visitante, quase sempre com o meu primo Miguel, mas reconheço a maior parte dos seus personagens. Vou por isso acompanhar com atenção estas postadas que são autênticas incursões na memória e uma espécie de reconstituição de um modo de viver.

terça-feira, junho 05, 2007

Ambrósio de Milán

O patrono dos apicultores.

FARROPE DE POESIA - ALMADA NEGREIROS

Leitura com Andresa Soares, Cleia Almeida e João Cabral. Músico: Carlos Mil Homens e Eduardo Raon. Às 23h, no B.Leza.

Jardim do Mundo

Viagens de balão em voo cativo ,Artes Marciais (Tai-chi Sexta, Sábado e Domingo, Instalação Imigração Virtual, Mundo Real, concertos, Quiosque do Mundo Livre e Biblioteca dos Clássicos e Contemporâneos com livre acesso a obras literárias, jogos e leituras da Sérvia e da Croácia e oficinas criativas são algumas das propostas que tornam o Jardim Gulbenkian num Jardim do Mundo.

Dizer adeus em B.Leza

O Labirinto de Nahr al-Bared

Em 1948 foi um campo de palestinianos refugiados, em fuga da primeira guerra israelo-árabe. Hoje é um labirinto devastado, onde cortinas de fumo sobem aos céus sugando e aspirando os que morrem pelas ruas ao som da metralha e das baterias de morteiros. O espaço entre as duas imagens sustém a demagogia. Não é preciso dizer que o labririnto de Nahr al-Bared não está circunscrito às ruas ensaguentadas de Nahr al-Bared.
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"O Labirinto de Nahr al-Bared", é o título do "Grande Plano" do Público (página central), com uma foto de Jerry Lampen, Reuters.

Abrir o dia

abro o dia como se fosse um livro. ontem, e eu não sei porque insisto em escrever ontem quando tudo isto já se passou há milhares de anos, senti o teu acordo, mesmo quando nos desencontrámos, quando nos entristecemos, quando senti que não saberia, à distância, interpretar aquele teu silêncio sobre o teclado . disseste-me: voa. voa como se abrisses o dia, como se escrevesses o livro, voarinha pelo céu aberto, rasgado como sempre.
abro o dia como se fosse um livro, voarinhando por aí ao deus-dará. bato as asas, como um aprendiz, e logo aí me apercebo do quanto sou novo na casa dos céus. distraio-me com o próprio bater das asas, fico a contar histórias em que esse som fazia vez, afasto-me do grupo, deixo que o vento me enrole, faço piruetas e loopings para só eu ver, sou um acrobata destemido à procura de um grão de areia que tenha vindo de algum dos muitos desertos que andam pelos nossos céus.

Instante

Comovo-me com um nada que se me atravessa no caminho.
Estou só, de uma solidão desajectivada. Tudo o que amei, pessoas, coisas, lugares, me amou, terrivelmente, a mim. Pressuponho que seja nestes momentos que a alma dos homens e das mulheres se abre ao infinito, para falar longamente daquilo que verdadeiramente é exaltante na vida, como broches, minetes ou de fodermos que nem uns bichos da seda.
Se eu fosse crente falaria agora de deus.

Luar

Há um ano outros eram os personagens. Eu era feliz ainda de uma forma inconsciente. Abria a janela, extravazava rio pelos sentidos, eles também escâncaros, e deixava que aquele mar de prata me guiasse até ao infinito. Já não sei nada. A minha própria presença se assemelha a uma teimosia, a uma loucura. Há entre mim e o real um véu que é a minha incapacidade de pensar nas coisas. De as confrontar com modelos. Aceito que assim seja. Não é resignação. É mais pensamento. Ou pensamento outra vez. Há uma zona que parece loucura, mas não é. Sou eu a ser menino outra vez.

Hora

Na minha vida a maior imperfeição é o tempo. Agora que finalmente me sentei aqui disposto a procurar encontrar a expressão, a forma, acabou-se-me o tempo.

sábado, junho 02, 2007

Todo o mundo...

e ninguém.

F.M.I

Tive primeiro a edição em vinil, maxi-single. Depois descobri o FMI no segundo disco do ser solidário e comprei logo. Roubaram-mo. Há umas duas semanas encomnedei-o na FNAC. Recebi hoje a mensagem e já o fui gostar. Curiosamente no dia em que recuperei o FMI, encontro estes dois posts, um no Absorto e outro no Anacruzes.

sexta-feira, junho 01, 2007

Noite mestiça

No Trindade Namanha Makbunhe, um espectáculo que cruza dois polacos (o encenador e o cenógrafo) e guineenses no mesmo palco. No final a festa era entre os actores e os polacos, agora reforçados por uma comitiva de jornalistas que veio da Polónia. Depois desço ao B.Leza, para ver ainda um pouco dos Mercado Negro. São poucos os dias que restam para me despedir deste lugar onde vivi tanto, tão pouco.