domingo, fevereiro 28, 2010

Santiago do Chile | Lisboa [Alívio]

Foi ao fim da tarde, pelo Skype, que o alívio chegou. A voz da minha cunhada explicando que fora uma televisão e alguns objectos caidos ao chão, não tinham mais nada a registar senão o maior susto das suas vidas. Lá em casa o tremor de terra foi sentido de maneiras diferentes. O meu irmão julgou que estava num barco, agitado pelas ondas. Nem acordou. A minha cunhada agarrou na filha que entretanto acordara, assustada, e, meio aos trambolhões contra as paredes, desceu ao rés-do-chão, precipitando-se para a rua. Ao abrir a porta e vendo o carro literalmente aos saltos percebe que não é boa ideia sair, pode ser apanhada por alguma fenda. Lembra-se daquele estado de não saber o que fazer. É o que custa mais, percebe-se. A minha sobrinha também tem a sua visão do que aconteceu: " mãe, o vento era tão forte que partiu coisas cá dentro de casa, não foi?" Foi assim o terramoto lá em casa, num bairro residencial de Santiago do Chile. A oitenta quilómetros, um dos armazéns em que o meu irmão trabalhava, desapareceu completamente. O outro tinha danos gravíssimos e não se sabia quantas pessoas podiam estar lá dentro e em que condições. A seguir aos dois minutos e pouco, que pareceram uma verdadeira eternidade, foi a debandada geral. Estavam a fazer o contacto telefónico com cada uma das famílias. É a minha cunhada que nos conta isto, entretanto toda a família está numa estranha conferência telefónica que cruza Lisboa e Santiago do Chile. Conferimos notícias, o tsunami, o abalo, o número e intensidade das réplicas,a casa sem nenhuma fenda, a parte mais velha da cidade muito destruída. De repente, quanto é a vez de nos despedirmos, ouvimos as vozes das crianças, numa triangulação entre Lisboa e a capital chilena. E aqueles risos das crianças, aquelas vozes, mesmo que meio deformadas pela linha skype, são tão importantes para restaurarem a ideia de que tudo pode mais uma vez ser recomeço.

sábado, fevereiro 27, 2010

É o sexismo, estúpido!

O Arrastão deixou-se levar por uma polémica de pequena vaga: O Bruno publicou este post e as réplicas sucederam-se, nos comentários, nos posts. Como este do Daniel Oliveira ou est'outro do Sérgio Lavos. A polémica arrastou-se junto ao Jugular e corre, peticionária. Compreende-se. Embora seja sábado o mau tempo atrai-nos para casa. Mas mesmo que, posteriormente, o Bruno se tenha explicado mal, o cartaz é mesmo sexista. É claro que, como baratas tontas, vemos um par de mamas a querer sair do robe, e pensamos logo que é uma mensagem de baixo teor de inteligência, para massas em estado Super Bock e que faz uso de um sexismo explicito, que atenta à dignidade da mulher. Pura estupidez em que vi emborcarem-se tão distintos comentadores com pila ou sem ela. O maior atentado que ali vejo é à ideia de homem e sei que se a maior parte dos comentadores não tivessem tido uma paragem cerebral diante daquelas pretensas mamas tinham percebido que o a mais grave demonstração de sexismo explicito está na frase, é só puxar. O prazer é todo seu.

Porque promove uma ideia de homem que está nas antípodas de todos os esforços que os homens contemporâneos fazem para não serem confundidos com os machos ( cujo processo de extinção pode levar à mudança de sentido, vejam o que lhes acontece no último Wooddy Allen) que nunca fodiam, ou fodiam sempre mal, que viam as suas mulheres serem fodidas pelos outros, sempre os outros, porque eles não sabiam o que era uma cona, em que partes é que ela se decompunha, nem o que é um rabo, os seus lábios, ou uma nádega, o que são umas espaldas, umas pernas lângidas, uns dedinhos dos pés bem passados pelo cutelo do lânguido linguarejar.

Ou seja, esta ideia sexista de que os homens que gostam de beber uma super-bock, gostam que as mulheres sejam de abertura fácil, que seja só puxar, virem-se, em cerveja, creio, e depois acabarem a noite com a sentença de que o prazer foi todo deles, promove a ideia de um homem estúpido, insensível, que dá cabo de todo o nosso esforço quotidiano, ao limite do toque, da carícia, da língua, para descobrirmos a dificuldade de um corpo feminino se abrir ao prazer, ao orgasmo, ao prazer que é todo nosso.

Santiago do Chile | Lisboa [Angústia]

Momentos de verdadeira angústia. As linhas telefónicas estão totalmente ocupadas, uma, outra, e mais, sempre. Rede ocupada. Do outro lado ninguém atende. As primeiras notícias que nos chegaram por via indirecta dizem que só foi um susto, lá em casa, apenas um estremecimento, a trezentos e tal quilómetros. O facto de não haver até agora vitimas portuguesas a registar é um consolo temporário, até sabermos notícias de viva voz. Mas as imagens que nos chegam da destruição em Santiago do Chile fazem temer o pior. E o facto de por cá a Protecção Civil nos aconselhar a ficar em casa dá um estranho efeito global a este endemoinhar dos deuses do vento e da tempestade.
Continuar à espera.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Fala-me desta Burka ...

No i, Bernard Henri Levy, escreve contra a burka. A única vez que escrevi aqui sobre isso foi para dizer que não sei o que pensar sobre esse assunto. Tenho alguma dificuldade em localizar-me porque reconheço argumentos favoráveis em ambos os lados. No entanto o argumentário do filósofo francês não me convence inteiramente. E até me irrita, quando por exemplo ele diz que o discurso da servidão voluntária nunca colheu como argumento (para mim é uma inovadora abordagem das relações de poder). Irritações à parte, os argumentos de Levy:
1. "A burca não é um traje. É um ultraje. É uma mensagem que transmite claramente subjugação, subserviência e, em última instância, a aniquilação das mulheres." E acrescenta:" Se a burca é realmente, como afirmo, uma afronta às mulheres e à sua luta secular pela igualdade de direitos, também é um insulto às mulheres que, no momento em que escrevo estas palavras, se estão a manifestar no Irão, de cara destapada, contra um regime de assassinos que reclamam o xador como um dos seus símbolos. "
A ideia de que a burka é um ultraje é um slogan engenhoso e poderoso para a comunicação de massas, por exemplo, para o twiter. No entanto, ao pensarmos melhor porque é que ele é um ultraje, percebemos que o é porque é entendida não apenas como um vestuário, mas pela mensagem que transmite. Ora - faz parte do mais elementar da teoria da comunicação - se ela tem um valor como mensagem, esse valor é diferente conforme os contextos. Não faz sentido que tenha o mesmo valor num regime de natureza totalitária que obriga ao uso de burka do que num regime de natureza democrática que não só não obriga ao seu uso, como teria como mais cómodo que não o fizesse. E nós sabemos disso: quem quer proibir o uso da burka em Paris não quer efectivamente proibir o uso da burka em Paris, quer é, através dessa proibição em Paris, associar-se à luta pela libertação da mulher islâmica da obrigação de o usar nos diferentes lugares deste planeta que lhe exigem. É como se, com grande ingenuidade politica, quem proibisse as mulheres árabes de envergarem a Burka na cidade Luz, sentisse que estava a proibir os regimes islâmicos de exigirem às suas mulheres o uso de burka.
2. "Esse símbolo iria dividir a humanidade entre os que celebram a glória do corpo e do rosto e aqueles para quem o corpo e a face são um ultraje, um escândalo, uma coisa suja a esconder ou neutralizar."
Trata-se de um argumento moralista, e, como quase todo o ímpeto moralizador, pouco ético: se fosse expandido para o resto da sociedade, a maior parte de nós andaria nú, como reza qualquer catálogo - ou será decálogo - nudista. E não se trata de humor: é uma constatação face à nossa evolução sobre o interdito, o censurado, o proibido. O Ocidente tem uma forma específica de tratar da invisibilidade do sujeito enquanto sujeito, e de esconder o corpo e o rosto, mas não é por ser ocidental, por a ela estarmos mais familizarizados e já a termos interiorizado, que é mais válida do que qualquer outra, ou, pior do que isso, que a devamos impôr aos outros. Provavelmente o que se passa é que ao nos contemporizarmos com outras formas, talvez percebamos melhor o trabalho realizado pelos nossos próprios dispositivos de censura.
3. Por todos estes motivos, sou a favor de uma lei que declare clara e abertamente que usar uma burca em público é um acto anti-republicano.
Poderíamos dizer, agora sim com algum humor, que a jactância republicana é que é, essa sim, profundamente anti-republicana. E o ser anti-republicano - admitindo que uma coisa criada fora da república possa ser anti-republicana - não quer dizer que seja anti-democrático. Também a monarquia é profundamente anti-republicana e temos confrarias, movimentos, partidos monárquicos e até, pretendentes ao trono.
4. O facto dos argumentos de proibição da burka expostos por Bernard Henri Levy não serem os melhores, não quer dizer que não possa vir a ser legítimo, ao limite, proibir o uso da burka nas nossas sociedades e principalmente, em certos contextos ou em certos locais.
A escalada securitária advinda com o 11 de Setembro reposicionou as nossas ideias sobre privacidade e reserva de intimidade e se todos nós aceitamos que os nossos hábitos e as nossas ideias sobre o que é legítimo o Estado saber ou querer saber sobre nós, sobre o que transportamos, tiveram que mudar, também é legítimo estender esse principio a um instrumento de ocultação que pode vir a constituir um perigo público. Aliás, no Iraque, no Afeganistão, a utilização de mulheres-bomba, encobertas com burkas, foi um estratagema utilizado para muitos ataques suicida. Devemos no entanto enquadrar isso no âmbito da perda de liberdade a que os novos contextos de segurança nos contengenciaram, e não de uma desmesurada soberba (anti) democrática.
5. Na mesma ordem de ideias, a vulnerabilidade do argumentário de Bernard Henri Levy, e a possibilidade de isso demonstrar que ele percebe pouco do que se passa quando uma mulher árabe usa a burka em Paris, não quer dizer que, só por nos opormos a esse argumentário, que saibamos melhor o que acontece nessa situação. Por exemplo, e isso já seria inaceitável, que o uso da burka pudesse ser a continuação, em contexto micro-social, as familias, os grupos, da exploração da dignidade da mulher feita nos países islâmicos. É claro também que há muitos tipos de burkas. Antevejo que quando grandes estilistas parisienses adoptarem o modelo e o integrarem nas suas propostas, a experiência de usar burka, possa ser entendida fora dos seus contextos de usura. É apenas um palpite.

Madeira: Tragédia anunciada (e prevista) em 2008

Escrevi ontem que não sabemos " o que se passou na Madeira, até porque há um véu sobre a lama, o lixo e destroços. Os próprios mortos. É sempre o mesmo procedimento: a criação de um pathos que suspende o pensamento crítico. "

Hoje de manhã tinha este vídeo, emitido na RTP 2, na minha caixa do correio. O programa é simplesmente demolidor pela capacidade de anunciar, dois anos antes, com exactidão e pormenor, a tragédia de há meia dúzia de dias. Tudo está lá: o aviso com o tipo de precipitação da Madeira, muito intensa e localizada, o extravazar dos leitos das ribeiras e a velocidade e a capacidade de destruição que podem adquirir os caudais que descem da montanha, a inexistência de sistemas de alerta que em duas, três horas possam fazer evacuar as populações mais vulneráveis, a não observância de regras de protecção das populações nos programas municipais, a possibilidade de ocorrer uma tragédia, tudo.

Deveríamos ouvi-lo uma vez, duas, três mil vezes até percebermos porque é que estes oráculos não são ouvidos. É claro que face a ele apetece logo levantar o dedo indicador contra os responsáveis autárquicos que permitiram que os planos directores municipais levassem à tragédia recente da Madeira. Mas deviamos pensar um pouco nas condições que permitem isto e perceber a nossa quota-parte de responsabilidade? Os nossos governantes são eleitos por nós e, na maior parte das vezes, à nossa imagem e semelhança. Quantos de nós não olhariam este programa e pensariam que era alarmista, irrealista, fruto da imaginação de uma ambientalistas exagerados? Provavelmente Alberto João Jardim, no Carnaval permanente em que tornou a vida política madeirense, até já se terá referido a eles como uma gentinha que anda para aqui sem nada que fazer senão dizer disparates e lançar lama sobre quem governa. Qual o destaque que a programação dá a este programa? O que estávamos a ver no horário nobre no dia em que passou este programa? Que oráculos no prenderam a atenção nesse dia?

Se formos ao site do programa Biosfera percebemos que entre as últimas e as próximas emissões, difusão do programa é feita pela RTP África (23:15h e 4:45h), pela RTP N ( 03:15h e 5:15h), pela RTP i América (22:00h) , pela RTP Mobile (08:00h), pela RTP Ásia (16:00) e pela RTP2 (13:11h) .

Não sei como era em 2008 mas se formos ver as horas de emissão actuais, dá para perceber a razão para que este tipo de programa fique esquecido. Quando se fala em cultura, falamos disto. Está tudo ligado.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Orlando Zapata Tamayo, 1967-2010

Orlando Zapata Tamayo, que morreu ontem no hospital Ameijeiras, em Cuba, tinha menos cinco anos do que eu. Foi este o meu primeiro movimento para tentar compreender Tamayo. Depois li o seu curriculo prisional: foi preso desde 2002 e desde essa altura passou quase toda a vida na prisão. Para se ter ideia dos crimes que cometeu, em 2003, depois de ter passado um ano na prisão por ter manifestado a solidariedade com outros presos politicos, terá sido sentenciado a uma pena de 18 anos de prisão (li também num blogue, 36 anos) por ter participado numa greve de fome colectiva.

Orlando Zapata Tamayo, 42 anos, era membro da Movimiento Alternativa Republicana e do Consejo Nacional de Resistencia Cívil. Dizem as notícias - mas as notícias dizem todas a mesma coisa! e fazem dizer todas a mesma coisa! - que desde a morte de Pedro Luis Botel em 1972 não morria nenhum opositor do regime numa prisão de Cuba, por causa de uma greve de fome.

Ponho-me a perguntar: o que colocou este homem, um operário na altura com 34 anos, em rota de colisão com o regime de Castro? Qual foi o momento e como é que se tornou clarividente para ele que a sua vida estava traçada? Um ano depois de ter sido preso terá dito à saída da prisão que não iria pedir um visto para ir para os Estados Unidos e que voltaria em breve, porque iria continuar a lutar pelos seus companheiros presos. Tanto em 2002, como agora, Orlando Zapata Tamayo ( dá-me alento moral pronunciar os nomes dos meus heróis por extenso) deixou de ingerir alimentos para protestar pelas condições dos seus colegas presos politicos e ...porque queria vestir roupas brancas.

É todo um programa de luta e de vida que me impossibilita de compreender o drama de Orlando Zapata Tamayo. Curvo-me diante da sua grandeza, fico a ouvir a voz da sua mãe, a perceber nela uma ressonância com a coragem e determinação do filho, mas não sei se posso, genuinamente, compreendê-lo. Poderia dizer que compreendo. Mas não sei se isso é verdade nem se será muito honesto. Há algo de misterioso no percurso deste homem que eu não consigo preencher.

O mapa das catástrofes naturais internacionais, onde a ilha da Madeira já tem infelizmente um pin, tem duas cores. Uma, a vermelho, assinala os lugares onde a imprevisibilidade climática é cada vez mais perturbadora. Outra, a negro, aqueles onde a incúria e o mau governo jogam à roleta russa, tendo por bala as alterações climáticas, e alvo, a comunidade. Quando as duas se associam, como aconteceu no Haiti, há um crescimento exponencial do número de vítimas da fúria da natureza. Não sabemos o que se passou na Madeira, até porque há um véu sobre a lama, o lixo e destroços. Os próprios mortos. É sempre o mesmo procedimento: a criação de um pathos que suspende o pensamento crítico. Têm toda a razão aqueles que acham que o momento não é para criar perturbações no sentimento de solidariedade que varre o país. Mas a sua razão seria mais forte se mostrassem que as manifestações de solidariedade não servem para suspender iniciativas politicas que não têm directa influência sobre o apoio e a ajuda para a reconstrução da Madeira. Tudo isto só ajuda a transmitir a ideia de que a guerra das finanças locais não tinha assim tanto sentido e era, aliás, um episódio de uma guerrilha institucional entre governantes regionais e nacionais.

O que é que nós ganhamos com isto?

O Rui Tavares lança, como uma questão recorrente, a pergunta que anda de boca em boca, nem sempre pelos melhores motivos: O que é que nós ganhamos com isto? Confesso que quando vi a Inês Medeiros aparecer na lista de deputados do PS, para além da maior simpatia que tenho por ela, e onde se inclui o reconhecimento como actriz e realizadora, fiz a mesma pergunta. Não foram precisos muitos meses de assento parlamentar para ter percebido a resposta, através da sua proposta sobre os chamados precários.
É uma situação que só aparentemente é de incidência minoritária. Ou seja, só o é se nos ativermos ao campo da produção. Porque se percebermos os seus reflexos no campo da recepção cultural, então estamos a falar de um campo de influência que nos integra a todos nós enquanto comunidade. É mais um cerco, e dos fortes, aos já muitos, com que se debatem aqueles que se dedicam à área cultural e artística. Para os quais, na sua grande maioria, a chamada precariedade, é condição permanente, acabando assim por, paradoxalmente, verem agravadas as suas obrigações fiscais. É claro que para a visibilidade política desta questão, que está integrada numa dinâmica internacional, contaram, de forma decisiva, as iniciativas politicas dos chamados movimentos dos precários e dos recibos verdes, e de forças como o Bloco de Esquerda. Isso não impede que, quando voltar a olhar Inês Medeiros no Parlamento e me perguntar, mas afinal o que é que nós ganhamos com isto?, seja natural que a resposta me venha em forma de sorriso reconhecido.

O que (não) fará um governo da esquerda socialista?

Recebi uma informação sobre um colóquio que a Cultra- Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo vai realizar sobre o tema : O que fará um governo de Esquerda Socialista? O debate proposto envolve especialistas das várias áreas em discussão. Carvalho da Silva, Francisco Louçã, João Semedo, Mário Vale, Francisco Ferreira, Fernando Oliveira Baptista, Virginia Ferreira, Conceição Gomes, António Nóvoa e José Manuel Pureza são oradores e as suas intervenções serão comentadas por não menos ilustres cidadãos e cidadãs. É já no próximo fim de semana, numa jornada que ocupa a manhã e a tarde e se realiza no anfiteatro do Liceu Camões, e que se ocupa de temas como trabalho e segurança social, economia e finanças, saúde, cidades e ordenamento territorial, desenvolvimento rural e das pescas, igualdade, justiça, educação e politica externa e defesa.
Se procurou sem encontrar a palavra cultura, teve a mesma decepção que eu. Já estamos preparados para que os governantes, os governos, quando no poder, não manifestem a miníma atenção pela cultura. À direita, à esquerda, ao centro. E muitas vezes perguntamo-nos porquê. A resposta parece simples: é que mesmo quando na oposição, quando ainda só são o governo que queriam ser, a discussão política não inclui nos seus mapas de debate, a questão cultural, quer se entenda de um ponto de vista mais restrito, a actividade cultural, artística e científica, quer se entenda de um ponto de vista mais alargado, a vida associativa, os quotidianos, as dinâmicas socio-culturais.

Duas perguntas que em nada são iguais

Parece-me que, numa entrevista que tem a virtude de revelar uma personalidade política que a maior parte de nós lhe desconhecia, é apenas um deslize (o resto da entrevista desmente aquilo que podia ser, para um PR, uma perigosa concepção da politica partidária) a ideia peregrina de que há uma incompatibilidade entre o activismo politico-partidário de Manuel Alegre e a criação de um movimento de cidadania.
Há no entanto um aspecto curioso em algumas primeiras reacções - para além da adesão natural que a sua figura motiva - à sua candidatura: Fernando Nobre era daquelas pessoas que quando aparecia nos media, pela sua abnegação, coragem e integridade pessoal e politica, suscitava naturalmente em nós, falo por mim, a pergunta: porque é que este tipo não se candidata a Presidente da República? E agora, que ele se candidatou, e face às primeiras intervenções públicas, uma das primeiras perguntas que nos surge é, continuo a falar por mim, porque é que este tipo se candidatou?
Duas perguntas que em nada são iguais e que, muito provavelmente, revelam muito mais sobre mim do que eu poderia pensar.

Onde é que está o menino Paulinho?

Vicente Jorge Silva disse no Prós e Contras que o incomoda a forma como Sócrates repete até á exaustão as mesmas respostas. Há muita verdade nisto embora esta verdade deva fragilizar mais quem pergunta do que quem responde. Porque é que lhe fazem sempre e sempre e sempre as mesmas perguntas da mesma maneira?

A verdade duas vezes

Em relação às duas novas aquisições da minha lista de blogues de todos os dias, bem podia dizer que a verdade é uma serpente com duas cabeças. O Geoscópio, que descobri há tempos por causa da prosa clara e certeira do Jorge Nascimento Rodrigues, e este incrível Imprensa Falsa que prolonga durante a semana a minha reconciliação com o jornalismo dos factos, que tinha ocorrido pela mão do Inimigo Público.

Lugar

aquele é um dos poucos lugares expressivos do meu mundo em que eu venho sem ter nada para dizer.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

O gesto nobre e alegre

As eleições presidenciais prevêm-se aguerridas. Fernando Nobre e Manuel Alegre já estão na pré-corrida e pelo que provocaram, já merecem o nosso aplauso e agradecimento. A Presidência da República detem na nossa comunidade uma importante função de representação política e social e qualquer um deles tem um perfil humano, cultural e cívico que os coloca, indiscutivelmente, num plano de destaque da vida política e social portuguesa. Que vive momentos de grande perturbação e bem precisa deste tipo de iniciativas de cidadania que a prestigiem. Não deixa no entanto de ser interessante, e engraçada, uma circunstância política, que surge com estes pré-anúncios: ambos os candidatos que têm uma forte capacidade de implantação na esquerda, possuem também capacidade de entrar em campos do centro e da própria direita e, ao fazê-lo, desvalorizam a importância da questão do enquadramento político, permitindo que surjam outros aspectos de valorização política das candidaturas (e até criando problemas a uma eventual candidatura de Cavaco Silva, que iria claramente dirigir-se às tribos de direita).
[Às tribos de esquerda recomendo este texto, de Porfirio Silva.]

domingo, fevereiro 21, 2010

Os meus amigos da Madeira

Estive uma única vez no Funchal, em 1998. Estive praticamente nove dias fechado no Teatro Baltazar Dias, com o Carlos Alberto Augusto, o Fernando Mora Ramos, o Luís Mourão e um grupo de aventureiros na área da escrita, da música e da representação. No último dia, antes do voo, os quatro alugámos um taxi e fomos dar uma volta pela ilha, para a conhecer mais um pouco. É a única vez que estive na ilha. Agora, ao ver as imagens, algumas parecem-me familiares, as da zona portuária, das docas, mas de resto, entre lama, carros e detritos, tudo me parece uma paisagem branca das catástrofes internacionais. Até que de repente me ligo às pessoas. Aos meus colegas de curso, o Filipe, a Susaninha, o JP, o Fernando. Ao Emanuel. E tudo volta a ficar mais próximo, demasiado próximo.

Conspiração

Não sei se é ele, se é o tempo, que conspira, e, ambos, a meu favor. É já muitos dentro de mim. Desde aquela pequena bola rechonchuda que eu agarrava e levantava no ar, com os dois braços esticado, os dois a rirmo-nos, até ao Peter Pan, ou ao meu parceiro de bola; áquele que me dá conselhos de vida, o que já fez o luto da sua ideia de pais juntos e enfia o braço no braço dela; o que já me deixa namorar com ela sem nos vir abraçar aos dois, com medo de ficar de fora, até ao mais recente, o que escreve e canta canções com trejeitos na voz que imita sei lá eu onde. Ou o que já criou um endereço gmail, o que me manda milhares de emoticons numa única frase que diz, porque é que não estás aí, pai?. O que ainda há pouco tempo dizia, o meu pai é muito bom a jogar à bola e que ontem, quando um amigo dele me perguntou se eu sabia quantos metros tinha uma baliza de futebol, antes de eu responder, ajuizou logo, o meu pai não percebe nada disso, obrigando-me à desforra de ter de dizer em que lugar do campeonato é que estavam o Benfica, o Braga, o Sporting e o Porto, coisa em que falhei redondamente. Por vezes não sei onde vive. No reino de Bakugan, onde cada linha de código é uma história que ele fantasia, no seu colégio de meninos-protegidos-do-real-a-sério (mas não estamos todos?!), no seu quarto onde crescem peixes, na sua mesa de cientista onde faz trabalhos e perguntas cada vez mais complicados, não sei.
Não é literatura ou é a literatura a fazer de vida: há um não-saber que sei cada vez mais.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

O galo é o dono dos ovos

Não consigo deixar de gostar deste tipo. Não sei se é lealdade canina, se devia fazer uma declaração de interesses, afinal de contas só me encontrei com ele uma meia dúzia de vezes. Mas fiquei a gostar. E ele paga-me bem, à distância: mesmo quando não concordo com ele, as mais das vezes, uma simples croniqueta de jornal, vinte e poucas linhas, arranca-me umas cinco gargalhadas fartas. Das boas, mas das mesmo boas, generosas, quase a roçarem a alarvidade, capazes de me levarem o dia para um outro lado.

Será a cidade capaz de salvar a política?

Vou, a pouco e pouco, deixando cair o hábito da citação. Há frases de que sou feito mas a memória vai-se indo e quando a lembradura não se associa a uma emoção, tenho tendência a esquecer-me. Lembrei-me disto ao dar comigo com a recorrência com que, nestes dias, me ocorre o dito que ouvi ao Miguel Real (que andava ás voltas com uma investigação sobre o séc XVII/ XIX), " Estou cheio de saudades do século XX!". Lembro-me de que a frase iluminava todo o seu rosto, com aquela vivacidade e aquela agitação que lhe é tão própria. Lembrei-me disto ao ler a reportagem de Alexandra Lucas Coelho sobre Édipo-Rei e de pensar que este vaivém entre o nosso tempo e outras épocas é tão necessário para nos libertarmos de uma ânsia de totalidade que respira por todos os poros da nossa epiderme contemporânea. As coisas podem ser de outra maneira. O coro da tragédia grega somos nós, a cidade. O que queima Édipo não é a verdade, é o valor dado à palavra. É por isso que quando ele amaldiçoa o assassino de Laio é a si, sem apelo nem agravo, que se amaldiçoa. Olhássemos a cidade de hoje à luz da cidade de ontem, e veríamos que seria impossível fazer viver nela a ideia de política. Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, todos eles, sem excepção, já estariam condenados pela sua própria retórica. Há quem, face a este quadro, quem adiante que é porque na vida contemporânea a palavra perdeu credibilidade. Outros, mais pragmáticos, dirão que o problema se resolveria facilmente com a contratação, por Édipo, de uma boa assessoria de imagem e comunicação.
Voltar a casa é uma ideia ampla, que cria sonoridade, que repercurte. Cria um dentro e um lado de fora. Ainda há um adn em mim que se reconhece neste jogo de interioridade e exterioridade. Uma das coisas que voltar a casa traz é a ideia de arrumarmos as coisas, de acrescentarmos algo. Trouxe, desta rápida incursão pela Regra de Jogo, dois nomes para iluminarem a minha blogos de todos os dias: Hoje há Conquilhas, amanhã não Sabemos, do Tomás Vasques e a Máquina Especulativa, do Porfírio Silva.

salto no vazio

todos os dias 18 de Fevereiro, há nove anos, são, para mim, dias santos. satisfaz-se com pouco: "amanhã vai partir um bolo com os amigos. ele disse que gostava muito que fosses", recebo num sms na véspera. atrasei-me uns minutos. ao entrar no portão vem ele a correr para mim e, como tanto gosta de fazer, dá um salto no vazio em direcção aos meus braços. faz isto há tanto tempo. e eu sempre a pensar, como será, se um dia me faltarem as forças e não conseguir segurá-lo? ele confia em mim. já me critica, já me diz que eu errei, mas no salto para o vazio, ainda é em mim que acredita. é desta santidade que se fazem alguns dos meus melhores dias. enquanto houver esta corrida e eu for vontade, estarei lá.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

voltar a casa

voltei a casa e não sei se trouxe algo para contar. alguns amigos novos. regresso de uma viagem que não foi muito feliz. era para ser um jogo com regras. acabou por ser a demonstração das regras do dono do jogo. daqui a vinte anos entrarei noutra.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

As memórias coloniais da Isabela

Na Livraria Pó dos Livros ontem, a apresentação do livro de Isabela, Caderno de Memórias Coloniais, de Isabel Figueiredo, a Isabela do Novo Mundo e do Mundo Perfeito. A Isabel Almeida Santos do nosso DN Jovem. Eduardo Pitta (Da Literatura) apresentou a obra, secundado por Osvaldo Silvestre , editor de Angelus Novus.

A conversa foi bastante animada. Na sala, para além de quatro colaboradores do DN Jovem (além do editor) e três bloguers da Regra do Jogo, estavam muitas pessoas que tinham ouvido a entrevista ao Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, e que vieram com o calor do afecto e da memória por África, misturados com um misto de admiração pela coragem literária da Isabel.

Depois de Osvaldo Silvestre ter inscrito este livro na (grande) literatura autobiográfica, era irrecusável o debate sobre a forma como o livro deixa transparecer a questão colonial, que logo se encaixou na forma como falamos ou não falamos dela. Muita gente ali na sala tinha um pedacinho da sua memória da áfrica colonial que queria trazer para a roda da conversa. Para esses, com as Lourenços Marques cosmopolitas ou do caniço enfiadas até ao osso da memória, nem sempre é muito claro a forma como, forçosamente, se misturam memórias, horas de vida gravadas na caixa negra que, individualmente, transportamos, com o modo como a ideologia, o discurso político, tensionou a forma como nos lembramos de África. Como se lembram de África aqueles que voltaram, os portugueses de segunda, os retornados, os que deram o sangue pelo sonho colonial.

Era já noite, ao adormecer, quando peguei no livro para o ler. Não faço critica nem vou disfarçar isso perante o livro de uma amiga. Fico-me pelos fenómenos, pelos factos: o livro lê-se bem, lê-se demasiado bem. Já ía na página quarenta e tal quando de repente, ainda sem sono, percebi as desoras da leitura. A micro narrativa de um blogue, uma espécie de conto curto, talvez ajude a isso. Outro fenómeno: quando acordei dei-me conta de que tinha viajado para a minha própria infância. Primeiro colando-se à do imaginário do livro, as brincadeiras no quartel de Mafra com as lanças confiscadas aos turras, depois outros caminhos. É uma sensação boa, acordar com a infância espalhada no travesseiro.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

O Lado B

Não sou melómano. Sempre tive uma grande dificuldade para a música. Para a concentração, para o canto. Desde tenra idade. Lembro-me, era cachopinho, cantávamos no coro das crianças, em Mafra, o que eu gostava era as partes em que cantávamos todos juntos, disfarçava-me na pequena multidão de vozes. Com o tempo tentei várias estratégias contra isso. Tive aulas de voz e canto, quando fui actor. Ouvi detrás para a frente as músicas, tentando identificar os vários instrumentos. A verdade é que por uma razão ou por outra, nunca desenvolvi essa aptidão. Se coloco um cd passado dois ou três minutos já nem me lembro que o coloquei a tocar. Quando os discos eram de vinil, voltava incessantemente a colocá-los no princípio, para tentar ouvir finalmente as música sem nunca virar o disco, para ouvir o outro lado. Vejo agora que isso talvez me tenha moldado o próprio pensamento. Nunca me preparei o suficiente para o lado B e por isso, quando o vinil deu lugar ao cd, adaptei-me à nova linguagem tecnológica sem me aperceber que me faltava algo de fundamental: a compreensão da importância do Lado B. No amor, no trabalho, no lazer, em tudo. O que aprendemos nos primeiros anos da infância e da adolescência molda-se aos nossos gestos como se fôssemos nós próprios e a certa altura, insanos, até defenderemos isso como a nossa identidade. E esta minha tendência para voltar ao princípio da música, ou, como quem diz, do amor, de uma profissão, de uma maneira de estar, se me foi agradável, porque me distinguia dos outros e para o olhar de fora é sempre refrescante ver o mito do eterno retorno a desvanecer-se diante dos nossos olhos, talvez me tenha impedido de perceber o quão sombrios por vezes somos e de como a nossa vida também é iluminada pelas nossas trevas. Eu sei: isto é qualquer coisa que qualquer um de vós que me lê e que não se formou da mesma maneira que eu, tem como adquirido e por isso estranhará a forma como só agora, tão tardiamente, isso me surja no pensamento.

domingo, janeiro 10, 2010

A vida dos simples

É a fotografia mais antiga que tenho do meu pai, uma descoberta do último natal. Não são coincidentes os testemunhos sobre o momento que retratam. Teria sido ou no dia em que o meu avô morreu, tinha o meu pai treze anos, ou no dia em que ele entrou para o seminário. É dificil dizer, não só porque nos dois casos o luto carregado não permite distinguir momentos, era o único fato que o meu pai tinha, também, como a sua história veio a mostrar, a extensão da sua expressão de pesar adequava-se, tal como o fato, tanto a um como a outro momento.
A da Pera, algures em 1972. Os meus pais há muito que a esperavam. Principalmente o meu pai. Três filhos pilas, queria uma mulher na descendência. Ele sabia bem o que fazia. As árvores, mesmo as geneológicas, precisam da sabedoria da genética feminina. Olho a fotografia antiga, ainda há dias estive lá ao pé daquela varanda. Há pequenos pormenores que só eu sei. Por exemplo, porque é que só eu estou sem gelado. quando tinhamos planeado que tirariamos uma foto para a posteridade, e que o gelado assinalaria - tal como cigarro mais tarde, na adolescência, o faria em relação ao nosso style - a nossa felicidade. Naquele tempo para tirar uma fotografia, demorava-se algum tempo. Era uma Reflex que o meu pai tinha comprado na Suiça, quando lá estudara. Por isso tanto eu, mais sofrêgo como o meu irmão mais velho já não tinhamos gelado. Ele salvou as aparências, disfarçando, mas a verdade é que já não tinha gelado. Mas há mais marcas da nossa vida pendurados nos pixels: os relógios. Já tinhamos obrigações sociais. Mafra ficava a dois quilómetros e tal, tinhamos que passar o rio cego e chegar a horas à escola. Os dois irmãos mais velhos já íam sózinhos para a escola. Sózinhos é como quem diz. Era uma algazarra pegada entre os campos. Havia amigos nossos que faziam metade do caminho, até ao Rio Cego, só pelo prazer da brincadeira.

Rezar

Aconteceu-me já por duas vezes, nos tempos mais recentes. De repente comecei a falar, dirigindo-me a um ser que estava fora de mim e, pela direcção do meu olhar, num plano superior a mim. Não durou muito tempo este quebranto no meu agnosticismo. De repente dei-me conta de que estava a rezar e, a meio de um frase, calei-me, dividido entre um sentir-me mal comigo mesmo e o aperceber-me de que me sabia bem, ao espírito, ao corpo, esta ideia de que, mesmo quando tudo se for, não estarei só no mundo. E depois deste pequeno instante metafísico fiquei a pensar: foi assim que as religiões vieram ter connosco? Como uma promessa eterna contra a solidão universal? É por isso, por nos libertarem de toda a solidão do mundo, deste e do outro, que lhes perdoamos todos os pecados?

terça-feira, janeiro 05, 2010

Sair de casa

Ao olhar a foto, fico na dúvida: com o passar do tempo continuaremos a reparar na pequena mancha que somos nós nos lugares que habitámos?

Recital inesperado

Ontem, ao deitar-me, apeteceu-me levar um livro para ler. Peguei na obra poética de António Ramos Rosa, que aventuradamente me ofereceram num aniversário passado. Há muito que não lia um poema em voz alta. E assim ficámos os dois, a chamar o sono, virando páginas atrás de páginas. De manhã acordei feliz, leve, como se fora uma criança.