domingo, fevereiro 28, 2010
Santiago do Chile | Lisboa [Alívio]
sábado, fevereiro 27, 2010
É o sexismo, estúpido!
O Arrastão deixou-se levar por uma polémica de pequena vaga: O Bruno publicou este post e as réplicas sucederam-se, nos comentários, nos posts. Como este do Daniel Oliveira ou est'outro do Sérgio Lavos. A polémica arrastou-se junto ao Jugular e corre, peticionária. Compreende-se. Embora seja sábado o mau tempo atrai-nos para casa. Mas mesmo que, posteriormente, o Bruno se tenha explicado mal, o cartaz é mesmo sexista. É claro que, como baratas tontas, vemos um par de mamas a querer sair do robe, e pensamos logo que é uma mensagem de baixo teor de inteligência, para massas em estado Super Bock e que faz uso de um sexismo explicito, que atenta à dignidade da mulher. Pura estupidez em que vi emborcarem-se tão distintos comentadores com pila ou sem ela. O maior atentado que ali vejo é à ideia de homem e sei que se a maior parte dos comentadores não tivessem tido uma paragem cerebral diante daquelas pretensas mamas tinham percebido que o a mais grave demonstração de sexismo explicito está na frase, é só puxar. O prazer é todo seu.
Porque promove uma ideia de homem que está nas antípodas de todos os esforços que os homens contemporâneos fazem para não serem confundidos com os machos ( cujo processo de extinção pode levar à mudança de sentido, vejam o que lhes acontece no último Wooddy Allen) que nunca fodiam, ou fodiam sempre mal, que viam as suas mulheres serem fodidas pelos outros, sempre os outros, porque eles não sabiam o que era uma cona, em que partes é que ela se decompunha, nem o que é um rabo, os seus lábios, ou uma nádega, o que são umas espaldas, umas pernas lângidas, uns dedinhos dos pés bem passados pelo cutelo do lânguido linguarejar.Ou seja, esta ideia sexista de que os homens que gostam de beber uma super-bock, gostam que as mulheres sejam de abertura fácil, que seja só puxar, virem-se, em cerveja, creio, e depois acabarem a noite com a sentença de que o prazer foi todo deles, promove a ideia de um homem estúpido, insensível, que dá cabo de todo o nosso esforço quotidiano, ao limite do toque, da carícia, da língua, para descobrirmos a dificuldade de um corpo feminino se abrir ao prazer, ao orgasmo, ao prazer que é todo nosso.
Santiago do Chile | Lisboa [Angústia]
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Fala-me desta Burka ...
Madeira: Tragédia anunciada (e prevista) em 2008
Escrevi ontem que não sabemos " o que se passou na Madeira, até porque há um véu sobre a lama, o lixo e destroços. Os próprios mortos. É sempre o mesmo procedimento: a criação de um pathos que suspende o pensamento crítico. "
Hoje de manhã tinha este vídeo, emitido na RTP 2, na minha caixa do correio. O programa é simplesmente demolidor pela capacidade de anunciar, dois anos antes, com exactidão e pormenor, a tragédia de há meia dúzia de dias. Tudo está lá: o aviso com o tipo de precipitação da Madeira, muito intensa e localizada, o extravazar dos leitos das ribeiras e a velocidade e a capacidade de destruição que podem adquirir os caudais que descem da montanha, a inexistência de sistemas de alerta que em duas, três horas possam fazer evacuar as populações mais vulneráveis, a não observância de regras de protecção das populações nos programas municipais, a possibilidade de ocorrer uma tragédia, tudo.
Deveríamos ouvi-lo uma vez, duas, três mil vezes até percebermos porque é que estes oráculos não são ouvidos. É claro que face a ele apetece logo levantar o dedo indicador contra os responsáveis autárquicos que permitiram que os planos directores municipais levassem à tragédia recente da Madeira. Mas deviamos pensar um pouco nas condições que permitem isto e perceber a nossa quota-parte de responsabilidade? Os nossos governantes são eleitos por nós e, na maior parte das vezes, à nossa imagem e semelhança. Quantos de nós não olhariam este programa e pensariam que era alarmista, irrealista, fruto da imaginação de uma ambientalistas exagerados? Provavelmente Alberto João Jardim, no Carnaval permanente em que tornou a vida política madeirense, até já se terá referido a eles como uma gentinha que anda para aqui sem nada que fazer senão dizer disparates e lançar lama sobre quem governa. Qual o destaque que a programação dá a este programa? O que estávamos a ver no horário nobre no dia em que passou este programa? Que oráculos no prenderam a atenção nesse dia?
Se formos ao site do programa Biosfera percebemos que entre as últimas e as próximas emissões, difusão do programa é feita pela RTP África (23:15h e 4:45h), pela RTP N ( 03:15h e 5:15h), pela RTP i América (22:00h) , pela RTP Mobile (08:00h), pela RTP Ásia (16:00) e pela RTP2 (13:11h) .
Não sei como era em 2008 mas se formos ver as horas de emissão actuais, dá para perceber a razão para que este tipo de programa fique esquecido. Quando se fala em cultura, falamos disto. Está tudo ligado.
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Orlando Zapata Tamayo, 1967-2010
Orlando Zapata Tamayo, que morreu ontem no hospital Ameijeiras, em Cuba, tinha menos cinco anos do que eu. Foi este o meu primeiro movimento para tentar compreender Tamayo. Depois li o seu curriculo prisional: foi preso desde 2002 e desde essa altura passou quase toda a vida na prisão. Para se ter ideia dos crimes que cometeu, em 2003, depois de ter passado um ano na prisão por ter manifestado a solidariedade com outros presos politicos, terá sido sentenciado a uma pena de 18 anos de prisão (li também num blogue, 36 anos) por ter participado numa greve de fome colectiva.
Orlando Zapata Tamayo, 42 anos, era membro da Movimiento Alternativa Republicana e do Consejo Nacional de Resistencia Cívil. Dizem as notícias - mas as notícias dizem todas a mesma coisa! e fazem dizer todas a mesma coisa! - que desde a morte de Pedro Luis Botel em 1972 não morria nenhum opositor do regime numa prisão de Cuba, por causa de uma greve de fome.
Ponho-me a perguntar: o que colocou este homem, um operário na altura com 34 anos, em rota de colisão com o regime de Castro? Qual foi o momento e como é que se tornou clarividente para ele que a sua vida estava traçada? Um ano depois de ter sido preso terá dito à saída da prisão que não iria pedir um visto para ir para os Estados Unidos e que voltaria em breve, porque iria continuar a lutar pelos seus companheiros presos. Tanto em 2002, como agora, Orlando Zapata Tamayo ( dá-me alento moral pronunciar os nomes dos meus heróis por extenso) deixou de ingerir alimentos para protestar pelas condições dos seus colegas presos politicos e ...porque queria vestir roupas brancas.
É todo um programa de luta e de vida que me impossibilita de compreender o drama de Orlando Zapata Tamayo. Curvo-me diante da sua grandeza, fico a ouvir a voz da sua mãe, a perceber nela uma ressonância com a coragem e determinação do filho, mas não sei se posso, genuinamente, compreendê-lo. Poderia dizer que compreendo. Mas não sei se isso é verdade nem se será muito honesto. Há algo de misterioso no percurso deste homem que eu não consigo preencher.
O que é que nós ganhamos com isto?
O que (não) fará um governo da esquerda socialista?
Duas perguntas que em nada são iguais
Onde é que está o menino Paulinho?
Vicente Jorge Silva disse no Prós e Contras que o incomoda a forma como Sócrates repete até á exaustão as mesmas respostas. Há muita verdade nisto embora esta verdade deva fragilizar mais quem pergunta do que quem responde. Porque é que lhe fazem sempre e sempre e sempre as mesmas perguntas da mesma maneira?
A verdade duas vezes
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
O gesto nobre e alegre
domingo, fevereiro 21, 2010
Os meus amigos da Madeira
Conspiração
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
O galo é o dono dos ovos
Será a cidade capaz de salvar a política?
salto no vazio
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
voltar a casa
sexta-feira, janeiro 22, 2010
As memórias coloniais da Isabela
A conversa foi bastante animada. Na sala, para além de quatro colaboradores do DN Jovem (além do editor) e três bloguers da Regra do Jogo, estavam muitas pessoas que tinham ouvido a entrevista ao Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, e que vieram com o calor do afecto e da memória por África, misturados com um misto de admiração pela coragem literária da Isabel.
Depois de Osvaldo Silvestre ter inscrito este livro na (grande) literatura autobiográfica, era irrecusável o debate sobre a forma como o livro deixa transparecer a questão colonial, que logo se encaixou na forma como falamos ou não falamos dela. Muita gente ali na sala tinha um pedacinho da sua memória da áfrica colonial que queria trazer para a roda da conversa. Para esses, com as Lourenços Marques cosmopolitas ou do caniço enfiadas até ao osso da memória, nem sempre é muito claro a forma como, forçosamente, se misturam memórias, horas de vida gravadas na caixa negra que, individualmente, transportamos, com o modo como a ideologia, o discurso político, tensionou a forma como nos lembramos de África. Como se lembram de África aqueles que voltaram, os portugueses de segunda, os retornados, os que deram o sangue pelo sonho colonial.
Era já noite, ao adormecer, quando peguei no livro para o ler. Não faço critica nem vou disfarçar isso perante o livro de uma amiga. Fico-me pelos fenómenos, pelos factos: o livro lê-se bem, lê-se demasiado bem. Já ía na página quarenta e tal quando de repente, ainda sem sono, percebi as desoras da leitura. A micro narrativa de um blogue, uma espécie de conto curto, talvez ajude a isso. Outro fenómeno: quando acordei dei-me conta de que tinha viajado para a minha própria infância. Primeiro colando-se à do imaginário do livro, as brincadeiras no quartel de Mafra com as lanças confiscadas aos turras, depois outros caminhos. É uma sensação boa, acordar com a infância espalhada no travesseiro.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
segunda-feira, janeiro 11, 2010
O Lado B
domingo, janeiro 10, 2010
A vida dos simples
A da Pera, algures em 1972. Os meus pais há muito que a esperavam. Principalmente o meu pai. Três filhos pilas, queria uma mulher na descendência. Ele sabia bem o que fazia. As árvores, mesmo as geneológicas, precisam da sabedoria da genética feminina. Olho a fotografia antiga, ainda há dias estive lá ao pé daquela varanda. Há pequenos pormenores que só eu sei. Por exemplo, porque é que só eu estou sem gelado. quando tinhamos planeado que tirariamos uma foto para a posteridade, e que o gelado assinalaria - tal como cigarro mais tarde, na adolescência, o faria em relação ao nosso style - a nossa felicidade. Naquele tempo para tirar uma fotografia, demorava-se algum tempo. Era uma Reflex que o meu pai tinha comprado na Suiça, quando lá estudara. Por isso tanto eu, mais sofrêgo como o meu irmão mais velho já não tinhamos gelado. Ele salvou as aparências, disfarçando, mas a verdade é que já não tinha gelado. Mas há mais marcas da nossa vida pendurados nos pixels: os relógios. Já tinhamos obrigações sociais. Mafra ficava a dois quilómetros e tal, tinhamos que passar o rio cego e chegar a horas à escola. Os dois irmãos mais velhos já íam sózinhos para a escola. Sózinhos é como quem diz. Era uma algazarra pegada entre os campos. Havia amigos nossos que faziam metade do caminho, até ao Rio Cego, só pelo prazer da brincadeira. Rezar


