quarta-feira, março 31, 2010

Ilhéu

Estou cercado de mar. Ponho três pedras no Jameson. Como se fosse um náufrago. Sabe-me bem o balancear das águas. Balanço eu também. Faço-me de pequenas impressões. Coisas pequenas que acontecem durante o dia. O palco outra vez a encher-se. Não tarda vem aí o D. Quixote. Estamos a trabalhar com pequenos grupos, que acompanham o processo criativo do Bando. Já fomos a Vale dos Barris, a esse refúgio que, há doze anos - vai fazer doze anos que acabou a Expo 98 e que o Bando começou a projectar-se do outro lado, a olhar Palmela, os campos, a península - é a sua casa. Vir um grupo como este para o teatro onde trabalho é semear os meus dias de interpelação, de vontade de querer fazer melhor. Já me esqueci da melancolia com que estava a querer começar o texto, o post. O gelo a derreter-se. Eu gostava de ser capaz de pensar um pouco mais mas não consigo. Ou não sei se quero. Não se consegue pensar nada quando se está sozinho. Ou consegue-se, mas é um pouco estéril. Há dias que voltei a escrever aqui no blogue e quase ninguém passa por aqui. Vou pôr mais uma pedra no Jameson. A verdade é que eu próprio já não consigo reeditar o fascínio que tenho por escrever no blogue. Fazê-lo significa que eu trabalho este ardil de pensar que tenho algo para dizer quando sei que não tenho. Quer dizer, ainda não desisti do mundo: se me sentar a escrever uma fala para ressoar no tempo teatral, aí acho que posso ser-vos útil. E o tempo do teatro está aí, cada vez mais urgente. A crise é boa para o teatro. As pessoas ficam insatisfeitas, começam a coçar-se, a ficar nervosas, a quererem estar umas com as outras, a solidão começa a ficar muito ruidosa, é a hora do palco e o palco é essa passerele por onde tu, eu, nós, passamos. Mas a blogosfera, confesso que é como este Jameson, tenho dúvidas. Entretanto, vou buscar mais uma pedra de gelo. Está quase no ponto. O problema é que não vimos aqui para escrever. Nós estamos aqui. Na sala ela está a ouvir uma música, a ler um livro. O problema é esse: há tantas coisas para deitar as mãos, livros, músicas. E pessoas? Ontem fui a cinema e quando vinha subindo a Gran via da nossa cidade, havia corpos deitados sobre a rua. Um sem abrigo ressonava, tinha o pé de fora. Hesitei entre o tapar, entre fazer-lhe cócegas ou simplesmente, seguir em frente. Segui em frente, claro. Perdi o interesse pela blogosfera? No outro dia o guarda-rios foi-se embora, apagou o seu rastro, deixou apenas um adeus. O que não temos faz-nos falta. Tu, que nunca passaste por aqui, que nunca escreveste aqui nada, fazes-me falta.

Apologia de Sócrates

Não foi própriamente uma confissão de arrependimento. Foi apenas um daqueles anacronismos resultantes das circunstâncias do tempo em que vivemos. Também ontem uma Fedra me veio mordiscar as solas dos sapatos. Acontece. Mas gostei de ver o Público, se bem que por cinco euros e tal, fazer A Apologia de Sócrates. Na minha adolescência emocionei-me mais quando li este texto e o Banquete do que com muito grupo de Rock and Roll.

Estamos sós

Mesmo quando não estamos sós. Água e solidão. O nosso adn não tem muito mais.

segunda-feira, março 29, 2010

Tempos do teatro

[Dario Fo]
No outro dia lembraram-me a ausência de registo no blogue do dia da poesia. E ontem, ainda terá sido mais grave: o Dia Mundial do Teatro e nem uma palavra, uma anotação (exceptuando os parabéns ao Apicultor, é o seu dia também). E participei, lá no meu teatro. Vimos o Havia um menino que era pessoa. E mostrei o teatro aos que vieram à nossa visita mensal. No dia anterior vi a Balada da Margem Sul, de Helder Costa. Os tempos do teatro começam a ficar perplexos, interessantes: A Família Portuguesa, no Teatro Aberto, de Filomena Oliveira e Miguel Real, A Balada da Margem Sul, na Barraca, Édipo, no D. Maria II, Não se ganha não se paga, de Dario Fo, no Teatro da Trindade. É, como diz Mark Deputter, o teatro a querer ser político outra vez?

domingo, março 28, 2010

Ligação perigosa

Tinha prometido abster-me de comentários com implicações na política partidária, mas ao ler isto, não posso deixar de linkar. É verdadeiramente espantoso pensar-se que "Este é um 'case study' de potencial manipulação da informação", como o faz a deputada bloquista, e depois não chamar as pessoas ( Luciano Alvarez, Tolentino de Nóbrega e Fernando Lima)que o podem esclarecer porque se mostraram indisponíveis. E o BE vai atrás da procissão. O andor já pesa muito, só com o santo do Sócrates. Longe vão os tempos em que este mordia nas canelas do PS por se aliar com a direita. E nós teremos que esperar pelas próximas eleições para que estes avatares de esquerda se desmoronem. Já não nos bastava o Governo, a Justiça, a PEC, as agências de notação da dívida (que excelência de conteúdos hoje, apresentados por Mário Crespo, no 60 minutos, sobre o comportamento das grandes empresas financeiras de Wall Street), agora também o Bloco já não é o que era? O que é que falta? O PCP a bailar o corridinho da madeira com o Alberto João?

A Primavera que nos salve

Nasci em Maio e por isso sempre achei natural uma inclinação minha pela Primavera. Hoje pude finalmente tomar o café da manhã no quintal, enquanto lia o jornal. O sol batia-me na cara, vinha-me o cheiro da hortelã, da salsa, da lucia-lima a brotar, ouviam-se os sinos de S. Vicente de Fora, as vozes dos vizinhos, e eu pude perceber porque é que, intimamente, gosto de sorrir enquanto vivo. A vida dá uma trabalheira dos diabos no sentido em que o tempo de percebermos algo em relação a uma situação quase nunca é o tempo em que podemos vivenciá-la. As coisas faltam nos sítios onde as queremos. A própria querença nos desabita amiúde. Os escreventes pimba como eu fazem-se de generalizações mas a verdade é que apetece dizer que a maioria das pessoas vive preteritamente. Vive: ama, faz, desfaz, pensa. Raras são as vezes em que nos damos conta de que podemos viver de outro modo. Conseguimos as mais das vezes condescender e dizer: poderíamos ter vivido de outra maneira. E não nos damos conta, ao viver, que até no pensar assim, agimos preteritamente. Deviamos poder largar o passado e mergulharmos, mais incisivamente, na força agorética da vida em estado bruto, larvar. É por isso que a Primavera me emociona tanto. Eu já me estou ralando para a poesia da vida, a força do pino do verão, o amouchar do outono, o soçobrar do inverno. Tudo isso não passa de ideologia disfarçada de modo de vida, de humanidade nossa. E eu agora já só tolero a ideologia em estado íntimo, com ela. Eu chamo-a, ideologicamente, de meu amor, discuto com ela, grito, zango-me não menos ideologicamente, e isso, mais um ou outro convívio de amigos -e cada vez menos convivo menos - é a rara reserva de ideologia com que, nos meus tempos livres, ainda vou condescendendo. A ideologia com os outros, e principalmente com desconhecidos, é qualquer coisa que, para o que sou hoje, é uma quase obscenidade. É a Primavera que verdadeiramente nos redime. A força da terra a rebentar. Quem me ouvir a falar no meu quintal pensa que eu tenho, em plena cidade, uma courela cheia de couves, melancias, batatas, cebolas e demais hortícula. Nada disso, tenho um canteiro e depois vasos onde rebenta aquilo que me dão. Mas há num pedaço de terra, por mais pequeno que seja, desde que o deixemos sobreviver até à Primavera, uma lição de vida. Deram-me estas margaridas em Maio. Aguentaram até ao verão, depois, queimadas, desfaleceram. Desapareceram até, tão transparentes que ficaram. Foi uma amiga, ela própria Margarida, que as ofereceu. Disse para mim mesmo, no Inverno, sempre que passava por ela, moribunda: "-A Primavera que te salve!". A única coisa que fiz foi deixá-la estar no vaso. Deixei-a estar. E a Primavera salvou-a. Salvou-a a ela, da mesma forma que nos salvará a nós.

Sonho possível

Os fins de semana mais curtos têm uma desvantagem, deixam-se coisas por fazer, brincadeiras por tecer. Mas sabem melhor na hora da despedida: o adeus é mais forte, mais amigo, mais fazes-me falta puto! Ontem fomos ver todos o Sonho Possível. Era ele que estava com mais receio de não ser para a sua idade. Curiosamente a única vez que lhe pedi para olhar para mim e não para o écran foi num anúncio da Sagres. Um acesso repentino de puritanismo. E, quando o Big Mike volta ao seu bairro e dá uma tareia no dealer lá do sítio, o barulho, a perspectiva de violência que as armas potenciavam, fez com que protegesse a vista, escondendo-se em mim. Foi só um instante, o único. Até porque depois concordou que na sua play station, nos seus vídeos de desenhos animados, há muito mais violência do que naquele repente de fúria do Mike.

sexta-feira, março 26, 2010

Adoecer, com Hélia Correia

A entrevista do Público, de Raquel Ribeiro a Hélia Correia, é uma delícia. Apetece entrar naquele mundo deles, da Hélia e do Jaime. Imaginá-los a tocarem e a cheirarem a folha do caderno de Dante Gabriel Rosseti. Eles são dois seres preciosos. Hélia diz que Adoecer não é uma biografia de Elisabeth Siddal, que os biógrafos deixaram todos escapar esta dimensão que só este fascínio, este enamoramento a que ela e o Jaime se entregaram, podem tentar captar, e eu, quando ela diz de Lizzie Siddal aquilo que poderia ser dito de si mesma, penso no grande privilégio que é escrevermos, debruçarmo-nos, abismarmo-nos.

Moderação de comentários

Avisei há uns dias que introduzia a moderação de comentários de uma forma definitiva. Já o tinha feito, casualmente. É uma chatice e dá muito trabalho, principalmente para um blogger em perda de produtividade e presença, como eu. E muito desatento. Aos amigos deste blogue peço desculpa. Tem também as suas vantagens. Quem conhece este blogue sabe que em tempos fui aqui atacado por um antigo colega de trabalho que volta e meia vinha fazer desabar aqui o seu ódio contra a tribo socialista que um dia o nomeara e no outro, o despedira. São contas próprias de quem se envolve com tribos, mas que, por ter aqui um espaço aberto, me fizeram algumas vezes ser invadido pelo comentário a roçar o insulto. Nunca lhe desejei nenhum mal por isso embora considerasse que muitas vezes poderia ter resolvido o seu ódio com um email. Mas agora confesso: há pouco encontrei dois comentários seus e dei-me conta de uma certa satisfação por poder descarregá-los, sem ninguém os ler, no mesmo lixo onde coloco os anúncios do viagra.

Comissão de Inquérito sobre a Liberdade de Impressão

Um amigo chamou-me a atenção para este artigo sobre José Sócrates que não terá sido publicado, por, segundo O Expresso, ter havido problemas de impressão na edição de 18 de Março do Libération. O meu amigo duvida, não acredita em coincidências. Estou com ele: e proponho desde já uma nova comissão de inquérito. E antes disso, uma leitura atenta do artigo. Claro que traça um ponto de vista muito pessimista do futuro político de José Sócrates. Mas há alguém que lhe anteveja, neste momento, um futuro politico risonho? A leitura atenta do artigo impõe-se por se tratar de um artigo que tem uma grande virtude: transportar-nos para um jornalismo denso, bem elaborado, rico de perspectivas, mais interessado na constituição de um corpus informativo do que numa informação que satisfaza a necessidade mais imediata de produzir opinião.

domingo, março 21, 2010

Economia da Cultura: Notas

Ontem estava em Vale dos Barris, no Bando. Passaram-me pelos olhos os seus trinta e cinco anos de internacionalização. E pensei que seria bom que o Estado cuidasse destes activos económicos como cuida de outros. A exportação dos nossos produtos culturais e artísticos pode ter peso na nossa balança de pagamentos, ou não? Quando o primeiro-ministro e o presidente vai lá fora, as suas embaixadas podem ter estratégias para a internacionalização dos nossos negócios na área cultural? Ou não? A cultura é só folclore para comenda eleitoral?

Homenagem a Mc Snake

A morte de Mc Snake às mãos da polícia é uma profunda estupidez. E como todas as coisas verdadeiramente estúpidas deste mundo, pode fazer com que a estupidez do mundo entre em loop. O que fazer? Pedir a cabeça do agente policial que o matou? Desculpá-lo com a falta de formação sobre aquela arma que tão rapidamente disparou? Atirar a responsabilidade para Mc Snake por não ter parado numa operação stop?

Proponho uma muito simples homenagem póstuma a Mc Snake: antes de darmos palpites, comecemos por ir à página do Hip-Hop Tuga. Ouçamos Mc Snake. Sam The Kid. Aquele que é chamado um dos mais irreverentes valores de entre eles todos, Valete. E continuem, segundo as vossas preferências. Desliguemos por momentos as conexões invisíveis que nos ligam aos grandes lagos imaginários de uma vida mítica, seja lá o que isso for. Entremos, pela voz destes rappers em Chelas City, a Zona Ji. Vejamos aqueles vídeos do You Tube. Aqueles cenários de cidade oculta. O cimento das paredes. Sejamos um pouco desta vida, destas palavras, deste ritmo. Desta vontade, tão igualzinha à de todos nós de construirmos uma vida diferente. E agora sim, voltemos às questões essenciais: o que fazer?

Em primeiro lugar, claro que também tenho de pedir a cabeça do agente policial que matou Mc Snake. Não no sentido de dramatizar a sua responsabilidade, mas negá-la impede que a cadeia de responsabilização prossiga. Ele disparou, tão lesto, uma arma que mal conhecia. Há uma componente de responsabilidade individual que tem de ser assumida na actuação de um agente policial. Aliás, ele é o próprio a fazê-lo, segundo leio pelas notícias. Sou solidário com a sua dor, com a sua tomada de consciência. Deve ser terrível apercebermo-nos, num flash de segundo, que a lei, a tranquilidade e a segurança de todos nós podem implicar que haja pessoas que andem com deus num colt policial. Todos os outros polícias têm de poder olhar para este caso e saber que quando lhes damos uma arma que pode ceifar uma vida, não fazemos deles deuses, acima de qualquer arbítrio. Depois, exigo a responsabilização do Estado, através da instituição policial. A polícia tem de ser rápida a pedir desculpa à família (e a indemnizá-la). A polícia tem de ser rápida, a incluir na formação dos seus agentes todos os elementos que permitam que este tipo de incidentes possam ser evitados.

Enquanto tudo isto não acontece (o mais provável é que o rapper morto e o polícia fiquem como os únicos personagens de uma história da qual provavelmente não serão senão meros figurantes especiais!) ouçamos mais uma vez o hip-hop tuga. A cultura aproxima-nos tanto!

sábado, março 20, 2010

Travessia do Tejo

A Inquisição. Ressoador

Por uma daquelas sortes do meu trabalho, vi-me dentro daquela sala da Escola António da Costa, com o grupo de teatro da Universidade Sénior de Almada, projecto dirigido pela Helena Peixinho (mais uma sorte, esta da minha vida e já com quase vinte anos, a de ser seu amigo) que irá ser um dos grupos a fazer acompanhamento criativo do espectáculo "D. Quixote", pelo Bando, a partir da peça de António José da Silva. Foi o primeiro encontro, com dois elementos do Bando encarregues de dinamizar esta proposta original. Trata-se de criar um vínculo com um determinado grupo que se constitui como um observador privilegiado do seu processo de trabalho, assistindo a ensaios, falando com criadores, dando a sua opinião. Hoje iremos até Vale dos Barris com o Refugiacto, na semana passada estivemos no Passos de Manuel e anteontem foi a fez do teatro sénior. Este contacto com o seniores, pelo testemunho de vida, de vontade e entusiasmo, provocou-nos a todos uma profunda impressão. Quando começámos a conversar sobre a época da (curta) vida de António José da Silva, uma palavra se impôs: a Inquisição. O forma como o acto inquisitório era lançado. Bastava uma denúncia, uma denúncia anónima, sem nenhuma prova, e sabemos, muitas delas eram movidas pelo interesse em eliminar concorrentes em negócio. Feita esta, lançado o procedimento inquisitorial, era o acusado que iria alimentar a sua própria fogueira, no sentido em que tudo aquilo que iria responder, iria servir para construir o fundamental do processo. Quando estamos a falar disto automaticamente começa a vibrar em mim um ressoador, levando-me até aos dias de hoje. Estamos tão próximos, nisto, dos tempos da inquisição, ou, melhor, estão tão próximos, nisto, os comportamentos fundadores do auto-de-fé. Já não há o cheiro a carne humana queimada mas ainda existe o júbilo da praça em delírio diante da condenação à morte de um relaxado.
Tenho, por causa de um ou dois clássicos que vi ultimamente, reactivado o interesse pela ligação, reactualização, reutilização (seja, o que lhe queiramos chamar!), de textos não contemporâneos. Não o tenho por hábito. Não sendo ávido por conhecimentos novos senão apenas nas situações em que a sua busca tem a ver com algo que me emociona, tornei-me uma pessoa pouco erudita e começo a desenvolver, interiormente, sem o notar, como todas as pessoas que tendem para a ignorância, uma aversão à erudição. Admiro-a nos outros, como expressão do tempo das suas vidas, o tempo que passaram a descobrir um determinado objecto de conhecimento, tenho a felicidade de pode partilhar a minha vida com pessoas cuja avidez de conhecer as torna ainda herdeiras de uma atitude enciclopédica, mas se pego num livro apenas movido pela minha curiosidade, rapidamente o fecho. É um defeito eu sei. Sou daqueles que tenta equilibrar o pecado dos seus defeitos com a virtude da sua assumpção. E gosto também de longos preâmbulos, como se vê por este post. E eu só queria falar uma coisa a propósito do D. Quixote do António José da Silva.

quinta-feira, março 18, 2010

Disse três vezes PEC antes de trair os seus eleitores

Tenho-me mantido desatento às questões do PEC. Por várias razões. Não acredito muito nele, tem uma função muito específica que é dinamizar a posição nacional nos mercados internacionais dedicados à compra de dívida pública, e os seus impactos conjecturais para 2012 e 2013 decerto que irão ainda ser revistos muitas vezes. E porque tinha como adquirido, na sequência do que tinha sido o programa eleitoral do Partido Socialista, de que há um património das questões sociais, com activos fundamentais criados ainda por Guterres, que tem vindo a ser incrementado. Ainda há dias pude assistir a uma conversa com Idália Moniz em que ela explicava, da forma convincente e preparada como costuma, o trabalho feito na área da segurança social. Ainda tenho os meus apontamentos no meu moleskyne. Nessa noite adormeci tranquilamente. Havia na política do governo um outro varejamento dos assuntos. Estava portanto neste sossego quando leio no Banco Corrido o post de Paulo Pedroso sobre o PEC e me dou conta do que está em jogo com o limite para a concessão de prestações sociais não contributivas. Gostaria de esperar que a leitura feita das novas condições das democracias modernas (a essencialidade da garantia do bem estar, por exemplo) no último Prós e Contras por Miguel Morgado fosse verdade e que, por exemplo, possam vir a cair os governos quando haja um aumento da taxa de desemprego para níveis muito elevados. Gostaria também que houvesse uma correlação directa entre esse aumento e os limites de financiamento pelo Estado dessas prestações sociais agora introduzidas pela PEC. Ou seja, que ficasse estabelecido que quando um Governo deixar a taxa de desemprego subir para níveis onde não possa ser garantida o pagamento da contribuição, seja imediatamente demitido. Eu sei que estou no plano onírico. Nem vale a pena argumentar com o razoável, chamando a atenção para aquilo que já tinha sido o previsto no orçamento de estado, ou seja, o prevísivel aumento das prestações sociais por causa do crescimento da taxa de desemprego. É uma razoabilidade que está completamente fora do raciocínio deste terrorismo de Estado. O Estado para continuar a ser pessoa de bem não pode continuar a arrecadar receita com os rendimentos do nosso trabalho se assumidamente está a dizer-nos que pode vir a não poder garantir-nos o pagamento das contribuições que justificam essa mesma arrecadação de receita. É um comportamento fraudulento, não apenas politica, ética e socialmente. O Estado não é o Príncipe João. Creio ser inconstitucional. Que justificação há para a selecção dos que recebem e daqueles que não recebem? Os últimos a chegarem? E para os que não têm, o Estado devolve os valores já cobrados no rendimento que se destinavam à garantia deste tipo de situações?
Ou Teixeira dos Santos e Sócrates já se cansaram do exercício do poder governativo, ou estão demasiado cansados do exercício do poder governativo. Não há terceira. Façamos-lhes a vontade. Abramos a possibilidade de regressarem à gestão pública que ainda sobrar da próxima privatização e saborearem os milhões com que a Pátria recompensa aqueles que a amam.

quarta-feira, março 17, 2010

O espaço das coisas

Ela fala assim das minhas tralhas. Apetece-me barafustar, dizer que eu não sou assim. Manobra de diversão pura. Um escritório para mim não é uma divisão. É uma caixa. Com estantes e muitas caixas dentro. Julguei há uns dois anos que ao comprar uma data de caixas para arrumar as coisas, estava a arrumar as coisas. Não estava. Estava a metê-las em caixas e depois a estas metia-as numa caixa maior. Mas há sempre coisas que ficam fora das caixas. Eu podia dizer que o tempo me ensinou que não valia a pena andar a transportar lixo de umas casas para outras. O tempo e muitas mudanças de casa. Mas a verdade é que ainda não consigo olhar para as coisas no mesmo momento que ela. Quando olho para as minhas caixas, as minhas tralhas, os meus caixotes, vejo o que eu era há uns anos e claro que estou diante de um universo que tende para a organização e a simplificação. Quando ela olha para o escritório, olha para a sua casa anterior de estremece diante de um mundo que se aproxima a passos largos da entropia. Apaixonei-me por uma virginiana pura e agora percebo que o difícil é colocarmo-nos no ponto de vista do outro. O escritório está organizado atrás, aos lados de mim mas eu estou apenas com este écran e ele branco, alvo, limpo, as letras alinhadas em frases, linhas, tudo me parece geometricamente equilibrado. Este fim de semana vai ser de arregaçar as mangas.

Luís, Leando, Isabel, Santana, Joaquim...

Tem-me acontecido nos últimos dias com alguma frequência. Leio o Público, começo sempre pelo fim, pela opinião, e depois há um texto que me motiva o responso interior. Lembro-me sempre nestas alturas de uma deliciosa conversa com E. Prado Coelho, em que ele nos dizia que a meio de ler um texto já começava a ferver, a escrever o seu próprio texto. Ando agora aqui também eu, numa agitação interna, a dizer, a contradizer. Hoje foi com o Santana Castilho. Escreveu um texto, "Luís, Leandro, Isabel e José", sobre a morte do professor e do aluno, os dois no mesmo quadrante. Conheço o fenómeno. Não o vivi em inglês, tal como ele agora surge, vivi-o portuguesmente. Tinha 14, 15 anos, foi num verão longínquo, um bando de jovens da minha rua. Chamavam-lhe as mostras. Acontecia sempre quando as anedotas, as histórias se acabavam. Quando os silêncios começavam a ficar cada vez maiores, o tédio sobrevinha, o tédio na juventude é um cancro, um tumor, e lá havia um palerma que se lembrava que ainda não tinham feito aquele ritual quase diário da excursão à minha pila que naquelas ocasiões, talvez com o medo, o pavor ou a vergonha, mais pequena ficava. Entre o dilema de querer pertencer ao grupo e o de ser essa vontade de lhe pertencer que tanto sofrimento me advinha, também cheguei a desejar morrer.
Nunca percebi porque é que isto acontecia e, infelizmente, creio que não haja grande explicação. Ou seja, as explicações habituais parecem-me ideologicamente perversas. Sei que se fosse hoje, eu poderia fazer queixa contra eles e eles seriam até, nas palavras de Santana Castilho, encarados como jovens delinquentes. É uma má explicação. Aliás, o texto de Santana Castilho deveria ser lido como se fosse um hipertexto, ligando-se a dois outros pequenos textos: o de Rui Tavares, sobre a cultura da autoridade, e o destaque dado, no Sobe e Desce, com o destaque ao professor do ano, por, lê-se na pequena nota do barómetro da última página do jornal, ter conseguido taxas de sucesso de 100 por cento a Físico-Química.
O que a mim me chamou a atenção é que, nessa pequena notícia, como explicação para ele ser o professor do ano, o Público colocasse como justificação as taxas de sucesso de 100% quando todos nós fomos bombardeados com a pressão ministerial que tem havido nos últimos anos para que as taxas de sucesso escolar rondassem esses mesmos valores. O que seria um pouco incongruente por parte de um jornal que, assumidamente, desenvolve uma atitude tão pro activa no domínio do jornalismo relacionado com a educação. Que o Ministério o fizesse, pareceria natural, ela serve para legitimar as suas politicas, que o jornal o fizesse, assumindo acriticamente a posição ministerial, já me pareceria um pouco estranho. Segui por isso até à página 8, onde se explica quem é e o que faz este professor e, lendo o relato da actividade impressionante, e modelar, deste professor, cedo percebemos que o seu grande mérito não é ter taxas de 100% de sucesso escolar, é ser um daqueles professores que adaptam a lei de Lavoisier à tarefa educativa: " na educação nada se cria, nada se perde, tudo e transforma".
Santana Castilho, com propriedade, chama a atenção para a ambiguidade (digo eu, ele refere falta de bom senso) das declarações políticas da ministra e do director regional de Lisboa. Não foram felizes, é um facto. Mas talvez devamos assumir que nestas ocasiões não há ninguém que diga coisas felizes. Dizemos coisas. Como Santana Castilho, que depois de chamar a atenção para a falta de senso destes responsáveis educativos, começa também a correlacionar um conjunto de problemas essenciais para a discussão da tarefa educativa (os problemas nascidos com o encerramento de 4000 pequenas escolas de aldeia, com o aumento do tempo de permanência dos alunos na escola, a avalanche de pedidos de reforma dos professores, a crise de autoridade) que por mais pertinentes que sejam para a tarefa educativa não parecem ser fundamentais para se discutir a sério este fenómeno, o da violência do grupo sobre o individuo, agora chamada de bullyng.
É um dizer coisas. Acontece muitas vezes na vida. Face a situações que escapam à nossa compreensão mais imediata, e tendo de ocupar os oráculos que se nos colocam, seja um microfone apontado a um responsável político pela educação, seja a um articulista que se especializou na discussão dos fenómenos ligados ao mundo escolar, dizemos coisas. Todas essas coisas acabam por ter um lado menos feliz que depois, numa lógica de história interminável, acaba por ser repegada por um outro com necessidade de preencher um determinado espaço de expressão. Como eu acabo de fazer.
A questão que coloco agora é esta: podermos deixar de dizer coisas? Poderemos suspender o dizer e procurar perceber o que se passa? E como o vamos fazer? Escrevo um post em branco com o título, Luís e Leandro, a morte nas águas... e espero que os leitores parem diante dele alguns minutos, tantos os que gastaram a ler estas palavras? E depois, onde nos encontraremos para debater esta nossa incapacidade de percebermos o que se passa?
Já vai sendo recorrente este apelo: penso que deveríamos primeiro começar por assumirmos que não sabemos o que dizer sobre estes problemas. Assumir esse não saber é um passo importante para nos darmos conta de que há, em todos nós, uma responsabilização cívica que temos de fazer. E que tira muita da jactância - e porque não dizê-lo, arrogância - implícita aos nossos discursos, ao próprio discurso. Geralmente atribuímos o privilégio da palavra - e a profusão democrática que a palavra tem com fenómenos com os blogues mais acentua essa natureza privilegiada de alguns oráculos - a quem nos pode dizer algo de relevante, algo que sabe, que reúne um conjunto de conhecimentos que devem ser partilhados pela comunidade de leitores.
Talvez neste caso, devêssemos começar pelo contrário: dar como relevante a nossa incapacidade de percebermos, nos nossos esquemas ideológicos já definidos, o que se passa, e criar espaços para a reflexão e discussão deste problema. Contra aquilo que é sempre do bom senso fazer, desdramatizar as questões, eu proporia a sua dramatização. Começam a multiplicar-se entre nós, e sob diversas designações, experiências que de alguma forma seguem, veiculam ou se inscrevem nas práticas de teatro-forum lançadas, em diferentes contextos por Augusto Boal. Fazer uma dramatização para desdramatizar, é a minha proposta. No interior das escolas, nos salões de colectividades, nos prós e contras, vamos fingir que somos uma comunidade inteligentemente robustecida na discussão, na partilha, no assumir esse espaço em branco que não sabemos ainda preencher.

terça-feira, março 16, 2010

O meu falcão

O novo blogue ali na estante dos blogues, o meu mundo aos nove anos, vai obrigar-me a algumas mudanças. Já o avisei para não dizer aos seus amigos que o pai tem um blogue. Porquê?, é segredo? O pai ás vezes escreve umas asneiras, respondi. A sua cara de reprovação é o meu novo programa. Mais do que a asfixia democrática, aquilo que me vai condicionar mais é tentar depurar a minha escrita daquelas indecências de um livre escriba. E a colocar moderação nos comentários. E vocês podem perguntar, perante tanto condicionamento, estás a sorrir porquê?

Gracias a la vida

Era esta a canção de Joan Baez. A minha canção. O meu dia de gtrabalho hoje, graças a um PT e a uma desinfestação periódica, foi pequenino, tão pequenino como um corcodilo minhoca. Aproveitei para ir até aos olivais, almoçar com a minha mãe, os meus irmãos. Falar à família próxima que mora no bairro. Cruzar-me com vizinhos. Escrever posts imaginários para a Olivesaria.

O silêncio de Eduardo Lourenço

De um lado Diogo Lucena, António Pires de Lima e Miguel Morgado. Do outro José Gil, Eduardo Lourenço e um médico, ligado ao Hospital de Santa Maria. Ali a discutir sobre a crise, sobre o paradigma económico, sobre isso. Isso, o quê? Isso, não interessa. Diogo Lucena disse aquela que foi para mim a primeira coisa verdadeiramente interessante (e eu tinha perdido os dois filósofos): a Europa está a reajustar-se a um equilibrio mundial depois de ter vivido a euforia de uma supremacia civilizacional, económica e política que não é de forma alguma uma constante da história da humanidade. Depois, Miguel Morgado, fez um ataque frontal aos dois filósofos presentes. Foi brilhante, contundente, assertivo. Eles não responderam logo, havia que respeitar uns cinco minutinhos para publicidade. É o momento de glória de Fátima Campos Ferreira, o momento em que ela é verdadeiramente a dona do jogo. Depois da publicidade os dois filósofos vieram reafirmar o que tinham afirmado e, consequentemente, o inconciliável que os unia contra Diogo Lucena e Miguel Morgado. Curiosamente António Pires de Lima conseguiu com duas ou três generalidades obter o pleno das referências referenciais dos dois filósofos. Foi um momento menos feliz de Gil e de Lourenço até porque evidenciou as generalidades com que organizaram os seus discursos sobre a economia e a política. Com uma ou duas excepções. Foi penoso ver os dois filósofos e perceber que eles sabem discutir e argumentar tão mal. Dizem meias palavras, enrolam-se, dá vontade de nos fecharmos nos seus livros, nos seus textos e esquecermos a retórica verbal. Excepto num momento. Quando Eduardo Lourenço começou a enrolar-se no seu discurso sobre os imperialismos, sobre a dominação americana, a certa altura começou a parar o fluxo discursivo. Levou a mão à cabeça, instalou pausa, tempo. Não era o que ele dizia, era a evidência daquela tensão no dizer que reinstalava novamente na sabedoria, o gesto de Lourenço. E aí pouco pode o brilhantismo de Miguel Morgado. Nada há de tão rebarbativo, de tão insinuantemente retórico, como o silêncio, o tempo a passar pela expressão de Eduardo Lourenco.

domingo, março 14, 2010

Disseste seis meses sem democracia?

Ainda muita tinta irá correr por debaixo desta Lei da Rolha, aprovada no Congresso do PSD em Mafra. Ainda não li nem metade dos textos (coloco abaixo estes links porque o meu leal faroleiro na blogos me levou até este post do Paulo Querido, outro devoto do serviço público blogonauta). Nem me vou demorar aqui que é fim de fim de semana e tenho mais que fazer. Apenas duas observações: a primeira é a de que o três candidatos a líderes, em uníssomo, se distanciaram da oportunidade e justiça desta regra. Manuela Ferreira Leite ficou sozinha a justificar a santanice. Ou seja, se forem eleitos, vão governar um partido que, contra aquilo que eles acham aceitável ou aconselhável, vai limitar a expressão livre dos seus militantes. A segunda é a de que, se muitas vezes as eleições se encavalitam umas às outras, e se muitas vezes numas se abordam temas que a outras dizem respeito, poderemos estar aqui a falar de períodos de proibição de emissão de opinião divergente muito superiores a 60 dias. Faça-se as contas ao último ciclo eleitoral e teríamos os militantes do PSD de pio cortado quase desde o princípio do Verão. É claro que se a isto somarmos outro tipo de eleições em que o Partido Social Democrata e a sua sigla e logotipo estejam implicados, desde a Junta de Freguesia, à Associação de Estudantes do bairro, à Junta de Melhoramentos até poderemos encontrar períodos mais avantajados. Na despedida da grande líder do PSD, talvez veja o seu sonho finalmente tornado realidade.
A realidade já não é o que era, por...
A sovietização do PSD. De Francisco Almeida Leite (e de onde veio emprestado o cartaz brilhantemente escolhido para ilustração). Sobre a lei da rolha. De Carlos Abreu Amorim. Asfixia democática no PSD. De André Azevedo Alves. Uma aprovação norte-coreana. De Nuno Gouveia. Mancha deplorável. De Luís Rocha. Quo vadis PSD? De António de Almeida. A lei da rolha De Paulo Gorjão. E mais pelos lados esquerdos do PS, mas sem ligações às “centrais”:
O cavalo de Manuela, por Paulo Querido
Chiuuu! por Luis Novaes Tito

Homenagear a Comissão de Socorro aos Presos Políticos

A comissão Promotora desta homenagem tem um site e uma intenção: homenagear a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Foi criada em 1969, tendo por base uma disposição do Código Civil que previa " a existência de “comissões constituídas para realizar qualquer plano de socorro ou beneficência, ou promover a execução de obras públicas, monumentos, festivais, exposições, festejos e actos semelhantes . . .” .
Como se lê na petição, esta actividade "sempre reivindicada com determinação perante as autoridades administrativas e policiais, possibilitou um trabalho persistente e, com frequência, difícil, de auxílio aos presos políticos e respectivas famílias.Para desenvolver esta relevante actividade cívica, integravam a CNSPP dezenas de personalidades, de sectores sociais, profissionais e áreas geográficas diversos, que sempre estiveram disponíveis para, activamente, participarem nas tomadas de posição perante as autoridades que superintendiam na repressão, desde o Presidente da República ao Presidente do Conselho, Ministros e Deputados à Assembleia Nacional, tal como, directamente, perante a PIDE/DGS." Para assinar a petição, aqui.

sexta-feira, março 12, 2010

Sol na tristeza

A vida é uma coisa muito triste. Não sei mais o que hei-de fazer. Há dias e dias que me andava a preparar para estes dias reiteradamente sem sol, sem alegria, de imensa tristeza. Só vento, chuva, alertas multicolores e catástrofes anunciadas. Pensava eu, ao tentar-me consolar e adaptar, deve ser assim a vida dos povos ricos do norte da Europa. E já quase me sentia escandinavo, nórdico. E hoje, quando saio para a rua, dou de caras com um sol fabuloso, um rio azul prometedor, um dia radiante de luz e bem estar. Não sei o que dizer. A vida é uma coisa triste, muito triste.

quinta-feira, março 11, 2010

O investimento cultural

No outro dia surgiu um estudo sobre o papel crescente das indústrias culturais no nosso país. Falta-me o link, voltarei a ele quando o encontrar. É uma questão importante, principalmente numa época como aquela que atravessamos. É por isso que as várias iniciativas para ajudarem a enquadrar diferentes profissões ligadas à criação e produção cultural me parecem tão importantes. Fico fascinado perante a minha ignorância sobre este tema. Uma pessoa como eu que está tão próxima da actividade cultural, da dos outros e da própria, que tem tantas opiniões sobre os temas candentes de uma actualidade cada vez mais desactual, assobia para o lado quando passam as questões que realmente o deviam motivar ao pensamento e à reflexão. Há-de servir de muito este tempo gasto assim.

A última aula de José Gil

Há qualquer coisa de romântico nesta ideia da última aula. Gostava de ter estado lá, o tema era fascinante. Não sei como analisa José Gil a questão na sua forma global, no campo da expressão dramática e do teatro comprovo-o muitas e muitas vezes: estes activam-se através de ferramentas e utensílios de pensamento muito poderosos mas que permanecem, ainda assim, mágicos, escondidos. O teatro parece ser um meio tão vigoroso de pensar a realidade e no entanto é tão capaz de esconder as pistas sobre o modo como realiza esse trabalho. A psicologia e a educação recorreram a ele, e criaram até campos próprios, que valorizavam a circunstância agorética do teatro, mas mais uma vez chegam a um determinado campo em que já só conseguem avançar com expressões como magia, fé cénica, ilusão, energia. Percorremos os grandes teóricos do teatro que, desde Stanislavski, ajudaram a constituir o século XX como uma época de grande vivacidade conceptual para as artes cénicas, e em todos eles o enigma mantém-se. Costumo organizar a visita ao teatro onde trabalho. A todos os visitantes, sejam crianças, jovens ou seniores, mais tarde ou mais cedo, acabo por fazer a mesma pergunta: por que é que há pessoas que saem de casa para virem a um sítio verem pessoas a fingirem que são outras pessoas que não aquelas que efectivamente são, que estão noutro espaço que não aquele em que realmente estão, lançadas num outro tempo que não aquele onde na verdade estão?
Muitos de nós, talves os melhores de entre nós os do teatro, dedicaram a sua vida a tentarem responder a essa questão. O que é mais interessante é que esse jorro incessante de respostas para isto não esgota a fonte, a questão, antes a faz renascer, cada vez mais seta essencial dirigida ao coração da nossa humanidade.

quarta-feira, março 10, 2010

Da regulação coxa

Uma das coisas que espantou toda a gente foi o falhanco dos mecanismos de controle e regulação do sistema financeiro. Talvez não haja tantos motivos para o espanto. Lá para os lados do Geoscópio, Jorge Nascimento Rodrigues continua a prestar serviço público no que toca ao debate sobre os fenómenos associados à recente crise financeira que nos assola. Um pedaço:
"Também a tradicional visão de um sector financeiro a preto e branco, dividido entre o sector bancário tradicional e o “sector sombra”, não colhe mais: “Agora temos megabancos com um pé na ‘sombra’ (o sector desregulado, altamente alavancado, fora das contas) e outro no sector formal, tal como temos novas formas de sector ‘sombra’ como as firmas de private equity e hedge funds”. Trata-se de uma “situação muito fluida”. O que isso implica é que as políticas monetárias dirigidas ao sistema bancário e mesmo as políticas orçamentais que visam dinamizar o crédito à economia real podem falhar a sua missão se a reforma do sistema financeiro não for cirúrgica, não atacar o ponto nevrálgico do que gerou esta crise financeira de grande magnitude. Uma das reformas necessárias, segundo o nosso entrevistado: reduzir ao mínimo, ou mesmo bloquear, os pontos da cadeia de valor financeira em que se possa criar essa “atomização” de processos e de veículos financeiros."

terça-feira, março 09, 2010

Queixume

Ela, ontem, ajustava o penúltimo post, veio por cima do ombro, olha lá, tu estás a virar comunista é? Não me bastava que apoiasses o Sócrates, agora também vens com estas conversas contra o capital? Trabalha, traz mais dinheirinho para casa, junta-te aos ricos e vais ver, ficas logo bom, isso não passam de dores de crescimento.

Orquestra de gatos com cio

Não se cruzem comigo hoje. E nem me falem dos posts piegas sobre gatos. Estou mal disposto. Adormeci às seis da manhã. No meu quintal, ou no do vizinho, ou nos telhados, andavam a fazer castings para a orquestra de gatos com cio. Um ressoar de gritos lancinantes que furavam a película frágil das paredes.

Não terão sido os ricos que andaram a enriquecer mais do que deviam?

Não vi muito do Prós e Contras. Um breve instante antes de adormecer a olhar a televisão. Devo-me ter embalado com o vaivém de Fátima Campos Ferreira a dançar no banco - ou estaria a tentar sentar-se? - entre José Manuel Pureza e Jorge Lacão. Fiquei com uma frase do chefe de bancada parlamentar do Bloco: "- Dizer-se que os portugueses tem vindo a viver acima das suas possibilidades é um insulto para com a pobreza instalada neste país." Registei e aplaudi. E não é só isso. É um não saber explicar as coisas que dá a ideia de que as coisas não são vistas como elas são. Ora se nós não vemos as coisas como elas são como poderemos ambicionar resolver os problemas? É um facto que andamos todos a viver acima das nossas posses. Eu vivo com o que não tenho. Basta olhar o meu extracto bancário mensal para o perceber. A maior parte de nós vive com o que (ainda) não tem. E somos nós, os pobres, os indigentes, os remediados, que vivemos com o que não temos. E como é que alguém pode viver com o que (ainda) não tem? Porque se a sociedade da poupança nos ensinou que podíamos enriquecer com o que ganhámos, a sociedade do consumo deu como adquirido que poderíamos viver com aquilo que tínhamos expectativa de vir a ganhar. E assim, mediante seguros de protecção de empréstimos, de adiantamento do ordenado, cartões de crédito, créditos de lojas, transmitiram-nos a ideia de que podíamos ter hoje o que iríamos ganhar amanhã. E se isto começou por ser verdade com os que têm rendimentos renováveis com alguma garantia e estabilidade, também o passou a ser para quem não o tinha. Todos nós sabemos isso. O capitalismo financeiro ajudou a vender a ideia - que a indústria e o comércio necessitavam para fazerem progredir exponencialmente os seus negócios - de que o consumo era o novo dispositivo criador da igualdade entre os homens e as mulheres de boa vontade. E fizeram-no não por algum instinto filantrópico. Fizeram-no porque quiseram vender hoje aquilo que nós só podiamos comprar amanhã. E assim, para poderem ganhar mais do que podiam (e deviam) proporcionaram a possibilidade das pessoas poderem viver com o que (ainda) não tinham. E tudo isto acontece porque os Estados não se interessaram nunca por regular, pelo lado da oferta, esse fenómeno. É por isso que dizer-se que andámos a viver acima das nossas possibilidades é uma mentira. Nós podíamos e pudémos. Talvez não devêssemos ter podido. É certo, diz-nos hoje o revés deste sonho dourado. O que aconteceu é que, entretanto, houve agentes económicos que andaram a ganhar mais do que deviam e acumularam fortunas colossais.