terça-feira, abril 27, 2010

O que se faz com um novo dia?

Vem aí Maio e é sempre assim: não há tristeza que resista. Eu sou de Maio. Quer dizer que nasci em Maio. Que me quero feito de Maio. Maio, maduro maio.

segunda-feira, abril 26, 2010

E se Abril por aqui passar...

Olho para os seus nove anos. O mundo cansou-me os olhos, o olhar, cegou-me. Olho para ele e tento ver o mundo pelos seus olhos. Daqui a dois anos, ele terá onze, a idade que eu tinha no dia 25 de Abril de 1974, prometo uma epifania. Entretanto, a crise do capitalismo financeiro, enxurrada na qual haveremos todos de, mais ou menos, ser arrastados, é um momento de alguma esperança. Tudo isto que nós vivemos, já o vivíamos há um, dois, três, dez, vinte anos. Só que a nossa inscrição na sociedade da abastança direccionava-nos para outro sentido. Ontem era o FMI, hoje é o FMI. Se os seus ajudantes são agora as agências de notação da dívida pública, isso pouco importa. O que importa é que há alguém que quer especular com a nossa (des) sorte e enriquecer rapidamente com a nossa bancarrota. No outro dia os mercados respiraram de alívio quando a Grécia resolveu pedir apoio à Comunidade Europeia. Para um leigo em economia, que não em economês, esta alegria breve é um pouco absurda. Se a situação económica da Grécia é tão dificil, se o seu PEC deixa tanto a desejar, e se a sua situação actual resulta do grande endividamento do país, como é que uma sobrecarga desse endividamento pode significar uma boa notícia? É claro - não me levem a sério os economistas que por aqui passem, por favor - que em grande parte o alívio é europeu e ele é sincero, por causa do perigo dos PIGS poderem fazer implodir a construção do sistema económico e financeiro europeu. No entanto a questão principal mantêm-se: o mercado mundial de capitais está ávido de sangue europeu. Quanto ao resto, lembro-me que a minha geração já pode viver duas crises financeiras e económicas importantes: a de 70, cujas consequências sofremos até ao meio da década de oitenta quando o sonho europeu começou a livrar-nos da maldição salazarista. O desemprego, os salários em atraso, os despedimentos, as bacias de pobreza, o Vale do Ave, a península de Setúbal. E esta, que ainda agora começou, e que nos irá ao osso. Seremos mais solidários, mais próximos, depois dela. O slogan sobre o entendimento, também é válido para a solidariedade: estamos condenados a ser solidários uns com os outros, ou estaremos condenados por não sermos solidários uns com os outros.
[imagem do Oito e Coisa]

sexta-feira, abril 23, 2010

Abraçar

De repente tive saudades dos longos abraços que dava na adolescência, quando apanhávamos uma piela e todo o mundo era fraterno. Ou naquele curso da Comuna, quando aprendi o corpo, o lugar onde ele actua. Ou no teatro. Abraços verdadeiros. De repente tive saudades daqueles antigos longos abraços que dávamos a torto e a direito. Tive saudades de abraçar o Alpi. O Apicultor. Uma meia dúzia de pessoas com quem a minha vida teima em desencontrar-se. Excepto a família mais restrita, a minha mulher, o meu filho, há muito tempo que não dou um abraço a sério, daqueles em que a gente se perde no tempo e no espaço. Por vezes tento, quando encontro alguém amigo na internet, lá deixo sair um grande abraço. Mas não é a mesma coisa...

quarta-feira, abril 21, 2010

Os que faltam

No memorial encontram-se também os que morreram em missões de paz. Mais uma lacuna. Não encontro lá o nome do cabo Hugo Paulino, embora o exército tenha reconhecido que a sua morte foi consequência da sua presença no Kosovo.

terça-feira, abril 20, 2010

O soldado Vida, 1971

De repente o passeio marítimo levou-nos até ao memorial a todos os que combateram nas nossas antigas colónias. Não foi a nossa deriva colonialista que me agarrou para aquela pedra murmurejada, com nomes que me iam sugerindo interpretações em catadupa. Comecei por contar os mortos. Oito mil, novecentos e quatro. Por vezes enganavamo-nos e eu voltava atrás mesmo que tivesse de recontar várias páginas de mármore. Um morto a mais ou a menos não importavam nada para o post que eu queria escrever (há muito que deixei de olhar para as coisas, agora tenho a nítida sensação de que olho para os posts que há nas coisas) mas pareceu-me que tentar ser exacto com o número de cada um deles era a única coisa que eu hoje poderia fazer de digno por aqueles que morreram. Mesmo sem saber o que é que lhes devo (o que quer dizer que duvido dos discursos oficiais sobre esta mortandade lusa em terras de além-mar). Os nomes estão dispostos por anos mas com acrescentos que se percebe, são recontagens de anteriores listas oficiais. São nomes e patentes, e o que estas duas realidades conseguem, passado tanto tempo, transmitir. Talvez a pedra pudesse ter também o lugar onde cairam. Ou se calhar partiram do princípio de que a morte é um não lugar. O lugar onde nascemos, onde vivemos, fala de nós. O lugar onde morremos, principalmente se morremos numa terra estranha a morrer por ideias que para muitos talvez também soassem de forma estranha, talvez não acrescente nada ao nosso epitáfio. Até sessenta e quatro, ano em que passaram das quatro centenas e meia de mortos, tombaram poucos soldados em relação à sangria que veio a seguir. Sessenta e nove e setenta e três foram os mais sangrentos, com mais de novecentas vidas perdidas. Oito mil, novecentos e quatro é o número oficial dos que estão imortalizados no memorial, ali em Belém. Mas há todos os outros. Os que não morreram do nosso lado. E há também as famílias enlutadas. Todas elas morreram também um pouco. Há uma mortandade que estravaza o rio da forma como falamos oficialmente disto. Uma passagem apressada pelos nomes gravados na pedra, deu-me para perceber que daqueles quase nove mil nomes, não há muitos nomes finos. Encontrei um cabo Roquete, e um cabo Cayate, e fiquei a imaginar o que faziam ali, entre os humildes. Ou quem era o Ten. Jean Filiol Raymond e porque é que em 1957 foi uma das três baixas das nossas forças armadas (pouco tempo depois descubro, no google: Jean Filiol Raymond tinha vinte e nove anos, combatia na Índia e recebeu, a título póstumo, a medalha de prata de valor militar, com palma). São grossos os nomes de grande parte dos que tombaram. A guerra foi particularmente aziaga para o Adelinos, para os Antónios, para os Américos, para os Agostinhos. Nem a morte procurou muito as patentes mais elevadas. Soldados, cabos, furriéis, cairam muitos. Agora só comecei a encontrar patentes mais altas em nomes com ressonâncias estranhas. Provavelmente o capitão Zacarias Zaiegh, o Tenente Cicri Marques Vieira e o Alferes Malam Baldê não terão morrido muito longe de casa. Mas de todos os nomes, o que mais me impressionou foi o daquele homem caído em 1971: não tinha nome próprio, nem nome de família. Era soldado e chamava-se única e somente Vida.

segunda-feira, abril 19, 2010

Variações sobre o pensamento estratégico para a cultura

Leio a crónica (link indisponível para não assinantes) de Mário Vieira de Carvalho, professor universitário (e ex-Secretário de Estado da Cultura), sobre a "ausência de pensamento estratégico que explica os ziguezagues na Cultura" e que fez com que, no sector das artes do espectáculo, "nada de substancial" tenha mudado " nos últimos vinte anos". Relevante para esta situação o facto do governo se ter comportado esquizofrenicamente já que " primeiro aprovou a legislação (bases legais de uma rede apoiada pelo MC segundo critérios e indicadores objectivamente mensuráveis) e promoveu a sua entrada em vigor; logo a seguir, e antes da sua aplicação, revogou-a". E também, na linha da acusação das artes do espectáculo estarem subordinadas a interesses lobbistas "não temos uma política cultural. Mas temos uma polícia da cultura."
Crítica:
Antes de tudo o mais: depois de Arno Gruen já não consigo ler ingenuamente esta contaminação psicoterapêutica da abordagem política (e na qual já muitas vezes, aqui também, embarquei), na qual a esquizofrenia é, provavelmente, a patologia mais receitada por toda a psiquiatria de sofá. Não deixa no entanto de ser curioso, no contexto deste argumento, verificar que a assinatura deste texto, uma reflexão sobre o exercício do poder político nos últimos vinte anos, na área das artes do espectáculo, fazer referência a um professor universitário quando, ao contrário, a assinatura de outros artigos seus sobre esta questão da "tirania do gosto", já terem referido o ele ter sido "ex-secretário de estado da cultura".
Primeira crítica: "o argumento niilista". O que Mário Vieira de Carvalho (MVC) nos diz é que nada de relevante mudou nas artes do espectáculo de 1990 a 2010. O que abrange o período de 1995 a 1999 onde, assumidamente, se fez uma pequena revolução nesse domínio. Devo dizer que só no pequeno domínio das artes do espectáculo a que me encontro mais ligado, a escrita teatral, a constatação de MVC é uma grande desvalorização de todas as transformações sugeridas. Neste campo o paradigma dominante nos anos noventa foi de corte com toda a experiência anterior (cuja caracterização se encontra feita num capítulo do livro de Eugénia Vasques dedicado a Jorge de Sena) e que a primeira década deste milénio tem prosseguido essa ruptura de uma forma tão consistente que é irreconhecível a paisagem da escrita teatral nos anos sessenta, setenta e oitenta. Estudei o fenómeno nos anos noventa e ao propor-me desenvolver essa pesquisa para a primeira década do milénio, fi-lo na perpepção das importantes mudanças ocorridas. Ora se aponto o exemplo deste campo é porque se trata de um domínio marginal das artes do espectáculo, as mais das vezes distante do epicentro das manifestações de política cultural. Se até nele se verificou um abalo sísmico de forte intensidade, imagine-se nos outros campos. Aliás, a base do argumento sobre a esquizofrenia apresentado por MVC, tem a ver com a incapacidade do governo assumir uma legislação que tinha aprovado e promovido e que estipulava as bases legais de uma rede apoiada pelo MC, o que só por si era já o reconhecimento óbvio dessa rede, que, nomeadamente a dos cine-teatros, foi criada nos anos noventa. E que levou ao aparecimento de uma discussão em torno do trabalho de programação artística e cultural, a uma rede de programadores, a projectos centrados na relação com as autarquias, ao aparecimento de um observatório das artes culturais, etc, etc, etc e ainda, etc. Felizmente, para todos os que trabalham na cultura, os últimos vinte anos destruíram o paradigma niilista que, como um mal de espírito, teimando em fazer tábua rasa dos esforços e mudanças que se vão fazendo no domínio cultural, constroem um caldo ideológico que, aparentemente contra o imobilismo vigente, acaba por institucionalizar a ideia de que nada é possível fazer.
Segunda critica: O argumento do objectivamente mensurável na actividade cultural. MVC opõe-se ao desprezo pelos indicadores culturais, como sintoma de uma "metafísica da qualidade". O contexto em que esta crítica surge é o de uma declaração de Gabriela Canavilhas, o de que "a arte não são só números". Há que valorizar este argumento, mesmo que ele aqui possa também ser entendido como face de uma moeda que, desde que Carrilho chegou ao Palácio da Ajuda, há muito se encontra valorizada na bolsa de valores da discussão socialista para a cultura e que se traduz no empenho com que antigos, actuais e aspirantes a responsáveis políticos se têm entregado a contradizer-se e a atacar-se uns aos outros.
E há que valorizá-lo porque se é verdade que há muitos aspectos de natureza qualitativa relacionados com a actividade artística que são irredutíveis à quantificação, também é verdade que ela tem uma dimensão cultural inegável e que a carta de alforria da actividade cultural no quadro de todas as outras actividades produtivas depende da sua capacidade de poder ser tratada politicamente, de poder ter peso no discurso politico. Tal não se consegue se colocarmos um véu de intangibilidade, e ilegibilidade, sobre os processos e as dinâmicas culturais e sobre a sua expressão para a vida económica e social do país.
Crítica final: não será bem uma crítica, mais um desabafo. O que eu gostava de ler era Mário Vieira de Carvalho (e outros ex-governantes, claro) a reflectir, o mais despojadamente que lhe fosse possível, sobre as razões e os contextos que levaram a que, no seu entender, o seu exercício de poder governativo (que atravessou quase uma legislatura) não tenha conseguido mudar nada de substancial no sector das artes do espectáculo.

domingo, abril 18, 2010

Transe Dance

Há em tudo uma primeira vez. No meu diário de vida vou assinalar que hoje fiz Drum Circle e Transe Dance. Cantei, dansei que nem um desalmado, toquei batuques, fui som. Temos um corpo esquecido, é só o que digo. Um ritmo. Por vezes toquei bem perto desse ritmo e percebi que tenho uma data de histórias incompletas dentro de mim. Há um vaivém narrativo que me acompanha. Gosto de respirar. Quando fumava cheguei a odiar fazê-lo mas agora voltei a descobrir esse imenso prazer de fluir o circuito de ar, de alargar o diafragma e inastalar em mim o ar necessário para ser feliz. E percebi também uma coisa que me deixou muito contente: tenho tido uma vida boa e sou, em tudo, um afortunado. Redescobrir isso naquele caramanchão daquela quinta de Sintra foi uma dádiva de luz e sombra.

quinta-feira, abril 15, 2010

Jaime Salazar Sampaio 1925 - 2010

Devo a Jaime Salazar Sampaio e à sua iniciativa "A Dramaturgia e a Prática Teatral", a leitura dramática do meu texto Sim, Senhor, mais tarde Evaporação dos Pássaros. Foi também por causa do seu banco de textos de teatro que a Byfurcação chegou a este texto e o representou, há mais de dez anos. Mas não é isso que recordarei dele. É a fina ironia, o humor, muitas vezes corrosivo, essencial. E uma humildade sem medida.

sexta-feira, abril 09, 2010

Trair o nosso amor

Eu tenho ciúmes dela. Nunca o admitirei, faz parte do jogo, não o admitir. Gosto de deixar no ar essa ideia de que eles poderão ter a ver com alguma leviandade sua. Mas nessa antecâmara introspectiva onde estou só comigo mesmo, já nem o discuto. Aceito os ciúmes próprios como se fosse uma doença do amor, e ela tem associado um quadro patológico de manifestações muito diversificadas. Quando sinto ciúmes, a única coisa que me sossega não é tanto a escarificação da situação que me levou à insegurança ciumenta, é o lembrar-me de como os ciúmes dela são injustificados. Se estou feliz com a pessoa que amo, o mundo tem a tendência a perder a sua sexualidade. E se isto sendo verdade aos vinte e poucos conflituava muitas vezes com outras questões, agora pode ser vivido com um maior radicalismo. E não será uma questão de perguiça, de comodismo. Os axiomas vão e vêm na nossa vida, transformam-se. Aos vinte, aos trinta, eu repetia o aforismo que anda de boca em boca, a fidelidade é para os cães, a lealdade é para as pessoas. Agora, aos quarenta e muitos, esse aforismo começa a ser um pouco ridículo. Vejo-me a olhar a fidelidade como nunca a vi. É como se fosse uma questão de atenção, de focalização. É uma forma diferente de entendermos o tempo que está em causa, não uma verdadeira ruptura axiológica. Há tanto a distrair-nos da entrega, do possuirmo-nos na dádiva, do vaivém que é irmos e virmos naquela entidade que come à nossa mesa, que dorme na nossa cama, que se passeia connosco de mão dada na noite do bairro, que perdermos algum do nosso tempo em jogos exteriores de sedução, nos parece um desperdício do que é o privilégio essencial de estar por aqui nos dias da rua, do bairro, do mundo. O que muda a posição de cada um em relação à vida, como há quase quinhentos anos o heliocentrismo mudou a nossa atitude geocêntrica, é a forma como nos colocamos em relação à possibilidade do nosso desaparecimento. Há uma altura nos dias da nossa vida em que percebemos que aquela sofreguidão de coleccionar amores como se isso, por si só, pudesse enriquecer a nossa vida, torná-la mais aventurosa, é um tremendo desperdício daquele profundo corte existencial que um amor pode ser. É um ficar sempre a rebolar na epiderme do que um corpo-a-corpo pode consubstanciar. O amor é uma construção ideológica tremenda que partilhamos uns com os outros, e, como toda a ideologia que nos une, tem uma parte fraudulenta, e tem outra parte que vai directamente ao que de mais verdadeiro e essencial tem a experiência humana. Quando apagamos a luz do quarto e nos agarramos à pele do outro, não é a epiderme sensível que agarramos, que apertamos contra a nossa própria pele, e também não é contra a nossa própria pele que a cingimos. É uma coisa simultâneamente mais pequena e maior do que nós, do que aqueles corpos estendidos, uma luminosidade que rebenta com a nossa contingência. Não sabermos explicá-lo não nos deve amedrontar. Deveremos preocuparmos apenas se não o conseguirmos sentir. No entanto, sobrevive um problema: não foi por capricho que inventámos a traição, foi por condicionalismo ontológico, e - Arno Gruen terá sempre a razão dos nossos espíritos apoquentados pela dúvida e pela angústia - não há amor, nem nada, que sobreviva à traição do eu. Trata-se de um problema sério que nenhuma idade resolve. As nossas vidas são como as nossas casas, cheias de truques, de engenhocas, de artesanias. É por isso que arranjei um pequeno estratagema para sobreviver ao dilema: quando começo a precisar de encontrar uma outra mulher, olho-a como se fosse a primeira vez que a visse. E traio-a, intensamente traio-a com a primeira mulher que nela, me aparece.

quarta-feira, abril 07, 2010

Quando me falares outra vez da nossa superioridade moral, lembra-te do que eu vi. Lembra-te, com os mesmos olhos com que te vejo, vi isto. Vê tu também. Para que falemos da mesma coisa.

terça-feira, abril 06, 2010

Ficaremos aqui até ao verão

.

Troveja.
Não sei onde fui eu inventar trovões e raios e relâmpagos num
dia tão solarengo.
Troveja.
O ribombar dos céus permite um assomo de irrealidade nisto tudo.
Caem do céu águas, como se fosse um dilúvio.
E se calhar é.
Dilúvio de tudo, imagens, memórias. Até de um pézinho de salsa.
Apetecia-me ir na enxurrada,
galgar os diques,
amanhecer em flor.
Apetecia-me amanhecer como se fosse uma flor.

segunda-feira, abril 05, 2010

Segunda-feira, depois da Páscoa

A segunda feira depois de um Domingo de Páscoa devia ser anulada pelo calendário e substituída por qualquer outro dia. Apetecia-me estar a namorar, a alargartar, a ler o jornal numa esplanada solarenga, podia ser no meu pequeno quintal, custa-me hoje o exercício do tempo e do espaço. Eu bem tento entusiasmar-me mas só me saí um bocejo estridente, arrastado, rejuvenescedor. Já me tentei inspirar no meu jornal diário, nada. Ainda tentei ir a meças com o Miguel Esteves Cardoso quando começou a falar da traição a Becket mas depois reconciliei-me com ele no fim do texto, quem traiu Becket foi esse seu sonho de teatro. Depois, ainda me deixei tentar pela primeira página, em caixa alta, com as aventuras do engenheiro técnico José Sócrates no país do cimento, do betão e dos construtores civis. Mas a quem interessa isto, que uma pessoa que elegemos para primeiro-ministro tenha sido um displicente técnico de engenharia? Saltei para o suplemento de Economia, uma entrevista com o mentor do projecto de reestruturação da administração central do estado (PRACE) cujos resultados, a seu ver ficaram muito aquém dos desejados. Vale a pena ler para se compreender um pouco do problema que carecemos mas também isso não me entusiasma. O cerrar de fileiras do Vaticano em torno de Bento XVI, bem como a tentativa de advogados ingleses de o levarem a julgamento, também não me comovem. É verdade que Bento XVI talvez seja, de todos os Papas, aquele que mais se empenhou contra a pedofilia no seio da Igreja, mas isso parece resultar menos de uma convicção pessoal de que a Igreja não deveria ter silenciado e protegido os crimes dos seus padres, mais da vontade de salvar a pele da Igreja da qual é pastor. Não, nada isso hoje me alenta, entusiasma ou me tira aquela sensação de que sem esta segunda-feira, o mundo estaria, senão melhor, pelo menos na mesma.

sábado, abril 03, 2010

A urgência da Saúde

O fecho das urgências em Valença do Minho está no centro da revolta e da indignação da população. Um hospital de campanha e bandeiras espanholas nas janelas são algumas das medidas mais mediáticas. Fui à procura de informações e não fiquei esclarecido. Ao que parece o fecho resulta de um trabalho de reestruturação do serviço prestado no Centro de Saúde de Valença, feito para todo o distrito, e tendo em vista a maior eficiência dos mesmos. Achei nesse aspecto curiosa a posição da Comunidade Intermunicipal, que sob proposta do PP apoiada pelo PSD (o PS absteve-se) reclama a imediata abertura e pede ao governo o fornecimento das informações técnicas que levaram ao acordo de encerramento. Se ainda não têm as informações como é que já lhes é possível exigir que não seja fechado? Não deveriam também mostrar as informações que têm para justificar a exigência da manutenção da abertura? Escrevi atrás, no post Que Estado?, que deveríamos poder exigir a avaliação das funções do Estado com base em objectivos e missões concretas. Nesse aspecto é importante a atitude de premiar e avaliar os serviços dos centros de saúde. Ou os hospitais. Ora isso tem de ter consequências no sentido de se procurar uma maior eficiência dos serviços. Que os estudos, as informações, sejam contraditadas, considero-o importante para o processo de constituir a melhor decisão. Que estejam em causa rivalidades locais também me parece compreensível. Que haverá que realizar medidas para o mais fácil acesso aos cuidados de saúde da população de Valença e dos outros locais afectados pela supressão das urgências, também me parece óbvio. Agora que se queira um Estado que avalie a qualidade, a necessidade e a capacidade de com eficiência garantir a sua função de prestação de cuidados de saúde e que depois mande esse trabalho para o caixote do lixo, também não me parece minimamente sensato. E nem refiro a incongruência (saúdo todos os dias a incongruência da vida) que existe entre uma atitude muito severa sobre o peso do Estado em geral, protagonizada pelo PSD e pelo PP, e esta atitude populista (onde o PS, abstendo-se, embarcou) de exigir a abertura, reconhecendo que não conhece os dados que levaram ao seu encerramento. Uma última nota para o Governo que não fez tudo o que poderia fazer no sentido de esclarecer os habitantes de Valença da bondade destas medidas, como resulta da adesão popular aos protestos. Quando a ministra Ana Jorge diz que a urgência de Valença transmitia uma falsa sensação de segurança, essa é uma resposta que pode integrar uma informação técnico-científica importante mas que é totalmente incapaz no plano político porque não percebe que, ao contrário da segurança, a sensação de segurança não é falsa nem verdadeira. É real. Talvez o Governo deva responsabilizar-se também por fazer com que as populações se sintam seguras e para isso deve ele próprio ter como basilar o princípio da urgência na Saúde. Numa situação de crise financeira o fecho das urgências é rapidamente correlacionado com a necessidade de cortar as despesas públicas e vai, ainda mais grave, associar-se politicamente aos últimos cortes do PEC em prestações sociais. E não vale a pena lamentar a associação. É preciso ser mais convincente, mais atento e mais presente.

Deles será o reino dos céus

É algo reconfortante que as palavras mais humildes vindas do coração da Igreja tenham vindo de Lisboa, de D. Policarpo. Esperemos por isso que o pregador do Vaticano, o único que detém o privilégio de falar para o Papa, não seja o único a quem o Papa ouve. Ou que reproduza o que o Papa gostaria de poder dizer, se não fosse o chefe do Vaticano. É importante no entanto percebermos que, para todos nós, crentes e não crentes, o que está verdadeiramente em causa para o papel da Igreja no mundo não são os crimes de pedofilia praticados pelos seus representantes na comunidade, sim a forma como a ICAR os silenciou, encobriu, camuflou ou relativizou.

É claro que por arrasto estará também tudo em causa principalmente a forma como não percebeu que o espartilho da não sexualidade - já para não referir o da não conjugalidade - imposto aos seus representantes da comunidade, não sendo mais sustentável na sociedade do século XXI, coloca os padres numa posição de grande fragilidade em relação ao mundo sobre o qual oram. A própria comunidade católica, apostólica e romana - feita de homens e mulheres comuns - também já vive a sua sexualidade de uma forma completamente diferente.

Ler aqui, no Jumento, Dia do Judeu.

Que Estado?

Chego a uma altura da minha vida em que naturalmente começo a reflectir sobre o caldo de cultura e de ideologia que me fez ser como sou, pensar como penso, escrever sobre aquilo que escrevo. A maior parte das ideias que me apareciam com alguma clareza aos vinte anos, hoje são um emaranhado, um lastro, um rumor. Uma das coisas em que tenho vindo a pensar é sobre a minha ideia de Estado, directamente relacionada com a ideia de comunidade. Revejo-me num Estado que reproduza uma ideia de comunidade que, como num casamento, se tenha como solidária na doença e no bem estar, na tristeza e na alegria, na morte e na vida. Estas ideias generalistas sobre o que é o Estado não implicam uma ideia concreta sobre o modo como o Estado deve estar para regular essa função solidária. Revejo-me numa experiência colectiva de regulação e garantia de alguns dos aspectos de funcionamento da sociedade, como a justiça, a saúde, a educação, a comunicação, a segurança, mas não tenho por adquirido que deva ser o Estado a executá-las, podendo este, se não houver perda de eficácia - e a solidariedade implica a procura da eficiência na garantia destas condições - contratualizá-las, de modo a que ela seja feita por aquilo que se convencionou chamar a iniciativa privada.
Tenho aliás o convencimento de que a querela entre os que defendem a nacionalização ou a privatização de algumas funções essenciais para a nossa comunidade, é alimentada por nenhum dos lados pressupôr que o outro, em vez de querer proteger os seus feudos e interesses, está real e sinceramente interessado em dotar de eficiência a garantia dessas funções básicas.
Na minha opinião essa querela tem uma grande quota parte de responsabilidade no esbanjamento de recursos públicos que é realizado em Portugal porque não permite criar um quadro de referência supra-partidário em que a única condição base seja garantir a máxima eficiência na garantia de funções como a educação, a saúde, a cultura, a segurança e a justiça .
Dou alguns exemplos: a grande quantidade de fundações, organizações públicas, institutos públicos cujas missões estão mal definidas e que não apresentam um quadro referencial de avaliação da forma como desempenham a sua missão. Não é possível falar seriamente da utilização de dinheiros públicos se esse trabalho não for feito. Por outro lado a desporporcionalidade entre as funções de representação política e partidária e as realidades representadas. Não é possível falar seriamende da utilização de dinheiros públicos quando os nossos representantes eleitos só são confrontados com os seus eleitores que estão mais directamente ligados à militância partidária (e isto nos partidos que cultivam algum dinamismo da sua vida política).
A questão não é tanto o discorrermos sobre o bem que o Estado faz aquilo que faz, ou como o fará melhor que um mercado subordinado aos objectivos da procura incessante de mais valias. A questão é saber como é que nós, os que defendemos essa ideia de um Estado Solidário, vamos promover uma avaliação daquilo que ele faz com base em missões que sejam o mais possível concretizadas para que qualquer um de nós, as organizações de cidadãos, possam confrontar o Estado com alguma eventual ineficiência da sua acção.
Olhemos esta sensação de crise instalada, pelo seu lado positivo: precisamos de destronar as dinâmicas senatoriais, corporativas, politico-partidários, religiosas, que usam e abusam do exercício público. Temos de eliminar o mais possível as incongruências que distorcem a função social do Estado. Há que emagrecer o Estado mas emagrecê-lo da tença, da comissão, do suplemento complementar, da comenda, da alarvidade desumana. Há que olhar mais nos olhos das pessoas e perceber que no mesmo planeta, no mesmo continente, no mesmo país, no mesmo sistema público, não se pode achar natural que entre mil e mil e duzentos euros seja o salário médio de grande parte dos portugueses e que depois haja algumas outras que ganhem, em prémios ou em retribuições ficas, duzentas ou trezentas vezes esse valor.
A coesão social deve ser dos maiores bens que uma comunidade tem e essa não se consegue à custa de uma distorção assim. Só assim poderemos salvar uma ideia de um Estado Solidário. Os modelos de vida social das sociedades antigas em que, sem nenhuma espécie de controlo, poucos dominavam todos os poderes, começam a plasmar-se na vida social e política desta cidade dos nossos dias (que, de tão ufana que é da sua virtude democrática até, em certos momentos de delírio esquizofrénico, a exporta pela força das armas e da estrangulação financeira).
Que Estado quero? Continuo sem saber responder a esta questão. Apenas sei que estamos a criar uma bomba-relógio dentro das nossas casas, das nossas ruas, das nossas cidades. Os grandes centros cosmopolitas da grande desigualdade económica e financeira, que nos habituámos a pensar no longe nas cidades faveladas, não estão afinal tão distantes e começam a ter nomes familiares, de terras que ressoam na nossa memória próxima.

quinta-feira, abril 01, 2010

O Partido da Vitamina C

É nestes momentos que é mais difícil ser de esquerda: como resistirmos à tentação de aproveitar a circunstância de Paulo Portas ter assinado o decreto da compra dos submarinos para não lhe atirarmos lama para a cara? Há muito justo ressentimento, muita suspeita de que este personagem político tenha sequestrado o Estado para as suas manipulações políticas, para que esse ódio não transpareça agora, mesmo se não directamente. É nestas alturas que eu percebo o ódio a José Sócrates e a onde ele pode levar no exercício de ressentimento dos povos da direita. É a mesma coisa que nós diríamos de Paulo Portas se não fossêmos de esquerda e não tivéssemos por garantido que ganhamos dignidade quanto respeitamos a dignidade do outro. Esperar que Durão Barroso e Paulo Portas digam o óbvio é folk-politic. Quando é que nós aprendemos que há mais um partido no imaginário político português e que ele recruta os seus filiados em todos os partidos? O partido da Vitamina C. C de corrupção, c de cunhas, c de compadrio, c de cambalacho, c de cara de pau, c de comissionista, o suplemento alimentar para desonestos autarcas, politicos, funcionários públicos, dioceses, maçonaria, opus e demais equipa. Se Durão Barroso e Paulo Portas fossem corruptos, não o seriam enquanto responsáveis políticos, um pela Europa, outro pelo PP. Seriam-no como destacados dirigentes do Partido da Vitamina C. Ora estes não só têm a tão falada presunção de inocência - que o nosso sistema judicial inverteu para a sentença, todas as pessoas têm direito à presunção de inocência sendo que de todos inocentes nós temos o direito de presumir culpa - como podem ainda disfrutar do direito a não se incriminarem, o que naturalmente fariam se, nestas tão solicitadas declarações politicas, dissessem algo que os pudesse revelar como militantes do Partido da Vitamina C. Ou alguém que pediu uma declaração de Portas e Durão, estava a pensar que, se eles fossem corruptos, iriam bater no peito e confessar que andaram os dois a subtrair milhões num negócio do estado? Não, o que se queria é que eles entrassem neste folclore sujo do circo mediático em que, tal e qual como na inquisição, o processo é feito com toda esta dança de bruxas.

É preciso dizer basta. Havemos de os derrotar de outra maneira, companheiros!

A liberdade dele

E ele a explicar-me, enquanto trazia o táxi aos solavancos pela Avenida Infante D. Henrique, sabe, tenho saudades daqueles tempos quando eu era catraio e vinha à noite ver um cinema ao Império, ou comer um bife, e tudo era seguro, outra gente, percebe? Isto nunca se há-de contentar todos. Olhe, eu agora não sinto liberdade nenhuma, sinto-me preso, vem aí o verão e é uma tristeza, no inverno vá que não vá, ainda parecemos pessoas normais, somos velhos, está frio, temos de ficar em casa, é natural. Mas e agora com o verão? Você sabe alguma coisa de estatísticas? Não? É pena. Eu acho que noventa por cento dos velhos que morrem no verão é de tristeza. Vem aquele calor, os netos, os filhos, toda a gente a suar e eles ali na sombra das casas, estamos a falar de velhos cujas casas não têm ares condicionados, nem nada, entende? O verão é muito ingrato para nós. De dia não se pode sair à rua, é o calor, há noite, são os bandidos! Eu acredito que havia muita gente que queria falar e não podia e até os admiro por isso, esses conquistaram a liberdade, fico contente por eles, não me interprete mal, não sou saudosista, o Salazar era um tirano, mas eu. na minha vidinha simples de quem não tem nada para dizer de mal sobre ninguém, nem antes nem depois, tinha mais liberdade naqueles tempos.

quarta-feira, março 31, 2010

Ilhéu

Estou cercado de mar. Ponho três pedras no Jameson. Como se fosse um náufrago. Sabe-me bem o balancear das águas. Balanço eu também. Faço-me de pequenas impressões. Coisas pequenas que acontecem durante o dia. O palco outra vez a encher-se. Não tarda vem aí o D. Quixote. Estamos a trabalhar com pequenos grupos, que acompanham o processo criativo do Bando. Já fomos a Vale dos Barris, a esse refúgio que, há doze anos - vai fazer doze anos que acabou a Expo 98 e que o Bando começou a projectar-se do outro lado, a olhar Palmela, os campos, a península - é a sua casa. Vir um grupo como este para o teatro onde trabalho é semear os meus dias de interpelação, de vontade de querer fazer melhor. Já me esqueci da melancolia com que estava a querer começar o texto, o post. O gelo a derreter-se. Eu gostava de ser capaz de pensar um pouco mais mas não consigo. Ou não sei se quero. Não se consegue pensar nada quando se está sozinho. Ou consegue-se, mas é um pouco estéril. Há dias que voltei a escrever aqui no blogue e quase ninguém passa por aqui. Vou pôr mais uma pedra no Jameson. A verdade é que eu próprio já não consigo reeditar o fascínio que tenho por escrever no blogue. Fazê-lo significa que eu trabalho este ardil de pensar que tenho algo para dizer quando sei que não tenho. Quer dizer, ainda não desisti do mundo: se me sentar a escrever uma fala para ressoar no tempo teatral, aí acho que posso ser-vos útil. E o tempo do teatro está aí, cada vez mais urgente. A crise é boa para o teatro. As pessoas ficam insatisfeitas, começam a coçar-se, a ficar nervosas, a quererem estar umas com as outras, a solidão começa a ficar muito ruidosa, é a hora do palco e o palco é essa passerele por onde tu, eu, nós, passamos. Mas a blogosfera, confesso que é como este Jameson, tenho dúvidas. Entretanto, vou buscar mais uma pedra de gelo. Está quase no ponto. O problema é que não vimos aqui para escrever. Nós estamos aqui. Na sala ela está a ouvir uma música, a ler um livro. O problema é esse: há tantas coisas para deitar as mãos, livros, músicas. E pessoas? Ontem fui a cinema e quando vinha subindo a Gran via da nossa cidade, havia corpos deitados sobre a rua. Um sem abrigo ressonava, tinha o pé de fora. Hesitei entre o tapar, entre fazer-lhe cócegas ou simplesmente, seguir em frente. Segui em frente, claro. Perdi o interesse pela blogosfera? No outro dia o guarda-rios foi-se embora, apagou o seu rastro, deixou apenas um adeus. O que não temos faz-nos falta. Tu, que nunca passaste por aqui, que nunca escreveste aqui nada, fazes-me falta.

Apologia de Sócrates

Não foi própriamente uma confissão de arrependimento. Foi apenas um daqueles anacronismos resultantes das circunstâncias do tempo em que vivemos. Também ontem uma Fedra me veio mordiscar as solas dos sapatos. Acontece. Mas gostei de ver o Público, se bem que por cinco euros e tal, fazer A Apologia de Sócrates. Na minha adolescência emocionei-me mais quando li este texto e o Banquete do que com muito grupo de Rock and Roll.

Estamos sós

Mesmo quando não estamos sós. Água e solidão. O nosso adn não tem muito mais.

segunda-feira, março 29, 2010

Tempos do teatro

[Dario Fo]
No outro dia lembraram-me a ausência de registo no blogue do dia da poesia. E ontem, ainda terá sido mais grave: o Dia Mundial do Teatro e nem uma palavra, uma anotação (exceptuando os parabéns ao Apicultor, é o seu dia também). E participei, lá no meu teatro. Vimos o Havia um menino que era pessoa. E mostrei o teatro aos que vieram à nossa visita mensal. No dia anterior vi a Balada da Margem Sul, de Helder Costa. Os tempos do teatro começam a ficar perplexos, interessantes: A Família Portuguesa, no Teatro Aberto, de Filomena Oliveira e Miguel Real, A Balada da Margem Sul, na Barraca, Édipo, no D. Maria II, Não se ganha não se paga, de Dario Fo, no Teatro da Trindade. É, como diz Mark Deputter, o teatro a querer ser político outra vez?

domingo, março 28, 2010

Ligação perigosa

Tinha prometido abster-me de comentários com implicações na política partidária, mas ao ler isto, não posso deixar de linkar. É verdadeiramente espantoso pensar-se que "Este é um 'case study' de potencial manipulação da informação", como o faz a deputada bloquista, e depois não chamar as pessoas ( Luciano Alvarez, Tolentino de Nóbrega e Fernando Lima)que o podem esclarecer porque se mostraram indisponíveis. E o BE vai atrás da procissão. O andor já pesa muito, só com o santo do Sócrates. Longe vão os tempos em que este mordia nas canelas do PS por se aliar com a direita. E nós teremos que esperar pelas próximas eleições para que estes avatares de esquerda se desmoronem. Já não nos bastava o Governo, a Justiça, a PEC, as agências de notação da dívida (que excelência de conteúdos hoje, apresentados por Mário Crespo, no 60 minutos, sobre o comportamento das grandes empresas financeiras de Wall Street), agora também o Bloco já não é o que era? O que é que falta? O PCP a bailar o corridinho da madeira com o Alberto João?

A Primavera que nos salve

Nasci em Maio e por isso sempre achei natural uma inclinação minha pela Primavera. Hoje pude finalmente tomar o café da manhã no quintal, enquanto lia o jornal. O sol batia-me na cara, vinha-me o cheiro da hortelã, da salsa, da lucia-lima a brotar, ouviam-se os sinos de S. Vicente de Fora, as vozes dos vizinhos, e eu pude perceber porque é que, intimamente, gosto de sorrir enquanto vivo. A vida dá uma trabalheira dos diabos no sentido em que o tempo de percebermos algo em relação a uma situação quase nunca é o tempo em que podemos vivenciá-la. As coisas faltam nos sítios onde as queremos. A própria querença nos desabita amiúde. Os escreventes pimba como eu fazem-se de generalizações mas a verdade é que apetece dizer que a maioria das pessoas vive preteritamente. Vive: ama, faz, desfaz, pensa. Raras são as vezes em que nos damos conta de que podemos viver de outro modo. Conseguimos as mais das vezes condescender e dizer: poderíamos ter vivido de outra maneira. E não nos damos conta, ao viver, que até no pensar assim, agimos preteritamente. Deviamos poder largar o passado e mergulharmos, mais incisivamente, na força agorética da vida em estado bruto, larvar. É por isso que a Primavera me emociona tanto. Eu já me estou ralando para a poesia da vida, a força do pino do verão, o amouchar do outono, o soçobrar do inverno. Tudo isso não passa de ideologia disfarçada de modo de vida, de humanidade nossa. E eu agora já só tolero a ideologia em estado íntimo, com ela. Eu chamo-a, ideologicamente, de meu amor, discuto com ela, grito, zango-me não menos ideologicamente, e isso, mais um ou outro convívio de amigos -e cada vez menos convivo menos - é a rara reserva de ideologia com que, nos meus tempos livres, ainda vou condescendendo. A ideologia com os outros, e principalmente com desconhecidos, é qualquer coisa que, para o que sou hoje, é uma quase obscenidade. É a Primavera que verdadeiramente nos redime. A força da terra a rebentar. Quem me ouvir a falar no meu quintal pensa que eu tenho, em plena cidade, uma courela cheia de couves, melancias, batatas, cebolas e demais hortícula. Nada disso, tenho um canteiro e depois vasos onde rebenta aquilo que me dão. Mas há num pedaço de terra, por mais pequeno que seja, desde que o deixemos sobreviver até à Primavera, uma lição de vida. Deram-me estas margaridas em Maio. Aguentaram até ao verão, depois, queimadas, desfaleceram. Desapareceram até, tão transparentes que ficaram. Foi uma amiga, ela própria Margarida, que as ofereceu. Disse para mim mesmo, no Inverno, sempre que passava por ela, moribunda: "-A Primavera que te salve!". A única coisa que fiz foi deixá-la estar no vaso. Deixei-a estar. E a Primavera salvou-a. Salvou-a a ela, da mesma forma que nos salvará a nós.

Sonho possível

Os fins de semana mais curtos têm uma desvantagem, deixam-se coisas por fazer, brincadeiras por tecer. Mas sabem melhor na hora da despedida: o adeus é mais forte, mais amigo, mais fazes-me falta puto! Ontem fomos ver todos o Sonho Possível. Era ele que estava com mais receio de não ser para a sua idade. Curiosamente a única vez que lhe pedi para olhar para mim e não para o écran foi num anúncio da Sagres. Um acesso repentino de puritanismo. E, quando o Big Mike volta ao seu bairro e dá uma tareia no dealer lá do sítio, o barulho, a perspectiva de violência que as armas potenciavam, fez com que protegesse a vista, escondendo-se em mim. Foi só um instante, o único. Até porque depois concordou que na sua play station, nos seus vídeos de desenhos animados, há muito mais violência do que naquele repente de fúria do Mike.

sexta-feira, março 26, 2010

Adoecer, com Hélia Correia

A entrevista do Público, de Raquel Ribeiro a Hélia Correia, é uma delícia. Apetece entrar naquele mundo deles, da Hélia e do Jaime. Imaginá-los a tocarem e a cheirarem a folha do caderno de Dante Gabriel Rosseti. Eles são dois seres preciosos. Hélia diz que Adoecer não é uma biografia de Elisabeth Siddal, que os biógrafos deixaram todos escapar esta dimensão que só este fascínio, este enamoramento a que ela e o Jaime se entregaram, podem tentar captar, e eu, quando ela diz de Lizzie Siddal aquilo que poderia ser dito de si mesma, penso no grande privilégio que é escrevermos, debruçarmo-nos, abismarmo-nos.

Moderação de comentários

Avisei há uns dias que introduzia a moderação de comentários de uma forma definitiva. Já o tinha feito, casualmente. É uma chatice e dá muito trabalho, principalmente para um blogger em perda de produtividade e presença, como eu. E muito desatento. Aos amigos deste blogue peço desculpa. Tem também as suas vantagens. Quem conhece este blogue sabe que em tempos fui aqui atacado por um antigo colega de trabalho que volta e meia vinha fazer desabar aqui o seu ódio contra a tribo socialista que um dia o nomeara e no outro, o despedira. São contas próprias de quem se envolve com tribos, mas que, por ter aqui um espaço aberto, me fizeram algumas vezes ser invadido pelo comentário a roçar o insulto. Nunca lhe desejei nenhum mal por isso embora considerasse que muitas vezes poderia ter resolvido o seu ódio com um email. Mas agora confesso: há pouco encontrei dois comentários seus e dei-me conta de uma certa satisfação por poder descarregá-los, sem ninguém os ler, no mesmo lixo onde coloco os anúncios do viagra.

Comissão de Inquérito sobre a Liberdade de Impressão

Um amigo chamou-me a atenção para este artigo sobre José Sócrates que não terá sido publicado, por, segundo O Expresso, ter havido problemas de impressão na edição de 18 de Março do Libération. O meu amigo duvida, não acredita em coincidências. Estou com ele: e proponho desde já uma nova comissão de inquérito. E antes disso, uma leitura atenta do artigo. Claro que traça um ponto de vista muito pessimista do futuro político de José Sócrates. Mas há alguém que lhe anteveja, neste momento, um futuro politico risonho? A leitura atenta do artigo impõe-se por se tratar de um artigo que tem uma grande virtude: transportar-nos para um jornalismo denso, bem elaborado, rico de perspectivas, mais interessado na constituição de um corpus informativo do que numa informação que satisfaza a necessidade mais imediata de produzir opinião.

domingo, março 21, 2010

Economia da Cultura: Notas

Ontem estava em Vale dos Barris, no Bando. Passaram-me pelos olhos os seus trinta e cinco anos de internacionalização. E pensei que seria bom que o Estado cuidasse destes activos económicos como cuida de outros. A exportação dos nossos produtos culturais e artísticos pode ter peso na nossa balança de pagamentos, ou não? Quando o primeiro-ministro e o presidente vai lá fora, as suas embaixadas podem ter estratégias para a internacionalização dos nossos negócios na área cultural? Ou não? A cultura é só folclore para comenda eleitoral?

Homenagem a Mc Snake

A morte de Mc Snake às mãos da polícia é uma profunda estupidez. E como todas as coisas verdadeiramente estúpidas deste mundo, pode fazer com que a estupidez do mundo entre em loop. O que fazer? Pedir a cabeça do agente policial que o matou? Desculpá-lo com a falta de formação sobre aquela arma que tão rapidamente disparou? Atirar a responsabilidade para Mc Snake por não ter parado numa operação stop?

Proponho uma muito simples homenagem póstuma a Mc Snake: antes de darmos palpites, comecemos por ir à página do Hip-Hop Tuga. Ouçamos Mc Snake. Sam The Kid. Aquele que é chamado um dos mais irreverentes valores de entre eles todos, Valete. E continuem, segundo as vossas preferências. Desliguemos por momentos as conexões invisíveis que nos ligam aos grandes lagos imaginários de uma vida mítica, seja lá o que isso for. Entremos, pela voz destes rappers em Chelas City, a Zona Ji. Vejamos aqueles vídeos do You Tube. Aqueles cenários de cidade oculta. O cimento das paredes. Sejamos um pouco desta vida, destas palavras, deste ritmo. Desta vontade, tão igualzinha à de todos nós de construirmos uma vida diferente. E agora sim, voltemos às questões essenciais: o que fazer?

Em primeiro lugar, claro que também tenho de pedir a cabeça do agente policial que matou Mc Snake. Não no sentido de dramatizar a sua responsabilidade, mas negá-la impede que a cadeia de responsabilização prossiga. Ele disparou, tão lesto, uma arma que mal conhecia. Há uma componente de responsabilidade individual que tem de ser assumida na actuação de um agente policial. Aliás, ele é o próprio a fazê-lo, segundo leio pelas notícias. Sou solidário com a sua dor, com a sua tomada de consciência. Deve ser terrível apercebermo-nos, num flash de segundo, que a lei, a tranquilidade e a segurança de todos nós podem implicar que haja pessoas que andem com deus num colt policial. Todos os outros polícias têm de poder olhar para este caso e saber que quando lhes damos uma arma que pode ceifar uma vida, não fazemos deles deuses, acima de qualquer arbítrio. Depois, exigo a responsabilização do Estado, através da instituição policial. A polícia tem de ser rápida a pedir desculpa à família (e a indemnizá-la). A polícia tem de ser rápida, a incluir na formação dos seus agentes todos os elementos que permitam que este tipo de incidentes possam ser evitados.

Enquanto tudo isto não acontece (o mais provável é que o rapper morto e o polícia fiquem como os únicos personagens de uma história da qual provavelmente não serão senão meros figurantes especiais!) ouçamos mais uma vez o hip-hop tuga. A cultura aproxima-nos tanto!