quarta-feira, maio 12, 2010

Cidinha Campos, One Deputy Show

Dou uma dica para eventuais empresas à procura de negócios chorudos na compra de canais televisivos: primeiro façam uma proposta de compra do canal de cabo da Assembleia da República. A baixo preço, claro, agora que o mais nobre desígnio nacional do equilibrio das contas públicas a todos benze, aquilo vai tornar-se num tédio mortal. Façam uma cara contricta e, para que não vos acusem de loucura, expliquem que a intenção é motivada pelo mais elevado patriotismo e vontade de contribuirem para a descida do défice público. Depois metam-se num voo charter (ela não gosta de luxos nem salamaleques) e voem até Brasília. Marquem encontro com Cidinha Campos e convençam-na de que ela e só ela pode salvar o nosso país. Talvez seja o seu único vício, essa pulsão para isso, ser providencial. Depois é só tratarem da transferência para a nossa Assembleia da República. Dou uma semana para que o share dispare para níveis nunca vistos e os anunciantes façam fila à porta dos vossos escritórios. Uma semana e é para ser prudente. Negócio com projecções de futuro: no Simplex montem uma empresa para a comercialização dos direitos televisivos das intervenções da novel deputada que, passado pouco tempo, três meses, passarão a ser difundidas em canal pago. Até lá, para todos os outros, os vídeos das suas intervenções podem ser saboreados na sua página. Aqui está a reportagem que a RTP fez sobre ela:

terça-feira, maio 11, 2010

Lutoteca

Numa resposta ao jpt acabei, através de um lapso linguístico, por inventar um novo conceito: Lutoteca. Parece-me importante, um lugar onde brincamos com as nossas perdas, para melhor fazermos os nossos lutos. Depois de mim virá a gloriosa consolidação teórica, os manuéis (é o plural de manual, certo?), a plêiade de animadores e animadoras mas em algum momento da blogosfera algum glogleador (espécie que daqui a umas gerações - quando os nossos descendentes vierem já de chip incorporado - se tornará num ser tão estranho como os actuais arquivistas) há-de vir aqui descobrir a origem, o primeiro lugar da proferição do conceito. E eu, por breves momentos, estarei vingado na minha insignificância canina.

Monumento a Bento XVI

Há mais ou menos vinte e seis anos veio a Portugal Ronald Reagan. Fiz parte de um conjunto não muito alargado de pessoas, mas que envolveu - a Barraca, a Mimo Rua Trupe, a Máscara, a Oficina do Grotesco, os Grupos de Teatro de Belas Artes, os Patolas, o CIDAC, Era Nova, Gsal, GAP, A Gaivota, CDPM, Grupo Cultural da Juventude Timor Leste - que organizou um evento cultural de protesto chamado "Um americano em Lisboa". Vinte e seis anos depois sei que uns amigos vão distribuir preservativos como protesto contra as posições da Igreja sobre o uso de contraceptivos. Já não vou, claro. Ganhei massa adiposa, gordura mental. Não posso no entanto deixar de me associar a esta iniciativa e colocar aqui o meu contributo. Este não podem dizer que não vêem.

Pró Bento XVI

Não suporto mais ouvir falar de Bento XVI com desprezo fazendo alusões mais ou menos inconsequentes a um seu passado nazi. É um comportamento que não tem assim tanto respeito pela dignidade da vida humana. Bento XVI foi um cardeal com importante trabalho teológico, tem desenvolvido produção de pensamento próprio e passos importantes no sentido do ecunemismo, e nesse sentido, mesmo para um agnóstico como eu, a sua presença em Portugal deveria poder ser - para além da oportunidade de um diálogo vivo e crítico como o que referir no post anterior - um momento crucial de debate e até, de celebração festiva sobre a imanência, sobre a percepção do que nos transcende e de como essa vivência dessa incompletude nos pode ligar a todos, crentes e não crentes.

Contra Bento XVI : Apupópapa !

Acabei de assinar a petição dos cidadãos pela laicidade . Compreendo o júbilo dos cristãos e católicos com a presença do Papa em Portugal, e certamente que, intimamente, lhe desejo as boas vindas e fico contente por Bento XVI estar entre nós. E também me parece que neste pensar-pronto-a-usar para que muitos nos tentam atirar, as questões mais importantes não são os custos da tolerância de ponto. A questão principal é que, como bem refere a petição, Bento XVI é o chefe de um pequeno estado teocrático no coração da Europa - cujo comportamento nas instâncias internacionais como a ONU desconhecia ser tão lamentável - e o expoente máximo de uma confissão religiosa que, naturalmente - como outros líderes de confissões religiosas - lidera um reino que não é deste mundo finito e material em que vivemos. Ainda há pouco tive de sair do pé da televisão pública. Foi a minha mulher que reparou. Estava com os olhos meio vítreos e catatónicos, a face enrubescida, as mãos trementes, com sinais de intoxicação ideológica acentuados. Bento XVI suspendeu a condição de prós e contras deste imenso ágora da RTP. Todos ali eram a favor. Como se anunciassem, mas pode lá ser-se contra Bento XVI?! Pode, claro que pode. Pode, e em muitos casos deve ser-se, contra aquilo que ele e a sua Igreja representam. O silêncio face aos crimes da pedofilia é apenas a expressão mais recente de uma Igreja que lida mal com o corpo, com a festa da vida e da sexualidade. As posições da Igreja sobre a homossexualidade, sobre a utilização de meios contraceptivos, sobre o papel das mulheres na Igreja, merecem um debate profundo numa sociedade laica e se a Fátima Campos Ferreira fosse a grande jornalista que quer ser tinha-os convidado para o programa. A certa altura disse que ao ler as encíclicas papais tinha ficado supreendida com a forma como Bento XVI utilizava o debate para procurar a solidez do pensamento. Deveria também ela inspirar-se nisso e trazer ao debate a expressão do religioso e do laico. Em vez de parecer moderna dizendo que a visita do papa pode ser acompanhada no facebook, poderia dar-nos conta das brincadeiras facebookiana (será que ainda existe humor) do Miguel Castro Caldas e do Rui Rebelo ou as performances dos promotores do Apupópapa. Ou trazer os representantes do Palco Oriental no Beato, em vésperas de serem despejados pelo Patriarcado de Lisboa depois da acção judicial que esta ganhou. Basta de falar sobre as tradições católicas dos portugueses para justificar o atropelo da mais elementar regra republicana: vivemos num estado laico.
Também não deveria a Igreja aceitar como natural, e ser cúmplice, deste abuso de recursos e silêncios públicos.

segunda-feira, maio 10, 2010

Rir por último

No Escrita em Dia (link aí ao lado) Carlos Narciso escreve sobre um antigo colega seu da RTP que eventualmente se terá suicidado na sequela de uma publicação de alguns brutos (materiais jornalisticos não editados) de reportagens suas. São de facto cenas ridículas, grosseiras, nem mesmo a pena que possamos sentir por José Ladeiras nos impede o riso farto. Independentemente de todas as considerações éticas que se possam fazer sobre isso, uma coisa é certa: é uma canalhice sem limite a publicação de materiais não editados, sem o consentimento dos seus intervenientes e espero bem que os familiares de José Ladeiras tenham a oportunidade de levar a RTP e os Gatos a tribunal pedindo uma choruda indemnização poe esta abusiva utilização deste materiais.

sábado, maio 08, 2010

Bento XVI Superstar

Miserere

Quando estava a trabalhar na reportagem de Miserere, para a Rua de Baixo, encontrei esta entrevista na Pastoral da Cultura. Surpreeendeu-me saber que havia uma Pastoral da Culturae a forma como se dedicava a olhar o trabalho de um grupo e de um encenador que de certa forma, coloca em causa o olhar da Igreja. Já na conversa colectiva que tinhamos tido a seguir ao ensaio de imprensa eu tinha encontrado essa surpreeendente fragilidade em que Cintra se aceitava colocar, expondo-se com grande franqueza, na sua busca pessoal. Tenho pena, que no mercado das cousas culturais, tudo isto passe como se o pudéssemos meter na caixinha minguante da atenção que damos ao teatro, aos objectos teatrais.

O Amolador na Rua do Sol à Graça

sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

O furto dos gravadores na Assembleia

Tive agora a oportunidade, finalmente, de arranjar um pouco de tempo para ir à Sábado ver o vídeo da conversa de Ricardo Rodrigues com os jornalistas da Sábado. Mais um azar, dos alguns azares que, na entrevista, Ricardo Rodrigues confessa ter tido. Tudo isso é menor. A única coisa que eu não compreendo, e isso não é tão menor, é que ele não tenha feito aquilo que era mais simples: ter pedido desculpa aos jornalistas e ter devolvido de imediato os gravadores. Mesmo que neste caso, o deputado e os jornalistas até não estejam num registo agressivo, todos temos atitudes irreflectidas. O problema não são estas, as atitudes irreflectidas. O problema é quando reflectimos sobre as nossas atitudes irreflectidas e em vez de fazermos aquilo que se espera de nós, quando somos deputados da República, quando estamos na casa que representa a República e o povo, tentamos desculpabilizar o que fizemos com o comportamento dos outros. Já agora, além de autor confesso do furto, Ricardo Rodrigues também será tolo? Ele não sabia que estava a ser filmado? Se como disse era uma acção directa para defender os seus direitos e impedir que a conversa que teve saísse cá para fora, porque não levou a câmera? Não nos basta já o que existe sobre Portugal, ainda precisamos de ter este tipo de histórias e a forma como reagimos a elas. Não consigo perceber a aversão que certas pessoas têm a esta pequena palavra: desculpem-me.

domingo, maio 02, 2010

O teu dia

Há-de ser sempre assim. Virei sempre aqui, neste dia, sem tempo para falar senão no tempo que não tenho para falar do que és, do que foste, da forma como sou naquilo que me ensinaste a ser. E talvez este vir assim sem tempo, seja mais uma vez uma forma de fugir ao confronto com tudo isso. É preciso tempo para nos entregarmos. Começo a olhar para dentro, para o tempo que fomos, para o tempo que nos fugiu. O relógio é interior, esse tambor desengonçado e descompassado que trazemos dentro do peito.

terça-feira, abril 27, 2010

O que se faz com um novo dia?

Vem aí Maio e é sempre assim: não há tristeza que resista. Eu sou de Maio. Quer dizer que nasci em Maio. Que me quero feito de Maio. Maio, maduro maio.

segunda-feira, abril 26, 2010

E se Abril por aqui passar...

Olho para os seus nove anos. O mundo cansou-me os olhos, o olhar, cegou-me. Olho para ele e tento ver o mundo pelos seus olhos. Daqui a dois anos, ele terá onze, a idade que eu tinha no dia 25 de Abril de 1974, prometo uma epifania. Entretanto, a crise do capitalismo financeiro, enxurrada na qual haveremos todos de, mais ou menos, ser arrastados, é um momento de alguma esperança. Tudo isto que nós vivemos, já o vivíamos há um, dois, três, dez, vinte anos. Só que a nossa inscrição na sociedade da abastança direccionava-nos para outro sentido. Ontem era o FMI, hoje é o FMI. Se os seus ajudantes são agora as agências de notação da dívida pública, isso pouco importa. O que importa é que há alguém que quer especular com a nossa (des) sorte e enriquecer rapidamente com a nossa bancarrota. No outro dia os mercados respiraram de alívio quando a Grécia resolveu pedir apoio à Comunidade Europeia. Para um leigo em economia, que não em economês, esta alegria breve é um pouco absurda. Se a situação económica da Grécia é tão dificil, se o seu PEC deixa tanto a desejar, e se a sua situação actual resulta do grande endividamento do país, como é que uma sobrecarga desse endividamento pode significar uma boa notícia? É claro - não me levem a sério os economistas que por aqui passem, por favor - que em grande parte o alívio é europeu e ele é sincero, por causa do perigo dos PIGS poderem fazer implodir a construção do sistema económico e financeiro europeu. No entanto a questão principal mantêm-se: o mercado mundial de capitais está ávido de sangue europeu. Quanto ao resto, lembro-me que a minha geração já pode viver duas crises financeiras e económicas importantes: a de 70, cujas consequências sofremos até ao meio da década de oitenta quando o sonho europeu começou a livrar-nos da maldição salazarista. O desemprego, os salários em atraso, os despedimentos, as bacias de pobreza, o Vale do Ave, a península de Setúbal. E esta, que ainda agora começou, e que nos irá ao osso. Seremos mais solidários, mais próximos, depois dela. O slogan sobre o entendimento, também é válido para a solidariedade: estamos condenados a ser solidários uns com os outros, ou estaremos condenados por não sermos solidários uns com os outros.
[imagem do Oito e Coisa]

sexta-feira, abril 23, 2010

Abraçar

De repente tive saudades dos longos abraços que dava na adolescência, quando apanhávamos uma piela e todo o mundo era fraterno. Ou naquele curso da Comuna, quando aprendi o corpo, o lugar onde ele actua. Ou no teatro. Abraços verdadeiros. De repente tive saudades daqueles antigos longos abraços que dávamos a torto e a direito. Tive saudades de abraçar o Alpi. O Apicultor. Uma meia dúzia de pessoas com quem a minha vida teima em desencontrar-se. Excepto a família mais restrita, a minha mulher, o meu filho, há muito tempo que não dou um abraço a sério, daqueles em que a gente se perde no tempo e no espaço. Por vezes tento, quando encontro alguém amigo na internet, lá deixo sair um grande abraço. Mas não é a mesma coisa...

quarta-feira, abril 21, 2010

Os que faltam

No memorial encontram-se também os que morreram em missões de paz. Mais uma lacuna. Não encontro lá o nome do cabo Hugo Paulino, embora o exército tenha reconhecido que a sua morte foi consequência da sua presença no Kosovo.

terça-feira, abril 20, 2010

O soldado Vida, 1971

De repente o passeio marítimo levou-nos até ao memorial a todos os que combateram nas nossas antigas colónias. Não foi a nossa deriva colonialista que me agarrou para aquela pedra murmurejada, com nomes que me iam sugerindo interpretações em catadupa. Comecei por contar os mortos. Oito mil, novecentos e quatro. Por vezes enganavamo-nos e eu voltava atrás mesmo que tivesse de recontar várias páginas de mármore. Um morto a mais ou a menos não importavam nada para o post que eu queria escrever (há muito que deixei de olhar para as coisas, agora tenho a nítida sensação de que olho para os posts que há nas coisas) mas pareceu-me que tentar ser exacto com o número de cada um deles era a única coisa que eu hoje poderia fazer de digno por aqueles que morreram. Mesmo sem saber o que é que lhes devo (o que quer dizer que duvido dos discursos oficiais sobre esta mortandade lusa em terras de além-mar). Os nomes estão dispostos por anos mas com acrescentos que se percebe, são recontagens de anteriores listas oficiais. São nomes e patentes, e o que estas duas realidades conseguem, passado tanto tempo, transmitir. Talvez a pedra pudesse ter também o lugar onde cairam. Ou se calhar partiram do princípio de que a morte é um não lugar. O lugar onde nascemos, onde vivemos, fala de nós. O lugar onde morremos, principalmente se morremos numa terra estranha a morrer por ideias que para muitos talvez também soassem de forma estranha, talvez não acrescente nada ao nosso epitáfio. Até sessenta e quatro, ano em que passaram das quatro centenas e meia de mortos, tombaram poucos soldados em relação à sangria que veio a seguir. Sessenta e nove e setenta e três foram os mais sangrentos, com mais de novecentas vidas perdidas. Oito mil, novecentos e quatro é o número oficial dos que estão imortalizados no memorial, ali em Belém. Mas há todos os outros. Os que não morreram do nosso lado. E há também as famílias enlutadas. Todas elas morreram também um pouco. Há uma mortandade que estravaza o rio da forma como falamos oficialmente disto. Uma passagem apressada pelos nomes gravados na pedra, deu-me para perceber que daqueles quase nove mil nomes, não há muitos nomes finos. Encontrei um cabo Roquete, e um cabo Cayate, e fiquei a imaginar o que faziam ali, entre os humildes. Ou quem era o Ten. Jean Filiol Raymond e porque é que em 1957 foi uma das três baixas das nossas forças armadas (pouco tempo depois descubro, no google: Jean Filiol Raymond tinha vinte e nove anos, combatia na Índia e recebeu, a título póstumo, a medalha de prata de valor militar, com palma). São grossos os nomes de grande parte dos que tombaram. A guerra foi particularmente aziaga para o Adelinos, para os Antónios, para os Américos, para os Agostinhos. Nem a morte procurou muito as patentes mais elevadas. Soldados, cabos, furriéis, cairam muitos. Agora só comecei a encontrar patentes mais altas em nomes com ressonâncias estranhas. Provavelmente o capitão Zacarias Zaiegh, o Tenente Cicri Marques Vieira e o Alferes Malam Baldê não terão morrido muito longe de casa. Mas de todos os nomes, o que mais me impressionou foi o daquele homem caído em 1971: não tinha nome próprio, nem nome de família. Era soldado e chamava-se única e somente Vida.

segunda-feira, abril 19, 2010

Variações sobre o pensamento estratégico para a cultura

Leio a crónica (link indisponível para não assinantes) de Mário Vieira de Carvalho, professor universitário (e ex-Secretário de Estado da Cultura), sobre a "ausência de pensamento estratégico que explica os ziguezagues na Cultura" e que fez com que, no sector das artes do espectáculo, "nada de substancial" tenha mudado " nos últimos vinte anos". Relevante para esta situação o facto do governo se ter comportado esquizofrenicamente já que " primeiro aprovou a legislação (bases legais de uma rede apoiada pelo MC segundo critérios e indicadores objectivamente mensuráveis) e promoveu a sua entrada em vigor; logo a seguir, e antes da sua aplicação, revogou-a". E também, na linha da acusação das artes do espectáculo estarem subordinadas a interesses lobbistas "não temos uma política cultural. Mas temos uma polícia da cultura."
Crítica:
Antes de tudo o mais: depois de Arno Gruen já não consigo ler ingenuamente esta contaminação psicoterapêutica da abordagem política (e na qual já muitas vezes, aqui também, embarquei), na qual a esquizofrenia é, provavelmente, a patologia mais receitada por toda a psiquiatria de sofá. Não deixa no entanto de ser curioso, no contexto deste argumento, verificar que a assinatura deste texto, uma reflexão sobre o exercício do poder político nos últimos vinte anos, na área das artes do espectáculo, fazer referência a um professor universitário quando, ao contrário, a assinatura de outros artigos seus sobre esta questão da "tirania do gosto", já terem referido o ele ter sido "ex-secretário de estado da cultura".
Primeira crítica: "o argumento niilista". O que Mário Vieira de Carvalho (MVC) nos diz é que nada de relevante mudou nas artes do espectáculo de 1990 a 2010. O que abrange o período de 1995 a 1999 onde, assumidamente, se fez uma pequena revolução nesse domínio. Devo dizer que só no pequeno domínio das artes do espectáculo a que me encontro mais ligado, a escrita teatral, a constatação de MVC é uma grande desvalorização de todas as transformações sugeridas. Neste campo o paradigma dominante nos anos noventa foi de corte com toda a experiência anterior (cuja caracterização se encontra feita num capítulo do livro de Eugénia Vasques dedicado a Jorge de Sena) e que a primeira década deste milénio tem prosseguido essa ruptura de uma forma tão consistente que é irreconhecível a paisagem da escrita teatral nos anos sessenta, setenta e oitenta. Estudei o fenómeno nos anos noventa e ao propor-me desenvolver essa pesquisa para a primeira década do milénio, fi-lo na perpepção das importantes mudanças ocorridas. Ora se aponto o exemplo deste campo é porque se trata de um domínio marginal das artes do espectáculo, as mais das vezes distante do epicentro das manifestações de política cultural. Se até nele se verificou um abalo sísmico de forte intensidade, imagine-se nos outros campos. Aliás, a base do argumento sobre a esquizofrenia apresentado por MVC, tem a ver com a incapacidade do governo assumir uma legislação que tinha aprovado e promovido e que estipulava as bases legais de uma rede apoiada pelo MC, o que só por si era já o reconhecimento óbvio dessa rede, que, nomeadamente a dos cine-teatros, foi criada nos anos noventa. E que levou ao aparecimento de uma discussão em torno do trabalho de programação artística e cultural, a uma rede de programadores, a projectos centrados na relação com as autarquias, ao aparecimento de um observatório das artes culturais, etc, etc, etc e ainda, etc. Felizmente, para todos os que trabalham na cultura, os últimos vinte anos destruíram o paradigma niilista que, como um mal de espírito, teimando em fazer tábua rasa dos esforços e mudanças que se vão fazendo no domínio cultural, constroem um caldo ideológico que, aparentemente contra o imobilismo vigente, acaba por institucionalizar a ideia de que nada é possível fazer.
Segunda critica: O argumento do objectivamente mensurável na actividade cultural. MVC opõe-se ao desprezo pelos indicadores culturais, como sintoma de uma "metafísica da qualidade". O contexto em que esta crítica surge é o de uma declaração de Gabriela Canavilhas, o de que "a arte não são só números". Há que valorizar este argumento, mesmo que ele aqui possa também ser entendido como face de uma moeda que, desde que Carrilho chegou ao Palácio da Ajuda, há muito se encontra valorizada na bolsa de valores da discussão socialista para a cultura e que se traduz no empenho com que antigos, actuais e aspirantes a responsáveis políticos se têm entregado a contradizer-se e a atacar-se uns aos outros.
E há que valorizá-lo porque se é verdade que há muitos aspectos de natureza qualitativa relacionados com a actividade artística que são irredutíveis à quantificação, também é verdade que ela tem uma dimensão cultural inegável e que a carta de alforria da actividade cultural no quadro de todas as outras actividades produtivas depende da sua capacidade de poder ser tratada politicamente, de poder ter peso no discurso politico. Tal não se consegue se colocarmos um véu de intangibilidade, e ilegibilidade, sobre os processos e as dinâmicas culturais e sobre a sua expressão para a vida económica e social do país.
Crítica final: não será bem uma crítica, mais um desabafo. O que eu gostava de ler era Mário Vieira de Carvalho (e outros ex-governantes, claro) a reflectir, o mais despojadamente que lhe fosse possível, sobre as razões e os contextos que levaram a que, no seu entender, o seu exercício de poder governativo (que atravessou quase uma legislatura) não tenha conseguido mudar nada de substancial no sector das artes do espectáculo.

domingo, abril 18, 2010

Transe Dance

Há em tudo uma primeira vez. No meu diário de vida vou assinalar que hoje fiz Drum Circle e Transe Dance. Cantei, dansei que nem um desalmado, toquei batuques, fui som. Temos um corpo esquecido, é só o que digo. Um ritmo. Por vezes toquei bem perto desse ritmo e percebi que tenho uma data de histórias incompletas dentro de mim. Há um vaivém narrativo que me acompanha. Gosto de respirar. Quando fumava cheguei a odiar fazê-lo mas agora voltei a descobrir esse imenso prazer de fluir o circuito de ar, de alargar o diafragma e inastalar em mim o ar necessário para ser feliz. E percebi também uma coisa que me deixou muito contente: tenho tido uma vida boa e sou, em tudo, um afortunado. Redescobrir isso naquele caramanchão daquela quinta de Sintra foi uma dádiva de luz e sombra.

quinta-feira, abril 15, 2010

Jaime Salazar Sampaio 1925 - 2010

Devo a Jaime Salazar Sampaio e à sua iniciativa "A Dramaturgia e a Prática Teatral", a leitura dramática do meu texto Sim, Senhor, mais tarde Evaporação dos Pássaros. Foi também por causa do seu banco de textos de teatro que a Byfurcação chegou a este texto e o representou, há mais de dez anos. Mas não é isso que recordarei dele. É a fina ironia, o humor, muitas vezes corrosivo, essencial. E uma humildade sem medida.

sexta-feira, abril 09, 2010

Trair o nosso amor

Eu tenho ciúmes dela. Nunca o admitirei, faz parte do jogo, não o admitir. Gosto de deixar no ar essa ideia de que eles poderão ter a ver com alguma leviandade sua. Mas nessa antecâmara introspectiva onde estou só comigo mesmo, já nem o discuto. Aceito os ciúmes próprios como se fosse uma doença do amor, e ela tem associado um quadro patológico de manifestações muito diversificadas. Quando sinto ciúmes, a única coisa que me sossega não é tanto a escarificação da situação que me levou à insegurança ciumenta, é o lembrar-me de como os ciúmes dela são injustificados. Se estou feliz com a pessoa que amo, o mundo tem a tendência a perder a sua sexualidade. E se isto sendo verdade aos vinte e poucos conflituava muitas vezes com outras questões, agora pode ser vivido com um maior radicalismo. E não será uma questão de perguiça, de comodismo. Os axiomas vão e vêm na nossa vida, transformam-se. Aos vinte, aos trinta, eu repetia o aforismo que anda de boca em boca, a fidelidade é para os cães, a lealdade é para as pessoas. Agora, aos quarenta e muitos, esse aforismo começa a ser um pouco ridículo. Vejo-me a olhar a fidelidade como nunca a vi. É como se fosse uma questão de atenção, de focalização. É uma forma diferente de entendermos o tempo que está em causa, não uma verdadeira ruptura axiológica. Há tanto a distrair-nos da entrega, do possuirmo-nos na dádiva, do vaivém que é irmos e virmos naquela entidade que come à nossa mesa, que dorme na nossa cama, que se passeia connosco de mão dada na noite do bairro, que perdermos algum do nosso tempo em jogos exteriores de sedução, nos parece um desperdício do que é o privilégio essencial de estar por aqui nos dias da rua, do bairro, do mundo. O que muda a posição de cada um em relação à vida, como há quase quinhentos anos o heliocentrismo mudou a nossa atitude geocêntrica, é a forma como nos colocamos em relação à possibilidade do nosso desaparecimento. Há uma altura nos dias da nossa vida em que percebemos que aquela sofreguidão de coleccionar amores como se isso, por si só, pudesse enriquecer a nossa vida, torná-la mais aventurosa, é um tremendo desperdício daquele profundo corte existencial que um amor pode ser. É um ficar sempre a rebolar na epiderme do que um corpo-a-corpo pode consubstanciar. O amor é uma construção ideológica tremenda que partilhamos uns com os outros, e, como toda a ideologia que nos une, tem uma parte fraudulenta, e tem outra parte que vai directamente ao que de mais verdadeiro e essencial tem a experiência humana. Quando apagamos a luz do quarto e nos agarramos à pele do outro, não é a epiderme sensível que agarramos, que apertamos contra a nossa própria pele, e também não é contra a nossa própria pele que a cingimos. É uma coisa simultâneamente mais pequena e maior do que nós, do que aqueles corpos estendidos, uma luminosidade que rebenta com a nossa contingência. Não sabermos explicá-lo não nos deve amedrontar. Deveremos preocuparmos apenas se não o conseguirmos sentir. No entanto, sobrevive um problema: não foi por capricho que inventámos a traição, foi por condicionalismo ontológico, e - Arno Gruen terá sempre a razão dos nossos espíritos apoquentados pela dúvida e pela angústia - não há amor, nem nada, que sobreviva à traição do eu. Trata-se de um problema sério que nenhuma idade resolve. As nossas vidas são como as nossas casas, cheias de truques, de engenhocas, de artesanias. É por isso que arranjei um pequeno estratagema para sobreviver ao dilema: quando começo a precisar de encontrar uma outra mulher, olho-a como se fosse a primeira vez que a visse. E traio-a, intensamente traio-a com a primeira mulher que nela, me aparece.

quarta-feira, abril 07, 2010

Quando me falares outra vez da nossa superioridade moral, lembra-te do que eu vi. Lembra-te, com os mesmos olhos com que te vejo, vi isto. Vê tu também. Para que falemos da mesma coisa.

terça-feira, abril 06, 2010

Ficaremos aqui até ao verão

.

Troveja.
Não sei onde fui eu inventar trovões e raios e relâmpagos num
dia tão solarengo.
Troveja.
O ribombar dos céus permite um assomo de irrealidade nisto tudo.
Caem do céu águas, como se fosse um dilúvio.
E se calhar é.
Dilúvio de tudo, imagens, memórias. Até de um pézinho de salsa.
Apetecia-me ir na enxurrada,
galgar os diques,
amanhecer em flor.
Apetecia-me amanhecer como se fosse uma flor.

segunda-feira, abril 05, 2010

Segunda-feira, depois da Páscoa

A segunda feira depois de um Domingo de Páscoa devia ser anulada pelo calendário e substituída por qualquer outro dia. Apetecia-me estar a namorar, a alargartar, a ler o jornal numa esplanada solarenga, podia ser no meu pequeno quintal, custa-me hoje o exercício do tempo e do espaço. Eu bem tento entusiasmar-me mas só me saí um bocejo estridente, arrastado, rejuvenescedor. Já me tentei inspirar no meu jornal diário, nada. Ainda tentei ir a meças com o Miguel Esteves Cardoso quando começou a falar da traição a Becket mas depois reconciliei-me com ele no fim do texto, quem traiu Becket foi esse seu sonho de teatro. Depois, ainda me deixei tentar pela primeira página, em caixa alta, com as aventuras do engenheiro técnico José Sócrates no país do cimento, do betão e dos construtores civis. Mas a quem interessa isto, que uma pessoa que elegemos para primeiro-ministro tenha sido um displicente técnico de engenharia? Saltei para o suplemento de Economia, uma entrevista com o mentor do projecto de reestruturação da administração central do estado (PRACE) cujos resultados, a seu ver ficaram muito aquém dos desejados. Vale a pena ler para se compreender um pouco do problema que carecemos mas também isso não me entusiasma. O cerrar de fileiras do Vaticano em torno de Bento XVI, bem como a tentativa de advogados ingleses de o levarem a julgamento, também não me comovem. É verdade que Bento XVI talvez seja, de todos os Papas, aquele que mais se empenhou contra a pedofilia no seio da Igreja, mas isso parece resultar menos de uma convicção pessoal de que a Igreja não deveria ter silenciado e protegido os crimes dos seus padres, mais da vontade de salvar a pele da Igreja da qual é pastor. Não, nada isso hoje me alenta, entusiasma ou me tira aquela sensação de que sem esta segunda-feira, o mundo estaria, senão melhor, pelo menos na mesma.

sábado, abril 03, 2010

A urgência da Saúde

O fecho das urgências em Valença do Minho está no centro da revolta e da indignação da população. Um hospital de campanha e bandeiras espanholas nas janelas são algumas das medidas mais mediáticas. Fui à procura de informações e não fiquei esclarecido. Ao que parece o fecho resulta de um trabalho de reestruturação do serviço prestado no Centro de Saúde de Valença, feito para todo o distrito, e tendo em vista a maior eficiência dos mesmos. Achei nesse aspecto curiosa a posição da Comunidade Intermunicipal, que sob proposta do PP apoiada pelo PSD (o PS absteve-se) reclama a imediata abertura e pede ao governo o fornecimento das informações técnicas que levaram ao acordo de encerramento. Se ainda não têm as informações como é que já lhes é possível exigir que não seja fechado? Não deveriam também mostrar as informações que têm para justificar a exigência da manutenção da abertura? Escrevi atrás, no post Que Estado?, que deveríamos poder exigir a avaliação das funções do Estado com base em objectivos e missões concretas. Nesse aspecto é importante a atitude de premiar e avaliar os serviços dos centros de saúde. Ou os hospitais. Ora isso tem de ter consequências no sentido de se procurar uma maior eficiência dos serviços. Que os estudos, as informações, sejam contraditadas, considero-o importante para o processo de constituir a melhor decisão. Que estejam em causa rivalidades locais também me parece compreensível. Que haverá que realizar medidas para o mais fácil acesso aos cuidados de saúde da população de Valença e dos outros locais afectados pela supressão das urgências, também me parece óbvio. Agora que se queira um Estado que avalie a qualidade, a necessidade e a capacidade de com eficiência garantir a sua função de prestação de cuidados de saúde e que depois mande esse trabalho para o caixote do lixo, também não me parece minimamente sensato. E nem refiro a incongruência (saúdo todos os dias a incongruência da vida) que existe entre uma atitude muito severa sobre o peso do Estado em geral, protagonizada pelo PSD e pelo PP, e esta atitude populista (onde o PS, abstendo-se, embarcou) de exigir a abertura, reconhecendo que não conhece os dados que levaram ao seu encerramento. Uma última nota para o Governo que não fez tudo o que poderia fazer no sentido de esclarecer os habitantes de Valença da bondade destas medidas, como resulta da adesão popular aos protestos. Quando a ministra Ana Jorge diz que a urgência de Valença transmitia uma falsa sensação de segurança, essa é uma resposta que pode integrar uma informação técnico-científica importante mas que é totalmente incapaz no plano político porque não percebe que, ao contrário da segurança, a sensação de segurança não é falsa nem verdadeira. É real. Talvez o Governo deva responsabilizar-se também por fazer com que as populações se sintam seguras e para isso deve ele próprio ter como basilar o princípio da urgência na Saúde. Numa situação de crise financeira o fecho das urgências é rapidamente correlacionado com a necessidade de cortar as despesas públicas e vai, ainda mais grave, associar-se politicamente aos últimos cortes do PEC em prestações sociais. E não vale a pena lamentar a associação. É preciso ser mais convincente, mais atento e mais presente.

Deles será o reino dos céus

É algo reconfortante que as palavras mais humildes vindas do coração da Igreja tenham vindo de Lisboa, de D. Policarpo. Esperemos por isso que o pregador do Vaticano, o único que detém o privilégio de falar para o Papa, não seja o único a quem o Papa ouve. Ou que reproduza o que o Papa gostaria de poder dizer, se não fosse o chefe do Vaticano. É importante no entanto percebermos que, para todos nós, crentes e não crentes, o que está verdadeiramente em causa para o papel da Igreja no mundo não são os crimes de pedofilia praticados pelos seus representantes na comunidade, sim a forma como a ICAR os silenciou, encobriu, camuflou ou relativizou.

É claro que por arrasto estará também tudo em causa principalmente a forma como não percebeu que o espartilho da não sexualidade - já para não referir o da não conjugalidade - imposto aos seus representantes da comunidade, não sendo mais sustentável na sociedade do século XXI, coloca os padres numa posição de grande fragilidade em relação ao mundo sobre o qual oram. A própria comunidade católica, apostólica e romana - feita de homens e mulheres comuns - também já vive a sua sexualidade de uma forma completamente diferente.

Ler aqui, no Jumento, Dia do Judeu.

Que Estado?

Chego a uma altura da minha vida em que naturalmente começo a reflectir sobre o caldo de cultura e de ideologia que me fez ser como sou, pensar como penso, escrever sobre aquilo que escrevo. A maior parte das ideias que me apareciam com alguma clareza aos vinte anos, hoje são um emaranhado, um lastro, um rumor. Uma das coisas em que tenho vindo a pensar é sobre a minha ideia de Estado, directamente relacionada com a ideia de comunidade. Revejo-me num Estado que reproduza uma ideia de comunidade que, como num casamento, se tenha como solidária na doença e no bem estar, na tristeza e na alegria, na morte e na vida. Estas ideias generalistas sobre o que é o Estado não implicam uma ideia concreta sobre o modo como o Estado deve estar para regular essa função solidária. Revejo-me numa experiência colectiva de regulação e garantia de alguns dos aspectos de funcionamento da sociedade, como a justiça, a saúde, a educação, a comunicação, a segurança, mas não tenho por adquirido que deva ser o Estado a executá-las, podendo este, se não houver perda de eficácia - e a solidariedade implica a procura da eficiência na garantia destas condições - contratualizá-las, de modo a que ela seja feita por aquilo que se convencionou chamar a iniciativa privada.
Tenho aliás o convencimento de que a querela entre os que defendem a nacionalização ou a privatização de algumas funções essenciais para a nossa comunidade, é alimentada por nenhum dos lados pressupôr que o outro, em vez de querer proteger os seus feudos e interesses, está real e sinceramente interessado em dotar de eficiência a garantia dessas funções básicas.
Na minha opinião essa querela tem uma grande quota parte de responsabilidade no esbanjamento de recursos públicos que é realizado em Portugal porque não permite criar um quadro de referência supra-partidário em que a única condição base seja garantir a máxima eficiência na garantia de funções como a educação, a saúde, a cultura, a segurança e a justiça .
Dou alguns exemplos: a grande quantidade de fundações, organizações públicas, institutos públicos cujas missões estão mal definidas e que não apresentam um quadro referencial de avaliação da forma como desempenham a sua missão. Não é possível falar seriamente da utilização de dinheiros públicos se esse trabalho não for feito. Por outro lado a desporporcionalidade entre as funções de representação política e partidária e as realidades representadas. Não é possível falar seriamende da utilização de dinheiros públicos quando os nossos representantes eleitos só são confrontados com os seus eleitores que estão mais directamente ligados à militância partidária (e isto nos partidos que cultivam algum dinamismo da sua vida política).
A questão não é tanto o discorrermos sobre o bem que o Estado faz aquilo que faz, ou como o fará melhor que um mercado subordinado aos objectivos da procura incessante de mais valias. A questão é saber como é que nós, os que defendemos essa ideia de um Estado Solidário, vamos promover uma avaliação daquilo que ele faz com base em missões que sejam o mais possível concretizadas para que qualquer um de nós, as organizações de cidadãos, possam confrontar o Estado com alguma eventual ineficiência da sua acção.
Olhemos esta sensação de crise instalada, pelo seu lado positivo: precisamos de destronar as dinâmicas senatoriais, corporativas, politico-partidários, religiosas, que usam e abusam do exercício público. Temos de eliminar o mais possível as incongruências que distorcem a função social do Estado. Há que emagrecer o Estado mas emagrecê-lo da tença, da comissão, do suplemento complementar, da comenda, da alarvidade desumana. Há que olhar mais nos olhos das pessoas e perceber que no mesmo planeta, no mesmo continente, no mesmo país, no mesmo sistema público, não se pode achar natural que entre mil e mil e duzentos euros seja o salário médio de grande parte dos portugueses e que depois haja algumas outras que ganhem, em prémios ou em retribuições ficas, duzentas ou trezentas vezes esse valor.
A coesão social deve ser dos maiores bens que uma comunidade tem e essa não se consegue à custa de uma distorção assim. Só assim poderemos salvar uma ideia de um Estado Solidário. Os modelos de vida social das sociedades antigas em que, sem nenhuma espécie de controlo, poucos dominavam todos os poderes, começam a plasmar-se na vida social e política desta cidade dos nossos dias (que, de tão ufana que é da sua virtude democrática até, em certos momentos de delírio esquizofrénico, a exporta pela força das armas e da estrangulação financeira).
Que Estado quero? Continuo sem saber responder a esta questão. Apenas sei que estamos a criar uma bomba-relógio dentro das nossas casas, das nossas ruas, das nossas cidades. Os grandes centros cosmopolitas da grande desigualdade económica e financeira, que nos habituámos a pensar no longe nas cidades faveladas, não estão afinal tão distantes e começam a ter nomes familiares, de terras que ressoam na nossa memória próxima.

quinta-feira, abril 01, 2010

O Partido da Vitamina C

É nestes momentos que é mais difícil ser de esquerda: como resistirmos à tentação de aproveitar a circunstância de Paulo Portas ter assinado o decreto da compra dos submarinos para não lhe atirarmos lama para a cara? Há muito justo ressentimento, muita suspeita de que este personagem político tenha sequestrado o Estado para as suas manipulações políticas, para que esse ódio não transpareça agora, mesmo se não directamente. É nestas alturas que eu percebo o ódio a José Sócrates e a onde ele pode levar no exercício de ressentimento dos povos da direita. É a mesma coisa que nós diríamos de Paulo Portas se não fossêmos de esquerda e não tivéssemos por garantido que ganhamos dignidade quanto respeitamos a dignidade do outro. Esperar que Durão Barroso e Paulo Portas digam o óbvio é folk-politic. Quando é que nós aprendemos que há mais um partido no imaginário político português e que ele recruta os seus filiados em todos os partidos? O partido da Vitamina C. C de corrupção, c de cunhas, c de compadrio, c de cambalacho, c de cara de pau, c de comissionista, o suplemento alimentar para desonestos autarcas, politicos, funcionários públicos, dioceses, maçonaria, opus e demais equipa. Se Durão Barroso e Paulo Portas fossem corruptos, não o seriam enquanto responsáveis políticos, um pela Europa, outro pelo PP. Seriam-no como destacados dirigentes do Partido da Vitamina C. Ora estes não só têm a tão falada presunção de inocência - que o nosso sistema judicial inverteu para a sentença, todas as pessoas têm direito à presunção de inocência sendo que de todos inocentes nós temos o direito de presumir culpa - como podem ainda disfrutar do direito a não se incriminarem, o que naturalmente fariam se, nestas tão solicitadas declarações politicas, dissessem algo que os pudesse revelar como militantes do Partido da Vitamina C. Ou alguém que pediu uma declaração de Portas e Durão, estava a pensar que, se eles fossem corruptos, iriam bater no peito e confessar que andaram os dois a subtrair milhões num negócio do estado? Não, o que se queria é que eles entrassem neste folclore sujo do circo mediático em que, tal e qual como na inquisição, o processo é feito com toda esta dança de bruxas.

É preciso dizer basta. Havemos de os derrotar de outra maneira, companheiros!

A liberdade dele

E ele a explicar-me, enquanto trazia o táxi aos solavancos pela Avenida Infante D. Henrique, sabe, tenho saudades daqueles tempos quando eu era catraio e vinha à noite ver um cinema ao Império, ou comer um bife, e tudo era seguro, outra gente, percebe? Isto nunca se há-de contentar todos. Olhe, eu agora não sinto liberdade nenhuma, sinto-me preso, vem aí o verão e é uma tristeza, no inverno vá que não vá, ainda parecemos pessoas normais, somos velhos, está frio, temos de ficar em casa, é natural. Mas e agora com o verão? Você sabe alguma coisa de estatísticas? Não? É pena. Eu acho que noventa por cento dos velhos que morrem no verão é de tristeza. Vem aquele calor, os netos, os filhos, toda a gente a suar e eles ali na sombra das casas, estamos a falar de velhos cujas casas não têm ares condicionados, nem nada, entende? O verão é muito ingrato para nós. De dia não se pode sair à rua, é o calor, há noite, são os bandidos! Eu acredito que havia muita gente que queria falar e não podia e até os admiro por isso, esses conquistaram a liberdade, fico contente por eles, não me interprete mal, não sou saudosista, o Salazar era um tirano, mas eu. na minha vidinha simples de quem não tem nada para dizer de mal sobre ninguém, nem antes nem depois, tinha mais liberdade naqueles tempos.