segunda-feira, maio 31, 2010

Allegro

Anda meio mundo a perguntar porque é que Sócrates demorou tanto tempo a apoiar Manuel Alegre - quando se calhar é a coisa mais transparente que ele fez - e ninguém se pergunta outra coisa que é politicamente mais relevante: porque é que ele, não vislumbrando no vate de Coimbra o perfil de Presidente que queria, não tentou criar um perfil presidenciável que tivesse capacidade de corporizar a sua ideia do que deve ser um Presidente? Ou seja, porque é que o seu PS desistiu agora das Presidenciáveis (da mesma forma que se pode dizer que tinha desistido com Mário Soares)? Num contexto de crise financeira internacional Manuel Alegre é cada vez menos confiável até para aquela pequena minoria que revê nele um paradigma cultural que, numa outra situação, gostaría de ver em Belém. E não só para esses. Hoje alguns amigos bloquistas supondo que eu teria finalmente um candidato, telefonaram-me a gozar comigo a perguntar onde é que esteve Alegre no dia 29 de Maio. Não sei se é uma coisa boa ou uma coisa má, os partidos não terem de ter um candidato presidencial em torno do qual se possam galvanizar. Sei é que este entendimento socrático da vida política não está em linha com aquilo que tem sido a prática política do Partido Socialista e está a provocar já alguma discussão. Enquanto isso há também quem, como eu, espere uma (nova) candidatura que possa libertar-nos deste fraco entendimento que os partidos têm do perfil de um Presidente da República.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cidadão satisfeito vale por dois

Eu sei que nestes tempos conturbados não deveria dizer uma coisa destas mas é a verdade, comovo-me com coisas como esta: fui fazer a minha declaração do IRS quase em cima do último dia, é coisa fácil, já vem semi-preenchida, é só colocar as deduções à colecta e dou-me com uma aplicação que me facilita a vida. Para além disso tinha perdido o pdf da minha declaração do ano anterior e num instante encontrei-a na minha área de contribuinte. Ao fim de meia-hora, depois de uma mensagem a dizer que a sua declaração não apresenta erros (ainda me lembro como no início das declarações electrónicas era mais difícil porque elas acabavam sempre por vir com um dado qualquer errado), submeto-a, guardo os pdfs da declaração, da simulação e do comprovativo de entrega numa pasta de ficheiros e saio do computador, a pensar maravilhas da Administração Fiscal.

quinta-feira, maio 20, 2010

Qual é a coisa qual é ela?

Qual é a coisa qual é ela que eu pedi desejando-a mas não a querendo, cuja perspectiva de me concederem me enchia mais de preocupação do que de alegria, e cuja nega que me deram foi afinal um grande alívio e que hoje, ao reavaliarem o processo, e me informarem de que me concediam, eu em vez de pensar que tinha sido uma prenda de anos adiantada, comecei a fazer contas e descobri que estava feito num terrível e cabalístico oito?

domingo, maio 16, 2010

Novas Oportunidades

De repente tornámo-nos num país. Um país a sério, com uma história, uma vontade. Um sentido comunitário. A querermos dar a volta por cima. Sócrates e Passos Coelho talvez apenas tenham tido a sensibilidade política de perceber que não suportaríamos que eles não se dessem conta do que está a passar-se connosco. Bloco, PP e PCP o que irão fazer?

sábado, maio 15, 2010

Despacho: Afixe-se

no Jumento

Uma das razões porque estou optimista em relação à crise que está a montar tenda na tabanka lusitana (para além da que decorre do meu pessimismo anterior sobre o sentido que a nossa vida levava) é a de que ela reacende a minha esperança de que também possa servir de enquadramento para assinalar muitas situações que minam a nossa vida económica e social. Em todos os sectores. Por exemplo, o Estado vai ter de emagrecer, de fazer uma dieta, e essa dieta desta vez, espero, vai ter de passar pela parte de leão que é o resgate de toda a energia e recursos públicos que são gastos para satisfazer esta lógica clientelar da passagem dos partidos pelo exercício do poder público. Todos, sem excepção que, como bem se viu no caso de Ricardo Rodrigues, o corporativismo político é de tal ordem que em certos níveis da vida política há um véu que cobre todos os quadrantes. Sou completamente contra a demagogia que tenta desacreditar a política e, consequentemente, os políticos - no outro dia vi com agrado uma iniciativa de cidadãos a pedir o reforço da participação pública na vida partidária - mas tenho de reconhecer que há muitas situações, e esta foi uma delas, em que são os agentes políticos os principais responsáveis pela desacreditação da vida política. Quando olhamos para a vida laboral no nosso país e verificamos os privilégios laborais que têm os deputados -alguns deles que até seriam justificados e legítimos se não fossem absurdos pelo constraste com o quadro da actividade laboral no país - fazemos uma pergunta: mas que entidade patronal é esta, tão generosa, que consagra para os seus trabalhadores todas estas cláusulas protectoras?, e apercebemo-nos do óbvio: os trabalhadores e a entidade patronal coincidem.
Não só a entidade patronal como os trabalhadores coincidem. Também os recursos que utilizam são observados à luz de uma patologia desresponsabilizadora que afecta a nossa relação com o bem público: é do Estado, portanto é de todos, logo não é de ninguém. Não é justificável, senão à luz do aproveitamento em causa própria, que um trabalhador possa receber uma reforma vitalícia pelo seu trabalho parlamentar ao fim muitos poucos de actividade profissional. Não é justificável, senão segundo o prisma do auto-governo, que um trabalhador possa ao fim de quatro anos de actividade pedir um subsídio de reintegração no mercado de trabalho quando, se essa realidade fosse estudada, a do percurso profissional dos deputados, se veria que grande parte deles têm, na sua breve passagem pela AR, o índice curricular que lhes permitirá uma existência desafogada na longa e pesada máquina estatal.
Não leiam o que não escrevi: eu não disse que a crise económica e financeira que atravessamos vai cuidar de nós. Não. Apenas escrevi que ela pode ser uma excelente oportunidade para isso.

sexta-feira, maio 14, 2010

Agradaram-me as palavras do Papa sobre a IVG. É já tempo de a Igreja perceber que essa ideia de que somos um povo com grandes tradições católicas tem de corresponder a um enorme sentido da sua responsabilidade social com grandes capacidades de influenciar a vida das pessoas ( o uso do preservativo, por exemplo) e que, no caso da Interrupção Voluntária da Gravidez, tem de centrar o seu discurso "no combate às condições sócio económicas que levam as pessoas a abortar" e não na demonização da IGV, dos que a fazem, dos que defendem o direito daqueles que a fazem a fazerem-no nas melhores condições e com o apoio da saúde pública. É claro que as suas posições em relação ao casamento entre homens nos levam a reconhecer que a este nível doutrinário a Igreja talvez só mude para não conflituar com os poderes terrenos que lhe podem fazer frente e que esse aspecto a aproxima demasiado daquela Igreja colaboracionista e cúmplice, de má memória, que nós já cá tivemos. É por isso que aquele prédio devoluto no fim da Rua da Padaria, guardado por arcanjos, esventrado na sua relação com o Céu, a quem já ninguém liga, me pareceu uma metáfora tão perfeita da Igreja de hoje.

Comecemos por falar de austeridade...

"De passagem, esta aceleração das restrições orçamentais deixa uma vítima interna na estrada porque demonstra que para efeitos de contenção orçamental, o ataque ideológico que o governo do PS perpetrou ou deixou perpetrar ao rendimento social de inserção, ao subsídio de desemprego e ao subsídio social de desemprego é totalmente irrelevante e só servia realmente outros fins."
Paulo Pedroso, no Banco Corrido

"É através da cultura que as pessoas sentem a sua dignidade..."

quinta-feira, maio 13, 2010

A imagem, aquilo que uma imagem consegue ser enquanto multiplicação da nossa vida, é algo que me emociona. Paradoxalmente muitas vezes bloqueio o fluxo de imagens, fecho os olhos para me focalizar, tanto que muita gente pensa que adormeci. Sempre que saio de casa tenho o Panteão ao meu lado esquerdo. É a realidade, aquela obra que resultou do investimento público dos nossos antanhos. Gosto de o ver, parece a cúpula de uma Basílica. Mas não me conseguiria emocionar. É o Panteão que tenho do meu lado direito, esse Panteão virtual, projecção de luz, que me guia e emociona. Como se fosse Alice, transponho esse patamar de irrealidade e fico por ali, de costas para o real. Os telemóveis permitem-nos, quotidianamente, montarmos e desfazermos esta emoção. Ainda ouço, "-Pai, pare de ser japonês!", mas não lhe ligo. Estou numa dimensão do espaço-tempo que é infinita, um universo em expansão. À medida que o tempo passa tenho cada vez mais a necessidade de ser honesto comigo e com os que me cercam: a exponencialidade, a multiplicação infinita da matéria - nem que seja precária, bastaria uma pedrada ou uma bolada no vidro para que tudo aquilo desaparecesse - seduz-me muito mais do que esta finitude do real. Tinha escrito que me apaixona e depois revi: seduz-me. É uma sedução que é ar, apercebo-me muitas vezes, depois. Sou ar e terra. É por causa da minha paixão pela finitude do real, que tanto me seduz este fenómeno da multiplicação do real que a imagem opera.
As coisas são o que (não) parecem. A noite é o que (não) parece. É escuridão. Não é esconderijo, nem esconde-esconde. É escuridão. Dizer que a escuridão esconde ou é esconderijo, tocaia, é ideologia. Eu não tenho nada contra a ideologia que se assume na bandeira desfraldada dos ideais que a agitam. O que me cansa é a ideologia disfarçada de ciência, de mundividência humanista, de moral (a)política. Cansa-me porque acho que a maior parte de nós já cá anda cá há tempo suficiente que justificaria que não nos andássemos a enganar uns aos outros. Ontem tive de dar uma volta imensa para voltar para casa. Desci à Rua da Conceição e estava um cordão policial montado até ao Rossio. Lá tive de montar as minhas tamancas e ir apanhar o metro nos Restauradores para conseguir apanhar o outro lado da rua e poder vir para a Graça. Talvez muitas pessoas achem que sou masoquista, mas achei perfeitamente justificado o cordão de segurança e, por mais que fisicamente me incomodasse muito o banho involuntário de multidão, gosto que a minha cidade se ponha assim bonita para receber o Papa, o Dalai Lama, e quem mais por bem vier para nos lembrar que se não pudéssemos de alguma forma transcender a materialidade que nos configura, a nossa vida seria um dó de alma. E mais: mesmo sabendo que grande parte daquele povo de deus que enchia as ruas já trocou as suas orações quotidianas e dominicais por promissórias nas catedrais do Belmiro ou do Jerónimo Martins (Rui Tavares tem hoje um excelente texto onde assinala esta nossa perda de referências religiosas) agrada-me vê-los assim coloridos, floridos com bandeiras distribuídas pelo Correio da Manhã, roubados à violência do dogmatismo, daquele odor bafiento a sacristia. Muitas vezes perante a intolerância e o fanatismo religioso que, felizmente, cada vez menos vamos encontrando, pensamos erradamente que é a devoção a um Deus que os torna tão mesquinhos. Quando, dei-me conta disso ontem, ao pé do MUDE, ao parar um minuto verdadeiro para olhar aquela turba estranha, talvez seja exactamente o contrário: talvez seja esse curvarem-se diante do inmensurável que lhes dê ainda assim, alguma luminosidade. É claro que o Deus a que se curvam é tão mau quanto eles ( e nós) próprios. É um deus da matança, do obscurantismo, um deus que os manda fazer aquilo para que (também) tendem.
É preciso não confundir nem Deus, nem o Criador de Deuses, o Homem, com esse breve momento em que uma pessoa se ajoelha, canta a alegria da vida, se entrega a uma transcendência para a qual também tende.

quarta-feira, maio 12, 2010

Cidinha Campos, One Deputy Show

Dou uma dica para eventuais empresas à procura de negócios chorudos na compra de canais televisivos: primeiro façam uma proposta de compra do canal de cabo da Assembleia da República. A baixo preço, claro, agora que o mais nobre desígnio nacional do equilibrio das contas públicas a todos benze, aquilo vai tornar-se num tédio mortal. Façam uma cara contricta e, para que não vos acusem de loucura, expliquem que a intenção é motivada pelo mais elevado patriotismo e vontade de contribuirem para a descida do défice público. Depois metam-se num voo charter (ela não gosta de luxos nem salamaleques) e voem até Brasília. Marquem encontro com Cidinha Campos e convençam-na de que ela e só ela pode salvar o nosso país. Talvez seja o seu único vício, essa pulsão para isso, ser providencial. Depois é só tratarem da transferência para a nossa Assembleia da República. Dou uma semana para que o share dispare para níveis nunca vistos e os anunciantes façam fila à porta dos vossos escritórios. Uma semana e é para ser prudente. Negócio com projecções de futuro: no Simplex montem uma empresa para a comercialização dos direitos televisivos das intervenções da novel deputada que, passado pouco tempo, três meses, passarão a ser difundidas em canal pago. Até lá, para todos os outros, os vídeos das suas intervenções podem ser saboreados na sua página. Aqui está a reportagem que a RTP fez sobre ela:

terça-feira, maio 11, 2010

Lutoteca

Numa resposta ao jpt acabei, através de um lapso linguístico, por inventar um novo conceito: Lutoteca. Parece-me importante, um lugar onde brincamos com as nossas perdas, para melhor fazermos os nossos lutos. Depois de mim virá a gloriosa consolidação teórica, os manuéis (é o plural de manual, certo?), a plêiade de animadores e animadoras mas em algum momento da blogosfera algum glogleador (espécie que daqui a umas gerações - quando os nossos descendentes vierem já de chip incorporado - se tornará num ser tão estranho como os actuais arquivistas) há-de vir aqui descobrir a origem, o primeiro lugar da proferição do conceito. E eu, por breves momentos, estarei vingado na minha insignificância canina.

Monumento a Bento XVI

Há mais ou menos vinte e seis anos veio a Portugal Ronald Reagan. Fiz parte de um conjunto não muito alargado de pessoas, mas que envolveu - a Barraca, a Mimo Rua Trupe, a Máscara, a Oficina do Grotesco, os Grupos de Teatro de Belas Artes, os Patolas, o CIDAC, Era Nova, Gsal, GAP, A Gaivota, CDPM, Grupo Cultural da Juventude Timor Leste - que organizou um evento cultural de protesto chamado "Um americano em Lisboa". Vinte e seis anos depois sei que uns amigos vão distribuir preservativos como protesto contra as posições da Igreja sobre o uso de contraceptivos. Já não vou, claro. Ganhei massa adiposa, gordura mental. Não posso no entanto deixar de me associar a esta iniciativa e colocar aqui o meu contributo. Este não podem dizer que não vêem.

Pró Bento XVI

Não suporto mais ouvir falar de Bento XVI com desprezo fazendo alusões mais ou menos inconsequentes a um seu passado nazi. É um comportamento que não tem assim tanto respeito pela dignidade da vida humana. Bento XVI foi um cardeal com importante trabalho teológico, tem desenvolvido produção de pensamento próprio e passos importantes no sentido do ecunemismo, e nesse sentido, mesmo para um agnóstico como eu, a sua presença em Portugal deveria poder ser - para além da oportunidade de um diálogo vivo e crítico como o que referir no post anterior - um momento crucial de debate e até, de celebração festiva sobre a imanência, sobre a percepção do que nos transcende e de como essa vivência dessa incompletude nos pode ligar a todos, crentes e não crentes.

Contra Bento XVI : Apupópapa !

Acabei de assinar a petição dos cidadãos pela laicidade . Compreendo o júbilo dos cristãos e católicos com a presença do Papa em Portugal, e certamente que, intimamente, lhe desejo as boas vindas e fico contente por Bento XVI estar entre nós. E também me parece que neste pensar-pronto-a-usar para que muitos nos tentam atirar, as questões mais importantes não são os custos da tolerância de ponto. A questão principal é que, como bem refere a petição, Bento XVI é o chefe de um pequeno estado teocrático no coração da Europa - cujo comportamento nas instâncias internacionais como a ONU desconhecia ser tão lamentável - e o expoente máximo de uma confissão religiosa que, naturalmente - como outros líderes de confissões religiosas - lidera um reino que não é deste mundo finito e material em que vivemos. Ainda há pouco tive de sair do pé da televisão pública. Foi a minha mulher que reparou. Estava com os olhos meio vítreos e catatónicos, a face enrubescida, as mãos trementes, com sinais de intoxicação ideológica acentuados. Bento XVI suspendeu a condição de prós e contras deste imenso ágora da RTP. Todos ali eram a favor. Como se anunciassem, mas pode lá ser-se contra Bento XVI?! Pode, claro que pode. Pode, e em muitos casos deve ser-se, contra aquilo que ele e a sua Igreja representam. O silêncio face aos crimes da pedofilia é apenas a expressão mais recente de uma Igreja que lida mal com o corpo, com a festa da vida e da sexualidade. As posições da Igreja sobre a homossexualidade, sobre a utilização de meios contraceptivos, sobre o papel das mulheres na Igreja, merecem um debate profundo numa sociedade laica e se a Fátima Campos Ferreira fosse a grande jornalista que quer ser tinha-os convidado para o programa. A certa altura disse que ao ler as encíclicas papais tinha ficado supreendida com a forma como Bento XVI utilizava o debate para procurar a solidez do pensamento. Deveria também ela inspirar-se nisso e trazer ao debate a expressão do religioso e do laico. Em vez de parecer moderna dizendo que a visita do papa pode ser acompanhada no facebook, poderia dar-nos conta das brincadeiras facebookiana (será que ainda existe humor) do Miguel Castro Caldas e do Rui Rebelo ou as performances dos promotores do Apupópapa. Ou trazer os representantes do Palco Oriental no Beato, em vésperas de serem despejados pelo Patriarcado de Lisboa depois da acção judicial que esta ganhou. Basta de falar sobre as tradições católicas dos portugueses para justificar o atropelo da mais elementar regra republicana: vivemos num estado laico.
Também não deveria a Igreja aceitar como natural, e ser cúmplice, deste abuso de recursos e silêncios públicos.

segunda-feira, maio 10, 2010

Rir por último

No Escrita em Dia (link aí ao lado) Carlos Narciso escreve sobre um antigo colega seu da RTP que eventualmente se terá suicidado na sequela de uma publicação de alguns brutos (materiais jornalisticos não editados) de reportagens suas. São de facto cenas ridículas, grosseiras, nem mesmo a pena que possamos sentir por José Ladeiras nos impede o riso farto. Independentemente de todas as considerações éticas que se possam fazer sobre isso, uma coisa é certa: é uma canalhice sem limite a publicação de materiais não editados, sem o consentimento dos seus intervenientes e espero bem que os familiares de José Ladeiras tenham a oportunidade de levar a RTP e os Gatos a tribunal pedindo uma choruda indemnização poe esta abusiva utilização deste materiais.

sábado, maio 08, 2010

Bento XVI Superstar

Miserere

Quando estava a trabalhar na reportagem de Miserere, para a Rua de Baixo, encontrei esta entrevista na Pastoral da Cultura. Surpreeendeu-me saber que havia uma Pastoral da Culturae a forma como se dedicava a olhar o trabalho de um grupo e de um encenador que de certa forma, coloca em causa o olhar da Igreja. Já na conversa colectiva que tinhamos tido a seguir ao ensaio de imprensa eu tinha encontrado essa surpreeendente fragilidade em que Cintra se aceitava colocar, expondo-se com grande franqueza, na sua busca pessoal. Tenho pena, que no mercado das cousas culturais, tudo isto passe como se o pudéssemos meter na caixinha minguante da atenção que damos ao teatro, aos objectos teatrais.

O Amolador na Rua do Sol à Graça

sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

O furto dos gravadores na Assembleia

Tive agora a oportunidade, finalmente, de arranjar um pouco de tempo para ir à Sábado ver o vídeo da conversa de Ricardo Rodrigues com os jornalistas da Sábado. Mais um azar, dos alguns azares que, na entrevista, Ricardo Rodrigues confessa ter tido. Tudo isso é menor. A única coisa que eu não compreendo, e isso não é tão menor, é que ele não tenha feito aquilo que era mais simples: ter pedido desculpa aos jornalistas e ter devolvido de imediato os gravadores. Mesmo que neste caso, o deputado e os jornalistas até não estejam num registo agressivo, todos temos atitudes irreflectidas. O problema não são estas, as atitudes irreflectidas. O problema é quando reflectimos sobre as nossas atitudes irreflectidas e em vez de fazermos aquilo que se espera de nós, quando somos deputados da República, quando estamos na casa que representa a República e o povo, tentamos desculpabilizar o que fizemos com o comportamento dos outros. Já agora, além de autor confesso do furto, Ricardo Rodrigues também será tolo? Ele não sabia que estava a ser filmado? Se como disse era uma acção directa para defender os seus direitos e impedir que a conversa que teve saísse cá para fora, porque não levou a câmera? Não nos basta já o que existe sobre Portugal, ainda precisamos de ter este tipo de histórias e a forma como reagimos a elas. Não consigo perceber a aversão que certas pessoas têm a esta pequena palavra: desculpem-me.

domingo, maio 02, 2010

O teu dia

Há-de ser sempre assim. Virei sempre aqui, neste dia, sem tempo para falar senão no tempo que não tenho para falar do que és, do que foste, da forma como sou naquilo que me ensinaste a ser. E talvez este vir assim sem tempo, seja mais uma vez uma forma de fugir ao confronto com tudo isso. É preciso tempo para nos entregarmos. Começo a olhar para dentro, para o tempo que fomos, para o tempo que nos fugiu. O relógio é interior, esse tambor desengonçado e descompassado que trazemos dentro do peito.

terça-feira, abril 27, 2010

O que se faz com um novo dia?

Vem aí Maio e é sempre assim: não há tristeza que resista. Eu sou de Maio. Quer dizer que nasci em Maio. Que me quero feito de Maio. Maio, maduro maio.

segunda-feira, abril 26, 2010

E se Abril por aqui passar...

Olho para os seus nove anos. O mundo cansou-me os olhos, o olhar, cegou-me. Olho para ele e tento ver o mundo pelos seus olhos. Daqui a dois anos, ele terá onze, a idade que eu tinha no dia 25 de Abril de 1974, prometo uma epifania. Entretanto, a crise do capitalismo financeiro, enxurrada na qual haveremos todos de, mais ou menos, ser arrastados, é um momento de alguma esperança. Tudo isto que nós vivemos, já o vivíamos há um, dois, três, dez, vinte anos. Só que a nossa inscrição na sociedade da abastança direccionava-nos para outro sentido. Ontem era o FMI, hoje é o FMI. Se os seus ajudantes são agora as agências de notação da dívida pública, isso pouco importa. O que importa é que há alguém que quer especular com a nossa (des) sorte e enriquecer rapidamente com a nossa bancarrota. No outro dia os mercados respiraram de alívio quando a Grécia resolveu pedir apoio à Comunidade Europeia. Para um leigo em economia, que não em economês, esta alegria breve é um pouco absurda. Se a situação económica da Grécia é tão dificil, se o seu PEC deixa tanto a desejar, e se a sua situação actual resulta do grande endividamento do país, como é que uma sobrecarga desse endividamento pode significar uma boa notícia? É claro - não me levem a sério os economistas que por aqui passem, por favor - que em grande parte o alívio é europeu e ele é sincero, por causa do perigo dos PIGS poderem fazer implodir a construção do sistema económico e financeiro europeu. No entanto a questão principal mantêm-se: o mercado mundial de capitais está ávido de sangue europeu. Quanto ao resto, lembro-me que a minha geração já pode viver duas crises financeiras e económicas importantes: a de 70, cujas consequências sofremos até ao meio da década de oitenta quando o sonho europeu começou a livrar-nos da maldição salazarista. O desemprego, os salários em atraso, os despedimentos, as bacias de pobreza, o Vale do Ave, a península de Setúbal. E esta, que ainda agora começou, e que nos irá ao osso. Seremos mais solidários, mais próximos, depois dela. O slogan sobre o entendimento, também é válido para a solidariedade: estamos condenados a ser solidários uns com os outros, ou estaremos condenados por não sermos solidários uns com os outros.
[imagem do Oito e Coisa]

sexta-feira, abril 23, 2010

Abraçar

De repente tive saudades dos longos abraços que dava na adolescência, quando apanhávamos uma piela e todo o mundo era fraterno. Ou naquele curso da Comuna, quando aprendi o corpo, o lugar onde ele actua. Ou no teatro. Abraços verdadeiros. De repente tive saudades daqueles antigos longos abraços que dávamos a torto e a direito. Tive saudades de abraçar o Alpi. O Apicultor. Uma meia dúzia de pessoas com quem a minha vida teima em desencontrar-se. Excepto a família mais restrita, a minha mulher, o meu filho, há muito tempo que não dou um abraço a sério, daqueles em que a gente se perde no tempo e no espaço. Por vezes tento, quando encontro alguém amigo na internet, lá deixo sair um grande abraço. Mas não é a mesma coisa...

quarta-feira, abril 21, 2010

Os que faltam

No memorial encontram-se também os que morreram em missões de paz. Mais uma lacuna. Não encontro lá o nome do cabo Hugo Paulino, embora o exército tenha reconhecido que a sua morte foi consequência da sua presença no Kosovo.

terça-feira, abril 20, 2010

O soldado Vida, 1971

De repente o passeio marítimo levou-nos até ao memorial a todos os que combateram nas nossas antigas colónias. Não foi a nossa deriva colonialista que me agarrou para aquela pedra murmurejada, com nomes que me iam sugerindo interpretações em catadupa. Comecei por contar os mortos. Oito mil, novecentos e quatro. Por vezes enganavamo-nos e eu voltava atrás mesmo que tivesse de recontar várias páginas de mármore. Um morto a mais ou a menos não importavam nada para o post que eu queria escrever (há muito que deixei de olhar para as coisas, agora tenho a nítida sensação de que olho para os posts que há nas coisas) mas pareceu-me que tentar ser exacto com o número de cada um deles era a única coisa que eu hoje poderia fazer de digno por aqueles que morreram. Mesmo sem saber o que é que lhes devo (o que quer dizer que duvido dos discursos oficiais sobre esta mortandade lusa em terras de além-mar). Os nomes estão dispostos por anos mas com acrescentos que se percebe, são recontagens de anteriores listas oficiais. São nomes e patentes, e o que estas duas realidades conseguem, passado tanto tempo, transmitir. Talvez a pedra pudesse ter também o lugar onde cairam. Ou se calhar partiram do princípio de que a morte é um não lugar. O lugar onde nascemos, onde vivemos, fala de nós. O lugar onde morremos, principalmente se morremos numa terra estranha a morrer por ideias que para muitos talvez também soassem de forma estranha, talvez não acrescente nada ao nosso epitáfio. Até sessenta e quatro, ano em que passaram das quatro centenas e meia de mortos, tombaram poucos soldados em relação à sangria que veio a seguir. Sessenta e nove e setenta e três foram os mais sangrentos, com mais de novecentas vidas perdidas. Oito mil, novecentos e quatro é o número oficial dos que estão imortalizados no memorial, ali em Belém. Mas há todos os outros. Os que não morreram do nosso lado. E há também as famílias enlutadas. Todas elas morreram também um pouco. Há uma mortandade que estravaza o rio da forma como falamos oficialmente disto. Uma passagem apressada pelos nomes gravados na pedra, deu-me para perceber que daqueles quase nove mil nomes, não há muitos nomes finos. Encontrei um cabo Roquete, e um cabo Cayate, e fiquei a imaginar o que faziam ali, entre os humildes. Ou quem era o Ten. Jean Filiol Raymond e porque é que em 1957 foi uma das três baixas das nossas forças armadas (pouco tempo depois descubro, no google: Jean Filiol Raymond tinha vinte e nove anos, combatia na Índia e recebeu, a título póstumo, a medalha de prata de valor militar, com palma). São grossos os nomes de grande parte dos que tombaram. A guerra foi particularmente aziaga para o Adelinos, para os Antónios, para os Américos, para os Agostinhos. Nem a morte procurou muito as patentes mais elevadas. Soldados, cabos, furriéis, cairam muitos. Agora só comecei a encontrar patentes mais altas em nomes com ressonâncias estranhas. Provavelmente o capitão Zacarias Zaiegh, o Tenente Cicri Marques Vieira e o Alferes Malam Baldê não terão morrido muito longe de casa. Mas de todos os nomes, o que mais me impressionou foi o daquele homem caído em 1971: não tinha nome próprio, nem nome de família. Era soldado e chamava-se única e somente Vida.

segunda-feira, abril 19, 2010

Variações sobre o pensamento estratégico para a cultura

Leio a crónica (link indisponível para não assinantes) de Mário Vieira de Carvalho, professor universitário (e ex-Secretário de Estado da Cultura), sobre a "ausência de pensamento estratégico que explica os ziguezagues na Cultura" e que fez com que, no sector das artes do espectáculo, "nada de substancial" tenha mudado " nos últimos vinte anos". Relevante para esta situação o facto do governo se ter comportado esquizofrenicamente já que " primeiro aprovou a legislação (bases legais de uma rede apoiada pelo MC segundo critérios e indicadores objectivamente mensuráveis) e promoveu a sua entrada em vigor; logo a seguir, e antes da sua aplicação, revogou-a". E também, na linha da acusação das artes do espectáculo estarem subordinadas a interesses lobbistas "não temos uma política cultural. Mas temos uma polícia da cultura."
Crítica:
Antes de tudo o mais: depois de Arno Gruen já não consigo ler ingenuamente esta contaminação psicoterapêutica da abordagem política (e na qual já muitas vezes, aqui também, embarquei), na qual a esquizofrenia é, provavelmente, a patologia mais receitada por toda a psiquiatria de sofá. Não deixa no entanto de ser curioso, no contexto deste argumento, verificar que a assinatura deste texto, uma reflexão sobre o exercício do poder político nos últimos vinte anos, na área das artes do espectáculo, fazer referência a um professor universitário quando, ao contrário, a assinatura de outros artigos seus sobre esta questão da "tirania do gosto", já terem referido o ele ter sido "ex-secretário de estado da cultura".
Primeira crítica: "o argumento niilista". O que Mário Vieira de Carvalho (MVC) nos diz é que nada de relevante mudou nas artes do espectáculo de 1990 a 2010. O que abrange o período de 1995 a 1999 onde, assumidamente, se fez uma pequena revolução nesse domínio. Devo dizer que só no pequeno domínio das artes do espectáculo a que me encontro mais ligado, a escrita teatral, a constatação de MVC é uma grande desvalorização de todas as transformações sugeridas. Neste campo o paradigma dominante nos anos noventa foi de corte com toda a experiência anterior (cuja caracterização se encontra feita num capítulo do livro de Eugénia Vasques dedicado a Jorge de Sena) e que a primeira década deste milénio tem prosseguido essa ruptura de uma forma tão consistente que é irreconhecível a paisagem da escrita teatral nos anos sessenta, setenta e oitenta. Estudei o fenómeno nos anos noventa e ao propor-me desenvolver essa pesquisa para a primeira década do milénio, fi-lo na perpepção das importantes mudanças ocorridas. Ora se aponto o exemplo deste campo é porque se trata de um domínio marginal das artes do espectáculo, as mais das vezes distante do epicentro das manifestações de política cultural. Se até nele se verificou um abalo sísmico de forte intensidade, imagine-se nos outros campos. Aliás, a base do argumento sobre a esquizofrenia apresentado por MVC, tem a ver com a incapacidade do governo assumir uma legislação que tinha aprovado e promovido e que estipulava as bases legais de uma rede apoiada pelo MC, o que só por si era já o reconhecimento óbvio dessa rede, que, nomeadamente a dos cine-teatros, foi criada nos anos noventa. E que levou ao aparecimento de uma discussão em torno do trabalho de programação artística e cultural, a uma rede de programadores, a projectos centrados na relação com as autarquias, ao aparecimento de um observatório das artes culturais, etc, etc, etc e ainda, etc. Felizmente, para todos os que trabalham na cultura, os últimos vinte anos destruíram o paradigma niilista que, como um mal de espírito, teimando em fazer tábua rasa dos esforços e mudanças que se vão fazendo no domínio cultural, constroem um caldo ideológico que, aparentemente contra o imobilismo vigente, acaba por institucionalizar a ideia de que nada é possível fazer.
Segunda critica: O argumento do objectivamente mensurável na actividade cultural. MVC opõe-se ao desprezo pelos indicadores culturais, como sintoma de uma "metafísica da qualidade". O contexto em que esta crítica surge é o de uma declaração de Gabriela Canavilhas, o de que "a arte não são só números". Há que valorizar este argumento, mesmo que ele aqui possa também ser entendido como face de uma moeda que, desde que Carrilho chegou ao Palácio da Ajuda, há muito se encontra valorizada na bolsa de valores da discussão socialista para a cultura e que se traduz no empenho com que antigos, actuais e aspirantes a responsáveis políticos se têm entregado a contradizer-se e a atacar-se uns aos outros.
E há que valorizá-lo porque se é verdade que há muitos aspectos de natureza qualitativa relacionados com a actividade artística que são irredutíveis à quantificação, também é verdade que ela tem uma dimensão cultural inegável e que a carta de alforria da actividade cultural no quadro de todas as outras actividades produtivas depende da sua capacidade de poder ser tratada politicamente, de poder ter peso no discurso politico. Tal não se consegue se colocarmos um véu de intangibilidade, e ilegibilidade, sobre os processos e as dinâmicas culturais e sobre a sua expressão para a vida económica e social do país.
Crítica final: não será bem uma crítica, mais um desabafo. O que eu gostava de ler era Mário Vieira de Carvalho (e outros ex-governantes, claro) a reflectir, o mais despojadamente que lhe fosse possível, sobre as razões e os contextos que levaram a que, no seu entender, o seu exercício de poder governativo (que atravessou quase uma legislatura) não tenha conseguido mudar nada de substancial no sector das artes do espectáculo.

domingo, abril 18, 2010

Transe Dance

Há em tudo uma primeira vez. No meu diário de vida vou assinalar que hoje fiz Drum Circle e Transe Dance. Cantei, dansei que nem um desalmado, toquei batuques, fui som. Temos um corpo esquecido, é só o que digo. Um ritmo. Por vezes toquei bem perto desse ritmo e percebi que tenho uma data de histórias incompletas dentro de mim. Há um vaivém narrativo que me acompanha. Gosto de respirar. Quando fumava cheguei a odiar fazê-lo mas agora voltei a descobrir esse imenso prazer de fluir o circuito de ar, de alargar o diafragma e inastalar em mim o ar necessário para ser feliz. E percebi também uma coisa que me deixou muito contente: tenho tido uma vida boa e sou, em tudo, um afortunado. Redescobrir isso naquele caramanchão daquela quinta de Sintra foi uma dádiva de luz e sombra.