sexta-feira, junho 18, 2010

Escuroterapia

Ontem, em diálogo interior com o espectáculo de divulgação científica Stupid Design, de David Marçal, que vi no Teatro da Trindade, com um conferencista a propôr uns retiros no deserto onde o visitante, participante entre outras coisas poderia ter sessões de estupidoterapia, o meu cérebro veio, em loop, a fabricar novas terapias. Já era tarde quando chegámos a casa, um pouco mais tarde quando nos dedicámos à off_tv_terapia. Nem CSI_terapia, nem mentescriminosoterapia, nem internetóterapia, nada. Apenas o escuro da sala, o mais brilhante de nós mesmos que pudémos arranjar quando nos dedicámos à trovanteróterapia e à heróisdomarterapia.

quinta-feira, junho 10, 2010

Há muitos anos um amigo meu, cinéfilo de quatro costados, ensinou-me a ver uma ficha técnica. Tudo começou porque ele se manifestou contra aqueles bárbaros que se levantavam da cadeira do cinema logo que a palavra end surgia. Para ele era uma falta de respeito por todos aqueles que estavam envolvidos no filme. E porque eu lhe manifestasse algum estranheza por ele não compreender o aborrecimento do que seria estar sentado diante de um écran a negro onde escorriam dezenas de letras brancas, corridas em grande velocidade, ele explicou-me o que eu poderia ganhar, aguentando mais um pouco na cadeira. E eu agora já sei o que o filme, enquanto processo de fabricação da ficção se revela no correr longo e demorado de uma ficha técnica. Onde podemos perceber também o nível de sofisticação que o cinema atingiu, enquanto produção do imaginário. Ou a compreensão do peso fincanceiro que a indústria do cinema tem. O time code do telemóvel não enganava: tinham sido mais cinco minutos e trinta segundos de filme, que vi, sozinho, no escuro da sala. O que é perturbador é que grande parte da eficácia do cinema enquanto dispositivo de alimentação da nossa sede de imaginário, pode advir da forma como ela oculta o seu processo de fabricação. É claro que poderemos argumentar que não, que o making off é a desocultação do processo de fabricação. Não será assim, insisto. O making off, enquanto ficção sobre a produção do filme, faz, quanto a mim, parte do processo de ocultação que é necessário para que o filme apague as pistas sobre o modo como "ideologicamente" produziu sentido.

O Calceteiro do Princípe Real

Mais um pequeno filme. Os filmes, os objectos criados, são pequenas insignificâncias, claro. O andar pelo real a fazer de conta, não é tão insignificante. Por mais que não fosse, pelo que me ajuda a achar mais suportável, e até fascinante, o outro filme, o da vida.

segunda-feira, junho 07, 2010

Analfabetismo político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Bertold Brecht

domingo, junho 06, 2010

Pastéis de Belém

Há um aspecto no argumento de Paulo Pedroso a que sou bastante sensível: nos próximos tempos vamos ter ou uma convergência política do género de Bloco Central (digo eu, para isso talvez o PS tenha de mudar de líder) ou de bloco PSD/CDS (mais natural e que ainda por cima virá reforçado pela sintonia que irão treinando em relação à candidatura de Cavaco e Silva). Essa perspectiva é um reforço político importante para a valorização da campanha de Manuel Alegre, já que Fernando Nobre surge neste campo com alguma hibridez que não cria de imediato uma imagem clarificada sobre o que irá fazer (e que está a ser bem explorada para o diminuir politicamente). Infelizmente a predominância política que o argumento não a Cavaco instala automaticamente em toda a esquerda, se bem que tenha como positivo o diminuir a mancha abstencionista, pode turvar e enquinar o debate presidencial. Leio aqui a entrevista a Fernando Nobre (que me agradou muito). Não é o meu candidato, não tenho nenhum candidato e por isso pressuponho que a cada nova investida de um dos candidatos poderei balançar na minha inclinação de voto. Nas últimas eleições votei no Manuel Alegre. Agora ainda continuo à espera de uma (nova) candidatura que liberte a candidatura presidencial deste constrangimento político de reduzirmos o papel do Presidente da República aos jogos de equilibrio parlamentar. Faltam seis meses. Os candidatos que subam ao palco e que nos mostrem as suas habilidades e faculdades, ao falarem como os homens-que sonharam-ser-presidentes-da-república-e-que-precisam-de-nos-convencer-que-são-o-nosso-Presidente-de-sonho.

Escrever é ler

.
Leio e escrevo lendo
No espaço livre
Dos versos,
.
Leio no silêncio
Do espaço livre
Dos versos,
.
Leio e escrevo lendo
Os versos
E assim me entendo.
. .
Eduardo Graça, aqui
. [Tinha acabado de escrever no post anterior esta relação que em nós se estabelece entre o escrever e o ler e depois encontro, a propósito de uma pequena exaltação ao Prémio Camões deste ano (o poeta brasileiro Ferreira Cullar) este poema do Eduardo Graça que, pelo que me apercebo, interiorizou este hábito de escrever em diálogo com aquilo que lê. Lembro-me agora também, no encavalitanço que a memória é, de uma conversa tida um dia com Eduardo Prado Coelho num daqueles jantares depois das aulas - foi meu professor de uma disciplina de mestrado que já não sei o que era, recordo apenas o prazer de o ver tecer ideias umas a reboque das outras - em que ele confessava que muitas vezes abandonava a leitura de um livro para se deixar ir no entusiasmo da "escritura". Talvez os seus livros sejam como os do Eduardo, cheios de apontamentos, de diálogos cruzados, a transbordar de uma delicadeza que importa. ]

sábado, junho 05, 2010

Na Rua Nova da Trindade

Uma das razões porque me parecem tão fascinantes estes tempos que vivemos, é a de que a aventura da expressão e da comunicação de repente chegou ao pé da vida de cada um. Claro, com um telemóvel os meus filmes nunca serão filmes como aqueles que vamos ver aos cinemas, as minhas reportagens nunca serão como aquelas reportagens que podermos ver nas televisões mas, tudo contado e relativizado, esse privilégio de me poder abeirar da vida de um outro e de tentar elaborar a partir dele uma estória, é gesto possível não apenas através da artesania da escrita, também a partir da imagem em movimento partilhada nesta feira-franca da expressão que é a blogosfera. Nos anos setenta do século passado alguns dos nossos antecessores inventaram uma fórmula que serviu de leitmotiv a muitas das práticas de animação cultural: ler é escrever. Era a revolta contra o fazer, o fazer, o fazer, essa profusão de fazedorismo que ainda nos arranha a pele. Tudo isso foi necessário para voltarmos à escuta, à urgência de pararmos diante do outro. Entretanto passaram-se muitos anos e já não queremos todos ser artistas. O paradigma mudou: escrever é ler. O criador de filmes que já vem com o programa do computador é rudimentar mas já nos permite brincar no pátio desta ruptura epistemológica. Antes de nos afundarmos na guerra, na destruição do nosso habitat, um grito de euforia breve: Viva o século XXI.

segunda-feira, maio 31, 2010

Allegro

Anda meio mundo a perguntar porque é que Sócrates demorou tanto tempo a apoiar Manuel Alegre - quando se calhar é a coisa mais transparente que ele fez - e ninguém se pergunta outra coisa que é politicamente mais relevante: porque é que ele, não vislumbrando no vate de Coimbra o perfil de Presidente que queria, não tentou criar um perfil presidenciável que tivesse capacidade de corporizar a sua ideia do que deve ser um Presidente? Ou seja, porque é que o seu PS desistiu agora das Presidenciáveis (da mesma forma que se pode dizer que tinha desistido com Mário Soares)? Num contexto de crise financeira internacional Manuel Alegre é cada vez menos confiável até para aquela pequena minoria que revê nele um paradigma cultural que, numa outra situação, gostaría de ver em Belém. E não só para esses. Hoje alguns amigos bloquistas supondo que eu teria finalmente um candidato, telefonaram-me a gozar comigo a perguntar onde é que esteve Alegre no dia 29 de Maio. Não sei se é uma coisa boa ou uma coisa má, os partidos não terem de ter um candidato presidencial em torno do qual se possam galvanizar. Sei é que este entendimento socrático da vida política não está em linha com aquilo que tem sido a prática política do Partido Socialista e está a provocar já alguma discussão. Enquanto isso há também quem, como eu, espere uma (nova) candidatura que possa libertar-nos deste fraco entendimento que os partidos têm do perfil de um Presidente da República.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cidadão satisfeito vale por dois

Eu sei que nestes tempos conturbados não deveria dizer uma coisa destas mas é a verdade, comovo-me com coisas como esta: fui fazer a minha declaração do IRS quase em cima do último dia, é coisa fácil, já vem semi-preenchida, é só colocar as deduções à colecta e dou-me com uma aplicação que me facilita a vida. Para além disso tinha perdido o pdf da minha declaração do ano anterior e num instante encontrei-a na minha área de contribuinte. Ao fim de meia-hora, depois de uma mensagem a dizer que a sua declaração não apresenta erros (ainda me lembro como no início das declarações electrónicas era mais difícil porque elas acabavam sempre por vir com um dado qualquer errado), submeto-a, guardo os pdfs da declaração, da simulação e do comprovativo de entrega numa pasta de ficheiros e saio do computador, a pensar maravilhas da Administração Fiscal.

quinta-feira, maio 20, 2010

Qual é a coisa qual é ela?

Qual é a coisa qual é ela que eu pedi desejando-a mas não a querendo, cuja perspectiva de me concederem me enchia mais de preocupação do que de alegria, e cuja nega que me deram foi afinal um grande alívio e que hoje, ao reavaliarem o processo, e me informarem de que me concediam, eu em vez de pensar que tinha sido uma prenda de anos adiantada, comecei a fazer contas e descobri que estava feito num terrível e cabalístico oito?

domingo, maio 16, 2010

Novas Oportunidades

De repente tornámo-nos num país. Um país a sério, com uma história, uma vontade. Um sentido comunitário. A querermos dar a volta por cima. Sócrates e Passos Coelho talvez apenas tenham tido a sensibilidade política de perceber que não suportaríamos que eles não se dessem conta do que está a passar-se connosco. Bloco, PP e PCP o que irão fazer?

sábado, maio 15, 2010

Despacho: Afixe-se

no Jumento

Uma das razões porque estou optimista em relação à crise que está a montar tenda na tabanka lusitana (para além da que decorre do meu pessimismo anterior sobre o sentido que a nossa vida levava) é a de que ela reacende a minha esperança de que também possa servir de enquadramento para assinalar muitas situações que minam a nossa vida económica e social. Em todos os sectores. Por exemplo, o Estado vai ter de emagrecer, de fazer uma dieta, e essa dieta desta vez, espero, vai ter de passar pela parte de leão que é o resgate de toda a energia e recursos públicos que são gastos para satisfazer esta lógica clientelar da passagem dos partidos pelo exercício do poder público. Todos, sem excepção que, como bem se viu no caso de Ricardo Rodrigues, o corporativismo político é de tal ordem que em certos níveis da vida política há um véu que cobre todos os quadrantes. Sou completamente contra a demagogia que tenta desacreditar a política e, consequentemente, os políticos - no outro dia vi com agrado uma iniciativa de cidadãos a pedir o reforço da participação pública na vida partidária - mas tenho de reconhecer que há muitas situações, e esta foi uma delas, em que são os agentes políticos os principais responsáveis pela desacreditação da vida política. Quando olhamos para a vida laboral no nosso país e verificamos os privilégios laborais que têm os deputados -alguns deles que até seriam justificados e legítimos se não fossem absurdos pelo constraste com o quadro da actividade laboral no país - fazemos uma pergunta: mas que entidade patronal é esta, tão generosa, que consagra para os seus trabalhadores todas estas cláusulas protectoras?, e apercebemo-nos do óbvio: os trabalhadores e a entidade patronal coincidem.
Não só a entidade patronal como os trabalhadores coincidem. Também os recursos que utilizam são observados à luz de uma patologia desresponsabilizadora que afecta a nossa relação com o bem público: é do Estado, portanto é de todos, logo não é de ninguém. Não é justificável, senão à luz do aproveitamento em causa própria, que um trabalhador possa receber uma reforma vitalícia pelo seu trabalho parlamentar ao fim muitos poucos de actividade profissional. Não é justificável, senão segundo o prisma do auto-governo, que um trabalhador possa ao fim de quatro anos de actividade pedir um subsídio de reintegração no mercado de trabalho quando, se essa realidade fosse estudada, a do percurso profissional dos deputados, se veria que grande parte deles têm, na sua breve passagem pela AR, o índice curricular que lhes permitirá uma existência desafogada na longa e pesada máquina estatal.
Não leiam o que não escrevi: eu não disse que a crise económica e financeira que atravessamos vai cuidar de nós. Não. Apenas escrevi que ela pode ser uma excelente oportunidade para isso.

sexta-feira, maio 14, 2010

Agradaram-me as palavras do Papa sobre a IVG. É já tempo de a Igreja perceber que essa ideia de que somos um povo com grandes tradições católicas tem de corresponder a um enorme sentido da sua responsabilidade social com grandes capacidades de influenciar a vida das pessoas ( o uso do preservativo, por exemplo) e que, no caso da Interrupção Voluntária da Gravidez, tem de centrar o seu discurso "no combate às condições sócio económicas que levam as pessoas a abortar" e não na demonização da IGV, dos que a fazem, dos que defendem o direito daqueles que a fazem a fazerem-no nas melhores condições e com o apoio da saúde pública. É claro que as suas posições em relação ao casamento entre homens nos levam a reconhecer que a este nível doutrinário a Igreja talvez só mude para não conflituar com os poderes terrenos que lhe podem fazer frente e que esse aspecto a aproxima demasiado daquela Igreja colaboracionista e cúmplice, de má memória, que nós já cá tivemos. É por isso que aquele prédio devoluto no fim da Rua da Padaria, guardado por arcanjos, esventrado na sua relação com o Céu, a quem já ninguém liga, me pareceu uma metáfora tão perfeita da Igreja de hoje.

Comecemos por falar de austeridade...

"De passagem, esta aceleração das restrições orçamentais deixa uma vítima interna na estrada porque demonstra que para efeitos de contenção orçamental, o ataque ideológico que o governo do PS perpetrou ou deixou perpetrar ao rendimento social de inserção, ao subsídio de desemprego e ao subsídio social de desemprego é totalmente irrelevante e só servia realmente outros fins."
Paulo Pedroso, no Banco Corrido

"É através da cultura que as pessoas sentem a sua dignidade..."

quinta-feira, maio 13, 2010

A imagem, aquilo que uma imagem consegue ser enquanto multiplicação da nossa vida, é algo que me emociona. Paradoxalmente muitas vezes bloqueio o fluxo de imagens, fecho os olhos para me focalizar, tanto que muita gente pensa que adormeci. Sempre que saio de casa tenho o Panteão ao meu lado esquerdo. É a realidade, aquela obra que resultou do investimento público dos nossos antanhos. Gosto de o ver, parece a cúpula de uma Basílica. Mas não me conseguiria emocionar. É o Panteão que tenho do meu lado direito, esse Panteão virtual, projecção de luz, que me guia e emociona. Como se fosse Alice, transponho esse patamar de irrealidade e fico por ali, de costas para o real. Os telemóveis permitem-nos, quotidianamente, montarmos e desfazermos esta emoção. Ainda ouço, "-Pai, pare de ser japonês!", mas não lhe ligo. Estou numa dimensão do espaço-tempo que é infinita, um universo em expansão. À medida que o tempo passa tenho cada vez mais a necessidade de ser honesto comigo e com os que me cercam: a exponencialidade, a multiplicação infinita da matéria - nem que seja precária, bastaria uma pedrada ou uma bolada no vidro para que tudo aquilo desaparecesse - seduz-me muito mais do que esta finitude do real. Tinha escrito que me apaixona e depois revi: seduz-me. É uma sedução que é ar, apercebo-me muitas vezes, depois. Sou ar e terra. É por causa da minha paixão pela finitude do real, que tanto me seduz este fenómeno da multiplicação do real que a imagem opera.
As coisas são o que (não) parecem. A noite é o que (não) parece. É escuridão. Não é esconderijo, nem esconde-esconde. É escuridão. Dizer que a escuridão esconde ou é esconderijo, tocaia, é ideologia. Eu não tenho nada contra a ideologia que se assume na bandeira desfraldada dos ideais que a agitam. O que me cansa é a ideologia disfarçada de ciência, de mundividência humanista, de moral (a)política. Cansa-me porque acho que a maior parte de nós já cá anda cá há tempo suficiente que justificaria que não nos andássemos a enganar uns aos outros. Ontem tive de dar uma volta imensa para voltar para casa. Desci à Rua da Conceição e estava um cordão policial montado até ao Rossio. Lá tive de montar as minhas tamancas e ir apanhar o metro nos Restauradores para conseguir apanhar o outro lado da rua e poder vir para a Graça. Talvez muitas pessoas achem que sou masoquista, mas achei perfeitamente justificado o cordão de segurança e, por mais que fisicamente me incomodasse muito o banho involuntário de multidão, gosto que a minha cidade se ponha assim bonita para receber o Papa, o Dalai Lama, e quem mais por bem vier para nos lembrar que se não pudéssemos de alguma forma transcender a materialidade que nos configura, a nossa vida seria um dó de alma. E mais: mesmo sabendo que grande parte daquele povo de deus que enchia as ruas já trocou as suas orações quotidianas e dominicais por promissórias nas catedrais do Belmiro ou do Jerónimo Martins (Rui Tavares tem hoje um excelente texto onde assinala esta nossa perda de referências religiosas) agrada-me vê-los assim coloridos, floridos com bandeiras distribuídas pelo Correio da Manhã, roubados à violência do dogmatismo, daquele odor bafiento a sacristia. Muitas vezes perante a intolerância e o fanatismo religioso que, felizmente, cada vez menos vamos encontrando, pensamos erradamente que é a devoção a um Deus que os torna tão mesquinhos. Quando, dei-me conta disso ontem, ao pé do MUDE, ao parar um minuto verdadeiro para olhar aquela turba estranha, talvez seja exactamente o contrário: talvez seja esse curvarem-se diante do inmensurável que lhes dê ainda assim, alguma luminosidade. É claro que o Deus a que se curvam é tão mau quanto eles ( e nós) próprios. É um deus da matança, do obscurantismo, um deus que os manda fazer aquilo para que (também) tendem.
É preciso não confundir nem Deus, nem o Criador de Deuses, o Homem, com esse breve momento em que uma pessoa se ajoelha, canta a alegria da vida, se entrega a uma transcendência para a qual também tende.

quarta-feira, maio 12, 2010

Cidinha Campos, One Deputy Show

Dou uma dica para eventuais empresas à procura de negócios chorudos na compra de canais televisivos: primeiro façam uma proposta de compra do canal de cabo da Assembleia da República. A baixo preço, claro, agora que o mais nobre desígnio nacional do equilibrio das contas públicas a todos benze, aquilo vai tornar-se num tédio mortal. Façam uma cara contricta e, para que não vos acusem de loucura, expliquem que a intenção é motivada pelo mais elevado patriotismo e vontade de contribuirem para a descida do défice público. Depois metam-se num voo charter (ela não gosta de luxos nem salamaleques) e voem até Brasília. Marquem encontro com Cidinha Campos e convençam-na de que ela e só ela pode salvar o nosso país. Talvez seja o seu único vício, essa pulsão para isso, ser providencial. Depois é só tratarem da transferência para a nossa Assembleia da República. Dou uma semana para que o share dispare para níveis nunca vistos e os anunciantes façam fila à porta dos vossos escritórios. Uma semana e é para ser prudente. Negócio com projecções de futuro: no Simplex montem uma empresa para a comercialização dos direitos televisivos das intervenções da novel deputada que, passado pouco tempo, três meses, passarão a ser difundidas em canal pago. Até lá, para todos os outros, os vídeos das suas intervenções podem ser saboreados na sua página. Aqui está a reportagem que a RTP fez sobre ela:

terça-feira, maio 11, 2010

Lutoteca

Numa resposta ao jpt acabei, através de um lapso linguístico, por inventar um novo conceito: Lutoteca. Parece-me importante, um lugar onde brincamos com as nossas perdas, para melhor fazermos os nossos lutos. Depois de mim virá a gloriosa consolidação teórica, os manuéis (é o plural de manual, certo?), a plêiade de animadores e animadoras mas em algum momento da blogosfera algum glogleador (espécie que daqui a umas gerações - quando os nossos descendentes vierem já de chip incorporado - se tornará num ser tão estranho como os actuais arquivistas) há-de vir aqui descobrir a origem, o primeiro lugar da proferição do conceito. E eu, por breves momentos, estarei vingado na minha insignificância canina.

Monumento a Bento XVI

Há mais ou menos vinte e seis anos veio a Portugal Ronald Reagan. Fiz parte de um conjunto não muito alargado de pessoas, mas que envolveu - a Barraca, a Mimo Rua Trupe, a Máscara, a Oficina do Grotesco, os Grupos de Teatro de Belas Artes, os Patolas, o CIDAC, Era Nova, Gsal, GAP, A Gaivota, CDPM, Grupo Cultural da Juventude Timor Leste - que organizou um evento cultural de protesto chamado "Um americano em Lisboa". Vinte e seis anos depois sei que uns amigos vão distribuir preservativos como protesto contra as posições da Igreja sobre o uso de contraceptivos. Já não vou, claro. Ganhei massa adiposa, gordura mental. Não posso no entanto deixar de me associar a esta iniciativa e colocar aqui o meu contributo. Este não podem dizer que não vêem.

Pró Bento XVI

Não suporto mais ouvir falar de Bento XVI com desprezo fazendo alusões mais ou menos inconsequentes a um seu passado nazi. É um comportamento que não tem assim tanto respeito pela dignidade da vida humana. Bento XVI foi um cardeal com importante trabalho teológico, tem desenvolvido produção de pensamento próprio e passos importantes no sentido do ecunemismo, e nesse sentido, mesmo para um agnóstico como eu, a sua presença em Portugal deveria poder ser - para além da oportunidade de um diálogo vivo e crítico como o que referir no post anterior - um momento crucial de debate e até, de celebração festiva sobre a imanência, sobre a percepção do que nos transcende e de como essa vivência dessa incompletude nos pode ligar a todos, crentes e não crentes.

Contra Bento XVI : Apupópapa !

Acabei de assinar a petição dos cidadãos pela laicidade . Compreendo o júbilo dos cristãos e católicos com a presença do Papa em Portugal, e certamente que, intimamente, lhe desejo as boas vindas e fico contente por Bento XVI estar entre nós. E também me parece que neste pensar-pronto-a-usar para que muitos nos tentam atirar, as questões mais importantes não são os custos da tolerância de ponto. A questão principal é que, como bem refere a petição, Bento XVI é o chefe de um pequeno estado teocrático no coração da Europa - cujo comportamento nas instâncias internacionais como a ONU desconhecia ser tão lamentável - e o expoente máximo de uma confissão religiosa que, naturalmente - como outros líderes de confissões religiosas - lidera um reino que não é deste mundo finito e material em que vivemos. Ainda há pouco tive de sair do pé da televisão pública. Foi a minha mulher que reparou. Estava com os olhos meio vítreos e catatónicos, a face enrubescida, as mãos trementes, com sinais de intoxicação ideológica acentuados. Bento XVI suspendeu a condição de prós e contras deste imenso ágora da RTP. Todos ali eram a favor. Como se anunciassem, mas pode lá ser-se contra Bento XVI?! Pode, claro que pode. Pode, e em muitos casos deve ser-se, contra aquilo que ele e a sua Igreja representam. O silêncio face aos crimes da pedofilia é apenas a expressão mais recente de uma Igreja que lida mal com o corpo, com a festa da vida e da sexualidade. As posições da Igreja sobre a homossexualidade, sobre a utilização de meios contraceptivos, sobre o papel das mulheres na Igreja, merecem um debate profundo numa sociedade laica e se a Fátima Campos Ferreira fosse a grande jornalista que quer ser tinha-os convidado para o programa. A certa altura disse que ao ler as encíclicas papais tinha ficado supreendida com a forma como Bento XVI utilizava o debate para procurar a solidez do pensamento. Deveria também ela inspirar-se nisso e trazer ao debate a expressão do religioso e do laico. Em vez de parecer moderna dizendo que a visita do papa pode ser acompanhada no facebook, poderia dar-nos conta das brincadeiras facebookiana (será que ainda existe humor) do Miguel Castro Caldas e do Rui Rebelo ou as performances dos promotores do Apupópapa. Ou trazer os representantes do Palco Oriental no Beato, em vésperas de serem despejados pelo Patriarcado de Lisboa depois da acção judicial que esta ganhou. Basta de falar sobre as tradições católicas dos portugueses para justificar o atropelo da mais elementar regra republicana: vivemos num estado laico.
Também não deveria a Igreja aceitar como natural, e ser cúmplice, deste abuso de recursos e silêncios públicos.

segunda-feira, maio 10, 2010

Rir por último

No Escrita em Dia (link aí ao lado) Carlos Narciso escreve sobre um antigo colega seu da RTP que eventualmente se terá suicidado na sequela de uma publicação de alguns brutos (materiais jornalisticos não editados) de reportagens suas. São de facto cenas ridículas, grosseiras, nem mesmo a pena que possamos sentir por José Ladeiras nos impede o riso farto. Independentemente de todas as considerações éticas que se possam fazer sobre isso, uma coisa é certa: é uma canalhice sem limite a publicação de materiais não editados, sem o consentimento dos seus intervenientes e espero bem que os familiares de José Ladeiras tenham a oportunidade de levar a RTP e os Gatos a tribunal pedindo uma choruda indemnização poe esta abusiva utilização deste materiais.

sábado, maio 08, 2010

Bento XVI Superstar

Miserere

Quando estava a trabalhar na reportagem de Miserere, para a Rua de Baixo, encontrei esta entrevista na Pastoral da Cultura. Surpreeendeu-me saber que havia uma Pastoral da Culturae a forma como se dedicava a olhar o trabalho de um grupo e de um encenador que de certa forma, coloca em causa o olhar da Igreja. Já na conversa colectiva que tinhamos tido a seguir ao ensaio de imprensa eu tinha encontrado essa surpreeendente fragilidade em que Cintra se aceitava colocar, expondo-se com grande franqueza, na sua busca pessoal. Tenho pena, que no mercado das cousas culturais, tudo isto passe como se o pudéssemos meter na caixinha minguante da atenção que damos ao teatro, aos objectos teatrais.

O Amolador na Rua do Sol à Graça

sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

O furto dos gravadores na Assembleia

Tive agora a oportunidade, finalmente, de arranjar um pouco de tempo para ir à Sábado ver o vídeo da conversa de Ricardo Rodrigues com os jornalistas da Sábado. Mais um azar, dos alguns azares que, na entrevista, Ricardo Rodrigues confessa ter tido. Tudo isso é menor. A única coisa que eu não compreendo, e isso não é tão menor, é que ele não tenha feito aquilo que era mais simples: ter pedido desculpa aos jornalistas e ter devolvido de imediato os gravadores. Mesmo que neste caso, o deputado e os jornalistas até não estejam num registo agressivo, todos temos atitudes irreflectidas. O problema não são estas, as atitudes irreflectidas. O problema é quando reflectimos sobre as nossas atitudes irreflectidas e em vez de fazermos aquilo que se espera de nós, quando somos deputados da República, quando estamos na casa que representa a República e o povo, tentamos desculpabilizar o que fizemos com o comportamento dos outros. Já agora, além de autor confesso do furto, Ricardo Rodrigues também será tolo? Ele não sabia que estava a ser filmado? Se como disse era uma acção directa para defender os seus direitos e impedir que a conversa que teve saísse cá para fora, porque não levou a câmera? Não nos basta já o que existe sobre Portugal, ainda precisamos de ter este tipo de histórias e a forma como reagimos a elas. Não consigo perceber a aversão que certas pessoas têm a esta pequena palavra: desculpem-me.

domingo, maio 02, 2010

O teu dia

Há-de ser sempre assim. Virei sempre aqui, neste dia, sem tempo para falar senão no tempo que não tenho para falar do que és, do que foste, da forma como sou naquilo que me ensinaste a ser. E talvez este vir assim sem tempo, seja mais uma vez uma forma de fugir ao confronto com tudo isso. É preciso tempo para nos entregarmos. Começo a olhar para dentro, para o tempo que fomos, para o tempo que nos fugiu. O relógio é interior, esse tambor desengonçado e descompassado que trazemos dentro do peito.