segunda-feira, julho 19, 2010

Tempo diegético

O tempo é o que fazemos dele, diz a Cibele, só temos uma vida, acrescenta, pela ordem inversa de chegada, a Cristina. Ando ali a cirandar pelo Calhariz em torno das minhas papelarias preferidas à procura de canetas, quando me dá a vontade de escrever mato-a assim, com canetas, já não tenho saúde para escrever, fico muito ansioso, como se fosse um sapo a rebentar, a minha vida torna-se num inferno, escrever voltará um dia a ser um prazer?, compro-as de vários feitios, eu que quase só escrevo digitalmente ponho-me a catrapiscar canetas, ao lado da minha livraria de estimação há um alfarrabista, a namorar a montra, o Tomás Vasques, ficamos ali a trocar alguns minutos de conversa, o tempo é o que fazemos dele, sabe-me bem este toque-e-foge com ele, não sei porquê, há pessoas que o fazem com aqueles que gostam de gatos, eu é com livros, confio imediatamente numa pessoa que gosta de livros, e depois de termos estado num mesmo blogue as três vezes que o encontrei foram sempre ao pé dos livros, gosto dele, simpatizo tanto com ele que até me dei ao luxo de lhe contar uma pequena fantasia, estou a escrever um romance (ele também tinha um romance, a meio, só que estava parado, por causa da bloga intensa) para o que me havia de dar, poderia ter dito que estava a escrever uma peça de teatro, uma reportagem, uma entrevista, até um conto, para o que me havia de dar?, um romance, eu que já não escrevo, nem na antiga nem na nova ortografia, a escrever um romance, coisa que só fiz quando tinha quinze anos, dos quinze aos dezasseis, fiquei vacinado, e o mais engraçado é que poderá mesmo ser verdade, comecei há dias uma prosa que não se enquadra em nado do que escrevi até agora, ao fim do primeiro capitulo já descobri onde vou passar os meus próximos dias, é numa Lisboa real com a língua de fora, quero dizer, com o imaginário de fora, em termos de cinema deveria ser um argumento engraçado, de repente uma rua real, quase documentário, depois o personagem dobraria a esquina e entraria numa rua imaginária, estou cansado do real mas esse cansaço leva-me para uma vontade de criar um lugar imaginário onde consiga encontrar alguma realidade no real, e isto tem finalmente a ver com o que a Cristina e a Carla disseram, o tempo, o espaço, a vida, é o que construímos nela e só temos uma, biológica, claro, porque de resto somos milionésimamente felinos, temos milhares de vidas, se a circunstância da nossa única vida biológica nos transcende, sabemos lá?, a única coisa tangível é este desdobramento de lugares que a imagem em movimento, a imaginação, consegue produzir. O tempo, como a vida, é um jogo de física quântica: há uma coisa com a sua materialidade de coisa, a sua imposição de coisa, a sua ostentação de coisa, a sua ideologia (encapotada) de coisa. É uma coisa que cansa, que me cansa, pela forma como ela está gasta, exaurida, disponível para a manipulação. Cansa-me enquanto coisa manipulada, e quem diz coisa diz a cidade, os largos, este pedaço de rua que vai do Calhariz à Calçada do Combro, e por isso começo lentamente a deslocar essa coisa do lugar onde ela surge como uma imposição e trago-a, doce, para o local da minha imaginação. A rua do Diário de Notícias deixa de ser a Rua do Diário de Notícias e passa a ser a Rua da Espera, por causa daquele fim de tarde, há mais de vinte anos, em que alguém, teria sido eu?, esperou por uma mulher que nunca apareceu e nunca apareceu porque nunca existiu. O real, o tempo real, é uma chatice pegada!

quinta-feira, julho 15, 2010

o tempo de andar por cá

Um mês quase sem escrever, quase que me pergunto, esta ainda é a minha casa? Outras escritas, outras realidades. Saberei ainda escrever em blogues? E isso interessará para alguma coisa, escrever em blogues. Acabei agora a criação de personagens na Escola Superior de Enfermagem. Quando olho para isso, para estes últimos dezoito anos, para as personagens que vão ficando nas paredes, neles, fico com uma sensação inabitual em mim: a de permanência. Sou mau a permanecer, sempre fui mau a permanecer. Nas relações, nos trabalhos, nos projectos. Fossem ou não a feijões. Ainda no outro dia estava a ver alguns amigos que entretanto se preparam para a reforma, comecei a fazer as contas ao tempo em que estou no meu actual trabalho, catorze anos, e quase que me assustei. É claro que tenho variado muito de sitio, até de actividade, mas catorze anos a ver as mesmas caras, as mesmas histórias, mesmo assumindo que eu já não sou quem era, é um limite arriscado para mim. O trabalho sobre a criação de personagens é algo que me pacifica com a minha própria instabilidade. Afinal, naquilo que interessa, talvez saiba permanecer. Chegou a hora de reflectir mais profundamente sobre esta experiência que é cada vez menos um caminho solitário. Há dezoito anos, em 1992, eu corria da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas onde era aluno, para a Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian, onde era professor e tinha apenas como companheiros mais directos desta aventura a Arlete Abreu (que me convidara) e o Pisco, o Rui Pisco da Máscara Teatro Grupo. As únicas actividades expressivas que havia eram as nossas disciplinas, muito centradas no teatro e na animação sócio-cultural e apenas nesta Escola, fruto da teimosia e da lucidez da Arlete. Hoje a Escola de Enfermagem de Lisboa integra quatro antigas Escolas de Enfermagem e tem na sua oferta pedagógica, opções nas áreas da dança, da plástica, do teatro, do cinema e da animação cultural. Ao longo de dezoito anos também tenho podido clarificar aquilo que posso fazer. Disfarçamo-nos de professores e alunos mas temos de ser um pouco mais do que esse papel que ocupamos na cadeia de transmissão de saberes. Eles não são actores, são enfermeiros, e estão ali porque cuidam de si mesmos, das suas pessoas, do que são enquanto pessoas e aproveitam o curso, as possibilidades que ele lhes oferece, para fazerem um puzzle. Eu também não sou actor ( não serei? começo a duvidar! Acho que nunca o deixamos de ser, por mais que nos reservemos nos palcos que utilizamos para nos expressar), nem em enfermeiro, mas sei o potencial especulativo que o fazer teatral tem, como motor de conhecimento. Organizamos experiências que vão desde a "observação participante" à experimentação com o corpo, com os sentidos, com a voz. Há coisas que o nosso corpo sabe de nós que nós desconhecemos. E é um privilégio assistir assim à magia da revelação. À partilha da reflexão.

quarta-feira, junho 23, 2010

Os posts de verão, mesmo deste roufenho e em tempo de crise, saiem naturalmente para o curtos. É quase que um estou vivo e continuo a apostar nesta ideia de blogo-comunidade. Não me desliguem, não se desliguem. Precisamos dos nossos elos. Talvez em Agosto, se o calor trouxer a lassidão dos tempos de outrora, se escreva mais. Com mais extensão. Os posts longos não são por vezes tão virtuosos como os pequenos telegramas de estio que vamos deixando. Se não tiverem nada de substancial a dizer, acabam por ser uma perda de tempo, quer para quem os escreve, quer para quem os lê. E aí está algo com que deveríamos ser especialmente cuidadosos: o tempo das nossas vidas.

domingo, junho 20, 2010

Lúcia-lima e Hortelã

Fui arrancar a salsa espigada e plantar nova. Depois ajeitei a hortelã trepadeira e as ramadas de lucia-lima. Vim com um cheiro tão pranzenteiroso nas mãos que estou aqui há horas a evitar ir para o duche, como medo que me saia o travo.

Suspeitamos de que...

O tão falado relatório da Comissão de Inquérito que não li, nem tenho tempo para ler, porque assumo que previamente já dei de barato que o seu principal cavalo de batalha, saber se Sócrates sabia do negócio antes de ir ao Parlamento, é possivelmente, verdadeiro. Oficial ou oficiosamente, não me interessa. É por eu achar natural, mesmo antes das resmas de horas e papel da Comissão de Inquérito, que Sócrates pudesse ter conhecimento do negócio que eu não acho nenhuma gravidade - nem nenhum índicio de que houve uma prática abusiva de tentativa de controlo governamental da TVI, o que sim, seria muito grave - no facto de ele puder ter sabido do negócio. Sendo assim tudo se resume a saber se Sócrates mentiu no Parlamento. E saber que o governo poderia ter caído se Passos Coelho tivesse visto nele alguma prova dessa mentira para mim assusta-me quanto ao elevado grau de incapacidade politica que demonstra. É claro que não é só isso: é deixar lavrar o estado larvar da suspeita. Suspeitamos de que, investigamos, findas as investigações, suspeitamos de que.

O adeus a Saramago

Por mais serenidade com que o encaremos, a morte é sempre um sobressalto, uma incomodidade. Sabemos que estamos para isso, quando já cá estamos, vivos. Provavelmente muitos de nós, pelo menos a atermo-nos ao modo como conduzimos as nossas vidas, nunca teria cá posto os pés se pudesse ter escolhido não viver. A morte sendo assim, sempre um sobressalto, também termina o nosso vínculo com aquele corpo com o qual nos passéamos neste, por vezes, cemitério dos vivos. É como um livro que se escreveu. Deixa de ser nosso. Enquanto em vida só privámos com os nossos amigos, com aqueles de quem desejámos o convivío que nos iluminava a nossa própria vida, na morte, estamos vulneráveis a todas as imprevisibilidades da fascinante vida social em que estamos inseridos. Vêm os corvos, os amigos dos corvos, os que fazem da sua vida uma comunhão com os corvos, e todos eles, como nós, na nossa sinceridade, estamos unidos por um sentimento que não sendo verdadeiro, também não consegue ser falso. É aquele espanto que sobrevém sempre, como disse o Gonçalo M. Tavares, quando alguém notável nos deixa. Aquele curvar de cabeça grave e sincero perante o cortejo fúnebre desconhecido, que Manuel da Bandeira imortalizou em poema. Por isso, essa falha do Sr. Silva, a sua ausência, não só é irrelevante como se compagina com aquilo que, sabemos, teria sido a vontade de Saramago. Há uma altura em que o povo não precisa de quem o representa porque vai, ele mesmo, em massa, despedir-se dos seus heróis. Diz-se, não confirmo, que até o próprio Deus tirou o dia e não foi visto pelos Paços do Concelho nem pelo Alto de São João.

sexta-feira, junho 18, 2010

Agendas, Moleskine

Da agenda futebolística aquilo que espero ainda ir a tempo de desfrutar é do quilo de camarão mais a cerveja de pressão, um oferta pingo doce para os adeptos do sofá. Sem vuvuzelas nem outros artifícios. Que gosto de cerveja, imperial, mas como bebo pouco e a espaços, ela só tem graça no primeiro dia, porque depois parece uma água choca deslavada. E como não tenho comprado jornais, desliguei da agenda política também. Eu sei que a direita vem aí, eu sei que a direita gosta de embalar os tempos com o síndrome da crise anunciada para reforçar a sua proverbial providencialidade, mas já me restam poucas dúvidas de que José Sócrates desceu drasticamente os níveis da sua auto-estima e já não tem energia anímica nem para se reinventar politicamente (a possibilidade de ter sido alvo de um assassinato político, partindo de uma complexa articulação de poderes não eleitos, deve continuar a merecer a nossa atenção, mas não confundamos os seus dramas pessoais com os nossos) , quanto mais para liderar a vida de um país que está a braços com uma das piores crises económicas, porque global, a que pude assistir. Quando o vi em imagem de Estado com Ricardo Rodrigues, numa ronda de conversas com os partidos, tive a exacta percepção de um homem que perdeu a noção do que é que cada um de nós espera da política, do Estado. Era assim Cavaco no fim da linha do Cavaquistão. Agarrando-se desesperadamente ao autismo sobre as desgraças que caíam sobre os seus desastrados companheiros de governo soçobrando contra as investidas do Independente. Não percebendo que, montagens e armadilhas jornalísticas àparte, o povo - o demo, essa entidade que oscila entre o demónio, o inferno e a comunidade redentora da nossa melhor vida - necessita de poder acreditar na sua república, na sua democracia e que isso, essa crença, essa disponibilidade, é um dos seus melhores activos. Agendas para que te quero. Agarro-me ao meu moleskine, a duas reportagens que tenho entre mãos, a política é outra coisa, falaremos disso nessa altura, nesse novo tempo.

Lisboa em festa

Nestes últimos quinze dias de Junho a actividade cultural em Lisboa anda num virote. A Agenda da Cidade já não é um guia, é uma tortura de espírito. Como conseguir meter nas 24 horas o Festival do Silêncio, o Próximo Futuro, a animação do Castelo de São Jorge, as Festas de Lisboa, para além dos espectáculos avulsos (e eu, o ArteEscola!Comunidade, onde quase todos os dias grupos escolares e da comunidade vêm ao Trindade apresentar espectáculos)?

Escuroterapia

Ontem, em diálogo interior com o espectáculo de divulgação científica Stupid Design, de David Marçal, que vi no Teatro da Trindade, com um conferencista a propôr uns retiros no deserto onde o visitante, participante entre outras coisas poderia ter sessões de estupidoterapia, o meu cérebro veio, em loop, a fabricar novas terapias. Já era tarde quando chegámos a casa, um pouco mais tarde quando nos dedicámos à off_tv_terapia. Nem CSI_terapia, nem mentescriminosoterapia, nem internetóterapia, nada. Apenas o escuro da sala, o mais brilhante de nós mesmos que pudémos arranjar quando nos dedicámos à trovanteróterapia e à heróisdomarterapia.

quinta-feira, junho 10, 2010

Há muitos anos um amigo meu, cinéfilo de quatro costados, ensinou-me a ver uma ficha técnica. Tudo começou porque ele se manifestou contra aqueles bárbaros que se levantavam da cadeira do cinema logo que a palavra end surgia. Para ele era uma falta de respeito por todos aqueles que estavam envolvidos no filme. E porque eu lhe manifestasse algum estranheza por ele não compreender o aborrecimento do que seria estar sentado diante de um écran a negro onde escorriam dezenas de letras brancas, corridas em grande velocidade, ele explicou-me o que eu poderia ganhar, aguentando mais um pouco na cadeira. E eu agora já sei o que o filme, enquanto processo de fabricação da ficção se revela no correr longo e demorado de uma ficha técnica. Onde podemos perceber também o nível de sofisticação que o cinema atingiu, enquanto produção do imaginário. Ou a compreensão do peso fincanceiro que a indústria do cinema tem. O time code do telemóvel não enganava: tinham sido mais cinco minutos e trinta segundos de filme, que vi, sozinho, no escuro da sala. O que é perturbador é que grande parte da eficácia do cinema enquanto dispositivo de alimentação da nossa sede de imaginário, pode advir da forma como ela oculta o seu processo de fabricação. É claro que poderemos argumentar que não, que o making off é a desocultação do processo de fabricação. Não será assim, insisto. O making off, enquanto ficção sobre a produção do filme, faz, quanto a mim, parte do processo de ocultação que é necessário para que o filme apague as pistas sobre o modo como "ideologicamente" produziu sentido.

O Calceteiro do Princípe Real

Mais um pequeno filme. Os filmes, os objectos criados, são pequenas insignificâncias, claro. O andar pelo real a fazer de conta, não é tão insignificante. Por mais que não fosse, pelo que me ajuda a achar mais suportável, e até fascinante, o outro filme, o da vida.

segunda-feira, junho 07, 2010

Analfabetismo político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Bertold Brecht

domingo, junho 06, 2010

Pastéis de Belém

Há um aspecto no argumento de Paulo Pedroso a que sou bastante sensível: nos próximos tempos vamos ter ou uma convergência política do género de Bloco Central (digo eu, para isso talvez o PS tenha de mudar de líder) ou de bloco PSD/CDS (mais natural e que ainda por cima virá reforçado pela sintonia que irão treinando em relação à candidatura de Cavaco e Silva). Essa perspectiva é um reforço político importante para a valorização da campanha de Manuel Alegre, já que Fernando Nobre surge neste campo com alguma hibridez que não cria de imediato uma imagem clarificada sobre o que irá fazer (e que está a ser bem explorada para o diminuir politicamente). Infelizmente a predominância política que o argumento não a Cavaco instala automaticamente em toda a esquerda, se bem que tenha como positivo o diminuir a mancha abstencionista, pode turvar e enquinar o debate presidencial. Leio aqui a entrevista a Fernando Nobre (que me agradou muito). Não é o meu candidato, não tenho nenhum candidato e por isso pressuponho que a cada nova investida de um dos candidatos poderei balançar na minha inclinação de voto. Nas últimas eleições votei no Manuel Alegre. Agora ainda continuo à espera de uma (nova) candidatura que liberte a candidatura presidencial deste constrangimento político de reduzirmos o papel do Presidente da República aos jogos de equilibrio parlamentar. Faltam seis meses. Os candidatos que subam ao palco e que nos mostrem as suas habilidades e faculdades, ao falarem como os homens-que sonharam-ser-presidentes-da-república-e-que-precisam-de-nos-convencer-que-são-o-nosso-Presidente-de-sonho.

Escrever é ler

.
Leio e escrevo lendo
No espaço livre
Dos versos,
.
Leio no silêncio
Do espaço livre
Dos versos,
.
Leio e escrevo lendo
Os versos
E assim me entendo.
. .
Eduardo Graça, aqui
. [Tinha acabado de escrever no post anterior esta relação que em nós se estabelece entre o escrever e o ler e depois encontro, a propósito de uma pequena exaltação ao Prémio Camões deste ano (o poeta brasileiro Ferreira Cullar) este poema do Eduardo Graça que, pelo que me apercebo, interiorizou este hábito de escrever em diálogo com aquilo que lê. Lembro-me agora também, no encavalitanço que a memória é, de uma conversa tida um dia com Eduardo Prado Coelho num daqueles jantares depois das aulas - foi meu professor de uma disciplina de mestrado que já não sei o que era, recordo apenas o prazer de o ver tecer ideias umas a reboque das outras - em que ele confessava que muitas vezes abandonava a leitura de um livro para se deixar ir no entusiasmo da "escritura". Talvez os seus livros sejam como os do Eduardo, cheios de apontamentos, de diálogos cruzados, a transbordar de uma delicadeza que importa. ]

sábado, junho 05, 2010

Na Rua Nova da Trindade

Uma das razões porque me parecem tão fascinantes estes tempos que vivemos, é a de que a aventura da expressão e da comunicação de repente chegou ao pé da vida de cada um. Claro, com um telemóvel os meus filmes nunca serão filmes como aqueles que vamos ver aos cinemas, as minhas reportagens nunca serão como aquelas reportagens que podermos ver nas televisões mas, tudo contado e relativizado, esse privilégio de me poder abeirar da vida de um outro e de tentar elaborar a partir dele uma estória, é gesto possível não apenas através da artesania da escrita, também a partir da imagem em movimento partilhada nesta feira-franca da expressão que é a blogosfera. Nos anos setenta do século passado alguns dos nossos antecessores inventaram uma fórmula que serviu de leitmotiv a muitas das práticas de animação cultural: ler é escrever. Era a revolta contra o fazer, o fazer, o fazer, essa profusão de fazedorismo que ainda nos arranha a pele. Tudo isso foi necessário para voltarmos à escuta, à urgência de pararmos diante do outro. Entretanto passaram-se muitos anos e já não queremos todos ser artistas. O paradigma mudou: escrever é ler. O criador de filmes que já vem com o programa do computador é rudimentar mas já nos permite brincar no pátio desta ruptura epistemológica. Antes de nos afundarmos na guerra, na destruição do nosso habitat, um grito de euforia breve: Viva o século XXI.

segunda-feira, maio 31, 2010

Allegro

Anda meio mundo a perguntar porque é que Sócrates demorou tanto tempo a apoiar Manuel Alegre - quando se calhar é a coisa mais transparente que ele fez - e ninguém se pergunta outra coisa que é politicamente mais relevante: porque é que ele, não vislumbrando no vate de Coimbra o perfil de Presidente que queria, não tentou criar um perfil presidenciável que tivesse capacidade de corporizar a sua ideia do que deve ser um Presidente? Ou seja, porque é que o seu PS desistiu agora das Presidenciáveis (da mesma forma que se pode dizer que tinha desistido com Mário Soares)? Num contexto de crise financeira internacional Manuel Alegre é cada vez menos confiável até para aquela pequena minoria que revê nele um paradigma cultural que, numa outra situação, gostaría de ver em Belém. E não só para esses. Hoje alguns amigos bloquistas supondo que eu teria finalmente um candidato, telefonaram-me a gozar comigo a perguntar onde é que esteve Alegre no dia 29 de Maio. Não sei se é uma coisa boa ou uma coisa má, os partidos não terem de ter um candidato presidencial em torno do qual se possam galvanizar. Sei é que este entendimento socrático da vida política não está em linha com aquilo que tem sido a prática política do Partido Socialista e está a provocar já alguma discussão. Enquanto isso há também quem, como eu, espere uma (nova) candidatura que possa libertar-nos deste fraco entendimento que os partidos têm do perfil de um Presidente da República.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cidadão satisfeito vale por dois

Eu sei que nestes tempos conturbados não deveria dizer uma coisa destas mas é a verdade, comovo-me com coisas como esta: fui fazer a minha declaração do IRS quase em cima do último dia, é coisa fácil, já vem semi-preenchida, é só colocar as deduções à colecta e dou-me com uma aplicação que me facilita a vida. Para além disso tinha perdido o pdf da minha declaração do ano anterior e num instante encontrei-a na minha área de contribuinte. Ao fim de meia-hora, depois de uma mensagem a dizer que a sua declaração não apresenta erros (ainda me lembro como no início das declarações electrónicas era mais difícil porque elas acabavam sempre por vir com um dado qualquer errado), submeto-a, guardo os pdfs da declaração, da simulação e do comprovativo de entrega numa pasta de ficheiros e saio do computador, a pensar maravilhas da Administração Fiscal.

quinta-feira, maio 20, 2010

Qual é a coisa qual é ela?

Qual é a coisa qual é ela que eu pedi desejando-a mas não a querendo, cuja perspectiva de me concederem me enchia mais de preocupação do que de alegria, e cuja nega que me deram foi afinal um grande alívio e que hoje, ao reavaliarem o processo, e me informarem de que me concediam, eu em vez de pensar que tinha sido uma prenda de anos adiantada, comecei a fazer contas e descobri que estava feito num terrível e cabalístico oito?

domingo, maio 16, 2010

Novas Oportunidades

De repente tornámo-nos num país. Um país a sério, com uma história, uma vontade. Um sentido comunitário. A querermos dar a volta por cima. Sócrates e Passos Coelho talvez apenas tenham tido a sensibilidade política de perceber que não suportaríamos que eles não se dessem conta do que está a passar-se connosco. Bloco, PP e PCP o que irão fazer?

sábado, maio 15, 2010

Despacho: Afixe-se

no Jumento

Uma das razões porque estou optimista em relação à crise que está a montar tenda na tabanka lusitana (para além da que decorre do meu pessimismo anterior sobre o sentido que a nossa vida levava) é a de que ela reacende a minha esperança de que também possa servir de enquadramento para assinalar muitas situações que minam a nossa vida económica e social. Em todos os sectores. Por exemplo, o Estado vai ter de emagrecer, de fazer uma dieta, e essa dieta desta vez, espero, vai ter de passar pela parte de leão que é o resgate de toda a energia e recursos públicos que são gastos para satisfazer esta lógica clientelar da passagem dos partidos pelo exercício do poder público. Todos, sem excepção que, como bem se viu no caso de Ricardo Rodrigues, o corporativismo político é de tal ordem que em certos níveis da vida política há um véu que cobre todos os quadrantes. Sou completamente contra a demagogia que tenta desacreditar a política e, consequentemente, os políticos - no outro dia vi com agrado uma iniciativa de cidadãos a pedir o reforço da participação pública na vida partidária - mas tenho de reconhecer que há muitas situações, e esta foi uma delas, em que são os agentes políticos os principais responsáveis pela desacreditação da vida política. Quando olhamos para a vida laboral no nosso país e verificamos os privilégios laborais que têm os deputados -alguns deles que até seriam justificados e legítimos se não fossem absurdos pelo constraste com o quadro da actividade laboral no país - fazemos uma pergunta: mas que entidade patronal é esta, tão generosa, que consagra para os seus trabalhadores todas estas cláusulas protectoras?, e apercebemo-nos do óbvio: os trabalhadores e a entidade patronal coincidem.
Não só a entidade patronal como os trabalhadores coincidem. Também os recursos que utilizam são observados à luz de uma patologia desresponsabilizadora que afecta a nossa relação com o bem público: é do Estado, portanto é de todos, logo não é de ninguém. Não é justificável, senão à luz do aproveitamento em causa própria, que um trabalhador possa receber uma reforma vitalícia pelo seu trabalho parlamentar ao fim muitos poucos de actividade profissional. Não é justificável, senão segundo o prisma do auto-governo, que um trabalhador possa ao fim de quatro anos de actividade pedir um subsídio de reintegração no mercado de trabalho quando, se essa realidade fosse estudada, a do percurso profissional dos deputados, se veria que grande parte deles têm, na sua breve passagem pela AR, o índice curricular que lhes permitirá uma existência desafogada na longa e pesada máquina estatal.
Não leiam o que não escrevi: eu não disse que a crise económica e financeira que atravessamos vai cuidar de nós. Não. Apenas escrevi que ela pode ser uma excelente oportunidade para isso.

sexta-feira, maio 14, 2010

Agradaram-me as palavras do Papa sobre a IVG. É já tempo de a Igreja perceber que essa ideia de que somos um povo com grandes tradições católicas tem de corresponder a um enorme sentido da sua responsabilidade social com grandes capacidades de influenciar a vida das pessoas ( o uso do preservativo, por exemplo) e que, no caso da Interrupção Voluntária da Gravidez, tem de centrar o seu discurso "no combate às condições sócio económicas que levam as pessoas a abortar" e não na demonização da IGV, dos que a fazem, dos que defendem o direito daqueles que a fazem a fazerem-no nas melhores condições e com o apoio da saúde pública. É claro que as suas posições em relação ao casamento entre homens nos levam a reconhecer que a este nível doutrinário a Igreja talvez só mude para não conflituar com os poderes terrenos que lhe podem fazer frente e que esse aspecto a aproxima demasiado daquela Igreja colaboracionista e cúmplice, de má memória, que nós já cá tivemos. É por isso que aquele prédio devoluto no fim da Rua da Padaria, guardado por arcanjos, esventrado na sua relação com o Céu, a quem já ninguém liga, me pareceu uma metáfora tão perfeita da Igreja de hoje.

Comecemos por falar de austeridade...

"De passagem, esta aceleração das restrições orçamentais deixa uma vítima interna na estrada porque demonstra que para efeitos de contenção orçamental, o ataque ideológico que o governo do PS perpetrou ou deixou perpetrar ao rendimento social de inserção, ao subsídio de desemprego e ao subsídio social de desemprego é totalmente irrelevante e só servia realmente outros fins."
Paulo Pedroso, no Banco Corrido

"É através da cultura que as pessoas sentem a sua dignidade..."

quinta-feira, maio 13, 2010

A imagem, aquilo que uma imagem consegue ser enquanto multiplicação da nossa vida, é algo que me emociona. Paradoxalmente muitas vezes bloqueio o fluxo de imagens, fecho os olhos para me focalizar, tanto que muita gente pensa que adormeci. Sempre que saio de casa tenho o Panteão ao meu lado esquerdo. É a realidade, aquela obra que resultou do investimento público dos nossos antanhos. Gosto de o ver, parece a cúpula de uma Basílica. Mas não me conseguiria emocionar. É o Panteão que tenho do meu lado direito, esse Panteão virtual, projecção de luz, que me guia e emociona. Como se fosse Alice, transponho esse patamar de irrealidade e fico por ali, de costas para o real. Os telemóveis permitem-nos, quotidianamente, montarmos e desfazermos esta emoção. Ainda ouço, "-Pai, pare de ser japonês!", mas não lhe ligo. Estou numa dimensão do espaço-tempo que é infinita, um universo em expansão. À medida que o tempo passa tenho cada vez mais a necessidade de ser honesto comigo e com os que me cercam: a exponencialidade, a multiplicação infinita da matéria - nem que seja precária, bastaria uma pedrada ou uma bolada no vidro para que tudo aquilo desaparecesse - seduz-me muito mais do que esta finitude do real. Tinha escrito que me apaixona e depois revi: seduz-me. É uma sedução que é ar, apercebo-me muitas vezes, depois. Sou ar e terra. É por causa da minha paixão pela finitude do real, que tanto me seduz este fenómeno da multiplicação do real que a imagem opera.
As coisas são o que (não) parecem. A noite é o que (não) parece. É escuridão. Não é esconderijo, nem esconde-esconde. É escuridão. Dizer que a escuridão esconde ou é esconderijo, tocaia, é ideologia. Eu não tenho nada contra a ideologia que se assume na bandeira desfraldada dos ideais que a agitam. O que me cansa é a ideologia disfarçada de ciência, de mundividência humanista, de moral (a)política. Cansa-me porque acho que a maior parte de nós já cá anda cá há tempo suficiente que justificaria que não nos andássemos a enganar uns aos outros. Ontem tive de dar uma volta imensa para voltar para casa. Desci à Rua da Conceição e estava um cordão policial montado até ao Rossio. Lá tive de montar as minhas tamancas e ir apanhar o metro nos Restauradores para conseguir apanhar o outro lado da rua e poder vir para a Graça. Talvez muitas pessoas achem que sou masoquista, mas achei perfeitamente justificado o cordão de segurança e, por mais que fisicamente me incomodasse muito o banho involuntário de multidão, gosto que a minha cidade se ponha assim bonita para receber o Papa, o Dalai Lama, e quem mais por bem vier para nos lembrar que se não pudéssemos de alguma forma transcender a materialidade que nos configura, a nossa vida seria um dó de alma. E mais: mesmo sabendo que grande parte daquele povo de deus que enchia as ruas já trocou as suas orações quotidianas e dominicais por promissórias nas catedrais do Belmiro ou do Jerónimo Martins (Rui Tavares tem hoje um excelente texto onde assinala esta nossa perda de referências religiosas) agrada-me vê-los assim coloridos, floridos com bandeiras distribuídas pelo Correio da Manhã, roubados à violência do dogmatismo, daquele odor bafiento a sacristia. Muitas vezes perante a intolerância e o fanatismo religioso que, felizmente, cada vez menos vamos encontrando, pensamos erradamente que é a devoção a um Deus que os torna tão mesquinhos. Quando, dei-me conta disso ontem, ao pé do MUDE, ao parar um minuto verdadeiro para olhar aquela turba estranha, talvez seja exactamente o contrário: talvez seja esse curvarem-se diante do inmensurável que lhes dê ainda assim, alguma luminosidade. É claro que o Deus a que se curvam é tão mau quanto eles ( e nós) próprios. É um deus da matança, do obscurantismo, um deus que os manda fazer aquilo para que (também) tendem.
É preciso não confundir nem Deus, nem o Criador de Deuses, o Homem, com esse breve momento em que uma pessoa se ajoelha, canta a alegria da vida, se entrega a uma transcendência para a qual também tende.

quarta-feira, maio 12, 2010

Cidinha Campos, One Deputy Show

Dou uma dica para eventuais empresas à procura de negócios chorudos na compra de canais televisivos: primeiro façam uma proposta de compra do canal de cabo da Assembleia da República. A baixo preço, claro, agora que o mais nobre desígnio nacional do equilibrio das contas públicas a todos benze, aquilo vai tornar-se num tédio mortal. Façam uma cara contricta e, para que não vos acusem de loucura, expliquem que a intenção é motivada pelo mais elevado patriotismo e vontade de contribuirem para a descida do défice público. Depois metam-se num voo charter (ela não gosta de luxos nem salamaleques) e voem até Brasília. Marquem encontro com Cidinha Campos e convençam-na de que ela e só ela pode salvar o nosso país. Talvez seja o seu único vício, essa pulsão para isso, ser providencial. Depois é só tratarem da transferência para a nossa Assembleia da República. Dou uma semana para que o share dispare para níveis nunca vistos e os anunciantes façam fila à porta dos vossos escritórios. Uma semana e é para ser prudente. Negócio com projecções de futuro: no Simplex montem uma empresa para a comercialização dos direitos televisivos das intervenções da novel deputada que, passado pouco tempo, três meses, passarão a ser difundidas em canal pago. Até lá, para todos os outros, os vídeos das suas intervenções podem ser saboreados na sua página. Aqui está a reportagem que a RTP fez sobre ela: