domingo, agosto 29, 2010

Como se fosse uma espada...

Logo que acabei de tirar a fotografia e a olhei no écran do telemóvel, pareceu-me que era uma foto de um outro tempo, mais antigo. Não tenho nostalgia das coisas antigas, disse de mim para mim, desculpando-me pelo instante interpelativo que aquele olhar demorou. Há qualquer coisa que eu não sei pensar quando olho esta imagem, a luz magnífica sobre o rio, mesmo num dia assim, encoberto. E este não saber pensar é distinto do sentir que perco a memória de algumas coisas, acontecimentos dispersos de esquecimento ou bloqueamentos com que vou brincando, é da idade, é o alzheimer. Este não saber pensar é mesmo uma indisponibilidade para o pensamento. Estou a ser sincero. Poderia escrever penso que, acho que, na minha opinião, e o texto passaria com a mesma facilidade com que vou soletrando aqui o meu contrabando de ideias. Digo não saber pensar e depois entretenho-me, entretenho-vos com o meu pensamento sobre isso. Mas houve uma pequena pausa. Não sei se repararam. Foi muito pequena no texto, imensa dentro de mim. Deu para correr e esvoaçar sobre toda a minha vida. Dizem que no instante em que morremos a nossa vida passa num segundo por nós como se fosse um filme. O verde, o vermelho, o azul. O cor de laranja, o lilás, o violeta. O castanho da terra. Há cores e cores e arco-íris insensatos e transbordantes na minha pequena história de vida. Uma pequena pausa, minúscula no texto, gigante em mim. Provavelmente esta pequena paragem é como se fosse um ensaio do que uma morte pode ser. Na incapacidade de a pensarmos, à morte, simulamo-la, cada um a seu modo. A mim dá-me para este cinza majestático. As cores que partiram da imagem deixaram-na na sua crueza quase religiosa. Fecho os olhos e comovo-me. É sempre a minha defesa quando o mundo é maior que a minha faculdade de o pensar: fecho os olhos e traço uma linha directa com a matéria corporal que me definee faço-o através de uma emoção que eu não saberia nunca, anatomicamente, localizar. É o meu instante religioso, de magia. Estou a ser sincero. Na insinceridade militante que é escrever, estou a ser o mais verdadeiro que consigo: a imagem a preto e branco do lugar onde julgava que estava antes de uma pausa me arrastar para uma enxurrada de coisas, pessoas, uma enxurrada a sério, de repente a nossa vida torna-se nisto, uma enxurrada indistinta, atravessa-me como se fosse uma espada. E a ferida que faz sara no próprio corte que se transforma numa ponte, num pequeno lugar de passagem.
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quinta-feira, agosto 26, 2010

No dia 28 de Agosto 100 cidades de todo o mundo vão erguer-se contra a lapidação. Sou contra a pena de morte e sendo a lapidação uma forma de condenação à morte, estou absoluta e convictamente contra a lapidação. Não há nenhum relativismo cultural que me coloque o mínimo constrangimento em relação a isso. E se não estiver lá, em pessoa, na Praça de Camões, onde estou quase todos os dias, será só mesmo por causa de uma enorme perguiça cívica de fim de semana de verão, e esse esperguiçar-me não me limita em nada o dizer que estarei lá, em espírito, inequívocamente. Sou também contra a selvajaria com que alguns costumes ancestrais tratam aquilo que convencionam chamar crimes de costumes. Sou também inequivocamente contra a mutilação genital feminina praticada em algumas sociedades humanas. Não há ainda nenhum relativismo cultural que me coloque o mínimo constrangimento em relação a isso.
Se não é nenhum relativismo cultural que me impede de me associar a qualquer luta contra estas práticas de horror - e confesso que o meu apego pela diversidade cultural me leva a zonas limite em relação àquilo com que posso ou não contemporizar - também não seria o facto de não ser muito claro que a bandeira da concentração seja contra a condenação à morte, e não apenas a um determinado tipo de bárbara execução da condenação à morte, que me poderia fazer hesitar em me associar a esta concentração. É claro que eu penso que seria muito mais proveitoso para a luta contra a pena de morte que ela fosse alargada a todos os outros países que a executam, independentemente dos meios que utilizam para a executar. A execução da pena de morte é sempre um acto bárbaro, em qualquer paralelo ou meridiano. É claro também que este associar da selvajaria à República Islâmica do Irão - um regime autoritário e ditatorial onde as garantias de defesa não são plenas - tem uma conotação política inegável, que a seu tempo poderá vir a manifestar-se muito oportuna para a colocação do Irão numa modalidade de eixo do mal mais civilizada e mais adequada e consentânea com a abertura manifestada pela retórica obamista. Isso não afecta em nada a minha posição. Era só o que me faltava ter de me conter na denúncia da barbárie por causa de algum tipo de relativismo político.
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terça-feira, agosto 17, 2010

Chamava-lhe princesa...

Herdei-a do meu pai. Durante os primeiros tempos comecei a escrever nela quando ele não estava em casa ou quando não tinha de fazer serão. Mesmo assim dividia-a com o meu irmão mais velho. Depois tornou-se tão inseparável, que já ficava sempre no meu quarto. Ainda tenho na cabeça o som do correr do carril da máquina. Eu, como em tudo, não tinha bem a noção da força que empregava nos meus gestos. Nunca fui delicado, é um problema meu. As letras não se queixavam logo mas com o tempo começaram a lamentar-se das dores nos costados, a rangerem, a empenarem. Houve mesmo alturas em que uma determinada letra não escrevia. E é claro que aquelas que tombavam primeiro eram sempre as letras mais usadas, as mais necessárias. De quando em vez lá pegava nela e ia a caminho da Av. João XXI para a reparar. A caixa de transporte tinha uma pequena alça e eu sentia-me bem com este efeito de portabilidade da escrita. Como eu disse, não era delicado com ela. Nunca fui aliás delicado com coisa nenhuma. Às vezes inspiro fundo, muito lentamente, como se o ar fosse, camada por camada, encher-me de uma delicadeza enorme capaz de me contaminar o espírito, mas fora isso do ar, e dos truques que as sessões de animação teatral e de yoga me ensinaram, sou denso, pesado, bruto, desajeitado corporalmente. Quando comecei a perceber que a minha voracidade de escrita tornava a minha princesa frágil e macerada, tentei imaginar a delicadeza na ponta dos meus dedos. Comecei a tentar escrever como se tocasse piano. Data daí uma forma de escrever que, fora os modismos que necessariamente contaminam um escrevente com pouca prática, ainda hoje mantenho. Por vezes, dou uma golfada de ar e imagino que escrever é dançar e que dançar é desaparecer do mundo. Cada bater de tecla, torna-se como um passo a passo em direcção ao infinito da coisa, da ex-coisa, da coisa virada pelo avesso da coisa. São muitos raros estes momentos e a maior parte deles, para infelicidade minha, não me apanham a escrever. Em todos eles me lembro: chamava-lhe princesa e foi por causa dela que soube que escrever podia ser uma forma de desaparecer do mundo.

domingo, agosto 15, 2010

Um outro que não eu

É já amanhã que regresso ao trabalho. É um outro, que ainda não conheço, que subirá a rua da misericórdia, entrará na porta de caixa, cumprimentará o porteiro, os meus colegas que já estiverem e galgará as escadarias do teatro, até ao meu posto. É já amanhã.

sexta-feira, agosto 13, 2010

António Pocinho (1958-2010)

em caso de fogo
Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.
Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça (Fenda, 1999)
(copy do blogue da Sarah. Se o realismo, quer dizer, se essa exorbitância do real mandasse nas nossas vidas, eu olharia a foto e diria que tinha a certeza de termos partilhado este mesmo olhar sobre o rio. Não manda. O real não manda quase nada hoje em dia. Ainda bem. Se não confundíamos tudo. As coisas não são as mesmas quando olhadas por um poeta. )

terça-feira, agosto 10, 2010

Gente dentro de mim

Há-de sempre faltar-me duas coisas: família e comunidade. Por vezes quase se misturam. Cultivei-me na solidão e como todas as pessoas cultivadas na solidão vivi sempre na míngua permanente desses dois núcleos humanos. A minha história podia resumir-se pela maneira como, ao longo do tempo, trabalhei esses dois universos de mim. De uma certa forma posso dizer que o fim da adolescência foi também o fim da ideia romântica de solidão. A arte, o teatro, a animação sócio-cultural foi-me fornecendo alimento para o fogaréu comunitário que ardia em mim, muitas vezes sem o perceber, sem dele me dar conta. Em determinados momentos da minha vida o curso da Comuna, o Palco Oriental, os grupos da Esbal, a casa onde escrevíamos nas paredes nos Olivais, foram disso expressão mas só nos trilhos da animação sócio-cultural me fui dando conta do que em mim, e de que maneira, comunidade era raíz. A família também. Quase sempre que reorganizava os meus espaços afectivos, reencontrava uma família à qual me incorporava quase como se fosse orfão de pai e mãe, de irmãos. Com o passar do tempo, e ele, o pequeno rebento que me acompanha, ao me ir pedindo cada vez mais para passar mais tempo com a família é que me fez descobrir o quanto andava a inventar famílias para não olhar, de frente, a minha, com o passar do tempo fui dando cada vez mais importância à minha família de origem. Levo o neto para estar com a avó e aproveito para um reencontro do filho com a sua mãe. Somos árvore, somos raíz, somos ramada estreitando o céu. Dou-me conta disto ali em Sintra, no fim daquela noite magnífica em que discutímos com a incarnação juvenil de Augusto Comte. É de uma forma tranquila que agora resolvo o meu problema familiar. Sinto verdadeiramente o que é fazer parte. Fico ainda com um problema a resolver: a comunidade. Agrada-me a ideia. O caracter irressolúvel da ideia de comunidade sempre me levou a lugares que me constituiram como pessoa. Como, no teatro, o teatro andamento ou, mais recentemente, o altaCena, com quem fiz o meu texto Lugarzinho no Céu.

Ridículo, disse ele

Está uma noite memorável de Verão, ali, em Sintra. Passámos a tarde na praia das maçãs, tínhamos aflorado à praia grande mas a bandeira vermelha e uma língua diminuta de areia fez-nos dar a volta, a das maçãs deve estar amarela, calculamos, estava, banho de espuma, de areia, enrodilhados nas ondas, mas lá para o fim da tarde havíamos de nos vingar todos, dando voos sobre a água, como se fossemos peixes. Agora, já jantámos, cá fora, o tempo ameno ainda, manga curta, conversamos sobre os astros, sobre a ciência, sobre o que sabemos, sobre o que não sabemos. Ele tem cerca de dezasseis anos e nós os quatro, estamos todos nos fins dos quarenta. É um positivista, Comte haveria de gostar de o ouvir, na sua veemência contra a metafísica ou o que está para lá dos fenómenos. Diz que todas as metafísicas, todo o conhecimento não científico é ridículo, pede, de peito aberto, provem-me, provem-me. É difícil não acreditar na juventude assim, penso. Até que lhe digo, tenho uma má notícia para ti R., não é quando todo este conhecimento te conseguir provar que é válido que tu o vais aceitar, é quando descobrires que a ciência não te fornece todas as respostas, quando descobrires que ela pode ser tão ridícula como todas as outras formas de conhecer. E depois fiquei a pensar nisso, na verdade que para mim isso é. Sou o mais céptico dos homens. E quanto mais céptico sou, mais aceito que todos os mundos são possíveis. Todos. O meu agnosticismo tomou conta de todo o meu pensamento, tanto o físico como o metafísico. A única coisa em que acredito é nisto. Numa noite de conversa, num jovem de peito aberto cheio de bravata contra os ridículos do mundo.

domingo, agosto 08, 2010

Os intelectuais e o povo


Jean-Paul Sartre à Renault - 1970
Enviado por ricar_mm. - Noticias em video na hora

Um dia a nossa morte

Não penso muitas vezes na minha morte. Por vezes não lhe posso virar a cara, como ontem, quando fomos ao hospital visitá-lo e o vi, de peito aberto. Tem quase mais quarenta anos do que eu mas ao lado dele estava um homem muito mais novo, da minha idade, com o peito já fechado. Estranhamente o que me aproximou desse homem não foi a proximidade da sua idade com a minha, foi o estar de portátil ligado. Uma das coisas que mais me impressiona nestes lugares é o tédio. Uma televisão ligada num ponto que permite a visibilidade total vai vomitando generalidades. Das oito camas da enfermaria apenas três estão ocupadas. Os quotidianos. Levantar da cama, ir à casa de banho, ao refeitório, sentar na poltrona, sentar na beira da cama. Passar os dias. Dos cuidados intensivos para a enfermaria intermédia, da enfermaria intermédia para a enfermaria, da enfermaria para casa, a convalescença de um pós-operatório tem estas classes que permitem ao doente fragmentar o tédio. É impressionante o quanto os cuidados de saúde estão a mudar. Passados trinta minutos do final da operação veio logo o cirurgião ter connosco, era espanhol, muito simpático, a perguntarmos-nos se éramos a família do senhor V., éramos, explicou tim-tim por tim-tim os passos da operação, o modo como correra, os procedimentos e cuidados a ter, o percurso pós-operatório. Enquanto ele falava nós olhávamos as paredes à procura de uma câmara de tv, aquilo não parecia o filme da saúde em Portugal, mais se diria um daqueles muitos seriados televisivos americanos. E depois nos gestos do dia-a-dia, nos enfermeiros, nos técnicos que passam, nota-se um brio, uma humanidade que convence.
Mas estava a falar da minha morte. Já houve tempos em que tinha como mais recorrente este pensar sobre a morte, sobre a minha morte. Aterrorizava-me a ideia de morrer. Agora já não. É claro que gostava de viver muitos e muitos mais anos mas mentalmente penso em pequenas metas: não gostava de deixar esta vida sem concluir a investigação sobre a escrita teatral que vou começar agora, gostaria também de ter tempo para acabar uma história que comecei há poucas semanas e que poderá vir a ser o primeiro romance que escrevo, de poder fazer a encenação da Evaporação dos Pássaros, de escrever o texto para o espectáculo do Carlos Mendes que ele me pediu, de poder montar o trabalho que propus ao altaCena, de fazer um site com todas as minhas peças, os meus trabalhos, as minhas entrevistas, gostava de conseguir escrever e apresentar um espectáculo de stand-up que comecei a inventar há uns meses, mas isso tudo é mercearia pouca que se avia em dois ou três anos. O que mais me entristece na ideia de que vou morrer, porque aquilo que fiz está feito e não acredito que quando a morte me vier buscar não me encontre sempre com algumas coisas para fazer, é o faltar àqueles que amo.
Principalmente a ele, porque ela já trabalhou muito a perda para saber perceber que não vale a pena zangarmos-nos com o que nos acontece. Ao meu filho ainda acho que é muito cedo para me habituar à ideia de que lhe possa faltar. Sei o que é um filho perder um pai, e eu perdi o meu já na maturidade. No outro dia, ainda estava comigo há uns dois ou três dias das férias comigo, dei com ele assustado, a chorar, ao telefone, pedindo à mãe para o ir buscar. Contou-me depois, costuma sonhar que vão assaltar a casa, matar os seus pais. Queria ir para casa da mãe porque lá está mais habituado a tratar destes assaltos de pânico. Mete-se na cama da mãe e os medos vão-se embora.
"- Há coisas que eu gosto mais de falar com o pai, mas estas coisas eu costumo tratar com a minha mãe!"
Lá arranjámos uma estratégia para sobrevivermos àquela noite. E depois, às outras noites. Falámos muito sobre o medo. Por acaso um dos trabalhos que ele tinha que fazer era inventar uma história. Fizemos dessa história o palco dos seus medos. Foi ele que me propôs:
"- Pai, tenho uma ideia: vou escrever a história de um menino que quando sonho pensa que os seus sonhos são realidade."
Ñem mais. Temos dentro de nós um sistema imunitário não só para os ataques físicos, biológicos, também para os psíquicos. Falei-lhe dos meus medos de infância. Ah! Como é bom e delicioso falarmos, à distância de quarenta anos, dos nossos medos de infância.
"-O Pai também tinha medo que matassem os seus pais? também sonhava com mortes?Expliquei-lhe que sim. Eu tinha um medo terrível de fazer dezoito anos. De ficar sozinho no mundo, sair de casa dos meus pais. Era essa a minha imagem do que era fazer dezoito anos. Em vez de ter a minha mãe e o meu pai à beira da minha cama a darem-me os parabéns e a saudarem o meu primeiro olhar da manhã - e aquela bola de borracha com losângulos negros que fazia parecer ser uma bola de futebol a sério!- tinha os dois, com ar sério, mala feita, a dizerem-me, faz-te à vida, marinheiro, boa sorte. E eu ía para a guerra, para a guerra em África. Foi isso que me ficou de tanto julgamento da bandeira a que assisti, em frente ao Convento de Mafra, das tropas que seguíam para as antigas colónias. E sonhava com mortes claro. Com o ficar sózinho no mundo.
"- Eu às vezes consigo evitar o medo mas outras vezes não, ele fica muito forte, eu vejo mesmo as mortes!"
"- Sabes que isso tem uma coisa boa? Quer dizer que gostas muito de nós e que não nos queres perder.".
Não lhe disse, não me apeteceu, que era também uma forma, uma das muitas oportunidades que ele iria ter de "vivenciar" a nossa morte para se preparar para ela. Abraçámo-nos. A morte, a ideia de que vamos morrer, de que não vamos ficar eternamente a aturarmo-nos um ao outro, uniu-nos num nó cego.

A nova filosofia

Le 1er "Apostrophes" de B.H.Lévy- 27 mai 1977- 3ème partie Enviado por BernardHL. - Ver os videos das celebridades da Rede
Estava à procura de uma coisa sobre Maurice Clavel, filósofo francês do qual me lembrarei sempre da ideia, no Jornal Novo, "A Política amanhã será outra coisa!", e encontrei esta pequena pérola televisiva, que é marcada também pelas presenças de André Glucksmann e Bernard Henry Levy. O documento está dividido em três partes, este é o último. Tinha eu quinze anos.

sábado, agosto 07, 2010

Caso Freeport

Não é a minha praia. E eu, até meio de Agosto estou avençado ao areal. Mas não posso deixar de partilhar este delicioso pedaço da entrevista de uma advogada ligada ao processo. Obrigado Porfírio.

Eu, outra vez, agora cansado da ideologia

Todos os anos por esta altura, abeiro-me de mim. O Verão, as férias, o termos um pouco de tempo para olharmos para nós, para o que fazemos, para o que desejamos e sonhamos, quase que torna inevitável a tarefa introspectiva. Fiz uma caipirinha, através da janela vejo os barcos no rio, deito-me a tirar à sorte, a adivinhar quem sou. Navego à vista tal como as embarcações ali ao fundo. Não tenho palavras redondas nem conversa para entreter bisontes na pradaria. Nem me apetece derreter o meu ânimo, o meu entusiamo - ou, como me dizia o meu padrinho para me testar, para saber se poderia falar à homem comigo, "aquela força que nos vem lá do fundo dos tomates" - num fatalismo de merda. A vida é existência pura e crua. A felicidade e a infelicidade são variantes de uma ideologia que agora desprezo. Não querem dizer nada para além do comércio ideológico que celebram. A alegria, a tristeza, a própria melancolia, talvez não, talvez não sejam apenas isso, talvem consigam sobreviver ao discurso-sobre-todas-as-coisas-vivas e ser energia, a nossa energia. Tudo o que consegue escapar à ideologia, à morte de mundo que a linguagem é, pode ainda valer a pena. A violência por exemplo. Deveremos falar de novo na violência. Construímos cidades armadilhadas pela violência contida. O corpo policial não me sossega. Ou só me sossega enquanto não nos bater à porta e não nos disser que aquela porra do vinte e cinco de abril era uma fábula para entreter meninos. Estou cada vez mais violento por dentro. Não falo do terrorismo. Não me é indiferente que o mundo esteja cada vez mais repleto de filhos da puta a comerem-se uns aos outros, a comerem as ideias que sempre fui acalentando na cabeça de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária. Mas não sou deus nem tenho alguma pretensão de fazer que sou. O meu único acto verdadeiramente terrorista é escrever, pensar. Deus, se for esse ser tão misericordioso e justo que os crentes adoram, quando os chamar à sua presença tratará do assunto. O terrorismo é mais do mesmo. Se nem aos vinte anos tive alguma sedução intelectual por ele, não seria agora, quase aos cinquenta, que iria achar-lhe alguma inteligência no gesto, no porte. E não será a promiscuidade entre a moralidade, a política e a mentalidade que me farão alterar essa posição. Viro a minha violência do avesso. Olharmo-nos ao espelho, no reflexo da calçada e percebermos o ser-em-acção-de-transformação que é aquele que se olha, se recria, se inventa no olhar de um outro, a quem, no delírio implosivo deste gesto de mudar-se, chama amante - ou aquele que ama, aquele que é amado - é de uma violência inaudita. Estou cada vez mais violento por dentro. Contra mim. Por vezes já nem me reconheço. E não é uma questão de peso, de barriga, de todas aquelas marcas da idade que nos indispoêm com o espelho. É outra coisa. É o mudar. Há um repente de serenidade, de tranquilidade e esse repente vai-se instalando, sorrateiro. Foi-se a revolta, o instalar na relação com a outra pessoa o sistema de dominação, subordinação. Com quarenta e oito anos não conheci nenhuma casa que não tivesse, para além de janelas, uma porta da rua. A arquitectura das relações, dos afectos, é cada vez mais a ciência de uma liberdade constituida pelo levantamento identitário. O que nos faz permanecer é a vontade e a vontade ilumina-se com a forma como aceitamos esta violência de nos transformarmos para, como se construíssemos um ninho, acolhermos o outro dentro de nós. Nós, os homens, tendo a tendência para pensar a nossa existência psíquica a partir da nossa morfologia, da nossa fisicalidade, não estamos muitas vezes preparados para a ideia de acolhermos dentro de nós. Todo o espectáculo masculino, as manifestações, os fenómenos, é virado para a exterioridade, para a protuberância, e a exuberância, do falo erecto. Se um homem diz entra dentro de mim, parece um jogo de linguagem. É por isso que a acção transformadora de um homem ou de uma mulher no ninho um do outro é tão violenta. A aventura humana, e a experiência construiram-se no mito da perda de identidade. Temos medo de nos perdermos, de nos despersonalizarmos. O amor é o culminar de toda a violência do mundo.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Todos os dias

Todos os dias. No verão todos os dias contam. Todos os dias tendem para a transcendência em relação a uma qualquer espécie de infinito. Lembro-me disso em Altura, em Carcavelos, na Ericeira, em Santa Cruz, no Moledo, na Figueira, em S. Pedro do Sul, na Nazaré, na Costa da Caparica, lembro-me disso em menino, em adolescente, em jovem, em homem, agora na meia idade, é uma memória farta de episódios, peripécias. Estive quase a pensar que isso não seria possível na Foz do Arelho. Consegui-me habituar àquele areal que nos esfrega os pés, numa esfoliação obrigatória. Ou à rispidez das águas do mar, bandeira amarela e vermelha, e água nem sempre transparente da praia da lagoa. Mas o que me custava era aquele povo-povão, aqueles povos duros e ásperos do norte que trazem pára-ventos, chapéus de sol, lancheiras, cadeiras de lona e que falam muito alto, que têm calções de banho antigos, peles brancas, que deixam os seus restos espalhados pelo areal. Há muito que me deixei de me preocupar pela incongruência de uma sedução intelectual pelo popular conviver com este desprezo arrogante por estas manifestações existenciais do povo-povão. É verdade que eu não me identifico com o que eles querem, é bem certo que a forma como se projectam na comunidade não coincide com a minha, é muito claro que para mim que os seus valores não são os meus, mas a verdade é que na minha imagem de árvore, as minhas raízes são também, metade de mim, as destes povos de vida ríspida do Norte. Descendo de um cruzamento entre uma família da pequena burguesia de uma cidade da raia alentejana e uma família muito humilde do Minho. O meu pai, o filho varão, por ter seguido os estudos religiosos, teve a oportunidade de se formar na Universidade de Fribourg, mas os seus dois irmãos têm a escolaridade básica dos tempos do Estado Novo. Um deles viveu muito tempo numa ilha da cidade do Porto até comprar uma casa camarária, e a outra fez toda a sua vida de trabalho na pequena vila onde os três nasceram. E era isso que me custava. Olhava aqueles povos duros, ásperos, naquela imagem estereotipada dos acampamentos popularuchos e não me queria reconhecer assim. Nem saía do hotel onde estava, um lugar sobranceiro a toda a praia. Estive lá fechado três dias, a observar. Vistos deste modo, lá de cima, em miniatura, estes povos de vida ríspida do Norte eram parecidos com todos os outros. Foram assim, nesse incómodo reconhecimento, os meus últimos dias de Julho. No primeiro de Agosto, esteve muito mau tempo e aproveitei, com o frio, para fazer uma abordagem psicoterapêutica sobre as minhas origens. Consegui finalmente dirigir-me até cá abaixo, à praia. Vinha disposto a tudo. Mas, suprendentemente, não encontrei sinais deste povoléu que tanto me incomodava, principalmente por pôr a nu os meus preconceitos. Na Foz do Arelho os povos de Agosto são muito mais cosmopolitas que os de Julho, concluí.

segunda-feira, julho 19, 2010

Tempo diegético

O tempo é o que fazemos dele, diz a Cibele, só temos uma vida, acrescenta, pela ordem inversa de chegada, a Cristina. Ando ali a cirandar pelo Calhariz em torno das minhas papelarias preferidas à procura de canetas, quando me dá a vontade de escrever mato-a assim, com canetas, já não tenho saúde para escrever, fico muito ansioso, como se fosse um sapo a rebentar, a minha vida torna-se num inferno, escrever voltará um dia a ser um prazer?, compro-as de vários feitios, eu que quase só escrevo digitalmente ponho-me a catrapiscar canetas, ao lado da minha livraria de estimação há um alfarrabista, a namorar a montra, o Tomás Vasques, ficamos ali a trocar alguns minutos de conversa, o tempo é o que fazemos dele, sabe-me bem este toque-e-foge com ele, não sei porquê, há pessoas que o fazem com aqueles que gostam de gatos, eu é com livros, confio imediatamente numa pessoa que gosta de livros, e depois de termos estado num mesmo blogue as três vezes que o encontrei foram sempre ao pé dos livros, gosto dele, simpatizo tanto com ele que até me dei ao luxo de lhe contar uma pequena fantasia, estou a escrever um romance (ele também tinha um romance, a meio, só que estava parado, por causa da bloga intensa) para o que me havia de dar, poderia ter dito que estava a escrever uma peça de teatro, uma reportagem, uma entrevista, até um conto, para o que me havia de dar?, um romance, eu que já não escrevo, nem na antiga nem na nova ortografia, a escrever um romance, coisa que só fiz quando tinha quinze anos, dos quinze aos dezasseis, fiquei vacinado, e o mais engraçado é que poderá mesmo ser verdade, comecei há dias uma prosa que não se enquadra em nado do que escrevi até agora, ao fim do primeiro capitulo já descobri onde vou passar os meus próximos dias, é numa Lisboa real com a língua de fora, quero dizer, com o imaginário de fora, em termos de cinema deveria ser um argumento engraçado, de repente uma rua real, quase documentário, depois o personagem dobraria a esquina e entraria numa rua imaginária, estou cansado do real mas esse cansaço leva-me para uma vontade de criar um lugar imaginário onde consiga encontrar alguma realidade no real, e isto tem finalmente a ver com o que a Cristina e a Carla disseram, o tempo, o espaço, a vida, é o que construímos nela e só temos uma, biológica, claro, porque de resto somos milionésimamente felinos, temos milhares de vidas, se a circunstância da nossa única vida biológica nos transcende, sabemos lá?, a única coisa tangível é este desdobramento de lugares que a imagem em movimento, a imaginação, consegue produzir. O tempo, como a vida, é um jogo de física quântica: há uma coisa com a sua materialidade de coisa, a sua imposição de coisa, a sua ostentação de coisa, a sua ideologia (encapotada) de coisa. É uma coisa que cansa, que me cansa, pela forma como ela está gasta, exaurida, disponível para a manipulação. Cansa-me enquanto coisa manipulada, e quem diz coisa diz a cidade, os largos, este pedaço de rua que vai do Calhariz à Calçada do Combro, e por isso começo lentamente a deslocar essa coisa do lugar onde ela surge como uma imposição e trago-a, doce, para o local da minha imaginação. A rua do Diário de Notícias deixa de ser a Rua do Diário de Notícias e passa a ser a Rua da Espera, por causa daquele fim de tarde, há mais de vinte anos, em que alguém, teria sido eu?, esperou por uma mulher que nunca apareceu e nunca apareceu porque nunca existiu. O real, o tempo real, é uma chatice pegada!

quinta-feira, julho 15, 2010

o tempo de andar por cá

Um mês quase sem escrever, quase que me pergunto, esta ainda é a minha casa? Outras escritas, outras realidades. Saberei ainda escrever em blogues? E isso interessará para alguma coisa, escrever em blogues. Acabei agora a criação de personagens na Escola Superior de Enfermagem. Quando olho para isso, para estes últimos dezoito anos, para as personagens que vão ficando nas paredes, neles, fico com uma sensação inabitual em mim: a de permanência. Sou mau a permanecer, sempre fui mau a permanecer. Nas relações, nos trabalhos, nos projectos. Fossem ou não a feijões. Ainda no outro dia estava a ver alguns amigos que entretanto se preparam para a reforma, comecei a fazer as contas ao tempo em que estou no meu actual trabalho, catorze anos, e quase que me assustei. É claro que tenho variado muito de sitio, até de actividade, mas catorze anos a ver as mesmas caras, as mesmas histórias, mesmo assumindo que eu já não sou quem era, é um limite arriscado para mim. O trabalho sobre a criação de personagens é algo que me pacifica com a minha própria instabilidade. Afinal, naquilo que interessa, talvez saiba permanecer. Chegou a hora de reflectir mais profundamente sobre esta experiência que é cada vez menos um caminho solitário. Há dezoito anos, em 1992, eu corria da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas onde era aluno, para a Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian, onde era professor e tinha apenas como companheiros mais directos desta aventura a Arlete Abreu (que me convidara) e o Pisco, o Rui Pisco da Máscara Teatro Grupo. As únicas actividades expressivas que havia eram as nossas disciplinas, muito centradas no teatro e na animação sócio-cultural e apenas nesta Escola, fruto da teimosia e da lucidez da Arlete. Hoje a Escola de Enfermagem de Lisboa integra quatro antigas Escolas de Enfermagem e tem na sua oferta pedagógica, opções nas áreas da dança, da plástica, do teatro, do cinema e da animação cultural. Ao longo de dezoito anos também tenho podido clarificar aquilo que posso fazer. Disfarçamo-nos de professores e alunos mas temos de ser um pouco mais do que esse papel que ocupamos na cadeia de transmissão de saberes. Eles não são actores, são enfermeiros, e estão ali porque cuidam de si mesmos, das suas pessoas, do que são enquanto pessoas e aproveitam o curso, as possibilidades que ele lhes oferece, para fazerem um puzzle. Eu também não sou actor ( não serei? começo a duvidar! Acho que nunca o deixamos de ser, por mais que nos reservemos nos palcos que utilizamos para nos expressar), nem em enfermeiro, mas sei o potencial especulativo que o fazer teatral tem, como motor de conhecimento. Organizamos experiências que vão desde a "observação participante" à experimentação com o corpo, com os sentidos, com a voz. Há coisas que o nosso corpo sabe de nós que nós desconhecemos. E é um privilégio assistir assim à magia da revelação. À partilha da reflexão.

quarta-feira, junho 23, 2010

Os posts de verão, mesmo deste roufenho e em tempo de crise, saiem naturalmente para o curtos. É quase que um estou vivo e continuo a apostar nesta ideia de blogo-comunidade. Não me desliguem, não se desliguem. Precisamos dos nossos elos. Talvez em Agosto, se o calor trouxer a lassidão dos tempos de outrora, se escreva mais. Com mais extensão. Os posts longos não são por vezes tão virtuosos como os pequenos telegramas de estio que vamos deixando. Se não tiverem nada de substancial a dizer, acabam por ser uma perda de tempo, quer para quem os escreve, quer para quem os lê. E aí está algo com que deveríamos ser especialmente cuidadosos: o tempo das nossas vidas.

domingo, junho 20, 2010

Lúcia-lima e Hortelã

Fui arrancar a salsa espigada e plantar nova. Depois ajeitei a hortelã trepadeira e as ramadas de lucia-lima. Vim com um cheiro tão pranzenteiroso nas mãos que estou aqui há horas a evitar ir para o duche, como medo que me saia o travo.

Suspeitamos de que...

O tão falado relatório da Comissão de Inquérito que não li, nem tenho tempo para ler, porque assumo que previamente já dei de barato que o seu principal cavalo de batalha, saber se Sócrates sabia do negócio antes de ir ao Parlamento, é possivelmente, verdadeiro. Oficial ou oficiosamente, não me interessa. É por eu achar natural, mesmo antes das resmas de horas e papel da Comissão de Inquérito, que Sócrates pudesse ter conhecimento do negócio que eu não acho nenhuma gravidade - nem nenhum índicio de que houve uma prática abusiva de tentativa de controlo governamental da TVI, o que sim, seria muito grave - no facto de ele puder ter sabido do negócio. Sendo assim tudo se resume a saber se Sócrates mentiu no Parlamento. E saber que o governo poderia ter caído se Passos Coelho tivesse visto nele alguma prova dessa mentira para mim assusta-me quanto ao elevado grau de incapacidade politica que demonstra. É claro que não é só isso: é deixar lavrar o estado larvar da suspeita. Suspeitamos de que, investigamos, findas as investigações, suspeitamos de que.

O adeus a Saramago

Por mais serenidade com que o encaremos, a morte é sempre um sobressalto, uma incomodidade. Sabemos que estamos para isso, quando já cá estamos, vivos. Provavelmente muitos de nós, pelo menos a atermo-nos ao modo como conduzimos as nossas vidas, nunca teria cá posto os pés se pudesse ter escolhido não viver. A morte sendo assim, sempre um sobressalto, também termina o nosso vínculo com aquele corpo com o qual nos passéamos neste, por vezes, cemitério dos vivos. É como um livro que se escreveu. Deixa de ser nosso. Enquanto em vida só privámos com os nossos amigos, com aqueles de quem desejámos o convivío que nos iluminava a nossa própria vida, na morte, estamos vulneráveis a todas as imprevisibilidades da fascinante vida social em que estamos inseridos. Vêm os corvos, os amigos dos corvos, os que fazem da sua vida uma comunhão com os corvos, e todos eles, como nós, na nossa sinceridade, estamos unidos por um sentimento que não sendo verdadeiro, também não consegue ser falso. É aquele espanto que sobrevém sempre, como disse o Gonçalo M. Tavares, quando alguém notável nos deixa. Aquele curvar de cabeça grave e sincero perante o cortejo fúnebre desconhecido, que Manuel da Bandeira imortalizou em poema. Por isso, essa falha do Sr. Silva, a sua ausência, não só é irrelevante como se compagina com aquilo que, sabemos, teria sido a vontade de Saramago. Há uma altura em que o povo não precisa de quem o representa porque vai, ele mesmo, em massa, despedir-se dos seus heróis. Diz-se, não confirmo, que até o próprio Deus tirou o dia e não foi visto pelos Paços do Concelho nem pelo Alto de São João.

sexta-feira, junho 18, 2010

Agendas, Moleskine

Da agenda futebolística aquilo que espero ainda ir a tempo de desfrutar é do quilo de camarão mais a cerveja de pressão, um oferta pingo doce para os adeptos do sofá. Sem vuvuzelas nem outros artifícios. Que gosto de cerveja, imperial, mas como bebo pouco e a espaços, ela só tem graça no primeiro dia, porque depois parece uma água choca deslavada. E como não tenho comprado jornais, desliguei da agenda política também. Eu sei que a direita vem aí, eu sei que a direita gosta de embalar os tempos com o síndrome da crise anunciada para reforçar a sua proverbial providencialidade, mas já me restam poucas dúvidas de que José Sócrates desceu drasticamente os níveis da sua auto-estima e já não tem energia anímica nem para se reinventar politicamente (a possibilidade de ter sido alvo de um assassinato político, partindo de uma complexa articulação de poderes não eleitos, deve continuar a merecer a nossa atenção, mas não confundamos os seus dramas pessoais com os nossos) , quanto mais para liderar a vida de um país que está a braços com uma das piores crises económicas, porque global, a que pude assistir. Quando o vi em imagem de Estado com Ricardo Rodrigues, numa ronda de conversas com os partidos, tive a exacta percepção de um homem que perdeu a noção do que é que cada um de nós espera da política, do Estado. Era assim Cavaco no fim da linha do Cavaquistão. Agarrando-se desesperadamente ao autismo sobre as desgraças que caíam sobre os seus desastrados companheiros de governo soçobrando contra as investidas do Independente. Não percebendo que, montagens e armadilhas jornalísticas àparte, o povo - o demo, essa entidade que oscila entre o demónio, o inferno e a comunidade redentora da nossa melhor vida - necessita de poder acreditar na sua república, na sua democracia e que isso, essa crença, essa disponibilidade, é um dos seus melhores activos. Agendas para que te quero. Agarro-me ao meu moleskine, a duas reportagens que tenho entre mãos, a política é outra coisa, falaremos disso nessa altura, nesse novo tempo.

Lisboa em festa

Nestes últimos quinze dias de Junho a actividade cultural em Lisboa anda num virote. A Agenda da Cidade já não é um guia, é uma tortura de espírito. Como conseguir meter nas 24 horas o Festival do Silêncio, o Próximo Futuro, a animação do Castelo de São Jorge, as Festas de Lisboa, para além dos espectáculos avulsos (e eu, o ArteEscola!Comunidade, onde quase todos os dias grupos escolares e da comunidade vêm ao Trindade apresentar espectáculos)?

Escuroterapia

Ontem, em diálogo interior com o espectáculo de divulgação científica Stupid Design, de David Marçal, que vi no Teatro da Trindade, com um conferencista a propôr uns retiros no deserto onde o visitante, participante entre outras coisas poderia ter sessões de estupidoterapia, o meu cérebro veio, em loop, a fabricar novas terapias. Já era tarde quando chegámos a casa, um pouco mais tarde quando nos dedicámos à off_tv_terapia. Nem CSI_terapia, nem mentescriminosoterapia, nem internetóterapia, nada. Apenas o escuro da sala, o mais brilhante de nós mesmos que pudémos arranjar quando nos dedicámos à trovanteróterapia e à heróisdomarterapia.

quinta-feira, junho 10, 2010

Há muitos anos um amigo meu, cinéfilo de quatro costados, ensinou-me a ver uma ficha técnica. Tudo começou porque ele se manifestou contra aqueles bárbaros que se levantavam da cadeira do cinema logo que a palavra end surgia. Para ele era uma falta de respeito por todos aqueles que estavam envolvidos no filme. E porque eu lhe manifestasse algum estranheza por ele não compreender o aborrecimento do que seria estar sentado diante de um écran a negro onde escorriam dezenas de letras brancas, corridas em grande velocidade, ele explicou-me o que eu poderia ganhar, aguentando mais um pouco na cadeira. E eu agora já sei o que o filme, enquanto processo de fabricação da ficção se revela no correr longo e demorado de uma ficha técnica. Onde podemos perceber também o nível de sofisticação que o cinema atingiu, enquanto produção do imaginário. Ou a compreensão do peso fincanceiro que a indústria do cinema tem. O time code do telemóvel não enganava: tinham sido mais cinco minutos e trinta segundos de filme, que vi, sozinho, no escuro da sala. O que é perturbador é que grande parte da eficácia do cinema enquanto dispositivo de alimentação da nossa sede de imaginário, pode advir da forma como ela oculta o seu processo de fabricação. É claro que poderemos argumentar que não, que o making off é a desocultação do processo de fabricação. Não será assim, insisto. O making off, enquanto ficção sobre a produção do filme, faz, quanto a mim, parte do processo de ocultação que é necessário para que o filme apague as pistas sobre o modo como "ideologicamente" produziu sentido.

O Calceteiro do Princípe Real

Mais um pequeno filme. Os filmes, os objectos criados, são pequenas insignificâncias, claro. O andar pelo real a fazer de conta, não é tão insignificante. Por mais que não fosse, pelo que me ajuda a achar mais suportável, e até fascinante, o outro filme, o da vida.

segunda-feira, junho 07, 2010

Analfabetismo político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Bertold Brecht

domingo, junho 06, 2010

Pastéis de Belém

Há um aspecto no argumento de Paulo Pedroso a que sou bastante sensível: nos próximos tempos vamos ter ou uma convergência política do género de Bloco Central (digo eu, para isso talvez o PS tenha de mudar de líder) ou de bloco PSD/CDS (mais natural e que ainda por cima virá reforçado pela sintonia que irão treinando em relação à candidatura de Cavaco e Silva). Essa perspectiva é um reforço político importante para a valorização da campanha de Manuel Alegre, já que Fernando Nobre surge neste campo com alguma hibridez que não cria de imediato uma imagem clarificada sobre o que irá fazer (e que está a ser bem explorada para o diminuir politicamente). Infelizmente a predominância política que o argumento não a Cavaco instala automaticamente em toda a esquerda, se bem que tenha como positivo o diminuir a mancha abstencionista, pode turvar e enquinar o debate presidencial. Leio aqui a entrevista a Fernando Nobre (que me agradou muito). Não é o meu candidato, não tenho nenhum candidato e por isso pressuponho que a cada nova investida de um dos candidatos poderei balançar na minha inclinação de voto. Nas últimas eleições votei no Manuel Alegre. Agora ainda continuo à espera de uma (nova) candidatura que liberte a candidatura presidencial deste constrangimento político de reduzirmos o papel do Presidente da República aos jogos de equilibrio parlamentar. Faltam seis meses. Os candidatos que subam ao palco e que nos mostrem as suas habilidades e faculdades, ao falarem como os homens-que sonharam-ser-presidentes-da-república-e-que-precisam-de-nos-convencer-que-são-o-nosso-Presidente-de-sonho.

Escrever é ler

.
Leio e escrevo lendo
No espaço livre
Dos versos,
.
Leio no silêncio
Do espaço livre
Dos versos,
.
Leio e escrevo lendo
Os versos
E assim me entendo.
. .
Eduardo Graça, aqui
. [Tinha acabado de escrever no post anterior esta relação que em nós se estabelece entre o escrever e o ler e depois encontro, a propósito de uma pequena exaltação ao Prémio Camões deste ano (o poeta brasileiro Ferreira Cullar) este poema do Eduardo Graça que, pelo que me apercebo, interiorizou este hábito de escrever em diálogo com aquilo que lê. Lembro-me agora também, no encavalitanço que a memória é, de uma conversa tida um dia com Eduardo Prado Coelho num daqueles jantares depois das aulas - foi meu professor de uma disciplina de mestrado que já não sei o que era, recordo apenas o prazer de o ver tecer ideias umas a reboque das outras - em que ele confessava que muitas vezes abandonava a leitura de um livro para se deixar ir no entusiasmo da "escritura". Talvez os seus livros sejam como os do Eduardo, cheios de apontamentos, de diálogos cruzados, a transbordar de uma delicadeza que importa. ]