domingo, outubro 17, 2010
A Verdade e a Política
terça-feira, outubro 12, 2010
Mês a mês
segunda-feira, setembro 13, 2010
O meu dia 13
domingo, agosto 29, 2010
Como se fosse uma espada...
Logo que acabei de tirar a fotografia e a olhei no écran do telemóvel, pareceu-me que era uma foto de um outro tempo, mais antigo. Não tenho nostalgia das coisas antigas, disse de mim para mim, desculpando-me pelo instante interpelativo que aquele olhar demorou. Há qualquer coisa que eu não sei pensar quando olho esta imagem, a luz magnífica sobre o rio, mesmo num dia assim, encoberto. E este não saber pensar é distinto do sentir que perco a memória de algumas coisas, acontecimentos dispersos de esquecimento ou bloqueamentos com que vou brincando, é da idade, é o alzheimer. Este não saber pensar é mesmo uma indisponibilidade para o pensamento. Estou a ser sincero. Poderia escrever penso que, acho que, na minha opinião, e o texto passaria com a mesma facilidade com que vou soletrando aqui o meu contrabando de ideias. Digo não saber pensar e depois entretenho-me, entretenho-vos com o meu pensamento sobre isso. Mas houve uma pequena pausa. Não sei se repararam. Foi muito pequena no texto, imensa dentro de mim. Deu para correr e esvoaçar sobre toda a minha vida. Dizem que no instante em que morremos a nossa vida passa num segundo por nós como se fosse um filme. O verde, o vermelho, o azul. O cor de laranja, o lilás, o violeta. O castanho da terra. Há cores e cores e arco-íris insensatos e transbordantes na minha pequena história de vida. Uma pequena pausa, minúscula no texto, gigante em mim. Provavelmente esta pequena paragem é como se fosse um ensaio do que uma morte pode ser. Na incapacidade de a pensarmos, à morte, simulamo-la, cada um a seu modo. A mim dá-me para este cinza majestático. As cores que partiram da imagem deixaram-na na sua crueza quase religiosa. Fecho os olhos e comovo-me. É sempre a minha defesa quando o mundo é maior que a minha faculdade de o pensar: fecho os olhos e traço uma linha directa com a matéria corporal que me definee faço-o através de uma emoção que eu não saberia nunca, anatomicamente, localizar. É o meu instante religioso, de magia. Estou a ser sincero. Na insinceridade militante que é escrever, estou a ser o mais verdadeiro que consigo: a imagem a preto e branco do lugar onde julgava que estava antes de uma pausa me arrastar para uma enxurrada de coisas, pessoas, uma enxurrada a sério, de repente a nossa vida torna-se nisto, uma enxurrada indistinta, atravessa-me como se fosse uma espada. E a ferida que faz sara no próprio corte que se transforma numa ponte, num pequeno lugar de passagem.
quinta-feira, agosto 26, 2010
terça-feira, agosto 17, 2010
Chamava-lhe princesa...
Herdei-a do meu pai. Durante os primeiros tempos comecei a escrever nela quando ele não estava em casa ou quando não tinha de fazer serão. Mesmo assim dividia-a com o meu irmão mais velho. Depois tornou-se tão inseparável, que já ficava sempre no meu quarto. Ainda tenho na cabeça o som do correr do carril da máquina. Eu, como em tudo, não tinha bem a noção da força que empregava nos meus gestos. Nunca fui delicado, é um problema meu. As letras não se queixavam logo mas com o tempo começaram a lamentar-se das dores nos costados, a rangerem, a empenarem. Houve mesmo alturas em que uma determinada letra não escrevia. E é claro que aquelas que tombavam primeiro eram sempre as letras mais usadas, as mais necessárias. De quando em vez lá pegava nela e ia a caminho da Av. João XXI para a reparar. A caixa de transporte tinha uma pequena alça e eu sentia-me bem com este efeito de portabilidade da escrita. Como eu disse, não era delicado com ela. Nunca fui aliás delicado com coisa nenhuma. Às vezes inspiro fundo, muito lentamente, como se o ar fosse, camada por camada, encher-me de uma delicadeza enorme capaz de me contaminar o espírito, mas fora isso do ar, e dos truques que as sessões de animação teatral e de yoga me ensinaram, sou denso, pesado, bruto, desajeitado corporalmente. Quando comecei a perceber que a minha voracidade de escrita tornava a minha princesa frágil e macerada, tentei imaginar a delicadeza na ponta dos meus dedos. Comecei a tentar escrever como se tocasse piano. Data daí uma forma de escrever que, fora os modismos que necessariamente contaminam um escrevente com pouca prática, ainda hoje mantenho. Por vezes, dou uma golfada de ar e imagino que escrever é dançar e que dançar é desaparecer do mundo. Cada bater de tecla, torna-se como um passo a passo em direcção ao infinito da coisa, da ex-coisa, da coisa virada pelo avesso da coisa. São muitos raros estes momentos e a maior parte deles, para infelicidade minha, não me apanham a escrever. Em todos eles me lembro: chamava-lhe princesa e foi por causa dela que soube que escrever podia ser uma forma de desaparecer do mundo.
domingo, agosto 15, 2010
Um outro que não eu
sexta-feira, agosto 13, 2010
António Pocinho (1958-2010)
em caso de fogo
Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.
Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
terça-feira, agosto 10, 2010
Gente dentro de mim
Ridículo, disse ele
domingo, agosto 08, 2010
Um dia a nossa morte
A nova filosofia
sábado, agosto 07, 2010
Caso Freeport
Eu, outra vez, agora cansado da ideologia
Todos os anos por esta altura, abeiro-me de mim. O Verão, as férias, o termos um pouco de tempo para olharmos para nós, para o que fazemos, para o que desejamos e sonhamos, quase que torna inevitável a tarefa introspectiva. Fiz uma caipirinha, através da janela vejo os barcos no rio, deito-me a tirar à sorte, a adivinhar quem sou. Navego à vista tal como as embarcações ali ao fundo. Não tenho palavras redondas nem conversa para entreter bisontes na pradaria. Nem me apetece derreter o meu ânimo, o meu entusiamo - ou, como me dizia o meu padrinho para me testar, para saber se poderia falar à homem comigo, "aquela força que nos vem lá do fundo dos tomates" - num fatalismo de merda. A vida é existência pura e crua. A felicidade e a infelicidade são variantes de uma ideologia que agora desprezo. Não querem dizer nada para além do comércio ideológico que celebram. A alegria, a tristeza, a própria melancolia, talvez não, talvez não sejam apenas isso, talvem consigam sobreviver ao discurso-sobre-todas-as-coisas-vivas e ser energia, a nossa energia. Tudo o que consegue escapar à ideologia, à morte de mundo que a linguagem é, pode ainda valer a pena. A violência por exemplo. Deveremos falar de novo na violência. Construímos cidades armadilhadas pela violência contida. O corpo policial não me sossega. Ou só me sossega enquanto não nos bater à porta e não nos disser que aquela porra do vinte e cinco de abril era uma fábula para entreter meninos. Estou cada vez mais violento por dentro. Não falo do terrorismo. Não me é indiferente que o mundo esteja cada vez mais repleto de filhos da puta a comerem-se uns aos outros, a comerem as ideias que sempre fui acalentando na cabeça de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária. Mas não sou deus nem tenho alguma pretensão de fazer que sou. O meu único acto verdadeiramente terrorista é escrever, pensar. Deus, se for esse ser tão misericordioso e justo que os crentes adoram, quando os chamar à sua presença tratará do assunto. O terrorismo é mais do mesmo. Se nem aos vinte anos tive alguma sedução intelectual por ele, não seria agora, quase aos cinquenta, que iria achar-lhe alguma inteligência no gesto, no porte. E não será a promiscuidade entre a moralidade, a política e a mentalidade que me farão alterar essa posição. Viro a minha violência do avesso. Olharmo-nos ao espelho, no reflexo da calçada e percebermos o ser-em-acção-de-transformação que é aquele que se olha, se recria, se inventa no olhar de um outro, a quem, no delírio implosivo deste gesto de mudar-se, chama amante - ou aquele que ama, aquele que é amado - é de uma violência inaudita. Estou cada vez mais violento por dentro. Contra mim. Por vezes já nem me reconheço. E não é uma questão de peso, de barriga, de todas aquelas marcas da idade que nos indispoêm com o espelho. É outra coisa. É o mudar. Há um repente de serenidade, de tranquilidade e esse repente vai-se instalando, sorrateiro. Foi-se a revolta, o instalar na relação com a outra pessoa o sistema de dominação, subordinação. Com quarenta e oito anos não conheci nenhuma casa que não tivesse, para além de janelas, uma porta da rua. A arquitectura das relações, dos afectos, é cada vez mais a ciência de uma liberdade constituida pelo levantamento identitário. O que nos faz permanecer é a vontade e a vontade ilumina-se com a forma como aceitamos esta violência de nos transformarmos para, como se construíssemos um ninho, acolhermos o outro dentro de nós. Nós, os homens, tendo a tendência para pensar a nossa existência psíquica a partir da nossa morfologia, da nossa fisicalidade, não estamos muitas vezes preparados para a ideia de acolhermos dentro de nós. Todo o espectáculo masculino, as manifestações, os fenómenos, é virado para a exterioridade, para a protuberância, e a exuberância, do falo erecto. Se um homem diz entra dentro de mim, parece um jogo de linguagem. É por isso que a acção transformadora de um homem ou de uma mulher no ninho um do outro é tão violenta. A aventura humana, e a experiência construiram-se no mito da perda de identidade. Temos medo de nos perdermos, de nos despersonalizarmos. O amor é o culminar de toda a violência do mundo.quarta-feira, agosto 04, 2010
Todos os dias
terça-feira, julho 27, 2010
segunda-feira, julho 19, 2010
Tempo diegético
quinta-feira, julho 15, 2010
o tempo de andar por cá
quarta-feira, junho 23, 2010
domingo, junho 20, 2010
Lúcia-lima e Hortelã
Suspeitamos de que...
O adeus a Saramago
sexta-feira, junho 18, 2010
Agendas, Moleskine
Lisboa em festa
Escuroterapia
quinta-feira, junho 10, 2010
Há muitos anos um amigo meu, cinéfilo de quatro costados, ensinou-me a ver uma ficha técnica. Tudo começou porque ele se manifestou contra aqueles bárbaros que se levantavam da cadeira do cinema logo que a palavra end surgia. Para ele era uma falta de respeito por todos aqueles que estavam envolvidos no filme. E porque eu lhe manifestasse algum estranheza por ele não compreender o aborrecimento do que seria estar sentado diante de um écran a negro onde escorriam dezenas de letras brancas, corridas em grande velocidade, ele explicou-me o que eu poderia ganhar, aguentando mais um pouco na cadeira. E eu agora já sei o que o filme, enquanto processo de fabricação da ficção se revela no correr longo e demorado de uma ficha técnica. Onde podemos perceber também o nível de sofisticação que o cinema atingiu, enquanto produção do imaginário. Ou a compreensão do peso fincanceiro que a indústria do cinema tem. O time code do telemóvel não enganava: tinham sido mais cinco minutos e trinta segundos de filme, que vi, sozinho, no escuro da sala. O que é perturbador é que grande parte da eficácia do cinema enquanto dispositivo de alimentação da nossa sede de imaginário, pode advir da forma como ela oculta o seu processo de fabricação. É claro que poderemos argumentar que não, que o making off é a desocultação do processo de fabricação. Não será assim, insisto. O making off, enquanto ficção sobre a produção do filme, faz, quanto a mim, parte do processo de ocultação que é necessário para que o filme apague as pistas sobre o modo como "ideologicamente" produziu sentido.
