terça-feira, novembro 23, 2010

Greve Geral, não obrigado

Aproxima-se a greve geral. Estou dividido entre a minha percepção da realidade e a construção social da realidade que, em diferentes níveis, me envolve.
1. A mesma revolta. Partilho da revolta daqueles que, justamente, sentem que são os rendimentos do seu trabalho que vão financiar o esforço que o Estado tem de fazer para diminuir o défice das contas públicas. Como partilho da revolta daqueles que, justamente, sentem que o enfraquecimento das políticas sociais, os fragiliza numa altura em que mais precisavam delas. Fico também preocupado quando vejo que o IVA vai subir. Partilho também da revolta, e da mais profunda estupefacção, quando vejo que, só para não pagarem os impostos devidos em 2011, há uma corrida aos dividendos por parte de empresas públicas. Ou quando vejo os inúmeros casos de uma gestão perdulária, insensível, e até criminosa, face ao interesse público que, partindo de todos os lados, inunda as nossas caixas de correio, os nossos facebooks, os nossos blogues (seja o assessor a,b,c ou d, seja o veículo anti-motim, sejam os submarinos, sejam as festas e os festins, as cerimónias e as honrarias). E não tenho dúvidas de que grande parte do caudal que vai fazer greve no dia 24 será por pessoas que se sentem revoltadas com as situações que atrás descrevi. E se assim é, porque é que, assumindo este ponto de vista, não irei estar com eles?
2. As bandeiras da greve geral. Não sou economista nem me vou fazer agora economista à pressa. Embora, como todos nós, me tente socorrer (é por isso que eu louvo aqui tantas vezes o Geoscópio) de informação, sei que as minhas reflexões são, neste campo, muito frágeis.
Mas, se bem percebo os motivos da greve geral, e eu de facto tentei encontrar aqui e ali expressões que me ajudassem a perceber porque é que as pessoas iam fazer greve , eles vão , em primeiro lugar contra a forma como, no próximo ano, o OGE vai agravar a vida dos portugueses mais desfavorecidos. Desfavorecimento que sentem que é feito em linha com os benefícios quer daqueles que têm mais rendimentos e que não os declaram, quer daqueles que têm privilégios e isenções nos impostos(o caso escandaloso da Banca, que soma lucros fabulosos). Outro objectivo que encontrei transversal, em toda a gente com quem falei, é a de que eles são um protesto contra a forma como temos sido governados. Esta frase"como temos sido governados" tem uma espectro político muito amplo o que permite incluir aqueles que acham que este Governo não presta, aqueles que acham que qualquer governo saído da alternância política que está instalada no poder desde o 25 de Abril, nomeadamente, a do grande centrão, não presta, e aqueles também que acham que todos os políticos, socialistas, comunistas, centristas, sociais-democratas, bloquistas, verdes, não prestam. Não é retórica. São as coisas que as pessoas com quem falei me disseram.
3. O OGE de 2001. O OGE é um orçamento mau para a economia, dos portugueses. Esta é uma ideia quase consensual à direita e à esquerda do PS. Dentro do próprio PS, e para além da discussão e revolta que o orçamento sectorial para a área da Cultura significou (cujos cortes não estão em linha com aquilo que são os cortes do OGE) também será mais ou menos consensual que este orçamento não é bom para a economia dos portugueses. E se assim é, a primeira questão que se coloca é: porque é que este governo fez um orçamento mau para a economia dos portugueses?
Sem dúvida que há um crescente número de pessoas que responderá imediatamente que é porque o governo não presta. No BE, o PP, o PSD, o PCP, na CGTP, será a resposta mais consensual. E não surpreenderá ninguém. A minha questão é: porque é que cada vez mais pessoas que votaram neste governo, concordam que este é um mau orçamento para a economia dos portugueses? E porque é que o Governo de José Sócrates, mesmo na óptica dos que o apoiam, fez um mau orçamento para a economia dos portugueses?
Antes disso há que lembrar uma das ideias que o debate pré-orçamento dramatizou até à exaustão: um mau orçamento será sempre melhor do que a inexistência de um orçamento.
Ou seja, sendo suportado por uma maioria relativa no parlamento, nunca se configurou que este orçamento pudesse ser bom. Ele esteve sempre no limbo entre ser mau ou o ser péssimo, ou seja, por duodécimos. E creio que toda a gente reconhece que, mesmo sendo um mau orçamento para a economia dos portugueses, ele é um melhor orçamento depois da negociação com o PSD. Quer dizer, nem toda a gente. Mesmo que reconheçam que sim, que pode ser menos gravoso para a economia dos portugueses, provavelmente vão pensar que é pior, porque suportado politicamente numa maioria parlamentar capaz de o viabilizar. Para esses, um bom mau orçamento teria sido sempre um orçamento que morresse no Parlamento.
Se o OGE 2011 é mau para a economia dos portugueses, e por isso tantos ódios internos suscita, a verdade é que externamente, naquele tal plano onde a nossa economia tanto se tem degradado nos últimos tempos, ele tem angariado aplausos e congratulações e pode vir a ser fundamental para voltar a credibilizá-la, o que se tornaria bom para a nossa economia. Que estranho que isto é! Um orçamento que é mau para a economia dos portugueses, poderá vir a servir para credibilizar a economia portuguesa no exterior, sendo que dessa credibilização, todos o sabemos, poderemos nós todos vir a obter dividendos?!
O que remete para uma questão final sobre o orçamento: poderia este Governo - mesmo na estrita lógica dos que, de uma forma geral, o apoiam - fazer um bom orçamento para a economia dos portugueses que fosse simultaneamente um bom orçamento para credibilizar externamente a nossa economia?
Tendo até agora, de uma forma geral, apoiado este governo, devo dizer que não acredito nisso. E não acredito por várias razões.
A primeira é a de que um orçamento que credibilizasse externamente a nossa economia deveria propor medidas que, num espaço de um ano, garantissem a diminuição do deficit nacional. Como o fazer de uma forma eficaz, apenas num só exercício orçamental? Sem reduzir na despesa pública só pelo aumento das receitas. Ora quer o aumento das exportações, quer o aumento da receita fiscal através de uma maior eficácia da máquina fiscal são, num quadro recessivo, medidas que não convenceriam ninguém. A diminuição da despesa do Estado, é, no mesmo ambiente recessivo, um cenário que, para além da cosmética, não é controlável apenas num exercício orçamental. Toda a gente sabe isso. A componente da despesa que fornece mais garantias de um resultado imediato na redução da despesa pública são os salários da administração pública, é o IVA, o IRS, a diminuição de apoios sociais.
A segunda grande razão é a de que quer os nossos rendimentos do trabalho, quer os rendimentos das empresas, estão estruturados de uma forma injusta e desigual. Ou seja, não é possível fazer um Orçamento que proponha cortes nos salários que seja justa quando a estrutura salarial do país é injusta, desigual e reflecte a irresponsabilidade social com que vivemos em comunidade. Tudo isso tem a ver (lá sou eu a tentar valorizar a Cultura) com uma ideia cultural atamancada de não reconhecimento de cada um numa comunidade maior, que depois, nos seus múltiplos aspectos leva à desresponsabilização e à não comparticipação de muitos na economia da comunidade e não se regula nem por decreto nem se materializa num só ano.
A terceira razão para eu pensar que, mesmo reconhecendo qualidades no trabalho governativo, este Governo não tinha capacidade para fazer um Orçamento para 2011 que fosse simultaneamente um bom Orçamento para a economia dos portugueses e para o relançamento económico externo do País, é porque ele está em franco declínio. Não só é um governo em quebra acentuada de popularidade, em que o seu líder tem sido sistematicamente abatido politicamente (hoje é quase um dogma político em muitos sectores políticos e sociais dizer-se, com ar pio e contricto, que José Sócrates é um aldrabão, um incompetente, um vigarista mesmo que, até agora, todos os processos judiciais em que foi envolvido não tenham concretizado nenhuma acusação contra ele), como um governo sustentado por uma maioria relativa que na Assembleia da República (pela convergência entre PSD, PP, PCP e BE na critica ao Governo) se transformou as mais das vezes numa minoria.
Como é que um Governo nestas condições poderia ter a força e a capacidade para fazer de um orçamento, que seria sempre um orçamento de crise, portanto um orçamento que frusta expectativas, um orçamento que a comunidade aceitasse como necessário e até, um bom mau orçamento?
4. As alternativas. Sempre que se fala da má forma como este orçamento promove o corte na despesa pública - o que já vimos, é verdade - toda a gente apresenta alternativas. A primeira era taxar o capitalismo financeiro, os bancos, as fortunas, os ricos que não contribuem, as empresas públicas que fogem com dividendos. E depois, a segunda grande medida, era desengordurar o Estado, e para isso apresentam exemplos, os tais emails, as mensagens no facebook, os ficheiros ppt que circulam pela internet. Falam como se fosse assim tão fácil como ir ao Concurso Peso Certo, passar uns meses a tratamento rigoroso e, onde antes havia um ser amorfo, pesado, morbidamente obeso, colocar um jovem garboso, musculado.
É claro que devemos reduzir a gordura na despesa pública. Mas todos sabemos que esse é um lado da despesa que não é facilmente controlado. E pior do que isso, cuja concretização pode não ter o grau de eficácia que se necessita, muito menos no horizonte de um ano. Podem fazer-se as listas mais abrangentes de proposta de extinção dos organismos públicos, direcções gerais, observatórios, altas-autoridades, podem cortar-se em gastos de exercício, ou no que a nossa imaginação e bom senso nos sugerir. Uma coisa é certa: o tempo de execução dessas medidas, o impacto que elas possam ter a montante noutros custos do Estado, é de molde a fazer perigar qualquer esforço sério de contenção da despesa pública.
Todas as alternativas que tenho ouvido são boas, umas melhores que outras é certo, mas quase todas elas tem um problema: umas não são executáveis durante um ano, outras não são executáveis por um governo fragilizado.
Nem relevo a circunstância de muitas destas medidas alternativas não serem de boa fé. Cabe na cabeça de alguém que um sindicato que se dispõe numa altura destas a fazer uma greve geral porque, contra aquilo que lhe tinha sido prometido, há uma redução salarial, possa propor medidas de desengorduramento do Estado que acarretem o despedimento massivo de trabalhadores? Ou alguém está a pensar que o desengorduramento do Estado seja apenas conseguido com o despedimento daqueles assessores pagos principescamente com cujas histórias, diariamente, nos anestesiam?
5. Cultura da responsabilidade. Não saímos deste beco onde estamos atolados todos, e não só nós enquanto país, a Zona Euro está toda sobre o mesmo céu de incerteza, se não começarmos a desenvolver uma cultura de responsabilidade. Em vez dos culpados são eles, é, qual é a minha responsabilidade? Eu começo desde já por assumir uma: ajudei a eleger este Governo do Partido Socialista. E não estou arrependido. Tenho até grandes dúvidas de que, individualmente, outra qualquer força política governasse melhor num cenário de crise como aquela em que vivemos. Eu ainda me lembro de como a tripla Durão, Portas e Manuela Ferreira Leite salvou o país da bancarrota socialista. Quanto à esquerda, a esquerda do PS tem sido bem o retrato do escorpião que vai matando e queimando tudo à sua volta. Precisamos de novos lideres, precisamos de novos movimentos políticos, precisamos de novos líderes sindicais (já viram a forma como eles se eternizam no cargo? As nossas democracias vivem pejadas destas bolsas anti-democráticas que concorrem para o fracasso do sistema de representação.) precisamos principalmente de novos governados. De uma outra cultura da governação e do poder.
O país já está em greve geral. Há medida que fui acabando o meu texto, fui percebendo que não tinha nenhuma razão substantiva para aderir à greve. Era algo que eu já pressentia mas que me custava admitir. Há no direito à greve, no seu exercício um complemento de solidariedade e de romantismo que estão presentes no caldo humanista em que me formei. Pelo que tenho visto em meu redor há uma mobilização convicta de pessoas que pensam que estão a combater o grande capital, as injustiças e as desigualdades sociais, este (des) governo, todas as formas de (des)governo. Eu não penso, tenho de divergir neste ponto. Não posso no entanto deixar aqui um desejo: que haja sol amanhã quando os manifestantes descerem do Marquês para a Av. da Liberdade. As ruas cheias de pessoas, um país parado, merecem o calor de uma tarde tisnada pelo sol. Nem que seja o sol das nossas vidas.

sábado, novembro 20, 2010

A desigualdade e a injustiça

Há muito que ando a adiar esta conversa com ele. Explicar-lhe a desigualdade e a injustiça. Temo sempre que ainda não seja o tempo adequado. Hoje, não sei se por causa da proximidade com a greve geral, se por causa desta Cimeira da Nato e da repressão da liberdade de expressão que ocorreu, pensei que seria o momento mais oportuno. Já caía a noite na rua, abri a janela para o chamar. Cá em baixo brincava com os seus novos amigos. Dois rapazes e uma rapariga. Um dos rapazes é bastante mais novo do que todos os outros. Estavam a jogar às escondidas. O mais pequeno contava. Um, dois, três, quatro, cinco...até dez. Não sabia mais. Contava duas vezes. Os outros, entretanto, escondiam-se. Quando acabava a contagem, o mais pequeno tentava descobrir os outros. Descobriu o meu filho. Que nem fez muito esforço para se esconder. Mas o mais pequeno não foi ao muro dizer o seu nome, bater com a mão e dá-lo como morto. O mesmo aconteceu com todos os outros. Que se riam a bandeiras despregadas do mais pequeno a quem não tinham ensinado bem as regras. E retomaram o jogo, uma, duas, três vezes. É claro que o mais pequeno ficou sempre a apanhar os outros. Fechei a janela. Acho que cheguei tarde, demasiado tarde para lhe explicar o que é a desigualdade e a injustiça. Devia ter começado mais cedo.

quinta-feira, novembro 18, 2010

O tempo não existe

Há medida que crescemos, muda a nossa relação com o tempo. E, simultaneamente, a nossa relação com a morte. O tempo é um brinquedo demasiado complexo para o sabermos entender com dez, vinte, trinta anos. É claro que sem isso não conseguíriamos viver. Seria insuportável. Há um desconhecimento do tempo que nos permite agir. Estamos certos em não percebermos o tempo. Mas depois, chega uma hora emque tudo se desfaz. Como se um torrão de areia se esbroasse. Percebemos então que em cada grão de tempo que escorre na ampulheta estão agrilhoados, em estado de libertação, pelo menos, 3 tempos: o tempo que é, o tempo que não é, e o tempo que poderia ser. E digo pelo menos três tempos porque é isso mesmo que podemos perceber. Todos os outros tempos, como por exemplo o cósmico, esses, não os atingimos ainda.

Bobby McFerrin & Maria Joao

Comove-me isto. Expressão e diálogo artísticos misturados com a brincadeira de quem respira música por todos os poros.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Trava-tempo

Ontem descobriu que, aqui na nova casa, ao fim de semana, há crianças que vêm visitar os avós e que podem ser amigos novos. Três rapazes e uma rapariga. Fez como fazem todas as crianças. Levou uma bola para a rua e ao fim de cinco minutos já estavam todos a dar pontapés nela. No fim, quando chegou cá acima, perguntei-lhe pelos nomes deles:

- É o Vicente, o Mário...e o outro não me lembro.

- Faz um esforço.

- Era o Filipe.

- E a rapariga?- insisti.

- A rapariga,pai?!

- Não te lembras do nome da rapariga?

- Claro que não, pai.

Sorri com este trava-tempo. Daqui a uns anos irá lá abaixo e, quando voltar, só o nome da Mariazinha será eterno nas árvores do jardim da Feira da Ladra.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

O dia dos meus mortos é também o dia da minha vida

Podia ser um poema. Não é. É uma coincidência. Há três anos que coincide. Há três anos que no dia em que esse carreirrinho de talvezes em que nos tornámos (era assim que o Armindo S. escrevia, em o Balancé de Eus) caminha para os cemitérios, para as campas, para os túmulos, para os jazigos, nós os dois procuramos o mar, seja lá onde for que ele se encontre. Procuramos o mar, o silêncio, até aquele frio do vento em Novembro. Faz bem à pele o vento cortante do primeiro de Novembro, dia em que os nossos mortos hão-de esperar, pacientemente, a sua vez. Há uma vida por viver.

O Mito, passo a passo

Foi um momento especial na excelência de conteúdos do jornalismo em directo. Cavaco Silva estava lá dentro da sua sede de campanha e o jornalista cá fora. Tinha entrado por uma porta, o jornalista indicou-nos uma porta ainda coberta por papéis - ele que também andava, literalmente, aos papéis - iria sair por outra, e o jornalista - a excelência de conteúdos a quanto obriga! - indicou-nos também a porta por onde presumivelmente Cavaco sairia. Entre isso houve nada porque nada havia para dizer, porque nada Cavaco queria dizer, porque nada o jornalista conseguiu apurar. Na noite negra da excelência de conteúdos o momento in da noite ainda foi o jornalista a cerrar os olhos e a partir para outra. Em directo.

domingo, outubro 17, 2010

A Verdade e a Política

Estão tempos tramados para a expressão de quem acreditou no trabalho deste governo e do Partido Socialista. Dou uma vista de olhos pelas páginas de alguns amigos e apercebo-me disso. Não vale a pena baralharmo-nos com a incapacidade de Passos Coelho. A governação de Sócrates foi eleita como o grande desastre (e o trabalho, agora percebe-se, criterioso e permanente, do seu desgaste político mais ajuda ao descrédito (até eu quando olho para o seu nariz já o associo, instintivamente, ao Pinóquio) e torna-se insensato opôr outras ordens de razão. É no entanto nestes momentos que é mais terrível a demagogia e não poderemos libertarmo-nos dela enquanto não descobrirmos qual a responsabilidade que o nosso modo de estar na comunicação a propicia, a estimula.
Se queremos a verdade, preparemo-nos para ela.

terça-feira, outubro 12, 2010

Mês a mês

farol

Ao menos isso nesta posta quase renegada: o post mensal é feito de vontade. Passa-se o tempo e começa a crescer em mim a vontade de não ficar pela meia dúzia de linhas facebookianas. Mês a mês a situação política degrada-se. E os países ricos e pobres da Europa com as suas crises financeiras, estão virados para dentro de si mesmos. O facto de estarmos virados para dentro de nós mesmos quer dizer que estamos menos atentos à dinâmica global do mundo mas não quer dizer que esta pare. "- Parem o mundo que eu quero olhar para o meu umbigo!". Não é assim que as coisas se passam. Os jornais do mundo perderam o interesse. O próprio Irão, o Afeganistão, a Coreia do Norte, o Paquistão, a Al-Quaeda, todos os lugares e todas as forças que para nós desafiam a paz do mundo, deixaram de existir. E estes eram os que nos assustavam. Os outros, os que nos comovem, os refugiados, os exilados, os sem terra, sem pátria, sem que comer, sem que se vestir, as crianças desvalidas de qualquer tipo de sorte ou fortuna, esses, aguardam vez no guichet do mundo e da sua política. Só por arrogância nossa é que poderemos pensar que por não lhes darmos importância, eles deixaram de existir. O mundo não deixou de ser global. Nós é que deixámos de ser capazes de o pensar globalmente, excepto na santa aliança dos mercados financeiros com as divídas públicas e privadas.
E mesmo assim, todos os dias, são dias. O sol acorda ali no mar da palha e quando se deita, do outro lado de cacilhas um pequeno feixe de luz aguarda a sua vez para nos guiar pelo breu do mundo. E se for segunda-feira hei-de sair pelo menos ás nove, desvairado, para irmos ver o filme. E se tivermos sorte, ou se acreditarmos na nossa sorte, na onda de ficções com legendas, com actores conhecidos, com enredos referenciados e estrelados pela crítica, diremos diante de "Vai com o vento", em uníssono, "olha, apetecia-me ver este." E vamos mesmo ver esse. "Vai com o Vento" do Ivo Ferreira, mais uma curta, Estrangeiro, que tem um texto delicioso. Nunca mais vou olhar um chinês ou uma chinesa da mesma maneira. A partir de agora são gente, gente como eu, ou tu, ou nós. Dois filmes deliciosos de um cineasta novo mas que já tem uma imagem do mundo muito própria. E - não tivesse ele crescido tão dentro do teatro - que tem um ritmo, uma musicalidade, uma escuta tão forte. A voz do narrador chinês é narração-prazer. Todos os dias são dias e as noites também são dias, novos dias.

segunda-feira, setembro 13, 2010

O meu dia 13

Ela fala, no dia 13. O dia 13 de Setembro é um dia importante no calendário mariano relativo às aparições de Fátima. Sei isso porque durante muito tempo a minha mãe, mesmo sabendo que metade dos seus filhos eram agnósticos ou ateus, nos tentou consolar por aquele 13 de Setembro de 1994, dizendo que a Mãe de Jesus tinha vindo buscar o nosso pai. É por causa disso que me lembro pormenorizadamente de todo esse meu dia, desde manhã cedo, em que fui fazer um anúncio para a Telecel, até à hora do almoço quando a minha primeira peça saiu nos Donos da Bola da SIC, passando pelo fim do dia quando soube, de sopetão, que o meu pai já se tinha ido embora deste mundo. Aceitar a morte daqueles que fazem parte de nós é um dos trabalhos mais importantes a que podemos dedicarmos-nos e a nossa vida, e a daqueles que nos rodeiam, ganham quando isso acontece. Crescer não é apenas fazermos o que as expectativas desenharam para nós. Crescer acontece quando percebemos que a responsabilidade que podemos ter na melhor vida do mundo à nossa volta é a responsabilidade que quisermos tomar como nossa. Amar a delicadeza. Desfazer-me em fumo e delicadamente dizer, a morte e a vida no mesmo quadrante. Tudo isto serem palavras e mesmo assim, nos escombros depositados nas palavras, haver um princípio activo. A vida é um fenómeno comovente. Ou que só atingimos verdadeiramente quando nos comovemos.
Ao lado do cais de embarque dos ferrys em Cacilhas há, desde há um ano, um farol. O ferro fundido, cuidadosamente pintado de vermelho já está, na base, coberto de rabiscos de amo-te teresas, vanessas, corações mal desenhados, frases bombásticas. Um farol plantado na praça é, do ponto de vista da arquitectura, ainda um farol. Mas não é um farol na verdadeira acepção do termo. Um farol tem de ser um lugar de solidão, um lugar separado do resto do mundo. Seja lá o que for o mundo, um farol é um lugar que comove quanto mais não seja porque nos lembra que guiar pela noite escura, seja na poesia, na escrita, no teatro, na pintura, na arquitectura, na própria política, é um lugar de uma tremenda solidão. É como se a humanidade, enquanto lugar povoado, só garantisse visibilidade do seu sentido, do seu devir, através do despojamento existencial.

domingo, agosto 29, 2010

Como se fosse uma espada...

Logo que acabei de tirar a fotografia e a olhei no écran do telemóvel, pareceu-me que era uma foto de um outro tempo, mais antigo. Não tenho nostalgia das coisas antigas, disse de mim para mim, desculpando-me pelo instante interpelativo que aquele olhar demorou. Há qualquer coisa que eu não sei pensar quando olho esta imagem, a luz magnífica sobre o rio, mesmo num dia assim, encoberto. E este não saber pensar é distinto do sentir que perco a memória de algumas coisas, acontecimentos dispersos de esquecimento ou bloqueamentos com que vou brincando, é da idade, é o alzheimer. Este não saber pensar é mesmo uma indisponibilidade para o pensamento. Estou a ser sincero. Poderia escrever penso que, acho que, na minha opinião, e o texto passaria com a mesma facilidade com que vou soletrando aqui o meu contrabando de ideias. Digo não saber pensar e depois entretenho-me, entretenho-vos com o meu pensamento sobre isso. Mas houve uma pequena pausa. Não sei se repararam. Foi muito pequena no texto, imensa dentro de mim. Deu para correr e esvoaçar sobre toda a minha vida. Dizem que no instante em que morremos a nossa vida passa num segundo por nós como se fosse um filme. O verde, o vermelho, o azul. O cor de laranja, o lilás, o violeta. O castanho da terra. Há cores e cores e arco-íris insensatos e transbordantes na minha pequena história de vida. Uma pequena pausa, minúscula no texto, gigante em mim. Provavelmente esta pequena paragem é como se fosse um ensaio do que uma morte pode ser. Na incapacidade de a pensarmos, à morte, simulamo-la, cada um a seu modo. A mim dá-me para este cinza majestático. As cores que partiram da imagem deixaram-na na sua crueza quase religiosa. Fecho os olhos e comovo-me. É sempre a minha defesa quando o mundo é maior que a minha faculdade de o pensar: fecho os olhos e traço uma linha directa com a matéria corporal que me definee faço-o através de uma emoção que eu não saberia nunca, anatomicamente, localizar. É o meu instante religioso, de magia. Estou a ser sincero. Na insinceridade militante que é escrever, estou a ser o mais verdadeiro que consigo: a imagem a preto e branco do lugar onde julgava que estava antes de uma pausa me arrastar para uma enxurrada de coisas, pessoas, uma enxurrada a sério, de repente a nossa vida torna-se nisto, uma enxurrada indistinta, atravessa-me como se fosse uma espada. E a ferida que faz sara no próprio corte que se transforma numa ponte, num pequeno lugar de passagem.
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quinta-feira, agosto 26, 2010

No dia 28 de Agosto 100 cidades de todo o mundo vão erguer-se contra a lapidação. Sou contra a pena de morte e sendo a lapidação uma forma de condenação à morte, estou absoluta e convictamente contra a lapidação. Não há nenhum relativismo cultural que me coloque o mínimo constrangimento em relação a isso. E se não estiver lá, em pessoa, na Praça de Camões, onde estou quase todos os dias, será só mesmo por causa de uma enorme perguiça cívica de fim de semana de verão, e esse esperguiçar-me não me limita em nada o dizer que estarei lá, em espírito, inequívocamente. Sou também contra a selvajaria com que alguns costumes ancestrais tratam aquilo que convencionam chamar crimes de costumes. Sou também inequivocamente contra a mutilação genital feminina praticada em algumas sociedades humanas. Não há ainda nenhum relativismo cultural que me coloque o mínimo constrangimento em relação a isso.
Se não é nenhum relativismo cultural que me impede de me associar a qualquer luta contra estas práticas de horror - e confesso que o meu apego pela diversidade cultural me leva a zonas limite em relação àquilo com que posso ou não contemporizar - também não seria o facto de não ser muito claro que a bandeira da concentração seja contra a condenação à morte, e não apenas a um determinado tipo de bárbara execução da condenação à morte, que me poderia fazer hesitar em me associar a esta concentração. É claro que eu penso que seria muito mais proveitoso para a luta contra a pena de morte que ela fosse alargada a todos os outros países que a executam, independentemente dos meios que utilizam para a executar. A execução da pena de morte é sempre um acto bárbaro, em qualquer paralelo ou meridiano. É claro também que este associar da selvajaria à República Islâmica do Irão - um regime autoritário e ditatorial onde as garantias de defesa não são plenas - tem uma conotação política inegável, que a seu tempo poderá vir a manifestar-se muito oportuna para a colocação do Irão numa modalidade de eixo do mal mais civilizada e mais adequada e consentânea com a abertura manifestada pela retórica obamista. Isso não afecta em nada a minha posição. Era só o que me faltava ter de me conter na denúncia da barbárie por causa de algum tipo de relativismo político.
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terça-feira, agosto 17, 2010

Chamava-lhe princesa...

Herdei-a do meu pai. Durante os primeiros tempos comecei a escrever nela quando ele não estava em casa ou quando não tinha de fazer serão. Mesmo assim dividia-a com o meu irmão mais velho. Depois tornou-se tão inseparável, que já ficava sempre no meu quarto. Ainda tenho na cabeça o som do correr do carril da máquina. Eu, como em tudo, não tinha bem a noção da força que empregava nos meus gestos. Nunca fui delicado, é um problema meu. As letras não se queixavam logo mas com o tempo começaram a lamentar-se das dores nos costados, a rangerem, a empenarem. Houve mesmo alturas em que uma determinada letra não escrevia. E é claro que aquelas que tombavam primeiro eram sempre as letras mais usadas, as mais necessárias. De quando em vez lá pegava nela e ia a caminho da Av. João XXI para a reparar. A caixa de transporte tinha uma pequena alça e eu sentia-me bem com este efeito de portabilidade da escrita. Como eu disse, não era delicado com ela. Nunca fui aliás delicado com coisa nenhuma. Às vezes inspiro fundo, muito lentamente, como se o ar fosse, camada por camada, encher-me de uma delicadeza enorme capaz de me contaminar o espírito, mas fora isso do ar, e dos truques que as sessões de animação teatral e de yoga me ensinaram, sou denso, pesado, bruto, desajeitado corporalmente. Quando comecei a perceber que a minha voracidade de escrita tornava a minha princesa frágil e macerada, tentei imaginar a delicadeza na ponta dos meus dedos. Comecei a tentar escrever como se tocasse piano. Data daí uma forma de escrever que, fora os modismos que necessariamente contaminam um escrevente com pouca prática, ainda hoje mantenho. Por vezes, dou uma golfada de ar e imagino que escrever é dançar e que dançar é desaparecer do mundo. Cada bater de tecla, torna-se como um passo a passo em direcção ao infinito da coisa, da ex-coisa, da coisa virada pelo avesso da coisa. São muitos raros estes momentos e a maior parte deles, para infelicidade minha, não me apanham a escrever. Em todos eles me lembro: chamava-lhe princesa e foi por causa dela que soube que escrever podia ser uma forma de desaparecer do mundo.

domingo, agosto 15, 2010

Um outro que não eu

É já amanhã que regresso ao trabalho. É um outro, que ainda não conheço, que subirá a rua da misericórdia, entrará na porta de caixa, cumprimentará o porteiro, os meus colegas que já estiverem e galgará as escadarias do teatro, até ao meu posto. É já amanhã.

sexta-feira, agosto 13, 2010

António Pocinho (1958-2010)

em caso de fogo
Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.
Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
António Pocinho, Os pés frios dentro da cabeça (Fenda, 1999)
(copy do blogue da Sarah. Se o realismo, quer dizer, se essa exorbitância do real mandasse nas nossas vidas, eu olharia a foto e diria que tinha a certeza de termos partilhado este mesmo olhar sobre o rio. Não manda. O real não manda quase nada hoje em dia. Ainda bem. Se não confundíamos tudo. As coisas não são as mesmas quando olhadas por um poeta. )

terça-feira, agosto 10, 2010

Gente dentro de mim

Há-de sempre faltar-me duas coisas: família e comunidade. Por vezes quase se misturam. Cultivei-me na solidão e como todas as pessoas cultivadas na solidão vivi sempre na míngua permanente desses dois núcleos humanos. A minha história podia resumir-se pela maneira como, ao longo do tempo, trabalhei esses dois universos de mim. De uma certa forma posso dizer que o fim da adolescência foi também o fim da ideia romântica de solidão. A arte, o teatro, a animação sócio-cultural foi-me fornecendo alimento para o fogaréu comunitário que ardia em mim, muitas vezes sem o perceber, sem dele me dar conta. Em determinados momentos da minha vida o curso da Comuna, o Palco Oriental, os grupos da Esbal, a casa onde escrevíamos nas paredes nos Olivais, foram disso expressão mas só nos trilhos da animação sócio-cultural me fui dando conta do que em mim, e de que maneira, comunidade era raíz. A família também. Quase sempre que reorganizava os meus espaços afectivos, reencontrava uma família à qual me incorporava quase como se fosse orfão de pai e mãe, de irmãos. Com o passar do tempo, e ele, o pequeno rebento que me acompanha, ao me ir pedindo cada vez mais para passar mais tempo com a família é que me fez descobrir o quanto andava a inventar famílias para não olhar, de frente, a minha, com o passar do tempo fui dando cada vez mais importância à minha família de origem. Levo o neto para estar com a avó e aproveito para um reencontro do filho com a sua mãe. Somos árvore, somos raíz, somos ramada estreitando o céu. Dou-me conta disto ali em Sintra, no fim daquela noite magnífica em que discutímos com a incarnação juvenil de Augusto Comte. É de uma forma tranquila que agora resolvo o meu problema familiar. Sinto verdadeiramente o que é fazer parte. Fico ainda com um problema a resolver: a comunidade. Agrada-me a ideia. O caracter irressolúvel da ideia de comunidade sempre me levou a lugares que me constituiram como pessoa. Como, no teatro, o teatro andamento ou, mais recentemente, o altaCena, com quem fiz o meu texto Lugarzinho no Céu.

Ridículo, disse ele

Está uma noite memorável de Verão, ali, em Sintra. Passámos a tarde na praia das maçãs, tínhamos aflorado à praia grande mas a bandeira vermelha e uma língua diminuta de areia fez-nos dar a volta, a das maçãs deve estar amarela, calculamos, estava, banho de espuma, de areia, enrodilhados nas ondas, mas lá para o fim da tarde havíamos de nos vingar todos, dando voos sobre a água, como se fossemos peixes. Agora, já jantámos, cá fora, o tempo ameno ainda, manga curta, conversamos sobre os astros, sobre a ciência, sobre o que sabemos, sobre o que não sabemos. Ele tem cerca de dezasseis anos e nós os quatro, estamos todos nos fins dos quarenta. É um positivista, Comte haveria de gostar de o ouvir, na sua veemência contra a metafísica ou o que está para lá dos fenómenos. Diz que todas as metafísicas, todo o conhecimento não científico é ridículo, pede, de peito aberto, provem-me, provem-me. É difícil não acreditar na juventude assim, penso. Até que lhe digo, tenho uma má notícia para ti R., não é quando todo este conhecimento te conseguir provar que é válido que tu o vais aceitar, é quando descobrires que a ciência não te fornece todas as respostas, quando descobrires que ela pode ser tão ridícula como todas as outras formas de conhecer. E depois fiquei a pensar nisso, na verdade que para mim isso é. Sou o mais céptico dos homens. E quanto mais céptico sou, mais aceito que todos os mundos são possíveis. Todos. O meu agnosticismo tomou conta de todo o meu pensamento, tanto o físico como o metafísico. A única coisa em que acredito é nisto. Numa noite de conversa, num jovem de peito aberto cheio de bravata contra os ridículos do mundo.

domingo, agosto 08, 2010

Os intelectuais e o povo


Jean-Paul Sartre à Renault - 1970
Enviado por ricar_mm. - Noticias em video na hora

Um dia a nossa morte

Não penso muitas vezes na minha morte. Por vezes não lhe posso virar a cara, como ontem, quando fomos ao hospital visitá-lo e o vi, de peito aberto. Tem quase mais quarenta anos do que eu mas ao lado dele estava um homem muito mais novo, da minha idade, com o peito já fechado. Estranhamente o que me aproximou desse homem não foi a proximidade da sua idade com a minha, foi o estar de portátil ligado. Uma das coisas que mais me impressiona nestes lugares é o tédio. Uma televisão ligada num ponto que permite a visibilidade total vai vomitando generalidades. Das oito camas da enfermaria apenas três estão ocupadas. Os quotidianos. Levantar da cama, ir à casa de banho, ao refeitório, sentar na poltrona, sentar na beira da cama. Passar os dias. Dos cuidados intensivos para a enfermaria intermédia, da enfermaria intermédia para a enfermaria, da enfermaria para casa, a convalescença de um pós-operatório tem estas classes que permitem ao doente fragmentar o tédio. É impressionante o quanto os cuidados de saúde estão a mudar. Passados trinta minutos do final da operação veio logo o cirurgião ter connosco, era espanhol, muito simpático, a perguntarmos-nos se éramos a família do senhor V., éramos, explicou tim-tim por tim-tim os passos da operação, o modo como correra, os procedimentos e cuidados a ter, o percurso pós-operatório. Enquanto ele falava nós olhávamos as paredes à procura de uma câmara de tv, aquilo não parecia o filme da saúde em Portugal, mais se diria um daqueles muitos seriados televisivos americanos. E depois nos gestos do dia-a-dia, nos enfermeiros, nos técnicos que passam, nota-se um brio, uma humanidade que convence.
Mas estava a falar da minha morte. Já houve tempos em que tinha como mais recorrente este pensar sobre a morte, sobre a minha morte. Aterrorizava-me a ideia de morrer. Agora já não. É claro que gostava de viver muitos e muitos mais anos mas mentalmente penso em pequenas metas: não gostava de deixar esta vida sem concluir a investigação sobre a escrita teatral que vou começar agora, gostaria também de ter tempo para acabar uma história que comecei há poucas semanas e que poderá vir a ser o primeiro romance que escrevo, de poder fazer a encenação da Evaporação dos Pássaros, de escrever o texto para o espectáculo do Carlos Mendes que ele me pediu, de poder montar o trabalho que propus ao altaCena, de fazer um site com todas as minhas peças, os meus trabalhos, as minhas entrevistas, gostava de conseguir escrever e apresentar um espectáculo de stand-up que comecei a inventar há uns meses, mas isso tudo é mercearia pouca que se avia em dois ou três anos. O que mais me entristece na ideia de que vou morrer, porque aquilo que fiz está feito e não acredito que quando a morte me vier buscar não me encontre sempre com algumas coisas para fazer, é o faltar àqueles que amo.
Principalmente a ele, porque ela já trabalhou muito a perda para saber perceber que não vale a pena zangarmos-nos com o que nos acontece. Ao meu filho ainda acho que é muito cedo para me habituar à ideia de que lhe possa faltar. Sei o que é um filho perder um pai, e eu perdi o meu já na maturidade. No outro dia, ainda estava comigo há uns dois ou três dias das férias comigo, dei com ele assustado, a chorar, ao telefone, pedindo à mãe para o ir buscar. Contou-me depois, costuma sonhar que vão assaltar a casa, matar os seus pais. Queria ir para casa da mãe porque lá está mais habituado a tratar destes assaltos de pânico. Mete-se na cama da mãe e os medos vão-se embora.
"- Há coisas que eu gosto mais de falar com o pai, mas estas coisas eu costumo tratar com a minha mãe!"
Lá arranjámos uma estratégia para sobrevivermos àquela noite. E depois, às outras noites. Falámos muito sobre o medo. Por acaso um dos trabalhos que ele tinha que fazer era inventar uma história. Fizemos dessa história o palco dos seus medos. Foi ele que me propôs:
"- Pai, tenho uma ideia: vou escrever a história de um menino que quando sonho pensa que os seus sonhos são realidade."
Ñem mais. Temos dentro de nós um sistema imunitário não só para os ataques físicos, biológicos, também para os psíquicos. Falei-lhe dos meus medos de infância. Ah! Como é bom e delicioso falarmos, à distância de quarenta anos, dos nossos medos de infância.
"-O Pai também tinha medo que matassem os seus pais? também sonhava com mortes?Expliquei-lhe que sim. Eu tinha um medo terrível de fazer dezoito anos. De ficar sozinho no mundo, sair de casa dos meus pais. Era essa a minha imagem do que era fazer dezoito anos. Em vez de ter a minha mãe e o meu pai à beira da minha cama a darem-me os parabéns e a saudarem o meu primeiro olhar da manhã - e aquela bola de borracha com losângulos negros que fazia parecer ser uma bola de futebol a sério!- tinha os dois, com ar sério, mala feita, a dizerem-me, faz-te à vida, marinheiro, boa sorte. E eu ía para a guerra, para a guerra em África. Foi isso que me ficou de tanto julgamento da bandeira a que assisti, em frente ao Convento de Mafra, das tropas que seguíam para as antigas colónias. E sonhava com mortes claro. Com o ficar sózinho no mundo.
"- Eu às vezes consigo evitar o medo mas outras vezes não, ele fica muito forte, eu vejo mesmo as mortes!"
"- Sabes que isso tem uma coisa boa? Quer dizer que gostas muito de nós e que não nos queres perder.".
Não lhe disse, não me apeteceu, que era também uma forma, uma das muitas oportunidades que ele iria ter de "vivenciar" a nossa morte para se preparar para ela. Abraçámo-nos. A morte, a ideia de que vamos morrer, de que não vamos ficar eternamente a aturarmo-nos um ao outro, uniu-nos num nó cego.

A nova filosofia

Le 1er "Apostrophes" de B.H.Lévy- 27 mai 1977- 3ème partie Enviado por BernardHL. - Ver os videos das celebridades da Rede
Estava à procura de uma coisa sobre Maurice Clavel, filósofo francês do qual me lembrarei sempre da ideia, no Jornal Novo, "A Política amanhã será outra coisa!", e encontrei esta pequena pérola televisiva, que é marcada também pelas presenças de André Glucksmann e Bernard Henry Levy. O documento está dividido em três partes, este é o último. Tinha eu quinze anos.

sábado, agosto 07, 2010

Caso Freeport

Não é a minha praia. E eu, até meio de Agosto estou avençado ao areal. Mas não posso deixar de partilhar este delicioso pedaço da entrevista de uma advogada ligada ao processo. Obrigado Porfírio.

Eu, outra vez, agora cansado da ideologia

Todos os anos por esta altura, abeiro-me de mim. O Verão, as férias, o termos um pouco de tempo para olharmos para nós, para o que fazemos, para o que desejamos e sonhamos, quase que torna inevitável a tarefa introspectiva. Fiz uma caipirinha, através da janela vejo os barcos no rio, deito-me a tirar à sorte, a adivinhar quem sou. Navego à vista tal como as embarcações ali ao fundo. Não tenho palavras redondas nem conversa para entreter bisontes na pradaria. Nem me apetece derreter o meu ânimo, o meu entusiamo - ou, como me dizia o meu padrinho para me testar, para saber se poderia falar à homem comigo, "aquela força que nos vem lá do fundo dos tomates" - num fatalismo de merda. A vida é existência pura e crua. A felicidade e a infelicidade são variantes de uma ideologia que agora desprezo. Não querem dizer nada para além do comércio ideológico que celebram. A alegria, a tristeza, a própria melancolia, talvez não, talvez não sejam apenas isso, talvem consigam sobreviver ao discurso-sobre-todas-as-coisas-vivas e ser energia, a nossa energia. Tudo o que consegue escapar à ideologia, à morte de mundo que a linguagem é, pode ainda valer a pena. A violência por exemplo. Deveremos falar de novo na violência. Construímos cidades armadilhadas pela violência contida. O corpo policial não me sossega. Ou só me sossega enquanto não nos bater à porta e não nos disser que aquela porra do vinte e cinco de abril era uma fábula para entreter meninos. Estou cada vez mais violento por dentro. Não falo do terrorismo. Não me é indiferente que o mundo esteja cada vez mais repleto de filhos da puta a comerem-se uns aos outros, a comerem as ideias que sempre fui acalentando na cabeça de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária. Mas não sou deus nem tenho alguma pretensão de fazer que sou. O meu único acto verdadeiramente terrorista é escrever, pensar. Deus, se for esse ser tão misericordioso e justo que os crentes adoram, quando os chamar à sua presença tratará do assunto. O terrorismo é mais do mesmo. Se nem aos vinte anos tive alguma sedução intelectual por ele, não seria agora, quase aos cinquenta, que iria achar-lhe alguma inteligência no gesto, no porte. E não será a promiscuidade entre a moralidade, a política e a mentalidade que me farão alterar essa posição. Viro a minha violência do avesso. Olharmo-nos ao espelho, no reflexo da calçada e percebermos o ser-em-acção-de-transformação que é aquele que se olha, se recria, se inventa no olhar de um outro, a quem, no delírio implosivo deste gesto de mudar-se, chama amante - ou aquele que ama, aquele que é amado - é de uma violência inaudita. Estou cada vez mais violento por dentro. Contra mim. Por vezes já nem me reconheço. E não é uma questão de peso, de barriga, de todas aquelas marcas da idade que nos indispoêm com o espelho. É outra coisa. É o mudar. Há um repente de serenidade, de tranquilidade e esse repente vai-se instalando, sorrateiro. Foi-se a revolta, o instalar na relação com a outra pessoa o sistema de dominação, subordinação. Com quarenta e oito anos não conheci nenhuma casa que não tivesse, para além de janelas, uma porta da rua. A arquitectura das relações, dos afectos, é cada vez mais a ciência de uma liberdade constituida pelo levantamento identitário. O que nos faz permanecer é a vontade e a vontade ilumina-se com a forma como aceitamos esta violência de nos transformarmos para, como se construíssemos um ninho, acolhermos o outro dentro de nós. Nós, os homens, tendo a tendência para pensar a nossa existência psíquica a partir da nossa morfologia, da nossa fisicalidade, não estamos muitas vezes preparados para a ideia de acolhermos dentro de nós. Todo o espectáculo masculino, as manifestações, os fenómenos, é virado para a exterioridade, para a protuberância, e a exuberância, do falo erecto. Se um homem diz entra dentro de mim, parece um jogo de linguagem. É por isso que a acção transformadora de um homem ou de uma mulher no ninho um do outro é tão violenta. A aventura humana, e a experiência construiram-se no mito da perda de identidade. Temos medo de nos perdermos, de nos despersonalizarmos. O amor é o culminar de toda a violência do mundo.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Todos os dias

Todos os dias. No verão todos os dias contam. Todos os dias tendem para a transcendência em relação a uma qualquer espécie de infinito. Lembro-me disso em Altura, em Carcavelos, na Ericeira, em Santa Cruz, no Moledo, na Figueira, em S. Pedro do Sul, na Nazaré, na Costa da Caparica, lembro-me disso em menino, em adolescente, em jovem, em homem, agora na meia idade, é uma memória farta de episódios, peripécias. Estive quase a pensar que isso não seria possível na Foz do Arelho. Consegui-me habituar àquele areal que nos esfrega os pés, numa esfoliação obrigatória. Ou à rispidez das águas do mar, bandeira amarela e vermelha, e água nem sempre transparente da praia da lagoa. Mas o que me custava era aquele povo-povão, aqueles povos duros e ásperos do norte que trazem pára-ventos, chapéus de sol, lancheiras, cadeiras de lona e que falam muito alto, que têm calções de banho antigos, peles brancas, que deixam os seus restos espalhados pelo areal. Há muito que me deixei de me preocupar pela incongruência de uma sedução intelectual pelo popular conviver com este desprezo arrogante por estas manifestações existenciais do povo-povão. É verdade que eu não me identifico com o que eles querem, é bem certo que a forma como se projectam na comunidade não coincide com a minha, é muito claro que para mim que os seus valores não são os meus, mas a verdade é que na minha imagem de árvore, as minhas raízes são também, metade de mim, as destes povos de vida ríspida do Norte. Descendo de um cruzamento entre uma família da pequena burguesia de uma cidade da raia alentejana e uma família muito humilde do Minho. O meu pai, o filho varão, por ter seguido os estudos religiosos, teve a oportunidade de se formar na Universidade de Fribourg, mas os seus dois irmãos têm a escolaridade básica dos tempos do Estado Novo. Um deles viveu muito tempo numa ilha da cidade do Porto até comprar uma casa camarária, e a outra fez toda a sua vida de trabalho na pequena vila onde os três nasceram. E era isso que me custava. Olhava aqueles povos duros, ásperos, naquela imagem estereotipada dos acampamentos popularuchos e não me queria reconhecer assim. Nem saía do hotel onde estava, um lugar sobranceiro a toda a praia. Estive lá fechado três dias, a observar. Vistos deste modo, lá de cima, em miniatura, estes povos de vida ríspida do Norte eram parecidos com todos os outros. Foram assim, nesse incómodo reconhecimento, os meus últimos dias de Julho. No primeiro de Agosto, esteve muito mau tempo e aproveitei, com o frio, para fazer uma abordagem psicoterapêutica sobre as minhas origens. Consegui finalmente dirigir-me até cá abaixo, à praia. Vinha disposto a tudo. Mas, suprendentemente, não encontrei sinais deste povoléu que tanto me incomodava, principalmente por pôr a nu os meus preconceitos. Na Foz do Arelho os povos de Agosto são muito mais cosmopolitas que os de Julho, concluí.

segunda-feira, julho 19, 2010

Tempo diegético

O tempo é o que fazemos dele, diz a Cibele, só temos uma vida, acrescenta, pela ordem inversa de chegada, a Cristina. Ando ali a cirandar pelo Calhariz em torno das minhas papelarias preferidas à procura de canetas, quando me dá a vontade de escrever mato-a assim, com canetas, já não tenho saúde para escrever, fico muito ansioso, como se fosse um sapo a rebentar, a minha vida torna-se num inferno, escrever voltará um dia a ser um prazer?, compro-as de vários feitios, eu que quase só escrevo digitalmente ponho-me a catrapiscar canetas, ao lado da minha livraria de estimação há um alfarrabista, a namorar a montra, o Tomás Vasques, ficamos ali a trocar alguns minutos de conversa, o tempo é o que fazemos dele, sabe-me bem este toque-e-foge com ele, não sei porquê, há pessoas que o fazem com aqueles que gostam de gatos, eu é com livros, confio imediatamente numa pessoa que gosta de livros, e depois de termos estado num mesmo blogue as três vezes que o encontrei foram sempre ao pé dos livros, gosto dele, simpatizo tanto com ele que até me dei ao luxo de lhe contar uma pequena fantasia, estou a escrever um romance (ele também tinha um romance, a meio, só que estava parado, por causa da bloga intensa) para o que me havia de dar, poderia ter dito que estava a escrever uma peça de teatro, uma reportagem, uma entrevista, até um conto, para o que me havia de dar?, um romance, eu que já não escrevo, nem na antiga nem na nova ortografia, a escrever um romance, coisa que só fiz quando tinha quinze anos, dos quinze aos dezasseis, fiquei vacinado, e o mais engraçado é que poderá mesmo ser verdade, comecei há dias uma prosa que não se enquadra em nado do que escrevi até agora, ao fim do primeiro capitulo já descobri onde vou passar os meus próximos dias, é numa Lisboa real com a língua de fora, quero dizer, com o imaginário de fora, em termos de cinema deveria ser um argumento engraçado, de repente uma rua real, quase documentário, depois o personagem dobraria a esquina e entraria numa rua imaginária, estou cansado do real mas esse cansaço leva-me para uma vontade de criar um lugar imaginário onde consiga encontrar alguma realidade no real, e isto tem finalmente a ver com o que a Cristina e a Carla disseram, o tempo, o espaço, a vida, é o que construímos nela e só temos uma, biológica, claro, porque de resto somos milionésimamente felinos, temos milhares de vidas, se a circunstância da nossa única vida biológica nos transcende, sabemos lá?, a única coisa tangível é este desdobramento de lugares que a imagem em movimento, a imaginação, consegue produzir. O tempo, como a vida, é um jogo de física quântica: há uma coisa com a sua materialidade de coisa, a sua imposição de coisa, a sua ostentação de coisa, a sua ideologia (encapotada) de coisa. É uma coisa que cansa, que me cansa, pela forma como ela está gasta, exaurida, disponível para a manipulação. Cansa-me enquanto coisa manipulada, e quem diz coisa diz a cidade, os largos, este pedaço de rua que vai do Calhariz à Calçada do Combro, e por isso começo lentamente a deslocar essa coisa do lugar onde ela surge como uma imposição e trago-a, doce, para o local da minha imaginação. A rua do Diário de Notícias deixa de ser a Rua do Diário de Notícias e passa a ser a Rua da Espera, por causa daquele fim de tarde, há mais de vinte anos, em que alguém, teria sido eu?, esperou por uma mulher que nunca apareceu e nunca apareceu porque nunca existiu. O real, o tempo real, é uma chatice pegada!

quinta-feira, julho 15, 2010

o tempo de andar por cá

Um mês quase sem escrever, quase que me pergunto, esta ainda é a minha casa? Outras escritas, outras realidades. Saberei ainda escrever em blogues? E isso interessará para alguma coisa, escrever em blogues. Acabei agora a criação de personagens na Escola Superior de Enfermagem. Quando olho para isso, para estes últimos dezoito anos, para as personagens que vão ficando nas paredes, neles, fico com uma sensação inabitual em mim: a de permanência. Sou mau a permanecer, sempre fui mau a permanecer. Nas relações, nos trabalhos, nos projectos. Fossem ou não a feijões. Ainda no outro dia estava a ver alguns amigos que entretanto se preparam para a reforma, comecei a fazer as contas ao tempo em que estou no meu actual trabalho, catorze anos, e quase que me assustei. É claro que tenho variado muito de sitio, até de actividade, mas catorze anos a ver as mesmas caras, as mesmas histórias, mesmo assumindo que eu já não sou quem era, é um limite arriscado para mim. O trabalho sobre a criação de personagens é algo que me pacifica com a minha própria instabilidade. Afinal, naquilo que interessa, talvez saiba permanecer. Chegou a hora de reflectir mais profundamente sobre esta experiência que é cada vez menos um caminho solitário. Há dezoito anos, em 1992, eu corria da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas onde era aluno, para a Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian, onde era professor e tinha apenas como companheiros mais directos desta aventura a Arlete Abreu (que me convidara) e o Pisco, o Rui Pisco da Máscara Teatro Grupo. As únicas actividades expressivas que havia eram as nossas disciplinas, muito centradas no teatro e na animação sócio-cultural e apenas nesta Escola, fruto da teimosia e da lucidez da Arlete. Hoje a Escola de Enfermagem de Lisboa integra quatro antigas Escolas de Enfermagem e tem na sua oferta pedagógica, opções nas áreas da dança, da plástica, do teatro, do cinema e da animação cultural. Ao longo de dezoito anos também tenho podido clarificar aquilo que posso fazer. Disfarçamo-nos de professores e alunos mas temos de ser um pouco mais do que esse papel que ocupamos na cadeia de transmissão de saberes. Eles não são actores, são enfermeiros, e estão ali porque cuidam de si mesmos, das suas pessoas, do que são enquanto pessoas e aproveitam o curso, as possibilidades que ele lhes oferece, para fazerem um puzzle. Eu também não sou actor ( não serei? começo a duvidar! Acho que nunca o deixamos de ser, por mais que nos reservemos nos palcos que utilizamos para nos expressar), nem em enfermeiro, mas sei o potencial especulativo que o fazer teatral tem, como motor de conhecimento. Organizamos experiências que vão desde a "observação participante" à experimentação com o corpo, com os sentidos, com a voz. Há coisas que o nosso corpo sabe de nós que nós desconhecemos. E é um privilégio assistir assim à magia da revelação. À partilha da reflexão.