sexta-feira, março 25, 2011

Estamos todos no mesmo barco

A história do Principe João dos nossos tempos.

Notas do Facebook

Comecei a publicar aqui algumas notas do Facebook. Preciso de voltar ao blogue, é aqui que sinto haver um lugar onde melhor posso pensar. A quem anda pelos dois lados, vai encontrar repetições. Para os outros, é uma vontade de estar com eles. Veio a primavera e com ela o desejo de mudar, de participar na mudança.

Para mudarmos remos de saber onde está a nossa força

Quando olhamos para a realidade politica e nos vemos a partir de quem nos representa, viramos a cara para o lado, negamos que sejamos nós neles. É uma reacção quase infantil entre representante e representado, tal e qual como vi, em lugares onde trabalhei com crianças com problemas de auto-estima, quando fazíamos jogos com o espelho. E que fugiam da sua própria imagem. Ou que baixavam os olhos, envergonhados, quando se miravam. O quê, eu sou este? Custa a aceitar que aquela perfeição que em nós habita possa ser tão imperfeita. Não há construção identitária que não comece por aqui, pelo desmame dessa imagem de perfeição que tanto nos securiza mas que também, tanto nos limita o crescimento. Ou que provoca a destrutividade, a violência aniquiladora. Arno Gruen avisa-nos tanto sobre este fenómeno profundamente humano. Eu não sei que grau de percepção disso tem cada uma das pessoas que desceram comigo a Av. da Liberdade. Sei apenas que esta circunstância agorética, presencial, de descermos uma avenida em conjunto nos começa a transformar por dentro. A sermos capazes de ouvir algumas coisas duras que temos de escutar de nós mesmos. Não as podemos escutar enquanto não soubermos que as podemos mudar. Somos livres de não entender o quanto a exploração humana e a própria barbárie civilizada a que chegou a nossa presença neste mundo, estão intimamente ligadas à forma como vivemos. Podemos começar por olhar para imagens como as dos salários monstruosos dos gestores públicos, entre outras anormalidades da nossa vida social, mas um dia teremos de chegar às imagens mais aproximadas, àquelas que falam mais de nós, àquelas de que somos mais responsáveis. E aí vamos ter de perceber que em vez de podermos gritar palavras de ordem contra um Estado que não realiza todos os nossos sonhos temos de ser capazes de ter uma vivência solidária dos recursos disponíveis. É por isso que o dia de hoje pode ser tão importante. Porque se não podemos escutar as coisas duras que temos a dizer a nós mesmos enquanto não as pudermos mudar, também só as poderemos mudar quando descobrirmos que somos fortes e que onde está a nossa força. E hoje descobrimos onde ela está. No estarmos juntos. Juntos todos aqueles para quem a ferida da representação causava sucessiva incapacidade de perceberem quando e como podiam participar porque já não se reviam no voto bem comportado e com regularidades bem determinadas. Podemos descer uma avenida juntos, e depois virem dizer que havia, naquela multidão pacífica - ou seria, pacificada?- gente da extrema esquerda, da extrema direita, da direita, da esquerda, do centro. Somos fortes, esta é a nossa força.

Uma escuridão ao fundo do túnel

A política torna-se sócia da magia. Sócrates, nas cordas, faz um dos melhores discursos, fala destemidamente verdade mas a barulheira é tal que não se conseguem perceber três coisas: a primeira de que quem quiser colar a manifestação de 12 de Março a uma manifestação anti-Sócrates, está a fazer um aproveitamento político partidário ilegítimo desta manifestação ( e provavelmente a não perceber a análise política que todos os partidos têm de fazer); a segunda, a de que a demagogia da análise política de comentadores como António Capucho ( este chegou a dizer esta coisa espantosa, " é claro que ninguém quer ir para o governo nesta altura porque é preciso resolver muitos problemas", de Teresa Caeiro, Luis Fazenda e até (pasmo!) de Rui Sá, quase fazem Sócrates parecer aquilo que em dez anos de governação nunca conseguiu verdadeiramente ser: um estadista; a terceira de que nem PSD, nem CDS, nem BE, nem PCP, nem Cavaco ( e eu diria, que com alguma ironia, o próprio PS) têm mais desculpas para não fazerem aquilo que devem fazer já que do cruzamento das palavras de Sócrates com as das posições de todos os partidos resulta claramente que não se vislumbram condições para uma continuação de um política minoritária, principalmente quando, como referiu e bem no outro dia Daniel Oliveira, se assiste a um golpe de estado da Comunidade Europeia, através da comandita da Sra Merkel, obrigando os Estados a alterações significativas que não foram sufragadas pelos diferentes eleitorados. Por outro lado Sócrates, por mais que pareça um estadista, não o é. Se o fosse perceberia que não pode criar unidade política verdadeira sem a coesão social e que não pode desprezar nem os desníveis de classe que existem, nem o peso que a gordura pública tem para o descrédito de políticas impopulares. E muito menos que, por exemplo, não pode patrocionar medidas como a facilitação do despedimento numa medida que não parece ter nenhum efeito prático no défice ( e consubstancia aquele golpe de estado de que falava o Daniel). Ou que não pode deixar de clarificar o peso real de grandes investimentos para a despesa pública. Se fosse um verdadeiro estadista teria percebido que devia ter olhado de outra forma algumas das propostas económicas do Bloco de Esquerda (independentemente dos erros deste). Não há hoje alternativa a um governo sustentado numa grande unidade nacional indispensável para tomar as medidas duras que têm de ser tomadas. É uma mera questão de tempo. Na altura em que a crise se insinuava escrevi várias vezes de que tinhamos de mudar de vida e que tinhamos de mudar de vida todos. Ora um governo minoritário é o terreno ideal para o aparecimento de demagogias sectorizadas (emprego para todos, não redução das reformas, não diminuição das despesas públicas na educação, na cultura, na saúde, etc, etc) que podem vingar numa época de pretensa abastança mas são inviáveis e impossíveis de sustentar agora. Tudo isto poderia ter duas sequências: ou eleições, com o aparecimento de propostas concretas para a resolução disto que promovam desde o princípio uma politica de verdade sobre as dificuldades que temos pela frente, ou um governo de unidade nacional a partir da iniciativa do Presidente da República? Alguma pessoa de bom senso consegue, neste Estado de coisas, antever um governo de unidade nacional por iniciativa de Cavaco Silva? Ou, pela amostra que aí vem, de que os partidos possam criar um referencial político credível quando a direita e a esquerda ( tirando o PS aqui nitidamente ao centro) não têm nenhum ponto de cruzamento relevante que não seja o ataque a Sócrates. Se vier aí um novo governo Portas e Passos, Passos e Portas nada disso será novo e tudo isso será mais um passo para o abismo. A saída disto tudo começou a ser esboçada no fim de semana passado. O povo quer que haja capacidade da sociedade se organizar para criar soluções que permitam perspectivar o seu futuro e reconhece que o quadro político convencional não é capaz de dar essa energia, essa força. Não vale por isso manipular aquilo que aconteceu no dia 12. E é preciso deixarmos de ter uma atitude competitiva e individualista ( quando me forem às minhas regalias e direitos acabou-se a conversa) e começarmos a agir mais solidariamente. Poderá um dia voltar a haver empregos para todos. Mas enquanto não houver os empregos que há têm que ser partilhados.

Da democracia à demagogia e desta à solidariedade

Há um problema insanável na questão da precariedade e que, como tudo na nossa vida, só pode ser resolvido de duas maneiras. Ou com demagogia (há quem lhe chame irrealismo) ou com solidariedade (os que chamam a demagogia de irrealista outorgam esta de realista). Não creio que haja em teoria uma maneira melhor que a outra. Na experiência humana tudo é defensável, tudo é contextualizável, admito que possa haver contextos em que uma pitada de demagogia seja o sal motivador, o espectro político tem um lastro imenso, inesgotável, neste território denso, de paisagens em espelho o que nos salva é a ideologia, ou seja, a pertença de cada um a uma determinada concepção do mundo. O que torna uma ideia mais adequada do que a outra é o tempo que temos para as aplicar. Como em tudo na vida. A demagogia parece que não é uma resolução, mas é. Não havendo condições para criar um estado de alarmismo que leve os sujeitos a olharem de frente a sua vida, a demagogia é entendida muitas vezes politicamente como um modo de manter a coesão social. Quando eu digo politicamente quero dizer por governantes e governados. Não há forma de enfiar a cabeça na areia: a democracia é partilha da responsabilidade. O que diríamos nós de um Governo que não havendo ainda perspectivas de crise dissesse que iria defender a diminuição de salários reais, o abaixamento de pensões, o aumento da inflação, o corte da despesa pública, o desinvestimento, a perda de regalias adquiridas para garantir um melhor futuro a longo prazo? Se alguém for capaz de levantar o braço e dizer sim receio estar diante de alguém que tem a mesma hipocrisia política que a rua aponta a José Sócrates. A demagogia leva-nos a exigir que o Estado possa fazer-nos ter como seguro o que é precário. Queremos que os nossos filhos estudem e tenham um bom emprego, queremos poder continuar a ter como segura a nossa reforma, queremos ter os nossos empregos públicos, queremos conviver com deus e o diabo no mesmo quadrante. Não adianta grandes considerações mas a verdade é que muitas pessoas pensam que não é a democracia que nos governa, sim a demagogia. E têm razão e aí começa a ser um bocadinho difícil defender, como fiz no ínício do texto, aquela ideia cínica de que não haja, entre a demagogia e a solidariedade, nenhuma que seja melhor. Para todos os que defendem a superioridade da democracia, a solidariedade e o realismo são melhores do que o irrealismo demagógico. E isto porque a demagogia tem tendência a absorver e a anular todo o corpo democrático deixando-lhe apenas a sua imagem exterior. Ela vive da desregulação, da bondade dos principios desarticulados. Cada um dos pequenos espaços de pressão arranjam um espaço de legitimação para a salvaguarda de medidas que são analisadas dentro de um universo de razões que tendem a legitimá-las. É claro que para cada um de nós que vivemos uma ideia democrática, face à emergência de um estado de carência acentuado e até, uma bancarrota do país, é absolutamente criminoso o pagamento de honorários e prémios a gestores públicos nos valores que foram divulgados muito recentemente pelo CDS e que há muito circulavam nas nossas caixas de correio electrónico. Não é um assunto que possa sequer ser discutido, ponto final. No entanto, estes gestores pertencem a empresas reguladas publicamente. Ou seja, no micro-estado soberano em que foram definidos aqueles honorários eles estão de acordo com um conjunto de articulados que gabinetes de recursos humanos, jurídicos e de finanças elaboraram defendendo-os e legitimando-os. E porque a demagogia tem em si o antídoto para aqueles que a denunciam - já que a demagogia é um estado geral que percorre toda a estrutura da vida pública desde aquele que se levanta todos os dias para ir a um emprego onde não faz a ponta de um corno mas recebe todos os meses o seu salário, àquele que no panteão dos deuses demagógicos saca um milhão e meio de prémios de produtividade por gerir uma área sem concorrência - e porque ela vivifica numa sociedade que apenas tendo o aparato democrático, torna-se dificil pensar que é possível uma comunidade mudar de uma governação baseada nos principios da demagogia, para os princípios do realismo sem ocorrerem mudanças violentas ou até, mudanças de regime. Nestes termos a demagogia é uma doença instalada no corpo democrático, que lhe vai comendo os tecidos, as células, as moléculas, os atómos, tudo. É por isso que o zénite do estado demagógico é a emergência de regimes totalitários porque parece que foi a democracia que nos conduziu a este atoleiro. E não foi. Há uma rima pobre da demagogia que também tem sérias responsabilidades. A hipocrisia. A hipocrisia é por exemplo vituperar o Estado Social, fugir aos impostos e depois achar que a saúde, a educação, a cultura estão enfraquecidas. Ou estar há num trabalho onde não se faz nenhum, onde a produtividade para o bem comum é escassa e depois achar que se ganha pouco, que não se podem perder regalias, que a culpa é dos chefes que não os põem a trabalhar. Ou ser deputado da república , usar e abusar dos requerimentos para não fazer nestum, encher-se com as tenças, as reformas precoces, as partilhas público-privadas e depois assumir uma critica ao laxismo e despesismo do Estado. Ou ser gestor público, definir sacríficios orçamentais públicos e abotoar-se com principescos salário e prémios e toda a sorte de complementos de vencimento. Ou ser jornalista, desmascarar todos os dias casos de favorecimento e prejuízo para a causa pública e aceitar viver um sistema de saúde e de previdência excelente que sai dos bolsos de todos, também daqueles que têm de se contentar com um sistema de saúde geral. Ou ser funcionário do Estado e ter regalias próprias, adquiridas em momentos em que os interesses corporativos conflituavam abertamente com os interesses da comunidade. Hipocrisia, demagogia, rimas pífias de um verso podrido. É um grande problema, claro, até porque, quando alguns de nós começam a reparar que vivemos mais num estado demagógico do que num estado democrático, a grande guarda ideológica da demagogia cai em cima de nós e força-nos a reconhecer que o aparato do estado em que vivemos ainda é o da democracia. O que fazer então em relação à precariedade em vez de uma resposta de sentido múltiplo torna-se numa via de sentido único: face ao tempo que nos resta (a nossa dívida já é 90% do PIB) o grande combate, a grande luta, é a tomada de consciência e o assumirmos, por parte dos governantes, solidariamente a perda de privilégios, de regalias, de partes do vencimento, seja lá do que for, e da parte dos governantes, assumir-se a verdade, a informação, a austeridade, a limitação exemplar da despesa pública, dos benefícios exdrúxulos. E para isso, neste contexto, com um Presidente da República e um Primeiro Ministro que, mais do que a coesão, suscitam a crispação nacional afigura-se difícil a resolução deste problema no actual quadro político. Isso só nos tem levado a uma forte ideologização de decisões que agora deveriam poder estar mais ligadas à sensatez do que ao antagonismo ideológico. O que é um problema muito grande: é que também não se afigura muito luminosa a possibilidade de um verdadeiro novo quadro político se o pensarmos exclusivamente a partir da representação política sentada na Assembleia da República. O baralhar e dar de novo seriam apenas uma perda de tempo. Enquanto a política não poder receber os contributos activos dos movimentos de cidadania que surgem, nada de verdadeiramente novo se passará em Portugal. É por isso que é tão importante crescermos juntos na tomada de consciência de que mais do que melhores governantes, temos de ser melhores governados. E é por isso também afastar aqueles que querem levar a manifestação de dia 12, para o campo da hipocrisia e da demagogia. E pensar que, para além do dia 12, há mais 30 ou 31 dias no mês. E que a Primavera está à porta. Deveremos trazer a alegria da luta às praças, ás ruas e avenidas.

sábado, fevereiro 05, 2011

Rosa Negra do Cairo

ainda não aprendi a respirar de boca fechada.
o tempo que estas coisas levam a aprender.
os meus olhos têm gravadas imagens de le bonheur.
são fotogramas de arquivo.
eu tenho medo de usar as palavras para dizer.
as palavras, estas sonsas. Mubarak já não fala
à multidão, a multidão cresce na sua revolta,
ouve-se o cantar melodioso de uma revolucionária,
mas as palavras ainda serão uma e outra vez,
umas putas. não consigo descolar. fazer destas palavras alguma coisa
que não o silêncio
de quem emudece.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Poesia & Contrabando

Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Não ponho as palavras em escadeado, como antes, antes de tudo, antes de mim, eu imaginava o poema. Eu pensava que era assim que se distinguia o verso, a própria poesia. Tantas ilusões. Agora, que é tarde, o mundo está preso a uma guerra que eu não sei anunciar - sim, eu seria um verdadeiro poeta se conseguisse entrar por dentro destas vidas mesmificadas e, por um instante fosse capaz de avisar-vos da guerra que aí vem - eu sei que o poema não verseja, nem diz piropos às moças na vereda dos caminhos.
Tenho alguns amigos meus que são poetas, que decidiram apresentar-se ao mundo enquanto poetas . Olho para eles, para a gravidade com que trazem a poesia na fronte ferida, lacerada, por uma linguagem-torniquete e bebo deles como se matasse a sede numa fonte de água fresca. É preciso coragem para querer viver assim, sabendo que a poesia começa por não perdoar aos poetas a ousadia.
Antes de ser poema o poema é poesia.
Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Se eu ainda tivesse ilusões, que não tenho, a maior de todas seria esta: fazer de mim mesmo um poema.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Criação das palavras

Uma frase pequena. Falta-me o tempo para as frases grandes. Uma frase é um objecto. Um jogo, um espelho. Uma porta. Ou quando o tempo ainda é ainda mais escasso, uma janela. Um lugar onde (ainda) não se está.
A palavra perfura na virtualidade. Adensa-a. Como se começasse por ser uma pequena neblina matinal. E de repente, tão de repente que até dói, é um nevoeiro cerrado, um lugar sem saída. É aí que a palavra serva perfura. Cria.

Breves palavras de desespero

Uma palavra breve. O tempo escapa-nos. E com o tempo, o sabê-lo. O próprio saber. Não tenho nenhum sentimento dentro de mim. Não o digo com garbo. Constato-o. Constato que aquilo a que a partir de agora chamarei de sentimento não é suficientemente canino para eu poder emoldurar ao pé dos lustres, das pratas, das palavras exdrúxulas. Quanto muito seria uma borboleta, se assim o quisesse. Não quero. Fecho-me àquilo que o seu bater de asas, metáfora do mundo, cicia. Olho-te com um desespero nunca visto. Olho-te como se te dissesse,
agora é que se foi, o que perdemos.
A minha vida é de uma inutilidade tão tamanha que nem sirvo para odiar. Eu sei, eu poderia propor-me para mestre-escola, propor-me a humanidades, salvar assim a família, a tença, o próprio salário.
Não posso. Seria mentira. E eu já me adestrei a tudo. A perder pai, irmãos, amigos. Os próprios sentimentos, o ódio, o amor. O pensamento, que não a ideia de pensar. Mas não é perder o pensamento viver num mundo que dele não carece?
É. Sobreviverei a isso também. Deixo-me apenas este luxo, esta bizantinice: um pouco de verdade. Não digo muita. Tendes razão. É pouca. Nem é bem uma verdade que é. É uma sombra. Um resto que ficou do grande banquete.
Basto-me assim.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Boa Nova da Trindade

Momento curioso da campanha. O cortejo estaca, ordenada e compenetradamente, por breves instantes para que os repórteres de imagem e os fotógrafos recolham as suas imagens. Hoje fiz parte. Soube-me muito bem fazer parte.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Blogosfera : Liberdade de Expressão

Concordo totalmente com o Tomas Vasques. Estas coisas alastram. Parece um simples caso de conflito entre uma cliente e uma empresa, a Ensitel, em torno de uma transacção efectuada. Mas vai-se a ler e é mais.
É o ABC do que não se deve fazer.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Cavaco vai processar Felícia Cabrita?

Cavaco vendeu abaixo do preço, escreveu Felícia Cabrita, no Sol. As acções da SLN foram compradas a 2,40 quando Oliveira Costa já as vendia a 2,75. Já há muito que me deixei de criticar os jornalistas. É uma parvoíce. Não serve para nada. A única coisa a fazer é esperar que os bons sejam mais e melhores que os maus. Mas neste caso é bom fazer a pergunta : porque é que Felícia Cabrita assinou uma notícia tão tendenciosa e mal feita?
Começa logo no primeiro parágrafo: Diz que Cavaco vendeu as acções por um valor inferior ao que Oliveira e Costa fixara "noutras operações de compra e venda". Lê-se o resto da notícia e não há mais nenhuma referência a valores de... compra, apenas uma carta de um accionista interessado num aumento de capital e que se propôe em Julho comprar acções por 2.75 (valor referenciado por Oliveira e Costa numa reunião do BPN), bem como referência a documentos sobre uma venda de acções do BPN efectuada no mesmo dia em que Cavaco vendeu as suas acções. Aliás, na parte final da notícia uma fonte do BPN explica que sendo acções que não estavam cotadas em bolsa não tinham qualquer valor de referência.
"As acções de Cavaco - adquiridas em 2001, por um euro cada- foram compradas pela SLN dois anos depois pelo preço unitário de 2,4, quando o preço que ela já praticava era de 2,75." Felícia Cabrita induz-nos a pensar que estamos a falar da mesma coisa, quando um valor é o de compra e o outro é o de venda. A minha pergunta é, porque é que Felícia Cabrita quer que eu pense que um banco compra pelo mesmo valor que vende?
Felícia Cabrita vai ao ponto de dizer que Cavaco e a filha perderam dinheiro
: ele "cerca de 36.682 " (refira-se o cerca de 36.682) e ela 52.374 euros porque compara o valor de compra pelo Banco com o valor de venda pelo mesmo Banco. Como se fosse natural um banco não ter nenhum lucro numa operação como esta. Mesmo admitindo esta lógica, absurda, mas para entrar no raciocínio da reportagem: não passa pela cabeça da Felícia Cabrita a oportunidade de perguntar porque é que um homem e a sua filha que de 2001 a Novembro de 2003 ganharam 1,40 com cada acção resolvem perder 0, 35 por cada acção a 17 de Novembro de 2003? O que é que era tão importante assim para fazer com que Cavaco e a filha abdicassem de um parte substancial de um pecúlio que era o resultado das poupanças de uma vida de trabalho, como têm defendido os seus apoiantes?
Estamos perante um jornalismo de investigação que não só não esclarece as questões que pretende esclarecer como ainda lança novas suspeições, como esta: " Cavaco e a filha tinham comprado as acções em Abril de 2001, directamente a Oliveira e Costa pelo mesmo preço que só este enquanto presidente da SLN podia adquirir: um euro". Podia vender? Como é que podia? Não estamos diante de "favorecimento em negócio"? E não é "favorecimento em negócio com prejuízo para quem vende, o banco"? Ou seja, Oliveira e Costa não estava a fazer concorrência ao Banco a que presidia sem ganho nenhum nem para ele nem para o banco que dirigia? "
Há uns meses quando entrevistava Hélder Costa sobre o Mistério da Camioneta Fantasma, ele revelou-me que ao investigar as verdades escondidas ía sempre procurar aquilo que os inimigos diziam, porque eles falavam a verdade. Talvez também se possa dizer que para ficar com as maiores suspeições sobre este negócio há que ler não quem contesta Cavaco, mas quem o defende.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Natal dos Simples

Por momentos fujo. Coloco o dvd de José Afonso no Coliseu e fujo. Para um tempo tão longe daqui. Se calhar tão perto. Amanhã. O Natal é uma altura festiva e, como quase todas as festas a que eu não consigo pertencer, seria, um pouco deprimente. Digo seria. Escrevi isso no facebook: como acredito em cada vez menos coisas, há cada vez menos coisas que me irritam, que me deprimem. E por cada festa de que não sou, há mil a que pertenço. Os anacronismos das manifestações de uma comunidade que domina ideologicamente o mundo, não me tiram nem a febre nem a alegria. O Natal é a catárse do consumo e essa apoteose consumista não se manifesta só nas coisas: também nas ideias.
Ontem estávamos a ver um filme sobre Jesus de Nazaré e não pude deixar de me lembrar o Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, e da sua versão sobre o deus-menino. Temos a tendência para apagar o trajecto do cristianismo como ideia dominante sobre o mundo: da perseguição, à inquisição, às cruzadas, ao concluio com o totalitarismo ( não esquecendo também aquelas tantas vozes que iluminaram as suas vidas de resistência com um evangelho que também bem pode, se a tal for convocado, defender os humildes). Talvez o façamos porque percebemos que esta ideia de deus, de um deus por vezes quase pagão nos seus altares e iconografia, está umbicalmente ligada à uma determinada ideia de homem e de mulher. Não podemos mudar os deuses em que acreditamos (ou descremos), mas podemos, e estamos, a mudarmo-nos a nós mesmos. E ao mudarmos, é também toda a nossa relação com o sagrado que se altera. A peça Miserere, da Cornicópia falava de forma inteligente e sensível, disso.
É um tema, a relação com o sagrado, para o qual me sinto cada vez mais inábil ( e desinteressado) em discutir e mesmo que o quisesse, não seria nunca no Natal que o faria. Há demasiadas renas e pombas estúpidas no ar. O que me interessa é absorver o bom que esta quadra natalícia tem. Os gestos de boa vontade. O repararmos nos outros. O pensarmos e planearmos a dádiva, a oferenda. A suspensão de estupidez violenta. Ainda não sei desejar um bom natal, mas já estive mais longe.

terça-feira, dezembro 21, 2010

As minhas redes sociais

A posição da secretária foi consensual entre nós dois. Permite ver uma nesga de rio, os paquetes de luxo, um pouco da estação de caminhos de ferro. Em frente a estante. Não são muito resistentes as do Ikea. Vão-se dobrando com o tempo. Os títulos diante de mim são tão sugestivos como a janela e tanto a estante, como a janela, perdem para essa outra window, a do facebook.
Vou desistir de dar tanto tempo ao facebook. O meu espaço natural é a blogosfera. É aqui que eu gosto de escrever, sempre foi. Provavelmente afeiçoei-me a este meio. Mais por vezes é menos. Gosto de ver os textos do Mora Ramos, sabe-me muito bem ir de tempos a tempos seguir as conversas inteligentes que António Pinho Vargas consegue ter com os seus amigos, é sempre delicioso ir ver o Paulo Pena a dar largas à sua paixão crítica pelo jornalismo, ou a Catarina Martins a defender as nossas causas comuns da cultura, mas em grande parte sinto-me algo desconfortável com o tipo de comunicação que este meio promove. Os likes, as aplicações, as causas, tudo isso me parece um esvaziar-me num conjunto de protocolos que não domino bem. A verdade é, não quero dominar. Gosto dos posts curtos que me permitem falar das bolachas de gengibre e canela, é um meio muito mais intuitivo no modo como faz partilhar a informação, mas excepto uma meia dúzia de casos de pessoas que conseguem utilizar a aplicação para um debate de ideias que me interessa, não me seduz. Eu próprio ando há dias para colocar em debate uma data de coisas que me apoquentam. E nada. Não consigo. Saber que vão ser lidas por setecentas e tal pessoas de universos tão diferentes como os meus grupos de escola, de bairro, amigos de rua, de prédio, ou pessoas que apanharam um texto meu aqui ou acoli e que me pediram para ser meu amigo ( ou pessoas a quem eu fiz exactamente o mesmo), apoquenta-me tanto como as coisas que, por me apoquentarem, pensei em trazer aqui.
Eu não gosto de dizer estas coisas assim - porque é um discurso muito permeável à ambiguidade - mas o facebook parece-me aliás uma coisa muito perigosa enquanto conformação de comunidades massificadas, condicionadas comunicacionalmente por dispositivos que escondem a manipulação que operam.
E ainda por cima com uma investigação à perna, vou ter de começar a ser menos anárquico, gerindo a minha participação nestas redes sociais. Até porque tenciono também utilizá-las, tanto na versão facebook como na versão blogue, para criar uma pequena comunidade de pessoas, em Portugal e não só, interessadas no desenvolvimento da escrita teatral portuguesa. Estou ainda a pensar em como o fazer, mas a coisa deverá passar por tentar migrar todos aqueles que são meus amigos ou conhecidos por causa das coisas do teatro, da escrita e da cultura, para o facebook Escrever para Teatro em Portugal, mantendo no meu facebook pessoal uma pequena comunidade restrita de amigos.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Temos que mudar tudo

Uma das coisas que mais gostei de ver ontem, foi esta ideia de que o descontentamento que motivou a greve não pode ficar por ali, pelo dia 24. Alguém ontem no facebook chamava a atenção para a necessidade da esquerda encontrar capacidade, ideias, gente, para conseguir promover ideias que permitam que as pessoas possam viver melhor. Entendo aqui a esquerda como um ponto de partida, não de chegada. Para isso a esquerda precisa de ser poder.
E precisa de ser poder reconhecendo que esta necessidade de conquistar o poder foi a grande armadilha que trouxe as tribos destroçadas da esquerda ao pesadelo existencial em que vivem hoje, entrincheiradas entre as formas de luta do passado e a angústia de terem dentro de si uma ideia de vida que sabem, sou dos que acreditam nisso, por ser mais solidária, por ser mais festiva, por ser menos reducionista e materialista, poderia levar as pessoas a viverem melhor.
Ou seja, sejamos claros: a esquerda tem não de conquistar o poder, mas tem de saber conquistar para o poder esta capacidade de o implodir, de o fragmentar, de o espalhar, de cumprir essa utopia da esquerda antiga, mas tão contemporânea, que é compreender que devolver o poder às pessoas é esse momento em que devolvemos ao poder, as pessoas. É voltarmos novamente ao face a face, mesmo que ele seja também este face a face tecnológico e digital em que nos encontramos neste momento.
Ou seja, temos de reencontrar o espantoso poder que vive em cada um de nós, na forma como nos transformamos numa energia que redobra quando olhamos o outro, nós no noutro, temos de ser capaz de implodir as ideias feitas de felicidade, de promessa de um mundo melhor que é, bem espremido, um monte de trampa seca, daquela que já nem fede. Temos de voltar mais uma vez á cultura e temos também de a implodir. As pessoas só vão viver melhor quando tiverem dentro dos seus sonhos uma vida melhor que seja mais consciente do que é vivermos num mundo partilhado, onde um conforto aqui é uma tempestade de ódio, violência e morte nas paisagems mais recônditas do mundo. Só, e repito-o mais uma vez, na aldeia global o recôndito dos lugares já não existe.
Quando começarmos a fazer este trabalho de mudança, os nossos representantes serão melhores. Mais atentos às nossas ruas.
Vivemos numa crise da sociedade da representação (raramente analisamos a crise na educação por este prisma e é por aqui que ela é mais dinâmica, mais interessante). Uma crise que é um desajustamento entre representantes e representados. Cada um de nós sente que tem uma identidade mais rica do que há dez anos e, paradoxalmente, sente que tem representantes mais pobres, mais toscos, mais limitados. Cada um é a expressão de si próprio. Como na Grécia há milhares de bárbaros lá fora que não acedem à internet, que não têm avatares, que não têm nicks, blogues, facebooks, twiters, mas através destes ágoras a democracia virtual criou uma cidade virtual que funciona como modelo do mundo inteiro.
Ao mesmo tempo que recusamos aos nossos representantes tradicionais essa capacidade de nos representarem ( a catarse Obama é, pela forma como parece baralhar tudo, bem um momento muito especial dessa crise da representação) e que parece que construimos a nossa identidade através de uma ligação indestrutível ao acesso à comunicação, somos tão frágeis que deixamos que a nossa angústia do existir se aplaque com mensagens comunicacionais que nos levam a consumirmos ideias de nós como se comêssemos chocolates.
Ideias de nós que são ideias redutoras de nós. Pequenos mitemas de avestruzes com a cabeça enfiada no pantâno. E zás, quando de repente me ia sentar ao computador para me ligar ao mundo fabuloso das redes de informação que suplantam a biblioteca de Alexandria - e vejamos o que isso é em filósofos, artistas, santos, criadores, estadistas, milhares de anos de história! - fico ali de olhos em bico, preso a um avatar numa quinta virtual, onde com cliques (nickles!) vou distribuindo presentes, afectos, gostos de isto (num leque de opções que não inclui o não gosto, apenas a desmarcação), gostos daquilo e de repente já estamos outra vez tão pequeninos, tão pequeninos, que até o ferrar roché do Ambrósio ou um esta semana o pingo doce tem para si, nos parecem o céu na terra.
Enquanto não conseguirmos resolver este problema de construirmos uma identidade onde a consciência do outro e do mundo seja maior, os nossos representantes, enquanto representação de nós, serão sempre uma merda. E o pior disso é que serão o nosso auto-retrato. Por isso o poder se aproxima tanto de um exercício esquizófrenico.
Temos de voltar aos lugares e à cultura. Nunca pensei nisso antes. Não tenho o hábito de pensar no país enquanto lugar. Não sou nacionalista, nunca fui, e esse desapego levou-me a ser incapaz de pensar em Portugal de uma forma original. Mas apercebo-me que o nosso país está provavelmente num lugar privilegiado, pela sua pequena dimensão e pela forma como não construiu memória, ou como a única memória interessante que conseguiu manter de uma forma persistente foi a de um tempo em que procurou sair de si mesmo. O modo, como ao contrário de outros países, nos libertámos da posse colonial talvez passe por aí. O território pesa-nos. Nós não somos conquistadores. Somos aventureiros. Vejo as coisas na perspectiva do teatro, este pequeno mundinho onde ainda vou conhecendo alguma coisa. Durante este último ano, através da colaboração que tenho com a Rua de Baixo, tive o privilégio de acompanhar mais de perto a produção teatral e cultural. E fui-me espantando, ao longo do tempo. Nós somos muito maiores, muito mais dinâmicos, muito mais aventureiros, do que poderíamos pressupor por aquele pequeno mapa que a Direcção Geral das Artes tem para se guiar na sua relação com a actividade teatral e cultural. Temos projectos que são farol no campo das artes performativas. Temos companhias que são candeias na noite para a actividade teatral internacional. Temos festivais e pontos de encontro que têm peso europeu. E se isto é apenas uma pequenissima parte do mundo que um ser privilegiado pode ver e ouvir sem sair de Lisboa, imaginem o resto.
Esta ideia esquizofrénica de poder estrangula tudo isto. Vivemos todos muito preocupados com o tipo que ganha três milhões de euros em prémios na PT. Estou-me ralando para ele. Não há, e estou-me a repetir outra vez, nenhum nós entre mim e um tipo que ganha três milhões de euros em prémios. Para mim é um doente, um doente sofrendo de uma patologia social que gostaria de ver erradicada. Da mesma forma que temos campanhas para combater a pobreza, os diabetes, o cancro, também deveríamos ter para combater a doença dos que ganham três milhões de euros em prémios e acham isso muito natural.
O que eu estou preocupado é em saber como é que posso contribuir para uma sociedade em que isto não seja possível acontecer.
Depois dos excessos nas manifestações anti-nato, gostei de ver a descrição do aparato policial ontem, a acompanhar a plataforma dos intermenitentes, que se dirigia para o Rossio. Quase pareciam manifestantes também...

quarta-feira, novembro 24, 2010

Greve Geral II

"A outra face da moeda é que esta greve geral é o espelho do impasse político da esquerda portuguesa (PS, PCP e BE). Por boas ou por más razões, não vou agora discutir isso, o sentimento dominante no país é, hoje, de um "anticapitalismo difuso", dominado pela percepção de que "os de cima" enchem os bolsos com as desgraças dos "de baixo" - e, pior, que nessa guerra os grandes têm todas as armas e os pequenos, nenhumas. Esse sentimento é alimentado por dados objectivos e por comportamentos ostensivos de certos agentes. Se as forças políticas têm o dever de representação, cabe perguntar-lhes, nomeadamente à esquerda, o que pensam fazer sobre isso. Como pensam traduzir isso em políticas, em soluções alternativas. Manifestamente, nenhum dos partidos que, a nosso ver, tinham obrigação de pensar nesses termos, se tem mostrado à altura da tarefa. Se a esquerda, como um todo, continuar a não se entender minimamente sobre uma estratégia de desenvolvimento sustentado para o país, será a direita, civilizada ou trauliteira, a ter a oportunidade de testar as suas soluções. Ou, terceira opção (não opção), o país acomoda-se a fazer o que tem de fazer muito mais devagar do que poderia ser, com maior dispêndio de energias do que seria necessário, envolto em permanente conflitualidade, com legitimidade diminuída provocada pela promessa de distribuição injusta do esforço e da recompensa. E, note-se, se os acomodados, os moles e os oportunistas navegam no barco do esforço dos outros, temos aí uma forma de distribuição injusta. É para este complexo de questões que esta greve geral não dá pistas. Protestar é legítimo, sem dúvida. E devemos estar satisfeitos de viver num país onde se pode fazer uma greve geral em liberdade. Mas, só com essa face, a moeda não rola."
Porfírio Silva, em Máquina Especulativa

terça-feira, novembro 23, 2010

Greve Geral, não obrigado

Aproxima-se a greve geral. Estou dividido entre a minha percepção da realidade e a construção social da realidade que, em diferentes níveis, me envolve.
1. A mesma revolta. Partilho da revolta daqueles que, justamente, sentem que são os rendimentos do seu trabalho que vão financiar o esforço que o Estado tem de fazer para diminuir o défice das contas públicas. Como partilho da revolta daqueles que, justamente, sentem que o enfraquecimento das políticas sociais, os fragiliza numa altura em que mais precisavam delas. Fico também preocupado quando vejo que o IVA vai subir. Partilho também da revolta, e da mais profunda estupefacção, quando vejo que, só para não pagarem os impostos devidos em 2011, há uma corrida aos dividendos por parte de empresas públicas. Ou quando vejo os inúmeros casos de uma gestão perdulária, insensível, e até criminosa, face ao interesse público que, partindo de todos os lados, inunda as nossas caixas de correio, os nossos facebooks, os nossos blogues (seja o assessor a,b,c ou d, seja o veículo anti-motim, sejam os submarinos, sejam as festas e os festins, as cerimónias e as honrarias). E não tenho dúvidas de que grande parte do caudal que vai fazer greve no dia 24 será por pessoas que se sentem revoltadas com as situações que atrás descrevi. E se assim é, porque é que, assumindo este ponto de vista, não irei estar com eles?
2. As bandeiras da greve geral. Não sou economista nem me vou fazer agora economista à pressa. Embora, como todos nós, me tente socorrer (é por isso que eu louvo aqui tantas vezes o Geoscópio) de informação, sei que as minhas reflexões são, neste campo, muito frágeis.
Mas, se bem percebo os motivos da greve geral, e eu de facto tentei encontrar aqui e ali expressões que me ajudassem a perceber porque é que as pessoas iam fazer greve , eles vão , em primeiro lugar contra a forma como, no próximo ano, o OGE vai agravar a vida dos portugueses mais desfavorecidos. Desfavorecimento que sentem que é feito em linha com os benefícios quer daqueles que têm mais rendimentos e que não os declaram, quer daqueles que têm privilégios e isenções nos impostos(o caso escandaloso da Banca, que soma lucros fabulosos). Outro objectivo que encontrei transversal, em toda a gente com quem falei, é a de que eles são um protesto contra a forma como temos sido governados. Esta frase"como temos sido governados" tem uma espectro político muito amplo o que permite incluir aqueles que acham que este Governo não presta, aqueles que acham que qualquer governo saído da alternância política que está instalada no poder desde o 25 de Abril, nomeadamente, a do grande centrão, não presta, e aqueles também que acham que todos os políticos, socialistas, comunistas, centristas, sociais-democratas, bloquistas, verdes, não prestam. Não é retórica. São as coisas que as pessoas com quem falei me disseram.
3. O OGE de 2001. O OGE é um orçamento mau para a economia, dos portugueses. Esta é uma ideia quase consensual à direita e à esquerda do PS. Dentro do próprio PS, e para além da discussão e revolta que o orçamento sectorial para a área da Cultura significou (cujos cortes não estão em linha com aquilo que são os cortes do OGE) também será mais ou menos consensual que este orçamento não é bom para a economia dos portugueses. E se assim é, a primeira questão que se coloca é: porque é que este governo fez um orçamento mau para a economia dos portugueses?
Sem dúvida que há um crescente número de pessoas que responderá imediatamente que é porque o governo não presta. No BE, o PP, o PSD, o PCP, na CGTP, será a resposta mais consensual. E não surpreenderá ninguém. A minha questão é: porque é que cada vez mais pessoas que votaram neste governo, concordam que este é um mau orçamento para a economia dos portugueses? E porque é que o Governo de José Sócrates, mesmo na óptica dos que o apoiam, fez um mau orçamento para a economia dos portugueses?
Antes disso há que lembrar uma das ideias que o debate pré-orçamento dramatizou até à exaustão: um mau orçamento será sempre melhor do que a inexistência de um orçamento.
Ou seja, sendo suportado por uma maioria relativa no parlamento, nunca se configurou que este orçamento pudesse ser bom. Ele esteve sempre no limbo entre ser mau ou o ser péssimo, ou seja, por duodécimos. E creio que toda a gente reconhece que, mesmo sendo um mau orçamento para a economia dos portugueses, ele é um melhor orçamento depois da negociação com o PSD. Quer dizer, nem toda a gente. Mesmo que reconheçam que sim, que pode ser menos gravoso para a economia dos portugueses, provavelmente vão pensar que é pior, porque suportado politicamente numa maioria parlamentar capaz de o viabilizar. Para esses, um bom mau orçamento teria sido sempre um orçamento que morresse no Parlamento.
Se o OGE 2011 é mau para a economia dos portugueses, e por isso tantos ódios internos suscita, a verdade é que externamente, naquele tal plano onde a nossa economia tanto se tem degradado nos últimos tempos, ele tem angariado aplausos e congratulações e pode vir a ser fundamental para voltar a credibilizá-la, o que se tornaria bom para a nossa economia. Que estranho que isto é! Um orçamento que é mau para a economia dos portugueses, poderá vir a servir para credibilizar a economia portuguesa no exterior, sendo que dessa credibilização, todos o sabemos, poderemos nós todos vir a obter dividendos?!
O que remete para uma questão final sobre o orçamento: poderia este Governo - mesmo na estrita lógica dos que, de uma forma geral, o apoiam - fazer um bom orçamento para a economia dos portugueses que fosse simultaneamente um bom orçamento para credibilizar externamente a nossa economia?
Tendo até agora, de uma forma geral, apoiado este governo, devo dizer que não acredito nisso. E não acredito por várias razões.
A primeira é a de que um orçamento que credibilizasse externamente a nossa economia deveria propor medidas que, num espaço de um ano, garantissem a diminuição do deficit nacional. Como o fazer de uma forma eficaz, apenas num só exercício orçamental? Sem reduzir na despesa pública só pelo aumento das receitas. Ora quer o aumento das exportações, quer o aumento da receita fiscal através de uma maior eficácia da máquina fiscal são, num quadro recessivo, medidas que não convenceriam ninguém. A diminuição da despesa do Estado, é, no mesmo ambiente recessivo, um cenário que, para além da cosmética, não é controlável apenas num exercício orçamental. Toda a gente sabe isso. A componente da despesa que fornece mais garantias de um resultado imediato na redução da despesa pública são os salários da administração pública, é o IVA, o IRS, a diminuição de apoios sociais.
A segunda grande razão é a de que quer os nossos rendimentos do trabalho, quer os rendimentos das empresas, estão estruturados de uma forma injusta e desigual. Ou seja, não é possível fazer um Orçamento que proponha cortes nos salários que seja justa quando a estrutura salarial do país é injusta, desigual e reflecte a irresponsabilidade social com que vivemos em comunidade. Tudo isso tem a ver (lá sou eu a tentar valorizar a Cultura) com uma ideia cultural atamancada de não reconhecimento de cada um numa comunidade maior, que depois, nos seus múltiplos aspectos leva à desresponsabilização e à não comparticipação de muitos na economia da comunidade e não se regula nem por decreto nem se materializa num só ano.
A terceira razão para eu pensar que, mesmo reconhecendo qualidades no trabalho governativo, este Governo não tinha capacidade para fazer um Orçamento para 2011 que fosse simultaneamente um bom Orçamento para a economia dos portugueses e para o relançamento económico externo do País, é porque ele está em franco declínio. Não só é um governo em quebra acentuada de popularidade, em que o seu líder tem sido sistematicamente abatido politicamente (hoje é quase um dogma político em muitos sectores políticos e sociais dizer-se, com ar pio e contricto, que José Sócrates é um aldrabão, um incompetente, um vigarista mesmo que, até agora, todos os processos judiciais em que foi envolvido não tenham concretizado nenhuma acusação contra ele), como um governo sustentado por uma maioria relativa que na Assembleia da República (pela convergência entre PSD, PP, PCP e BE na critica ao Governo) se transformou as mais das vezes numa minoria.
Como é que um Governo nestas condições poderia ter a força e a capacidade para fazer de um orçamento, que seria sempre um orçamento de crise, portanto um orçamento que frusta expectativas, um orçamento que a comunidade aceitasse como necessário e até, um bom mau orçamento?
4. As alternativas. Sempre que se fala da má forma como este orçamento promove o corte na despesa pública - o que já vimos, é verdade - toda a gente apresenta alternativas. A primeira era taxar o capitalismo financeiro, os bancos, as fortunas, os ricos que não contribuem, as empresas públicas que fogem com dividendos. E depois, a segunda grande medida, era desengordurar o Estado, e para isso apresentam exemplos, os tais emails, as mensagens no facebook, os ficheiros ppt que circulam pela internet. Falam como se fosse assim tão fácil como ir ao Concurso Peso Certo, passar uns meses a tratamento rigoroso e, onde antes havia um ser amorfo, pesado, morbidamente obeso, colocar um jovem garboso, musculado.
É claro que devemos reduzir a gordura na despesa pública. Mas todos sabemos que esse é um lado da despesa que não é facilmente controlado. E pior do que isso, cuja concretização pode não ter o grau de eficácia que se necessita, muito menos no horizonte de um ano. Podem fazer-se as listas mais abrangentes de proposta de extinção dos organismos públicos, direcções gerais, observatórios, altas-autoridades, podem cortar-se em gastos de exercício, ou no que a nossa imaginação e bom senso nos sugerir. Uma coisa é certa: o tempo de execução dessas medidas, o impacto que elas possam ter a montante noutros custos do Estado, é de molde a fazer perigar qualquer esforço sério de contenção da despesa pública.
Todas as alternativas que tenho ouvido são boas, umas melhores que outras é certo, mas quase todas elas tem um problema: umas não são executáveis durante um ano, outras não são executáveis por um governo fragilizado.
Nem relevo a circunstância de muitas destas medidas alternativas não serem de boa fé. Cabe na cabeça de alguém que um sindicato que se dispõe numa altura destas a fazer uma greve geral porque, contra aquilo que lhe tinha sido prometido, há uma redução salarial, possa propor medidas de desengorduramento do Estado que acarretem o despedimento massivo de trabalhadores? Ou alguém está a pensar que o desengorduramento do Estado seja apenas conseguido com o despedimento daqueles assessores pagos principescamente com cujas histórias, diariamente, nos anestesiam?
5. Cultura da responsabilidade. Não saímos deste beco onde estamos atolados todos, e não só nós enquanto país, a Zona Euro está toda sobre o mesmo céu de incerteza, se não começarmos a desenvolver uma cultura de responsabilidade. Em vez dos culpados são eles, é, qual é a minha responsabilidade? Eu começo desde já por assumir uma: ajudei a eleger este Governo do Partido Socialista. E não estou arrependido. Tenho até grandes dúvidas de que, individualmente, outra qualquer força política governasse melhor num cenário de crise como aquela em que vivemos. Eu ainda me lembro de como a tripla Durão, Portas e Manuela Ferreira Leite salvou o país da bancarrota socialista. Quanto à esquerda, a esquerda do PS tem sido bem o retrato do escorpião que vai matando e queimando tudo à sua volta. Precisamos de novos lideres, precisamos de novos movimentos políticos, precisamos de novos líderes sindicais (já viram a forma como eles se eternizam no cargo? As nossas democracias vivem pejadas destas bolsas anti-democráticas que concorrem para o fracasso do sistema de representação.) precisamos principalmente de novos governados. De uma outra cultura da governação e do poder.
O país já está em greve geral. Há medida que fui acabando o meu texto, fui percebendo que não tinha nenhuma razão substantiva para aderir à greve. Era algo que eu já pressentia mas que me custava admitir. Há no direito à greve, no seu exercício um complemento de solidariedade e de romantismo que estão presentes no caldo humanista em que me formei. Pelo que tenho visto em meu redor há uma mobilização convicta de pessoas que pensam que estão a combater o grande capital, as injustiças e as desigualdades sociais, este (des) governo, todas as formas de (des)governo. Eu não penso, tenho de divergir neste ponto. Não posso no entanto deixar aqui um desejo: que haja sol amanhã quando os manifestantes descerem do Marquês para a Av. da Liberdade. As ruas cheias de pessoas, um país parado, merecem o calor de uma tarde tisnada pelo sol. Nem que seja o sol das nossas vidas.

sábado, novembro 20, 2010

A desigualdade e a injustiça

Há muito que ando a adiar esta conversa com ele. Explicar-lhe a desigualdade e a injustiça. Temo sempre que ainda não seja o tempo adequado. Hoje, não sei se por causa da proximidade com a greve geral, se por causa desta Cimeira da Nato e da repressão da liberdade de expressão que ocorreu, pensei que seria o momento mais oportuno. Já caía a noite na rua, abri a janela para o chamar. Cá em baixo brincava com os seus novos amigos. Dois rapazes e uma rapariga. Um dos rapazes é bastante mais novo do que todos os outros. Estavam a jogar às escondidas. O mais pequeno contava. Um, dois, três, quatro, cinco...até dez. Não sabia mais. Contava duas vezes. Os outros, entretanto, escondiam-se. Quando acabava a contagem, o mais pequeno tentava descobrir os outros. Descobriu o meu filho. Que nem fez muito esforço para se esconder. Mas o mais pequeno não foi ao muro dizer o seu nome, bater com a mão e dá-lo como morto. O mesmo aconteceu com todos os outros. Que se riam a bandeiras despregadas do mais pequeno a quem não tinham ensinado bem as regras. E retomaram o jogo, uma, duas, três vezes. É claro que o mais pequeno ficou sempre a apanhar os outros. Fechei a janela. Acho que cheguei tarde, demasiado tarde para lhe explicar o que é a desigualdade e a injustiça. Devia ter começado mais cedo.

quinta-feira, novembro 18, 2010

O tempo não existe

Há medida que crescemos, muda a nossa relação com o tempo. E, simultaneamente, a nossa relação com a morte. O tempo é um brinquedo demasiado complexo para o sabermos entender com dez, vinte, trinta anos. É claro que sem isso não conseguíriamos viver. Seria insuportável. Há um desconhecimento do tempo que nos permite agir. Estamos certos em não percebermos o tempo. Mas depois, chega uma hora emque tudo se desfaz. Como se um torrão de areia se esbroasse. Percebemos então que em cada grão de tempo que escorre na ampulheta estão agrilhoados, em estado de libertação, pelo menos, 3 tempos: o tempo que é, o tempo que não é, e o tempo que poderia ser. E digo pelo menos três tempos porque é isso mesmo que podemos perceber. Todos os outros tempos, como por exemplo o cósmico, esses, não os atingimos ainda.

Bobby McFerrin & Maria Joao

Comove-me isto. Expressão e diálogo artísticos misturados com a brincadeira de quem respira música por todos os poros.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Trava-tempo

Ontem descobriu que, aqui na nova casa, ao fim de semana, há crianças que vêm visitar os avós e que podem ser amigos novos. Três rapazes e uma rapariga. Fez como fazem todas as crianças. Levou uma bola para a rua e ao fim de cinco minutos já estavam todos a dar pontapés nela. No fim, quando chegou cá acima, perguntei-lhe pelos nomes deles:

- É o Vicente, o Mário...e o outro não me lembro.

- Faz um esforço.

- Era o Filipe.

- E a rapariga?- insisti.

- A rapariga,pai?!

- Não te lembras do nome da rapariga?

- Claro que não, pai.

Sorri com este trava-tempo. Daqui a uns anos irá lá abaixo e, quando voltar, só o nome da Mariazinha será eterno nas árvores do jardim da Feira da Ladra.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

O dia dos meus mortos é também o dia da minha vida

Podia ser um poema. Não é. É uma coincidência. Há três anos que coincide. Há três anos que no dia em que esse carreirrinho de talvezes em que nos tornámos (era assim que o Armindo S. escrevia, em o Balancé de Eus) caminha para os cemitérios, para as campas, para os túmulos, para os jazigos, nós os dois procuramos o mar, seja lá onde for que ele se encontre. Procuramos o mar, o silêncio, até aquele frio do vento em Novembro. Faz bem à pele o vento cortante do primeiro de Novembro, dia em que os nossos mortos hão-de esperar, pacientemente, a sua vez. Há uma vida por viver.

O Mito, passo a passo

Foi um momento especial na excelência de conteúdos do jornalismo em directo. Cavaco Silva estava lá dentro da sua sede de campanha e o jornalista cá fora. Tinha entrado por uma porta, o jornalista indicou-nos uma porta ainda coberta por papéis - ele que também andava, literalmente, aos papéis - iria sair por outra, e o jornalista - a excelência de conteúdos a quanto obriga! - indicou-nos também a porta por onde presumivelmente Cavaco sairia. Entre isso houve nada porque nada havia para dizer, porque nada Cavaco queria dizer, porque nada o jornalista conseguiu apurar. Na noite negra da excelência de conteúdos o momento in da noite ainda foi o jornalista a cerrar os olhos e a partir para outra. Em directo.

domingo, outubro 17, 2010

A Verdade e a Política

Estão tempos tramados para a expressão de quem acreditou no trabalho deste governo e do Partido Socialista. Dou uma vista de olhos pelas páginas de alguns amigos e apercebo-me disso. Não vale a pena baralharmo-nos com a incapacidade de Passos Coelho. A governação de Sócrates foi eleita como o grande desastre (e o trabalho, agora percebe-se, criterioso e permanente, do seu desgaste político mais ajuda ao descrédito (até eu quando olho para o seu nariz já o associo, instintivamente, ao Pinóquio) e torna-se insensato opôr outras ordens de razão. É no entanto nestes momentos que é mais terrível a demagogia e não poderemos libertarmo-nos dela enquanto não descobrirmos qual a responsabilidade que o nosso modo de estar na comunicação a propicia, a estimula.
Se queremos a verdade, preparemo-nos para ela.

terça-feira, outubro 12, 2010

Mês a mês

farol

Ao menos isso nesta posta quase renegada: o post mensal é feito de vontade. Passa-se o tempo e começa a crescer em mim a vontade de não ficar pela meia dúzia de linhas facebookianas. Mês a mês a situação política degrada-se. E os países ricos e pobres da Europa com as suas crises financeiras, estão virados para dentro de si mesmos. O facto de estarmos virados para dentro de nós mesmos quer dizer que estamos menos atentos à dinâmica global do mundo mas não quer dizer que esta pare. "- Parem o mundo que eu quero olhar para o meu umbigo!". Não é assim que as coisas se passam. Os jornais do mundo perderam o interesse. O próprio Irão, o Afeganistão, a Coreia do Norte, o Paquistão, a Al-Quaeda, todos os lugares e todas as forças que para nós desafiam a paz do mundo, deixaram de existir. E estes eram os que nos assustavam. Os outros, os que nos comovem, os refugiados, os exilados, os sem terra, sem pátria, sem que comer, sem que se vestir, as crianças desvalidas de qualquer tipo de sorte ou fortuna, esses, aguardam vez no guichet do mundo e da sua política. Só por arrogância nossa é que poderemos pensar que por não lhes darmos importância, eles deixaram de existir. O mundo não deixou de ser global. Nós é que deixámos de ser capazes de o pensar globalmente, excepto na santa aliança dos mercados financeiros com as divídas públicas e privadas.
E mesmo assim, todos os dias, são dias. O sol acorda ali no mar da palha e quando se deita, do outro lado de cacilhas um pequeno feixe de luz aguarda a sua vez para nos guiar pelo breu do mundo. E se for segunda-feira hei-de sair pelo menos ás nove, desvairado, para irmos ver o filme. E se tivermos sorte, ou se acreditarmos na nossa sorte, na onda de ficções com legendas, com actores conhecidos, com enredos referenciados e estrelados pela crítica, diremos diante de "Vai com o vento", em uníssono, "olha, apetecia-me ver este." E vamos mesmo ver esse. "Vai com o Vento" do Ivo Ferreira, mais uma curta, Estrangeiro, que tem um texto delicioso. Nunca mais vou olhar um chinês ou uma chinesa da mesma maneira. A partir de agora são gente, gente como eu, ou tu, ou nós. Dois filmes deliciosos de um cineasta novo mas que já tem uma imagem do mundo muito própria. E - não tivesse ele crescido tão dentro do teatro - que tem um ritmo, uma musicalidade, uma escuta tão forte. A voz do narrador chinês é narração-prazer. Todos os dias são dias e as noites também são dias, novos dias.

segunda-feira, setembro 13, 2010

O meu dia 13

Ela fala, no dia 13. O dia 13 de Setembro é um dia importante no calendário mariano relativo às aparições de Fátima. Sei isso porque durante muito tempo a minha mãe, mesmo sabendo que metade dos seus filhos eram agnósticos ou ateus, nos tentou consolar por aquele 13 de Setembro de 1994, dizendo que a Mãe de Jesus tinha vindo buscar o nosso pai. É por causa disso que me lembro pormenorizadamente de todo esse meu dia, desde manhã cedo, em que fui fazer um anúncio para a Telecel, até à hora do almoço quando a minha primeira peça saiu nos Donos da Bola da SIC, passando pelo fim do dia quando soube, de sopetão, que o meu pai já se tinha ido embora deste mundo. Aceitar a morte daqueles que fazem parte de nós é um dos trabalhos mais importantes a que podemos dedicarmos-nos e a nossa vida, e a daqueles que nos rodeiam, ganham quando isso acontece. Crescer não é apenas fazermos o que as expectativas desenharam para nós. Crescer acontece quando percebemos que a responsabilidade que podemos ter na melhor vida do mundo à nossa volta é a responsabilidade que quisermos tomar como nossa. Amar a delicadeza. Desfazer-me em fumo e delicadamente dizer, a morte e a vida no mesmo quadrante. Tudo isto serem palavras e mesmo assim, nos escombros depositados nas palavras, haver um princípio activo. A vida é um fenómeno comovente. Ou que só atingimos verdadeiramente quando nos comovemos.
Ao lado do cais de embarque dos ferrys em Cacilhas há, desde há um ano, um farol. O ferro fundido, cuidadosamente pintado de vermelho já está, na base, coberto de rabiscos de amo-te teresas, vanessas, corações mal desenhados, frases bombásticas. Um farol plantado na praça é, do ponto de vista da arquitectura, ainda um farol. Mas não é um farol na verdadeira acepção do termo. Um farol tem de ser um lugar de solidão, um lugar separado do resto do mundo. Seja lá o que for o mundo, um farol é um lugar que comove quanto mais não seja porque nos lembra que guiar pela noite escura, seja na poesia, na escrita, no teatro, na pintura, na arquitectura, na própria política, é um lugar de uma tremenda solidão. É como se a humanidade, enquanto lugar povoado, só garantisse visibilidade do seu sentido, do seu devir, através do despojamento existencial.