O blogger zangou-se comigo. Ou isso ou um vírus. Um simples post demora-me imenso a escrever. As palavras não surgem instantaneamente. Vão percorrendo lenta, lentamente a superfície em branco. Enquanto eu desespero. Ou isso ou um vírus.
O real como imposição cansa. Estou sentado numa tasca de bairro. É hora tardia, venho sempre em desespero quando já é a hora do pessoal da cozinha vir almoçar. Diverti-me a imaginar nas duas cozinheiras mais velhas, fortes, atarracadas, as mulheres jovens que a cozinheira mais nova, a da esquerda, é. A esta imaginei-a mais velha. Velha e gorda como as suas outras duas colegas de copa. Este real assim, um carreirrinho, cansa. De repente, para não as querer torturar no meu olhar de mirone, descubro-as no azulejo da parede. E parecem-me personagens de Bordalo, de Goya, deVelasquez. Ganham uma dimensão de revolta contra o circulozinho vicioso em que se enovelam as suas vidas. Quem disse que a arte não liberta?
Quando olhamos para a realidade politica e nos vemos a partir de quem nos representa, viramos a cara para o lado, negamos que sejamos nós neles. É uma reacção quase infantil entre representante e representado, tal e qual como vi, em lugares onde trabalhei com crianças com problemas de auto-estima, quando fazíamos jogos com o espelho. E que fugiam da sua própria imagem. Ou que baixavam os olhos, envergonhados, quando se miravam. O quê, eu sou este? Custa a aceitar que aquela perfeição que em nós habita possa ser tão imperfeita. Não há construção identitária que não comece por aqui, pelo desmame dessa imagem de perfeição que tanto nos securiza mas que também, tanto nos limita o crescimento. Ou que provoca a destrutividade, a violência aniquiladora. Arno Gruen avisa-nos tanto sobre este fenómeno profundamente humano. Eu não sei que grau de percepção disso tem cada uma das pessoas que desceram comigo a Av. da Liberdade. Sei apenas que esta circunstância agorética, presencial, de descermos uma avenida em conjunto nos começa a transformar por dentro. A sermos capazes de ouvir algumas coisas duras que temos de escutar de nós mesmos. Não as podemos escutar enquanto não soubermos que as podemos mudar. Somos livres de não entender o quanto a exploração humana e a própria barbárie civilizada a que chegou a nossa presença neste mundo, estão intimamente ligadas à forma como vivemos. Podemos começar por olhar para imagens como as dos salários monstruosos dos gestores públicos, entre outras anormalidades da nossa vida social, mas um dia teremos de chegar às imagens mais aproximadas, àquelas que falam mais de nós, àquelas de que somos mais responsáveis. E aí vamos ter de perceber que em vez de podermos gritar palavras de ordem contra um Estado que não realiza todos os nossos sonhos temos de ser capazes de ter uma vivência solidária dos recursos disponíveis. É por isso que o dia de hoje pode ser tão importante. Porque se não podemos escutar as coisas duras que temos a dizer a nós mesmos enquanto não as pudermos mudar, também só as poderemos mudar quando descobrirmos que somos fortes e que onde está a nossa força. E hoje descobrimos onde ela está. No estarmos juntos. Juntos todos aqueles para quem a ferida da representação causava sucessiva incapacidade de perceberem quando e como podiam participar porque já não se reviam no voto bem comportado e com regularidades bem determinadas. Podemos descer uma avenida juntos, e depois virem dizer que havia, naquela multidão pacífica - ou seria, pacificada?- gente da extrema esquerda, da extrema direita, da direita, da esquerda, do centro.
Somos fortes, esta é a nossa força.
Há um problema insanável na questão da precariedade e que, como tudo na nossa vida, só pode ser resolvido de duas maneiras. Ou com demagogia (há quem lhe chame irrealismo) ou com solidariedade (os que chamam a demagogia de irrealista outorgam esta de realista). Não creio que haja em teoria uma maneira melhor que a outra. Na experiência humana tudo é defensável, tudo é contextualizável, admito que possa haver contextos em que uma pitada de demagogia seja o sal motivador, o espectro político tem um lastro imenso, inesgotável, neste território denso, de paisagens em espelho o que nos salva é a ideologia, ou seja, a pertença de cada um a uma determinada concepção do mundo. O que torna uma ideia mais adequada do que a outra é o tempo que temos para as aplicar. Como em tudo na vida.
A demagogia parece que não é uma resolução, mas é. Não havendo condições para criar um estado de alarmismo que leve os sujeitos a olharem de frente a sua vida, a demagogia é entendida muitas vezes politicamente como um modo de manter a coesão social. Quando eu digo politicamente quero dizer por governantes e governados. Não há forma de enfiar a cabeça na areia: a democracia é partilha da responsabilidade. O que diríamos nós de um Governo que não havendo ainda perspectivas de crise dissesse que iria defender a diminuição de salários reais, o abaixamento de pensões, o aumento da inflação, o corte da despesa pública, o desinvestimento, a perda de regalias adquiridas para garantir um melhor futuro a longo prazo? Se alguém for capaz de levantar o braço e dizer sim receio estar diante de alguém que tem a mesma hipocrisia política que a rua aponta a José Sócrates. A demagogia leva-nos a exigir que o Estado possa fazer-nos ter como seguro o que é precário. Queremos que os nossos filhos estudem e tenham um bom emprego, queremos poder continuar a ter como segura a nossa reforma, queremos ter os nossos empregos públicos, queremos conviver com deus e o diabo no mesmo quadrante.
Não adianta grandes considerações mas a verdade é que muitas pessoas pensam que não é a democracia que nos governa, sim a demagogia. E têm razão e aí começa a ser um bocadinho difícil defender, como fiz no ínício do texto, aquela ideia cínica de que não haja, entre a demagogia e a solidariedade, nenhuma que seja melhor. Para todos os que defendem a superioridade da democracia, a solidariedade e o realismo são melhores do que o irrealismo demagógico.
E isto porque a demagogia tem tendência a absorver e a anular todo o corpo democrático deixando-lhe apenas a sua imagem exterior. Ela vive da desregulação, da bondade dos principios desarticulados. Cada um dos pequenos espaços de pressão arranjam um espaço de legitimação para a salvaguarda de medidas que são analisadas dentro de um universo de razões que tendem a legitimá-las. É claro que para cada um de nós que vivemos uma ideia democrática, face à emergência de um estado de carência acentuado e até, uma bancarrota do país, é absolutamente criminoso o pagamento de honorários e prémios a gestores públicos nos valores que foram divulgados muito recentemente pelo CDS e que há muito circulavam nas nossas caixas de correio electrónico. Não é um assunto que possa sequer ser discutido, ponto final. No entanto, estes gestores pertencem a empresas reguladas publicamente. Ou seja, no micro-estado soberano em que foram definidos aqueles honorários eles estão de acordo com um conjunto de articulados que gabinetes de recursos humanos, jurídicos e de finanças elaboraram defendendo-os e legitimando-os.
E porque a demagogia tem em si o antídoto para aqueles que a denunciam - já que a demagogia é um estado geral que percorre toda a estrutura da vida pública desde aquele que se levanta todos os dias para ir a um emprego onde não faz a ponta de um corno mas recebe todos os meses o seu salário, àquele que no panteão dos deuses demagógicos saca um milhão e meio de prémios de produtividade por gerir uma área sem concorrência - e porque ela vivifica numa sociedade que apenas tendo o aparato democrático, torna-se dificil pensar que é possível uma comunidade mudar de uma governação baseada nos principios da demagogia, para os princípios do realismo sem ocorrerem mudanças violentas ou até, mudanças de regime.
Nestes termos a demagogia é uma doença instalada no corpo democrático, que lhe vai comendo os tecidos, as células, as moléculas, os atómos, tudo. É por isso que o zénite do estado demagógico é a emergência de regimes totalitários porque parece que foi a democracia que nos conduziu a este atoleiro. E não foi. Há uma rima pobre da demagogia que também tem sérias responsabilidades. A hipocrisia. A hipocrisia é por exemplo vituperar o Estado Social, fugir aos impostos e depois achar que a saúde, a educação, a cultura estão enfraquecidas. Ou estar há num trabalho onde não se faz nenhum, onde a produtividade para o bem comum é escassa e depois achar que se ganha pouco, que não se podem perder regalias, que a culpa é dos chefes que não os põem a trabalhar. Ou ser deputado da república , usar e abusar dos requerimentos para não fazer nestum, encher-se com as tenças, as reformas precoces, as partilhas público-privadas e depois assumir uma critica ao laxismo e despesismo do Estado. Ou ser gestor público, definir sacríficios orçamentais públicos e abotoar-se com principescos salário e prémios e toda a sorte de complementos de vencimento. Ou ser jornalista, desmascarar todos os dias casos de favorecimento e prejuízo para a causa pública e aceitar viver um sistema de saúde e de previdência excelente que sai dos bolsos de todos, também daqueles que têm de se contentar com um sistema de saúde geral. Ou ser funcionário do Estado e ter regalias próprias, adquiridas em momentos em que os interesses corporativos conflituavam abertamente com os interesses da comunidade.
Hipocrisia, demagogia, rimas pífias de um verso podrido. É um grande problema, claro, até porque, quando alguns de nós começam a reparar que vivemos mais num estado demagógico do que num estado democrático, a grande guarda ideológica da demagogia cai em cima de nós e força-nos a reconhecer que o aparato do estado em que vivemos ainda é o da democracia.
O que fazer então em relação à precariedade em vez de uma resposta de sentido múltiplo torna-se numa via de sentido único: face ao tempo que nos resta (a nossa dívida já é 90% do PIB) o grande combate, a grande luta, é a tomada de consciência e o assumirmos, por parte dos governantes, solidariamente a perda de privilégios, de regalias, de partes do vencimento, seja lá do que for, e da parte dos governantes, assumir-se a verdade, a informação, a austeridade, a limitação exemplar da despesa pública, dos benefícios exdrúxulos. E para isso, neste contexto, com um Presidente da República e um Primeiro Ministro que, mais do que a coesão, suscitam a crispação nacional afigura-se difícil a resolução deste problema no actual quadro político. Isso só nos tem levado a uma forte ideologização de decisões que agora deveriam poder estar mais ligadas à sensatez do que ao antagonismo ideológico.
O que é um problema muito grande: é que também não se afigura muito luminosa a possibilidade de um verdadeiro novo quadro político se o pensarmos exclusivamente a partir da representação política sentada na Assembleia da República. O baralhar e dar de novo seriam apenas uma perda de tempo. Enquanto a política não poder receber os contributos activos dos movimentos de cidadania que surgem, nada de verdadeiramente novo se passará em Portugal. É por isso que é tão importante crescermos juntos na tomada de consciência de que mais do que melhores governantes, temos de ser melhores governados. E é por isso também afastar aqueles que querem levar a manifestação de dia 12, para o campo da hipocrisia e da demagogia. E pensar que, para além do dia 12, há mais 30 ou 31 dias no mês. E que a Primavera está à porta. Deveremos trazer a alegria da luta às praças, ás ruas e avenidas.
Felícia Cabrita vai ao ponto de dizer que Cavaco e a filha perderam dinheiro : ele "cerca de 36.682 " (refira-se o cerca de 36.682) e ela 52.374 euros porque compara o valor de compra pelo Banco com o valor de venda pelo mesmo Banco. Como se fosse natural um banco não ter nenhum lucro numa operação como esta. Mesmo admitindo esta lógica, absurda, mas para entrar no raciocínio da reportagem: não passa pela cabeça da Felícia Cabrita a oportunidade de perguntar porque é que um homem e a sua filha que de 2001 a Novembro de 2003 ganharam 1,40 com cada acção resolvem perder 0, 35 por cada acção a 17 de Novembro de 2003? O que é que era tão importante assim para fazer com que Cavaco e a filha abdicassem de um parte substancial de um pecúlio que era o resultado das poupanças de uma vida de trabalho, como têm defendido os seus apoiantes?
Ontem descobriu que, aqui na nova casa, ao fim de semana, há crianças que vêm visitar os avós e que podem ser amigos novos. Três rapazes e uma rapariga. Fez como fazem todas as crianças. Levou uma bola para a rua e ao fim de cinco minutos já estavam todos a dar pontapés nela. No fim, quando chegou cá acima, perguntei-lhe pelos nomes deles:
- É o Vicente, o Mário...e o outro não me lembro.
- Faz um esforço.
- Era o Filipe.
- E a rapariga?- insisti.
- A rapariga,pai?!
- Não te lembras do nome da rapariga?
- Claro que não, pai.
Sorri com este trava-tempo. Daqui a uns anos irá lá abaixo e, quando voltar, só o nome da Mariazinha será eterno nas árvores do jardim da Feira da Ladra.