quarta-feira, maio 04, 2011

Levante-se a Ré

Hoje pela manhã, no edificio B do Campus da Justiça, começou o julgamento de Carlos Fragateiro, José Manuel Castanheira e Margarida Fonseca Santos, por crime de difamação e ofensa da honra de pessoa falecida, o antigo director da PIDE, Silva Pais. Ouvidos nesta manhã, que se prolongou pelo princípio da tarde, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira. Fui lá como dramaturgo, desde o princípio que senti que era o direito de ficcionar que era posto em causa por esta exigência de bom nome, e nesse sentido também me sinto arguido do processo, saí de lá como investigador sobre a dramaturgia portuguesa contemporânea.

E quem me atirou para esse estado foi a advogada da acusação quando perguntou a José Manuel Castanheira se ele compreendia o estado de afectação em que teriam ficado os familiares de Silva Pais ao verem-no retratado de uma forma que consideravam tão abusiva da imagem que guardavam do seu tio. Ao que Castanheira respondeu que poderia calcular isso, embora isso não fosse aquilo que era importante já que estávamos diante de uma personagem de ficção. Aliás contou que da mesma forma tinha ouvido queixas de muitas pessoas que tinham sofrido com a PIDE, já que sentiam que o retrato de Silva Pais estava muito suavizado. E isto é muito importante já que nunca compreendi porque é que os sobrinhos de Silva Pais se atiraram a um texto ficcional quando este foi baseado numa investigação de dois jornalistas que nunca foi posta em causa por estes familiares. Da mesma forma a associação de Silva Pais ao assassinato do General Humberto Delgado não é espúria e já foi muitas vezes veiculada na comunicação social. Tenho de reconhecer que não deve ser fácil, num Portugal que derrubou o regime político que a PIDE tão ciosamente guardava, ser sobrinho de Silva Pais mas isso não justifia a incongruência de se terem atirado à única versão que é assumidamente uma ficção. Lembre-se, como o recordaram Fragateiro e Castanheira, que o espectáculo começa logo com um baile em que Silva Pais e o Che dansam, episódio que como é óbvio, nunca aconteceu e marca assumidamente o território ficcional em que se desenrola aquela aventura teatral. É que o teatro tem essa força, essa capacidade de nos trazer a vida como se ela estivesse a acontecer de facto. Ele não é mas é-o com mais intensidade do que todos os livros de investigação histórica onde Silva Pais é responsabilizado pela morte do General Sem Medo, independentemente de não ter sido formalmente condenado. Sem uma cultura teatral para perceberem o protocolo ficcional, deixaram-se arrastar pela catárse de verem em cena o seu próprio tio. O que me levou para um outro aspecto. A representação do papel do dramaturgo junto não só dos sobrinhos, como da advogada que os representou e do próprio juíz que aceitou o julgamento (honra ao Ministério Público que recusou ser assistente), deixando-me antever que ela pode ser muito mais comum. Para estes a autora ( e eles só viram o texto de ensaios já que nunca foi publicado) é a responsável máxima por aquilo que eles viram em cima do palco e nunca lhes passou pela cabeça co-responsabilizarem a encenadora e o actor que protagonizou a cena que os indignou (uma em que o personagem que tem mais correspondências com Silva dá a entender que é preciso abafar o general). Ora a forma como o actor encheu aquele "Abafe-se o general!", também ajudou a criar a ilusão cénica.
O julgamento recomeça dia 12, desta vez para ouvir Margarida Fonseca Santos.

terça-feira, maio 03, 2011

Para que precisamos nós da Cultura?

Tenho alguma dificuldade em escrever de uma forma credível, até para mim mesmo. Sinto-me mal. Apetecia-me ficar de quarentena. Desfazer-me de uma data de conceitos que a praça pública anda a vociferar e que eu não entendo. Porque é que eu hei-de andar aqui a repetir ideias que me vêm de todo o lado e em que eu pego, como se fosse um puzzle, dando alguma razoabilidade porque as enfio na minha retórica discursiva? Como se soubesse do que estou a falar! Não sei. Dívida soberana. Ataques especulativos. Neoliberalismo. Restruturação da dívida. Resgate da nossa dívida. Dinasia PEC. Europa. Agência de Notação. Níveis de Ratting. Default. Ordenados milionários dos CEOS. Lucros fabulosos dos especuladores. F.M.I. (mas posso falar-vos até à exaustão de uma relação apaixonada com F.M.I. do Zé Mário Branco). Não percebo nada disto. E não estou para mandar uns bitaites a fazer que percebo. Não percebo e ando mal informado e salvo raras excepções de alguns amigos que andam por aqui a fazer autêntico serviço público vejo que rende muito mais, tanto na bloga como no facebook, fazer rolar ideias, mesmo que de contrabando. É por isso que ano aqui há dias para escrever um texto e não acredito em nada do que escrevo. Porque aquilo sobre o que se escreve, sobre o que se pensa, sobre o que anda por aí, sobre o que forma opinião, para mim é trampa. Lixo, lixo ideológico. Há um ruído ensurdecedor na cidade dos vivos.
1. Há qualquer coisa dentro de mim que me diz que é pela cultura que conseguiremos desmontar o torniquete. Porque é de um torniquete que estamos a falar. E por isso aquilo que tinha começado a escrever sobre a necessidade da esquerda, já não me entusiasma muito.
Nos meus últimos três textos dramáticos inseri sempre uma personagem que falava de uma guerra que aí vem. E no próximo, aquele que escrevo para um novo projecto, a guerra vai mesmo começar. E isto não é por ter descoberto agora alguma tendência apocalíptica. Sim porque realizei, radicalmente, que deixarmos entrar a ideia de guerra no nosso mundo, é começarmos por assumir que a nossa ideia de paz, de prosperidade (e estou a falar sempre e em primeiro lugar desta Europa onde me situo) está vinculada à miséria, exploração e morte. A uma geopolítica tenebrosa. Desde a primeira era Reagan, passando pela dinastia Bush, não isentando a fase final de Clinton, que comecei a perceber que não tinha alternativa pessoal a essa visão política. Não era negociável nem provinha de uma visão extremista radical assente em algum calhamaço ideológico. Era a natural assumpção de que não via nenhuma diferença entre a minha vida e a de qualquer outra pessoa que habite este nosso mundo. E também que a globalização política nos responsabiliza, a cada um, seja lá onde nos encontremos, pelo que se passa em qualquer ponto do mundo. Estamos em guerra.
Não há assim nenhum sitio neste mundo onde eu me possa proteger da responsabilidade que sinto pela verdadeira catástrofe que a voracidade tentacular do nosso bem-estar provoca em todo o globo. Contra esta ideia de que a guerra é sempre lá longe, senti a necessidade de - metaforicamente, como o é sempre a expressão artística - a aproximar das nossas casas. É por isso também que, com alguma provocação, vou alertando que quando estamos a falar de números de pobres, de números crescentes da fome, não estamos a falar dos que não têm o mínimo para viver com dignidade, não estamos a falar dos que não têm que comer (porque verdadeiramente os números do desemprego só nos preocupam quando sobem a níveis que fazem temer que eles comecem a entrar nas nossas famílias). Estamos a dizer que começámos a perceber que a fome e a miséria estão a chegar à rua de baixo e que logo, logo, estarão na nossa própria rua. Nós estamos apenas preocupados com a nossa fome e com a nossa pobreza. Ou estamos a pensar nas hordas de pobres que vão começar a desestabilizar este nosso mundinho. O tipo do Pingo Doce está. É aliás impressionante como toda a gente o ouve como se ele fosse um papa. E estamos apenas preocupados connosco porque nos condicionámos assim, a um egoísmo de base. Costumamos amiúde compararmos-nos aos ratinhos de Pavlov. Mas a única verdade que podemos apresentar uns diante dos outros é a de que a metáfora pavloniana é insuficiente para explicar uma coisa: nós somos simultâneamente os cientistas e os ratos no laboratório. Todas as retóricas políticas que o pretendam esquecer estão a fugir da cultura como o diabo foge da cruz.
Não há nenhum princípio romântico sobre a esquerda, não há nenhuma urgência de natureza pragmático-realista que nos deva deixar de cuidar da ideia de que a dimensão colectiva da Cultura é o chão fértil onde vivifica uma política que possa devolvermo-nos a ideia de responsabilidade. Por mais que ela pareça coisa vaga e desmobilizadora para quem está muito preocupado com os resultados expressos.
2. Quando falamos em cultura, e principalmente se um dramaturgo fala de cultura, pensamos logo que se está a falar no plano da manifestação dos objectos artísticos e dos produtos culturais. É uma forma de reduzirmos o debate para um plano onde ele pode ser manipulado pelas diferentes discursividades políticas, quer de esquerda, quer de direita, mas não é disso que se trata. A cultura é tudo aquilo que é a expressão da nossa vida. E não há nada do que fazemos, ou não fazemos, que não seja expressão de nós e, enquanto expressão de nós, cultura.
E é dessa ideia muito vasta de cultura que me socorro quando me refiro à perspectiva de que é pela dimensão cultural que a política pode devolver-nos a ideia de responsabilidade. É um trabalho sobre a identidade, a forma como nos constituímos uns diante dos outros.

[Aparte ou pausa para respirar: Poderíamos também falar aqui da especificidade da relação portuguesa com a cultura . E aí teríamos oportunidade para falarmos de uma certa bicefalia que domina as políticas governamentais ligadas à cultura, fazendo um tratado de Tordesilhas entre aquilo que podíamos referir como alta cultura (os produtos culturais e os objectos artísticos realizados por agentes culturais devidamente licenciados, mapeados e legitimados, das quais se encarrega o Ministério da Cultura através dos seus diferentes organismos) e a baixa cultura (as actividades amadoras e de expressão popular, o associativismo, em grande parte confinadas à investigação científica e à academia, à INATEL, às autarquias e às cooperativas). ]

3. Movimentos de cidadania. Desde que a ameaça de bancarrota começou a pairar sobre as nossas cabeças, houve um movimento de cidadania muito importante. Não o vemos muito bem reflectido na sociedade até porque o seu eco é muito filtrado, parece que os comentadores são os mesmos, parece que os protagonistas reverberam as mesmas coisas, parece que o tempo se aproxima velozmente do dia 5 de Junho sem nada trazer de novo, mas não é bem assim. O extremismo da situação fez com se criasse um circulo de atenção sobre novas camadas discursivas veiculadas pelos meios de comunicação mais informais. Passa-se mais tempo na internet, nos blogues, no facebook. E o tempo, o nosso tempo, o tempo que cada um de nós deposita no tempo que é de todos, é cultura. Fazem-se circular mensagens, textos, vídeos. Muitos dele são como que uma catárse. Andamos desesperadamente à procura de bodes expiatórios. Encontramos por isso alguns culpados, tanto externos como internos. Internamente, e no plano político partidário, Sócrates para todos, a direita neoliberal e a esquerda radical para o PS, o PS, o PSD e o CDS para o BE e para o PCP. Fora do mundo dos partidos os culpados são os bancos, a corrupção, a falta de ética na vida pública, o Estado Social, a Função Pública, o descontrolo do investimento público, a dívida pública, a dívida soberana. Externamente a deriva neoliberal financista, onde se juntam as agências de notação, os especuladores e uma desregulação da economia. O FMI que surge muitas vezes associado a esta deriva neoliberal, aparece agora também como parceiro do BCE e da CE. E se estes são os culpados, as grandes vitimas são, para a direita, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, para a esquerda, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, e o Estado Social.
4. Remar em círculo. O facto de estarmos mais ligados uns aos outros dramatiza este remar em circulo dos nossos últimos tempos. Estamos tão presos a este enquadramento político que parece irreal esboçar algum movimento no sentido de promover uma reflexão sobre as possibilidades de agirmos de uma outra forma do que aquela a que nos vimos condicionando. A troika está cá a passar a pente fino a nossa vida. Para a direita, por mais bem intencionada que esta esteja - e talvez fosse uma altura de atribuirmos à direita a mesma sinceridade política que conferimos à esquerda - é o tempo de tirar partido da situação de modo a fazer passar um conjunto de transformações que seria impensável conseguir promover num quadro político e económico de alguma estabilidade. A esquerda, dividida entre o PS, o PCP e o BE, está em estado de afonia. Ou agonia. Dos partidos de esquerda o PS é o único que assume falar com a troika, o PCP e o BE, como todos sabem, excluíram-se do processo. A exclusão do PCP e do BE mesmo se para muitos parece incompreensível, já que eles fazem parte de um quadro institucional e foi o País que pediu o resgate, não deve ser dramatizada. Se a troika fizer convenientemente o seu trabalho terá, sem dúvida alguma, oportunidade para conhecer a posição destes dois partidos. O que de mais negativo poderemos fazer agora é criar tensões a partir de diferentes interpretações sobre actuações legítimas dos partidos. Se não é por aí que nos entendemos que não seja também por aí que nos desentendemos.

5. A agenda da direita. No entanto mesmo não nos deitando a criticar as atitudes, temos de tentar perceber o que é que podemos fazer. A agenda da direita parece mais ou menos clara e ela está entusiasmada com isso. Muitas vezes incorremos no erro, e eu faço mea culpa disso, dizendo que a esquerda se aliou à direita para derrotar o PEC IV e, consequentemente, o governo. A tirada tem alguma bondade como provocação mas não é exacta e não nos ajuda a perceber as circunstâncias do que se passou. A dinastia PEC foi uma criação do Governo PS com o PSD, assente num entendimento comum e sempre teve a rejeição do PCP e do BE. Ou seja, quem rompeu com a dinastia PEC foi, assumidamente Passos Coelho. Fê-lo da forma atabalhoada que todos sabemos, faltando à verdade, truncando versões, dizendo aqui uma coisa, em Bruxelas outra, mas foi ele que o fez. Foi ele que se aliou a uma esquerda que estava naturalmente contra a dinastia PEC e hoje percebe-se porquê: não só a agenda do PSD está sintonizada com as exigências do pensamento neoliberal que dominam a estratégia de resgate, como vê nisto uma excelente ocasião para uma vingança sobre mais de uma década de governação do partido socialista. Se o Orçamento de Estado de Durão e Portas era uma santuário ideológico contra a esquerda e o PS, esperem pelo que virá se Passos Coelho for o redactor-chefe do próximo OGE. É claro que a direita sofre da mesma contingência humana que também caracteriza a esquerda: ela não vê isto da mesma maneira que a esquerda o vê e por isso substitui sentimentos negativos como vingança por outros bem mais elevados. E por isso ela não pode perceber aquilo que o Daniel Oliveira disse uma vez no Eixo do Mal e que nos devia servir de baliza: o que se está a passar é um autêntico golpe de estado à governação legítima dos países, impondo medidas que consubstanciam mudanças de regime que nenhum partido se atreve a colocar nos seus programas eleitorais e deveremos perguntar-nos se achamos isto aceitável.

6. E a agenda da esquerda? Qual é a agenda da esquerda, perguntam-se as diferentes tribos deprimidas de esquerda? É difícil perceber qual é e isso provoca notórios embaraços. Tenho encontrado nestes dias muitas pessoas, do PCP, do BE e do PS que estão muito relutantes em votar. Não estão indecisas, sabem que se votarem vão votar no partido onde costumam votar sempre, o apelo do voto útil é sempre algo disponível para um eleitor, mas têm uma genuína relutância em votar. Eu próprio estou nesse grupo. Não tenho dúvidas em dizer que neste momento nenhum partido de esquerda me dá sinais claros de querer governar à esquerda e por isso qualquer voto na esquerda será reforçar a votação na direita. É claro que também poderia adoptar aquela atitude lúdica do eleitor do PCP que zangado com o seu partido vai votar no BE ou no PS, ou o do BE que de costas voltadas para a sua força política promete deitar a sua escolha no PCP ou no PS, e como votante que fui do PS colocar o meu voto no BE ou no PCP. Corre por aí, nesta perspectiva lúdica, que não votar é fazer o jogo da direita. É um argumento estafadissimo que nem chega a partir. O que nos deveria preocupar não é a esquerda que faz o jogo da direita, é a esquerda que não faz o jogo da esquerda. A menos que o jogo da esquerda não seja governar, seja só o ser oposição. E não há dúvida de que a bancada esquerda fora do chamado arco da governação faz excelente oposição. Tenho aliás muitos amigos de esquerda que justificam o seu voto no BE e no PCP porque trabalham muito na Assembleia. Fazem muitos trabalhos de casa. Talvez seja uma perspectiva salutar esta e talvez fosse sensato enterrar aquele arquétipo político de que deveremos ter uma ideia de bom governo pra podermos ser uma boa oposição. No entanto, bom senso à parte, o que faz falta neste momento é a capacidade de comunicarmos com clareza.

7. Falar claro e falar verdade. Uma das grandes falácias actuais é a da necessidade de falar claro e verdade. Todos o repetem, em todas as praças públicas deste país. É razoável este ponto de vista. O paradigma Medina Carreira, ou seja, de que vivemos na mentira e que agora temos de falar a verdade ocupa a agenda de todos os dias. No entanto pondera-se pouco a possibilidade de que este apelo à clareza se situar numa zona de duplo contrangimento que só nos perpetua neste lodaçal discursivo que desvaloriza tudo o que se diz. De que é que adianta falar claro se não existem as condições necessárias para que o acto de comunicação se processe com clareza? Nós ouvimos aqueles muitos que falaram claro ao longo destes anos, que nos alertaram para o estado de degradação das nossas finanças, para o elevado endividamento público e privado? Nós ouvimos aqueles que nos alertaram para o perigo que rodeava a função social do Estado? Nós ouvimos aqueles que escreveram, alertando para a forma como a Europa crescia sem solidariedade? E porque é que não os ouvimos? Porque não nos interessava. E porque é que não nos interessava, porque é que não nos era interessante? E o que é que nos foi interessante, o que é que nos interessou, o que é que nos prendeu a atenção? Se não formos capazes de questionar isto o apelo a falar claro é só mais uma metamorfose de um discurso escorregadio e pantanoso.

Por outro lado o apelo a falar verdade é ainda mais perigoso e anda na senda de um certo sebastianismo que se está a instalar troicamente na sociedade portuguesa. Como se entre a gente humana houvesse uma verdade revelada. Há pessoas mais lúcidas do que outras, claro que há. Mas de nada nos serve isso se enquanto comunidade não construirmos uma evidência comum sobre uma determinada realidade. A nossa verdade é aquilo que entre nós estamos decididos a aceitar como verdadeiro. As verdades reveladas são manhosas, trapaceiras e enganadoras. E aqui estamos de novo a bater à porta da cultura, agora pelo postigo da forma como comunicamos.

8. O que é isto de condições necessárias para a clareza na comunicação? Mas nós não vivemos na sociedade da comunicação?! Do conhecimento? Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a perspectiva local tem vindo a perder relevância na nossa relação com a cultura. Esse é um aspecto para tentarmos perceber que a clareza do acto da comunicação não tem tanto a ver com a clareza do que se diz ou do que se entende, mas de como é que hoje em dia isto produz sentido. O nosso modo de vida está dominado pelo fenómeno da globalização. A revolução tecnológica tornou a terra um lugar muito mais pequenino, muito mais interactivo e, paradoxalmente, muito mais distante do local. Perdemos em territorialidadade o que ganhámos em virtualidade. São relações diferentes, não necessariamente antagónicas, existem cada vez mais experiências de cruzamento destas duas experiências, mas são relações diferentes. O local exige tempo, o tempo da interacção no aqui e no agora, tempo que a rede global maximaliza unindo tudo. Este admirável mundo novo que é vivido no plano dos sujeitos, quer do ponto de vista individual quer colectivo, como um lugar libertário, onde cada um adquire a possibilidade de se expressar, de conviver, de se agregar, é também um lugar panóptico onde é muito mais fácil exercer, de forma subrepticia, disfarçada, a dominação, ou se quisermos, de uma forma mais benigna, o controle social e ideológico.

A grande eficácia do sistema de dominação actual é que ele prescinde do binómio dominador-dominado para exercer o jogo da dominação. A palavra é apropriada. Trata-se de um jogo. O dominador é tão espectral como o gesto de dominação e o próprio dominado e não coincidem necessariamente. Há um vaivém. Quando hoje vemos alguns vídeos que circulam no you tube ( e em relação a muitos nós não sabemos verdadeiramente quem os fez nem quem está por detrás desses mesmos objectos) ou quando vemos o trabalho desmistificador do Inside Jobs, nós percebemos que aquilo que supunhamos ser a nossa força, a união, é também afinal a nossa grande vulnerabilidade.

Os nossos países, que ainda há pouco tempo tinham uma rede institucional complexa para implementar a sua soberania (língua, simbolos, instituições, território, moeda, fronteiras, águas territoriais, cultura), hoje, de verdadeiramento soberano, só têm a dívida. Temos uma grande vulnerabilidade. Basta condicionar um director do BCE, basta calar um presidente de um Comunidade Europeia, para que de repente o papão FMI, com um director de esquerda, surja de forma dócil a propôr taxas de juro e prazos de pagamento mais generosos do que os defendidos pelas instituições da União Europeia. Por outro lado também temos milhões de pessoas ligadas por partículas discursivas minimalistas (os likes, os shares, os comments) fornecendo uma ilusão de individualidade e de coesão àquilo que, visto com um bocado de distância, se torna também numa massa enorme de acriticismo. E tudo isto parece por vezes ter a força de um tsunami que nada nem ninguém consegue controlar. Ou pelo menos, não nos é perceptível o controle, até porque estamos muito mais deslumbrados com a força telúrica dos fenómenos (como a aventura da rua árabe).

9. Porque é que precisamos nós da cultura? Há muitas razões e não vou maçar-vos com aspectos gerais da teoria da cultura. O que me parece é que tentamos ver tudo no plano da mudança de paradigma da política quando o deveremos situar num trabalho profundo sobre a nossa identidade. É que se não podemos sentar um país inteiro no divã do psicanalista, precisamos de perceber que não adianta querermos outros políticos, outras políticas, se não assumirmos que temos de mudar, porque foi este modelo de comportamento que nos trouxe a este aparente beco sem saída. Atravessamos um grave problema de congruência política porque estamos a pedir aos nossos políticos que sejam os protagonistas de uma mudança que nos tem de envolver a nós. Alguns de nós viram-no, vêm-no, nas manifestações que ocorreram um pouco por todo o país. É como se estivéssemos muito perto de não termos de aceitar como uma inevitabilidade o afundamento da nossa vida democrática por causa do apodrecimento da partidarização da sociedade. Estamos muito próximos mas ao mesmo tempo sentimos que podemos morrer na praia. 5 de Junho parece a data da capitulação onde todos nós teremos de fazer um regime alimentar à base de sapos, mas talvez seja bom não fazer da nossa vida favas contadas. Há 37 anos de uma noite para o dia mudámos toda a nossa história e com que consequências?

Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou. Ou através da cultura valorizamos a nossa responsabilidade ou continuamos neste discurso de negação política que atinge zonas de delírio em que de um extremo resolvemos os problemas com impostos sobre as grandes fortunas e do outro extremo colocamos a solidariedade social no plano da caridade.

Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Meso que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado.

10. Vivemos acima das nossas posses, dizem. É mentira, é uma grosseira mentira. Que como dizia o Aleixo, tem uma dose de verdade para nos ludribriar melhor. O que se passou é que esta desregulação do sistema financeiro já não se podia contentar com o dízimo resultante das nossas disponibilidades de consumo que sobravam do nosso rendimento mensal. E isto não se passou só em Portugal. É um fenómeno global. Provavelmente a especificidade portuguesa traduziu-se no modo como nós, que andamos sempre com uma identidade larvar ou às avessas, nos deixámos seduzir tanto pela dimensão apoteótica do nosso consumo. Depois de décadas a acumular poupança, em que o salazar ficou como marca do instrumento de rapar o tacho, aderimos com um espantoso novo riquismo a esta possibilidade infindável que os créditos, que agora sabemos serem hipotecas, nos permitiam. E, através da publicidade, o sistema replicava-se e ajustava-se ideologicamente a essa finalidade. Dizer que as pessoas viveram acima das posses é tentar apagar a realidade de que o sistema permitiu que a actividade económica, suportada numa alavanca financeira histericamente crente nas suas potencialidades, ganhasse acima das suas possibilidades, tendo em conta o equilibrio do sistema. Mas nós também estivémos lá. Os milhões de lucros são milhões de cêntimos nossos. E somos nós que os demos. Senão compreendermos isso nunca podermos mudar o nosso comportamento. E estamos sempre nas mãos de quem nos vem aterrorizar.

11. Alternativa. Quando eu insisto nesta ideia de que temos de analisar a realidade como se ela não fosse de sentido único, geralmente dizem-me, está bem, mas qual é a alternativa? Ou seja, se criticamos o resgate do BCE, do FMI e da CE, perguntam-nos qual é a alternativa e supõe-se que a alternativa é o não ao resgate. Este é um modo de pensar tão inculcado e tão impregnado de uma ideologia dialética que se torna dificil explicar que enquanto não assumirmos que estamos a colocar o problema de uma forma errada, as soluções serão também ela erróneas. A alternativa ao resgate que está a ser anunciado pode ser um resgate em condições mais vantajosas para todos. Ora para isso não é preciso termos uma alternativa, sim não aceitarmos que para uma determinada realidade não lhe há alternativa.

É uma operação tão simples que chega a ser tenebrosa a forma como o discurso político, o que rola por aí, o faz esquecer. Há uma situação de efectiva falta de liquidez da nossa economia. Não temos dinheiro. Até eu que sou o mais incapaz de todos para perceber os fenómenos económicos já o interiorizei. Temos de o pedir emprestado ou temos de mudar a curto prazo a estrutura da nossa angariação de receita e de realização de despesa. A tónica da diabolização de quem pode emprestar dinheiro faz parte de uma retórica discursiva que puxa pela lógica dos afectos mas é muito pouco interessante porque na política a dimensão dos afectos não é uma realidade partilhável senão por aqueles que pensam do mesmo modo .

12. O resgate. O que é importante é perceber que se por um lado precisamos de dinheiro, as modalidades de resgate têm produzido um efeito dominó com a Grécia e com a Irlanda e que se vamos negociar um resgate partindo dos mesmos pressupostos a probalidade é que o empréstimo não nos sirva para nos ajudar a desenvolver sim para nos atascarmos no mundo tenebroso da dívida. Isso não quer dizer que não devamos assumir o resgate, quer apenas dizer que se o assumirmos devemos salvaguardar todas as situações que nos sejam prejudiciais. É para isso que precisamos de coesão nacional, é para podermos ser mais fortes, tanto interna como externamente. Os partidos que são contra o resgate têm proposto outras alternativas de financiamento. Por mais que algumas delas sejam nitidamente demagógicas, outras há que são realistas e que são possíveis de compatibilizar com o empréstimo, diminuindo até o seu impacto.

Esta ideia de que a nossa vida está entre a aceitação da inevitabilidade do resgate ou a da negação da necessidade do mesmo, faz-nos perceber que tanto o resgate como a sua negação podem ter alternativas. É que o que se está a fazer passar é que a inevitabilidade de um resgate, é a inevitabilidade de um certo tipo de resgate e isso é intolerável. Mas é nesse intolerável que tem andado muito da nossa política e muito da campanha mediática. O que eu gostava de ver era os políticos do meu país, e principalmente os de esquerda, a trabalharem em conjunto para que, se o resgate se fizer, seja o menos nocivo para o país e que seja feito para o desenvolvimento do país. Deveríamos nas próprias eleições responsabilizar seriamente os políticos e as políticas que não perceberem isso.

13. O não-resgate.

A posição do BE e do PCP sobre o resgate tem desde logo uma virtude: obriga-nos a perceber que estamos a discutir a Europa e que temos de definir em que Europa é que queremos estar. A grande vantagem desta obrigação de discutirmos a Europa é a de percebermos que esta ideia de Europa que por aí anda nada tem de utópico. É até anti-europeísta. Não é por acaso que muitos de nós andam entusiasmados com a experiência da Islândia. Parece um David contra Golias e quem não gosta de David? Só que a Islândia não faz parte da Comunidade Europeia e por isso tem outra autonomia. É isso que nós queremos? Sair da Comunidade Europeia? Se formos analisar os partidos à esquerda do PS, o BE assume a sua vocação europeísta, o PCP não. Estive a ler atentamente as propostas de todos os partidos de esquerda e percebi que por muito que haja medidas que se aproximam entre o BE e o PCP pode haver uma Europa que os divide. O PCP não prescinde da sua acusação de que a adesão ao Euro desregulou e destruiu a actividade económica. Ou seja, o não ao resgate pelo BCE, pela CE e pelo FMI, parece que é uma alternativa, mas que alternativa queremos? Com Europa? Sem Europa?

De qualquer forma o ou isto ou aquilo é uma brincadeira de rapazes de raparigas no pátio, não uma posição de compromisso num momento como este e nós, enquanto cidadãos, temos de mostrar de uma forma cabal o que é que fazemos a políticos que pretendem brincar ao nosso futuro em vez de se entregarem a um compromisso. O BE e o PCP apresentaram propostas para o não resgate cuja validade não se esgota se o resgate for feito. É claro que o tempo passa e não se percebe como é que as medidas destes dois partidos podem ser adoptadas se não forem, em tempo recorde, analisadas e quantificadas. Nesse sentido acho muito importante a iniciativa do BE de pedir ao Governo para ser ouvido porque tem propostas para apresentar. Regra geral as propostas do BE parecem, a um não especialista em economia, boas e de acordo com a necessidade do País. Espero muito sinceramente do Partido Socialista que se entretenha seriamente ou a explicar porque são inviáveis, porque é que não podem ser integradas na negociação com o BE, CE e FMI, ou a viabilizá-las. E o mesmo às do PCP. O facto de elas serem apresentadas por um partido que é contra o resgate não quer dizer que elas não possam ser aproveitadas para minimizar os efeitos negativos do empréstimo. E não quer dizer que não possam ser aplicadas depois.

14. Nós os cidadãos de esquerda, alinhados ou desalinhados, devemos bater-nos para que os partidos de esquerda consigam encontrar soluções que salvaguardem um património de políticas sociais que está intimamente ligado à nossa democracia. Não aceitando desculpas infantis. Quem já aceitou integrar uma coligação com a direita no derruba do governo ou quem se apresta a coligar-se com ela depois das eleições, não tem desculpa nenhuma para não fazer um grande esforço político na criação de mínimos denominadores comuns de entendimentos políticos. Devemos bater-nos para que a Europa consiga ver em nós a Europa e não apenas um país com problemas de dívida soberana. Deveremos bater-nos ou para encontrar soluções menos gravosas do que o empréstimo financeiro ou que ele, a ser contraído, seja para resgatar o País e a sua economia e não para a manter num jogo fraudulento e especulativo. Deveremos bater-nos para que a coesão política do País seja um aumento da responsabilização social e politica de todos. O país não é um ringue de pugilato político entre José Sócrates e Passos Coelho. Temos de acreditar na vida, na nossa vida, na nossa capacidade de a transformarmos. Mesmo que não percebamos nada de ratings, de renegociações da dívida, de créditos defaults, e outros truques com que pretendem armadilhar a nossa possibilidade de analisarmos o bom ou o mau senso dos nossos políticos.

domingo, maio 01, 2011

TEMPO CONTADO: O blogue

Descubro o blogue de José Rentes de Carvalho, escritor que descobri muito tardiamente através do Câmara Clara, de entrevistas, viagem por fazer em relação aos livros, à obra. Vou marcá-lo aqui para os blogues de todos os dias. Parafraseando Rui Bebiano, como eu gostaria de atravessar a planície dos oitenta a cavalo desta tranquila sabedoria.

sexta-feira, abril 29, 2011

“Nunca passei de um actor medíocre” (1)

A minha primeira participação na comunicação social (fora aquele jornal, em folhas de almaço, que, aos treze anos fiz para esclarecer o mundo das virtudes do internacionalismo proletário) tinha este título. Era uma entrevista a José Raimond -técnico do FAOJ, a dirigir na altura o sector de Teatro deste organismo - que, com grande humildade, me revelava que tinha abandonado a actividade teatral porque não gostava do esforço físico, concluindo o raciocínio com a frase que encima esta crónica.
Na altura destaquei-a e coloquei-a intencionalmente na testa do texto, de modo a tentar justificar uma asserção que então me corria muito pelo pensamento, a de que, nos vários níveis da administração pública, a gestão do teatro estava entregue a praticantes frustados. Estava nessa altura imbuído de uma ideia - arrogante - de jornalismo enquanto acção justiceira, reordenadora da verdade do mundo.
Eu experimentara assim, no universo dos jornais murais, e com dez anos de antecedência, o espirito agressivo que anos mais tarde viria a encontrar na redacção da SIC onde estagiei ( surge-me como paradigma desse espirito a imagem que conservo de um jornalista a percorrer o caminho que o levava da sua secretária até ao estúdio, onde estava em directo o administrador da Parmalat (em plena crise da guerra do leite) dizendo para os colegas, tal guerreiro antes de um combate decisivo : “Vamos comê-los!”).
Foi esta mesma ideia de um jornalismo redentor, e por isso vingativo como toda a justiça, que me fez sentir um herói saltando sobre a mediocridade geral e muito concretamente sobre aquele homem cuja grandeza só agora descortino.
E, ironia do destino, passados quase vinte anos de ligação ao teatro - nove deles enquanto actor - também eu posso dizer que nunca passei de um actor medíocre (não obstante ter atravessado a cena teatral portuguesa com a minha ambição de ser o único-único actor deste mundo). Um actor medíocre que, na sua passagem pela direcção do Teatro da Trindade, também encarnou aquela asserção que antes tinha justificado o seu grotesco ataque àquele técnico do FAOJ.
Ocorrem-me estes pensamentos enquanto viajo, saltitando, entre as páginas da “ Tirania da Comunicação” de Ignácio Raimonet , e as de uma outra edição, “A Verdade e a Política” de Hannah Arendt , arrancada aos saldos da última Feira do Livro.
De quando em quando levanto os olhos dos livros e cruzo-me com o mundo. Não escondo que a guerra do Kosovo, e o papel que os jornalistas nela tiveram, me absorve muito do meu olhar. Mas não só. Também, noutro plano, a guerra entre o teatro e as suas testemunhas, quer sejam os jornalistas, quer sejam os críticos. Ou a guerra do Procurador da República com o ex-Director da Polícia Judiciária. Um conjunto de situações que vou, sempre que posso, discutindo com alguns amigos que fazem do jornalismo um modo de estar entre nós.
E no centro desse debate está de facto o duplo constrangimento que decorre do desmesurado poder que ainda hoje atribuímos a um ofício que se sente ele próprio, na sua dimensão mais artesanal, a do trabalho dos jornalistas, cada vez mais encurralado contra a sua impotência diante do mercado das notícias.
Ignácio Raimonet tem aliás uma visão demolidora sobre o efeito que o mercado produz na relação do jornalismo com a verdade. Quando analisa a forma como, nos casos de Diana Spencer e de Mónica/ Clinton, muitos meios de comunicação social não hesitaram em, com a mesma desenvoltura, vender tanto as falsas notícias como os seus posteriores desmentidos, lucrando igualmente com as duas situações.
E isto porque no mercado das notícias aquilo a que chamamos verdade, tem o mesmo valor daquilo a que chamamos mentira. São ambos elementos do espectáculo de ficção e entretenimento destinado ao espectador encaixotado magicamente no seu suicídio de mundo .
Esta brusca mutação na relação que mantínhamos com o jornalismo, que deixou gradualmente de estar tão vinculado à formação de uma melhor opinião e consciência e passou a ser também marcado por um consumo desabrido de um produto a que designamos por news (que desde que seja novo e mantenha uma continuidade narrativa com o enredo do mundo pode ser verdade ou mentira) tem também de ter consequências muito grandes no trabalho jornalístico.
Assim, ele deixará de ser cada vez mais uma argumentação coerciva do mundo, como o é todo o discurso que pretende repor a verdade, e tenderá a ser um investimento num olhar testemunhal, humilde perante a monumentalidade do real. Olhar que terá de saber conviver também - como se estivesse numa prateleira de um supermercado - com uma ficção que, desenfreada, tenta responder às leis da oferta e da procura.
Na verdade liberto de uma presunção - e sabemo-lo, arrogância - de verdade, aquilo que o distinguirá será o seu processo de fabricação, o seu certificado de garantia. De um lado estarão quer os enlatados noticiosos difundidos à escala planetária e refeitos em cada redacção para serem apresentados pelas grandes vedetas do espectáculo da informação, desse mesmo lado estarão também os grandes repórteres nas salas de imprensa dos múltiplos palcos onde é apresentada a estratégia do mundo, do outro estarão os jornalistas, aqueles que - independentemente do suporte com que nos devolvem o real - estão lá para, simplesmente serem testemunhas qualificadas dos acontecimentos.
A anunciada morte do jornalismo não é mais do que o seu renascimento, a sua caminhada para uma clarificação de papéis. Muitas vezes não compreendi como bastantes jornalistas humildes, honestos e conscenciosos que encontrei na SIC, conseguiam conviver com o comércio mais frenético e estonteante da estação.
Hoje compreendo-os melhor. E é até por eles terem insistido numa verdade profissional que acaba por marcar as fronteiras com o espectáculo mediático que hoje nos é possível perceber que o comércio das news, por mais jornalistas que arraste, acabará por levar, involuntariamente, a um rejuvenescimento do trabalho jornalístico.
Tomando como ponto de partida a guerra do Kosovo, o maior problema não será o facto do espectador encaixotado no seu suicídio de mundo ter ao seu serviço um batalhão de vedetas, de repórteres arrogantes e completamente absorvidos pela nova máxima do mercado jornalístico “ da verdade dos factos também se faz notícia” .
A catástrofe só descerá à terra das notícias quando aqueles que se tentam informar porque sabem - como Hannah Arendt - que a “liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate”, não puderem confiar ou dispor do olhar testemunhal de repórteres como Cândida Pinto, Aurélio Faria, Pedro Rosa Mendes, Paulo Moura , Pedro Caldeira Rodrigues, Carlos Santos Pereira, e outros (situo-me apenas no universo do trabalho feito sobre a guerra no Kosovo pelos jornalistas portugueses).
Entre a catástrofe e a frenética mistificação dos média, vive uma realidade difícil, ambígua, que também se alimenta de desistências várias. Não só aqueles que naturalmente escolhem ser a face do negócio, também aqueles que deixam de acreditar na profissão e se arrastam pelo mal estar de não conseguirem corresponder à necessidade que temos que eles se mantenham lúcidos, confiantes e de olhos abertos perante um real com que, através deles, marcámos encontro.
E entre uns e outros erguem-se as mãos verdadeiras que Paul Celan responsabilizava como as únicas autoras de poemas verdadeiros, ideia que um dia Abel Neves, dramaturgo, usou para defender que “ este trabalho de ter ou manter mãos verdadeiras é, por si só, uma caminhada na vida “.
Nos poemas, nas news, na vida.
(1) Titulo de um texto da Crónica Olho da Rua que assinei há muitos anos no Jornal Vento Novo e que recuperei agora ao fazer a limpeza de ficheiros.

domingo, abril 24, 2011

A política do ressentimento

Ferro Rodrigues, o cabeça de lista por Lisboa, disse que deverá haver acordo pós-eleitoral mas que é completamente impossível fazê-lo à esquerda porque esta se aliou, no último ano e meio, à direita para derrubar o PS.
Confesso que li, reli, tresli, e não consegui apanhar nenhuma lógica no pensamento de Ferro Rodrigues. Quer dizer que para ele o PS, se ganhar, tem forçosamente de fazer um acordo pós-eleitoral e que esse acordo só pode ser feito à direita. Deigo desde já que quando se parte assim para uma negociação, parte-se vencido. Ou seja, o PS assume a necessidade de fazer um acordo com a direita. Poderá ser com o CDS ou com o PSD, depende da expressão eleitoral de cada um dos partidos.
Eu até admitiria que o PS pudesse ter em cima da mesa um cenário de acordo com o PSD ou mesmo com o CDS. Os partidos à sua esquerda já fizeram questão de dizer que não há convergência com o PS de Sócrates. Por outro lado o governo pediu ajuda internacional e os partidos à sua esquerda fizeram como se isso não se tivesse passado neste país. São motivos plausíveis para inviabilizar um acordo mas as posições pré-eleitorais já se percebeu que são para inglês ver. O próprio Passos Coelho já admitiu que não fará acordo nenhum com José Sócrates.
O que me parece muito pouco razoável, e principalmente num político como Ferro, é assumir um ressentimento com a esquerda e não o assumir com a direita. Muito pouco razoável e capaz de fazer o PS perder os votos que poderia ganhar com a inclusão de Ferro como cabeça de lista. Porque se até Ferro mimetiza o ressentimento do líder, então o PS ainda está pior do que parece.

terça-feira, abril 05, 2011

Para que precisamos da esquerda? (1)

A discussão em torno da exclusão que o PCP faz do PS de Sócrates da coligação patriótica de esquerda levou-me a deixar um comentário longo no facebook a um texto de Rui Bebiano (com o qual estou de acordo no essencial) , que trago aqui para nota:

" Isto faz-me lembrar um pequeno texto de Samuel Becket que o Espaço das Aguncheiras (pela mão da São José Lapa e do Alberto Lopes) montou recentemente e onde três mulheres sentadas num banco só falam em duetos, sempre na ausência de uma terceira. Neste caso o importante é perceber que os partidos de esquerda (onde incluo o PS) começaram a mexer-se para fora dos seus apoios parlamentares de base e estão a perceber que se não disserem ao eleitorado que querem responsabilizar-se por governar a nossa vida, vão sofrer grandes decepções eleitorais.

Costuma-se dizer nas teorias de comunicação que comportamento gera comportamento e é necessário em algum momento romper o padrão de comportamento. A ideia de um governo patriótico de esquerda é abstrusa porque não tem o PS? O que me interessa é que uma ruptura de comportamento com a ideia da esquerda (que não o PS) ficar a gerir o seu comportamento dentro de uma politica de protesto e não dentro de uma politica que se responsabilize perante o eleitorado por governar o país é decisiva neste momento. Se foi o PCP que deu o pontapé de saída, boa, ao contrário do que tu dizes não temos apenas dois meses. Temos também dois meses, uma quantidade de dias ( e noites). Agora a bola está no PS. Mesmo imaginando que o Partido Socialista terá dificuldades acrescidas neste momento em gerir internamente esta abertura à esquerda quando as suas últimas propostas das dinastias PEC eram claramente aquilo que a direita europeia impôs, o que me parece é que o próprio PS perceberá que terá a ganhar com o campo de clarificação da esquerda em torno de algumas poucas questões.

Acho que está a ser cometido um erro fundamental nesta avaliação toda que por vezes fazemos sobre as consequências da ideia que cada partido de esquerda tem sobre quem é ou não de esquerda: quem decide se quer ser ou não governado à esquerda ( e com isso resolve de uma assentada quem é ou não de esquerda) é o eleitorado .

A esquerda só precisa de definir um programa que contenha uma visão de esquerda sobre o que fazer em relação a uma meia dúzia de questões essenciais:

Há Europa ou há apenas Alemanha? Há dinheiro do BCE mais barato para ajudar os Estados ou há apenas dinheiro para aumentar a especulação financeira junto dos Estados? Vamos bater-nos por uma agência europeia para notação da dívida e regulamentar esta actividade ou vamos deixá-la em livre curso dando notas de bom e mau comportamento conforme os seus interesses? Vamos defender o Estado do ataque neoliberal (e defender o Estado passa por aceitar que é tão necessário defendê-lo das ideias que o negam como daquelas que, achando-o inatacável, o deixam tornar-se num monstro!) ou vamos deixar que nos tornem nuns meros pagadores de impostos e dívida?

Se o PCP e o BE o fizerem é já um excelente passo. Em frente.

O governo de gestão e a ajuda externa

Através do Jumento (rol de blogues aqui ao lado), descubro estas duas intervenções de Paulo Rangel que me deixaram espantado. Não sei se me surpreendeu mais o facto de saber que Rangel é um constitucionalista, se ouvir a sua opinião, contra a corrente do seu partido. Subscrevo totalmente.
E também sobre o défice de 2010:

segunda-feira, abril 04, 2011

Nascidos culpados

Este blogue, com o passar dos anos, começa a ser uma caixa de surpresas para mim. Fui encontrar ali um link para PAZ VIOLENTA, um blogue onde com uns amigos escrevi alguns textos sobre a paz em tempo de guerra. Parei neste texto, Nascidos Culpados (creio que foi publicado no NON Intervenção).

sábado, abril 02, 2011

Para que precisamos nós da Esquerda?

1. Há uns anos atrás, depois de Guterres se ter zangado com o país e Ferro Rodrigues ter assumido a liderança do Partido Socialista, preenchi a minha ficha de adesão a este partido e pedi a dois amigos militantes que a subscrevessem. Para além das razões que se prendiam com a conjuntura política, entre os quais se destacava o papel muito positivo de Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e Vieira da Silva na defesa das políticas públicas de solidariedade, havia uma outra, que ía confessando sempre que tinha possibilidade: defender a importância, perante um PS que se entretinha a descaracterizar este contributo, da iniciativa do Ministério da Cultura no período entre 1995-99. Por causa disso participei ainda em algumas reuniões da acção sectorial da Cultura, até perceber que a sua ineficácia não tinha tanto a ver com o conformismo cultural dos responsáveis por este sector, mais do esvaziamento e conformismo do Partido Socialista em relação à Cultura. Saído Ferro Rodrigues percebi que a minha inscrição no PS tinha sido um equívoco e deixei-me afastar pela inércia. O facto de ter sido um equívoco não impediu de poder ter aprendido algo muito importante: o conhecimento de que a vida partidária é também, e muito mais do que se imagina, um espaço de resistência associativa, de amadurecimento cívico e de fermentação de ideias, que contrariavam algumas ideias preconcebidas que eu tinha sobre a vida política partidária.
2. Achei importante esta nota quando estou a escrever uma reflexão sobre a necessidade que temos da Esquerda, para desde logo dizer que não a consigo entender sem o PS. Apagar o contributo do Partido Socialista em políticas de solidariedade social, da cultura, da defesa do meio ambiente, da ruptura de mentalidades e da defesa das minorias é um gesto absurdo que empobrece a esquerda de valioso património político. Não creio aliás que haja algum interesse neste momento em discutir sobre quem é ou não de esquerda, até porque a situação política e económica está de tal modo extremada que a simples escolha da barricada é já um indicador mais claro disso do que qualquer discussão genética ou geneológica sobre a pureza da Esquerda.
3. Disse que no momento actual em que vivemos a simples escolha da barricada é já um indicador muito claro sobre o que se espera da esquerda. Mas devia ter dito mais: que também o é a forma como percepcionarmos a urgência com que é necessário tomar partido. E já no nosso aquartelamento ideológico - não tenham dúvidas de que estamos em guerra - deveremos tentar ter uma compreensão comum a alguns fenómenos que afectam a nossa relação com o real.
A primeira é de que vivemos
, desde há muito, num clima de desideologização da nossa vida, e que este clima é resultado de um intenso trabalho ideológico (que tem o seu sucesso na forma como consegue dissipar a sua componente e natureza ideológica). A ideologia surge como que um produto de entretenimento retórico, porque o que nos interessa, o que interessa verdadeiramente é podermos viver melhor, consumir mais, trabalhar mais, produzir mais. Vamos perder muito tempo do tempo que nos falta senão começarmos por desenvolver uma visão em comum desta realidade.
A segunda questão é percebermos que a ideia de crise tenta desde logo mobilizarmo-nos para pertencermos a uma ideia de que a nossa vida era boa, era justa, e que deveremos fazer tudo o que podermos para voltarmos ao nosso consumismo desenfreado e, cerrando as janelas e as portas dos nossos condomínios mentais fechados, pensarmos: " - A borrasca passou!". É uma grosseira mentira que começa por nos esconder o essencial: a nossa vida há muito tempo que deixou de ser nossa e se tornou numa generosa hipoteca sobre a possibilidade de tomarmos nas mãos o nosso modo de vida.
A ideia de crise tem ainda outros desenvolvimentos ( e já tentei abordar isso no Alegro): de uma forma suscinta, a cultura da crise alimenta-se da criação de um pathos que nos faz perder de vista a possibilidade de outras soluções do que aquelas que um exclusivo grupo de especialistas nos apresentam. Poderíamos dedicar a isto muitas linhas mas também o podemos dizer assim, à velocidade da nossa inquietação: Cavaco foi eleito pela sua perícia em perceber estes fenómenos e no entanto assinou em quatro dias a proposta do governo de Sócrates para nacionalização do BPN. E Cavaco e o Governo fizeram-no porque havia uma ameaça, um pathos sobre as suas cabeças. Ninguém teve o discernimento de pensar aquilo que poucos dias mais tarde era evidente: que a saúde da nossa banca era boa, que não estava tão exposta aos activos tóxicos, que a nacionalização da actividade que dava prejuízo sem o acautelar do resgate do financiamento público era uma perda terrível para a nossa economia. Não adianta referir isto senão como pedra de toque desta consciência de que o mais grave daquilo que se passou até agora é que possamos ainda não estar suficientemente alerta para o ataque impiedoso que isto é ao nosso desejo de vivermos num mundo mais justo e solidário. Felizmente começa já a circular entre nós muito material de grande capacidade viral, para não falar de Inside Jobs, que nos obriga a perceber o quão dissimulado é este trabalho. Olhem para a Europa do défice, da dívida pública, desta financeirização que tomou conta da nossa percepção do mundo e vejamos como está descaracterizado este sonho europeu que ainda há pouco tempo nos trouxe tantas esperanças. Há uma questão cujo impacto desprezámos: a união da Europa pode também tornar a Europa mais vulnerável.
4. A inevitabilidade do FMI. Há alguns meses que a inevitabilidade do FMI tem sido lançada como solução para a crescente incapacidade dos PIGS se financiarem no mercado da dívida. Sucessivamente como num dominó as peças foram caindo sem que se perceba em que é que a intervenção do FMI foi positiva para os países intervencionados. No entanto a mesma intervenção continua a ser sugerida e de uma forma cada vez mais radicalizada sem no entanto se explicar porque é que se pensa que ela deve ser pedida. Ao mesmo tempo parece que desapareceu do discurso político a ideia de que a Europa possa ter uma outra posição sobre o mercado da dívida, quer pela criação de agências de notação credíveis, quer pela criação de alternativas financeiras por parte do BCE de apoio aos países com problemas. Quando eu digo que desapareceu do discurso político quero dizer que ele está a perder capacidade de entrar na agenda política. E está a perder capacidade porque assumir esse discurso é uma tarefa da Esquerda e a Esquerda está toda esfrangalhada presa a lideranças que tentam fazer uma gestão de danos. Que tentam fazer uma gestão de danos em relação à perda de influência mediática e discursiva de uma visão política alternativa a este furacão neoliberal que descobriu a sua galinha dos ovos de ouro na divída pública da velha Europa.
Ora no nosso país isso só pode acontecer através de uma coesão do discurso da esquerda, o que, entre nós, terá se ser entendida no plano parlamentar e institucional como PS, PCP e BE e tendo como base de apoio no mundo laboral uma convergência entre a UGT e a CGTP. É o único quadro ideológico que permite identificar de forma clara o que se está a passar.
5. O milagre da Esquerda. Esperar que por sua iniciativa os partidos de esquerda, a CGTP e a UGT se unam e assumam que é possível criar uma alternativa àquela que nos propôem aqueles que acham que a única solução é o pedido de apoio ao FMI (escamoteando o facto de que não se tratam apenas de dinheiros do FMI), é o mesmo que esperar o Natal em Junho. Essa alternativa implica necessariamente uma politica da criação de uma grande evidência comum, e só pode advir se conseguirmos perceber que as nossas finanças públicas implicam medidas de uma grande radicalidade e de confronto com a forma como o Estado foi desenvolvendo um monstro que o impede de aperfeiçoar a sua função.
A ideia de um Estado-Monstro é uma criação neoliberal, é certo, mas isso não nos pode impedir de reconhecer que a conjugação de uma ideia constitucional de serviço público com uma ideia de empresarialização do Estado, tem, na sua grande maioria, enfraquecido a prestação do serviço público. A dinastia PEC não é de esquerda porque tem faltado à verdade, foi injusta nas suas propostas e não foi longe demais na moralização da vida pública (imprescíndível para uma coesão social e envolvimento da comunidade nos esforços de austeridade) mas a ideia de planos para recuperação da saúde económica, e não apenas financeira, da vida do País, são fundamentais. Ser de esquerda não é meter a cabeça na areia e negar que para estabilizarmos esta desestabilização fdp, há a necessidade de distribuirmos um pouco de instabilidade por todos em vez desse ídilico sonho de distribuir a riqueza (que não há) por todos. A esquerda tem notórios problemas em discutir esta realidade mas vai ter de encontrar um mínimo denominador comum. Porque se ela insistir na demagogia está a ser cúmplice com este alastramento de uma demagogia calculista de assalto ao poder por parte da direita.
Chegámos a um ponto dramático mas inevitável: como a Esquerda dos partidos não se entende, tem de ser a Esquerda dos cidadãos a pressioná-la para que o consiga fazer. Tem de ser a esquerda dos cidadãos a dizer aos partidos que a querem representar que têm de ser mais rápidos, mais ágeis no encontrar de um denominador comum que nos ajude a libertarmo-nos desta fatalidade de sermos a próxima pedra a cair no xadrez da grande jogada de um movimento especulativo de dimensões nunca vistas e que configura verdadeiramente um crime económico contra a humanidade.
6. Escrevo este post no balanço pessoal de uma experiência política inusitada e que me apanhou desprevenido, quando colaborei no Alegro Pianísimo (blogue coordenado pelo Luís Novaes Tito, Joana Lopes e Paulo Ferreira) e em que ganhei essa convicção de que a política tem de estar associada à utopia, a essa vontade de bater o pé, a esse desespero de termos uma corda enfiada na garganta e de termos de ser mais ágeis que o garrote. Fomos jantar anteontem e voltei a pensar nisso. Lembro-me de algures, no blogue, ter escrito a páginas tantas que votava no Manuel Alegre por aquilo que essa opção me obrigava a ver e a querer ser com outros. Tenho aprendido muito nestes tempos. Descer a 12 de Março a Av. da Liberdade, ser um de duzentos ou trezentos mil, foi também muito enriquecedor para mim. Não podemos baixar os braços. Se a esquerda partidária não consegue perceber o que queremos dela, temos de o dizer. Nos blogues, no facebook.
Temos de voltar à rua, a Primavera chama-nos.

sexta-feira, abril 01, 2011

O blogger zangou-se comigo. Ou isso ou um vírus. Um simples post demora-me imenso a escrever. As palavras não surgem instantaneamente. Vão percorrendo lenta, lentamente a superfície em branco. Enquanto eu desespero. Ou isso ou um vírus.

A alegria

Do Brasil a Alexandra Lucas Coelho escreveu que "inês não estava morta" . E que a alegria é imprescindível para não termos medo da vida que aí vem. Fico-me por este resumo apressado. Muitas e muitas vezes diante deste rio faço a minha profissão de fé. Penso que virar a cidade para o rio foi um trabalho sobre a vida de cada um de nós e sobre a nossa cultura. E anseio pela primavera por causa disto: as coisas começam a ter cada vez mais a sua real importância e não a fantasmagoria que nos condiciona, limita, prende.

quarta-feira, março 30, 2011

Quem disse que a arte não liberta?

O real como imposição cansa. Estou sentado numa tasca de bairro. É hora tardia, venho sempre em desespero quando já é a hora do pessoal da cozinha vir almoçar. Diverti-me a imaginar nas duas cozinheiras mais velhas, fortes, atarracadas, as mulheres jovens que a cozinheira mais nova, a da esquerda, é. A esta imaginei-a mais velha. Velha e gorda como as suas outras duas colegas de copa. Este real assim, um carreirrinho, cansa. De repente, para não as querer torturar no meu olhar de mirone, descubro-as no azulejo da parede. E parecem-me personagens de Bordalo, de Goya, deVelasquez. Ganham uma dimensão de revolta contra o circulozinho vicioso em que se enovelam as suas vidas. Quem disse que a arte não liberta?

sexta-feira, março 25, 2011

Amanhã a politica será outra coisa

"Amanhã a política será outra coisa", disse Maurice Clavel há mais de trinta anos ao Jornal Novo. Nunca me esqueci dessa frase, guardei-a comigo, pensei, um dia digo, hoje, hoje a política "será" outra coisa. Esse dia está a chegar. Durante anos vituperámos o comodismo, a forma apolítica como vivíamos. E agora que a política chegou às nossas vidas agitamos medos como fantasmas interiores. Não concordo com muitas das reivindicações do chamado protesto da geração à rasca. Nem concordo aliás com a ideia de reivindicarmos alguma coisa que não seja a necessidade de sermos melhor enquanto governados e de termos melhores governantes. Mas revejo-me - e é isso que me faz dizer essa coisa extraordinária de que Cavaco foi oportuno (mesmo se oportunista e igual a si mesmo) - naqueles que acham que temos de olhar para a frente com olhos novos. Sou muito crítico em relação à forma como vivemos. Tanto aqui como no mundo. Há muito tempo. Não podemos aceitar a exploração da precariedade ( e eu que aceito todas as formas de precariedade inclusive essa bastarda, a morte, não a minha, que não a conheço senão na sua forma mais cruel e tortuosa, a daqueles que amo) e não podemos aceitar que se ache muito normal e contemporâneo haver quem não tem onde dormir, comer, foder, trabalhar e haver tipos que têm milhões de euros anuais de tenças do Reino, eu disse, do Reino, e que tudo isso seja muito justificado por um paradigma vitorioso qualquer que por acaso só se esquece de explicar a sua humanidade. Não podemos aceitar que a Cultura, que é esse lugar imenso onde instituímos o outro em nós seja tida com uma desresponsabilização constante e permanente. E não falo apenas das políticas oficiais da Cultura, o que já não seria pouco. Falo de uma coisa mais séria, mais grave, que andamos muitas vezes a evitar perceber: é na dimensão cultural que encontraremos capacidade de perceber que se fizermos as mesmas coisas nas novas oportunidades que todos os dias temos, não estamos a fazer coisas novas mas apenas, coisas velhas feitas de novo. E que não vale a pena acharmos que somos gigantes governados por pigmeus. A cultura é esse lugar imenso e multiplicador onde somos capazes de duas proezas: a de compreendermos que não é uma derrota aceitar e integrar a diferença do outro, nem uma tragédia pessoal olharmos para dentro de nós e assumirmos que temos que mudar a nossa vida. Eu disse duas? Deveria ter falado na terceira: fazer dessas duas epopeias uma festa. Pertenço também, como muitos, a um lugar, o teatro, que não existindo verdadeiramente, também não é um espaço imaginário. É um espaço de pessoas reais instaladas em pessoas imaginárias. É uma fábrica de mundos onde a intensidade pode decorrer tanto das nossas palavras como daquilo que fazemos mas em que ambas, palavras e acções decorrem inquestionavelmente da nossa presença. É preciso estar lá e estar lá com as pessoas. Depois de amanhã talvez me chegue aqui e escreva algo mais dissonante. A minha presença pode vir a ser manipulada. É sempre assim. Mas não é a nossa presença. Aprendemos noutros tempos, quando os mortos votavam, que a nossa ausência também pode ser extrapolada, manipulável. Exercício fodido isto de um vivo no meio de vivos. Não me importo. Importar-me-ia mais se não tivesse esta possibilidade de vir aqui lavar a alma de novo. Há. Há sempre uma nova possibilidade. [Texto publicado originalmente no Facebook]

Estamos todos no mesmo barco

A história do Principe João dos nossos tempos.

Notas do Facebook

Comecei a publicar aqui algumas notas do Facebook. Preciso de voltar ao blogue, é aqui que sinto haver um lugar onde melhor posso pensar. A quem anda pelos dois lados, vai encontrar repetições. Para os outros, é uma vontade de estar com eles. Veio a primavera e com ela o desejo de mudar, de participar na mudança.

Para mudarmos remos de saber onde está a nossa força

Quando olhamos para a realidade politica e nos vemos a partir de quem nos representa, viramos a cara para o lado, negamos que sejamos nós neles. É uma reacção quase infantil entre representante e representado, tal e qual como vi, em lugares onde trabalhei com crianças com problemas de auto-estima, quando fazíamos jogos com o espelho. E que fugiam da sua própria imagem. Ou que baixavam os olhos, envergonhados, quando se miravam. O quê, eu sou este? Custa a aceitar que aquela perfeição que em nós habita possa ser tão imperfeita. Não há construção identitária que não comece por aqui, pelo desmame dessa imagem de perfeição que tanto nos securiza mas que também, tanto nos limita o crescimento. Ou que provoca a destrutividade, a violência aniquiladora. Arno Gruen avisa-nos tanto sobre este fenómeno profundamente humano. Eu não sei que grau de percepção disso tem cada uma das pessoas que desceram comigo a Av. da Liberdade. Sei apenas que esta circunstância agorética, presencial, de descermos uma avenida em conjunto nos começa a transformar por dentro. A sermos capazes de ouvir algumas coisas duras que temos de escutar de nós mesmos. Não as podemos escutar enquanto não soubermos que as podemos mudar. Somos livres de não entender o quanto a exploração humana e a própria barbárie civilizada a que chegou a nossa presença neste mundo, estão intimamente ligadas à forma como vivemos. Podemos começar por olhar para imagens como as dos salários monstruosos dos gestores públicos, entre outras anormalidades da nossa vida social, mas um dia teremos de chegar às imagens mais aproximadas, àquelas que falam mais de nós, àquelas de que somos mais responsáveis. E aí vamos ter de perceber que em vez de podermos gritar palavras de ordem contra um Estado que não realiza todos os nossos sonhos temos de ser capazes de ter uma vivência solidária dos recursos disponíveis. É por isso que o dia de hoje pode ser tão importante. Porque se não podemos escutar as coisas duras que temos a dizer a nós mesmos enquanto não as pudermos mudar, também só as poderemos mudar quando descobrirmos que somos fortes e que onde está a nossa força. E hoje descobrimos onde ela está. No estarmos juntos. Juntos todos aqueles para quem a ferida da representação causava sucessiva incapacidade de perceberem quando e como podiam participar porque já não se reviam no voto bem comportado e com regularidades bem determinadas. Podemos descer uma avenida juntos, e depois virem dizer que havia, naquela multidão pacífica - ou seria, pacificada?- gente da extrema esquerda, da extrema direita, da direita, da esquerda, do centro. Somos fortes, esta é a nossa força.

Uma escuridão ao fundo do túnel

A política torna-se sócia da magia. Sócrates, nas cordas, faz um dos melhores discursos, fala destemidamente verdade mas a barulheira é tal que não se conseguem perceber três coisas: a primeira de que quem quiser colar a manifestação de 12 de Março a uma manifestação anti-Sócrates, está a fazer um aproveitamento político partidário ilegítimo desta manifestação ( e provavelmente a não perceber a análise política que todos os partidos têm de fazer); a segunda, a de que a demagogia da análise política de comentadores como António Capucho ( este chegou a dizer esta coisa espantosa, " é claro que ninguém quer ir para o governo nesta altura porque é preciso resolver muitos problemas", de Teresa Caeiro, Luis Fazenda e até (pasmo!) de Rui Sá, quase fazem Sócrates parecer aquilo que em dez anos de governação nunca conseguiu verdadeiramente ser: um estadista; a terceira de que nem PSD, nem CDS, nem BE, nem PCP, nem Cavaco ( e eu diria, que com alguma ironia, o próprio PS) têm mais desculpas para não fazerem aquilo que devem fazer já que do cruzamento das palavras de Sócrates com as das posições de todos os partidos resulta claramente que não se vislumbram condições para uma continuação de um política minoritária, principalmente quando, como referiu e bem no outro dia Daniel Oliveira, se assiste a um golpe de estado da Comunidade Europeia, através da comandita da Sra Merkel, obrigando os Estados a alterações significativas que não foram sufragadas pelos diferentes eleitorados. Por outro lado Sócrates, por mais que pareça um estadista, não o é. Se o fosse perceberia que não pode criar unidade política verdadeira sem a coesão social e que não pode desprezar nem os desníveis de classe que existem, nem o peso que a gordura pública tem para o descrédito de políticas impopulares. E muito menos que, por exemplo, não pode patrocionar medidas como a facilitação do despedimento numa medida que não parece ter nenhum efeito prático no défice ( e consubstancia aquele golpe de estado de que falava o Daniel). Ou que não pode deixar de clarificar o peso real de grandes investimentos para a despesa pública. Se fosse um verdadeiro estadista teria percebido que devia ter olhado de outra forma algumas das propostas económicas do Bloco de Esquerda (independentemente dos erros deste). Não há hoje alternativa a um governo sustentado numa grande unidade nacional indispensável para tomar as medidas duras que têm de ser tomadas. É uma mera questão de tempo. Na altura em que a crise se insinuava escrevi várias vezes de que tinhamos de mudar de vida e que tinhamos de mudar de vida todos. Ora um governo minoritário é o terreno ideal para o aparecimento de demagogias sectorizadas (emprego para todos, não redução das reformas, não diminuição das despesas públicas na educação, na cultura, na saúde, etc, etc) que podem vingar numa época de pretensa abastança mas são inviáveis e impossíveis de sustentar agora. Tudo isto poderia ter duas sequências: ou eleições, com o aparecimento de propostas concretas para a resolução disto que promovam desde o princípio uma politica de verdade sobre as dificuldades que temos pela frente, ou um governo de unidade nacional a partir da iniciativa do Presidente da República? Alguma pessoa de bom senso consegue, neste Estado de coisas, antever um governo de unidade nacional por iniciativa de Cavaco Silva? Ou, pela amostra que aí vem, de que os partidos possam criar um referencial político credível quando a direita e a esquerda ( tirando o PS aqui nitidamente ao centro) não têm nenhum ponto de cruzamento relevante que não seja o ataque a Sócrates. Se vier aí um novo governo Portas e Passos, Passos e Portas nada disso será novo e tudo isso será mais um passo para o abismo. A saída disto tudo começou a ser esboçada no fim de semana passado. O povo quer que haja capacidade da sociedade se organizar para criar soluções que permitam perspectivar o seu futuro e reconhece que o quadro político convencional não é capaz de dar essa energia, essa força. Não vale por isso manipular aquilo que aconteceu no dia 12. E é preciso deixarmos de ter uma atitude competitiva e individualista ( quando me forem às minhas regalias e direitos acabou-se a conversa) e começarmos a agir mais solidariamente. Poderá um dia voltar a haver empregos para todos. Mas enquanto não houver os empregos que há têm que ser partilhados.

Da democracia à demagogia e desta à solidariedade

Há um problema insanável na questão da precariedade e que, como tudo na nossa vida, só pode ser resolvido de duas maneiras. Ou com demagogia (há quem lhe chame irrealismo) ou com solidariedade (os que chamam a demagogia de irrealista outorgam esta de realista). Não creio que haja em teoria uma maneira melhor que a outra. Na experiência humana tudo é defensável, tudo é contextualizável, admito que possa haver contextos em que uma pitada de demagogia seja o sal motivador, o espectro político tem um lastro imenso, inesgotável, neste território denso, de paisagens em espelho o que nos salva é a ideologia, ou seja, a pertença de cada um a uma determinada concepção do mundo. O que torna uma ideia mais adequada do que a outra é o tempo que temos para as aplicar. Como em tudo na vida. A demagogia parece que não é uma resolução, mas é. Não havendo condições para criar um estado de alarmismo que leve os sujeitos a olharem de frente a sua vida, a demagogia é entendida muitas vezes politicamente como um modo de manter a coesão social. Quando eu digo politicamente quero dizer por governantes e governados. Não há forma de enfiar a cabeça na areia: a democracia é partilha da responsabilidade. O que diríamos nós de um Governo que não havendo ainda perspectivas de crise dissesse que iria defender a diminuição de salários reais, o abaixamento de pensões, o aumento da inflação, o corte da despesa pública, o desinvestimento, a perda de regalias adquiridas para garantir um melhor futuro a longo prazo? Se alguém for capaz de levantar o braço e dizer sim receio estar diante de alguém que tem a mesma hipocrisia política que a rua aponta a José Sócrates. A demagogia leva-nos a exigir que o Estado possa fazer-nos ter como seguro o que é precário. Queremos que os nossos filhos estudem e tenham um bom emprego, queremos poder continuar a ter como segura a nossa reforma, queremos ter os nossos empregos públicos, queremos conviver com deus e o diabo no mesmo quadrante. Não adianta grandes considerações mas a verdade é que muitas pessoas pensam que não é a democracia que nos governa, sim a demagogia. E têm razão e aí começa a ser um bocadinho difícil defender, como fiz no ínício do texto, aquela ideia cínica de que não haja, entre a demagogia e a solidariedade, nenhuma que seja melhor. Para todos os que defendem a superioridade da democracia, a solidariedade e o realismo são melhores do que o irrealismo demagógico. E isto porque a demagogia tem tendência a absorver e a anular todo o corpo democrático deixando-lhe apenas a sua imagem exterior. Ela vive da desregulação, da bondade dos principios desarticulados. Cada um dos pequenos espaços de pressão arranjam um espaço de legitimação para a salvaguarda de medidas que são analisadas dentro de um universo de razões que tendem a legitimá-las. É claro que para cada um de nós que vivemos uma ideia democrática, face à emergência de um estado de carência acentuado e até, uma bancarrota do país, é absolutamente criminoso o pagamento de honorários e prémios a gestores públicos nos valores que foram divulgados muito recentemente pelo CDS e que há muito circulavam nas nossas caixas de correio electrónico. Não é um assunto que possa sequer ser discutido, ponto final. No entanto, estes gestores pertencem a empresas reguladas publicamente. Ou seja, no micro-estado soberano em que foram definidos aqueles honorários eles estão de acordo com um conjunto de articulados que gabinetes de recursos humanos, jurídicos e de finanças elaboraram defendendo-os e legitimando-os. E porque a demagogia tem em si o antídoto para aqueles que a denunciam - já que a demagogia é um estado geral que percorre toda a estrutura da vida pública desde aquele que se levanta todos os dias para ir a um emprego onde não faz a ponta de um corno mas recebe todos os meses o seu salário, àquele que no panteão dos deuses demagógicos saca um milhão e meio de prémios de produtividade por gerir uma área sem concorrência - e porque ela vivifica numa sociedade que apenas tendo o aparato democrático, torna-se dificil pensar que é possível uma comunidade mudar de uma governação baseada nos principios da demagogia, para os princípios do realismo sem ocorrerem mudanças violentas ou até, mudanças de regime. Nestes termos a demagogia é uma doença instalada no corpo democrático, que lhe vai comendo os tecidos, as células, as moléculas, os atómos, tudo. É por isso que o zénite do estado demagógico é a emergência de regimes totalitários porque parece que foi a democracia que nos conduziu a este atoleiro. E não foi. Há uma rima pobre da demagogia que também tem sérias responsabilidades. A hipocrisia. A hipocrisia é por exemplo vituperar o Estado Social, fugir aos impostos e depois achar que a saúde, a educação, a cultura estão enfraquecidas. Ou estar há num trabalho onde não se faz nenhum, onde a produtividade para o bem comum é escassa e depois achar que se ganha pouco, que não se podem perder regalias, que a culpa é dos chefes que não os põem a trabalhar. Ou ser deputado da república , usar e abusar dos requerimentos para não fazer nestum, encher-se com as tenças, as reformas precoces, as partilhas público-privadas e depois assumir uma critica ao laxismo e despesismo do Estado. Ou ser gestor público, definir sacríficios orçamentais públicos e abotoar-se com principescos salário e prémios e toda a sorte de complementos de vencimento. Ou ser jornalista, desmascarar todos os dias casos de favorecimento e prejuízo para a causa pública e aceitar viver um sistema de saúde e de previdência excelente que sai dos bolsos de todos, também daqueles que têm de se contentar com um sistema de saúde geral. Ou ser funcionário do Estado e ter regalias próprias, adquiridas em momentos em que os interesses corporativos conflituavam abertamente com os interesses da comunidade. Hipocrisia, demagogia, rimas pífias de um verso podrido. É um grande problema, claro, até porque, quando alguns de nós começam a reparar que vivemos mais num estado demagógico do que num estado democrático, a grande guarda ideológica da demagogia cai em cima de nós e força-nos a reconhecer que o aparato do estado em que vivemos ainda é o da democracia. O que fazer então em relação à precariedade em vez de uma resposta de sentido múltiplo torna-se numa via de sentido único: face ao tempo que nos resta (a nossa dívida já é 90% do PIB) o grande combate, a grande luta, é a tomada de consciência e o assumirmos, por parte dos governantes, solidariamente a perda de privilégios, de regalias, de partes do vencimento, seja lá do que for, e da parte dos governantes, assumir-se a verdade, a informação, a austeridade, a limitação exemplar da despesa pública, dos benefícios exdrúxulos. E para isso, neste contexto, com um Presidente da República e um Primeiro Ministro que, mais do que a coesão, suscitam a crispação nacional afigura-se difícil a resolução deste problema no actual quadro político. Isso só nos tem levado a uma forte ideologização de decisões que agora deveriam poder estar mais ligadas à sensatez do que ao antagonismo ideológico. O que é um problema muito grande: é que também não se afigura muito luminosa a possibilidade de um verdadeiro novo quadro político se o pensarmos exclusivamente a partir da representação política sentada na Assembleia da República. O baralhar e dar de novo seriam apenas uma perda de tempo. Enquanto a política não poder receber os contributos activos dos movimentos de cidadania que surgem, nada de verdadeiramente novo se passará em Portugal. É por isso que é tão importante crescermos juntos na tomada de consciência de que mais do que melhores governantes, temos de ser melhores governados. E é por isso também afastar aqueles que querem levar a manifestação de dia 12, para o campo da hipocrisia e da demagogia. E pensar que, para além do dia 12, há mais 30 ou 31 dias no mês. E que a Primavera está à porta. Deveremos trazer a alegria da luta às praças, ás ruas e avenidas.

sábado, fevereiro 05, 2011

Rosa Negra do Cairo

ainda não aprendi a respirar de boca fechada.
o tempo que estas coisas levam a aprender.
os meus olhos têm gravadas imagens de le bonheur.
são fotogramas de arquivo.
eu tenho medo de usar as palavras para dizer.
as palavras, estas sonsas. Mubarak já não fala
à multidão, a multidão cresce na sua revolta,
ouve-se o cantar melodioso de uma revolucionária,
mas as palavras ainda serão uma e outra vez,
umas putas. não consigo descolar. fazer destas palavras alguma coisa
que não o silêncio
de quem emudece.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Poesia & Contrabando

Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Não ponho as palavras em escadeado, como antes, antes de tudo, antes de mim, eu imaginava o poema. Eu pensava que era assim que se distinguia o verso, a própria poesia. Tantas ilusões. Agora, que é tarde, o mundo está preso a uma guerra que eu não sei anunciar - sim, eu seria um verdadeiro poeta se conseguisse entrar por dentro destas vidas mesmificadas e, por um instante fosse capaz de avisar-vos da guerra que aí vem - eu sei que o poema não verseja, nem diz piropos às moças na vereda dos caminhos.
Tenho alguns amigos meus que são poetas, que decidiram apresentar-se ao mundo enquanto poetas . Olho para eles, para a gravidade com que trazem a poesia na fronte ferida, lacerada, por uma linguagem-torniquete e bebo deles como se matasse a sede numa fonte de água fresca. É preciso coragem para querer viver assim, sabendo que a poesia começa por não perdoar aos poetas a ousadia.
Antes de ser poema o poema é poesia.
Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Se eu ainda tivesse ilusões, que não tenho, a maior de todas seria esta: fazer de mim mesmo um poema.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Criação das palavras

Uma frase pequena. Falta-me o tempo para as frases grandes. Uma frase é um objecto. Um jogo, um espelho. Uma porta. Ou quando o tempo ainda é ainda mais escasso, uma janela. Um lugar onde (ainda) não se está.
A palavra perfura na virtualidade. Adensa-a. Como se começasse por ser uma pequena neblina matinal. E de repente, tão de repente que até dói, é um nevoeiro cerrado, um lugar sem saída. É aí que a palavra serva perfura. Cria.

Breves palavras de desespero

Uma palavra breve. O tempo escapa-nos. E com o tempo, o sabê-lo. O próprio saber. Não tenho nenhum sentimento dentro de mim. Não o digo com garbo. Constato-o. Constato que aquilo a que a partir de agora chamarei de sentimento não é suficientemente canino para eu poder emoldurar ao pé dos lustres, das pratas, das palavras exdrúxulas. Quanto muito seria uma borboleta, se assim o quisesse. Não quero. Fecho-me àquilo que o seu bater de asas, metáfora do mundo, cicia. Olho-te com um desespero nunca visto. Olho-te como se te dissesse,
agora é que se foi, o que perdemos.
A minha vida é de uma inutilidade tão tamanha que nem sirvo para odiar. Eu sei, eu poderia propor-me para mestre-escola, propor-me a humanidades, salvar assim a família, a tença, o próprio salário.
Não posso. Seria mentira. E eu já me adestrei a tudo. A perder pai, irmãos, amigos. Os próprios sentimentos, o ódio, o amor. O pensamento, que não a ideia de pensar. Mas não é perder o pensamento viver num mundo que dele não carece?
É. Sobreviverei a isso também. Deixo-me apenas este luxo, esta bizantinice: um pouco de verdade. Não digo muita. Tendes razão. É pouca. Nem é bem uma verdade que é. É uma sombra. Um resto que ficou do grande banquete.
Basto-me assim.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Boa Nova da Trindade

Momento curioso da campanha. O cortejo estaca, ordenada e compenetradamente, por breves instantes para que os repórteres de imagem e os fotógrafos recolham as suas imagens. Hoje fiz parte. Soube-me muito bem fazer parte.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Blogosfera : Liberdade de Expressão

Concordo totalmente com o Tomas Vasques. Estas coisas alastram. Parece um simples caso de conflito entre uma cliente e uma empresa, a Ensitel, em torno de uma transacção efectuada. Mas vai-se a ler e é mais.
É o ABC do que não se deve fazer.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Cavaco vai processar Felícia Cabrita?

Cavaco vendeu abaixo do preço, escreveu Felícia Cabrita, no Sol. As acções da SLN foram compradas a 2,40 quando Oliveira Costa já as vendia a 2,75. Já há muito que me deixei de criticar os jornalistas. É uma parvoíce. Não serve para nada. A única coisa a fazer é esperar que os bons sejam mais e melhores que os maus. Mas neste caso é bom fazer a pergunta : porque é que Felícia Cabrita assinou uma notícia tão tendenciosa e mal feita?
Começa logo no primeiro parágrafo: Diz que Cavaco vendeu as acções por um valor inferior ao que Oliveira e Costa fixara "noutras operações de compra e venda". Lê-se o resto da notícia e não há mais nenhuma referência a valores de... compra, apenas uma carta de um accionista interessado num aumento de capital e que se propôe em Julho comprar acções por 2.75 (valor referenciado por Oliveira e Costa numa reunião do BPN), bem como referência a documentos sobre uma venda de acções do BPN efectuada no mesmo dia em que Cavaco vendeu as suas acções. Aliás, na parte final da notícia uma fonte do BPN explica que sendo acções que não estavam cotadas em bolsa não tinham qualquer valor de referência.
"As acções de Cavaco - adquiridas em 2001, por um euro cada- foram compradas pela SLN dois anos depois pelo preço unitário de 2,4, quando o preço que ela já praticava era de 2,75." Felícia Cabrita induz-nos a pensar que estamos a falar da mesma coisa, quando um valor é o de compra e o outro é o de venda. A minha pergunta é, porque é que Felícia Cabrita quer que eu pense que um banco compra pelo mesmo valor que vende?
Felícia Cabrita vai ao ponto de dizer que Cavaco e a filha perderam dinheiro
: ele "cerca de 36.682 " (refira-se o cerca de 36.682) e ela 52.374 euros porque compara o valor de compra pelo Banco com o valor de venda pelo mesmo Banco. Como se fosse natural um banco não ter nenhum lucro numa operação como esta. Mesmo admitindo esta lógica, absurda, mas para entrar no raciocínio da reportagem: não passa pela cabeça da Felícia Cabrita a oportunidade de perguntar porque é que um homem e a sua filha que de 2001 a Novembro de 2003 ganharam 1,40 com cada acção resolvem perder 0, 35 por cada acção a 17 de Novembro de 2003? O que é que era tão importante assim para fazer com que Cavaco e a filha abdicassem de um parte substancial de um pecúlio que era o resultado das poupanças de uma vida de trabalho, como têm defendido os seus apoiantes?
Estamos perante um jornalismo de investigação que não só não esclarece as questões que pretende esclarecer como ainda lança novas suspeições, como esta: " Cavaco e a filha tinham comprado as acções em Abril de 2001, directamente a Oliveira e Costa pelo mesmo preço que só este enquanto presidente da SLN podia adquirir: um euro". Podia vender? Como é que podia? Não estamos diante de "favorecimento em negócio"? E não é "favorecimento em negócio com prejuízo para quem vende, o banco"? Ou seja, Oliveira e Costa não estava a fazer concorrência ao Banco a que presidia sem ganho nenhum nem para ele nem para o banco que dirigia? "
Há uns meses quando entrevistava Hélder Costa sobre o Mistério da Camioneta Fantasma, ele revelou-me que ao investigar as verdades escondidas ía sempre procurar aquilo que os inimigos diziam, porque eles falavam a verdade. Talvez também se possa dizer que para ficar com as maiores suspeições sobre este negócio há que ler não quem contesta Cavaco, mas quem o defende.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Natal dos Simples

Por momentos fujo. Coloco o dvd de José Afonso no Coliseu e fujo. Para um tempo tão longe daqui. Se calhar tão perto. Amanhã. O Natal é uma altura festiva e, como quase todas as festas a que eu não consigo pertencer, seria, um pouco deprimente. Digo seria. Escrevi isso no facebook: como acredito em cada vez menos coisas, há cada vez menos coisas que me irritam, que me deprimem. E por cada festa de que não sou, há mil a que pertenço. Os anacronismos das manifestações de uma comunidade que domina ideologicamente o mundo, não me tiram nem a febre nem a alegria. O Natal é a catárse do consumo e essa apoteose consumista não se manifesta só nas coisas: também nas ideias.
Ontem estávamos a ver um filme sobre Jesus de Nazaré e não pude deixar de me lembrar o Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, e da sua versão sobre o deus-menino. Temos a tendência para apagar o trajecto do cristianismo como ideia dominante sobre o mundo: da perseguição, à inquisição, às cruzadas, ao concluio com o totalitarismo ( não esquecendo também aquelas tantas vozes que iluminaram as suas vidas de resistência com um evangelho que também bem pode, se a tal for convocado, defender os humildes). Talvez o façamos porque percebemos que esta ideia de deus, de um deus por vezes quase pagão nos seus altares e iconografia, está umbicalmente ligada à uma determinada ideia de homem e de mulher. Não podemos mudar os deuses em que acreditamos (ou descremos), mas podemos, e estamos, a mudarmo-nos a nós mesmos. E ao mudarmos, é também toda a nossa relação com o sagrado que se altera. A peça Miserere, da Cornicópia falava de forma inteligente e sensível, disso.
É um tema, a relação com o sagrado, para o qual me sinto cada vez mais inábil ( e desinteressado) em discutir e mesmo que o quisesse, não seria nunca no Natal que o faria. Há demasiadas renas e pombas estúpidas no ar. O que me interessa é absorver o bom que esta quadra natalícia tem. Os gestos de boa vontade. O repararmos nos outros. O pensarmos e planearmos a dádiva, a oferenda. A suspensão de estupidez violenta. Ainda não sei desejar um bom natal, mas já estive mais longe.

terça-feira, dezembro 21, 2010

As minhas redes sociais

A posição da secretária foi consensual entre nós dois. Permite ver uma nesga de rio, os paquetes de luxo, um pouco da estação de caminhos de ferro. Em frente a estante. Não são muito resistentes as do Ikea. Vão-se dobrando com o tempo. Os títulos diante de mim são tão sugestivos como a janela e tanto a estante, como a janela, perdem para essa outra window, a do facebook.
Vou desistir de dar tanto tempo ao facebook. O meu espaço natural é a blogosfera. É aqui que eu gosto de escrever, sempre foi. Provavelmente afeiçoei-me a este meio. Mais por vezes é menos. Gosto de ver os textos do Mora Ramos, sabe-me muito bem ir de tempos a tempos seguir as conversas inteligentes que António Pinho Vargas consegue ter com os seus amigos, é sempre delicioso ir ver o Paulo Pena a dar largas à sua paixão crítica pelo jornalismo, ou a Catarina Martins a defender as nossas causas comuns da cultura, mas em grande parte sinto-me algo desconfortável com o tipo de comunicação que este meio promove. Os likes, as aplicações, as causas, tudo isso me parece um esvaziar-me num conjunto de protocolos que não domino bem. A verdade é, não quero dominar. Gosto dos posts curtos que me permitem falar das bolachas de gengibre e canela, é um meio muito mais intuitivo no modo como faz partilhar a informação, mas excepto uma meia dúzia de casos de pessoas que conseguem utilizar a aplicação para um debate de ideias que me interessa, não me seduz. Eu próprio ando há dias para colocar em debate uma data de coisas que me apoquentam. E nada. Não consigo. Saber que vão ser lidas por setecentas e tal pessoas de universos tão diferentes como os meus grupos de escola, de bairro, amigos de rua, de prédio, ou pessoas que apanharam um texto meu aqui ou acoli e que me pediram para ser meu amigo ( ou pessoas a quem eu fiz exactamente o mesmo), apoquenta-me tanto como as coisas que, por me apoquentarem, pensei em trazer aqui.
Eu não gosto de dizer estas coisas assim - porque é um discurso muito permeável à ambiguidade - mas o facebook parece-me aliás uma coisa muito perigosa enquanto conformação de comunidades massificadas, condicionadas comunicacionalmente por dispositivos que escondem a manipulação que operam.
E ainda por cima com uma investigação à perna, vou ter de começar a ser menos anárquico, gerindo a minha participação nestas redes sociais. Até porque tenciono também utilizá-las, tanto na versão facebook como na versão blogue, para criar uma pequena comunidade de pessoas, em Portugal e não só, interessadas no desenvolvimento da escrita teatral portuguesa. Estou ainda a pensar em como o fazer, mas a coisa deverá passar por tentar migrar todos aqueles que são meus amigos ou conhecidos por causa das coisas do teatro, da escrita e da cultura, para o facebook Escrever para Teatro em Portugal, mantendo no meu facebook pessoal uma pequena comunidade restrita de amigos.