quarta-feira, maio 04, 2011
Levante-se a Ré
terça-feira, maio 03, 2011
Para que precisamos nós da Cultura?
[Aparte ou pausa para respirar: Poderíamos também falar aqui da especificidade da relação portuguesa com a cultura . E aí teríamos oportunidade para falarmos de uma certa bicefalia que domina as políticas governamentais ligadas à cultura, fazendo um tratado de Tordesilhas entre aquilo que podíamos referir como alta cultura (os produtos culturais e os objectos artísticos realizados por agentes culturais devidamente licenciados, mapeados e legitimados, das quais se encarrega o Ministério da Cultura através dos seus diferentes organismos) e a baixa cultura (as actividades amadoras e de expressão popular, o associativismo, em grande parte confinadas à investigação científica e à academia, à INATEL, às autarquias e às cooperativas). ]
5. A agenda da direita. No entanto mesmo não nos deitando a criticar as atitudes, temos de tentar perceber o que é que podemos fazer. A agenda da direita parece mais ou menos clara e ela está entusiasmada com isso. Muitas vezes incorremos no erro, e eu faço mea culpa disso, dizendo que a esquerda se aliou à direita para derrotar o PEC IV e, consequentemente, o governo. A tirada tem alguma bondade como provocação mas não é exacta e não nos ajuda a perceber as circunstâncias do que se passou. A dinastia PEC foi uma criação do Governo PS com o PSD, assente num entendimento comum e sempre teve a rejeição do PCP e do BE. Ou seja, quem rompeu com a dinastia PEC foi, assumidamente Passos Coelho. Fê-lo da forma atabalhoada que todos sabemos, faltando à verdade, truncando versões, dizendo aqui uma coisa, em Bruxelas outra, mas foi ele que o fez. Foi ele que se aliou a uma esquerda que estava naturalmente contra a dinastia PEC e hoje percebe-se porquê: não só a agenda do PSD está sintonizada com as exigências do pensamento neoliberal que dominam a estratégia de resgate, como vê nisto uma excelente ocasião para uma vingança sobre mais de uma década de governação do partido socialista. Se o Orçamento de Estado de Durão e Portas era uma santuário ideológico contra a esquerda e o PS, esperem pelo que virá se Passos Coelho for o redactor-chefe do próximo OGE. É claro que a direita sofre da mesma contingência humana que também caracteriza a esquerda: ela não vê isto da mesma maneira que a esquerda o vê e por isso substitui sentimentos negativos como vingança por outros bem mais elevados. E por isso ela não pode perceber aquilo que o Daniel Oliveira disse uma vez no Eixo do Mal e que nos devia servir de baliza: o que se está a passar é um autêntico golpe de estado à governação legítima dos países, impondo medidas que consubstanciam mudanças de regime que nenhum partido se atreve a colocar nos seus programas eleitorais e deveremos perguntar-nos se achamos isto aceitável.
6. E a agenda da esquerda? Qual é a agenda da esquerda, perguntam-se as diferentes tribos deprimidas de esquerda? É difícil perceber qual é e isso provoca notórios embaraços. Tenho encontrado nestes dias muitas pessoas, do PCP, do BE e do PS que estão muito relutantes em votar. Não estão indecisas, sabem que se votarem vão votar no partido onde costumam votar sempre, o apelo do voto útil é sempre algo disponível para um eleitor, mas têm uma genuína relutância em votar. Eu próprio estou nesse grupo. Não tenho dúvidas em dizer que neste momento nenhum partido de esquerda me dá sinais claros de querer governar à esquerda e por isso qualquer voto na esquerda será reforçar a votação na direita. É claro que também poderia adoptar aquela atitude lúdica do eleitor do PCP que zangado com o seu partido vai votar no BE ou no PS, ou o do BE que de costas voltadas para a sua força política promete deitar a sua escolha no PCP ou no PS, e como votante que fui do PS colocar o meu voto no BE ou no PCP. Corre por aí, nesta perspectiva lúdica, que não votar é fazer o jogo da direita. É um argumento estafadissimo que nem chega a partir. O que nos deveria preocupar não é a esquerda que faz o jogo da direita, é a esquerda que não faz o jogo da esquerda. A menos que o jogo da esquerda não seja governar, seja só o ser oposição. E não há dúvida de que a bancada esquerda fora do chamado arco da governação faz excelente oposição. Tenho aliás muitos amigos de esquerda que justificam o seu voto no BE e no PCP porque trabalham muito na Assembleia. Fazem muitos trabalhos de casa. Talvez seja uma perspectiva salutar esta e talvez fosse sensato enterrar aquele arquétipo político de que deveremos ter uma ideia de bom governo pra podermos ser uma boa oposição. No entanto, bom senso à parte, o que faz falta neste momento é a capacidade de comunicarmos com clareza.
7. Falar claro e falar verdade. Uma das grandes falácias actuais é a da necessidade de falar claro e verdade. Todos o repetem, em todas as praças públicas deste país. É razoável este ponto de vista. O paradigma Medina Carreira, ou seja, de que vivemos na mentira e que agora temos de falar a verdade ocupa a agenda de todos os dias. No entanto pondera-se pouco a possibilidade de que este apelo à clareza se situar numa zona de duplo contrangimento que só nos perpetua neste lodaçal discursivo que desvaloriza tudo o que se diz. De que é que adianta falar claro se não existem as condições necessárias para que o acto de comunicação se processe com clareza? Nós ouvimos aqueles muitos que falaram claro ao longo destes anos, que nos alertaram para o estado de degradação das nossas finanças, para o elevado endividamento público e privado? Nós ouvimos aqueles que nos alertaram para o perigo que rodeava a função social do Estado? Nós ouvimos aqueles que escreveram, alertando para a forma como a Europa crescia sem solidariedade? E porque é que não os ouvimos? Porque não nos interessava. E porque é que não nos interessava, porque é que não nos era interessante? E o que é que nos foi interessante, o que é que nos interessou, o que é que nos prendeu a atenção? Se não formos capazes de questionar isto o apelo a falar claro é só mais uma metamorfose de um discurso escorregadio e pantanoso.
Por outro lado o apelo a falar verdade é ainda mais perigoso e anda na senda de um certo sebastianismo que se está a instalar troicamente na sociedade portuguesa. Como se entre a gente humana houvesse uma verdade revelada. Há pessoas mais lúcidas do que outras, claro que há. Mas de nada nos serve isso se enquanto comunidade não construirmos uma evidência comum sobre uma determinada realidade. A nossa verdade é aquilo que entre nós estamos decididos a aceitar como verdadeiro. As verdades reveladas são manhosas, trapaceiras e enganadoras. E aqui estamos de novo a bater à porta da cultura, agora pelo postigo da forma como comunicamos.
8. O que é isto de condições necessárias para a clareza na comunicação? Mas nós não vivemos na sociedade da comunicação?! Do conhecimento? Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a perspectiva local tem vindo a perder relevância na nossa relação com a cultura. Esse é um aspecto para tentarmos perceber que a clareza do acto da comunicação não tem tanto a ver com a clareza do que se diz ou do que se entende, mas de como é que hoje em dia isto produz sentido. O nosso modo de vida está dominado pelo fenómeno da globalização. A revolução tecnológica tornou a terra um lugar muito mais pequenino, muito mais interactivo e, paradoxalmente, muito mais distante do local. Perdemos em territorialidadade o que ganhámos em virtualidade. São relações diferentes, não necessariamente antagónicas, existem cada vez mais experiências de cruzamento destas duas experiências, mas são relações diferentes. O local exige tempo, o tempo da interacção no aqui e no agora, tempo que a rede global maximaliza unindo tudo. Este admirável mundo novo que é vivido no plano dos sujeitos, quer do ponto de vista individual quer colectivo, como um lugar libertário, onde cada um adquire a possibilidade de se expressar, de conviver, de se agregar, é também um lugar panóptico onde é muito mais fácil exercer, de forma subrepticia, disfarçada, a dominação, ou se quisermos, de uma forma mais benigna, o controle social e ideológico.
A grande eficácia do sistema de dominação actual é que ele prescinde do binómio dominador-dominado para exercer o jogo da dominação. A palavra é apropriada. Trata-se de um jogo. O dominador é tão espectral como o gesto de dominação e o próprio dominado e não coincidem necessariamente. Há um vaivém. Quando hoje vemos alguns vídeos que circulam no you tube ( e em relação a muitos nós não sabemos verdadeiramente quem os fez nem quem está por detrás desses mesmos objectos) ou quando vemos o trabalho desmistificador do Inside Jobs, nós percebemos que aquilo que supunhamos ser a nossa força, a união, é também afinal a nossa grande vulnerabilidade.
Os nossos países, que ainda há pouco tempo tinham uma rede institucional complexa para implementar a sua soberania (língua, simbolos, instituições, território, moeda, fronteiras, águas territoriais, cultura), hoje, de verdadeiramento soberano, só têm a dívida. Temos uma grande vulnerabilidade. Basta condicionar um director do BCE, basta calar um presidente de um Comunidade Europeia, para que de repente o papão FMI, com um director de esquerda, surja de forma dócil a propôr taxas de juro e prazos de pagamento mais generosos do que os defendidos pelas instituições da União Europeia. Por outro lado também temos milhões de pessoas ligadas por partículas discursivas minimalistas (os likes, os shares, os comments) fornecendo uma ilusão de individualidade e de coesão àquilo que, visto com um bocado de distância, se torna também numa massa enorme de acriticismo. E tudo isto parece por vezes ter a força de um tsunami que nada nem ninguém consegue controlar. Ou pelo menos, não nos é perceptível o controle, até porque estamos muito mais deslumbrados com a força telúrica dos fenómenos (como a aventura da rua árabe).9. Porque é que precisamos nós da cultura? Há muitas razões e não vou maçar-vos com aspectos gerais da teoria da cultura. O que me parece é que tentamos ver tudo no plano da mudança de paradigma da política quando o deveremos situar num trabalho profundo sobre a nossa identidade. É que se não podemos sentar um país inteiro no divã do psicanalista, precisamos de perceber que não adianta querermos outros políticos, outras políticas, se não assumirmos que temos de mudar, porque foi este modelo de comportamento que nos trouxe a este aparente beco sem saída. Atravessamos um grave problema de congruência política porque estamos a pedir aos nossos políticos que sejam os protagonistas de uma mudança que nos tem de envolver a nós. Alguns de nós viram-no, vêm-no, nas manifestações que ocorreram um pouco por todo o país. É como se estivéssemos muito perto de não termos de aceitar como uma inevitabilidade o afundamento da nossa vida democrática por causa do apodrecimento da partidarização da sociedade. Estamos muito próximos mas ao mesmo tempo sentimos que podemos morrer na praia. 5 de Junho parece a data da capitulação onde todos nós teremos de fazer um regime alimentar à base de sapos, mas talvez seja bom não fazer da nossa vida favas contadas. Há 37 anos de uma noite para o dia mudámos toda a nossa história e com que consequências?
Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou. Ou através da cultura valorizamos a nossa responsabilidade ou continuamos neste discurso de negação política que atinge zonas de delírio em que de um extremo resolvemos os problemas com impostos sobre as grandes fortunas e do outro extremo colocamos a solidariedade social no plano da caridade.
Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Meso que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado.
10. Vivemos acima das nossas posses, dizem. É mentira, é uma grosseira mentira. Que como dizia o Aleixo, tem uma dose de verdade para nos ludribriar melhor. O que se passou é que esta desregulação do sistema financeiro já não se podia contentar com o dízimo resultante das nossas disponibilidades de consumo que sobravam do nosso rendimento mensal. E isto não se passou só em Portugal. É um fenómeno global. Provavelmente a especificidade portuguesa traduziu-se no modo como nós, que andamos sempre com uma identidade larvar ou às avessas, nos deixámos seduzir tanto pela dimensão apoteótica do nosso consumo. Depois de décadas a acumular poupança, em que o salazar ficou como marca do instrumento de rapar o tacho, aderimos com um espantoso novo riquismo a esta possibilidade infindável que os créditos, que agora sabemos serem hipotecas, nos permitiam. E, através da publicidade, o sistema replicava-se e ajustava-se ideologicamente a essa finalidade. Dizer que as pessoas viveram acima das posses é tentar apagar a realidade de que o sistema permitiu que a actividade económica, suportada numa alavanca financeira histericamente crente nas suas potencialidades, ganhasse acima das suas possibilidades, tendo em conta o equilibrio do sistema. Mas nós também estivémos lá. Os milhões de lucros são milhões de cêntimos nossos. E somos nós que os demos. Senão compreendermos isso nunca podermos mudar o nosso comportamento. E estamos sempre nas mãos de quem nos vem aterrorizar.
11. Alternativa. Quando eu insisto nesta ideia de que temos de analisar a realidade como se ela não fosse de sentido único, geralmente dizem-me, está bem, mas qual é a alternativa? Ou seja, se criticamos o resgate do BCE, do FMI e da CE, perguntam-nos qual é a alternativa e supõe-se que a alternativa é o não ao resgate. Este é um modo de pensar tão inculcado e tão impregnado de uma ideologia dialética que se torna dificil explicar que enquanto não assumirmos que estamos a colocar o problema de uma forma errada, as soluções serão também ela erróneas. A alternativa ao resgate que está a ser anunciado pode ser um resgate em condições mais vantajosas para todos. Ora para isso não é preciso termos uma alternativa, sim não aceitarmos que para uma determinada realidade não lhe há alternativa.
É uma operação tão simples que chega a ser tenebrosa a forma como o discurso político, o que rola por aí, o faz esquecer. Há uma situação de efectiva falta de liquidez da nossa economia. Não temos dinheiro. Até eu que sou o mais incapaz de todos para perceber os fenómenos económicos já o interiorizei. Temos de o pedir emprestado ou temos de mudar a curto prazo a estrutura da nossa angariação de receita e de realização de despesa. A tónica da diabolização de quem pode emprestar dinheiro faz parte de uma retórica discursiva que puxa pela lógica dos afectos mas é muito pouco interessante porque na política a dimensão dos afectos não é uma realidade partilhável senão por aqueles que pensam do mesmo modo .
12. O resgate. O que é importante é perceber que se por um lado precisamos de dinheiro, as modalidades de resgate têm produzido um efeito dominó com a Grécia e com a Irlanda e que se vamos negociar um resgate partindo dos mesmos pressupostos a probalidade é que o empréstimo não nos sirva para nos ajudar a desenvolver sim para nos atascarmos no mundo tenebroso da dívida. Isso não quer dizer que não devamos assumir o resgate, quer apenas dizer que se o assumirmos devemos salvaguardar todas as situações que nos sejam prejudiciais. É para isso que precisamos de coesão nacional, é para podermos ser mais fortes, tanto interna como externamente. Os partidos que são contra o resgate têm proposto outras alternativas de financiamento. Por mais que algumas delas sejam nitidamente demagógicas, outras há que são realistas e que são possíveis de compatibilizar com o empréstimo, diminuindo até o seu impacto.
Esta ideia de que a nossa vida está entre a aceitação da inevitabilidade do resgate ou a da negação da necessidade do mesmo, faz-nos perceber que tanto o resgate como a sua negação podem ter alternativas. É que o que se está a fazer passar é que a inevitabilidade de um resgate, é a inevitabilidade de um certo tipo de resgate e isso é intolerável. Mas é nesse intolerável que tem andado muito da nossa política e muito da campanha mediática. O que eu gostava de ver era os políticos do meu país, e principalmente os de esquerda, a trabalharem em conjunto para que, se o resgate se fizer, seja o menos nocivo para o país e que seja feito para o desenvolvimento do país. Deveríamos nas próprias eleições responsabilizar seriamente os políticos e as políticas que não perceberem isso.
13. O não-resgate.
A posição do BE e do PCP sobre o resgate tem desde logo uma virtude: obriga-nos a perceber que estamos a discutir a Europa e que temos de definir em que Europa é que queremos estar. A grande vantagem desta obrigação de discutirmos a Europa é a de percebermos que esta ideia de Europa que por aí anda nada tem de utópico. É até anti-europeísta. Não é por acaso que muitos de nós andam entusiasmados com a experiência da Islândia. Parece um David contra Golias e quem não gosta de David? Só que a Islândia não faz parte da Comunidade Europeia e por isso tem outra autonomia. É isso que nós queremos? Sair da Comunidade Europeia? Se formos analisar os partidos à esquerda do PS, o BE assume a sua vocação europeísta, o PCP não. Estive a ler atentamente as propostas de todos os partidos de esquerda e percebi que por muito que haja medidas que se aproximam entre o BE e o PCP pode haver uma Europa que os divide. O PCP não prescinde da sua acusação de que a adesão ao Euro desregulou e destruiu a actividade económica. Ou seja, o não ao resgate pelo BCE, pela CE e pelo FMI, parece que é uma alternativa, mas que alternativa queremos? Com Europa? Sem Europa?
De qualquer forma o ou isto ou aquilo é uma brincadeira de rapazes de raparigas no pátio, não uma posição de compromisso num momento como este e nós, enquanto cidadãos, temos de mostrar de uma forma cabal o que é que fazemos a políticos que pretendem brincar ao nosso futuro em vez de se entregarem a um compromisso. O BE e o PCP apresentaram propostas para o não resgate cuja validade não se esgota se o resgate for feito. É claro que o tempo passa e não se percebe como é que as medidas destes dois partidos podem ser adoptadas se não forem, em tempo recorde, analisadas e quantificadas. Nesse sentido acho muito importante a iniciativa do BE de pedir ao Governo para ser ouvido porque tem propostas para apresentar. Regra geral as propostas do BE parecem, a um não especialista em economia, boas e de acordo com a necessidade do País. Espero muito sinceramente do Partido Socialista que se entretenha seriamente ou a explicar porque são inviáveis, porque é que não podem ser integradas na negociação com o BE, CE e FMI, ou a viabilizá-las. E o mesmo às do PCP. O facto de elas serem apresentadas por um partido que é contra o resgate não quer dizer que elas não possam ser aproveitadas para minimizar os efeitos negativos do empréstimo. E não quer dizer que não possam ser aplicadas depois.
14. Nós os cidadãos de esquerda, alinhados ou desalinhados, devemos bater-nos para que os partidos de esquerda consigam encontrar soluções que salvaguardem um património de políticas sociais que está intimamente ligado à nossa democracia. Não aceitando desculpas infantis. Quem já aceitou integrar uma coligação com a direita no derruba do governo ou quem se apresta a coligar-se com ela depois das eleições, não tem desculpa nenhuma para não fazer um grande esforço político na criação de mínimos denominadores comuns de entendimentos políticos. Devemos bater-nos para que a Europa consiga ver em nós a Europa e não apenas um país com problemas de dívida soberana. Deveremos bater-nos ou para encontrar soluções menos gravosas do que o empréstimo financeiro ou que ele, a ser contraído, seja para resgatar o País e a sua economia e não para a manter num jogo fraudulento e especulativo. Deveremos bater-nos para que a coesão política do País seja um aumento da responsabilização social e politica de todos. O país não é um ringue de pugilato político entre José Sócrates e Passos Coelho. Temos de acreditar na vida, na nossa vida, na nossa capacidade de a transformarmos. Mesmo que não percebamos nada de ratings, de renegociações da dívida, de créditos defaults, e outros truques com que pretendem armadilhar a nossa possibilidade de analisarmos o bom ou o mau senso dos nossos políticos.
domingo, maio 01, 2011
TEMPO CONTADO: O blogue
sexta-feira, abril 29, 2011
“Nunca passei de um actor medíocre” (1)
domingo, abril 24, 2011
A política do ressentimento
terça-feira, abril 05, 2011
Para que precisamos da esquerda? (1)
" Isto faz-me lembrar um pequeno texto de Samuel Becket que o Espaço das Aguncheiras (pela mão da São José Lapa e do Alberto Lopes) montou recentemente e onde três mulheres sentadas num banco só falam em duetos, sempre na ausência de uma terceira. Neste caso o importante é perceber que os partidos de esquerda (onde incluo o PS) começaram a mexer-se para fora dos seus apoios parlamentares de base e estão a perceber que se não disserem ao eleitorado que querem responsabilizar-se por governar a nossa vida, vão sofrer grandes decepções eleitorais.
Costuma-se dizer nas teorias de comunicação que comportamento gera comportamento e é necessário em algum momento romper o padrão de comportamento. A ideia de um governo patriótico de esquerda é abstrusa porque não tem o PS? O que me interessa é que uma ruptura de comportamento com a ideia da esquerda (que não o PS) ficar a gerir o seu comportamento dentro de uma politica de protesto e não dentro de uma politica que se responsabilize perante o eleitorado por governar o país é decisiva neste momento. Se foi o PCP que deu o pontapé de saída, boa, ao contrário do que tu dizes não temos apenas dois meses. Temos também dois meses, uma quantidade de dias ( e noites). Agora a bola está no PS. Mesmo imaginando que o Partido Socialista terá dificuldades acrescidas neste momento em gerir internamente esta abertura à esquerda quando as suas últimas propostas das dinastias PEC eram claramente aquilo que a direita europeia impôs, o que me parece é que o próprio PS perceberá que terá a ganhar com o campo de clarificação da esquerda em torno de algumas poucas questões.
Acho que está a ser cometido um erro fundamental nesta avaliação toda que por vezes fazemos sobre as consequências da ideia que cada partido de esquerda tem sobre quem é ou não de esquerda: quem decide se quer ser ou não governado à esquerda ( e com isso resolve de uma assentada quem é ou não de esquerda) é o eleitorado .
A esquerda só precisa de definir um programa que contenha uma visão de esquerda sobre o que fazer em relação a uma meia dúzia de questões essenciais:
Há Europa ou há apenas Alemanha? Há dinheiro do BCE mais barato para ajudar os Estados ou há apenas dinheiro para aumentar a especulação financeira junto dos Estados? Vamos bater-nos por uma agência europeia para notação da dívida e regulamentar esta actividade ou vamos deixá-la em livre curso dando notas de bom e mau comportamento conforme os seus interesses? Vamos defender o Estado do ataque neoliberal (e defender o Estado passa por aceitar que é tão necessário defendê-lo das ideias que o negam como daquelas que, achando-o inatacável, o deixam tornar-se num monstro!) ou vamos deixar que nos tornem nuns meros pagadores de impostos e dívida?
Se o PCP e o BE o fizerem é já um excelente passo. Em frente.
O governo de gestão e a ajuda externa
segunda-feira, abril 04, 2011
Nascidos culpados
sábado, abril 02, 2011
Para que precisamos nós da Esquerda?
A primeira é de que vivemos, desde há muito, num clima de desideologização da nossa vida, e que este clima é resultado de um intenso trabalho ideológico (que tem o seu sucesso na forma como consegue dissipar a sua componente e natureza ideológica). A ideologia surge como que um produto de entretenimento retórico, porque o que nos interessa, o que interessa verdadeiramente é podermos viver melhor, consumir mais, trabalhar mais, produzir mais. Vamos perder muito tempo do tempo que nos falta senão começarmos por desenvolver uma visão em comum desta realidade.
sexta-feira, abril 01, 2011
A alegria
quarta-feira, março 30, 2011
Quem disse que a arte não liberta?
O real como imposição cansa. Estou sentado numa tasca de bairro. É hora tardia, venho sempre em desespero quando já é a hora do pessoal da cozinha vir almoçar. Diverti-me a imaginar nas duas cozinheiras mais velhas, fortes, atarracadas, as mulheres jovens que a cozinheira mais nova, a da esquerda, é. A esta imaginei-a mais velha. Velha e gorda como as suas outras duas colegas de copa. Este real assim, um carreirrinho, cansa. De repente, para não as querer torturar no meu olhar de mirone, descubro-as no azulejo da parede. E parecem-me personagens de Bordalo, de Goya, deVelasquez. Ganham uma dimensão de revolta contra o circulozinho vicioso em que se enovelam as suas vidas. Quem disse que a arte não liberta?
sexta-feira, março 25, 2011
Amanhã a politica será outra coisa
Notas do Facebook
Para mudarmos remos de saber onde está a nossa força
Quando olhamos para a realidade politica e nos vemos a partir de quem nos representa, viramos a cara para o lado, negamos que sejamos nós neles. É uma reacção quase infantil entre representante e representado, tal e qual como vi, em lugares onde trabalhei com crianças com problemas de auto-estima, quando fazíamos jogos com o espelho. E que fugiam da sua própria imagem. Ou que baixavam os olhos, envergonhados, quando se miravam. O quê, eu sou este? Custa a aceitar que aquela perfeição que em nós habita possa ser tão imperfeita. Não há construção identitária que não comece por aqui, pelo desmame dessa imagem de perfeição que tanto nos securiza mas que também, tanto nos limita o crescimento. Ou que provoca a destrutividade, a violência aniquiladora. Arno Gruen avisa-nos tanto sobre este fenómeno profundamente humano. Eu não sei que grau de percepção disso tem cada uma das pessoas que desceram comigo a Av. da Liberdade. Sei apenas que esta circunstância agorética, presencial, de descermos uma avenida em conjunto nos começa a transformar por dentro. A sermos capazes de ouvir algumas coisas duras que temos de escutar de nós mesmos. Não as podemos escutar enquanto não soubermos que as podemos mudar. Somos livres de não entender o quanto a exploração humana e a própria barbárie civilizada a que chegou a nossa presença neste mundo, estão intimamente ligadas à forma como vivemos. Podemos começar por olhar para imagens como as dos salários monstruosos dos gestores públicos, entre outras anormalidades da nossa vida social, mas um dia teremos de chegar às imagens mais aproximadas, àquelas que falam mais de nós, àquelas de que somos mais responsáveis. E aí vamos ter de perceber que em vez de podermos gritar palavras de ordem contra um Estado que não realiza todos os nossos sonhos temos de ser capazes de ter uma vivência solidária dos recursos disponíveis. É por isso que o dia de hoje pode ser tão importante. Porque se não podemos escutar as coisas duras que temos a dizer a nós mesmos enquanto não as pudermos mudar, também só as poderemos mudar quando descobrirmos que somos fortes e que onde está a nossa força. E hoje descobrimos onde ela está. No estarmos juntos. Juntos todos aqueles para quem a ferida da representação causava sucessiva incapacidade de perceberem quando e como podiam participar porque já não se reviam no voto bem comportado e com regularidades bem determinadas. Podemos descer uma avenida juntos, e depois virem dizer que havia, naquela multidão pacífica - ou seria, pacificada?- gente da extrema esquerda, da extrema direita, da direita, da esquerda, do centro.
Somos fortes, esta é a nossa força.
Uma escuridão ao fundo do túnel
Da democracia à demagogia e desta à solidariedade
Há um problema insanável na questão da precariedade e que, como tudo na nossa vida, só pode ser resolvido de duas maneiras. Ou com demagogia (há quem lhe chame irrealismo) ou com solidariedade (os que chamam a demagogia de irrealista outorgam esta de realista). Não creio que haja em teoria uma maneira melhor que a outra. Na experiência humana tudo é defensável, tudo é contextualizável, admito que possa haver contextos em que uma pitada de demagogia seja o sal motivador, o espectro político tem um lastro imenso, inesgotável, neste território denso, de paisagens em espelho o que nos salva é a ideologia, ou seja, a pertença de cada um a uma determinada concepção do mundo. O que torna uma ideia mais adequada do que a outra é o tempo que temos para as aplicar. Como em tudo na vida.
A demagogia parece que não é uma resolução, mas é. Não havendo condições para criar um estado de alarmismo que leve os sujeitos a olharem de frente a sua vida, a demagogia é entendida muitas vezes politicamente como um modo de manter a coesão social. Quando eu digo politicamente quero dizer por governantes e governados. Não há forma de enfiar a cabeça na areia: a democracia é partilha da responsabilidade. O que diríamos nós de um Governo que não havendo ainda perspectivas de crise dissesse que iria defender a diminuição de salários reais, o abaixamento de pensões, o aumento da inflação, o corte da despesa pública, o desinvestimento, a perda de regalias adquiridas para garantir um melhor futuro a longo prazo? Se alguém for capaz de levantar o braço e dizer sim receio estar diante de alguém que tem a mesma hipocrisia política que a rua aponta a José Sócrates. A demagogia leva-nos a exigir que o Estado possa fazer-nos ter como seguro o que é precário. Queremos que os nossos filhos estudem e tenham um bom emprego, queremos poder continuar a ter como segura a nossa reforma, queremos ter os nossos empregos públicos, queremos conviver com deus e o diabo no mesmo quadrante.
Não adianta grandes considerações mas a verdade é que muitas pessoas pensam que não é a democracia que nos governa, sim a demagogia. E têm razão e aí começa a ser um bocadinho difícil defender, como fiz no ínício do texto, aquela ideia cínica de que não haja, entre a demagogia e a solidariedade, nenhuma que seja melhor. Para todos os que defendem a superioridade da democracia, a solidariedade e o realismo são melhores do que o irrealismo demagógico.
E isto porque a demagogia tem tendência a absorver e a anular todo o corpo democrático deixando-lhe apenas a sua imagem exterior. Ela vive da desregulação, da bondade dos principios desarticulados. Cada um dos pequenos espaços de pressão arranjam um espaço de legitimação para a salvaguarda de medidas que são analisadas dentro de um universo de razões que tendem a legitimá-las. É claro que para cada um de nós que vivemos uma ideia democrática, face à emergência de um estado de carência acentuado e até, uma bancarrota do país, é absolutamente criminoso o pagamento de honorários e prémios a gestores públicos nos valores que foram divulgados muito recentemente pelo CDS e que há muito circulavam nas nossas caixas de correio electrónico. Não é um assunto que possa sequer ser discutido, ponto final. No entanto, estes gestores pertencem a empresas reguladas publicamente. Ou seja, no micro-estado soberano em que foram definidos aqueles honorários eles estão de acordo com um conjunto de articulados que gabinetes de recursos humanos, jurídicos e de finanças elaboraram defendendo-os e legitimando-os.
E porque a demagogia tem em si o antídoto para aqueles que a denunciam - já que a demagogia é um estado geral que percorre toda a estrutura da vida pública desde aquele que se levanta todos os dias para ir a um emprego onde não faz a ponta de um corno mas recebe todos os meses o seu salário, àquele que no panteão dos deuses demagógicos saca um milhão e meio de prémios de produtividade por gerir uma área sem concorrência - e porque ela vivifica numa sociedade que apenas tendo o aparato democrático, torna-se dificil pensar que é possível uma comunidade mudar de uma governação baseada nos principios da demagogia, para os princípios do realismo sem ocorrerem mudanças violentas ou até, mudanças de regime.
Nestes termos a demagogia é uma doença instalada no corpo democrático, que lhe vai comendo os tecidos, as células, as moléculas, os atómos, tudo. É por isso que o zénite do estado demagógico é a emergência de regimes totalitários porque parece que foi a democracia que nos conduziu a este atoleiro. E não foi. Há uma rima pobre da demagogia que também tem sérias responsabilidades. A hipocrisia. A hipocrisia é por exemplo vituperar o Estado Social, fugir aos impostos e depois achar que a saúde, a educação, a cultura estão enfraquecidas. Ou estar há num trabalho onde não se faz nenhum, onde a produtividade para o bem comum é escassa e depois achar que se ganha pouco, que não se podem perder regalias, que a culpa é dos chefes que não os põem a trabalhar. Ou ser deputado da república , usar e abusar dos requerimentos para não fazer nestum, encher-se com as tenças, as reformas precoces, as partilhas público-privadas e depois assumir uma critica ao laxismo e despesismo do Estado. Ou ser gestor público, definir sacríficios orçamentais públicos e abotoar-se com principescos salário e prémios e toda a sorte de complementos de vencimento. Ou ser jornalista, desmascarar todos os dias casos de favorecimento e prejuízo para a causa pública e aceitar viver um sistema de saúde e de previdência excelente que sai dos bolsos de todos, também daqueles que têm de se contentar com um sistema de saúde geral. Ou ser funcionário do Estado e ter regalias próprias, adquiridas em momentos em que os interesses corporativos conflituavam abertamente com os interesses da comunidade.
Hipocrisia, demagogia, rimas pífias de um verso podrido. É um grande problema, claro, até porque, quando alguns de nós começam a reparar que vivemos mais num estado demagógico do que num estado democrático, a grande guarda ideológica da demagogia cai em cima de nós e força-nos a reconhecer que o aparato do estado em que vivemos ainda é o da democracia.
O que fazer então em relação à precariedade em vez de uma resposta de sentido múltiplo torna-se numa via de sentido único: face ao tempo que nos resta (a nossa dívida já é 90% do PIB) o grande combate, a grande luta, é a tomada de consciência e o assumirmos, por parte dos governantes, solidariamente a perda de privilégios, de regalias, de partes do vencimento, seja lá do que for, e da parte dos governantes, assumir-se a verdade, a informação, a austeridade, a limitação exemplar da despesa pública, dos benefícios exdrúxulos. E para isso, neste contexto, com um Presidente da República e um Primeiro Ministro que, mais do que a coesão, suscitam a crispação nacional afigura-se difícil a resolução deste problema no actual quadro político. Isso só nos tem levado a uma forte ideologização de decisões que agora deveriam poder estar mais ligadas à sensatez do que ao antagonismo ideológico.
O que é um problema muito grande: é que também não se afigura muito luminosa a possibilidade de um verdadeiro novo quadro político se o pensarmos exclusivamente a partir da representação política sentada na Assembleia da República. O baralhar e dar de novo seriam apenas uma perda de tempo. Enquanto a política não poder receber os contributos activos dos movimentos de cidadania que surgem, nada de verdadeiramente novo se passará em Portugal. É por isso que é tão importante crescermos juntos na tomada de consciência de que mais do que melhores governantes, temos de ser melhores governados. E é por isso também afastar aqueles que querem levar a manifestação de dia 12, para o campo da hipocrisia e da demagogia. E pensar que, para além do dia 12, há mais 30 ou 31 dias no mês. E que a Primavera está à porta. Deveremos trazer a alegria da luta às praças, ás ruas e avenidas.
sábado, fevereiro 05, 2011
Rosa Negra do Cairo
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
Poesia & Contrabando
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Criação das palavras
Breves palavras de desespero
sexta-feira, janeiro 21, 2011
Boa Nova da Trindade
quinta-feira, janeiro 13, 2011
Blogosfera : Liberdade de Expressão
terça-feira, janeiro 11, 2011
Cavaco vai processar Felícia Cabrita?
Felícia Cabrita vai ao ponto de dizer que Cavaco e a filha perderam dinheiro : ele "cerca de 36.682 " (refira-se o cerca de 36.682) e ela 52.374 euros porque compara o valor de compra pelo Banco com o valor de venda pelo mesmo Banco. Como se fosse natural um banco não ter nenhum lucro numa operação como esta. Mesmo admitindo esta lógica, absurda, mas para entrar no raciocínio da reportagem: não passa pela cabeça da Felícia Cabrita a oportunidade de perguntar porque é que um homem e a sua filha que de 2001 a Novembro de 2003 ganharam 1,40 com cada acção resolvem perder 0, 35 por cada acção a 17 de Novembro de 2003? O que é que era tão importante assim para fazer com que Cavaco e a filha abdicassem de um parte substancial de um pecúlio que era o resultado das poupanças de uma vida de trabalho, como têm defendido os seus apoiantes?
segunda-feira, dezembro 27, 2010
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Natal dos Simples
terça-feira, dezembro 21, 2010
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