domingo, setembro 11, 2011

Fomos ontem ver o Cisne. A última sessão, no Corte Inglês. Como sempre que vemos um filme português, a proximidade que o filme nos oferece com lugares, pessoas, climas, incita-nos sempre a uma operação de reconhecimento que nos vai dando um à vontade com a obra. Quando saímos falámos sobre aquele ou aqueloutro plano, aquele ou aqueloutra fala ou sequência, num tu cá tu lá com o filme que nunca fazemos quando nos encontramos no cinema padronizado. A certa altura mimetizamos os parâmetros críticos que ouvimos por aí, eu falo da actriz, digo que a Ana Batarda estava magnífica, ela corrige-me, não é Ana, é Beatriz, isso, anuo, a Batarda tinha feito um papelão na Costa dos Murmúrios, diz-me ela, que tem sido a principal responsável por eu ter dedicado nos últimos anos mais atenção ao cinema português. O filme, para além daquele fascínio do reconhecimento que advém da proximidade é muito estimulante porque é um filme a sério, é cinema, é qualquer coisa que na sua improbalidade sobreviverá muito para além daqueles milhares de espectadores que o vão ver como se ele fosse também um filme igual aos outros (os outros, aqueles que todas as segundas-feiras, o dia de ir ao cinema, trazem com naturalidade aquela pergunta, vamos ao cinema?). Começa por ser estimulante do ponto de vista narrativo porque procura uma forma diferente de fazer aquilo que sempre nos disseram que o cinema iria fazer: contar-nos uma história. Há nisso, durante todo o filme, um investimento - quase obsessivo - nas ligações improváveis, nas teias invisíveis que se criam, nas estratégias que como num jogo de esconde-esconde o espectador vai fazendo para perceber o filme. Lembro-me da minha alegria quando Pablo leva Vera à porta de casa da sua mãe e eu digo interiormente, ele é o Cisne. Ou quando Sam aparece pela primeira vez e eu faço um paralelismo com o Pablo e conjecturo, ele é o Pablo uns anos depois. E mesmo quando descubro que não é, há algum desse meu esforço que faz com que a minha relação entre esses dois personagens seja enriquecida por esse vaivém narrativo. As personagens principais, Vera, Sam, Pablo, tem densidade e suscitam interesse e o filme, ao mesmo tempo que tem essa irrequietude narrativa tem também uma sentido de economia dos planos e isso valoriza a humanidade com que as personagens são construídas. Há também, é certo, alturas onde o cinema se deixa auto-seduzir pela sua capacidade de criar plasticidade, como aquela sequência em que Sam está dentro do pequeno lago e isso aparece-me como algo de supérfluo mas ao longo do filme vou-os encarando como os custos necessários da aventura de um filme querer criar uma forma própria de narrar. E em que entre uma narratividade padronizada e completamente focalizada em emergir-nos no ficcional como se ele fosse real, tão presente no cinema americano, vai, aqui e acolá, buscar algo à herança de um cinema português - nomeadamente ao tão característico plano fixo, demorado, quase pitagórico, de Oliveira - mas intensificando-o quer através de elementos que nos remetem para uma dimensão não verbal da interpretação dos actores, o som da respiração por exemplo, quer jogando com planos aproximados. Fiquei com vontade de ver o que vem a seguir neste trajecto, porque me parece que há aqui um chão fértil. Até porque há algo de irrealizado neste projecto, já que há sequências - como aquela em que Vera conta a Pablo a questão da casa - que ainda hesitam em desfazer-se de uma teatralidade cuja integração no cinema talvez ainda tenha de fazer algum caminho para poder ter aquele efeito refrescante de virtualidade e autenticidade que faz do teatro um repente intraduzível.
Quanto saio para a rua, vendo aquele mamaracho do Corte Inglês, penso na desigualdade com que aquele filme surge em relação aos outros filmes e o que isso pode significar para todos nós. É aí que a questão cultural, a questão da cultura, se coloca. No plano estrito do seu trabalho de cineasta (é um absurdo, eu sei, como se ele pudesse existir em sentido tão limitado, como se não houvesse algo de político em continuar a filmar), a realizadora não tem muito a perder com a inexistência de um sistema de difusão que crie a possibilidade de fruição deste objecto por parte dos espectadores. Até pode beneficiar disso porque o sistema de legitimação do cânone cinematográfico será sempre mais familiar quanto mais frágil for o dispositivo político da passagem da criação artística para a produção cultural. No caso do cinema foi preciso que os festivais internacionais começassem a valorizar o nosso cinema para que nós o começássemos a tolerar um pouco melhor. O problema não está na criação artística. Ninguém deixa de fazer filmes, de escrever peças de teatro, sinfonias, livros, por não ter reconhecimento público. É o nosso imaginário colectivo que em vez de ir por aqui vai por outro lado. O que sofremos por não conseguirmos fazer valer a ideia de que precisamos de uma política cultural é a perda destes objectos, destes gestos - e fazer um filme, escrever um livro, são gestos de dádiva - para o nosso imaginário enquanto comunidade. Que terá cada vez menos os nossos lugares, os nossos ambientes, as nossas cores, as nossas maneiras de falar. A partilha do sensível. Eu só não consigo perceber como divergimos tanto nesta percepção: há pessoas, como eu, que acham que isto é uma ferida de morte na nossa identidade, na nossa soberania, no nosso "nós", outras que acham que isto não tem importância nenhuma, nickles, zero. Entre uns e outros, nestes momentos, sinto a falta de um pequeno fio no horizonte que há uns anos, numa página ímpar do Público, nos lembrava isto com ar doce mas firme, categórico.

sábado, setembro 03, 2011

Comunidade dos patetas alegres

Poderia dizer que deixei entrar em mim o desânimo, a descrença. Que chego a temer que este buraco onde colectivamente nos enfiámos não vá dar a lado nenhum. Que me apetecia pegar no calão millorista fernandes e desatar às caralhadas a torto e direito. E depois estaco. Temos alguma responsabilidade diante dos outros. Somos uma comunidade, quer dizer, um pedaço de gente com a alma virada para fora. Escrever é um acto responsável. Parece que é gratuito ( quer dizer, pagamos de outra forma) mas a possibilidade de escrever publicamente é um acto de responsabilidade. A primeira tecla lembra-me sempre que o uso livre da expressão já foi proibido e pode voltar a vir a sê-lo. É uma possibilidade não uma probabilidade. Escreverei por isso com o ar grave de quem cumpre uma responsabilidade para com os outros. E escrever é também uma enunciação do Outro, uma saudação, um virar para fora o avesso em que me sinto. Há milhões de anos um antepassado meu andou a penar por este mundo e eu hoje estou aqui a escrever e alguém, sei lá quem, cujo antepassado também se cruzou com o meu, vai-se cruzar comigo. Essa possibilidade deixa-me em festa. Mesmo sendo sábado vou vestir o fato domingueiro. E já me esqueci de onde me vinha o desânimo, a descrença. Claro, a crise de vida, esta merda do custo de vida, do desemprego, da dívida pública, a porcaria dos partidos, pois é, pá. Não há troica que me privatize o sol, o ar que respiro, esta sensação de privilégio da humanidade não ser ainda um produto descontinuado no cortejo das espécies em vias de extinção. Agora eu tenho a certeza: eu nunca deixarei de lutar por aquilo que é importante por ser um pateta alegre.

Absurdo?

Uma mensagem breve diz-nos que o Absorto de Eduardo Graça foi bloqueado. Dado que se trata de um blogue de todos os dias irei tentar perceber quando é que volta ao seu funcionamento regular. E tentar perceber as razões.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Sombras

Continuo a esvaziar-me de todo um aparato que ingenuamente
fui integrando pensando que me fazia melhor pessoa, mais solidário, mais atento. Faltam-me
nomes para a conversa com muitos dos meus amigos
que vivem da refrega quotidiana com esta bolsa de valores ficcionais com que nos enquadramos.
Gosto agora do fora de campo. Do fora de tópico. Gosto do silêncio.
A respiração volta a ser um lugar de encontro na areia.
Nem está frio nem calor. É verão mas não parece.
O que é verdadeiramente revolucionário é que o fim da revolução - o terninar inevitável de todas as revoluções - não apague o fervor revolucionário.
Aí na acalmia inexpiável de uma tempestade de cinzas, renasce o fogo.
O fogo somos nós.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Quereres

Esvazio-me de quase tudo e ainda estou cheio. Há um exercício de depuração a fazer. Antes de recuperar o fluxo, a palavra, esse dom que ela é, ainda há um exercício de depuração a fazer. É muito fácil deixar-me levar pela raiva, pela fúria. Mas talvez isso agora seja desistir de outra maneira. Deixo apenas aqui uma prece, como se fosse uma oração, agnóstica: agora que a chuva veio lembrar-nos que até o verão nos quer abandonar, que nunca me falte estes quereres. Este reconhecimento.

quarta-feira, agosto 24, 2011

O real cansa-me

Quantas vezes diante desta pulsão descontrolada para pixelizar o real me pergunto se este é uma doença, uma mania, uma religião, um mitema? Qualquer coisa, e não necessariamente boa, é. Até uma certa altura a minha relação com a realidade foi dominada pela ideia de rigor. Sempre que comprava um novo equipamento fotográfico ou de vídeo ía analisar cuidadosamente a sensibilidade, a exposição, procurando uma performance que me desse a sensação de que o real, a sua riqueza, a sua diversidade, a sua explosiva paradoxalidade, pudesse ficar contido na pequena amostra capturada pelo frame, fragmento do visivel. Hoje já não confio nada nesses artíficios e prefiro a inteligibilidade do borrão. Gosto quando a imagem se parece pintura, quando ela desfaz o autoritarismo realista e se entrelaça com o imaginário.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Depois da noite eleitoral

Há uma sensação estranha no ar. Ouvir o Prós e Contras depois de ter estado um bom pedaço da tarde em torno do Portugal Hoje: O Medo de Existir de José Gil, é uma sensação muito esquisita. Como se o livro fosse um oráculo, ía dizer pequeno mas depois lembrei-me da crítica dele a esta ideia do pequeno, do pequenino, do atamancadinho. E ouvir o oráculo depois da profecia se concretizar é terrível. Fica-me sempre a pergunta: o que é que eu estava a fazer enquanto devia estar a ler este livro. É uma sensação estranha no palato, terrível mas não é necessariamente má. Ou então sou eu que tenho esta ideia distorcida de que quando consigo apanhar o fio condutor as coisas não estão assim tão más. Vim até com um fiozinho de esperança atrás de mim, dos meus pensamentos. Uma sombra que me iluminou o caminho até casa. Não me apetece analisar o que se passou ontem com lamentos, queixumes. Não era nada que eu e tantos outros não tivessemos previsto. De certa forma sofri mais até votar do que depois. Depois fiquei com a sensação de alívio. Não doeu nada. O optimismo não depende dos factos. Os factos é que dependem de um olhar optimista. E embora este metáfora do poder, dos rituais de passagem do poder, sejam tão importantes nas nossas sociedades democráticas, a verdade é que elas permitem a confluência de uma multiplicidade de poderes que nunca vão a votos. Ora esse poder de cada um de nós influenciar de uma maneira positiva o mundo onde vive mantem-se inalterável. Não é lirismo. É a realidade. Temos poder, somos poder. E a sociedade é dinâmica. O PSD e o CDS vão ter menos espaço de acção. A situação está longe, para pior, do que estava quando Guterres deixou de ser primeiro-ministro e Barroso e Portas inventaram a metáfora política criminosa O país está de tanga com que tentaram castigar o PS.

sábado, julho 23, 2011

Fado do cativo

O gira-discos entrou em nossa casa poucos anos depois de termos chegado a Lisboa. Foi um dia cerimonioso, o de o desembrulhar. Ainda me lembro. Tinha um suporte para ir fazendo descair os discos, até um limite de sete. Os meus pais dançaram ao som de um disco de Mantovani, uma colectânea que vinha de oferta. Quase logo a seguir veio um disco que se tornou uma companhia nas minhas tardes: Amália, ao vivo, no Café do Luso. Não sei, hoje, à distância do tempo, o que a minha adolescência, e toda a minha vida depois, teria ganho se tivesse trocado essas tardes imensas deitado no chão da sala a apaixonar-me por Amália por alguma coisa mais palpável e menos platónica(anos mais tarde a mesma paixão, mas mais férrea, por Jeanne Moreau) . E não sei não porque não saiba. Se me pensar enquanto personagem há inúmeras variáveis que começam a tornar-se hipóteses e a minha vida poderia ter seguido uma data de coisas. Não sei porque nunca me deitei muito a pensar verdadeiramente nisso. Talvez o fado, tão cedo em mim, me tenha predisposto para me pensar a partir do que me acontece. E se ao pensá-lo assim o fado me surge um pouco como lugar de cativeiro, sempre que olho para Amália, como há pouco tempo no vejo-a como um imenso espaço de liberdade. Aquele ambiente quente, acalorado, meio nebuloso das noites do Café do Luso, que chegava assim à minha sala depois das aulas da manhã, fez-me crescer afectivamente, sensorialmente, emocionalmente.

sexta-feira, junho 03, 2011

A esquerda tem razões que a própria razão desconhece

No dia 5 de Junho vou votar e esse voto é para mim um voto no escuro. No meu anterior post dei conta de toda a minha angústia: durante toda a campanha não consegui inclinar-me por nenhum dos partidos em quem poderia votar, PS, PCP ou BE. Já expliquei demoradamente que por maiores demonstrações que as lógicas partidárias da Esquerda possam fazer, o que para mim parece inequívoco é que a Esquerda detinha uma maioria parlamentar e se desfez dela para entregar o País a uma direita que tem - num contexto internacional recessivo, e numa Europa dominada pelo sequestro da política por parte da Economia - condições para impor medidas e programas que há meia dúzia de anos acharíamos impensáveis.
Para mim tudo isto é de uma lógica quase cartesiana: os eleitores de esquerda querem ser governados à esquerda e é esse o sentido do seu voto e se os partidos que representam a esquerda não conseguem traduzir este desejo em realidade falham, traem o voto que lhes foi confiado.
Se essa traição é concretizada num momento em que era indispensável que houvesse esquerda capaz de se bater, no país, na Europa e no Mundo por aquilo que são as necessidades das pessoas, é traição agravada. Estamos em guerra e uma esquerda que não o reconhece não é de confiança.
Para mim é muito claro que o voto no Partido Socialista não serve para nada senão para tornar a sua regressão mais difícil e demorada. Houvesse uma centelha de esperança de que com o voto no PS eu poderia ajudar esse grande partido da esquerda portuguesa a preparar-se para dar alguma lucidez e pragmatismo à vida nacional e eu votaria no PS com alegria. O Partido Socialista vive um período nefasto de eucaliptização ideológica, já o afirmei. O exemplo mais dramático disso chama-se Ferro Rodrigues. Se nem um político como ele conseguiu resistir a esta incongruência ideológica de achar mais natural juntar-se a uma direita que não trai a direita do que uma esquerda que traiu a esquerda, então não há nada que possamos fazer senão esperar que a derrota eleitoral seja a vaga de fundo que leve José Sócrates para bem longe da política activa. Por mais paradoxal que possa parecer é a melhor forma de defender o importante contributo político que os Governos de Sócrates materializaram para o desenvovimento do País. E para aquilo que podemos e devemos chamar o legado da esquerda. Há um envenenamento geral da política que se traduz nesta ideia de que devemos votar num partido pelo que ele fez. Quando a política seria mais saudável se votássemos num Partido por aquilo que, objectivamente, reconhecemos que ele pode vir a fazer. O voto não é um prémio dado ao conselho de administração de PORTUGAL.EP. É um mandato para que nos governe. Ora é insofismável que aquilo que o PS se propõe fazer é aplicar internamente o mandato não democrático de uma troika revestida de uma tecnicidade económica que anda a sequestrar a política. Não deu, em nenhuma das sua palavras durante a campanha, sinal de que tivesse pelo menos estudado as propostas do BE e do PCP (que carecendo do pragmatismo e da capacidade de poderem ser implementadas ipsis verbis, apontam o único caminho que é possível fazer no futuro da Europa).
À esquerda do PS, o PCP e o BE, apresentaram propostas. Mas ao contrário do que dizem alguns comentadores, fizeram-no não a pensar no País, mas nas suas sobrevivências políticas. Louçã e Jerónimo fizeram uma aparatosa reunião para anunciar uma pacificação que não era mais do que espectáculo. O Bloco de Esquerda disse que logo que se soubesse o memorando da Troica iria apresentar ao Governo um conjunto de medidas para opor a esse programa. -lo, uma por dia, propagandisticamente, ao correr da campanha, não para o Governo, para os media. O Partido Comunista foi talvez o mais honesto nesse aspecto. Nunca fez alarde, não tirou nem truques nem coelhos da cartola. Apresentou medidas com o mesmo pragmatismo com que há trinta e 37 anos sobrevive politicamente em Portugal. Só que o Partido Comunista tem dois grandes problemas de análise desta conjuntura: primeiro, não reconhece que a hipoteca de Portugal é a hipoteca da Europa porque o projecto europeu terá mais dificuldades de sobreviver se somar mais um caso de usura e exploração interpares e como o PCP não reconhece a validade do projecto europeu, não valoriza isto; segundo o Estado Gordo do PCP é apenas o estado gordo contra o qual se vocifera nas praças, nos mercados, nos taxis, nos cafés, ou nos diversos corporativismos de natureza sindical que são a sua força motriz. E não é. O estado gordo é também um estado doente na sua missão por causa de ter estado dominado tanto tempo pela política partidária. O Estado em Portugal está doente porque desde 1974 incorpora, em sucessivas vagas, os corpos acríticos da ocupação que dele fizeram as diferentes forças partidárias que estiveram no poder, desde o PCP ao CDS e porque sempre que se fala em definir a sua missão e de ajustar os seus recursos a ele há um aqui del rei por parte daqueles que sempre se tiveram na função pública os seus principais bastiões políticos . Tornando-o mais vulnerável a uma direita que usa o Estado para o atacar e o distribuir, em partes separadas para montar, pelos seus grupos de interesses.

É por isso talvez que à Esquerda do PS as baterias se afinaram ultimamente para o voto em branco e a abstenção. Nunca se falou assim do voto em branco. Quer dizer que se está a perceber que ele é um voto qualitativo a favor da democracia representativa. Quer dizer que tarde mas em tempo, a esquerda reconheceu a orfandade política em que deixou muitos dos eleitores que lhe tinham confiado o voto. Se não há uma esquerda que nos represente no plano dos partidos concorrentes à Assembleia da República reconhece-lo no voto em branco é criar condições para que isso possa acontecer. Não tenho nenhumas dúvidas de que a razão me impôe o voto em branco nas próximas eleições de 5 de Junho.

No entanto a Esquerda tem razões que a própria razão desconhece. Não poderia criticar o BE e o PCP por não o terem entendido e estar a fazer do voto uma palmatoada pelo que fizeram. Há coisas mais importantes para a esquerda e para o País. Uma delas é perceber que a Cultura é o espaço onde melhor poderemos contrariar todos estes eixos discursivos que como feixes, nos toldam a capacidade de pensar. Estamos transidos de medo. Só a cultura nos devolverá a dignidade que desejamos. Como disse José Gil, a sequela que ele espera de todos nós com o seu Portugal, O Medo de Existir, é um livro imenso, escrito nas ruas, nas praças, nas casas, intitulado Portugal, o Desejo de Existir. Depois da era de ouro de Manuel Maria Carrilho, a Cultura é um campo cuja dignidade política só se encontra minimamente respaldada nos programas políticos do Bloco de Esquerda. E que parlamentarmente são a força política que poderá disso fazer uma bandeira mais presente.

Outra questão é perceber que a insistência com que o BE e o PCP falam da renegociação, tem provocado que essa palavra tenha perdido a sua conotação terrível de Estado mal comportado e que se tenha percebido de que poderá haver um caminho, muito estreito, na possibilidade da Europa assumir politicamente que tem de mudar os prazos, os juros, a sua própria filosofia da dívida e não se entregar mais à agiotagem. O BE e o PCP demonstraram ultimamente que não são uma esquerda de confiança, é certo, mas no quadro político que se aproxima não haverá muitos motivos para desconfiar que não vão fazer aquilo que parece serem as suas melhores vocações: protestar. Da mesma forma que quando a questão for esperar da esquerda que se una para nos governar à esquerda, o voto no BE e no PCP, se mantiverem o mesmo tipo de prática política, poderá ser insensato, agora, que o País vai ser governado troicamente à direita, é uma excelente oportunidade para que faça sentido votar numa esquerda de protesto.

É um espaço mínimo. Como disse, se a razão me assistisse votava em branco. Há razões que a razão desconhece e o pragmatismo político que aprendi ao longo destes 37 anos de democracia leva-me a confessar que vou votar no Bloco de Esquerda.

sábado, maio 28, 2011

Partido Socialista

Durante muito tempo invectivei o BE e o PCP por não terem sido capazes de criar um diálogo com o PS de modo a podermos ser governados à esquerda. Ao mesmo tempo que verberava o PS - Partido de Sócrates por estar a destruir o Partido Socialista. Chamei a isso "trair a esquerda", adoptando aqui a ideia de traição adoptada por Arno Gruen, que é a de traição a si próprio. Há finalmente dentro do Partido Socialista vozes que ao sugerirem que há mais vida no PS para além de Sócrates estão a dar cabo do seu principal sustentáculo retórico. Gostei também de ver Manuel Alegre a dizer que o Partido Socialista deve ir para a oposição. É outra forma de dizer que Sócrates deve ir embora. Escrevi-o segundos depois de Sócrates ter anunciado a sua demissão. A eucaliptização ideológica do Partido Socialista chegou ao extremo de levar personalidades com a importância política de Ferro Rodrigues a negarem uma possibilidade de acordo à esquerda, admitindo-o à direita sem perceberem que ao colocarem-se em linha com esse argumento - que já produzia sentido dentro do Partido de Sócrates- acabavam por dar razão ao BE e ao PCP. Um partido que assume à partida a sua incapacidade para dialogar com o BE e o PCP ao mesmo tempo que admite possíveis entendimentos pós eleitorais com o PSD e o CDS não merece, sobre nenhum ponto de vista, que se pense na utilizade de guardar o voto de um qualquer cidadão de esquerda. Esta "traição" é inesgotável e o dispositivo nem poupa aqueles que acolhe. Eduardo Graça (ver blogue Absorto aqui ao lado) chama a atenção para o facto de não se ter discutido o documento da Troika e de que Ferro Rodrigues ter sido um dos poucos que o tinha feito. Quando li isto perguntei-me de imediato: mas se o cabeça de lista da capital falou nisso então é porque o assunto terá sido discutido?! Só que depois caí em mim, ou melhor, no pleno do dispositivo da "traição": é claro que Ferro Rodrigues só foi ouvido quando disse que o PS não se aliava com o PCP ou com o BE. O resto não é agenda.
O drama de tudo isto - a tragédia não é chamada para a política - é que, para mim, a inutilidade do voto no PS é também a inutilidade do voto na esquerda. Uma esquerda inoperante do ponto de vista do governo é muito útil à direita até porque o esbatimento ideológico de hoje em dia faz com que os povos de esquerda e de direita possam convergir localizadamente em questões pontuais, fazendo com que estas ganhem evidência mediática, e esta evidência mediática será reutilizada descontextualizadamente. Por outras palavras, e como dizia Boaventura Sousa Santos no acampamento do Rossio: " De um Partido Finlandês recebi esta interpelação: " Boaventura, nós somos contra este empréstimo porque ele é usurário mas somos solidários com Portugal". Da mesma forma, em Portugal, a esquerda que estava contra o empréstimo defendia (no plano mais evidente mediaticamente, a concessão ou não do empréstimo) a mesma coisa que defendia a ultra-direita filandesa. E não é preciso dar exemplos tão rebuscados: todos contra Sócrates, quase faz o pleno da sociedade portuguesa não militante no PS. Nesse plano encontramo-nos todos aqueles que achamos que o Partido Socialista é a melhor plataforma política como aqueles que, à sua esquerda, acham que ele é tendencialmente de direita, como aqueles que à sua direita, o acham esquerdista. E todos nós não podemos fazer nada do que esta imensa coligação negativa que internamente reforça a liderança de Sócrates.
O drama do PS é que quem pode mudar Sócrates são os militantes do Partido. Este factor tem a ver com a falta de porosidade política dos partidos. Se o que se passa no Partido Socialista é central para a democracia portuguesa, para a esquerda portuguesa, seria curial que os seus militantes fossem também mais permeáveis ao que se passa na sociedade portuguesa.

segunda-feira, maio 23, 2011

5 de Junho é já amanhã

Tenho algum receio em escrever algo que possa ser lido como uma apologia do voto em branco. Ao fim de 36 anos de democracia, e depois de ter votado pela primeira vez nas presidenciais de 81, o voto sempre significou fazer parte de uma festa. Não me sentir em condições de ir a uma festa parece sintoma de uma doença de espírito que me sinto tentado a reservar para mim próprio. Por isso não escrevi directamente do facebook. Não domino a dimensão social daquela rede e aqui, no meu respirar, sinto que estou em casa.

sexta-feira, maio 06, 2011

Voltar aos lugares

Voltar aos lugares. Trabalhá-los. Como se eles tivessem desaparecido e o seu desaparecimento ocupasse um espaço mais volumoso na nossa memória do que a sua existência pura. Nestes tempos lembro-me muitas vezes dos anos setenta. Sinto um apelo da leveza e contra a doutrina catastrofista lembro-me que passámos por tempos muito difíceis. Tão difíceis como aventurosos. Deveríamos refelectir em conjunto sobre a dificuldade dos tempos difíceis. Talvez padeça de uma doença muito grave, a verdade é que sinto uma grande esperança no que virá. Sinto-me muito optimista. Vamos finalmente poder mudar de vida.
A minha janela é uma fonte de inspiração biblíca. Gosto de olhar para ela e ver ali ao fundo David e Golias na versão rebocadores versus carregueiros.
Fim de tarde na Gulbenkian, no outro dia. Na hora em que os patos começam a tomar conta de tudo em voos rasantes às nossas cabeças. E que fazem slide na água. A hora do recreio. Depois, da mesma forma desaparece o barulho e ficamos nas pequenas coisas. O reflexo pasmacento das águas. Aquele rapaz a fazer a sua prática de yoga. Um para de namorados. A rapariga que lê Cartas a um Jovem Poeta. E de repente três tartarugas ( ou seriam cágados) que se aproximam de nós. A cidade, como tantas vezes, lá fora. Há ali um micro clima de silêncio, de quietude que saboreamos.

quarta-feira, maio 04, 2011

Levante-se a Ré

Hoje pela manhã, no edificio B do Campus da Justiça, começou o julgamento de Carlos Fragateiro, José Manuel Castanheira e Margarida Fonseca Santos, por crime de difamação e ofensa da honra de pessoa falecida, o antigo director da PIDE, Silva Pais. Ouvidos nesta manhã, que se prolongou pelo princípio da tarde, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira. Fui lá como dramaturgo, desde o princípio que senti que era o direito de ficcionar que era posto em causa por esta exigência de bom nome, e nesse sentido também me sinto arguido do processo, saí de lá como investigador sobre a dramaturgia portuguesa contemporânea.

E quem me atirou para esse estado foi a advogada da acusação quando perguntou a José Manuel Castanheira se ele compreendia o estado de afectação em que teriam ficado os familiares de Silva Pais ao verem-no retratado de uma forma que consideravam tão abusiva da imagem que guardavam do seu tio. Ao que Castanheira respondeu que poderia calcular isso, embora isso não fosse aquilo que era importante já que estávamos diante de uma personagem de ficção. Aliás contou que da mesma forma tinha ouvido queixas de muitas pessoas que tinham sofrido com a PIDE, já que sentiam que o retrato de Silva Pais estava muito suavizado. E isto é muito importante já que nunca compreendi porque é que os sobrinhos de Silva Pais se atiraram a um texto ficcional quando este foi baseado numa investigação de dois jornalistas que nunca foi posta em causa por estes familiares. Da mesma forma a associação de Silva Pais ao assassinato do General Humberto Delgado não é espúria e já foi muitas vezes veiculada na comunicação social. Tenho de reconhecer que não deve ser fácil, num Portugal que derrubou o regime político que a PIDE tão ciosamente guardava, ser sobrinho de Silva Pais mas isso não justifia a incongruência de se terem atirado à única versão que é assumidamente uma ficção. Lembre-se, como o recordaram Fragateiro e Castanheira, que o espectáculo começa logo com um baile em que Silva Pais e o Che dansam, episódio que como é óbvio, nunca aconteceu e marca assumidamente o território ficcional em que se desenrola aquela aventura teatral. É que o teatro tem essa força, essa capacidade de nos trazer a vida como se ela estivesse a acontecer de facto. Ele não é mas é-o com mais intensidade do que todos os livros de investigação histórica onde Silva Pais é responsabilizado pela morte do General Sem Medo, independentemente de não ter sido formalmente condenado. Sem uma cultura teatral para perceberem o protocolo ficcional, deixaram-se arrastar pela catárse de verem em cena o seu próprio tio. O que me levou para um outro aspecto. A representação do papel do dramaturgo junto não só dos sobrinhos, como da advogada que os representou e do próprio juíz que aceitou o julgamento (honra ao Ministério Público que recusou ser assistente), deixando-me antever que ela pode ser muito mais comum. Para estes a autora ( e eles só viram o texto de ensaios já que nunca foi publicado) é a responsável máxima por aquilo que eles viram em cima do palco e nunca lhes passou pela cabeça co-responsabilizarem a encenadora e o actor que protagonizou a cena que os indignou (uma em que o personagem que tem mais correspondências com Silva dá a entender que é preciso abafar o general). Ora a forma como o actor encheu aquele "Abafe-se o general!", também ajudou a criar a ilusão cénica.
O julgamento recomeça dia 12, desta vez para ouvir Margarida Fonseca Santos.

terça-feira, maio 03, 2011

Para que precisamos nós da Cultura?

Tenho alguma dificuldade em escrever de uma forma credível, até para mim mesmo. Sinto-me mal. Apetecia-me ficar de quarentena. Desfazer-me de uma data de conceitos que a praça pública anda a vociferar e que eu não entendo. Porque é que eu hei-de andar aqui a repetir ideias que me vêm de todo o lado e em que eu pego, como se fosse um puzzle, dando alguma razoabilidade porque as enfio na minha retórica discursiva? Como se soubesse do que estou a falar! Não sei. Dívida soberana. Ataques especulativos. Neoliberalismo. Restruturação da dívida. Resgate da nossa dívida. Dinasia PEC. Europa. Agência de Notação. Níveis de Ratting. Default. Ordenados milionários dos CEOS. Lucros fabulosos dos especuladores. F.M.I. (mas posso falar-vos até à exaustão de uma relação apaixonada com F.M.I. do Zé Mário Branco). Não percebo nada disto. E não estou para mandar uns bitaites a fazer que percebo. Não percebo e ando mal informado e salvo raras excepções de alguns amigos que andam por aqui a fazer autêntico serviço público vejo que rende muito mais, tanto na bloga como no facebook, fazer rolar ideias, mesmo que de contrabando. É por isso que ano aqui há dias para escrever um texto e não acredito em nada do que escrevo. Porque aquilo sobre o que se escreve, sobre o que se pensa, sobre o que anda por aí, sobre o que forma opinião, para mim é trampa. Lixo, lixo ideológico. Há um ruído ensurdecedor na cidade dos vivos.
1. Há qualquer coisa dentro de mim que me diz que é pela cultura que conseguiremos desmontar o torniquete. Porque é de um torniquete que estamos a falar. E por isso aquilo que tinha começado a escrever sobre a necessidade da esquerda, já não me entusiasma muito.
Nos meus últimos três textos dramáticos inseri sempre uma personagem que falava de uma guerra que aí vem. E no próximo, aquele que escrevo para um novo projecto, a guerra vai mesmo começar. E isto não é por ter descoberto agora alguma tendência apocalíptica. Sim porque realizei, radicalmente, que deixarmos entrar a ideia de guerra no nosso mundo, é começarmos por assumir que a nossa ideia de paz, de prosperidade (e estou a falar sempre e em primeiro lugar desta Europa onde me situo) está vinculada à miséria, exploração e morte. A uma geopolítica tenebrosa. Desde a primeira era Reagan, passando pela dinastia Bush, não isentando a fase final de Clinton, que comecei a perceber que não tinha alternativa pessoal a essa visão política. Não era negociável nem provinha de uma visão extremista radical assente em algum calhamaço ideológico. Era a natural assumpção de que não via nenhuma diferença entre a minha vida e a de qualquer outra pessoa que habite este nosso mundo. E também que a globalização política nos responsabiliza, a cada um, seja lá onde nos encontremos, pelo que se passa em qualquer ponto do mundo. Estamos em guerra.
Não há assim nenhum sitio neste mundo onde eu me possa proteger da responsabilidade que sinto pela verdadeira catástrofe que a voracidade tentacular do nosso bem-estar provoca em todo o globo. Contra esta ideia de que a guerra é sempre lá longe, senti a necessidade de - metaforicamente, como o é sempre a expressão artística - a aproximar das nossas casas. É por isso também que, com alguma provocação, vou alertando que quando estamos a falar de números de pobres, de números crescentes da fome, não estamos a falar dos que não têm o mínimo para viver com dignidade, não estamos a falar dos que não têm que comer (porque verdadeiramente os números do desemprego só nos preocupam quando sobem a níveis que fazem temer que eles comecem a entrar nas nossas famílias). Estamos a dizer que começámos a perceber que a fome e a miséria estão a chegar à rua de baixo e que logo, logo, estarão na nossa própria rua. Nós estamos apenas preocupados com a nossa fome e com a nossa pobreza. Ou estamos a pensar nas hordas de pobres que vão começar a desestabilizar este nosso mundinho. O tipo do Pingo Doce está. É aliás impressionante como toda a gente o ouve como se ele fosse um papa. E estamos apenas preocupados connosco porque nos condicionámos assim, a um egoísmo de base. Costumamos amiúde compararmos-nos aos ratinhos de Pavlov. Mas a única verdade que podemos apresentar uns diante dos outros é a de que a metáfora pavloniana é insuficiente para explicar uma coisa: nós somos simultâneamente os cientistas e os ratos no laboratório. Todas as retóricas políticas que o pretendam esquecer estão a fugir da cultura como o diabo foge da cruz.
Não há nenhum princípio romântico sobre a esquerda, não há nenhuma urgência de natureza pragmático-realista que nos deva deixar de cuidar da ideia de que a dimensão colectiva da Cultura é o chão fértil onde vivifica uma política que possa devolvermo-nos a ideia de responsabilidade. Por mais que ela pareça coisa vaga e desmobilizadora para quem está muito preocupado com os resultados expressos.
2. Quando falamos em cultura, e principalmente se um dramaturgo fala de cultura, pensamos logo que se está a falar no plano da manifestação dos objectos artísticos e dos produtos culturais. É uma forma de reduzirmos o debate para um plano onde ele pode ser manipulado pelas diferentes discursividades políticas, quer de esquerda, quer de direita, mas não é disso que se trata. A cultura é tudo aquilo que é a expressão da nossa vida. E não há nada do que fazemos, ou não fazemos, que não seja expressão de nós e, enquanto expressão de nós, cultura.
E é dessa ideia muito vasta de cultura que me socorro quando me refiro à perspectiva de que é pela dimensão cultural que a política pode devolver-nos a ideia de responsabilidade. É um trabalho sobre a identidade, a forma como nos constituímos uns diante dos outros.

[Aparte ou pausa para respirar: Poderíamos também falar aqui da especificidade da relação portuguesa com a cultura . E aí teríamos oportunidade para falarmos de uma certa bicefalia que domina as políticas governamentais ligadas à cultura, fazendo um tratado de Tordesilhas entre aquilo que podíamos referir como alta cultura (os produtos culturais e os objectos artísticos realizados por agentes culturais devidamente licenciados, mapeados e legitimados, das quais se encarrega o Ministério da Cultura através dos seus diferentes organismos) e a baixa cultura (as actividades amadoras e de expressão popular, o associativismo, em grande parte confinadas à investigação científica e à academia, à INATEL, às autarquias e às cooperativas). ]

3. Movimentos de cidadania. Desde que a ameaça de bancarrota começou a pairar sobre as nossas cabeças, houve um movimento de cidadania muito importante. Não o vemos muito bem reflectido na sociedade até porque o seu eco é muito filtrado, parece que os comentadores são os mesmos, parece que os protagonistas reverberam as mesmas coisas, parece que o tempo se aproxima velozmente do dia 5 de Junho sem nada trazer de novo, mas não é bem assim. O extremismo da situação fez com se criasse um circulo de atenção sobre novas camadas discursivas veiculadas pelos meios de comunicação mais informais. Passa-se mais tempo na internet, nos blogues, no facebook. E o tempo, o nosso tempo, o tempo que cada um de nós deposita no tempo que é de todos, é cultura. Fazem-se circular mensagens, textos, vídeos. Muitos dele são como que uma catárse. Andamos desesperadamente à procura de bodes expiatórios. Encontramos por isso alguns culpados, tanto externos como internos. Internamente, e no plano político partidário, Sócrates para todos, a direita neoliberal e a esquerda radical para o PS, o PS, o PSD e o CDS para o BE e para o PCP. Fora do mundo dos partidos os culpados são os bancos, a corrupção, a falta de ética na vida pública, o Estado Social, a Função Pública, o descontrolo do investimento público, a dívida pública, a dívida soberana. Externamente a deriva neoliberal financista, onde se juntam as agências de notação, os especuladores e uma desregulação da economia. O FMI que surge muitas vezes associado a esta deriva neoliberal, aparece agora também como parceiro do BCE e da CE. E se estes são os culpados, as grandes vitimas são, para a direita, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, para a esquerda, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, e o Estado Social.
4. Remar em círculo. O facto de estarmos mais ligados uns aos outros dramatiza este remar em circulo dos nossos últimos tempos. Estamos tão presos a este enquadramento político que parece irreal esboçar algum movimento no sentido de promover uma reflexão sobre as possibilidades de agirmos de uma outra forma do que aquela a que nos vimos condicionando. A troika está cá a passar a pente fino a nossa vida. Para a direita, por mais bem intencionada que esta esteja - e talvez fosse uma altura de atribuirmos à direita a mesma sinceridade política que conferimos à esquerda - é o tempo de tirar partido da situação de modo a fazer passar um conjunto de transformações que seria impensável conseguir promover num quadro político e económico de alguma estabilidade. A esquerda, dividida entre o PS, o PCP e o BE, está em estado de afonia. Ou agonia. Dos partidos de esquerda o PS é o único que assume falar com a troika, o PCP e o BE, como todos sabem, excluíram-se do processo. A exclusão do PCP e do BE mesmo se para muitos parece incompreensível, já que eles fazem parte de um quadro institucional e foi o País que pediu o resgate, não deve ser dramatizada. Se a troika fizer convenientemente o seu trabalho terá, sem dúvida alguma, oportunidade para conhecer a posição destes dois partidos. O que de mais negativo poderemos fazer agora é criar tensões a partir de diferentes interpretações sobre actuações legítimas dos partidos. Se não é por aí que nos entendemos que não seja também por aí que nos desentendemos.

5. A agenda da direita. No entanto mesmo não nos deitando a criticar as atitudes, temos de tentar perceber o que é que podemos fazer. A agenda da direita parece mais ou menos clara e ela está entusiasmada com isso. Muitas vezes incorremos no erro, e eu faço mea culpa disso, dizendo que a esquerda se aliou à direita para derrotar o PEC IV e, consequentemente, o governo. A tirada tem alguma bondade como provocação mas não é exacta e não nos ajuda a perceber as circunstâncias do que se passou. A dinastia PEC foi uma criação do Governo PS com o PSD, assente num entendimento comum e sempre teve a rejeição do PCP e do BE. Ou seja, quem rompeu com a dinastia PEC foi, assumidamente Passos Coelho. Fê-lo da forma atabalhoada que todos sabemos, faltando à verdade, truncando versões, dizendo aqui uma coisa, em Bruxelas outra, mas foi ele que o fez. Foi ele que se aliou a uma esquerda que estava naturalmente contra a dinastia PEC e hoje percebe-se porquê: não só a agenda do PSD está sintonizada com as exigências do pensamento neoliberal que dominam a estratégia de resgate, como vê nisto uma excelente ocasião para uma vingança sobre mais de uma década de governação do partido socialista. Se o Orçamento de Estado de Durão e Portas era uma santuário ideológico contra a esquerda e o PS, esperem pelo que virá se Passos Coelho for o redactor-chefe do próximo OGE. É claro que a direita sofre da mesma contingência humana que também caracteriza a esquerda: ela não vê isto da mesma maneira que a esquerda o vê e por isso substitui sentimentos negativos como vingança por outros bem mais elevados. E por isso ela não pode perceber aquilo que o Daniel Oliveira disse uma vez no Eixo do Mal e que nos devia servir de baliza: o que se está a passar é um autêntico golpe de estado à governação legítima dos países, impondo medidas que consubstanciam mudanças de regime que nenhum partido se atreve a colocar nos seus programas eleitorais e deveremos perguntar-nos se achamos isto aceitável.

6. E a agenda da esquerda? Qual é a agenda da esquerda, perguntam-se as diferentes tribos deprimidas de esquerda? É difícil perceber qual é e isso provoca notórios embaraços. Tenho encontrado nestes dias muitas pessoas, do PCP, do BE e do PS que estão muito relutantes em votar. Não estão indecisas, sabem que se votarem vão votar no partido onde costumam votar sempre, o apelo do voto útil é sempre algo disponível para um eleitor, mas têm uma genuína relutância em votar. Eu próprio estou nesse grupo. Não tenho dúvidas em dizer que neste momento nenhum partido de esquerda me dá sinais claros de querer governar à esquerda e por isso qualquer voto na esquerda será reforçar a votação na direita. É claro que também poderia adoptar aquela atitude lúdica do eleitor do PCP que zangado com o seu partido vai votar no BE ou no PS, ou o do BE que de costas voltadas para a sua força política promete deitar a sua escolha no PCP ou no PS, e como votante que fui do PS colocar o meu voto no BE ou no PCP. Corre por aí, nesta perspectiva lúdica, que não votar é fazer o jogo da direita. É um argumento estafadissimo que nem chega a partir. O que nos deveria preocupar não é a esquerda que faz o jogo da direita, é a esquerda que não faz o jogo da esquerda. A menos que o jogo da esquerda não seja governar, seja só o ser oposição. E não há dúvida de que a bancada esquerda fora do chamado arco da governação faz excelente oposição. Tenho aliás muitos amigos de esquerda que justificam o seu voto no BE e no PCP porque trabalham muito na Assembleia. Fazem muitos trabalhos de casa. Talvez seja uma perspectiva salutar esta e talvez fosse sensato enterrar aquele arquétipo político de que deveremos ter uma ideia de bom governo pra podermos ser uma boa oposição. No entanto, bom senso à parte, o que faz falta neste momento é a capacidade de comunicarmos com clareza.

7. Falar claro e falar verdade. Uma das grandes falácias actuais é a da necessidade de falar claro e verdade. Todos o repetem, em todas as praças públicas deste país. É razoável este ponto de vista. O paradigma Medina Carreira, ou seja, de que vivemos na mentira e que agora temos de falar a verdade ocupa a agenda de todos os dias. No entanto pondera-se pouco a possibilidade de que este apelo à clareza se situar numa zona de duplo contrangimento que só nos perpetua neste lodaçal discursivo que desvaloriza tudo o que se diz. De que é que adianta falar claro se não existem as condições necessárias para que o acto de comunicação se processe com clareza? Nós ouvimos aqueles muitos que falaram claro ao longo destes anos, que nos alertaram para o estado de degradação das nossas finanças, para o elevado endividamento público e privado? Nós ouvimos aqueles que nos alertaram para o perigo que rodeava a função social do Estado? Nós ouvimos aqueles que escreveram, alertando para a forma como a Europa crescia sem solidariedade? E porque é que não os ouvimos? Porque não nos interessava. E porque é que não nos interessava, porque é que não nos era interessante? E o que é que nos foi interessante, o que é que nos interessou, o que é que nos prendeu a atenção? Se não formos capazes de questionar isto o apelo a falar claro é só mais uma metamorfose de um discurso escorregadio e pantanoso.

Por outro lado o apelo a falar verdade é ainda mais perigoso e anda na senda de um certo sebastianismo que se está a instalar troicamente na sociedade portuguesa. Como se entre a gente humana houvesse uma verdade revelada. Há pessoas mais lúcidas do que outras, claro que há. Mas de nada nos serve isso se enquanto comunidade não construirmos uma evidência comum sobre uma determinada realidade. A nossa verdade é aquilo que entre nós estamos decididos a aceitar como verdadeiro. As verdades reveladas são manhosas, trapaceiras e enganadoras. E aqui estamos de novo a bater à porta da cultura, agora pelo postigo da forma como comunicamos.

8. O que é isto de condições necessárias para a clareza na comunicação? Mas nós não vivemos na sociedade da comunicação?! Do conhecimento? Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a perspectiva local tem vindo a perder relevância na nossa relação com a cultura. Esse é um aspecto para tentarmos perceber que a clareza do acto da comunicação não tem tanto a ver com a clareza do que se diz ou do que se entende, mas de como é que hoje em dia isto produz sentido. O nosso modo de vida está dominado pelo fenómeno da globalização. A revolução tecnológica tornou a terra um lugar muito mais pequenino, muito mais interactivo e, paradoxalmente, muito mais distante do local. Perdemos em territorialidadade o que ganhámos em virtualidade. São relações diferentes, não necessariamente antagónicas, existem cada vez mais experiências de cruzamento destas duas experiências, mas são relações diferentes. O local exige tempo, o tempo da interacção no aqui e no agora, tempo que a rede global maximaliza unindo tudo. Este admirável mundo novo que é vivido no plano dos sujeitos, quer do ponto de vista individual quer colectivo, como um lugar libertário, onde cada um adquire a possibilidade de se expressar, de conviver, de se agregar, é também um lugar panóptico onde é muito mais fácil exercer, de forma subrepticia, disfarçada, a dominação, ou se quisermos, de uma forma mais benigna, o controle social e ideológico.

A grande eficácia do sistema de dominação actual é que ele prescinde do binómio dominador-dominado para exercer o jogo da dominação. A palavra é apropriada. Trata-se de um jogo. O dominador é tão espectral como o gesto de dominação e o próprio dominado e não coincidem necessariamente. Há um vaivém. Quando hoje vemos alguns vídeos que circulam no you tube ( e em relação a muitos nós não sabemos verdadeiramente quem os fez nem quem está por detrás desses mesmos objectos) ou quando vemos o trabalho desmistificador do Inside Jobs, nós percebemos que aquilo que supunhamos ser a nossa força, a união, é também afinal a nossa grande vulnerabilidade.

Os nossos países, que ainda há pouco tempo tinham uma rede institucional complexa para implementar a sua soberania (língua, simbolos, instituições, território, moeda, fronteiras, águas territoriais, cultura), hoje, de verdadeiramento soberano, só têm a dívida. Temos uma grande vulnerabilidade. Basta condicionar um director do BCE, basta calar um presidente de um Comunidade Europeia, para que de repente o papão FMI, com um director de esquerda, surja de forma dócil a propôr taxas de juro e prazos de pagamento mais generosos do que os defendidos pelas instituições da União Europeia. Por outro lado também temos milhões de pessoas ligadas por partículas discursivas minimalistas (os likes, os shares, os comments) fornecendo uma ilusão de individualidade e de coesão àquilo que, visto com um bocado de distância, se torna também numa massa enorme de acriticismo. E tudo isto parece por vezes ter a força de um tsunami que nada nem ninguém consegue controlar. Ou pelo menos, não nos é perceptível o controle, até porque estamos muito mais deslumbrados com a força telúrica dos fenómenos (como a aventura da rua árabe).

9. Porque é que precisamos nós da cultura? Há muitas razões e não vou maçar-vos com aspectos gerais da teoria da cultura. O que me parece é que tentamos ver tudo no plano da mudança de paradigma da política quando o deveremos situar num trabalho profundo sobre a nossa identidade. É que se não podemos sentar um país inteiro no divã do psicanalista, precisamos de perceber que não adianta querermos outros políticos, outras políticas, se não assumirmos que temos de mudar, porque foi este modelo de comportamento que nos trouxe a este aparente beco sem saída. Atravessamos um grave problema de congruência política porque estamos a pedir aos nossos políticos que sejam os protagonistas de uma mudança que nos tem de envolver a nós. Alguns de nós viram-no, vêm-no, nas manifestações que ocorreram um pouco por todo o país. É como se estivéssemos muito perto de não termos de aceitar como uma inevitabilidade o afundamento da nossa vida democrática por causa do apodrecimento da partidarização da sociedade. Estamos muito próximos mas ao mesmo tempo sentimos que podemos morrer na praia. 5 de Junho parece a data da capitulação onde todos nós teremos de fazer um regime alimentar à base de sapos, mas talvez seja bom não fazer da nossa vida favas contadas. Há 37 anos de uma noite para o dia mudámos toda a nossa história e com que consequências?

Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou. Ou através da cultura valorizamos a nossa responsabilidade ou continuamos neste discurso de negação política que atinge zonas de delírio em que de um extremo resolvemos os problemas com impostos sobre as grandes fortunas e do outro extremo colocamos a solidariedade social no plano da caridade.

Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Meso que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado.

10. Vivemos acima das nossas posses, dizem. É mentira, é uma grosseira mentira. Que como dizia o Aleixo, tem uma dose de verdade para nos ludribriar melhor. O que se passou é que esta desregulação do sistema financeiro já não se podia contentar com o dízimo resultante das nossas disponibilidades de consumo que sobravam do nosso rendimento mensal. E isto não se passou só em Portugal. É um fenómeno global. Provavelmente a especificidade portuguesa traduziu-se no modo como nós, que andamos sempre com uma identidade larvar ou às avessas, nos deixámos seduzir tanto pela dimensão apoteótica do nosso consumo. Depois de décadas a acumular poupança, em que o salazar ficou como marca do instrumento de rapar o tacho, aderimos com um espantoso novo riquismo a esta possibilidade infindável que os créditos, que agora sabemos serem hipotecas, nos permitiam. E, através da publicidade, o sistema replicava-se e ajustava-se ideologicamente a essa finalidade. Dizer que as pessoas viveram acima das posses é tentar apagar a realidade de que o sistema permitiu que a actividade económica, suportada numa alavanca financeira histericamente crente nas suas potencialidades, ganhasse acima das suas possibilidades, tendo em conta o equilibrio do sistema. Mas nós também estivémos lá. Os milhões de lucros são milhões de cêntimos nossos. E somos nós que os demos. Senão compreendermos isso nunca podermos mudar o nosso comportamento. E estamos sempre nas mãos de quem nos vem aterrorizar.

11. Alternativa. Quando eu insisto nesta ideia de que temos de analisar a realidade como se ela não fosse de sentido único, geralmente dizem-me, está bem, mas qual é a alternativa? Ou seja, se criticamos o resgate do BCE, do FMI e da CE, perguntam-nos qual é a alternativa e supõe-se que a alternativa é o não ao resgate. Este é um modo de pensar tão inculcado e tão impregnado de uma ideologia dialética que se torna dificil explicar que enquanto não assumirmos que estamos a colocar o problema de uma forma errada, as soluções serão também ela erróneas. A alternativa ao resgate que está a ser anunciado pode ser um resgate em condições mais vantajosas para todos. Ora para isso não é preciso termos uma alternativa, sim não aceitarmos que para uma determinada realidade não lhe há alternativa.

É uma operação tão simples que chega a ser tenebrosa a forma como o discurso político, o que rola por aí, o faz esquecer. Há uma situação de efectiva falta de liquidez da nossa economia. Não temos dinheiro. Até eu que sou o mais incapaz de todos para perceber os fenómenos económicos já o interiorizei. Temos de o pedir emprestado ou temos de mudar a curto prazo a estrutura da nossa angariação de receita e de realização de despesa. A tónica da diabolização de quem pode emprestar dinheiro faz parte de uma retórica discursiva que puxa pela lógica dos afectos mas é muito pouco interessante porque na política a dimensão dos afectos não é uma realidade partilhável senão por aqueles que pensam do mesmo modo .

12. O resgate. O que é importante é perceber que se por um lado precisamos de dinheiro, as modalidades de resgate têm produzido um efeito dominó com a Grécia e com a Irlanda e que se vamos negociar um resgate partindo dos mesmos pressupostos a probalidade é que o empréstimo não nos sirva para nos ajudar a desenvolver sim para nos atascarmos no mundo tenebroso da dívida. Isso não quer dizer que não devamos assumir o resgate, quer apenas dizer que se o assumirmos devemos salvaguardar todas as situações que nos sejam prejudiciais. É para isso que precisamos de coesão nacional, é para podermos ser mais fortes, tanto interna como externamente. Os partidos que são contra o resgate têm proposto outras alternativas de financiamento. Por mais que algumas delas sejam nitidamente demagógicas, outras há que são realistas e que são possíveis de compatibilizar com o empréstimo, diminuindo até o seu impacto.

Esta ideia de que a nossa vida está entre a aceitação da inevitabilidade do resgate ou a da negação da necessidade do mesmo, faz-nos perceber que tanto o resgate como a sua negação podem ter alternativas. É que o que se está a fazer passar é que a inevitabilidade de um resgate, é a inevitabilidade de um certo tipo de resgate e isso é intolerável. Mas é nesse intolerável que tem andado muito da nossa política e muito da campanha mediática. O que eu gostava de ver era os políticos do meu país, e principalmente os de esquerda, a trabalharem em conjunto para que, se o resgate se fizer, seja o menos nocivo para o país e que seja feito para o desenvolvimento do país. Deveríamos nas próprias eleições responsabilizar seriamente os políticos e as políticas que não perceberem isso.

13. O não-resgate.

A posição do BE e do PCP sobre o resgate tem desde logo uma virtude: obriga-nos a perceber que estamos a discutir a Europa e que temos de definir em que Europa é que queremos estar. A grande vantagem desta obrigação de discutirmos a Europa é a de percebermos que esta ideia de Europa que por aí anda nada tem de utópico. É até anti-europeísta. Não é por acaso que muitos de nós andam entusiasmados com a experiência da Islândia. Parece um David contra Golias e quem não gosta de David? Só que a Islândia não faz parte da Comunidade Europeia e por isso tem outra autonomia. É isso que nós queremos? Sair da Comunidade Europeia? Se formos analisar os partidos à esquerda do PS, o BE assume a sua vocação europeísta, o PCP não. Estive a ler atentamente as propostas de todos os partidos de esquerda e percebi que por muito que haja medidas que se aproximam entre o BE e o PCP pode haver uma Europa que os divide. O PCP não prescinde da sua acusação de que a adesão ao Euro desregulou e destruiu a actividade económica. Ou seja, o não ao resgate pelo BCE, pela CE e pelo FMI, parece que é uma alternativa, mas que alternativa queremos? Com Europa? Sem Europa?

De qualquer forma o ou isto ou aquilo é uma brincadeira de rapazes de raparigas no pátio, não uma posição de compromisso num momento como este e nós, enquanto cidadãos, temos de mostrar de uma forma cabal o que é que fazemos a políticos que pretendem brincar ao nosso futuro em vez de se entregarem a um compromisso. O BE e o PCP apresentaram propostas para o não resgate cuja validade não se esgota se o resgate for feito. É claro que o tempo passa e não se percebe como é que as medidas destes dois partidos podem ser adoptadas se não forem, em tempo recorde, analisadas e quantificadas. Nesse sentido acho muito importante a iniciativa do BE de pedir ao Governo para ser ouvido porque tem propostas para apresentar. Regra geral as propostas do BE parecem, a um não especialista em economia, boas e de acordo com a necessidade do País. Espero muito sinceramente do Partido Socialista que se entretenha seriamente ou a explicar porque são inviáveis, porque é que não podem ser integradas na negociação com o BE, CE e FMI, ou a viabilizá-las. E o mesmo às do PCP. O facto de elas serem apresentadas por um partido que é contra o resgate não quer dizer que elas não possam ser aproveitadas para minimizar os efeitos negativos do empréstimo. E não quer dizer que não possam ser aplicadas depois.

14. Nós os cidadãos de esquerda, alinhados ou desalinhados, devemos bater-nos para que os partidos de esquerda consigam encontrar soluções que salvaguardem um património de políticas sociais que está intimamente ligado à nossa democracia. Não aceitando desculpas infantis. Quem já aceitou integrar uma coligação com a direita no derruba do governo ou quem se apresta a coligar-se com ela depois das eleições, não tem desculpa nenhuma para não fazer um grande esforço político na criação de mínimos denominadores comuns de entendimentos políticos. Devemos bater-nos para que a Europa consiga ver em nós a Europa e não apenas um país com problemas de dívida soberana. Deveremos bater-nos ou para encontrar soluções menos gravosas do que o empréstimo financeiro ou que ele, a ser contraído, seja para resgatar o País e a sua economia e não para a manter num jogo fraudulento e especulativo. Deveremos bater-nos para que a coesão política do País seja um aumento da responsabilização social e politica de todos. O país não é um ringue de pugilato político entre José Sócrates e Passos Coelho. Temos de acreditar na vida, na nossa vida, na nossa capacidade de a transformarmos. Mesmo que não percebamos nada de ratings, de renegociações da dívida, de créditos defaults, e outros truques com que pretendem armadilhar a nossa possibilidade de analisarmos o bom ou o mau senso dos nossos políticos.

domingo, maio 01, 2011

TEMPO CONTADO: O blogue

Descubro o blogue de José Rentes de Carvalho, escritor que descobri muito tardiamente através do Câmara Clara, de entrevistas, viagem por fazer em relação aos livros, à obra. Vou marcá-lo aqui para os blogues de todos os dias. Parafraseando Rui Bebiano, como eu gostaria de atravessar a planície dos oitenta a cavalo desta tranquila sabedoria.

sexta-feira, abril 29, 2011

“Nunca passei de um actor medíocre” (1)

A minha primeira participação na comunicação social (fora aquele jornal, em folhas de almaço, que, aos treze anos fiz para esclarecer o mundo das virtudes do internacionalismo proletário) tinha este título. Era uma entrevista a José Raimond -técnico do FAOJ, a dirigir na altura o sector de Teatro deste organismo - que, com grande humildade, me revelava que tinha abandonado a actividade teatral porque não gostava do esforço físico, concluindo o raciocínio com a frase que encima esta crónica.
Na altura destaquei-a e coloquei-a intencionalmente na testa do texto, de modo a tentar justificar uma asserção que então me corria muito pelo pensamento, a de que, nos vários níveis da administração pública, a gestão do teatro estava entregue a praticantes frustados. Estava nessa altura imbuído de uma ideia - arrogante - de jornalismo enquanto acção justiceira, reordenadora da verdade do mundo.
Eu experimentara assim, no universo dos jornais murais, e com dez anos de antecedência, o espirito agressivo que anos mais tarde viria a encontrar na redacção da SIC onde estagiei ( surge-me como paradigma desse espirito a imagem que conservo de um jornalista a percorrer o caminho que o levava da sua secretária até ao estúdio, onde estava em directo o administrador da Parmalat (em plena crise da guerra do leite) dizendo para os colegas, tal guerreiro antes de um combate decisivo : “Vamos comê-los!”).
Foi esta mesma ideia de um jornalismo redentor, e por isso vingativo como toda a justiça, que me fez sentir um herói saltando sobre a mediocridade geral e muito concretamente sobre aquele homem cuja grandeza só agora descortino.
E, ironia do destino, passados quase vinte anos de ligação ao teatro - nove deles enquanto actor - também eu posso dizer que nunca passei de um actor medíocre (não obstante ter atravessado a cena teatral portuguesa com a minha ambição de ser o único-único actor deste mundo). Um actor medíocre que, na sua passagem pela direcção do Teatro da Trindade, também encarnou aquela asserção que antes tinha justificado o seu grotesco ataque àquele técnico do FAOJ.
Ocorrem-me estes pensamentos enquanto viajo, saltitando, entre as páginas da “ Tirania da Comunicação” de Ignácio Raimonet , e as de uma outra edição, “A Verdade e a Política” de Hannah Arendt , arrancada aos saldos da última Feira do Livro.
De quando em quando levanto os olhos dos livros e cruzo-me com o mundo. Não escondo que a guerra do Kosovo, e o papel que os jornalistas nela tiveram, me absorve muito do meu olhar. Mas não só. Também, noutro plano, a guerra entre o teatro e as suas testemunhas, quer sejam os jornalistas, quer sejam os críticos. Ou a guerra do Procurador da República com o ex-Director da Polícia Judiciária. Um conjunto de situações que vou, sempre que posso, discutindo com alguns amigos que fazem do jornalismo um modo de estar entre nós.
E no centro desse debate está de facto o duplo constrangimento que decorre do desmesurado poder que ainda hoje atribuímos a um ofício que se sente ele próprio, na sua dimensão mais artesanal, a do trabalho dos jornalistas, cada vez mais encurralado contra a sua impotência diante do mercado das notícias.
Ignácio Raimonet tem aliás uma visão demolidora sobre o efeito que o mercado produz na relação do jornalismo com a verdade. Quando analisa a forma como, nos casos de Diana Spencer e de Mónica/ Clinton, muitos meios de comunicação social não hesitaram em, com a mesma desenvoltura, vender tanto as falsas notícias como os seus posteriores desmentidos, lucrando igualmente com as duas situações.
E isto porque no mercado das notícias aquilo a que chamamos verdade, tem o mesmo valor daquilo a que chamamos mentira. São ambos elementos do espectáculo de ficção e entretenimento destinado ao espectador encaixotado magicamente no seu suicídio de mundo .
Esta brusca mutação na relação que mantínhamos com o jornalismo, que deixou gradualmente de estar tão vinculado à formação de uma melhor opinião e consciência e passou a ser também marcado por um consumo desabrido de um produto a que designamos por news (que desde que seja novo e mantenha uma continuidade narrativa com o enredo do mundo pode ser verdade ou mentira) tem também de ter consequências muito grandes no trabalho jornalístico.
Assim, ele deixará de ser cada vez mais uma argumentação coerciva do mundo, como o é todo o discurso que pretende repor a verdade, e tenderá a ser um investimento num olhar testemunhal, humilde perante a monumentalidade do real. Olhar que terá de saber conviver também - como se estivesse numa prateleira de um supermercado - com uma ficção que, desenfreada, tenta responder às leis da oferta e da procura.
Na verdade liberto de uma presunção - e sabemo-lo, arrogância - de verdade, aquilo que o distinguirá será o seu processo de fabricação, o seu certificado de garantia. De um lado estarão quer os enlatados noticiosos difundidos à escala planetária e refeitos em cada redacção para serem apresentados pelas grandes vedetas do espectáculo da informação, desse mesmo lado estarão também os grandes repórteres nas salas de imprensa dos múltiplos palcos onde é apresentada a estratégia do mundo, do outro estarão os jornalistas, aqueles que - independentemente do suporte com que nos devolvem o real - estão lá para, simplesmente serem testemunhas qualificadas dos acontecimentos.
A anunciada morte do jornalismo não é mais do que o seu renascimento, a sua caminhada para uma clarificação de papéis. Muitas vezes não compreendi como bastantes jornalistas humildes, honestos e conscenciosos que encontrei na SIC, conseguiam conviver com o comércio mais frenético e estonteante da estação.
Hoje compreendo-os melhor. E é até por eles terem insistido numa verdade profissional que acaba por marcar as fronteiras com o espectáculo mediático que hoje nos é possível perceber que o comércio das news, por mais jornalistas que arraste, acabará por levar, involuntariamente, a um rejuvenescimento do trabalho jornalístico.
Tomando como ponto de partida a guerra do Kosovo, o maior problema não será o facto do espectador encaixotado no seu suicídio de mundo ter ao seu serviço um batalhão de vedetas, de repórteres arrogantes e completamente absorvidos pela nova máxima do mercado jornalístico “ da verdade dos factos também se faz notícia” .
A catástrofe só descerá à terra das notícias quando aqueles que se tentam informar porque sabem - como Hannah Arendt - que a “liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate”, não puderem confiar ou dispor do olhar testemunhal de repórteres como Cândida Pinto, Aurélio Faria, Pedro Rosa Mendes, Paulo Moura , Pedro Caldeira Rodrigues, Carlos Santos Pereira, e outros (situo-me apenas no universo do trabalho feito sobre a guerra no Kosovo pelos jornalistas portugueses).
Entre a catástrofe e a frenética mistificação dos média, vive uma realidade difícil, ambígua, que também se alimenta de desistências várias. Não só aqueles que naturalmente escolhem ser a face do negócio, também aqueles que deixam de acreditar na profissão e se arrastam pelo mal estar de não conseguirem corresponder à necessidade que temos que eles se mantenham lúcidos, confiantes e de olhos abertos perante um real com que, através deles, marcámos encontro.
E entre uns e outros erguem-se as mãos verdadeiras que Paul Celan responsabilizava como as únicas autoras de poemas verdadeiros, ideia que um dia Abel Neves, dramaturgo, usou para defender que “ este trabalho de ter ou manter mãos verdadeiras é, por si só, uma caminhada na vida “.
Nos poemas, nas news, na vida.
(1) Titulo de um texto da Crónica Olho da Rua que assinei há muitos anos no Jornal Vento Novo e que recuperei agora ao fazer a limpeza de ficheiros.

domingo, abril 24, 2011

A política do ressentimento

Ferro Rodrigues, o cabeça de lista por Lisboa, disse que deverá haver acordo pós-eleitoral mas que é completamente impossível fazê-lo à esquerda porque esta se aliou, no último ano e meio, à direita para derrubar o PS.
Confesso que li, reli, tresli, e não consegui apanhar nenhuma lógica no pensamento de Ferro Rodrigues. Quer dizer que para ele o PS, se ganhar, tem forçosamente de fazer um acordo pós-eleitoral e que esse acordo só pode ser feito à direita. Deigo desde já que quando se parte assim para uma negociação, parte-se vencido. Ou seja, o PS assume a necessidade de fazer um acordo com a direita. Poderá ser com o CDS ou com o PSD, depende da expressão eleitoral de cada um dos partidos.
Eu até admitiria que o PS pudesse ter em cima da mesa um cenário de acordo com o PSD ou mesmo com o CDS. Os partidos à sua esquerda já fizeram questão de dizer que não há convergência com o PS de Sócrates. Por outro lado o governo pediu ajuda internacional e os partidos à sua esquerda fizeram como se isso não se tivesse passado neste país. São motivos plausíveis para inviabilizar um acordo mas as posições pré-eleitorais já se percebeu que são para inglês ver. O próprio Passos Coelho já admitiu que não fará acordo nenhum com José Sócrates.
O que me parece muito pouco razoável, e principalmente num político como Ferro, é assumir um ressentimento com a esquerda e não o assumir com a direita. Muito pouco razoável e capaz de fazer o PS perder os votos que poderia ganhar com a inclusão de Ferro como cabeça de lista. Porque se até Ferro mimetiza o ressentimento do líder, então o PS ainda está pior do que parece.

terça-feira, abril 05, 2011

Para que precisamos da esquerda? (1)

A discussão em torno da exclusão que o PCP faz do PS de Sócrates da coligação patriótica de esquerda levou-me a deixar um comentário longo no facebook a um texto de Rui Bebiano (com o qual estou de acordo no essencial) , que trago aqui para nota:

" Isto faz-me lembrar um pequeno texto de Samuel Becket que o Espaço das Aguncheiras (pela mão da São José Lapa e do Alberto Lopes) montou recentemente e onde três mulheres sentadas num banco só falam em duetos, sempre na ausência de uma terceira. Neste caso o importante é perceber que os partidos de esquerda (onde incluo o PS) começaram a mexer-se para fora dos seus apoios parlamentares de base e estão a perceber que se não disserem ao eleitorado que querem responsabilizar-se por governar a nossa vida, vão sofrer grandes decepções eleitorais.

Costuma-se dizer nas teorias de comunicação que comportamento gera comportamento e é necessário em algum momento romper o padrão de comportamento. A ideia de um governo patriótico de esquerda é abstrusa porque não tem o PS? O que me interessa é que uma ruptura de comportamento com a ideia da esquerda (que não o PS) ficar a gerir o seu comportamento dentro de uma politica de protesto e não dentro de uma politica que se responsabilize perante o eleitorado por governar o país é decisiva neste momento. Se foi o PCP que deu o pontapé de saída, boa, ao contrário do que tu dizes não temos apenas dois meses. Temos também dois meses, uma quantidade de dias ( e noites). Agora a bola está no PS. Mesmo imaginando que o Partido Socialista terá dificuldades acrescidas neste momento em gerir internamente esta abertura à esquerda quando as suas últimas propostas das dinastias PEC eram claramente aquilo que a direita europeia impôs, o que me parece é que o próprio PS perceberá que terá a ganhar com o campo de clarificação da esquerda em torno de algumas poucas questões.

Acho que está a ser cometido um erro fundamental nesta avaliação toda que por vezes fazemos sobre as consequências da ideia que cada partido de esquerda tem sobre quem é ou não de esquerda: quem decide se quer ser ou não governado à esquerda ( e com isso resolve de uma assentada quem é ou não de esquerda) é o eleitorado .

A esquerda só precisa de definir um programa que contenha uma visão de esquerda sobre o que fazer em relação a uma meia dúzia de questões essenciais:

Há Europa ou há apenas Alemanha? Há dinheiro do BCE mais barato para ajudar os Estados ou há apenas dinheiro para aumentar a especulação financeira junto dos Estados? Vamos bater-nos por uma agência europeia para notação da dívida e regulamentar esta actividade ou vamos deixá-la em livre curso dando notas de bom e mau comportamento conforme os seus interesses? Vamos defender o Estado do ataque neoliberal (e defender o Estado passa por aceitar que é tão necessário defendê-lo das ideias que o negam como daquelas que, achando-o inatacável, o deixam tornar-se num monstro!) ou vamos deixar que nos tornem nuns meros pagadores de impostos e dívida?

Se o PCP e o BE o fizerem é já um excelente passo. Em frente.

O governo de gestão e a ajuda externa

Através do Jumento (rol de blogues aqui ao lado), descubro estas duas intervenções de Paulo Rangel que me deixaram espantado. Não sei se me surpreendeu mais o facto de saber que Rangel é um constitucionalista, se ouvir a sua opinião, contra a corrente do seu partido. Subscrevo totalmente.
E também sobre o défice de 2010:

segunda-feira, abril 04, 2011

Nascidos culpados

Este blogue, com o passar dos anos, começa a ser uma caixa de surpresas para mim. Fui encontrar ali um link para PAZ VIOLENTA, um blogue onde com uns amigos escrevi alguns textos sobre a paz em tempo de guerra. Parei neste texto, Nascidos Culpados (creio que foi publicado no NON Intervenção).

sábado, abril 02, 2011

Para que precisamos nós da Esquerda?

1. Há uns anos atrás, depois de Guterres se ter zangado com o país e Ferro Rodrigues ter assumido a liderança do Partido Socialista, preenchi a minha ficha de adesão a este partido e pedi a dois amigos militantes que a subscrevessem. Para além das razões que se prendiam com a conjuntura política, entre os quais se destacava o papel muito positivo de Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e Vieira da Silva na defesa das políticas públicas de solidariedade, havia uma outra, que ía confessando sempre que tinha possibilidade: defender a importância, perante um PS que se entretinha a descaracterizar este contributo, da iniciativa do Ministério da Cultura no período entre 1995-99. Por causa disso participei ainda em algumas reuniões da acção sectorial da Cultura, até perceber que a sua ineficácia não tinha tanto a ver com o conformismo cultural dos responsáveis por este sector, mais do esvaziamento e conformismo do Partido Socialista em relação à Cultura. Saído Ferro Rodrigues percebi que a minha inscrição no PS tinha sido um equívoco e deixei-me afastar pela inércia. O facto de ter sido um equívoco não impediu de poder ter aprendido algo muito importante: o conhecimento de que a vida partidária é também, e muito mais do que se imagina, um espaço de resistência associativa, de amadurecimento cívico e de fermentação de ideias, que contrariavam algumas ideias preconcebidas que eu tinha sobre a vida política partidária.
2. Achei importante esta nota quando estou a escrever uma reflexão sobre a necessidade que temos da Esquerda, para desde logo dizer que não a consigo entender sem o PS. Apagar o contributo do Partido Socialista em políticas de solidariedade social, da cultura, da defesa do meio ambiente, da ruptura de mentalidades e da defesa das minorias é um gesto absurdo que empobrece a esquerda de valioso património político. Não creio aliás que haja algum interesse neste momento em discutir sobre quem é ou não de esquerda, até porque a situação política e económica está de tal modo extremada que a simples escolha da barricada é já um indicador mais claro disso do que qualquer discussão genética ou geneológica sobre a pureza da Esquerda.
3. Disse que no momento actual em que vivemos a simples escolha da barricada é já um indicador muito claro sobre o que se espera da esquerda. Mas devia ter dito mais: que também o é a forma como percepcionarmos a urgência com que é necessário tomar partido. E já no nosso aquartelamento ideológico - não tenham dúvidas de que estamos em guerra - deveremos tentar ter uma compreensão comum a alguns fenómenos que afectam a nossa relação com o real.
A primeira é de que vivemos
, desde há muito, num clima de desideologização da nossa vida, e que este clima é resultado de um intenso trabalho ideológico (que tem o seu sucesso na forma como consegue dissipar a sua componente e natureza ideológica). A ideologia surge como que um produto de entretenimento retórico, porque o que nos interessa, o que interessa verdadeiramente é podermos viver melhor, consumir mais, trabalhar mais, produzir mais. Vamos perder muito tempo do tempo que nos falta senão começarmos por desenvolver uma visão em comum desta realidade.
A segunda questão é percebermos que a ideia de crise tenta desde logo mobilizarmo-nos para pertencermos a uma ideia de que a nossa vida era boa, era justa, e que deveremos fazer tudo o que podermos para voltarmos ao nosso consumismo desenfreado e, cerrando as janelas e as portas dos nossos condomínios mentais fechados, pensarmos: " - A borrasca passou!". É uma grosseira mentira que começa por nos esconder o essencial: a nossa vida há muito tempo que deixou de ser nossa e se tornou numa generosa hipoteca sobre a possibilidade de tomarmos nas mãos o nosso modo de vida.
A ideia de crise tem ainda outros desenvolvimentos ( e já tentei abordar isso no Alegro): de uma forma suscinta, a cultura da crise alimenta-se da criação de um pathos que nos faz perder de vista a possibilidade de outras soluções do que aquelas que um exclusivo grupo de especialistas nos apresentam. Poderíamos dedicar a isto muitas linhas mas também o podemos dizer assim, à velocidade da nossa inquietação: Cavaco foi eleito pela sua perícia em perceber estes fenómenos e no entanto assinou em quatro dias a proposta do governo de Sócrates para nacionalização do BPN. E Cavaco e o Governo fizeram-no porque havia uma ameaça, um pathos sobre as suas cabeças. Ninguém teve o discernimento de pensar aquilo que poucos dias mais tarde era evidente: que a saúde da nossa banca era boa, que não estava tão exposta aos activos tóxicos, que a nacionalização da actividade que dava prejuízo sem o acautelar do resgate do financiamento público era uma perda terrível para a nossa economia. Não adianta referir isto senão como pedra de toque desta consciência de que o mais grave daquilo que se passou até agora é que possamos ainda não estar suficientemente alerta para o ataque impiedoso que isto é ao nosso desejo de vivermos num mundo mais justo e solidário. Felizmente começa já a circular entre nós muito material de grande capacidade viral, para não falar de Inside Jobs, que nos obriga a perceber o quão dissimulado é este trabalho. Olhem para a Europa do défice, da dívida pública, desta financeirização que tomou conta da nossa percepção do mundo e vejamos como está descaracterizado este sonho europeu que ainda há pouco tempo nos trouxe tantas esperanças. Há uma questão cujo impacto desprezámos: a união da Europa pode também tornar a Europa mais vulnerável.
4. A inevitabilidade do FMI. Há alguns meses que a inevitabilidade do FMI tem sido lançada como solução para a crescente incapacidade dos PIGS se financiarem no mercado da dívida. Sucessivamente como num dominó as peças foram caindo sem que se perceba em que é que a intervenção do FMI foi positiva para os países intervencionados. No entanto a mesma intervenção continua a ser sugerida e de uma forma cada vez mais radicalizada sem no entanto se explicar porque é que se pensa que ela deve ser pedida. Ao mesmo tempo parece que desapareceu do discurso político a ideia de que a Europa possa ter uma outra posição sobre o mercado da dívida, quer pela criação de agências de notação credíveis, quer pela criação de alternativas financeiras por parte do BCE de apoio aos países com problemas. Quando eu digo que desapareceu do discurso político quero dizer que ele está a perder capacidade de entrar na agenda política. E está a perder capacidade porque assumir esse discurso é uma tarefa da Esquerda e a Esquerda está toda esfrangalhada presa a lideranças que tentam fazer uma gestão de danos. Que tentam fazer uma gestão de danos em relação à perda de influência mediática e discursiva de uma visão política alternativa a este furacão neoliberal que descobriu a sua galinha dos ovos de ouro na divída pública da velha Europa.
Ora no nosso país isso só pode acontecer através de uma coesão do discurso da esquerda, o que, entre nós, terá se ser entendida no plano parlamentar e institucional como PS, PCP e BE e tendo como base de apoio no mundo laboral uma convergência entre a UGT e a CGTP. É o único quadro ideológico que permite identificar de forma clara o que se está a passar.
5. O milagre da Esquerda. Esperar que por sua iniciativa os partidos de esquerda, a CGTP e a UGT se unam e assumam que é possível criar uma alternativa àquela que nos propôem aqueles que acham que a única solução é o pedido de apoio ao FMI (escamoteando o facto de que não se tratam apenas de dinheiros do FMI), é o mesmo que esperar o Natal em Junho. Essa alternativa implica necessariamente uma politica da criação de uma grande evidência comum, e só pode advir se conseguirmos perceber que as nossas finanças públicas implicam medidas de uma grande radicalidade e de confronto com a forma como o Estado foi desenvolvendo um monstro que o impede de aperfeiçoar a sua função.
A ideia de um Estado-Monstro é uma criação neoliberal, é certo, mas isso não nos pode impedir de reconhecer que a conjugação de uma ideia constitucional de serviço público com uma ideia de empresarialização do Estado, tem, na sua grande maioria, enfraquecido a prestação do serviço público. A dinastia PEC não é de esquerda porque tem faltado à verdade, foi injusta nas suas propostas e não foi longe demais na moralização da vida pública (imprescíndível para uma coesão social e envolvimento da comunidade nos esforços de austeridade) mas a ideia de planos para recuperação da saúde económica, e não apenas financeira, da vida do País, são fundamentais. Ser de esquerda não é meter a cabeça na areia e negar que para estabilizarmos esta desestabilização fdp, há a necessidade de distribuirmos um pouco de instabilidade por todos em vez desse ídilico sonho de distribuir a riqueza (que não há) por todos. A esquerda tem notórios problemas em discutir esta realidade mas vai ter de encontrar um mínimo denominador comum. Porque se ela insistir na demagogia está a ser cúmplice com este alastramento de uma demagogia calculista de assalto ao poder por parte da direita.
Chegámos a um ponto dramático mas inevitável: como a Esquerda dos partidos não se entende, tem de ser a Esquerda dos cidadãos a pressioná-la para que o consiga fazer. Tem de ser a esquerda dos cidadãos a dizer aos partidos que a querem representar que têm de ser mais rápidos, mais ágeis no encontrar de um denominador comum que nos ajude a libertarmo-nos desta fatalidade de sermos a próxima pedra a cair no xadrez da grande jogada de um movimento especulativo de dimensões nunca vistas e que configura verdadeiramente um crime económico contra a humanidade.
6. Escrevo este post no balanço pessoal de uma experiência política inusitada e que me apanhou desprevenido, quando colaborei no Alegro Pianísimo (blogue coordenado pelo Luís Novaes Tito, Joana Lopes e Paulo Ferreira) e em que ganhei essa convicção de que a política tem de estar associada à utopia, a essa vontade de bater o pé, a esse desespero de termos uma corda enfiada na garganta e de termos de ser mais ágeis que o garrote. Fomos jantar anteontem e voltei a pensar nisso. Lembro-me de algures, no blogue, ter escrito a páginas tantas que votava no Manuel Alegre por aquilo que essa opção me obrigava a ver e a querer ser com outros. Tenho aprendido muito nestes tempos. Descer a 12 de Março a Av. da Liberdade, ser um de duzentos ou trezentos mil, foi também muito enriquecedor para mim. Não podemos baixar os braços. Se a esquerda partidária não consegue perceber o que queremos dela, temos de o dizer. Nos blogues, no facebook.
Temos de voltar à rua, a Primavera chama-nos.

sexta-feira, abril 01, 2011

O blogger zangou-se comigo. Ou isso ou um vírus. Um simples post demora-me imenso a escrever. As palavras não surgem instantaneamente. Vão percorrendo lenta, lentamente a superfície em branco. Enquanto eu desespero. Ou isso ou um vírus.

A alegria

Do Brasil a Alexandra Lucas Coelho escreveu que "inês não estava morta" . E que a alegria é imprescindível para não termos medo da vida que aí vem. Fico-me por este resumo apressado. Muitas e muitas vezes diante deste rio faço a minha profissão de fé. Penso que virar a cidade para o rio foi um trabalho sobre a vida de cada um de nós e sobre a nossa cultura. E anseio pela primavera por causa disto: as coisas começam a ter cada vez mais a sua real importância e não a fantasmagoria que nos condiciona, limita, prende.