quarta-feira, janeiro 27, 2021

O vídeo árbitro e ANDRÉ VENTURA

















Confesso que não tenho nenhum interesse no discurso político de André Ventura. E que não considero que o Chega seja uma ameaça maior para o sistema democrático, que nesse sentido até repudio as acusações de que este partido seja fascista (e vejo-a como uma banalização do fascismo que não esperava de quem tanto lutou para o vencer).
Embora seja um partido que inequivocamente cavalga a onda populista xenófoba que medra face à crise dos refugiados e que claramente não se importa nada de captar o eleitorado da extrema direita. Ou de criar ressonâncias numa rede social negra, onde grupos extremistas coabitam, numa caldeirada ideológica que é capaz de misturar neofascistas e neonazis com brigadas racistas. E que se associa à internacional da extrema direita que se começa a desenhar e que facilmente descamba para atividades criminosas, quer as de natureza política, quer as que não são. Tenho confiança tanto na democracia como no sistema judicial, criminal e policial (por muitas infiltrações radicais que tenha).
Vou dizer inclusive algo que vai chocar muitos dos meus amigos de esquerda, e decerto alguns de direita: ao dar voz a um ressabiamento, a um ressentimento político que sempre existiu em democracia pode vir a dar o seu contributo para amadurecer a nossa construção democrática. Para permitir melhorar a coesão política. Para possibilitar que os portugueses possam fazer algumas tarefas urgentes para a sua saúde mental, como por exemplo a de trazerem para a prática política uma descolonização psíquica, social, cultural, e espiritual.
Conhecemos muitos de nós que tivemos o privilégio de viver o 25 de Abril de 1974 este ressentimento social e político. Que no período revolucionário tinha órgãos de comunicação social ( o Diabo, o Dia, o Tempo, o Sol, a Rua, entre outros), que encontrava algum eco em muitas homilias, sobretudo a Norte do País e que dava voz a todos aqueles que ou se sentiam lesados pelo processo revolucionário em curso, ou que ainda tinham uma relação malsã com a sua experiência colonial ou que muito simplesmente, estavam contra aquilo que achavam excessivo no torpor revolucionário. Desciam a Av. da Liberdade no 1º de Dezembro, declaravam-se anticomunistas e clamavam contra Moscovo. Esta onda reacionária não desapareceu por artes de perlimpimpim. Perdeu apenas expressão política (mas não social nem económica) no tempo do Cavaquistão e depois com a abertura â Europa ( donde vem agora a sua maior força).
Aquilo que me preocupa no fenómeno político André Ventura ( e não tanto do Chega) é aquilo que nele se deve à degradação do espaço de comunicação social, nos seus vários aspectos, quer a da desvalorização e descredibilização do trabalho do jornalismo, quer a da emergência de redes sociais de partilha de informação não verificada, não verificável.
E nesse aspecto os 21 debates presidenciais foram, nem sempre pelas melhores razões, uma excelente oportunidade de análise. Até porque a sua influência política foi exponenciada pelo facto da campanha eleitoral ter ficado muito reduzida com a pandemia, diminuindo grande parte da comunicação direta com as pessoas.
Criou-se uma opinião consensualizada de que os debates correram bem a André Ventura. Esta opinião consensualizada resulta sobretudo das diferentes análises que eram feitas logo a seguir aos debates e que estabilizaram uma opinião pública. Por isso talvez seja importante rever alguns dos consensos que de uma forma geral surgiram depois dos debates:
a) André Ventura venceu todos os candidatos da Esquerda;
b) Marisa Matias atolou-se na lama no debate com Ventura;
c) João Ferreira e André Ventura falaram sempre um em cima do outro;
d) Ana Gomes foi a única a não ser arrastada para este tipo de comportamento dos outros dois candidatos de esquerda mas se ganhou foi à tangente;
e) Marcelo e Tiago Mayan foram os únicos a criarem prejuízo político a Ventura;
Dei-me ao trabalho de, tal como já fizera com o debate de Ventura com João Ferreira, ir ver uma segunda vez os debates com Marisa Matias e Ana Gomes. E é impressionante como esse tornar a assistir ao debate nos leva a perceber novas dimensões e perspetivas. É uma espécie de vídeo-árbitro.
# Marisa versus Ventura
O debate Marisa Matias e André Ventura foi aquele que mais danos provocou, reforçando esta cruzada de André Ventura visando “derrotar a esquerda que anda a corromper o Estado nestes 48 anos”.
É verdade que Marisa esteve muito mal em duas questões essenciais do seu confronto com Ventura: a primeira começou logo com a posição absurda de não dar posse a um governo que integrasse um acordo com o Chega e de não conseguir explicar como faria nessa circunstância. A segunda quando atacou Ventura dando a entender que este defendia uma taxa fiscal única. Quando ele contra-atacou não foi capaz de refutar , ouvindo até dele, com a sobranceria que lhe é habitual, que ela não teria preparado bem o debate. Por outro lado, também não conseguiu tirar partido da incongruência das posições de André Ventura sobre o Serviço Nacional de Saúde que, como bom populista que é, até se arvorou em defesa do aumento dos salários e dos enfermeiros (cuja bastonária aliás fez questão de lhe ir dar o seu apoio).
E se estas foram as três questões que pior correram a Marisa Matias, a verdade é que André Ventura não esteve melhor e beneficiou de uma excessiva benevolência e condescendência da moderadora.
Uma leitura do vídeo- árbitro é inequívoca: Clara de Sousa deixou que o candidato não respondesse às questões que lhe colocou Marisa, permitiu que ele atacasse a legitimidade da candidata para o questionar (como na da ida da PJ ao seu escritório, contra-argumentando Ventura de que também tinham ido ao gabinete do Medina ou por causa do caso Robles), que não respondeu às questões do assessor fantasma, que permitiu que Ventura interrompesse Marisa mostrando papéis que supostamente seriam argumentos que depois não explicou mas que ficaram como ruído, que deixou que mais uma vez ele não respondesse a uma questão sobre a presença nas suas acções de Le Pen, a conhecida politica francesa. Esta foi uma grande questão porque Marisa trouxe-a com o enquadramento certo, a das posições de Le Pen sobre o ensino do português para os emigrantes. Em vez disso deixou-o trazer uma diatribe sobre Maduro, ou uma comparação entre o Syriza e a Le Pen. Condescendeu quando ele se fez de vitima, dizendo com aquele ar manhoso e sonso que era muito baixo o ataque, ele que tinha andado a distribuir sarrafadas pelas canelas da adversária, e que, de uma forma perfeitamente incompreensível acaba o debate dizendo “ eu vinha preparado para acabar consigo!”.
O mais espantoso é ver depois do debate os analistas a dizerem que Marisa esteve muito pior do que Ventura, como se estivessem a falar de um combate de wrestling e não de um debate entre candidatos.
Sobre o debate com João Ferreira já tive oportunidade, através do mesmo vídeo-arbitro, de verificar que quase nunca João Ferreira interrompeu o outro candidato. No entanto, mas uma vez por incapacidade da moderação, Ventura falou repetidamente sempre por cima dele, dando a impressão de que eram os dois que estavam sempre a impedir-se um ao outro de falar.
# Ana Gomes versus André Ventura
É importante dizer uma coisa: não acredito que os moderadores do debate tivessem intencionalmente querido ser condescendentes com Ventura. Todos eles foram surpreendidos por uma dinâmica extremamente agressiva deste candidato. Pedro Mourinho, que também deve ter visto o vídeo-arbitro do debate entre Ventura e Marisa, começou logo por colocar algumas condições de regulação e várias vezes chamou a atenção de que o sarcasmo e o riso de Ventura enquanto Ana Gomes falava não eram atitudes adequadas para o debate.
No entanto, também ele cometeu muitos erros e acabou por ser condescendente com esta estratégia de wrestling político de Ventura. Começou logo aquando da declaração inicial de Ventura de que vinha derrotar a esquerda que anda a corromper o Estado há 48 anos. Seria legítimo que o confrontasse com o pouco rigor da frase (quanto muito implicar também o PSD, do qual ele foi militante com algum destaque). Permitiu que ele trouxesse uma fotocópia ridícula de uma declaração de um dirigente do PAN para confrontar a candidata por causa do apoio que este Partido lhe deu ( quando Ventura apenas tem nos seus apoiantes e até militantes, meninos de coro), que a confrontasse com o facto de ter como director de campanha Paulo Pedroso ( promovendo aquela manha de dizer que nada tinha a ver com a acusação de pedofilia embora insistisse na suspeita), que mostrasse uma fotocópia de um momento em que Sócrates estava com Ana Gomes dizendo que ela andava “aos beijinhos” com ele. Foi condescendente quando Ana Gomes o associou a Luís Filipe Vieira, não o levou a responder, deixou-o fazer um acto teatral contando no relógio o tempo que ela tinha demorado para trazer essa questão, rindo, com uma atitude de gozo tentando ridicularizar. Deixou-o fazer as suas vozes de falsete para tentar caricaturar os adversários. Deixou incrivelmente que ele pudesse atacar Ana Gomes por ter feito parte do MRPP mostrando, em mais uma das suas fotos, uma das muitas pinturas murais deste partido.
Por fim, como referi, na minha bolha, e como negar que vivo numa bolha, sou daqueles poucos que não se incomodam nada com a votação eleitoral do candidato do Chega, esse partido unipessoal como já ouvi ser referido.
É claro que há questões que me incomodaram nesta candidatura: a retórica politica assente no ataque mesquinho, nas fakes, na agressividade, na desqualificação do adversário, na articulação de todos os soundbytes que lhe podem trazer alguma popularidade e colher frutos no descontentamento popular. Mas no entanto, um demagogo só não acabará por ser vitima da sua demagogia se o sistema democrático onde ele actua não tiver condições para a poder filtrar. E aí, sejamos honestos, Ventura poucas responsabilidades terá .
O que me incomoda mesmo é a degradação do espaço da circulação pública das ideias. Que os apoiantes do Chega tivessem vibrado e gritado vitória por o seu candidato ter feito tudo o que era possível para atacar pessoalmente os outros candidatos, para não os deixar falar, para os ridicularizar, compreendo. Não sou só eu que vivo numa bolha, também eles.
Agora que analistas experimentados tivessem sem pejo ajudado a construir a ideia de que o wrestling político de André Ventura o tinha feito vencer os debates isso sim, é muito preocupante.
LIGAÇÃO PARA OS DEBATES PRESIDENCIAIS :https://www.rtp.pt/.../e516744/presidenciais-2021-debates

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