Quando era miúdo não gostava de gatos. Ou melhor, não lhes dava muita atenção. Como gostava de cães incorporei essa antipatia canina pelos felinos. É verdade também que houve um acontecimento que me fez pensar que os gatos eram criaturas muito irritantes. A certa altura, na Rua Domingos Machado, em Mafra, havia um baldio resultante de um prédio em construção. Lá acumulavam-se gatos. Gatos e lixo. O meu irmão mais velho gostava muito de animais e não era como eu, não colocava de um lado os bons, os que mordiam, e do outro os maus, os que miavam. Eu também gostava muito de animais, cães, patos, galinhas, pombos, pintainhos, íamos à fira da Malveira e trazíamos criação de patinhos e pintainhos que depois tratávamos entre nós. Mas estou a desviar-me da história: no baldio em frente nasceu uma ninhada. Que era preciso alimentar. O bom do meu irmão foi buscar leite e um prato e lá alimentou aquela gataria toda, de a a z. Nós gozávamos com ele. É mesmo piegas, mariquinhas pé de salsa. O certo é que um casal de velhotes que morava em frente via a cena e comovia-se. Ia-se comovendo. Quando a comoção já não dava para conter entre quatro paredes chamou o meu irmão. Deu-lhe vinte escudos e um saco inteiro de caramelos espanhóis. Nãos sei se sabem duas coisas: naquela altura, estaríamos no final de sessenta, cinco escudos era uma pequena fortuna. Os nossos pais davam-nos de semanada cinco tostões que davam para cinco pastilhas pirata. Os rebuçados de coleção com os cromos da bola eram a meio tostão. Além disso os caramelos espanhóis estavam no top ten das nossas predilecções mandibulares. Para resumir: nós, os valentões, os fortitanas, os isto e aquilo, andámos uma semana de cu para o ar (e olho na janela dos velhotes) a chamar bichaninho, bichaninho, anda cá. Ao fim de uma semana, com a moral completamente em baixo desistimos, claro. Aos outros não sei que lhes perdi o rasto mas a mim ficou-me por muitos e muitos anos, uma irritação canina por gatos. Não lhes ladrava por educação mas cá dentro, interiormente, rosnava. Já era muito tardia a hora quando comecei a gostar deles. Primeiro o curso de teatro da Comuna onde o João Mota exaltava as qualidades dos felinos e nos punha a fazer o gato de Grotowski fez cair as hostilidades. E depois aproximei-me ideologicamente deles enquanto me afastava um pouco da ideia de fidelidade e subserviência dos canídeos. Os gatos eram independentes, vadios, amavam a liberdade e se calçavam umas botas tornavam-se nuns aventureiros e nuns espertalhaços. Além disso, aquela ideia de que eles é que nos escolhem, dava-me a mim, um poço de insegurança, uma grande sensação de bem estar e conforto. Ver um gato aproximar-se de mim, como a Ella, a vadia da Ella, fazer questão de se sentar ao meu colo, colocar-se em cima do computador, andar para trás e para a frente para me mostrar que a casa é dela, é algo que me dá muito prazer. Tanto que até tive de vir aqui fazer-lhe esta pequena serenata. E lembrar-me da frase anarquista que tantas vezes me arrancou um sorriso: gosto de gatos porque não há gatos-polícia.
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quarta-feira, dezembro 11, 2013
terça-feira, março 09, 2010
Orquestra de gatos com cio
Não se cruzem comigo hoje. E nem me falem dos posts piegas sobre gatos. Estou mal disposto. Adormeci às seis da manhã. No meu quintal, ou no do vizinho, ou nos telhados, andavam a fazer castings para a orquestra de gatos com cio. Um ressoar de gritos lancinantes que furavam a película frágil das paredes.
segunda-feira, março 08, 2010
Gatos no quintal
Ontem a certa altura lembrámo-nos deles. Tivémos saudades do Pretinho, do Risquinhas, do Mariquinhas, foi assim que o meu filho os nomeou. As nossas estratégias para conseguir que aquele quintal se transformasse a maternidade preferida daquela mãe gata foram de marketing aguerrido. Eu depois acabei por ter uma relação ambivalente com eles. Foram uma espécie de brinquedo. Quando me começaram a ter medo, quando percebi que nunca mais os iria ter no meu colo, desinteressei-me deles. Ela não. Ela tratou deles como se fosse uma guardiã. Toruxe o veterinário ao quintal, dáva-lhes os remédios misturados com comidas mais apetitosas e atraentes, chamava-os com voz baixinha. Eu tinha ciúmes mas ao mesmo tempo gostava do afecto que eles lhe dedicavam. Os gatos são inteligentes, sensíveis. Gostei de conviver com eles. Tanto que ontem suspirámos os dois: onde estarão eles, os nossos Risquinhas, Mariquinhas e Pretinho?
terça-feira, outubro 14, 2008
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