Já ia a chegar ao Largo António de Sousa Macedo, ao fim da Rua dos Poiais de São Bento, um dos muitos caminhos diários que percorro até chegar a este velho teatro. Ia com tempo. Tinha um grupo de pessoas que vinham conhecer o teatro às 10h, eram 9h30. Aquela senhora de vermelho estava parada no passeio. Chamou-me, a mim que ia em passo largo no meio da estrada:
- Queria tanto ir até àquela loja... - e aponta-me um boteco no princípio do próximo quarteirão.
- E quer ajuda, minha senhora?, disse eu estendendo-lhe o meu braço em arco para ela se apoiar. Aqueles quinze metros de repente tornaram-se uma estrada imensa que demoraram mais do que todo o caminho que eu tinha feito antes, e já vinha da Praça das Flores. Onde ela me contou que tinha estado a semana toda no hospital, as dores, sim, as pernas que já não andam, tá a ver, é isto?!, o seu Augusto que não queria que ela saísse de casa mas o ai homem, tenho de ir, nem que seja só para me distrair, a lágrima a escorrer do rosto, eu não lhe disse, não é pieguice, espero que aquelas lágrimas a correrem-lhe da cara lhe tenham feito tão bem como me fizeram a mim, devolveram-me por instantes a meninice, os tempos em que a minha avó Aurora se enrolava no meu braço e descia à vila de Caldelas, havia sempre um encontro, qualquer coisa que se dizia, ou se evocava - entre ali o Hotel de Caldelas e a Pensão Passos - que lhe furava o saco lacrimal, eu gostei de ser menino outra vez, por breves instantes, não importa, a vida é feita de pequenos e breves reencontros, ontem quando me deitei disse-lhe, sabes, hoje apetece-me adormecer como se pudesse sonhar com a infância, para que queres ser tu criança?, perguntou-me, não sei, apetece-me entrar por aqueles caboucos escavados na terra, quando havia obras por perto, corríamos por eles como se fossem trincheiras, esconderijos, e adormeci assim, hoje quando acordei, depois do banho, ía pôr um pouco do meu já clássico l'eau de issey miake, tinha a camisa azul escura e o casaco preto de cabedal, por momentos senti-me bonito, lembrei-me de quando roubava o old spice ao meu pai e dava estaladinhas na cara para imitar o homem do anúncio, durou dois segundos, talvez três, mas ficou, como não fica tanta coisa que dura e dura uma eternidade vazia nos meus olhos tristes.
- Que Deus o recompense, disse-me ela, e depois, olhando para mim perguntou, acredita em Deus, não acredita?
- Acredito, saiu-me tão natural que decerto, naquele cagagéssimo de segundo acreditei em deus. No tempo infinito que demorou desde que me separei dela à porta da mercearia e a sua entrada por inteiro dentro da loja ainda cheguei ao largo e lhe tirei uma foto, para o post, pensei, já sou isto, já sou naturalmente isto, vampiro de mim mesmo, do meu real. E mesmo não podendo dizer ainda agora que acredito em deus, já não garanto que o Deus dela não me tenha de facto recompensado.
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quarta-feira, outubro 15, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
A visita do senhor Simões
Pelo que vou lendo em blogues de mulheres, e falo principalmente de blogues de mulheres de alguma forma descomprometidas, encontro com alguma recorrência o explanar de alguma fantasia erótica com canalizadores. Dou algum relevo a esta ideia porque nunca seria capaz de o prever: na minha cabeça o canalizador seria um dos últimos seres assexuados na terra. Imagino-o gordo, num fato de macaco azul, talvez boné na cabeça, um cheiro característico, as mãos sujas daquela linhaça oleosa, que passa da chave inglesa para as mãos. Foi por isso que quando ela me disse que estava à espera do Sr. Simões, o canalizador, eu desliguei os radares caninos de macho em perigo. Até lhe pedi para fechar a porta da cozinha para eu poder ver, sem entraves, a discussão no Expresso da Meia Noite sobre o casamento entre casais do mesmo sexo. É claro que me irritou um bocadinho ter chegado atrasado. Mas eu não sou nem de bolores nem de rancores. Por isso, foi incómodo puro. Aquele Sr. Simões era novo demais para canalizador, pelo menos para canalizador da casa dela. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Tanto que não descansei enquanto não fui buscar um copo de água à cozinha. O que eu queria era abrir a porta, para mitrar a conversa toda. Antes o não tivesse feito. Já estavam a falar sobre a vida e a morte. Eu apanhei o ínicio da conversa e garanto a sua inocência. Ela disse, ainda bem, assim a vizinha debaixo já pode descansar em paz. E depois, dando-se conta do que dissera, ai, credo, deus lhe dê longa vida. E o Sr. Simões a pegar no tema, já sem inocência, a falar daquele programa que vira, a senhora acha mesmo que a morte é um descanso?, e a senhora a responder, e ele a retorquir, e ela a achegar, e de repente uma conversa completamente conexa, fluída, como se estivessem num campo de ténis, ora a bola vai para lá, ora vem para cá, e eu a perder o tino ao Expresso da Meia Noite, ao Ricardo Costa e ao Nicolau Santos, à Isabel Mayer Moreira, já só pensava que é um perigo isto, os canalizadores, os tipos entram por dentro das casas das pessoas, começam com falinhas mansas, avanços, nem quero imaginar o perigo em que ela estaria se eu nao estivesse aqui, no sofá da sala. Um homem faz sempre muita falta, é o que é!
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