Mostrar mensagens com a etiqueta Imprensa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Imprensa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, maio 12, 2009

I [mporta-se de repetir?]

Era um jornal tão diferente, tão sério, tão profissional que começou por dizer nada, nunca e ninguém aos leitores de domingo.

segunda-feira, outubro 01, 2007

"Oriente Próximo",

O novo livro de Alexandra Lucas Coelho, editado pela Relógio d'Água, é lançado amanhã, dia 2 de Outubro, às 21h30 na Sociedade de Geografia, às Portas de Santo Antão. Apresentação de Adelino Gomes, com leitura de excertos e algo de alaúde.

quinta-feira, setembro 13, 2007

13 de Setembro de 2007

Hoje, lá para as dez horas, nos salões do LUX, Lisboa redobra, oficialmente, o número dos seus amantes. Para a Ângela Marques, a Sónia Morais Santos e o João Miguel Tavares da TIME OUT Lisboa, um grande, grande abraço.

terça-feira, setembro 11, 2007

A humildade dos jornalistas

Eu estranhei. Ela desprezou a nossa esplanada de sempre, queria ficar a ver o Prós e Contras sobre o caso Maddie. Ainda lhe perguntei, por causa da sua área, que implicações políticas é que isso tem?!. E a razão que me deu ainda me intrigou mais: " ao contrário dos disparates que tu, no teu blogue, escreves sobre os jornalistas, eu preocupo-me com o modo como o jornalismo pode ou não influenciar negativamente a vida das pessoas. E este caso é um daqueles em que tenho receio que tenhamos construído um monstro."
Não lhe disse nada. Quer dizer, solidarizei-me com ela, deixei o café na esplanada e fui sentar-me na sua rede, partilhando o seu estupor diante da reportagem da Sandra Felgueiras, ainda bem que o Henrique Monteiro teve o discernimento para logo ali contraditar a jornalista, a sua participação numa visão muito orientada, especialmente quando a Fátima Campos Ferreira se despediu dela a dizer, excelente trabalho. O mais engraçado, e já o escrevi algures aqui [post "Que se lixe o real!"], é que este caso Maddie é feito no circo romano que está montado com a participação de todos, pais, media, comunidade e nele os jornalistas têm um pequeno e irrelevante papel. O que é que eles podem fazer?! Aquilo que os seus patrões os mandam fazer: uma espécie de coreografia dos flashes fotográficos e das câmaras de filmar às portas da moradia dos McCann, da PJ, do Ministério Público, um dizerem aquilo que os outros já escreveram, realizarem aquelas manhosas entrevistas de rua a turistas e a populares, fazerem directos à porta do Ocean Club, sempre com o foi ali atrás de mim que tudo aconteceu, ou interpretarem as mensagens cifradas do porta-voz da PJ. . Este até é um caso que, pedagogicamente, terá os seus frutos e espera-se que, nos próximos tempos a qualidade do trabalho jornalístico suba uns furos. Porque andando a verdade aos trambolhões, entre o diz-se que raptou, o diz-se que matou e o diz-se que descuidou, os jornalistas, por pressões que eles deverão melhor saber identificar e enfrentar, acabam por estar pouco disponíveis para o mais importante: darem-se o tempo necessário para compreenderem a fragilidade dos aparatos de verdade que o processo narrativo do trabalho mediático utiliza para fazer seguir a história. Eles, os bons - porque os maus coleccionam com vaidade palmadinhas nas costas de quem não percebe a diferença entre um bom trabalho jornalístico e uma boa performance televisiva, onde conta tanto o vestido elegante como a determinação elocutória, como aconteceu ontem com Sandra Felgueiras e os elogios de Fátima Campos Ferreira - são agora confrontados com a humildade de perceberem que enquanto tiverem como fundamental a enunciação de uma determinada história que convença o share, vão estar sempre à mercê deste tipo de situações.
É irónico que neste caso em que os jornalistas quase nenhuma culpa é que eles se sintam mais preocupados. Saudêmo-la, à preocupação. É um princípio de humildade que nos dá alguma esperança, principalmente quando sabemos que grande parte da contrafacção jornalística decorre de, no processo de concepção do produto jornalístico, intervirem tantos agentes que não são jornalistas, que não sabem o que é o jornalismo, e que pior do que isso, o confundem com as pequenas novelas do dia a dia.

quinta-feira, setembro 06, 2007

O direito a informar e as escutas

Há um movimento subscrito por jornalistas, intitulado Informação é Liberdade, que se insurge contra todo o edifício jurídico aprovado pela Assembleia da República, ou à espera de aprovação, referente à sua actividade profissional, no qual se integra a proposta de Estatuto dos Jornalistas, em boa hora mandada regressar ao Parlamento pelo Presidente da República.
O que se passa - para além de uma real incapacidade de comunicar por um ministro que se refugia no seu consensual brilhantismo e inteligência académica para não assumir que é de uma crassa estupidez política construir uma proposta de regulação de uma classe profissional conseguindo ter a grande maioria dos que a integram contra ela - está bem resumido no despacho com que o Presidente da República devolveu a proposta de diploma: a bondade do documento é de díficil compreensão, a maldade do mesmo salta à vista de uma forma grosseira. É certo que os jornalistas deixaram muito trabalho de casa por fazer ao longo dos tempos (nomeadamente a criação de uma Ordem profissional) mas, como o veio dizer a Comissária Europeia, a auto-regulação parece ser um dispositivo capaz de promover a qualificação da actividade profissional dos jornalistas.
Ora, neste excesso de razão também de repente tropeça o disparate, como acontece com este post, sobre a proposta de regulação da divulgação das escutas telefónicas: "Sobre a norma do novo Código de Processo Penal que impede a publicação de escutas sem autorização dos "intervenientes"mesmo que já não estejam na alçada do segredo de justiça (ver aqui e aqui), o MIL (Movimento Informação é Liberdade) apenas diz uma coisa: dado o absurdo do seu conteúdo tudo fará seu alcance para seja revogada."
É um argumento espantoso que parece não permitir a refutação. Em primeiro lugar, e se em relação aos documentos de regulação dos jornalistas me coloco de fora, citando apenas aquilo que é já voz consensual na matéria, já em relação a uma proposta do código penal, me sinto estimulado a discuti-la. Aliás, escrevi aqui o bom e o bastante sobre as escutas telefónicas para se perceber que o que me move não é algum desejo de limitar o direito a informar, é a de promover o entendimento de que as escutas telefónicas são um dispositivo de investigação que tem de ser encarado sempre com pinças, porque pode muito bem, promover em democracia, um controlo sobre a intimidade dos cidadãos que consubstanciaria um dos mais graves atentados à liberdade dos cidadãos em 33 anos de regime democrático.
Porque o que ressalta da proposta de lei é que o que é proibido é a transcrição das escutas. Só um jornalista perguiçoso, relapso e contumaz é que pode atrever-se a dizer que é um atentado ao seu direito de informar não poder transcrever uma determinada escuta que deixou de estar em segredo de justiça, quando poderá livremente dar conta do seu conteúdo informativo. Uma escuta telefónica é uma iniciativa de natureza policial que produz informação relevante e não relevante que não pode ser dissociada. Imagine-se a seguinte conversação retirada do apito prateado:
"- É pá, o dinheiro, foi entregue?
- Tá tudo nos conformes, a amante do Zé da Bancada levou-o.
- Quem, pá?
- A gaja dele, a Inácia "
Onde, quando, porquê, como, é relevante para o conhecimento público sobre o acto de corrupção realizado pelo Zé da Bancada que ele tenha uma amante? E que fulana de tal seja sua amante?

terça-feira, agosto 28, 2007

Brigadas da Contra-Informação.

Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life. Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria.
A nós ainda é ela que nos ilumina.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Os erros dos outros

Ontem o DN publicava esta peça jornalística (servida por uma manchete na primeira página onde dizia, ao lado da fotografia da criança desaparecida: "Detenção Iminente"). Nesta peça, na sua parte final, referiam-se as notícias saídas em dois jornais ingleses mas sem estabelecer nexo entre a matéria noticiada pelo DN e as noticías da imprensa londrina.
Hoje, no final de um texto assinado por um dos autores da peça de ontem lê-se a páginas tantas: "Entretanto, o porta-voz da PJ para o "caso Madeleine", Olegário de Sousa, foi peremptório ao desmentir, ontem, informações avançadas pela imprensa britânica, segundo as quais estaria iminente a detenção de um cidadão inglês residente em Exeter e amigo dos McCann. Olegário de Sousa sublinhou que a notícia publicada pelo Daily Express "não tem lógica nenhuma" e "não é proveniente" da PJ."

Receitas para a felicidade a 2,5 €

Justo o destaque para a edição nº 124 do Courrier Internacional. Há muito que não dava por tão bem empregue dinheiro deixado na banca dos jornais .

sexta-feira, maio 04, 2007

Carmona desafia Marques Mendes

Eu não sei o que é o jornalismo de referência, o jornalismo tablóide e não tenho gostado por aí além daquilo a que por se vem chamando o jornalismo do Marcelino. E ainda bem que não sou especialista dos média porque senão os meus vatícinios íam ser muito pesarosos para o senhor Oliveira. É que eu não acredito no supremo mal. Acredito nele a conta-gotas, aos pingos, chuva-molha-tolos, mas para andar cá todos os dias preciso de descrer no reino de Satanás. Assim, um dia ainda espero subir ao Café-Paraíso e colocar ao lado do café e do pastel de nata um jornal a sério, com notícias a sério, e onde me contem a história de um homem que foi engordando, engordando com o país do futebol, com histórias incríveis sobre trapalhadas imensas nos direitos das transmissões televisivas, nos seus negócios, e que depois rebentou, rebentou, como tudo o que incha para além das suas próprias possibilidades de estiramento. Mas esse dia está muito longe, mesmo na minha imaginação. E entretanto eu acho que o seu jornal, o jornal do senhor Oliveira, vai vender mais alguns exemplares na sua guerra do Público. Não é que tenha mais notícias. Ou melhores. É que tem títulos a sério. Carmona desafia Marques Mendes é um título de um jornal, enquanto que Carmona recusa-se a sair e tenta resistir à realização de eleições, é qualquer coisa colocada no lugar do título. É por isso que, mesmo em dia de colecção de discos, começo a ler o Público na banca de jornais, emprestando-lhe os títulos do DN.

quinta-feira, abril 12, 2007

A Grande Suspeita

Acabei por não ver a entrevista de Sócrates. Tenho andado por isso a ler alguns bloggers. E comprei o Público porque, já que tinha sido ele a nascente deste caso, queria também ver como é que ele se satisfizera, ou não, com os esclarecimentos de Sócrates.
Formalmente o Público dedica as suas quatro páginas iniciais ao caso. Nas duas primeiras Ricardo Dias Felner acompanha a entrevista confrontando-a com os seus possíveis, ou não, esclarecimentos, em relação àquilo que tinha sido matéria noticiada. A sua peça tem um lead que destaca o reconhecimento por Sócrates de que a existência de dúvidas era legítima. Isabel Leiria assina aquilo a que a edição chama de reportagem sobre a entrevista, a forma como decorreu e o que aconteceu no local. Depois convida Barreto, Pulido Valente, Miguel Gaspar e Mexia para comentarem. Aos jornalistas cabe o papel de serem mais isentos e conseguem-no, especialmente Pedro Mexia que fala apenas do que, na sua opinião, aconteceu. Miguel Gaspar também o faz mas divide-se entre a critica ao formato da entrevista e a critica ao esvaziamento ideológico do primeiro ministro, que dá o tom ao seu comentário, através da sua piada inicial a propósito da forma como Sócrates termina uma missiva. Pulido Valente não está inspirado e faz um textinho sem chama, à medida daquilo que ele tanto gosta de nos outros zurzir. António Barreto simplesmente não se percebe. Centrando a sua retórica naquilo que um primeiro ministro deve saber reconhecer sobre o que é possível ou não a um deputado ou membro do governo fazer, tem, entre outros, este argumento central, do qual não descortinei lógica: " um deputado ou um membro do governo...não podem nem devem apresentar-se como candidatos a cursos pós-laborais que lhes confiram o estatuto académico a que aspiram." No final da página 3, num lettring quase inofensivo, ou até mesmo envergonhado, os já recorrentes "dixit" de uma grande entrevista. O que é verdadeiramente revelador deste padrão de comportamento que se instalou neste triste caso: todos no Público queriam que o primeiro-ministro falasse, o seu silêncio foi de chumbo, mas quando ele falou atribuiram ao que ele disse a importância de uma pequena mancha no canto inferior da página e, não fosse já suficientemente insignificante, com um lettring que a desprezava.
O espectáculo é de uma tristeza confrangedora. De um lado o primeiro-ministro a querer gerir o melhor possível a sua imagem, sendo absolutamente incredível quando diz que deu tempo para que o processo contra a Independente seguisse o seu caminho. É que um primeiro-ministro que telefona sete ou oito vezes para o Director do Público está, naturalmente, obcecado com as dimensões políticas que este caso pode ter. E é natural que o esteja. Não é preciso nenhuma teoria conspirativa para se perceber que este caso poderia tornar-se numa morte política do primeiro-ministro. Não devia ser assim, deveremos todos reflectir porque é que o é, mas é verdadeiramente hipócrita que se critique a entrevista por se ter tornado naquilo que todos nós esperávamos que fosse: a confrontação do engenheiro técnico José Sócrates com os seus eventuais pecadilhos curriculares. Qual Ota, qual serviço de Urgências, qual Educação, qual Saúde, qual Economia. Nós queríamos novela. E queremos mais, como o lider do PSD, que, para além de acusar de falta de carácter o primeiro-ministro - o que reduziria ao grau zero a possibilidade de alguma discussão política entre os dois se isto da ética política não fosse um jogo a feijões - não se sente esclarecido e quer agora que o primeiro-ministro peça a uma entidade independente do Governo que audite a sua situação académica. É um absurdo, e para mal do radicalismo de Marques Mendes, a menos que se consiga investigar alguma conexão perigosa entre o título académico de Sócrates e um polvo envolvendo o Partido Socialista e a Universidade, esta história parece ter morrido aqui.
Da leitura dos blogues dou-me conta do autêntico clima de suspeição que envolve todo este caso. Não é no domínio do casuístico, do que acontece, mas na forma como alguns acontecimentos se conectam e articulam uns com os outros, uns de forma mais espontânea, outros de forma mais velada, sobrevivendo à custa daquela condição que vivifica a maior parte das nossas novelas públicas: o facto de não se conseguir provar que existe também não quer dizer que não exista. E, por outro lado, são naturalmente valorizáveis alguns indicadores de relações de proximidade, cuja mera existência levanta suspeitas. É por isso que numa sociedade altamente mediatizada onde tudo pode ser escrutinado, temos de saber conviver com a suspeita. Tanto de um lado como do outro. Mas uma coisa será a a suspeita, a dúvida, outra será o forjar de uma história. Por exemplo, é altamente susceptível de provocar suspeita a ligação do referido professor a Armando Vara, ao Partido Socialista, aos negócios na região de onde o actual primeiro-ministro é natural. Até porque o serem servidos no mesmo plano informativo fornece-lhes automaticamente um enunciado narrativo comum. Há que o assumir.
Da mesma forma é igualmente suspeito que um jornal como o Público apresente esse tal enunciado narrativo sem grande consistência (lembremo-nos de como nos foi servido inicialmente) quando uns tempos antes o grupo proprietário do jornal se tinha manifestado profundamente desiludido com o Governo por causa do insucesso de uma iniciativa empresarial que ela tomou. É claro que ninguém minimamente sensato deixará de ter suspeitas e suspeições sobre essa eventual conexão perigosa. Na cabeça de quem vê estas coisas a preto e branco, e são cada vez mais, são tão legítimas as suspeitas de que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner possam estar ilegitimamente conectados em todo este processo, como as de que José Sócrates, Luis Arouca, Armando Vara e o professor das quatro cadeiras o possam estar também. É claro que se acharmos que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner * não estão ilegitimamente conectados poderemos tender para a ideia de que o mesmo não se passa com os outros. E o contrário. Estamos mais predispostos a pensar que eles estão a promover uma vingança contra José Sócrates se tendermos para a ideia de que nada de ilegítimo conecta Sócrates com o seu antigo professor, com Luís Arouca ou com o próprio Armando Vara.
Só que há aqui algo mais complicado: hoje chegámos a um momento onde parece ser insensato não ter suspeitas ou suspeições de alguma espécie. O pior não é tudo poder ser escrutinado. Que o seja. Escrutinado, questionado, interpelado. O problema não é esse. O problema é o elevado rendimento que a suspeição em forma de argumento parece ter. É um produto branco do pensamento social contemporâneo e abriga-se na impunidade a que as fábricas ideológicas têm ainda hoje devido à inexistência de controle de qualidade nos seus processos de fabricação. Aliás, esta frase parece, para a maior parte de nós e do nosso viver, uma piada, uma anedota. Controle de qualidade dos processos de fabricação das nossas ideias?!! É mesmo assim. Suspeitamos que Marques Mendes está apenas interessado em atirar lama para Sócrates, tentando colocar aí o centro do debate político, suspeitamos que José Sócrates telefonou a metade dos directores de jornais deste país para os convencer das fraquezas da história que anda por aí a ser urdida, suspeitamos do professor de Sócrates e das suas ligações a Vara e a umas empresas da Covilhã, suspeitamos da SONAE e do seu instinto de vingança, suspeitamos de José Manuel Fernandes, e porque a suspeita nos está na massa do sangue, somos até capazes de suspeitar do jornalista Ricardo Dias Felner . Em abono das nossas teses temos todos os argumentos: os telefonemas de Sócrates para os jornais, o tirar e pôr da informação online sobre os seus curriculos, os casos recentes com a Independente, o desagrado de Belmiro, o abalado prestígio e credibilidade de José Manuel Fernandes na imprensa portuguesa, a forma empolada como apareceram as primeiras investigações do jornalista Ricardo Dias Felner, os antecedentes políticos de Armando Vara, as ligações empresariais do professor de Sócrates. Como é que saímos daqui? Talvez seja uma ideia errada, a de sair. Se isto é o pântano, qualquer movimento para sairmos tenderá a afundarmo-nos mais. Foi uma péssima ideia termos vindo para aqui assentar arraiais, temos de reconhecer, mas aqui chegados, como é que sobreviveremos não ao pântano, mas no pantâno? Talvez seja boa ideia drenar alguns terrenos. Ou seja, habituarmo-nos à ideia de que o pior não é a suspeita, nem a suspeição. É aceitarmo-la enquanto argumento.
---------------------------------------------------------------------
* Não fique aqui a suspeita sobre o seu trabalho enquanto jornalista. É um trabalho de vulto a que ele se vem dedicando e tem-no feito bem, teimosamente, com brio. Tinha aliás há muito pouco tempo feito um excelente retrato sobre o primeiro-ministro. Mas não embarquemos em arco: é preciso um pouco mais para que o bom trabalho de um jornalista se traduza num bom trabalho jornalístico.
Blogoteca (Ligaçoes retiradas de Blogo Existo):
José Sócrates, de Tiago Barbosa Ribeiro / A inversão do ónus da prova, de Paulo Gorjão / Provas, inversões e outras confusões, de Miguel Abrantes / Salvem o jornalismo, de Rui Cerdeira Branco / Em que ficamos?, de Eduardo Pitta / A minha opinião, de Lutz Bruckelmann / Deprimi..., por Cenas Obscenas / Queen Anne is dead, de Filipe Nunes Vicente / Quando os jornais dependem da colaboração dos actores políticos, de Alexandre Guerra / Questões políticas passageiras e questões de Estado, de Rui Pena Pires; A tempestade de João Villalobos; E Agora José?, pela Susana Bês.

Destaque: Doc Log

No DOC LOG, Leonor Areal transcreve "Cortes da Comissão de Censura enviados por telegrama telefonado para o Jornal de Notícias". São pequenos gestos que mostram a total arbitrariedade dos actos de censura. É claro que não se pediria um livro de estilo da Censura Prévia. O que se torna bizarro é ver que o processo de ocultação não visava apenas os proscritos do regime. Por exemplo, o Major Tártaro não se inibiu de censurar as declarações de Marcelo Caetano aos jornais. Ou as do Ministro da Economia. E as da, ao tempo, nossa sui-generis primeira-dama, a Governanta D. Maria. Chega-se ao ponto dos censores se censurarem a eles mesmos. A 9 de Setembro o Coronel Saraiva dá a indicação para que não se diga que o estado de saúde de Salazar é estacionário. O Major Tártaro umas duas semanas depois há-de indicar para a primeira página a informação de que a saúde de Salazar se encontra estacionária. E há aspectos perfeitamente bizarros: no anúncio da exportação de um milhão de gabardinas não se pode dizer que o comprador é a URSS. O acto de censura parece revelar a meticulosidade do censor, como na noticía do suicídio de uma rapariga em Soutelo, a ocultação de que isso foi depois do seu namorado ter sido mobilizado para Angola. Por outro lado há uma diferença também no estilo. Há censores mais afoitos ao autoritarimso da palavra Cortar, ou Cortar Tudo. Outros que tendem mais para o paternalismo da indicação, da recomendação, como se eles próprios editassem o jornal.
Foto: Salazar no caixão, imagem retirada do filme Brandos Costumes (1974) de Alberto Seixas Santos. Link de DOC-LOG

quarta-feira, abril 11, 2007

O que é que eles têm a ver com isto?

O tema de hoje do DN, dia em que o nosso primeiro-ministro vai à televisão desvendar o estranho caso da licenciatura independente, intitula-se Crise na Independente. Ocupa a página 2, a 3 e a 4. A primeira e a segunda tem José Sócrates. Leio-as com o apoio, imprescíndível, do Manual de Instruções sobre o DN Renovado que, pelo rigor conceptual e simultaneamente especulativo, não me admirava nada que se tornasse num Manual de Instruções para a Imprensa de Referência. Leio com prazer. A infografia, os titulos em caixa alta, aquele modo muito especial com que me tratam como se fosse eu mesmo que mandasse na minha leitura do DN. Chega a ser epifânico, eu que nunca mandei em nada do que diz respito à minha vida sentar-me tranquilamente dono e senhor da leitura de um jornal. Só não compreendo o destaque dado na terceira página a uns bizarros personagens que, seguindo os passos do actual primeiro ministro, se inscreveram naquela universidade para tirarem os diplomas. O que é que eles têm a ver com isto?

quinta-feira, março 22, 2007

Na hora dos jornais

Leio as quatro páginas que o Público dedicou à última fase da vida académica do primeiro-ministro. A palavra investigação desperta-me. Gosto do jornalismo de investigação. Como gosto do jornalismo de referência. Antes de comprar o Público tinha lido, pelo canto do olho, o DN. Ia no metro. À minha frente um homem com o Destaq e mais um titulo, amachucado, que lhe saia do bolso. Decerto também uma publicação gratuita. E dei por mim a pensar nas razões que tornam possível haver jornais assim à borla. Dizem-me que são pagos pela publicidade. É parte da resposta. É aliás uma meia resposta. A resposta é na grande redução de custos. Tudo o que publicam é material de contrafacção. A pesquisa na net permite completar o resto. Devem gastar mais em telefonemas para a mãe, para o marido ou para os amigos do que em telefonemas para as fontes, se esse conceito existe para este jornalismo made in china. As redacções são um pouco maiores do que a do jornal de Mafra em que o meu pai era o director, repórter, articulista, telefonista e porteiro mas não muito, especialmente se fizermos uma estimativa comparativa entre número de leitores. Não sei se é pela imagem daquele homem que está à minha frente com um jornal na mão e o outro dobrado dentro do bolso. Fico a pensar que estes periódicos podem realmente fazer bastante mal à saúde, à saúde mental de uma comunidade. É claro que a ASAE ainda não descobriu o filão. O desprezo com que aquele homem trata aquele papel de jornal provoca-me, não me deixa indiferente. Um jornal não é um livro, é legítimo esperar dele que sirva para embrulho de castanhas assadas ou para forrar o panelão do arroz, mas também tamanha desconsideração por aquele objecto estranha-me. Embora alguns dos meus amigos digam que eu detesto jornalistas a verdade, é que eu tenho um afecto muito especial pelos objectos que produzem. Ao longo destes anos apreendi a descodificar, a compreender melhor como produzem opinião, mas nunca deixei de gostar deles. E muito principalmente tenho um grande respeito pelo objecto jornal, seja em que formato ou periodicidade. Saio do metro e vou a uma banca de jornais. Não quero ser cúmplice com a morte do jornalismo de referência nem de investigação. Quero dar um sinal, pequeno, humilde, aos jornalistas que podem continuar a escrever. Eu serei leitor interessado dos seus trabalhos. Tinha um talão de desconto na compra do Público. Rasgo-o. Que se lixem os 40 cêntimos. O que é isto quando estamos a construir um país? Nada. Abro o jornal. Um título chama-me a atenção. O trabalho sobre a relação entre a emoção e a ética. Eu andava a dizer isto a mim mesmo há muito tempo. Gosto quando a ciência vem aí, solícita, a querer ajudar-nos a viver melhor a nossa vida. Leio o artigo, volto à primeira página. Começo a ler o jornal como um sincero crente no jornalismo. Leio duas páginas com o trabalho de Ricardo Dias Felner do qual há tempos tinha visto um interessante artigo sobre o perfil do primeiro-ministro. Quando chego ao fim viro a página. A 4 e a 5 também são para esta investigação. Quatro páginas. Fecho o jornal. Noto que no canto inferior da primeira página tem uma chamada para a "investigação". Onde diz: " a consulta do processo de licenciatura de José Sócrates revela documentos por assinar, sem data, timbre ou carimbo. Revela também informações contraditórias sobre as notas atribuídas ao actual primeiro-ministro. Ou ainda sobre a avaliação e frequência de quatro cadeiras do curso" Quando acabo de ler tudo penso no tempo que perdi. A chamada na primeira página tinha toda a informação relevante, o bastante e acima de tudo, com grande economia de tempo. A única coisa que se safa no meio de tanta irrelevância é sabermos que a Judite de Sousa quando voltar a entrevistar o primeiro-ministro não deverá dizer a torto e a direito "Sr. Engenheiro", a menos que queira levar com um eventual reprimenda pública do bom do Paquete de Oliveira.

segunda-feira, março 19, 2007

Prémio Pessoa: um António agora te darei

Sempre que há um Prémio Pessoa fico com a sensação de que há muito tempo que a escolha não visa distinguir uma pessoa mas o próprio prémio. Há muito que os galardoados são aqueles que não podiam deixar de o ser. Não fosse o cheque avantajado e ser financiado por um dos jornais mais importantes do nosso país o Prémio Pessoa já teria desaparecido na sua própria inutilidade. Em vez de darem o prémio ao Miguel Torga, ao Eugénio de Andrade, ao Virgílio Ferreira, ao António Lobo Antunes, deram-os ao prémio. Toda a gente sabe que o único prémio que poderá distinguir a obra deste último e, ao mesmo tempo, pôr mais uma marca na crescente importância que a literatura portuguesa tem, é aquele que um dia, esperamos, virá de uma academia sueca.
Adenda: A p. da realidade estragou este post. Eu a rabujar com o Prémio Pessoa e a atribui-lo por minha lavra. Fica portanto dita a minha opinião, e desculpe-se a redundância, não sobre o Prémio Pessoa, sim sobre a minha ideia do próprio Prémio. E o meu desconhecimento maior quer sobre o Prémio Camões quer sobre o próprio Prémio Pessoa sobre o qual, sabe-se lá porquê, tenho tão grandes relutâncias. E já agora, uma reflexão sobre o quanto por vezes a subjectividade se precipita diante da factualidade. Se isto fosse uma espécie de jornal pediria desculpa aos leitores. E agradecia à autora do comentário deste post que me chamou a atenção.

terça-feira, março 13, 2007

Circulo Vicioso

Sempre que me acontece alguma coisa como a que me aconteceu ontem na Cova da Moura volto, senão a acreditar, pelo menos a olhar para a política como um possível lugar onde nos resolveremos. Cheio de esperança paro na banca de jornais. É lá que eu me penitencio do meu desinteresse. Genuflexiono-me, faço um acto de contrição, digo que vou acabar com esta licenciosidade de pequeno burguês entretido com os seus males de espírito. E começo a ler jornais. Papo todas as secções, da Política à Astronomia. E só no fim percebo donde vem o meu mal d'être.

terça-feira, março 06, 2007

Metamorfose no DN

O novo director do DN diz que vai manter o DN com a "sua orientação histórica de independência e rigor" e o seu patrão complementa que o "DN vai continuar fiel às suas raízes". Sobre o mesmo assunto escreveu, no Público, Eduardo Cintra Torres: "A mudança no centenário diário lisboeta é um acontecimento que marca positivamente a história do jornalismo português recente. " O cruzamento dos discursos de Oliveira, Marcelino e Cintra Torres parece uma montagem dos Gatos. Diz Eduardo Cintra Torres que "as mudanças que se projectam com a chegada de João Marcelino resultam de que, para não fechar o jornal, o novo proprietário teve de cortar a contraciclo com uma tradição, poucas vezes interrompida, de ligação do DN ao poder e ao governo do momento. " Pelo que nem Oliveira nem Marcelino vão ter a vida fácil. Com os profetas da desgraça conluiem-se os arautos da boa nova. Nem tudo é mau. Incólume fica o objectivo de "alcançar uma rápida liderança no segmento" e a necessidade de "ter bons resultados".

domingo, março 04, 2007

Prova dos Nove

"O DN como jornal de referência não é viável", terá dito Joaquim Oliveira. Não é de estranhar. No campo dos media, Oliveira não é viável como empresário de referência .

sábado, fevereiro 24, 2007

No fantástico mundo da referência e da ligação (I)

Encontro algum paralelismo na discussão que se tende a fazer sobre a imprensa de referência e o jornalismo popular com uma querela em que me formei teatralmente, o teatro independente versus o teatro comercial.
Bastaria essa proximidade para, trinta e tal anos passados sobre o epicentro desse diferendo, percebermos que quase sempre a discussão começa por alguns mal-entendidos em torno do linguarejar e que não nos ajudam em nada a compreender a realidade nem a forma como ela chegou até nós. Hoje aqueles que na altura fizeram o teatro comercial encontram-se, na sua grande maioria, empresarialmente inactivos, e muitos daqueles que militavam no teatro independente, estão hoje prosperamente vinculados a projectos onde predomina a componente comercial.
O ponto de partida não é o ponto de chegada. Assim, não foi pelo facto dos empresários do teatro comercial se legitimarem com o público que este os legitimou com a sobrevivência. Como também não foi o facto do teatro independente ser muitas vezes caracterizado como uma actividade subsidiodependente que ela não forneceu os mais capazes para sobreviverem a uma actividade teatral sujeita aos ditames da oferta e da procura.
E se assim for então talvez fosse bom começarmos por duvidar da forma como nos aproximamos deste universo em discussão. O que é a imprensa de referência?

sábado, fevereiro 17, 2007

Nostalgia na banca dos jornais

Há grande rebuliço na banca de jornais da minha rua. Jornais que mudam de cor, cores que mudam de jornal. Aceno à vendedora de todos os dias. Encolhe os ombros quando vê que não levo nenhum título. Quando chego ao Rossio enfio pela estação de Metro, agarro em dois dos jornais à borla. Na longa escadaria rolante que me leva à Brasileira, e como se diz no jargão jornalês, é com eles que confiro a actualidade. Pouso-os no topo da escadaria rolante, como um serviço cívico. A sua leitura em diagonal (é possível lê-los de outro modo?) permite-me não ficar tão longe do zumbido do mundo. E penso, há quanto tempo não guardo eu um recorte de jornal?