No Absorto o Eduardo Graça colige algumas notas de leitura do livro "Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo", de Frederico Delgado Rosa (neto do General) . Leio as notas e fico a fazer contas para mim, pensando em arranjar tempo para ler o livro.
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segunda-feira, agosto 18, 2008
sábado, julho 26, 2008
Nunca ganhei nada na vida,
é o titulo do livro (com o subtítulo histórias de ciganos da Europa de Leste, de Gundula Fienbork, Brigitte Mihók e Stephan Muller, com recolha de depoimentos dos roma (rom, no singular, romni no feminino) e nos quais encontramos professores universitários, caldeireiros, um escritor, um titereteiro, operários e músicos, intelectuais activistas, entre outros, que recomendo.
O livro é tanto mais importante quando percebemos que a ideia que temos sobre os roma vive da mingua de informações directas. Uma das razões será o fraco domínio da lingua por parte desta comunidade, e isso percebemos pelos nível de escolarização extremamente baixo. Ou seja, a produção de sentido e de identidade não passa pelos nossos canais habituais e portanto também não nos ocorre reconhecê-la. Aliás, estes depoimentos são recolhidos por pessoas que não são roma. Um desafio para os leitores mais pacientes (eu vou sair daqui a fazê-lo): haverá nos blogues escritos em português algum de um rom ou romni? E noutras línguas? Será que a blogosfera também nesse domínio promove outro tipo de identidades?
quarta-feira, julho 02, 2008
Ler de manhã
Acordar assim, deliciado com a manhã dos blogues: A casa crua, na Ilustração do Vazio, e a Vingança da Gorda . A Isabela é uma repetente nestes pequenos deslumbramentos, claro. É o Apicultor que me surpreende. Há muitos anos atrás foi ele que me falou em primeiro lugar de um espaço onde podíamos escrever à vontade. Era o DN Jovem, onde também conheci a Isabela. Mandou dois textos talvez e levou com uma nega no Isto é Contigo. Entretido com a azáfama das crestas, o cheiro do rosmaninho no montado, as noites de céu aberto na casa crua a ver o mar e a Arrábida quando se podia, ah! e também com o Estragildo com cara de luga minguante, foi deixando os texticulos para os outros. Um dia sabe-se lá porquê, como se rebentos entre os dedos, a escrita começa-lhe a brotar assim, como os verbos e os substantivos que sempre me deliciaram nas nossas conversas. E sabe-me tão bem que aquilo que era só nosso, da mão cheia de amigos que o partilham, seja agora património de todos. Eu sei que é um amigo. Mas nestes dias falo dele como irmão.
sábado, junho 21, 2008
terça-feira, junho 03, 2008
O primeiro livro
terça-feira, maio 27, 2008
A memória
Estava nos correios à espera para a entrega de um registo. Passeio entre estantes, os correios agora são lojas. Encontro a Memória de Elefante que perdi faz muito tempo, numa altura em que os livros andavam de mão em mão e uns nem sequer voltavam. Este livro foi uma revelação. Creio que o li a meias com o Apicultor. Agarro-o logo e hei-de ficar com ele junto a mim enquanto espero que o 341 apareça no écran da televisão interna. Escreverei ainda uma carta para o meu filho, numa caligrafia o mais ingénua possível. E depois fico ali a reencontrar-me com o livro. Li-o já sete anos depois de ele ter sido publicado pela primeira vez. Lembro-me mais uma vez daquele,
tenho saudades da minha mulher e não sou capaz de o dizer a ela nem a ninguém senão a você,
e de como eu me senti diante daquele rumorejar de paquiderme. A memória enquanto aquilo de que não conseguimos livrarmo-nos.
quarta-feira, março 19, 2008
Paris nunca mais se acaba
Coloco o livro sobre as pernas. Estou sentado na carruagem, à medida que me passeio pela Rue Mouffetard começo a ter uma sensação física estranha diante deste objecto mágico: é como se o livro - não sei se só este, parece-me uma lição demasiado grande para um só livro - é como se ele fosse um espelho.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
Jerusalém
A minha mãe telefonou-me a pedir-me um livro pelo Natal. Achei graça a esta regressão. Cansou-se do para mim está bem qualquer coisinha, dos lenços de senhora, das malas ou sacos, dos chocolates, escreveu ela o seu pedido de Natal. Claro que já o comprei, com o prazer de ver a minha mãe, por momentos, tornar-se menina-gaiata. Quase de improviso, nem por acaso nem por premeditação, encontro-me com uma amiga, que me oferece Jerusalém, do Gonçalo M. Tavares. Tinha ficado deslumbrada com o livro e queria oferecê-lo, espalhá-lo por aí. Desconfio que não serei o último desta corrente. Subo ao Vertigo, começo a desfolhá-lo. Por alguma estranha cumplicidade com o prazer que se destapa da leitura a empregada atrasa-se muito a trazer-me o café. Eu tinha tido sempre uma grande resistência em ler o Gonçalo M. Tavares. Como tenho resistência em ler todas as pessoas que conheço ou conheci. A relação com a obra literária assenta num protocolo invisível que me sustém, enquanto leitor, num fio bambo, de trapézio, onde me aventuro por territórios sem fim e isso, é uma proxémica outra, a dos lugares imaginários. E o contrário também. Os escritores que admiramos, os nossos mestres, é de bom senso sabê-los deixar nas prateleiras das estantes. Na vida atrapalham-nos a percepção da sua obra. Sou desde há muito um apaixonado leitor do autor de A Memória de Elefante. Há uns dois anos estive muito próximo dele, numa recepção de uma embaixada, creio que partilhámos o prato dos croquetes, talvez nos tenhamos mesmo afeiçoado por um mesmo prato de canapés e entradas. Eu comia desmesuradamente os croquetes e os canapés na ânsia de despertar a atenção daquele que era para mim o ponto mais alto da nossa literatura. Até que de repente, com tanto atafulhanço, tive de parar, de respirar e, nessa pausa, olhei para ele e vi, por detrás do escritor, o homem. As rugas, o olhar escondido, dorido, o quase sacrifício com que se arrastava, as conversas monossilábicas. Será certamente um homem magnífico, um ser humano excepcional, sem dúvida. Mas não é o mesmo que eu li sofrêgo, com a mesma voracidade com que me atirei ao prato dos croquetes e canapés, e nessa diferença reside tudo o que é essencial numa leitura. Ainda nem consegui acabar o Tratado das Paixões da Alma. Da mesma forma tenho evitado ler os livros do Gonçalo M. Tavares, que conheci há uns anos num encontro de autores dramáticos em Évora e com o qual me vou cruzando por aí. Até que esta boa amiga me depositou nas mãos Jerusalém. E comecei a ler o primeiro capítulo, de onde se soltam as personagens de Ernest e Mylia. E através desta começo a mergulhar numa história que me seduz a sério, com uma adesão quase juvenil. Sou destes personagens que procuram uma igreja a meio da noite, sendo que a noite é a própria vida. E por uma vez, o breve contacto que tive com o Gonçalo aproxima-me da sua obra. Lembro-me dele a não nos acompanhar na noite depois dos espectáculos porque tinha que se deitar cedo para acordar cedo, escrevia sempre pelo desamotinar da manhã. E enquanto nós vínhamos sozinhos, ele trouxe toda a família, os filhos, os pais, a mulher e lembro-me como era contagiante aquela harmonia que dele se soltava. Digo isto porque tenho este preconceito para com as pessoas felizes: penso sempre que nunca serão capaz de me comover com o drama humano e é isso, essa comoção, que me vai levando pela mão da literatura, do teatro, da música, da arte. Vou voltar a procurar a entrevista que a Alexandra Lucas Coelho lhe fez há pouco. Jerusalém de Gonçalo M. Tavares está a despertar-me a vontade de admirar, de me congratular.
domingo, setembro 09, 2007
Conta, corrente: 10 Livros que não mudaram a minha vida
Fim de semana, altura de colocar em dia desafios lançados aqui na blogosfera, como o do Eduardo Graça. Divido-os em livros com dedicatória, aqueles que me ofereceram com o objectivo de mudarem a minha vida e que nunca li integralmente, titulos que mudaram a minha vida, aqueles livros com cujos títulos construo recorrentemente sentidos, e os livros que ainda não mudaram a minha vida, onde pontuam aqueles que nunca terminei.
Livros com dedicatória:
- A Biblia (da minha mãe, aos 21 anos);
- Com a morte na alma, Sartre (do meu pai, aos 18 anos. repete em titulos que mudaram a minha vida);
Titulos que mudaram a minha vida:
- O espectador comprometido, Raimond Aron;
- O Número dos Vivos, Hélia Correia;
- O retorno do actor, Alain Tourraine;
- Dinossauro Excelentíssimo, José Cardoso Pires;
Livros que ainda não mudaram a minha vida:
- A invenção da Comunicação, Armando Mattelart;
- Justine, Laurence Durrel;
- O Sorriso Etrusco, José Luis Sampedro
- Código da Estrada, vários.
sexta-feira, julho 27, 2007
Sapatos vermelhos
Sobre o novo livro de Zita Seabra, este é um post que para lá do valor da análise que propôe, tem a grande qualidade de abrir para um universo de discussão bastante alargado na blogosfera. Serviço público, como é habitual no Rui Bebiano.
quarta-feira, julho 25, 2007
Ler o ler
Antes do meu Verão, que se faz pela linha do Norte, arrumo as contas com os desafios: este, da M em Campanhã.
- A Poesia Toda, do Herberto Hélder. Eu não iria para lugar nenhum deste mundo sem este livro. Já trabalhei cénicamente com o poemacto. Já o li em público outra vez. Com uma única excepção nesta vida, não confio em ninguém, mas absolutamente em ninguém, que não tenha alguma vez estremecido diante de um poema de Herberto Hélder;
-Exame de Consciência, de Somerset Maughan. A minha aventura, ou a minha ideia de que ler é uma aventura, muito se deve a este romancista inglês do qual já há milhares de anos não leio nada. O mundo que ele construiu ruiu em mim, não o escondo. Liza, a Pecadora, Um gosto e seis vinténs, Servidão Humana, Ah King, O Fio da Navalha, são algumas das peças desse puzzle que tornou a minha adolescência um lugar mais suportável. E foi com Exame de Consciência que eu fiz a revisão da matéria lida e tive aquele momento epifânico do encontro do aprendiz com o mestre.
- O Livro por Vir, Maurice Blanchot. As minhas leituras são muito desiguais, muito irregulares ao longo do tempo. Tenho uma absoluta dificuldade hoje em ler romances. É um problema para o qual não tenho solução. Há uns anos comprei a colecção toda do Público, imaginando que ía colocar em dia a leitura. Engano. Sempre que me atirava a um enchia-me de entusiasmo primaveril. Mas depois acumulavam-se em cima na mesa de cabeceira. Nestes anos todos consegui ler apenas de fio a pavio Afirma Pereira e Se isto é um homem de Italo Calvino e meei tantos, tantos . Há no entanto um género de livros técnicos e científicos que lá vou lendo (temas da expressão, do teatro, da dramaturgia, da comunicação e da animação). Nele destaca-se este, de Blanchot. Descobri-o a páginas tantas do Naufrágio com Espectador, de Hans Blumenberg que também me fascinou e que me acompanhou como leitura recorrente durante muito tempo. Hoje tudo isto me parecem palavras sobre um mundo que inexiste. Blanchot desconstrói a literatura, o gesto escrevente, mas, como não poderia deixar de ser, reconstrói o templo. Ficou-me isso dele. Não o templo, mas esta possibilidade de destruir o púlpito e de aceitar, nas ruínas, o oráculo emergente. Eu já não acredito na literatura. Diverte-me por vezes, reencontra-me por outras, é um lugar. Apreendi isso com Blanchot. A descrer da literatura e a reencontrar-me no lugar que o escrever é. Um lugar com vista para a cidade, para o rio, o mundo, o universo interior.
-A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky. Os temas da política e da filosofia interessaram-me desde muito pequeno, numa altura em que era possível ainda conquistar chaves de decifração dos segredos universais. Comecei nisso com um compêndio de filosofia, por uma razão prática: queria argumentar filosoficamente com o meu pai sobre a existência de Deus, de modo a que pudesse deixar de ser praticante dos rituais religiosos (terço, missa dominical). Foi nesse espirito que um dia me maravilhei com O Choque do Futuro, de Alvin Tofller. Antes da Era do Vazio li A Condição Pós-Moderna e o Essencial do Pós-Modernismo explicado às crianças. Eu não gostava do pós-modernismo. Detestava as noites do Frágil e do Alcântara, o estado etílico comatoso, as passereles daquele negro sem destino nem futuro, o narciso como justificação ética. Mas decobri depois, com este livro, eu estava muito mais centrado nas manifestações do pós-modernismo do que no seu violento contributo para o pensamento, tanto mais importante porque assumindo-se como espaço de passagem. Na altura eu pensava que ele era o advento do totalitarismo que hoje tanto aqui me tem ocupado. Não era, não foi. Foi muito mais o tempo onde se engendrou uma possível vacina, se é que isso existe.
-Jean-Christophe, de Romain Rolland. O primeiro livro que me lembrei como romance foi As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Talvez pela implicação das questões familiares, das relaçãos entre irmãos, sempre me li muito dentro desta saga. E Steinbeck para mim é raiva, é lucidez, é atenção. E hesitei sobre os Miseráveis e Nossa Senhora de Paris que me pareceram a literatura em estado máximo de exaltação. Mas eu devo prestar homenagem ao trabalho homérico que foi ler os vários volumes do romance de Romain Rolland. Eu não os tinha todos lá em casa. E por isso andei a saltitar de biblioteca em biblioteca para ler este romance admirável. Menti-vos há pouco quando vos disse que já não acredito na literatura. Acredito em Jean-Christophe.
E agora segue o convite: à Elisa, à Ana Sá Lopes, ao Carlos, ao Apicultor e a uma das múltiplas Oito e Coisa que queiram pegar no desafio.
domingo, abril 22, 2007
Livro de bolso: Contra o fanatismo
O meu livro de Amoz Oz começa a ficar com verrugas, feridas, marcas. Anda comigo no bolso esquerdo das calças há alguns dias. Talvez seja para muitos uma forma desrespeituosa de tratar um livro. E eu, sem grande convicção, anuirei, como quem deixa a banda passar. Compenso-o de muitas formas: com aquele prazer com que, sempre que vou à minha esplanada, descubro que afinal tenho um livro para ler; com a atenção com que me dedico a ler os vários ensaios do escritor israelita. E finalmente, com a boa disposição com que fico depois de ler os seus textos em que uma das maiores tragédias políticas da actualidade é visitada com um sadio humor. Uma ideia de Amoz Oz contra o fanatismo: imaginação para nos colocarmos no lugar do outro.
quarta-feira, abril 04, 2007
Um amigo para as questões mais difíceis
Já falei disso aqui, tenho estado a ler Uma Teoria de Tudo, de Ken Wilber. E sigo-o cada vez com mais interesse. Tenho alguma vergonha em dizê-lo, os meus mais pequenos e únicos ismos (relativismo, pós-modernismo, cepticismo, agnosticismo, pessimismo) vão ficar mal no retrato, mas este diálogo com o livro está-me a tornar mais optimista na minha relação com o mundo. Não sei explicá-lo com exactidão: da mesma forma que o final dos anos noventa, com o fim da guerra fria, a queda do muro, a desagregação da União Soviética, tinham significado uma abertura sobre a possibilidade de um retorno mundial à justiça e à política, os anos noventa foram terríveis em relação à minha confiança no futuro da humanidade. E foram tão terríveis e tão demolidores que no princípio do novo século, nos seus primeiros anos, não restava nada. O mundo começava a ser para mim um lugar de uma profunda desafecção e quase desagregação do pensamento, e não fosse aquela mão de petiz que se entrelaçava na minha e me entusiasmava para a descoberta, para a vida, para uma outra política que lhe permitiria poder viver num mundo melhor ( o tempo de aprender finalmente a reciclar lixo, a ter atenção aos materiais e recipientes que compro, etc) seria bem o meu suícidio espiritual. O estilhaçar da minha crença de que era possível fazer alguma coisa teve aliás um final curioso: ainda me cheguei a inscrever num partido mas a minha militância não durou mais do que alguns meses e só teve como facto positivo a circunstância de encarar a actividade partidária com muito mais bonomia e compreensão do que dantes, não partilhando hoje os discursos derrotistas sobre o malefício dos partidos para a vida cívica que já subscrevi. E se de todas as teorias que conheci a da tolerância foi aquela que, desde sempre, maior eco teve em mim, parecia que o meu intenso relativismo tinha aumentado em muito a minha aceitação do outro. E ao mesmo tempo crescia em mim um profundo desapego por algum tipo de manifestação de poder. Eu nunca tive vocação para líder, embora com o tempo fosse adquirindo algumas capacidades intelectuais que os políticos gostam de pensar que não são antitéticas com o exercício do poder. E por isso fui às vezes empurrado para situações de chefia ou - eufemismo muito caro àqueles tipos como eu que lidam mal com o poder mas estão embevecidos com um qualquer dinamismo - de coordenação. Por um misto de clarividência e de azedume, desde a deriva direitista do Durão e Portas se ter instalado no poder e na administração pública, interiorizou-se em mim um tal distanciamento em relação à política, ao exercício do poder, que nem mesmo a admito para lutar contra aquelas situações que me parecem injustas e até, inadmíssiveis. Nos meus momentos inspirados penso que há-de haver um outro caminho para lutar contra aquilo que me parece uma falta de capacidade daqueles que me rodeiam, aos mais diversos níveis da actividade, do que ter de me pensar como mais capaz do que os outros. É claro que este tipo de pensamento pode parecer que ruma para a inércia e para o conformismo. Principalmente quando a medida que se instalou por todo o lado, nos media, no trabalho, nas ruas, nos lares, é a de um estado eufórico do sujeito em relação às suas capacidades, à sua valia. É por isso que a leitura de Uma teoria de tudo de Ken Wilber me tem sido tão agradável. Tive um livro assim no Exame de Consciência, do Somerset Maughan, na minha adolescência. Ou, poucos anos mais tarde, O Choque do Futuro, de Alvin Tofller. E A Era do Vazio, de Giles Lipotevski, já nos anos noventa. A Loucura da Normalidade, de Arno Gruen, nos últimos anos. É como se um livro pudesse voltar a ser um amigo que se senta ao meu lado e que me ouve rumorejar, acompanhando-me nas questões mais difíceis.
sexta-feira, março 30, 2007
Leituras: "A dinâmica da espiral"
Não é a tradicional pirâmide com que nos habituámos a estratificar a nossa sociedade, as nossas necessidades. Estamos no tempo dos memes, do integralismo, do holístico. É uma espiral de cores e categorias que - segundo Don Beck e Christopher Cowan, - vão do Arcaico-Instintivo até Holístico, passando pelo mágico-animista, pelos deuses do poder, pela ordem mítica, pela descoberta científica, pelo eu sensível e pelo integrador. Os primeiros seis níveis ou categorias são de "subsistência", marcados por um pensamento de primeira camada. Só a partir deles começamos a observar uma mudança revolucionária da consciência com o aparecimento de "Níveis do ser" e de pensamento de segunda camada. Um aspecto curioso do trabalho destes cientistas é o cálculo da percentagem da população mundial que vive em cada uma das ondas da espiral. Os grandes dois polos são o da ordem mítica (onde encontramos o fundamentalismo religioso, o patriotismo, a américa puritana) com 40 por cento da população e 30% do poder, e o da Descoberta Científica ( patente na banca, na bolsa, no materialismo, a competição, etc) com 30% da população e 50% do poder. Há ainda, com uma expressão considerável, os Deuses do Poder, com 20% da população e 5% do poder. O resto são franjas. O Arcaico-Instintivo e o Mágico Animista, com 10% da população têm 1% do poder, e as ondas da segunda camada são partilhadas por menos de dois por cento da população detendo seis por cento do poder. O que, a fiarmo-nos nesta teoria, parece não nos inspirar grandes optimismos. Esta bipolarização entre fundamentalismo e razão é factor gerador de preocupação. E a aliança entre os Deuses do Poder (onde se instalam as redes de narcotráfico, do gangs e a pirataria) e a ordem mítica, também. Para além do mais estes movimentos, estas ondas não são estáticas e há, circunstancialmente, possibilidade de uma reorganização provocando uma concentração num determinado campo. Lembremo-nos o que aconteceu na altura do ataque ao Iraque, do terrorismo, das caricaturas. Independentemente da sua solidez ética e intelectual quando alguém se sente ameaçado regride e procura a tribo, a matilha, o grupo. Há um aspecto no meio de tudo isto que pode provocar alguma esperança. No nível integrador, um por cento da população detém cinco por cento do poder. E no holístico, 0,1, detém 1 %.
quinta-feira, março 29, 2007
Leituras: "O rancor intelectual"
" Pode uma visão integral existir no clima contemporâneo de guerras de cultura, políticas de identidade, milhões de novos paradigmas em conflito, pós-modernismo desconstrutivista, nilismo, relativismo pluralista e políticas do eu? Pode uma Teoria de Tudo ser reconhecida, já para não falar em ser aceite, num tal estado cultural? Não estarão as próprias elites culturais num estado mais fragmentado e rancoroso do que nunca? Talvez as massas da humanidade sejam propensas a guerras tribais e a limpezas étnicas; mas que fazer se a própria elite cultural também manifesta a mesma inclinação?"
Ken Wilber, Uma Teoria de Tudo, estrela polar, 2000
segunda-feira, março 19, 2007
Prémio Pessoa: um António agora te darei
Sempre que há um Prémio Pessoa fico com a sensação de que há muito tempo que a escolha não visa distinguir uma pessoa mas o próprio prémio. Há muito que os galardoados são aqueles que não podiam deixar de o ser. Não fosse o cheque avantajado e ser financiado por um dos jornais mais importantes do nosso país o Prémio Pessoa já teria desaparecido na sua própria inutilidade. Em vez de darem o prémio ao Miguel Torga, ao Eugénio de Andrade, ao Virgílio Ferreira, ao António Lobo Antunes, deram-os ao prémio. Toda a gente sabe que o único prémio que poderá distinguir a obra deste último e, ao mesmo tempo, pôr mais uma marca na crescente importância que a literatura portuguesa tem, é aquele que um dia, esperamos, virá de uma academia sueca.
Adenda: A p. da realidade estragou este post. Eu a rabujar com o Prémio Pessoa e a atribui-lo por minha lavra. Fica portanto dita a minha opinião, e desculpe-se a redundância, não sobre o Prémio Pessoa, sim sobre a minha ideia do próprio Prémio. E o meu desconhecimento maior quer sobre o Prémio Camões quer sobre o próprio Prémio Pessoa sobre o qual, sabe-se lá porquê, tenho tão grandes relutâncias. E já agora, uma reflexão sobre o quanto por vezes a subjectividade se precipita diante da factualidade. Se isto fosse uma espécie de jornal pediria desculpa aos leitores. E agradecia à autora do comentário deste post que me chamou a atenção.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Leituras: Agostinho da Silva
"Agora quanto ao ponto de eu dizer que me parece que o tempo futuro, o melhor tempo será não o tempo do ortodoxo ou do heterodoxo, mas o tempo do paradoxo, não o tempo de nos acudarmos uns aos outros de sermos heterodoxos - é sempre aquilo que nos acusamos, porque é sempre um ortodoxo qua acusa outro de ser heterodoxo, de qualquer lado que esteja e aí está sempre a semente de uma guerra, há sempre aí uma luta..."
Vida Conversável, Agostinho da Silva, Assírio e Alvim, 1998
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