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sexta-feira, maio 06, 2011

A minha janela é uma fonte de inspiração biblíca. Gosto de olhar para ela e ver ali ao fundo David e Golias na versão rebocadores versus carregueiros.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Lisboa quando amanhece

Às vezes parece-me que ando por aqui a repetir este post milhares de vezes. Não era assim que eu queria dizer: às vezes parece-me que tenho a felicidade de poder escrever este post milhares de vezes. Sou de uma Lisboa que, mesmo quando desperta, acorda devagar, no gerúndio. Destapando com lentidão os rostos dos incautos que se atrevem a celebrar os dias pela manhã cedo. Ou os corpos com aquela inadaptidão para a felicidade que tropeçam nas entradas dos metros, dos autocarros, sempre há porta de qualquer coisa. Há luz no pátio. Chove, o céu está cinza mas há luz, uma luz incrível sobre o rio de prata. Mais outro ofício milionário: sou uma espécie de guarda-rios deste leito com que Lisboa beija a outra margem do Tejo. Digo que sou uma espécie de guarda-rios porque embora o vele enquanto o amo e o ame assim, velando-o, sou desprovido das asas e da penugem multicolorida de um autêntico guarda-rios.
O meu voo é este espanto, este estar aqui a deliciar-me.

sábado, julho 21, 2007

O que é a paz?

Acordei com os sons do pátio que há tanto me escapavam. Sons do falar, da música matinal, a ressoarem na câmara de eco em que a vila interior se torna. Olhei para o meu vizinho pintor. Lá estava ele. Janela aberta, a silhueta a aproximar-se do quadro. Vou ao outro lado confirmar o rio. Lá está manchado por sombras de núvens. Estou em paz quando acordo. Não sei se é do sol, de me ter habituado a mim, ao meu próprio som a ressoar pela casa, até o não compreender não se me estranha. Talvez tenha sido também daquele "Paris, je t' aime" colectivo, pedaços de vida numa cidade que se me alumia quando sonho. Uma vontade enorme de voltar a Paris. Quando tinha treze, catorze, quinze anos, descobri a Paris de Somerset Maughan (já sei como começar a lista, o desafio da M.). Eu conhecia o Quartier Latin como a palma da minha mão. Adivinhava os rostos saídos da janela. A primeira vez que fui a Paris senti aquilo que todos nós sentimos como quando batemos com a cabeça numa realidade que nunca coincide com os nossos melhores devaneios. Mas era amável. Voltei mais uma ou duas vezes à cidade. Uma das últimas recordações que tenho é a de carecas rapadas em frente a uma discoteca da moda em Pigalle. Não é por isso que nunca mais lá voltei. Fiz uma promessa a mim mesmo, a próxima vez será com um amor como nunca existiu, nem existirá, um amor para sempre. Como o é para sempre este devaneio amoroso com Paris. É daí, desse amor impossível, burilado por imagens non sense, que me vem a paz que agora me alenta.

quinta-feira, junho 28, 2007

Oração laica

Hoje venho a esta janela apenas para rezar. A este privilégio dos vivos. Eu gostava de poder transmitir isto, tanto mais que há inúmeras guerras, fratícidios e massacres por causa deste engano: o mistério da vida não é o poema, é a poesia, e esta, sem o poema, torna-se o acto de poemar.

terça-feira, junho 05, 2007

Instante

Comovo-me com um nada que se me atravessa no caminho.
Estou só, de uma solidão desajectivada. Tudo o que amei, pessoas, coisas, lugares, me amou, terrivelmente, a mim. Pressuponho que seja nestes momentos que a alma dos homens e das mulheres se abre ao infinito, para falar longamente daquilo que verdadeiramente é exaltante na vida, como broches, minetes ou de fodermos que nem uns bichos da seda.
Se eu fosse crente falaria agora de deus.

Luar

Há um ano outros eram os personagens. Eu era feliz ainda de uma forma inconsciente. Abria a janela, extravazava rio pelos sentidos, eles também escâncaros, e deixava que aquele mar de prata me guiasse até ao infinito. Já não sei nada. A minha própria presença se assemelha a uma teimosia, a uma loucura. Há entre mim e o real um véu que é a minha incapacidade de pensar nas coisas. De as confrontar com modelos. Aceito que assim seja. Não é resignação. É mais pensamento. Ou pensamento outra vez. Há uma zona que parece loucura, mas não é. Sou eu a ser menino outra vez.

domingo, abril 08, 2007

Lua de prata

Encho-me de todas as solidões que um indíviduo chegado à idade adulta consegue suportar. A solidão-rio-de-prata. Solidão irmão-do-meio. Solidão-no-trabalho. Solidão-dor-de-corno. Solidão-lugar. Solidão-da-incompreensão. Solidão-da-palavra-não. Solidão-do-mundo. Uma noite assim, será sempre inesperada. Nenhuma destas solidões é mesmo a sério. É fado. É canção. Poderia ser, com alguma inspiração, poema. Há-de haver uma resposta quando o sol raiar de novo. E eu estarei lá. Nem que haja arco-íris. Fecho os olhos para a música, eu tenho um sonho deste pequenino: viajar um dia, inteiro, integral, para a terra da amabilidade. O resto é só e sempre ódio, de que me desaparto.

sábado, abril 07, 2007

Os sinos da minha aldeia

Tocavam as nove horas quando eu disse que não. Quando acabei de o dizer, repenicaram os sinos. É por ser Páscoa. É por ser Páscoa e as minhas memórias estarem todas ligadas ao tocar dos sinos, pensei. Os carrilhões de Mafra. Um dos maiores orgulhos do meu pai era o de o seu jornalinho ter servido para a campanha que trouxe os carrilhões de volta à vila de Mafra. Nos claustros do Convento, era talvez Verão, o meu pai e a minha mãe usavam um casaco de malha fina e íamos com o ar descontraído, eu e os meus irmãos vestiamos de igual, de cores diferentes, calções curtos, camisete de algodão. Éramos das poucas famílias que se deslocavam ao interior do Convento para escutarem o concerto de carrilhões. E eu não sabia porquê. Afinal era o animador orgulhoso do seu combate que vinha, com os seus. Era um belga que os tocava. E tinha trazido a sua família. Lembro-me da sua mulher, uma senhora belíssima, alta, serena, e os seus dois filhos, um casal. Claro que, enquanto o seu pai tocava, platonicamente, me apaixonei pela filha. Aqueles fins de tarde ainda hoje me parecem momentos do paraíso. Havia talvez uma brisa. O meu pai tinha acabado o trabalho e a família juntava-se toda. O meu pai era um homem muito bonito. Esse foi aliás um dos argumentos que o homem da marcenaria onde ele aprendia utilizou para contra argumentar a vocação para o sacerdócio que a minha avó lhe descobrira. Um homem tão bonito nunca será de Deus, senhor Padre, disse ele. O som dos carrilhões ecoava pelos claustros. Eu comecei a ser feliz assim, na platonia. Na entrega a um amor solitário, fechado sobre si mesmo, oculto dos seus sentimentos. Sou aquele que escreve textos, alguns mais felizes outros menos, sobre o amor. E que o desconhece profundamente no ser em dádiva que ele projecta. Um ser rasgado pela sua incompletude. Sou um celibatário profundo, se é que essa doença existe. Por vezes gostava que sim, que existisse e que existisse enquanto tal, enquanto doença, que eu pudesse marcar uma consulta à minha médica de família e lhe dissesse, olhe, é o meu celibatarismo profundo outra vez, tal como quando se tem cólica renal, diabetes ou hipertensão. É claro que com o tempo vamos aprendendo a conviver com o nosso mal d' espirit. Durante muitos anos fui feliz namorando com estudantes erásmus, turistas acidentais que apanhava no Castelo de S. Jorge, e depois, quando a idade foi avançando, comecei a arranjar namoradas com ofícios estranhíssimos, que me permitiam recolher-me a minha casa como se ela fosse um mosteiro. Namorei mulheres-polícia, vendedouras do mercado das flores, assistentes de bordo nas companhias de navegação aérea e marítima, jornalistas, até uma espia ligada aos serviços alfandegários. A última foi a mais feliz, uma faroleira das Berlengas. Foi o amor mais perfeito que tive na minha vida. Eu ia até ao Baleal, à minha praia de sempre, e mandava-lhe um sms. Ela respondia-me num código de luzes que tinhamos apurado com o tempo de namoro. Uma vez um navio russo interceptou a nossa comunicação e foi parar ao molhe de Viana do Castelo, por causa disso. Em três anos de namoro devo-a ter visto uma dúzia de vezes. Íamos casarmo-nos por correspondência. Já nem sei porque é que acabou por não dar certo. Sou assim, esqueço-me das coisas. Provavelmente baralhei tudo e mandei as longas cartas de amor que me consumiam as noites para o meu afecto anterior, a espia dos serviços alfandegários. Com o fim das fronteiras eles desactivaram tudo. E desde que começaram a vender património, tudo mudou. Talvez os quilómetros de amor romântico e epistolar repousem agora numa mansarda atulhada de móveis, dossiers e papéis velhos. Eu estranhei, as outras não, mas a faroleira era-me muito dedicada. Achei que se tinha esquecido de mim, que tinha encontrado algum marinheiro russo, sei lá. A vida é um saco de surpresas. Tudo pode acontecer. Foi exactamente assim que terminei o telefonema, um pouco antes das badaladas que me levaram tão longe na memória. Tudo pode acontecer.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Fazer tempo até que a noite se vá e de repente nasça uma janela na manhã defronte ao rio.