De um bolso de um casaco sai-me um papel amarrotado, com meia dúzia de palavras: "história do actor que se apaixonou pela rapariga da bilheteira da empresa de camionetas. Ele dá-lhe um bilhete. Ela dá-lhe um desenho. E agora?". Enquanto, com aquela cara de criança apaixonada me contava a história eu assentara-a, brincando com ele, dizendo-lhe, agora vou escrevê-la eu. Tudo se tinha passado num repente, num ai e assim se terá esbroado esta história, começada num guichet de uma empresa de camionetas. Soube-me a enredo de Woody Allen, na altura. As personagens tinham a humanidade e a interioridade que Allen tão bem soube resgatar do seu mestre, Bergman. Os olhares. Imagino assim este actor e esta rapariga do guichet. Como é possível despoletarmos desta maneira os nossos sonhos? Uma rapariga fechada num pequeno cubículo, apenas aberto por um vidro transparente com uns oríficios para deixar passar o som e o dinheiro, de repente pôe aquele actor a sonhar, a ver mundos para além do vísivel. Ela dá-lhe um bilhete que lhe permite a ele ir embora, sair dali, ele deixa-lhe um ingresso para o seu pequeno mundo da quarta parede, um pequeno grande guichet onde também cabem uma infinidade de planos, de lugares, de circunstâncias. E depois, quando vai vê-lo, ela traz-lhe um pequeno desenho. No universo da troca ela dá-lhe um pequeno desenho.
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terça-feira, janeiro 15, 2008
segunda-feira, maio 14, 2007
Da educação sentimental: A mulher ideal
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Ao entrar em casa deixo cair um pequeno cubo de acrílico com fotos tipo passe. Estão lá os meus rostos desde criança. Dos meus familiares. De amigos. Quando o vou apanhar reparo numa foto de uma bébé. Era de uma amiga, do meu primeiro projecto de namorada. Digo projecto porque nunca cheguei a namorar com ela. Eu não a conhecia. Escolhi-a através de uma janela, nas aulas de físico-quimica. Quando me contaram que o grupo de rapazes com quem me dava no pátio da escola estava a começar a interessar-se por um grupo de raparigas não quis ficar sózinho. Estava na aula, olhei para o pátio, a minha colega de carteira, a Ester, elenca-me a distribuição, a Elisa é a do Neves, a Lurdes é do Germano, e quem é aquela?, pergunto eu, é a Paula, responde ela, é dessa que eu gosto, disse eu, e antes da aula acabar já estava o namoro de conveniência tratado. Foi giro. Namorávamos assim: levávamos as raparigas desde a escola da Piscina até à Rua Almada de Negreiros onde elas moravam, enquanto falávamos de assuntos pueris, como vestuário beto, das discotecas in e out, dos concertos em Cascais, dos perfumes, Aramis e Paco Rabane eram os preferidos, além de trocarmos fotos, uma actual e outra de infância. É assim que ainda hoje tenho uma foto da Paula com ano, ano e meio. E depois subíamos todos até às vivendas do Aeroporto, e enquanto eles me aterrorizavam com feitos inscríveis do trabalho masturbatório, falávamos das estratégias, que incluiam planos em casas abandonadas, fins de semana na Praia Grande ou nas Azenhas do Mar, para conseguirmos seduzir as nossas namoradas. O Neves chegou a namorar com a Elisa, a Lurdes andou com o Germano, só eu fiquei de fora. Por um motivo nada pueril e que me enrubesceria senão tivesse perdido já todas as vergonhas a que um homem tem direito: ela não tinha peito. E como não tinha coragem de o dizer, inventei outras razões, hábito que continuei a ter pela vida fora. O que foi mau, o Neves e o Germano, mais experientes, podiam-me ter dito que uma rapariga de doze anos, eu tinha quinze, podia ter o peito pequeno mas que ía crescer. E o que cresceu. No ano seguinte desabrochou e sempre que passava por mim parecia que abanava os seus seios salientes para mim como se me desdenhasse. Eu não sabia, mas tinha começado assim uma longa história da minha educação sentimental, a da procura da mulher ideal.
Nunca soube o que era a mulher ideal. Houve uma altura que me parecia muito claro que ela seria uma mistura entre a Jeanne Moreau, a Malvina de a Gabriela, Cravo e Canela, Manuela Moura Guedes, locutora de continuidade que ainda não tinha aquela boca do tamanho do mundo e uma rapariga de Odivelas que tinha passado o verão de 77 na barraca ao lado da dos meus primos na praia do Narciso, em Carcavelos. Nem sei hoje qual seria a linha comum entre todas estas mulheres que, na altura em que eu me preocupava com a mulher ideal, me faziam sonhar. Só que depois começaram a chegar as mulheres verdadeiras à minha vida. E eu comecei a perceber que tinha entre mãos um problema muito maior do que aquele que constituiria a busca da mulher ideal.
É que quando a segunda, a terceira, a quarta mulher ideal começou a deixar de fazer parte da minha vida, é que eu percebi que a grande questão não estava nesse arquétipo meio juvenil que se foi formando no meu inconsciente sobre a perfeição feminina, a grande questão era que eu, por imaturidade, por cobardia, ou por ignorância, ou por aquele enxame de razões que por vezes nos atacam de forma furibunda, pudesse não saber reconhecer numa mulher uma mulher, pudesse não saber fazê-la senti-la especial, amada, estimada. Não foi uma grande descoberta, ou pelo menos, uma daquelas descobertas que nos fazem mais alegres. Saber que a mulher ideal nunca me baterá à porta, que ela vive há muito dentro de mim, pode fazer-me, circunstancialmente, um ser humano mais apessoado mas é, inúmeras vezes, ocasião para sofrimentos próprios e alheios cuja medida certa nunca sei contabilizar.
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quarta-feira, maio 02, 2007
1º de Maio
Ontem peguei na bicicleta e fui até à Alameda. Segui depois para Alvalade, apanhando o cortejo do Oprecariado ali ao pé da estação do Areeiro. Reconheci uns amigos e lá fui em marcha lenta, ao som de palavras de ordem como "País Precário/Sai do Armário", ou "Movimento Flexi", glossando a coreografia muito em voga nos espaços disco do "movimento sexy". O oprecariado era sem dúvida a zona mais criativa e mais imaginativa deste passeio de 1º de Maio. Senti-me solidário com eles, eu que só sou precário quando escrevo e já escrevo tão pouco! Encontrei também rostos que já não via há mais de vinte anos, uns, de dez anos outros, os mesmos abraços de circunstância, mas cada vez mais frios, mais passos em falso, vazios. A certa altura tive vontade de ir embora, aquele cortejo não me parecia de vida, os jovens estavam vivos, os seus slogans também, mas havia ali um cheiro inexplicável àquele bafio do tempo. Há coisas que não são para explicar. Podemos partilhá-las assim em bruto, com quem se oferece assim ao entendimento, mas os seus significados escapam-se por entre os dedos explicativos. Depois do cortejo chegar à Cidade Universitária foi a vez de falar Carvalho da Silva. Tenho-o como um homem honesto, íntegro, de ideais e por vezes, na tv, gosto de o ver quando colocado junto a uma paleta de políticos descarnados, desmemoriados. Faz figura. Mas ali à frente de não sei se um milhar de pessoas, a falar para o vazio como se aquela grande alameda estivesse repleta de espíritos e corpos vibrantes, parecia um daqueles tesouros deprimentes dos Gatos Fedorentos. Tudo no que dizia era velho, gasto, sem força. A única sombra de luminosidade que passou pelo seu discurso foi quando reconheceu que os trabalhadores estão desmotivados com o movimento sindical e que não lhe darão muito mais oportunidades do que a próxima greve geral. O momento a seguir foi patético. Uma outra voz veio dizer que depois do camarada Carvalho da Silva ter falado já nada havia para dizer mas que havia ainda uma moção de apoio à Greve Geral para votar, leu-a, e depois perguntou, alguém se opôe?, ouviram-se uns gritos, uns hurros e umas palmas, e logo, célere, expedita, a conclusão, a moção foi aprovada. Sorri. Há muito que tudo isto não me entristece. Já nem significa. A marcha da exploração do ser humano por outros seres humanos está, como sempre esteve, aí. E parece imparável, quando vista pela perspectiva destes movimentos de contenção do capitalismo, como o movimento sindical, que o Séc. XX exacerbou. Porque o grande problema, e a grande oportunidade, é que já não é pelo dizer que libertamos a nossa vida. É pelo fazer. A exploração do proletariado urbano ou rural, agrícola ou industrial pelos grandes detentores do capital poderia ser um título para uma fascinante viagem no tempo, mas já não nos ajuda a perceber as formas actuais de exploração do ser humano pelo ser humano. Os mitos da propriedade já eram. A propriedade só existe enquanto possibilidade de sobre ela se construir um determinado discurso de sedução. As dinâmicas do consumo são muito mais fortes porque fornecem um padrão universal de catárse e de libertação do sujeito. É na tentação autofágica das grandes classes médias do mundo que podemos encontrar uma das principais explicações para o sofrimento social contemporâneo.
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Foto do Absorto
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A intranquilidade vista do lado da bonança
Há um momento em que estamos intranquilos porque nos entregamos a uma preocupação qualquer. Serve qualquer uma. Na farmácia do bairro duas mulheres mediam a tensão arterial. A primeira, que já deveria andar pelos sessenta anos, obesa como o são regularmente muitos dos portugueses, tinha vinte e quatro-doze. Não tinha um ar intranquilo. Era a sua acompanhante, com pelo menos mais uns dez anos em cima, que explicava ao farmacêutico, não anda a tomar os medicamentos, esquece-se. O esquecimento neste caso poderá ser, se não for uma patologia, sintoma de uma preocupação. O espírito ocupa-se com algo a que dá primazia e depois não pode acudir às tarefas do dia. Olhei-a de alto a baixo. Às mãos, aos pés, sapatos, cabelo branco, papos por baixo dos olhos. E comecei a vesti-los de preocupações várias, todas elas enormes. É um erro de lana caprina dos literatos. Dar grandeza às nossas preocupações. Às vezes são tão pequenas. A segunda mulher tem dezanove-oito. Está preocupada porque a médica lhe substituiu os três comprimidos que tomava por um só. É o remédio que não está a fazer efeito, tenho de lá ir. Ela logo me disse, tome e veja como é e depois venha cá ver se continuamos. Vou lá dizer-lhe que quero voltar aos outros, sentia-me muito bem com eles, andava sempre nos dezassete. O farmacêutico anui com a cabeça. No jogo das preocupações, não tenho dificuldade em atribuir uma a esta mulher. Está ansiosa com a mudança de medicamentação. Está demasiado centrada nesse problema para poder escutar-lhe outra preocupação qualquer. Saio da farmácia e entro no taxi. Comecei a ler há instantes "Viagens no Tempo no Universo de Einstein" de J. Richard Gott II, e não lhe dou atenção. Mas ao chegarmos à Rua da Conceição ele faz uma travagem brusca. Ia tentar ulttrapassar uma fileira de carros e eléctricos, em contravenção, quando reparou que o carro detrás eram dos geninhos. A explicação sobre o termo da gíria taxista solta-lhe a lingua que só estava à espera de um pretexto. Confidencia-me, estou com uma irritação enorme com a minha mulher e a minha filha. O motivo era comum: o carro. A primeira porque lhe andava com o carro mas não punha ar dos pneus, resultado, ontem a caminho de Torres Novas rebentou-se um pneu. Como se não bastasse, o porta-bagagens onde tem o pneu sobresselente estava atulhado de coisas da filha. Reproduz-me, textualmente, a conversa, os ultimatos que deu à filha para a remoção imediata daquelas traquitanas. Com a mulher foi diferente. Ela que tem uma chave do carro pediu-lhe a chave dele. Foi ao carro e depois esqueceu-se dela dentro do carro. Resultado, teve de estragar a fechadura do porta-bagagens. Aquilo estava a dar cabo do pobre homem. Foi nessa altura que olhei para ele. A cara inchada, vermelha, cheia, insuflada com aquele ódio a que nos entregamos com um inexplicável e inatingível amor. Ele sabia disso, já estava na fase da negação da irritação. Eu não posso deixar que isto me possua. Dei-lhe umas palavras de consolo e pú-lo na fila da minha galeria de personagens preocupadas. Estive quase para lhe dizer, olhe, esqueça o porta-bagagens e a fechadura, isso não vale uma preocupação. Mas isso já ele sabia. E eu tinha chegado ao cotovelo da Rua Nova do Trindade onde me costumo apear do táxi. Enquanto tirava o dinheiro do porta-moedas dou um olhar de relance à rua, passa uma mulher, podia dizer que era bonita ou esbelta, a verdade é que não reparei, era uma mulher, o exemplo que precisava, disse-lhe, olhe, pense nelas, nas mulheres, vai ver que ajuda, ontem choveu, hoje o sol está a romper, vai ver que olhar para elas é como olhar para um campo de flores. E dou-me conta de que não era este o post que queria escrever, tinha outra ideia. Queria falar sobre a forma como muitas vezes, a seguir à fase da nossa ocupação excessiva com um determinado problema, nos intranquilizamos com a obsessão em nos tranquilizarmos. Os trabalhos da desinquietação, ou não fosse a nossa natureza tão paradoxal, ao mesmo tempo que nos proporcionam o alívio necessário para as mazelas espirituais quotidianas, tornam-se muitas vezes a nossa preocupação central, tão obssessiva como qualquer outra.
domingo, abril 29, 2007
Da degenerescência das coisas substantivas
Há coisas que não se deveriam escrever, outras que não se deveriam ler. Mas já que as escrevemos e as lemos, fique-nos ao menos um consolo: há ainda um 25 de Abril que nos divide o que, para nós que escrevemos em blogues, não deixa de ser promissor. É claro que, sobre esta questão, o discurso de Paulo Rangel, o principal talvez nos escape entre os dedos e talvez se resuma a um argumento do Luís ( se o próprio lhe prestou a devida atenção é outra questão): " a intervenção de Paulo Rangel é um acto esquizofrénico em relação à actuação do Governo e do seu próprio partido". Ou seja, a intervenção de Rangel enquanto ataque de um deputado da bancada do PSD ao Governo acaba por afundar-se na mera retórica da chincana política e aí a ideia de que aquilo confere dignidade a alguma coisa parece totalmente excêntrica. Dizer que "nunca como hoje se sentiu uma tão grande apetência do poder executivo para conhecer, seduzir e influenciar a agenda mediática" tende, sorrateiramente para a demagogia. O que é o hoje? O hoje de Sócrates? O hoje da sociedade contemporânea, onde integramos a actuação política dos principais partidos? O hoje de Paulo Portas e Durão Barroso onde ainda hoje não se sabe - saber-se-á alguma vez para além da dulcíssima suspeita que se tornou amante de quase todos os nossos actos políticos?- até onde o controlo nas secretas, da agenda mediática, do combate político assassino, condicionou a República?
O mais grave de tudo isto é que Paulo Rangel não tendo razão, falou de coisas verdadeiras, coisas que nos deveriam preocupar a todos, coisas para as quais não nos basta a nossa preocupação. Eu não sei explicar isto muito bem mas é mais ao menos assim o que eu penso: estamos a discutir o nosso tempo com o aparato ideológico que herdámos. Só que o nosso tempo, naquilo que ele tem de mais perturbador, já não é este mas o outro que neste se anuncia. Teremos por isso de o discutir com instrumentos ideológicos desse outro tempo que já hoje se anuncia ou então nunca perceberemos nada daquilo que se passa à nossa volta. Parece díficil? O mais complicado ainda está para vir: para construirmos os instrumentos ideológicos que nos ajudarão a compreender o tempo que se está a forjar nas horas, nos minutos e nos segundos que aqui e agora são, temos de utilizar os esquemas ideológicos que temos arreigados dentro de nós. Já parece suficientemente difícil a tarefa? Ainda não é nada. Vamos lá ao nosso aparato ideológico: ele tem lá dentro um lado A e um lado B. O lado A é o da conservação da tribo através dos trabalhos e ofícios de manutenção do paradigma político, seja ele qual for. O lado B é o da sua superação. É a destituição da tribo, a ideia de comunidade inter-tribal. Conhecemos o exemplo de Gorbachov. Cresceu dentro do partido, ascendeu ao poder como voz do lado A e tornou-se uma referência mundial a partir do momento em que organizou o seu discurso político a partir do lado B. No outro dia tentei aflorar a questão quando falei da forma como todos nós interiorizamos distraidamente o modus operandi totalitário. Sócrates, Portas, Durão, não têm importância nenhuma neste contexto, não é por eles que chegaremos às evidências necessárias. Pelo contrário. Como estamos a construir o totalitarismo em democracia, o que Sócrates avançar no domínio do controlo totalitário sobre a informação que dispomos, que colocamos disponível, será usufuido por um Rangel, um Paulo Rangel que nessa altura já não terá dignidade nenhuma e terá uma revisão em alta das suas gravatas, dos seus fatos, e tudo isso condizirá, não tenhamos disso alguma dúvida, com a estética vigente na época. Não adianta queixarmo-nos. É assim. Cavaco Silva absteve-se no tratado de adesão e foi o primeiro governante a tirar reais dividendos políticos da nossa integração comunitária. Sendo assim o discurso de Rangel é tão importante como a sua gravata descoincidente. Querer que nós vejamos Sócrates como o Grande Ditador - e ainda por cima usando retórica de contrabando como a alusão aos recentes casos mediáticos que envolveram o primeiro-ministro - é um disparate tão grande que só terá alguma produtividade enquanto discurso de manutenção da tribo, mas que, como todos os discursos de tipo A, servem exclusivamente para isso, para esse reforço tribal.
O que o que eu quero dizer é - e não façam ainda festa nem festim da minha incapacidade de explicar o que eu quero dizer - que deveremos analisar o totalitarismo não à luz das antigas permissas ideológicas ( que nos fazem identificá-lo automaticamente com as derivas fascistas e comunistas) mas com uma construção possível nas sociedades democráticas. Politicamente estamos protegidos ideologicamente das derivas totalitárias, mas a Constituição nada nos diz, nem podia dizer, sobre a aventura da totalidade que emerge sobre cada um de nós enquanto sujeito político. Porque por mais que não o pensemos, os nossos mais pequenos actos quotidianos estão carregados de uma dimensão política. É sobre esse paradigma, o da aventura da totalidade, que deveremos discutir esta tentação do Estado controlar toda a informação, ter uma eficiência absoluta sobre os processos de controlo dessa informação. Porque o Estado socrático não se legitima sobre uma qualquer aspiração de mudança de regime - querer imaginá-lo é chegar ao rídiculo de perspectivar Sócrates como aqueles governantes terceiro-mundistas que chegam ao poder democraticamente e se dedicam depois a construir as teias e os tentáculos de um poder discricionário e totalitário - e sim sobre aquela função que lhe parece intrínseca, servir melhor a comunidade. A construção política da aventura da totalidade é apenas um dos seus aspectos. Há anos que qualquer um de nós já se excita com essa aventura de poder estar sempre em todo o lado e em toda a parte. A omnipresença e a omnisciência são duas das condições que qualquer um de nós pede, que digo eu?, pede?!, exige, ao deus tecnológico. Hoje, ao contrário de ontem, o totalitarismo não parece um dispositivo político e ideológico claro, que identifique sem margem para dúvidas opressores e oprimidos. Nem existe repressão, no sentido que nos habituámos a conferir. O que existe hoje é mais suave, chama-se contenção. O Estado, seja o Barroso, o Socrático, contêm as hordas, as tribos selvagens e aí age num pressuposto securitário que encontra eco dentro de nós. Existe antes uma euforia do sujeito entregue à aventura da totalidade. Eu concordo com todos os que se levantarem para exprimirem a sua perplexidade pela forma como esta aventura parece incapaz de nos fazer chegar a uma ideia de felicidade que, como mnemónica de outros tempos, alguns de nós ainda têm dentro de si. E que por isso não a devem esquecer. Devem ser dela testemunho. Para que a perplexidade se instale e a inquietação ainda seja traduzível como sinónimo de felicidade. Há também que não perder de vista isto: a ligação, a conexão, a integração, qualidades que, euforicamente, estamos a explorar hoje, são também elas condições que parecem realizar-se, de uma forma mais plena, ou de uma forma que antes não conhecemos, na aventura da totalidade. Estas atitudes do Estado, que parecem tiques herdados dos totalitarismos tradicionais, não são mais do que emanações da imersão do viver comunitário na aventura da totalidade onde cada um de nós já cedeu, a troco da integração, da conexão, os seus privilégios identitários para um enorme banco comum de dados.
Não vejam nas minhas palavras alguma luz. Eu não sei pensar o que aí vem. Ainda só compreendi a inutilidade de insistirmos em pensá-lo a partir do que já passou.
quarta-feira, abril 18, 2007
A aventura totalitária
Uma das situações que considero mais inquietantes na nossa vida contemporânea é o modo como permeabilizámos os nossos sistemas de representação (social, cultural, política, etc) à avalanche de um novo tipo de totalitarismo e autoritarismo que se constituiu como discurso não assinalado pelos habituais detectores de signos totalitários. Conseguimos facilmente identificar a xenofobia, o racismo, o nacionalismo, as apologias dos diferentes movimentos de natureza neofascista, como manifestações emergentes de um discurso totalitário, mas temos uma grande dificuldade em apercebermos da forma como o modo como organizamos a nossa vida, como falamos de nós e dos outros, como constituímos pensamento, cria por um lado uma disponibilidade interior para a emergência dentro de nós do modo de ser-estar totalitário e por outro uma atitude negligenciadora e mesmo disciplicente em relação à critica dessa irrupção do totalitarismo. São dois momentos diferentes mas que parece obterem um estranho conluio, só que um, o primeiro, caracteriza-se por uma euforia, uma exaltação e o segundo por um medo de que ao pensarmos percamos a conexão com o real. O primeiro é a euforia da publicidade, das mitologias reinantes, do simulacro e da simulação, da realidade já sem marcas de real. Deveríamos um dia poder gravar as conversas sobre o quotidiano. Sobre o que vestimos, sobre o que vemos na televisão, sobre o sexo, sobre o género, sobre o que compramos, sobre o modo como nos divertimos, sobre os modos como porporcionamos divertimento aos nossos filhos. Depois iríamos à arrecadação buscar uma daquelas grelhas de análise estruturalistas e contaríamos quantos vocábulos que expressam uma ideia, um desejo, uma ânsia de totalidade utilizámos e qual a reacção do nosso interlocutor face a isso. Ou seja, a rapidez com que se identificou totalmente com aquilo que dissémos, muitas vezes alargando o contexto desse afecto totalitário. O eu penso ou o eu acho, quando muitas vezes nem houve tempo para aquela operação que pode qualificar o pensamento, a operação de vinculação a uma experiência, seja ela imaginária ou real, e muito menos a procura de uma identidade. Os nossos espaços quotidianos são muitas vezes múltiplos workshops interpessoais onde experimentamos a vivência do totalitarismo, naturalizando-o, interiorizando-o. Os jogos tipicos do desenvolvimento infantil como o mimetismo, levamo-los pela vida fora, sempre. Somos pequenos protótipos de mesmificação. E por outro lado, tentamos anular a nossa tendência para sermos acção e crítica da acção. Critica para quê, se é por ela que nos individualizamos e nós queremos tribalizarmo-nos? É de notar que as tribos modernas evoluiram muito, desenham-se na heterogeneidade, na multiplicidade, na diversidade. O grande problema: isso não é só falso, é também verdadeiro. Realmente as nossas tribos estão mais abertas ao diferente, ao diverso, tanto no plano discursivo como no plano pragmático. Só que nem sempre o tempo joga a favor da actividade crítica. É preciso formar opinião muito rapidamente. E como permanecem activos os dispositivos ideológicos do pós modernismo e do relativismo, tudo se tornou ficção, ficcionável. Para quê esse investimento na realidade então se tudo pode ser relativizado? Por exemplo, houve um caso muito falado recentemente sobre uma sentença de um julgamento que envolvia o Público e o Sporting. As posições de uns e outros estavam expressas no mesmo ciberespaço onde estavam o acordão do tribunal. Isso não impediu que, independentemente da divergência de pontos de vista, estes fossem formulados a partir de dados contraditórios uns com os outros. É apenas um exemplo. Todos nós * conhecemos essas marcas no real que habitamos. O que eu quero dizer é que quando no plano ideológico e político nos apercebemos que se está a forjar uma dicotomia, um exarcerbar maniqueísta, que visa permitir aos sistemas ditos democráticos responderem de forma totalitária, já é demasiado tarde. Já, nos nossos dias, incorporámos de tal forma a aventura totalitária que perdemos a capacidade de nos ligarmos e conectarmos com o outro. Ele é uma ameaça.
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* Estava já a corrigir o post detectei esta marca de totalidade neste mesmo texto. Como é que eu sei que todos nós conhecemos estas marcas no real que habitamos? Fiz algum estudo, andei a perguntar?
quarta-feira, abril 11, 2007
Cheiro a gás
entro em casa. um forte cheiro a gás. nem ligo a luz. abro as janelas. às alpapadelas vejo se tenho o fogão aberto. não tenho. o cheiro a gás é intenso. saio para a rua e vou até ao largo, participar a ocorrência aos bombeiros. entram em minha casa e não detectam nada. já estou à espera do vexame. seis homens olham para mim como se eu fosse um caginchas com as coisas do gás. e sou. mas cheirou-me a gás, justifiquei, já pensando de mim para mim que não devia ter aberto as janelas. de repente já depois da portada da rua um dos bombeiros estaca. chefe, cheira a gás. encosta o nariz à porta da vizinha. e não é pouco, exclama. a minha vizinha tinha deixado a boca do fogão aberta e estava com a casa cheia de gás. os bombeiros acordam-na e pedem-lhe que não acenda a luz. que abra as janelas. e acompanham-na algum tempo, está meio atordoada. à saída o chefe estende-me a mão, e disse-me, fez muito bem, provavelmente de manhã se acordasse ficava ali. Sorri. Tinha passado de medricas a um pequeno herói.
domingo, abril 08, 2007
Manual de Sobrevivência
É quase sempre assim quando vamos somando decisões adiadas como quem colecciona conchas: quando temos que decidir, protelamos. Algumas protelamo-las conscientemente. Quase como represália pela indiferença que sentimos do outro lado. Isto acontece muitas vezes com coisas públicas que ora se tornam muito urgentes, ora parece que nunca existiram. E vamos assim protelando as coisas, uma a uma. Até que toda a nossa vida inexiste como decisão. Não fazemos a barba, não cortamos o cabelo, não vamos ao cinema, não lemos um livro, não escrevemos um texto, não arrumamos a casa, não organizamos o caixote das fotos. Não telefonamos a um amigo. Em estados mais avançados temos até alguma dificuldade em decidir o que é um amigo ou o que é um mero transeunte. Por vezes, em dias de total desespero entramos no eléctrico e sorrimos para o condutor ou para um passageiro como se ele fosse uma tábua de salvação, a nossa única e maior amizade neste mundo. E logo a seguir somos capazes de responder a um amigo com uma secura e uma dureza como se nunca se tivesse cruzado connosco ou como se ele fosse um vampiro. É dura a vida de um indeciso. Até porque a pressão que o envolve, tensifica-o nessa apoteose do decidir. Parece que a sua vida só voltará a sê-lo se ele decidir. E não devemos esquecê-lo, os quadros de referência que partilhamos em sociedade estão as mais das vezes, completamente virados do avesso. Chamamos decisão àquilo que afinal não é mais do que a pulsão mais mesquinha, mais igualitária e menos favorável á criação de uma identidade. Só que o indeciso não o pode saber. Náufrago da enorme lucidez que é, por momentos ter transviado, transfigura-o a angústia do decidir. É preciso escolher. Devemos por isso encarar com especial candura, no caso dos nossos amantes, familiares, amigos ou vizinhos, e auto-complacência, no caso próprio, o facto de, muito frequentemente, começarmos pelas decisões erradas.
sexta-feira, março 30, 2007
O mundo perfeito
Havia um excesso de perfeição no meu primeiro mundo. As cores eram exactas. Os campos eram verdes na primavera, amareleciam no verão. A alfazema tinha a cor da alfazema. A clara e a gema. Uma era branca, a outra amarela. Era como a adivinha. Qual é a coisa, qual é ela? Tudo tinha a sua cor, o seu som, até, o seu prurido de existir. Havia coisas que existiam devagar. Outras que só se sabiam apressadas. Não era deus. Eram as coisas. O seu sussurro. Estimava da mesma forma o ciclone ou a chuva miudinha, que pintava o rebordo das poças onde eu afocinhava as botas ou os sapatos. Às vezes fecho os olhos para ver se, interiormente, ainda consigo tocar este meu mundo perfeito. E não, se vive, se ainda em mim resta, é o intangível que habita. Lembro-me que a minha primeira tristeza a sério foi porque não conseguia ter por verdadeira a perfeição do mundo, tal e qual como eu o sabia. Tinha crescido dentro de mim a consciência da doença do mundo. Era terrível mas era verdade. Al Gore é importante, mas antes dele já a catástrofe se tinha instalado na projecção de mundo que nos alimenta os dias. Aprendi a desesperançar sem desesperar. Sou filho da guerra fria. Não era isso que eu queria dizer. Nunca é isso que eu quero dizer. É por isso que eu gosto de um blogue. Um livro tem que justificar a importância ou a pertinência das coisas que afirma. É por isso que eu gosto de ter um blogue num lugar onde outras pessoas têm blogues. Os escritores de posts são muito menos importantes e pertinentes que os escritores de lombadas duras e grossas. Já me perdi outra vez. Apeteceu-me. Gosto de me perder. Gosto de ir e vir, de imaginar que sou onda, que sou projéctil, mas não, que me detenho. De perder o sentido das coisas que sinto. O mundo hoje é imperfeito. Injusto. Violento. Não tenho tribo, não tenho matilha. Tenho uma comunidade. É isso que me aproxima da primavera, a comunidade. Este mundo imperfeito. Estou próximo de uma alegria que vai durar sete dias e sete noites. Eu sei. É a imperfeição deste meu mundo que mo segreda.
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quarta-feira, março 21, 2007
Epifania culinária
Preencho na memória os passos desta minha primeira caldeirada. Chocos limpos. Sardinha cortada. Peixe avulso, safio, cação, pescada. Cherne. Tomate. Pimento. Cenoura. Courgete. Cebola. Alho. A ver o que dá. Vinho branco. Azeite. Uma a duas horas. A primeira vez. A ver o que dá.
terça-feira, março 20, 2007
Evolução
Saio das aulas de código. Meto-me na bicicleta. Da General Roçadas até casa violo trinta e uma mil regras de trânsito. E agora já sei quais.
sexta-feira, março 16, 2007
Coisas tão simples
A importância dos amigos. Pega num telefone, vai ao correio, ao msn, ao outlook. Desce da tua casa, atravessa a rua. Vai ter com o teu amigo.
quinta-feira, março 15, 2007
Breve
É noite. O rio acorda-me os sentidos. O optimismo.
quarta-feira, março 14, 2007
Dualidade
É assim que eu diria esta dualidade: o meu pessimismo está alojado no cortéx cerebral, o meu optimismo irrompe do batimento cardíaco. Quando danço a festa é de todos, cerebelo incluído. Eu antes, quando tinha dezoito, dezanove anos, e ziguezagueava nas festas das caves dos prédios da vila catió, e mesmo depois, no rock, jamaica, no tóquio, e principalmente no benzina, pensava que não, que a dança era um desconvite ao pensamento. Não me drogava nem me embebedava porque essa nunca foi a minha ganza, mas deixava sempre que o alcoól me levasse à fronteira da consciência. Hoje já prescindo desses suplementos de alma. E porque a festa é dual, já não suporto aqueles lugares que me agridem. É o único momento em que dou razão ao Lopes da Silva, professor na Nova. Estar num sitio esconso, com música a agredir-me os tímpanos, a participar naquele ritual de abanar a cabeça e agitar o copo na mão, é filme que passo. Os meus pés ainda dançam, claro, mas já não suporto estar num sítio a ouvir sempre o meu pessimismo rezingas a picar o meu optimismo bailarino. Divirto-me mais, sou mais alegre, quando eles se entendem.
O pessimismo?
O mundo tornou-se um lugar deprimido. Não falo de cada um de nós. Digo o mundo. Nós, os que estamos entregues a esta loucura da normalidade, entristecemo-nos por vezes e alegramo-nos outras. É a nossa vida. Não falo disso. Digo que o mundo se tornou num lugar deprimido. Oferece pontos de fuga, esconderijos, oásis, resorts, condomínios fechados, lugares ecológicos mas tudo isso reforça a condição depressiva do mundo em que vivemos. Poderemos ser felizes individualmente, mas essa felicidade destrói-nos eticamente. Temos de ser felizes juntos. É a nossa maldição. Como sair daqui? Visconti sublinhava a natureza revolucionária do pessimismo. É através dele que sairemos deste impasse? O mundo não tem uma felicidade verdadeira desde o Muro de Berlim e a Perestroika. Precisamos de ser felizes. Ser felizes não é fecharmos os olhos, não queremos ver, não queremos pensar. Seremos felizes com todas as verdades inconvenientes. Fiquei animado com um comentário que assinalava a alegria que se desprendia dos meus últimos posts. Eu, à força de me ver triste, via-os tristes também. Afinal só eram tristes quando os escrevia. Quando se escreviam, autónomos, independendentes da sua tristeza originária, eram alegres. Estou muito mais animado. Não estou a aumentar a tristeza do mundo com os meus posts impregnados de desesperança. E como a tristeza é uma condição a que não me posso furtar, a menos que faça deste escrever um gesto ainda mais triste e desesperançado, posso continuar a escrever postes tristes e, aos poucos, enquanto os leio, forjar-me na alegria.
terça-feira, março 13, 2007
Relato tendencioso na 3ª Pessoa
Embora não consiga assim do pé para a mão dizer quais, tenho algumas qualidades e virtudes pessoais, disse ele de si para si mesmo.
quarta-feira, março 07, 2007
"Peço desculpa"
No Caracol da Graça, sala de chuto improvisada, mais uma vez. Agora é um homem novo, à volta dos trinta anos. Logo que pressente gente encolhe-se e sem olhar diz para o ar:"-Peço desculpa!". Eu sei que a ONU, através do seu Instituto com a área das drogas, defende que as Salas de Chuto não devem ser permitidas porque as duas únicas saídas legalmente autorizadas nesta área são as do tratamento médico e as da investigação. Mas também sei que a posição defendida pela ONU nada tem de consensual a nível dos especialistas na área da toxicodependência, a começar pelo nosso IDT. É uma questão que mais uma vez tem a ver com o pragmatismo. Para acabar com a humilhação, dizia um cartaz de uma campanha recente. Eu não sei se é humilhante para este homem ter de se injectar a céu aberto. Para mim é humilhante olhá-lo e saber que o sistema que aparentemente me inclui, o exclui a ele. Exclui-o de um mais eficaz controlo da propagação de doenças como a sida ou a hepatite ou de uma prevenção de overdoses. Exclui-o a ele de um estudo sobre as condições em que é feito o consumo de drogas duras. Exclui-nos a nós desse conhecimento. A próxima vez que descer o caracold a Graça serei eu a dizer, peço desculpa.
segunda-feira, março 05, 2007
O meu luto
Apercebo-me de que ainda estou em luto por uma pequena subtileza dos meus dias tristes: a solidão ainda me aparece como uma paisagem intransponível. É um paradoxo. Foi a partir da falta que me fazem os que se foram que redescobri a essencialidade dos que me rodeiam. O luto é assim o que me exalta no amor por algumas pessoas que me rodeiam e que, simultaneamente, atrasa a festa para a qual esse afecto me arrasta.
Há algo de comovente no espectáculo de uma pessoa a reconstruir-se por dentro. Ou se calhar não há e sou eu que sou piegas diante de uma paisagem emocional que é minuciosamente lenta. A mim comovem-me estes pequenos actos de vontade em que um diz a si mesmo, anda, anda procurar a dança. A sonoridade de um mar ausente, senão na memória. Ou os marulhos, como encontrei aqui. Sou absolutamente incapaz de dizer algo inteligente sobre a vida. Fui educado, eduquei-me, a reconhecer um ser humano por atributos que dificilmente encontro no meu dia a dia. Nem em mim. Mais grave do que isso: fui educado e eduquei-me a reconhecer o mundo de uma forma cognitiva. Ora não há coisa mais radical e utópica do que o pensamento. O pensamento é de tal forma radical e utópico que, paradoxalmente, o desabrido exercício da crítica pode destruir o projecto ético que cada um de nós tende a ser. Sabêmo-lo bem demais. Chamamos ao contornar da razão pura, pragmatismo. É um chavão essencial. Qualquer um de nós que em vez do jornal aparentemente grátis saísse de casa folheando a Declaração dos Direitos Humanos enlouquecia antes de conseguir chegar a algum lado. É por isso que a auto-crítica é entendida como uma terapia do sujeito possuído pelo exercício crítico. O cada um entreter-se com os desvios da sua vida costuma ser eficaz treino da complacência, qualidade essencial para a vida quotidiana. Estava eu a dizer que não sei o que a inteligência possa ainda dizer à vida que levamos. Excepto isto: faz ainda todo o sentido tentarmos reconstituir-nos a partir da amabilidade.
Pueril
Tenho a sensação de que se hoje, ao deitar, pensar na bondade da humanidade, amanhã, ao despertar, há-de haver sol que chegue .
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