Há dias que parece que nunca mais acabam ou que nunca acabarão dentro de nós. A frase é quase banal: ela ontem andou à procura de um sitio para morrer. Um plano B se chegar a uma altura em que não possa esperar pela morte na sua casa. Todas as pessoas em todos os dias procuram alguma coisa de tangível e tudo seria banal nesta frase. Até o modo como ela se ria e dizia que todos os três sítios lhe pareceram bons, excepto um, por causa de um pequeno aspecto, o de não terem quartos individuais. Ou de como barafustou contra o Estado, já que não compreendia porque é que quando ao fim de uma longa lista de espera, quando uma pessoa consegue chegar finalmente a um destes lugares, se depois melhora e vai querer beneficiar de apoio domiciliário, se voltar a precisar entra novamente na lista de espera. É por isso que muitas pessoas optam por já não saírem de lá. É difícil esperar a morte em Portugal, chegámos à conclusão e gargalhada atrás de gargalhada até nos esquecemos de que era da sua próxima morte que estávamos a falar. Aliás, no outro dia, e foi a única vez desde este reencontro que lhe vi um bocadinho de água nos olhos, uma nesgazita de nada, quando falou da comoção que tivera ao ler o Sinto muito, do Nuno Lobo Antunes, em que dissera, comoveu-me ver que o que estava escrito é o que eu penso. E depois: " a única coisa que eu gostava ainda de fazer era ajudar as pessoas a não terem medo da morte." São dias que têm horas, minutos e segundos como os outros, são iguaizinhos, não há nada que os distinga, senão esta sensação de que nunca acabarão dentro de nós.
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quinta-feira, janeiro 05, 2012
domingo, agosto 08, 2010
Um dia a nossa morte
Não penso muitas vezes na minha morte. Por vezes não lhe posso virar a cara, como ontem, quando fomos ao hospital visitá-lo e o vi, de peito aberto. Tem quase mais quarenta anos do que eu mas ao lado dele estava um homem muito mais novo, da minha idade, com o peito já fechado. Estranhamente o que me aproximou desse homem não foi a proximidade da sua idade com a minha, foi o estar de portátil ligado. Uma das coisas que mais me impressiona nestes lugares é o tédio. Uma televisão ligada num ponto que permite a visibilidade total vai vomitando generalidades. Das oito camas da enfermaria apenas três estão ocupadas. Os quotidianos. Levantar da cama, ir à casa de banho, ao refeitório, sentar na poltrona, sentar na beira da cama. Passar os dias. Dos cuidados intensivos para a enfermaria intermédia, da enfermaria intermédia para a enfermaria, da enfermaria para casa, a convalescença de um pós-operatório tem estas classes que permitem ao doente fragmentar o tédio. É impressionante o quanto os cuidados de saúde estão a mudar. Passados trinta minutos do final da operação veio logo o cirurgião ter connosco, era espanhol, muito simpático, a perguntarmos-nos se éramos a família do senhor V., éramos, explicou tim-tim por tim-tim os passos da operação, o modo como correra, os procedimentos e cuidados a ter, o percurso pós-operatório. Enquanto ele falava nós olhávamos as paredes à procura de uma câmara de tv, aquilo não parecia o filme da saúde em Portugal, mais se diria um daqueles muitos seriados televisivos americanos. E depois nos gestos do dia-a-dia, nos enfermeiros, nos técnicos que passam, nota-se um brio, uma humanidade que convence. Mas estava a falar da minha morte. Já houve tempos em que tinha como mais recorrente este pensar sobre a morte, sobre a minha morte. Aterrorizava-me a ideia de morrer. Agora já não. É claro que gostava de viver muitos e muitos mais anos mas mentalmente penso em pequenas metas: não gostava de deixar esta vida sem concluir a investigação sobre a escrita teatral que vou começar agora, gostaria também de ter tempo para acabar uma história que comecei há poucas semanas e que poderá vir a ser o primeiro romance que escrevo, de poder fazer a encenação da Evaporação dos Pássaros, de escrever o texto para o espectáculo do Carlos Mendes que ele me pediu, de poder montar o trabalho que propus ao altaCena, de fazer um site com todas as minhas peças, os meus trabalhos, as minhas entrevistas, gostava de conseguir escrever e apresentar um espectáculo de stand-up que comecei a inventar há uns meses, mas isso tudo é mercearia pouca que se avia em dois ou três anos. O que mais me entristece na ideia de que vou morrer, porque aquilo que fiz está feito e não acredito que quando a morte me vier buscar não me encontre sempre com algumas coisas para fazer, é o faltar àqueles que amo.
Principalmente a ele, porque ela já trabalhou muito a perda para saber perceber que não vale a pena zangarmos-nos com o que nos acontece. Ao meu filho ainda acho que é muito cedo para me habituar à ideia de que lhe possa faltar. Sei o que é um filho perder um pai, e eu perdi o meu já na maturidade. No outro dia, ainda estava comigo há uns dois ou três dias das férias comigo, dei com ele assustado, a chorar, ao telefone, pedindo à mãe para o ir buscar. Contou-me depois, costuma sonhar que vão assaltar a casa, matar os seus pais. Queria ir para casa da mãe porque lá está mais habituado a tratar destes assaltos de pânico. Mete-se na cama da mãe e os medos vão-se embora.
"- Há coisas que eu gosto mais de falar com o pai, mas estas coisas eu costumo tratar com a minha mãe!"
Lá arranjámos uma estratégia para sobrevivermos àquela noite. E depois, às outras noites. Falámos muito sobre o medo. Por acaso um dos trabalhos que ele tinha que fazer era inventar uma história. Fizemos dessa história o palco dos seus medos. Foi ele que me propôs:
"- Pai, tenho uma ideia: vou escrever a história de um menino que quando sonho pensa que os seus sonhos são realidade."
Ñem mais. Temos dentro de nós um sistema imunitário não só para os ataques físicos, biológicos, também para os psíquicos. Falei-lhe dos meus medos de infância. Ah! Como é bom e delicioso falarmos, à distância de quarenta anos, dos nossos medos de infância.
"-O Pai também tinha medo que matassem os seus pais? também sonhava com mortes?Expliquei-lhe que sim. Eu tinha um medo terrível de fazer dezoito anos. De ficar sozinho no mundo, sair de casa dos meus pais. Era essa a minha imagem do que era fazer dezoito anos. Em vez de ter a minha mãe e o meu pai à beira da minha cama a darem-me os parabéns e a saudarem o meu primeiro olhar da manhã - e aquela bola de borracha com losângulos negros que fazia parecer ser uma bola de futebol a sério!- tinha os dois, com ar sério, mala feita, a dizerem-me, faz-te à vida, marinheiro, boa sorte. E eu ía para a guerra, para a guerra em África. Foi isso que me ficou de tanto julgamento da bandeira a que assisti, em frente ao Convento de Mafra, das tropas que seguíam para as antigas colónias. E sonhava com mortes claro. Com o ficar sózinho no mundo.
"- Eu às vezes consigo evitar o medo mas outras vezes não, ele fica muito forte, eu vejo mesmo as mortes!"
"- Sabes que isso tem uma coisa boa? Quer dizer que gostas muito de nós e que não nos queres perder.". Não lhe disse, não me apeteceu, que era também uma forma, uma das muitas oportunidades que ele iria ter de "vivenciar" a nossa morte para se preparar para ela. Abraçámo-nos. A morte, a ideia de que vamos morrer, de que não vamos ficar eternamente a aturarmo-nos um ao outro, uniu-nos num nó cego.
quinta-feira, julho 24, 2008
Conversa (ainda) de olhos fechados
Ainda não é dia. Já não é noite. Sabemos que vem aí um novo levantar. Um novo fincar os pés no chão. Um novo não perceber, ir percebendo, até que, exaustos, ao cair da noite, os corpos rebentam do excesso de compreensão, de amor, de sexo. Serão sempre assim as nossas vidas. Por isso aquela ronha matinal. O falar dos sonhos.
- Tive dois sonhos estranhíssimos.
É sempre assim. Para uma coisa a sério, uma brincadeira. Não consigo evitar.
- Estranhíssimos.
Ela levanta a protecção dos olhos. Sinto-o. Olha para mim e vê que estou de olhos fechados. Fecha também os dela. Sinto-o. Conto-lhe o primeiro sonho. Adiante. É uma intimidade de casal. É uma peta para que o dia acorde a sorrir.
- E o outro sonho?
- Sonhei que ía num carro com o Luís a conduzir, eu ía ao lado, atrás ía a Cláudia, a Anabela e o Telmo. A certa altura a Cláudia, que estava no banco atrás de mim, dá-me a mão, faz-me uma festa na cabeça, eu agarro a mão dela, começo a chorar, depois o Luís desata a chorar também, um choro forte, nunca tinha visto um homem a chorar assim, a Anabela também, a certa altura a Elena passa num carocha ao nosso lado, está com um penteado parisiense, meio basco mas enfim, parisiense, olha-nos, percebe porque é que estamos a chorar, sorri, acelera, e de repente o nosso choro transforma-se em riso, um riso franco, o riso do Luís continua a ser o mais forte, o mais bonito, e depois olho para ele, olho para trás, e já só estava o Telmo e a Anabela, a Cláudia tinha desaparecido.
- É curioso....
- O quê?
- Eu também sonhei contigo e que a certa altura tu estavas a chorar abraçado a uma pessoa. E que depois saía de ti uma grande calma, uma espécie de luz.
Abro os olhos. A luz que entra no quarto dá-lhe uma paz imensa. Não sei que horas são, estou-me ralando.
- Quando dormimos com uma pessoa às vezes entramos dentro dos seus sonhos.- disse-me.
sexta-feira, junho 20, 2008
O dia em que a borboleta voou
Para sempre, a e-ternuridade.
sexta-feira, abril 25, 2008
Cabra-cega
Não me lembro de alguma vez ter morrido. Algo me diz que se o tivesse feito me lembraria. Pela força do que seria esse acontecimento em mim. É uma dedução lógica. Depois penso, a morte é isso, é o esquecimento total, a impossibilidade de ligar vidas entre as quais o definhar se intrometeu. É uma boa ideia, uma ideia agradável: a morte é uma intromissão. Ou mesmo uma intrusa. É por isso natural que eu não me lembre de alguma vez ter morrido. Se eu já tivesse morrido nunca me iria lembrar. Morrer é esquecer, é quebrar os elos, os laços, os vínculos. Todos os que morreram já se esqueceram da sua morte. É intrigante o trabalho que a linguagem faz ao pensamento: quando comecei este texto estava convicto de que o não me lembrar que alguma vez tivesse morrido fosse a demonstração categórica de que nunca tal tinha acontecido. E agora, no fim do texto, confronto-me exactamente com a possibilidade inversa: a de que o não me lembrar se alguma vez morri poder ser a demonstração irrefutável de que de facto já morri. Afago-me com esse pequeno consolo de alma: a morte não é uma evidência.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A serpente e o meu amigo
Faltava um dia para o ano velho acabar o seu reinado. Acordei de um sonho estranho. Um amigo, um dos meus melhores amigos - faltavam uns vinte minutos para entrar em cena, já todo o teatro estava reunido para a função - fora engolido por uma serpente. Foi a sua última récita. A serpente tentara-me apanhar a mim também mas, convenientemente, despertei naquele momento. Senti-me em paz. Nesse dia telefonei a um especialista na interpretação dos sonhos. Disse-me, era o espírito do seu amigo despreendendo-se de si.
segunda-feira, novembro 19, 2007
A morte é uma flôr
Vai fazer por estes dias um ano que ficaste por aquelas paisagens absurdas da Patagónia Chilena. Pensa nisso como uma traição se quiseres, nestes trezentos e cinquenta e seis dias tentei em vão esquecer-te.
Era assim na primeira pessoa que eu imaginei este texto. Que sabia obrigatório por mais silêncios que, agora, me povoem. A Celta escrevia neste blogue. E que acabo por escrever na terceira pessoa. Da forma mais seca que consigo. A Celta, a Zé, a Maria José Margarido, tal como a Cláudia, a Pedra, a Cláudia Magalhães, faziam parte da minha vida, da nossa vida mais prometedora. Fazer o luto delas foi das experiências mais dolorosas que já passei. E não posso dizer que o meu corpo de dor não tivesse tido já momentos de fortíssimo abalo. Já tinha enterrado um pai que amava profundamente. Que amava como quem se refresca junto de uma árvore que tem por - eternamente - frondosa e macia.
Olho para estes quase trezentos e sessenta e cinco dias, desde o momento em que a Intérprete e a mãe entraram no Pequeno Herói para me avisarem e, para juntos, irmos ter com a Quimera, e depois com esta para sabermos da Origami e do Miguel (como se de repente nos déssemos conta da pequena família que éramos) e vejo-a varrida por um vendaval. Tantas vezes cheguei a temer enlouquecer que não sei ao certo se enlouqueci, se o lugar de onde vos escrevo não é já a mais refinada loucura. Que importa isso? A razão, o lugar da razão, e muito menos dessa razão normativa e prudente, não diz nada sobre o corpo de dor e esse é que é o traço que nos distingue. Uma tempestade tão forte por dentro do território da perda e da reconquista da minha identidade que quando, há dois meses, um amigo de há vinte e três anos ininterruptos - e que eu sempre julguei, para minha felicidade, que envelheceríamos juntos - se atirou de uma janela de um quinto andar eu só tive discernimento para, sorrindo, lhe dizer, já ele se estatelava em profundo voo kamikaze, ah, flamingo!
Não tenho lágrimas para ti, Celta...
Há uma morte no mundo mas infelizmente essa não ocorre quando morremos. É quando vivemos. É quando vivemos que a nossa morte ocorre. É quando e da forma que vivemos que morre ou vive o nosso fenecimento. Uma morte que em dias da minha vida já levou o meu pai, o meu amigo Pedro, a Zé, a Cláudia, pode-me levar a mim também que eu não esbracejarei. Talvez a tente fintar como a Tia Míséria fez com as nozes (naquele espectáculo do Bando, Nós de um Segredo), gostaria de ficar o maior tempo que me for possível junto daqueles que amo, daqueles que me amam, mas sei que agora se, ao ver-me morrer, esbracejasse, morria duas vezes. E da segunda vez seria de inutilidade que morreria. Sou uma parte do mundo onde vivo, não mais do que isso. Uma molécula. Um pedaço de chama acesa. Energia. O nome que me deram, a familia que, como uma história, me entregaram, a pátria a que me confinaram, são apenas os pormenores.
E os pormenores são como os penduricalhos. Os que morreram, os meus mortos, acordam-me todos os dias pela madrugada e sussurram-me, incitam-me a ser combustão lenta, a querer a vida, a querer dançar e cantar. Não falo apenas por dentro do contentamento. Poderia nunca ter encontrado ninguém com quem verdadeiramente dançar e cantar e diria a mesma coisa: há apenas dançar e cantar.
Ou, se o preferirem com outras palavras, há um fogo aberto no centro do mundo. Rendo-me à minha condição de partícula. Aqueles que amam a linguagem mais do que o ardor da pele em combustão, dizem que é o amor, ou que é deus. Outros há que não dizem nada. Ardem, silenciosamente. Amor, deus, silêncio. De tudo, e de nada disso, será feito o fogo que arde a Terra.
Não tenho lágrimas para ti, Celta. Apenas flores, muitas flores.
Ler também:
A mestre sala
Fez um ano está na hora
segunda-feira, outubro 29, 2007
O tempo, esse eterno
É o tempo que é preciso, pensei, quando a deixei mais os pequenos quase nadas que ainda poderiam entrepôr-se, como materialidade sensitiva, entre nós e aquela memória inexistente.
Não há prazos para um desfalecimento como também não os há para um esquecimento. E nunca é muito ou pouco, é o que é necessário para que a imagem se esvazie. E sobre ela se construa não outra, mas o vazio com que não queríamos lidar quando, de modo quase infantil, pintálgamos o espaço deserto.
Viveremos melhor quando não confundirmos a sua infindável crueza,
com crueldade.
Se um dia, em vida das minhas utopias e esperançamentos, voltar a acreditar em deus,
será a ele, o Tempo,
que me dedicarei.
É ele que transforma a pele. Não só dotando-a de escamas, fazendo do bípede um homem ou uma mulher peixe, também enrugando-a, envelhecendo-a, fazendo de cada marca uma história.
Viveremos melhor quando aprendermos a não lutar contra ele.
quarta-feira, outubro 17, 2007
Que Esperar de Nós? *
"Imaginemos jovens de dezoito, dezanove, vinte anos, a entrarem todos os dias pela porta de um hospital para iniciarem o seu percurso de formação como enfermeiros. A aprenderem de cor a cartografia do corpo, o de fora e o de dentro, os seus acidentes, o relevo, os seus rios, as suas rugas, crispações. Trata-se de uma ciência em que o exacto se conjuga com o inexacto, o aproximado. Durante quatro anos é aqui - nesta matéria acidentada e irregular que é a pessoa - que os iremos encontrar. E um dia surpreendemo-nos porque percebemos que o mais difícil que lhes é pedido não é o conhecimento nem a técnica: é que sobrevivam à morte que ronda cada corpo, cada presença, cada um de nós. Lembro-me bem do momento especial em que me dei conta disso. E também me recordo que foi aí que começou este espectáculo.
Quando o propus sabia que eles não iam recusar este desafio. Embora da nossa relação com a morte faça parte este jogo de esconde-esconde, quase infantil, de socialmente metermos a cabeça debaixo da terra à espera que ela passe, este grupo com quem venho trabalhando sem interrupções desde o final de 2003, é um grupo-coragem. Nenhum de nós sabia no entanto em que se iria transformar esta viagem e não é uma metáfora, este espectáculo constituiu-se como uma peregrinação aos nossos lugares, às nossas histórias.
A ideia era criarmos o espectáculo a partir de todos os materiais que encontrássemos. Não o escondo, tenho desde muito cedo, na minha experiência teatral, uma utopia: a criação do próprio texto pelos actores. Assumo a minha filiação teatral: a expressão dramática e a criação colectiva. Isto que começou por ser uma utopia literal, evoluiu. Em relação aos actores essa evolução surge quando a certa altura comecei a compreender que os actores não precisavam de escrever palavras, eles são por si só texto, escrevem-se, no evoluir da sua presença, do seu corpo físico e espiritual, da sua energia, carne, vísceras, sangue e molécula, no espaço cénico. O Ricardo Rodrigues falará disso, creio, foi assim que distribuímos as vozes neste programa. O Ricardo, que começou o primeiro espectáculo que dirigi para o Teatro Andamento a dizer que não se sentia tão à vontade na escrita, que se realizava mais na leitura, dando por isso origem à personagem do Quasimodo no "Que esperar de nós?". Ele diz-me também que esta minha relação de trabalho com o Andamento termina, nalguns sítios, com um círculo perfeito: é ele que teve a missão de assumir, através da escrita, as várias discursividades dispersas que fomos atirando para cima do chão da sala de trabalho, textos, imagens, improvisações.
A construção deste espectáculo atravessou fases que, na metodologia que defendo, e já assumi que sou fiel à minha árvore, são muito raras num grupo que trabalha sem condições: tivemos a partir de certa a ajuda da AMARA, que acompanhou o grupo num trabalho que, como se vê, tem muito a ver com as nossas projecções sobre a morte. Depois, a certo momento do trabalho criativo, teve uma equipa de escrita, que ia relançando propostas para exploração e que ajudou a estruturar o espectáculo. E por fim, contámos desde quase o início com a colaboração da Margarida Rodrigues, que para além de nos ter feito o registo vídeo do processo de trabalho, o que nos permitiu estabilizar e fixar o trabalho de improvisação, partilhou connosco a construção da visão cénica de "A Morte é uma Flor!".
Há uma parte deste espectáculo que guardo para mim, como todos nós: a forma como ele me ajudou a conviver com a morte, com os meus mortos. Penso neles ao despedir-me deste trabalho, ao fechar os olhos e pensar por momentos na viagem que terminou: a D. Morte andou muito gulosa durante o tempo em que andámos à procura deste espectáculo. Não vou falar em nomes. A morte é o inominável. Os meus mortos juntam-se com os deles e desse chão improvável nasce uma flor. Além disso aqui na sala de trabalho, que para mim é dos raros lugares deste mundo, lugar onde contamos, sabemos as mortes de uns e dos outros, partilhámo-los durante esta jornada.
Este percurso tinha uma permissa: iriamos procurar, investigar, trazer à evidência tudo o que nos pudesse ajudar a falar sobre a morte. E para isso foi fundamental que assumissemos que sabíamos muito pouco. Sabemos o valor do toque, do olhar, da presença. Onde as palavras falham neste jogo imenso de cabra-cega. É com essa matéria que construi a encenação.
Teatralmente fecho assim um ciclo, que começou com "O que esperar de nós?", em que trabalhámos sobre a escola, o seu espaço físico, através de improvisações, que continuou com "O Gato", texto meu, espectáculo que não conseguiu cumprir a dinâmica de animação que desde o início o grupo tinha perspectivado e que neste caso tínhamos pensado através da integração dos mais idosos, mas que trouxe o grupo para o exterior, através da sua presença no FATAL, e agora este "A Morte é uma Flor", que realiza um desafio que desde o "Que esperar de nós?" julguei inadiável: o confronto de um grupo que não tem espaço físico próprio com uma sala de teatro onde pudesse estar um determinado tempo a confrontar-se com a escuridão da sala, com a sua luz cénica, com a presença dos vários elementos teatrais. E até, com a compreensão do lugar do camarim na relação com o trabalho do actor. É em tudo feliz o fecho deste trabalho, até neste desenhar da morte simbólica do animador que sempre fui, que sempre serei. A morte é uma flor…"
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* Texto para o programa do espectáculo "A Morte é uma Flor", a estrear amanhã na Guilherme Coussul.
sábado, setembro 15, 2007
"O tempo é mais do que a vida. Nós ficamos velhos e morremos e o tempo nunca fica velho e morre, há sempre tempo a mais que sobra para as pessoas que cá ficam."
A sabedoria de uma criança de cinco anos. Quando é que nós começamos a desaprender?
[Da caixa de comentários. Trazido pelo Eduardo do Prélude à l’après-midi d’un faune ]
domingo, setembro 09, 2007
Baltazar
domingo, agosto 26, 2007
Eduardo Prado Coelho
Cruzei-me com este homem várias vezes. A primeira foi em Paris, creio que em 1996, no Festival de Teatro Português em França. Ele era o representante do Instituto Camões naquela cidade. Depois voltei a encontrá-lo como professor num mestrado no ISCTE. E num Congresso Ibérico de Comunicação em Málaga. Nessa cidade descobrimos que gostávamos de tomar o pequeno almoço no mesmo sítio e partilhámos por isso mesa e conversas. Depois disso encontrei-o várias vezes por aí e era sempre afável e simpático comigo. É assim que dele me recordo. Um homem conversador, com gosto em falar, em discorrer, com uma cultura literária e estética muito forte, que dava tudo, mas tudo mesmo, por uma boa polémica.
segunda-feira, julho 23, 2007
A dimensão oculta
Procurei por todas as imagens no albúm. No cartão de memória. No Picasa. Não sei se foi por efeito de sugestão mas umas até tinham cheiros. Odores. Não havia era nenhuma tridimensional.
quinta-feira, abril 05, 2007
O meu amigo
O meu amigo é beleza pura. Olho para ele e dificilmente vejo olhos, nem mesmo aqueles olhos vivos, expressivos, indíos, nem nariz, nem boca, nem orelhas, nem rosto. Vejo tesouros sulcados na terra, no ar, nos mares. É como se a sua face fosse o mapa das histórias que me conta. Há quase sempre algo de épico nelas. Com ele compreendo o verdadeiro sentido da palavra justiça.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.
sexta-feira, março 09, 2007
Despedida breve
"(...) É verdadeiramente em vão que se sofre por esperar qualquer coisa que nos causa perturbação! Assim, o mais temível dos males, a morte, nada tem a ver connosco: quando somos a morte não é, e quando a morte é somos nós que já não existimos! (...)" *
Ontem quando cheguei à capela mortuária e vi o corpo do meu primo Nuno estendido no caixão, não sei se era pela serenidade e tranquilidade das suas mãos cruzadas uma sobre a outra, não sei se foi pelo bonomia que se soltava da sua face, apercebi-me, com uma clareza inabitual, e quando eu digo que me apercebi com uma clareza inabitual quero dizer que o aceitei com uma clarividência que não era apenas cognitiva, era também afectiva, ou seja, que não havia aí algum temor, nenhuma interpretação, que quando somos a morte não é, e que quando a morte é somos nós que já não existimos.
Subsiste ainda por mais alguns momentos o problema do corpo com a cara da pessoa viva. Mas até isso neste caso, pensava eu enquanto nos dirigíamos ao crematório do Cemitério dos Olivais, dura pouco mais. Nada disso me pareceu especialmente triste. Ou a única coisa verdadeiramente triste, sem subtítulos nem legendagem, que por ali encontrei, foi o sofrimento e a dor dos vivos.
-----------------
* De Epicuro, Carta Sobre a Felicidade, trad. João Forte, Lisboa, Relógio d'Água, 1994 retirado de O Bem Viver em Skapsis.
segunda-feira, março 05, 2007
O meu luto
Apercebo-me de que ainda estou em luto por uma pequena subtileza dos meus dias tristes: a solidão ainda me aparece como uma paisagem intransponível. É um paradoxo. Foi a partir da falta que me fazem os que se foram que redescobri a essencialidade dos que me rodeiam. O luto é assim o que me exalta no amor por algumas pessoas que me rodeiam e que, simultaneamente, atrasa a festa para a qual esse afecto me arrasta.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
A morte é uma estrela, Princesa
A contar os dias novos, aqui.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Double mind
Hás-de reparar: exorcizamos os nossos mortos através da fala, do discurso. Temos que falar neles até a voz se desfazer em grão e o grão em ar. Poderia ser de outro modo: cavaríamos um buraco tão fundo que tivesse o mesmo efeito-alçapão que emprestamos ao linguarejar, mas não tardaria não viveríamos numa cidade, sim num enorme queijo suiço. E ainda mais: com aqueles que comungam dos nossos mortos, a empatia é tão profunda que as mais das vezes só já lá vai com silêncios. Precisamos por isso de falar e temos que o fazer com aqueles que nos têm como os seus vivos. O problema é que quando o fazemos ouvimos o inevitável, vá, tira a mão do queixo, o que lá vai, lá vai. E então, enquanto morrem os nossos vivos, os nossos mortos perduram-se em vida.
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