domingo, dezembro 19, 2004

Massada de Bacalhau

Há umas semanas ao passar no pingo doce catrapisquei umas aparas de bacalhau, e de imediato me lembrei de quando lá em casa era tempo dele. O meu pai - nós todos - adorava tirar umas aparas e queimá-las, apenas no bico do fogão. Atirei a embalagem para o carrinho. A embalagem andou ali detrás para a frente e eu, na volta do olhar, sempre a saborear aquele travo antigo. Experimentei o sabor antigo daquele petisco mas hoje tenho uma relação completamente diferente com o sal e não fui além da tentativa. Resolvi por isso pôr o bacalhau de molho. Ao terceiro dia, ontem, impunha-se uma solução. Resolvi cozer o bacalhau. Estava simultaneamente a fazer uma sopa de alho françês, na qual tinha investido todo o meu método. Pareceu-me assim indicado que me deixasse improvisar sobre o bacalhau. A certa altura a minha costela alentejana falou mais alto: temperei o caldo da cozedura com orégãos, salsa e outras ervas. Estava com mão de artista, aquela mão impulsiva que faz de tudo que esteja no raio do gesto, um condimento provável. Um pacote de massa de canudos aberto há muito tempo deu-me a inspiração final. Iria fazer massada de bacalhau. Pelo menos a conjugação massa + bacalhau, assim me parecia autorizar. Imaginava um prato suficientemente aguado, com o caldo do bacalhau, da massa, dos orégãos, da salsa, do estragão. Se eu soubesse o que sei hoje teria posto também cebola, tomate, cenoura. Hei-de voltar um dia, prometo. Conclusão, ou happy end, se pensarmos que a aprendizagem é sempre um final feliz: hoje ao almoço, enquanto ele se deliciava com os douradinhos, obriguei-me a provar aquela massa consistente, aquele betão armado. Com um sorriso na cara.

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