• respirar o mesmo ar

    Quarta-feira, Maio 14, 2008

    Curto circuito cósmico

    Uma vida é afinal um espaço entre duas mortes. Manifestação de comunhão.

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    A folha encravada

    "De lo que tengo miedo es de tu miedo."
    William Shakespeare. Citado pela Amélie.
    O Eduardo traz uma pergunta que começa a inquietar-nos: seremos capazes de ultrapassar as crises energética, alimentar e financeira que se avizinham, e, principalmente, o reposicionamento mundial em relação à procura e oferta de bens e serviços, sem guerra?
    Estou à dez minutos parado diante da folha que de repente encravou. A única coisa que poderia fazer no imediato que um blogue é, seria dar lugar ao pessimismo. A vida diz-nos que o mais provável é que os senhores da especulação dos mercados financeiros, petrolífero e alimentar transfiram os seus negócios para o fabrico de armas. E quando eles o fizerem, aí a guerra vai acontecer mesmo. Inapelavelmente.
    Por alguma razão a folha encravou. É Maio e apetece-me pensar que há saída. Que podemos ter outra vida. Viver de outro modo. E que será lá, nesse lugar onde poderemos ir ter, que encontraremos algumas respostas à nossa inquietação de hoje. Quero crer que sim.

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    Uma semana

    Uma viagem da mãe, trouxe-o uma semana para junto de mim. Foi uma prenda antecipada. Andei numa roda viva, a comprar uma secretária nova para ele, que já é um homem, tem de fazer as suas contas, as suas letras. Uma correria para arrumar a casa. O jantar saiu-me todo do avesso. Até o tranquilo hamburger com arroz foi perturbado por excesso de sal no arroz. Eu que nunca ponho sal. A sopa de alho francês ficou aguada. Mas ele nem deu pela coisa. Jantámos no quintal, ainda havia luz do dia, e, debaixo da nova pérgula, divertimo-nos a olhar para cima, para os vizinhos que nos catrapiscavam. Brincamos muito. Tem sentido de humor. Logo no primeiro momento em que o encontrei eu percebi que ía ser feliz: olhou para mim com olhar cúmplice, contente. E depois havia de me dar um abraço muito forte, aconchegado. Dá-me força, esta fragilidade.

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    Terça-feira, Maio 13, 2008

    A Delta e o Zé

    Por causa deste post deste post fui dar a este texto que me comoveu. A relação que temos com os animais é algo que me emociona. E esta história, pela forma como é contada, pela forma como o cão-guia assume o cuidar do dono, tocou-me. Ainda ontem tinhamos estado a falar de cães na esplanada, a propósito do Petra, o cão de um amigo. E depois lembrei-me que ao Zé V. também o tinha conhecido em casa de uma amiga, há poucos anos.
    Vai assim em forma de abraço, este post.

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    Segunda-feira, Maio 12, 2008

    Homem nascido em Maio

    eu precisava de um maio assim. não me importa a aragem, um pouco fria. não me importa a casa vazia desde que a casa vazia seja uma casa cheia de vazio. não me importo. sou de maio e em maio floresço sempre. começo por esvaziar o vazio da casa com o teu riso. quando te canto e tu me dizes como se não existisses, ou não fosses real, mas o meu sonho transmutado, não pares de cantar. é em maio e de repente. parece-me que tudo isto é sonho e que eu não preciso de morrer para ele ser real enquanto sonho. estou a desfazer-me em ternura. por vezes acontece-me. tudo o que em mim é quimica, molécula, substância conflui numa única sensação: ternura. mataria a linguagem para o descrever com mais exactidão: aos quarenta e cinco anos homem nascido em maio rebenta de afecto. desfiz-me do ódio ao mesmo tempo que me livrei da minha ideia de superioridade. passei por um deserto. muitas vezes ainda olho para a minha descrença, para o meu não saber, para a minha ausência e acontece-me duvidar. duvido do lugar e do modo. olho para a certeza dos outros, para a certeza dos lugares dos outros, para a certeza das coisas dos outros e duvido. é um repente mas é. será que eu não estou apenas a encher o meu vazio?, pergunto-me. ontem estava a compôr mentalmente a mesa do meu jantar de aniversário e entristeci-me rapidamente. uma pequena núvem passou-me por dentro da menina dos olhos. o meu amigo Pedro não vai estar lá. como sempre esteve. nem a Zé. nem a Cláudia. os meus mortos embora me entristeçam, como se um leve entardecer viesse de repente ao dia cedo que ainda é, fazem-me mais do lado de cá, da vida. mesmo não percebendo nada. mas o que é perceber? gastar o tempo a dizer acho que, penso que, na minha opinião? cheguei a um lugar e a um modo em que a terra é clarividente sobre o destino a dar à linguagem: silêncio.
    um silêncio a ferver.

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    Poesia Vertical de Alberto Juarroz

    As últimas estruturas estão gastas
    e é preciso mudá-las,
    sobretudo as mais finas.
    jjjj

    Desmantelar o ar, por exemplo.
    Desmantelar o pensamento.
    Mas substitui-los por quê?
    jjjjj
    Há que pôr o ar no lugar do pensamento.
    Há que pôr o pensamento no lugar do ar.

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    Quinta-feira, Maio 08, 2008

    21 de Maio

    Ora aí está uma data que me diz muito. Eu chego lá à 1 da manhã. E tu?

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    Quarta-feira, Maio 07, 2008

    Backup : "O que nos ilumina!"

    [Ao procurar o ponto em que tinha deixado de fazer backup do respirar vou até uma manhã de janeiro de 2007, onde encontro um texto onde continuo a bater na sempre mesmíssima tecla do sentido. ]
    "O que eu queria dizer - e nem sei se verdadeiramente o desejava confessar - é que já não sei o sentido da vida mas, quando escrevo, quando me sento a escrever, quando preparo o ambiente para saborear este acto de escrita, penso que sou um gajo cheio de sorte por ainda me reconhecer neste gesto meio oficinal de procurar as imagens das palavras e de as descrever, sabendo que o que expresso, é muito menor do que o poema que neste momento me comove. O mais engraçado é que toda esta conversa começou na minha cabeça porque ontem, quando Sinisterra disse que " há um princípio coercivo (fábula, história, enredo) que é impossível dissociar do trabalho dramatúrgico, porque, entre outras razões, o homem está biologicamente programado para procurar o sentido" eu o contraditei logo ali, no meu pensamento. Talvez o que nos distinga não é o estarmos biologicamente programados para procurar o sentido. Lá em baixo, no pátio, o cão da vila fá-lo muito melhor do que eu. O que me distingue, é que biologicamente eu estou programado para me dissociar do sentido, para o perder. É isso que me distingue de todos os seres vivos que conheço. Só na minha efabulação da vida é que eu consigo perceber que um animal perdeu o sentido da sua existência. O animismo que o sustenta é um movimento e o movimento é, em todos os seres vivos menos nos homens e nas mulheres, sentido. A (im) possibilidade do humano, não é a procura do sentido. É a possibilidade de o perdermos. É isso que nos ilumina.

    Des envolver

    Ontem, por acaso falava Maria de Lurdes Rodrigues - que, mesmo já pouco acreditando nela gostei, mais uma vez, de escutar - ouvi pela primeira vez esta palavra: des envolver. Aliás, des envolvimento.

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    Há vinte anos depois

    Estou quase a ser feliz, pensei. Aliás, disse-o de outro modo: se o máximo de contristura que consegues é esse olhar vazio de mundo, está na hora de escancarares o riso e fazeres a tua hora. Já houve um tempo muito antigo onde eu percebia as coisas. Percebia perceber. É certo que hoje sei o quanto menos sabia então em relação ao conhecimento que se espalhou por tudo o que sou: pele, olhar, pensamento, desejo, vontade, ânimo, querer. Mas sabia e agora não sei. Hoje não só não sei como até estranho esta minha capacidade de continuar no jogo não sabendo. Não percebo nada do mundo onde vivo. Vai-se-me escapando até o sentido da vida que vivo. Acordei e pensei, hoje vou tardar-me em mim. Tomei banho e uma vontade súbita de música despertou-me. Fui até ao seu leitor de dvds, em cima a cara inconfundível de milton, sentinela e caçador de mim, esta canção que já foi uma minha bandeira. Penso por momentos no enorme que é não tanto amar, sim o amor acontecer desta forma inquestionável. Talvez por isso o meu desafecto crescente pela linguagem. Ando a escrever o mundo pelo avesso da linguagem. A minha médica disse-mo por outras palavras quando me viu os exames desta rotina de ex-fumador: bela respiração esta, sim senhor. Nos meus tempos antigos eu pensava que cada um devia cada coisa ao mundo. O dom da vida, do nascer, do andarmos aqui, era também esse sentimento de gratidão, de dádiva aos outros. Eu creio que muitos dos meus amigos ou das pessoas com quem partilhei pedaços de vida, mesmo que muitas vezes o retrato público dos seus actos possa ser bem diferente, agiram nesse propósito. Passou-se muita coisa desde esse pensamento juvenil até hoje. Deixei de ser um jovem. Sinto-me leve como uma criança mas deixei de ser um jovem. O mundo não espera nada de mim, não tem razão para o fazer. Aliás, o mundo não existe. Existes tu ai às voltas para me compreenderes. Ou para te compreenderes naquilo que escrevo. Atrás de mim agora Tom Jobim. Amo a costela brasileira do meu amor. O mundo não espera nada de mim nem eu nada do mundo. Há vinte anos eu pensava que se chegasse aqui, a este não perceber, me suicidava. Hoje, na bonomia com que olho o que fui penso que se alguma réstea da dureza ideológica da minha juventude me restasse eu diria que há vinte anos essa minha necessidade de perceber foi um suícidio diário. Uma sangria de tudo. Talvez seja uma obsessão: não acredito na linguagem. Às vezes vêem-me em silêncio e pensam-me triste e eu a entristecer-me a sério pela forma como esse olhar quer tornar inevitável que eu explique a minha não tristeza por palavras. As palavras estão doentes, as palavras são a doença. Eu sei que a doença é a própria vida, é esse o nosso paroxismo, mas isso não quer dizer que nos entreguemos festivamente às palavras. Devemo-las dizer com nojo. Neste mesmo momento há alguém que nos mercados mundiais está a vender a paz, a tranquilidade, o bem estar, a possibilidade humana de milhares, de centenas de milhares de pessoas e está-o a fazer com palavras, as mesmas que utilizo para abrir um pouco este vale, vale?, cratera, que é o meu pensamento. Há vinte anos atrás eu não sabia que se chegasse aqui a este lugar não só não me suicidava como começava a sentir a minha pele na música que vem por detrás de mim. Que tenho esperança neste dia. Neste dia onde mais uma vez chego ao meu beco: a única forma de estabelecer algum continuum com aquele que fui é continuar a escrever, como me dizia um amigo meu, a escrever, não a cantar. É isso que se pode esperar de mim: a metamorfose que é olhar a chuva miudinha lá fora e pensar, diante do meu desejo de que a chuva cresça: será que vai chover o suficiente para que as alfaces que transplantei ontem - e que têm estado tão murchinhas, coitadinhas! - vinguem, e que na sua vingança se tornem tão viçosas como as suas irmãs no canteiro ao lado?
    Estou quase a ser feliz, penso.

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    65,66,67,68, Pai!

    Amigos

    Há coisas que são inevitáveis. A morte. O riso. A alegria farta e natural diante do encontro, do amor, dos amigos, da festa. É inevitável também a linguagem. O cio. O ciciar. A tua pele, depois de a fazer minha. E agora, para mim, os 46. Ao começar a pedir reserva aos amigos apercebo-me dos mundos diferentes que cabem numa lista telefónica. Os novos amigos. Os amigos de sempre. Os amigos de caminhada. Os amigos breves, mas imensos, na imensidão que um pedaço de dia por vezes consegue ser numa vida inteira. À medida que vou compondo a lista apercebo-me de que é na amizade que me insatisfaço mais, é nela que melhor se revela esta minha incapacidade crónica para me dar. Este meu medinho de ser gente.
    Em silêncio, faço uma jura, a partir de agora vai ser diferente, a partir de agora nunca esquecerei um amigo, uma hora, um abraço.

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    Terça-feira, Maio 06, 2008

    Rotas da fome

    De repente é impossivel deixar de ser (e pensar) global. Devo ter o cérebro do tamanho de uma azeitona: é que até encontro algum consolo e tranquilidade nesta crise alimentar. O problema é grave, muito grave. Tem a ver com a fome. Não é possível defendermos a nossa humanidade diante da fome do outro. O problema é grave e permite perceber como é que as nossas sociedades estão presas por um fio. O movimento especulativo já não sobre os mercados financeiros, que são eminentemente dados à mais valia desporporcionada, mas sobre o preço dos bens de primeira necessidade. Sendo grave, é especialmente grave porque de repente há o espectro que nos afecte a nós. De repente estamos ligados a uma realidade que há muito é uma das maiores vergonhas do mundo civilizado. Vai à agenda política a fome do miserável, do indigente. É um sinal positivo. Outro sinal positivo: a solução deste problema pode estar no regresso à terra, aos cultivos. E pode tornar-nos mais sensíveis ao mundo onde vivemos.

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    O acordo

    Há uma coisa que me anda a aborrecer: a sua recusa em comer legumes. Bróculos, cenouras, couves, alface, tomate, são os seus inimigos privados. E eu a lembrar-me da infância em Mafra, da fartura sempre de legumes, de fruta, e isso anos e anos depois a mostrar folha de serviço na prevenção da saúde. Com a minha mãe havia um castigo: não gostas comes a dobrar. Prenúncios de caretas quando vinha a sopa de tomate ou a sopa knorr, eram recebidos com colherada dupla. Não posso aplicar-lhe o mesmo castigo. Primeiro perdi a autoridade. Um tipo não pode aplicar a autoridade quando descrê dela, pelo menos da forma como a aprendeu. Depois, seria um erro de estratégia, já lhe ensinei o truque com o qual inutilizámos o castigo materno: a nossa descoberta que afinal não era de sopa de tomate ou de sopa knorr, nham-nham, que não gostávamos, mas de mousse de chocolate, de sumol, de batatas fritas, bolas de berlim, e um conjunto de guloseimas e doces que nos provocavam esgares de repulsa e nojo. A minha mãe ainda levou a sério as nossas mudanças abruptas de paladar mas depois decretou-nos curados. Afinal de contas nós já comíamos sem refilar aquilo que tanto nos agoniava.
    Andei por isso preocupado uns dias. O rapaz está bem, o problema é o futuro. Não é por descrer também do futuro que vou hipotecar o de uma criança que está a crescer. Transplantei por isso a minha estratégia em relação à quantidade de comida: um dia farto dos constantes, posso comer só a carninha?, posso não comer mais?, disse-lhe,
    - olha, vou-te propôr um acordo,
    ele olhou para mim desconfiado, estava com o prato e meio e já tinha começado no pára-arranca,
    - fazemos assim, Pedro: quando não quiseres comer mais, colocas os talheres na posição relativa a quem já acabou a refeição.
    olhou para mim desconfiado,
    - é só isso o acordo?
    eu sorri.
    - É, é só isso. Achas justo?
    É claro que ele pôs imediatamente os talheres em posição de final de refeição, olhando para mim incrédulo diante do prato meio cheio.
    - Já viste a quantidade de comida que deixaste?
    - O pai disse.
    - Pois disse. O meu objectivo ao dizer-te isso é que tu aprendas a quantidade de comida de que necessitas e que saibas ser responsável por isso. Se tu fores uma criança saudável e a nossa saúde tem muito a ver com a nossa alimentação, tu vais viver uma vida mais agradável. Isso é bom para mim que sou teu pai e gosto que tenhas uma vida boa, mas é bom principalmente para ti. É bom que sejas responsável por isso.
    -Então se o pai disse eu escolhi e pronto.
    -Tudo bem. Não morres por deixares metade no prato hoje. Mas toma atenção, este acordo só funciona se tu fores responsável. E se eu vir que este acordo não funciona vamos ter de arranjar outra solução. E parece-me que a outra solução é pior para ti e para mim.
    Estamos os dois contentes com o acordo. Basta-me olhar para o prato dele para saber em que ponto estamos e ele tem procurado ser mais responsável. É claro que isto também é possível porque ele está a crescer.
    Transplantei a mesma estratégia.
    - Olha, Pedro, há uma coisa que me anda a preocupar.
    Ele a tentar conciliar.
    - Eu gosto de alface, não gosto é dela temperada. Eu posso comer a alface se não estiver arranjadinha.
    - Não Pedro, isto tem de ser mais a sério. Tu estás a deixar passar uma altura que é muito importante para o teu crescimento. Tens de comer muita fruta e muitos legumes. Além disso a tua capacidade de adaptação é mínima. Não podes esperar sempre encontrar uma ementa à grande chefe Pedro.
    - Mas eu não gosto de bróculos.
    - Vamos fazer uma coisa. Antes de vires para minha casa naquela semana em que a mãe vai sair, eu vou fazer uma lista de coisas que quero que tu comeces a comer.
    - Bróculos não, Pai.
    - Bróculos sim. Mas vamos fazer uma coisa. Tu podes meter três coisas novas que tu gostes na lista, em substituição de três que tu não gostes.
    - Dónuts bolas de berlim, Pai?
    - Qualquer coisa que tu queiras. E anulas três coisas de que não gostes mesmo.
    - Posso trocar os bróculos pelas bolas de berlim?
    - Podes, claro que podes.
    A esta altura já ele tinha enterrado a sua desconfiança e era um adepto cada vez mais entusiasta do acordo.
    - E depois, quando vieres para essa semana, falamos e escolhemos em que dia é que queremos experimentar cada uma das novas coisas. E até me podes ajudar a cozinhá-las, para ficarem à tua maneira.
    Estava radiante. Quando o entreguei à mãe foi ele a explicar a força do acordo. É claro que o primeiro ponto por onde ele começou foi o "sabia que eu posso trocar os bróculos pelos dónuts bolas de berlim"?

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    Verão de Maio

    Estes dias de Maio a começar são sempre bons para o prazer. Passeios a pé pela areia molhada, pai, vamos até ali ao fim da praia!, esta ideia de ir até ao fim da praia, onde é que aprendemos todos as mesmas ideias?, a mesma forma de pensar?, do outro lado do túnel de pedra a possível passagem para a adraga, o penhasco de pedras é imponente, a vista treme, estremece, voltamos a correr, inventamos exercícios enquanto corremos, jogamos com as raquetes dentro de água só para atirar voos malucos e podermos mergulhar na água fria, depois batemos recordes com as raquetes, confesso que quando ele me disse, vamos jogar pai, eu pensei, não tem piada nenhuma, não consegues dar mais de dois toques, de repente começamos a entendermo-nos, chegamos aos 24. Aí, só aí, ele confessa que igualámos o recorde com o tio. Depois passamos os 34. Igualámos o recorde que o tio tem com a prima mais velha. E depois, já no pequeno jardim em frente da casa de Galamares, a confirmação: 68. Sessenta e oito toques de raquete. Abraçamo-nos como dois campeões. E somos, à nossa maneira somos os nossos campeões.

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    Segunda-feira, Maio 05, 2008

    O que fazer?

    Quando acordei, hoje de manhã, desatei a rir, diante do disparate que foi o meu sonho. Não sei em que contexto, mas sonhei que Cavaco e Silva tinha demitido Sócrates (havia levemente a ideia de que seria estender a passadeira a Manuela Ferreira Leite) e marcado novas eleições. Este não concorria porque resolvia afrontar o presidente esperando pelas eleições presidenciais para tentar impedir que Cavaco ganhasse um segundo mandato. Já não me lembro se ganhava. Não sei se devo ir a um psicanalista dos sonhos ou se deva iniciar concorrência ao Zandinga. Não deve haver muitos individuos adultos, até aí sem indícios e episódios de demência, a sonharem de livre e expontânea vontade com Sócrates e com Cavaco.

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    A outra dimensão

    Não sou de viver no passado. O passado a mim diz-me muito pouco. Gostava muito que estivessem cá alguns que se foram - e eu sem saber para onde - mas não o tempo que com eles também foi. Lugares, pessoas, tudo. Não sei de tempos, de casas. Nem mesmo de amores, essas substâncias que muitas vezes tem uma alquimia mais difícil, principalmente quando temos de reconhecer que ali ou acolá fomos uns pequenos safardotes egoístas. Este desapego pelo passado é também despreendimento em relação à memória. Em calhando lembro-me e até, de muitas coisas. Não sou também um futurista. Quase nunca faço planos. Espero passar o mais possível de tempo com quem amo e nesta vida, gosto do pó, da poeira, da ferrugem, do muco, mas o único plano que tenho por certo é morrer e mesmo esse, nunca o agendarei. A vida é uma vertigem e isso sabe-me bem aos sentidos. Com estes predicados dir-se-ía que vivo no presente. Nada de mais enganador. Se não fosse o meu corpo a lembrar-me, através de uma dor ou de um prazer, até me esqueceria de que sou matéria tangível. Vivo, desde pequeno, num outro mundo. Antes, por comodidade, chamava-lhe o mundo da lua. O mundo dos sonhos. Agora até esses pequenos descritores de alma me parecem peso a mais para esta estranha leveza com que acordo.

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    MC-L7C

    O Movimento Cívico - Levem a Sete (do Oito e Coisa) à Colômbia deu resultado. E sorte também. Assim, quando ela voltar, Barcelona estará mais à sua espera. Boa Sorte, 7 !

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    Sábado, Maio 03, 2008

    Hot Club

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    Sexta-feira, Maio 02, 2008

    A zona da "não política"

    No outro dia cruzei-me na Brasileira do Chiado num café rápido com uma francesa, amiga de uma amiga minha. Aquela conversa habitual sobre a cidade. Ela estava muito intrigada porque não viu os sem abrigo (sdf's) a dormir no metro. Em Paris, antes do metro fechar, hordas de sdf's fazem do metropolitano abrigos subterrâneos. Disse-lhe que cá não. Cá, quando faz muito frio umas senhoras das irmandades laicas ou religiosas vão distribuir mantas. Se o frio aperta ainda mais as senhoras antes de distribuir mantas passam pelo paço municipal e são capazes de fazer com que a Câmara distribua umas rações quentes ou improvise uns abrigos. No Natal alguns deles dão boas histórias a estagiários ou jornalistas desinspirados mas os sem-abrigo não têm nenhum valor político. Os eleitores das nossas democracias vivem dentro de casas. Nenhum político se lembraria de fazer parte substancial da sua campanha a fazer retornar à política os votos dessa mole humana que dorme nas ruas, por baixo das escadas ou das arcadas dos prédios. E vendo bem, seria uma ideia estimulante, quase uma espécie de filho pródigo: andamos aqui a consumir a nossa esperança na democracia num desencanto aburguesado e de repente, do fundo esconso das ruas mal cheirosas deste país viriam os novos democratas. Não é provável que isso aconteça, nem mesmo com o nosso Paulinho das farturas, dos pescadores, dos mercados e das vendas de fruta. Os sem abrigo, sem domicilio fixo, continuarão a poder ao menos dormir em paz sem serem sacudidos a meio do sono pelo fantasma da demagogia e da falsa política. O seu domínio são as confrarias religiosas, as associações cívicas. Nós não só não moramos na rua como vamos perdendo a nossa capacidade empática.

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    Quinta-feira, Maio 01, 2008

    O dogma (anti) democrático (1)

    [jean paul marat]
    Dizer-vos que sou democrata é para mim tão significativo como dizer-vos merda com coentros, que foi o primeiro palavrão que me saiu à boca para vos impressionar sobre a minha expressividade vernácula. Estou - nos meus dias de sorte, de bem-aventurança - a chegar aos limites do que é possível comunicar para um tipo que tem um blogue: ou seja, apercebi-me, faz quase cinco anos que aqui ando, que precisaria de dizer algumas palavras antes de me poder remeter ao silêncio. Ainda me lembro quando entrevistei Jacques Lecoq, um grande mimo já desaparecido da cena da arte e da vida: perguntei-lhe porquê as palavras na mímica, ele respondeu-me, é ainda preciso algumas palavras antes de podermos entendermo-nos sem elas. É isso que sinto, que sinto nos meus dias bons. Tudo isto para vos falar de democracia!!! Escrevo como um perdulário. Como se tivesse todo o tempo para vos escrever e falar. Como se esta doença mortal que trago no corpo, a própria vida, um dia não pudesse, sem pré-aviso, estacar-me o fluxo, o rio. Vou - mais uma vez - direito ao assunto: dizer-vos que sou democrata não quer dizer nada. Os meus pais ensinaram-me a dizer que sou democrata. Eles, o meu pai que foi um modesto empregado de escritório que ía votar no Salazar a pensar que - mesmo não vivendo numa democracia - era um democrata e a minha mãe, uma humilde professora primária que tinha sido obrigada a inscrever-se na Mocidade Portuguesa, também tinham sido ensinados a dizer que eram democratas. O meu filho também anda num colégio onde o ensinam a dizer que é um democrata. Eu quero dizer-lhe que é bom ser democrata, que é bom poder dizer que somos democratas, que a democracia é uma escola de virtudes da política, mas quero ensinar-lhe ainda que a democracia não é, mesmo no relativo que é a nossa humanidade, um absoluto. O absoluto, o pequeno deus a que devemos prostar-nos, todos e tudo, inclusive as nossas democracias, é a preservação da ( e a perseverância na) dignidade da vida humana. Independentemente daquilo que para cada um de nós signifique uma vida (con) digna. Só depois vem tudo o mais: as religiões universais, as regiões, as religiões regionais, os países, as religiões nacionais, a própria democracia, o comércio, o lazer, o prazer. E os vizinhos, as estradas, os churrascos de primavera, as festas, as compras ao fim de semana no Lidl, o bricolage no Ikea, a vida sem complicações no Pingo Doce. Os blogues. Há cerca de trinta e cinco anos houve neste país uma revolução que tornou a urgência social uma causa. Não tinhamos democracia. Tinhamos uma panela de água a ferver a que chamávamos país, o nosso país. A ideia de comunidade, de partilha, era prestigiante: Um filho da mãe não poderia ir à televisão dizer que precisávamos de conter o défice se esse mesmo cabresto andasse a chupar e a fazer sangrar o défice público com as suas mordomias públicas. Não tinhamos Marat, não precisámos de cortar pescoços mas não ía. Hoje esse mesmo filho da puta pode ir e ainda por cima pode fazê-lo impunemente porque as nossas democracias amadurecidas transportaram para a zona da não política a resolução dos verdadeiros problemas das pessoas. Na zona da política fica todo esse contrabando indecoroso que é a pequena baixela dos negócios políticos, dos públicos negócios políticos, dos fantasmas, das demagogias.

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    O dogma (anti) democrático

    "Há-de alguém no futuro vir dizer-nos aquilo que alguns de nós já sentem como a sua dor de pensamento: a escravidão do humano é uma realidade não política. Conseguimos bani-la da política mas não acabámos com ela. Só a expulsámos das nossas imagens, das nossas imagens conscientes. "
    Ficou-me a ressoar esta ideia. É quase impossível discutirmos as nossas democracias. Ia agora escrever, é esta incapacidade de a discutirmos que destrói as nossas democracias e de repente apercebo-me que estou mais uma vez bem dentro da caverna, da falácia democrática. A discussão não é o absoluto. É terapêutica, compensadora, relaxante, abre mundos e o próprio mundo, mas não é um absoluto. Aliás, o que ela faz, é tornar absoluta a linguagem. A linguagem, esta putéfia com que articulo este engodo que é escrever ( É tão absoluta a trapaça que até a fonética ilude a sua negação. Digo desescrever e ouve-se quase distintamente, descrever). Não devemos por isso discutir as nossas democracias. Devemos suplantá-las. A bem do bem comum, da comunidade. Os comerciantes, os pequenos, médios, grandes e globais comerciantes (os filiados nesse grande partido global dos negócios, como dizia no outro dia o Luís a propósito do PPN, a sua célula lusa) já são donos e senhores das nossas democracias.

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    Quarta-feira, Abril 30, 2008

    Todos iguais

    Ontem o Apicultor veio cá. Tenho um enorme orgulho em ser seu amigo. É um privilégio. Veio falar-me da terra e do filho. Brindei-o com um resto de pimento e tomate recheado, uma delícia. Pedi-lhe conselho para as alfaces, para as couves. Ou sobre a origem de algumas plantas. Depois falámos sobre a crise dos cereais, dei-lhe a ler uma reportagem do Público sobre um pastor da Mauritânia, que me tinha revirado do avesso. Ele partilha da tese de que tudo isto se deve, para além de uma intensa especulação, ao aumento de consumo de carne em países como a China ou a India, provocado por uma exportação do nosso modo de vida a camadas da população que vivem melhor. O consumo de carne, a alimentação dos animais são para ele uma grande justificação para o aumento do consumo de cereais. E fiquei a pensar nesta nossa existência paradoxal. É este querermos ser iguais que perpetua, tragicamente, a escravidão. Há-de alguém no futuro vir dizer-nos aquilo que alguns de nós já sentem como a sua dor de pensamento: a escravidão do humano é uma realidade não política. Conseguimos bani-la da política mas não acabámos com ela. Só a expulsámos das nossas imagens, das nossas imagens conscientes. Para que o pai abastado da criança europeia possa adormecer a sua cria sem o doloroso pesar de se inscrever numa comunidade esclavagista. Depois, ao limpar a tijela da fruta apercebo-me de que a pera abacate que comprara apodrecera. Também uma banana. Deito-a para o lixo e digo ao Apicultor:
    - Acabei de deitar para o lixo o suficiente para saciar hoje a fome de uma pessoa.

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    Segunda-feira, Abril 28, 2008

    A 27 de Abril

    Venho de um 25 de Abril alentejano onde faltou sempre o tempo para a bloga. Leio o texto 1383-85, não gosto do que digo, não gosto do que penso, sinto que o devo dizer, que é necessário dizê-lo, libertar o 25 de Abril de muito do sequestro comemorativo. Eu não disse evocativo. depois procuro outros textos sobre o dia 25. Revejo-me neste do Rui Bebiano e também no do Luís Januário a que RB faz referência.

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    Sexta-feira, Abril 25, 2008

    1383-85

    25 de Abril, a revolução dos outros. Olho para trás e sinto um pequeno embargo de emoção quando conto ao meu filho as histórias da revolução, os seus heróis. Vou guardar os textos que aqui escrevi e oferecer-lhos um dia. Depois olho para a enxurrada de novos baronetes que vieram no arrasto revolucionário, pós-revolucionário, pré-reformista e reformista que se lhe seguiu, constato ainda que a estes novos titulares de uma pequena, média, burguesia se vieram juntar os antigos barões e condes e viscondes. Verifico que se acha natural e curial haver titulares de cargos públicos a auferirem vencimentos escandalosos que são suportados por um apertar do torniquete sobre os rendimentos daqueles que trabalham. Absorvo a ideia de que os jovens estão para os recibos verdes como os velhotes para as reformas indigentes. Olho ainda para a atenção e o empenho com que a coisa pública se entrega à paixão do outro. Não deixo de prestar atenção à forma exemplar com que a especulação atingiu o osso do negócio da exploração do homem sobre o homem. Escondo os olhos sobre esta revolução dos outros. O 25 de Abril já não é a minha revolução. A minha revolução será a próxima. Este blogue não é o meu projecto global mas posso dizê-lo, o mais provocatoriamente que conseguir, o 25 de Abril já foi a minha revolução. Ouço falar no 25 de Abril e lembro-me do Borges Coelho que aprendi no secundário e dentro da minha cabeça ecoa 1385. Também havia burguesia, urros do povo, nobreza entalada, mas foi há muito mais tempo. O que, paradoxalmente, faz com que o mitema revolucionário esteja muito mais fresco, muito mais forte.

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    Cabra-cega

    Não me lembro de alguma vez ter morrido. Algo me diz que se o tivesse feito me lembraria. Pela força do que seria esse acontecimento em mim. É uma dedução lógica. Depois penso, a morte é isso, é o esquecimento total, a impossibilidade de ligar vidas entre as quais o definhar se intrometeu. É uma boa ideia, uma ideia agradável: a morte é uma intromissão. Ou mesmo uma intrusa. É por isso natural que eu não me lembre de alguma vez ter morrido. Se eu já tivesse morrido nunca me iria lembrar. Morrer é esquecer, é quebrar os elos, os laços, os vínculos. Todos os que morreram já se esqueceram da sua morte. É intrigante o trabalho que a linguagem faz ao pensamento: quando comecei este texto estava convicto de que o não me lembrar que alguma vez tivesse morrido fosse a demonstração categórica de que nunca tal tinha acontecido. E agora, no fim do texto, confronto-me exactamente com a possibilidade inversa: a de que o não me lembrar se alguma vez morri poder ser a demonstração irrefutável de que de facto já morri. Afago-me com esse pequeno consolo de alma: a morte não é uma evidência.

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    Quinta-feira, Abril 24, 2008

    Arroz global

    Não quero ouvir. Ouço na televisão a voz do apresentador dizer que os especialistas dizem que a subida do preço do arroz pode levar à morte de cem milhões de pessoas. Depois, logo a seguir, ouço o apresentador tranquilizar-nos. Em Portugal não deve haver racionamento. E logo a seguir uma imagem de um panelão de arroz de cabidela. E eu sinto-me aflito, aflito. Ou terrorista, como confessava no outro dia a Isabela. Ouvi também que esta crise do arroz só nos chegará daqui a seis meses, quando se tiverem de comprar os novos stocks. Ou seja, já estou a ver os especuladores a guardarem o arroz em stock para o poderem vender mais alto. Não sei o que dizer.

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    A personagem que eu sou

    Comecei hoje um projecto fascinante. Depois de duas horas e meia de conversa com a actriz Ângela Pinto eu percebo que ainda estou com os nervos à flor da pele. Que ainda estou vivo. Voltei a apaixonar-me pelo mundo, pelo teatro? O que é isto?

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    A 7 para a Colômbia, já!

    É uma história de solidariedades várias entrelaçadas. Parece até um pouco estranha, principalmente pelo paradoxo do enredo burocrático que ela comporta: torna-se possível defender uma tese por vídeo-conferência mas para fazer a matrícula tem de se ter um documento que necessita de nós ao vivo e a cores. A Sete, da Oito e Coisa, necessita de terminar o seu mestrado e para isso tem de ir, de Barcelona onde vive, a Bogotá, para se matricular e não tem recursos para isso. Aqui sabem-se as razões. Ou as histórias que nestes últimos oito anos fomos sabendo do vínculo que a foi ligando à terra colombiana. Onde se casou, onde teve uma filha. E onde se foi especializando e apaixonando nas questões do género. É um prazer estender aqui esta ponte aérea com a Sete. (Leia aqui e deposite aqui NIB 003505570003099100061).

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