Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

Um pai à beira de um ataque de nervos

Eu estava completamente enervado. Explodi com ele, várias vezes, como há muito, muito tempo não fazia. Era uma coisa de somenos. Tinha feito um hambúrguer com arroz e achei que ele poderia querer mais. Fiz-lhe um ovo e antes perguntei-lhe:

- Gostas de ovo estrelado?
- Sim.
Lá fiz todo contente o ovo. Quando ele chega à mesa percebo logo pelo olhar dele que vamos ter festa. 
- Eu não gosto de ovo estrelado, pai. O pai devia saber.
- Eu perguntei, Pedro. Eu perguntei.
Ele não desarmou:
- Está bem, eu fiz mal, não estava atento, mas o pai também fez mal, porque não se lembrou de que eu não gosto de ovo estrelado. 
Disse-lhe que não havia nenhuma hipótese de ele não comer o ovo. E que não ia para casa do amigo (estava combinado ele ir fazer um trabalho de grupo) e que no dia seguinte não íria à festa.
- O que é que preferes? Ficas contente?
Neste momento eu já sabia que me aproximava de uma zona perigosa em que, provavelmente, eu iria borregar. 
- Fico triste claro. Fico triste porque vou ter negativa no meu trabalho a ciências e o meu amigo também. E fico triste porque não vou à festa.
Estava quase a perder a cabeça. Eu estava muito irascível, o diabo de um medicamento que tinha tomado por causa de uma alergia provocada pela alimentação andava-me a fazer sentir muito instável, gritei com ele. A certa altura disse-lhe, tentando arranjar uma saída através do humor:
- Olha, eu vou-te colocar aqui o telefone da violência contra menores e depois vou-te agarrar no ovo e metê-lo na tua boca e vais ficar todo sujo e não podes ir à festa. E depois telefonas para a violência contra os menores e dizes para virem prender o teu pai.
Ele riu mas ao mesmo tempo senti que estava nervoso. Há uns cinco anos  num dia de desespero tinha-lhe metido a sopa pela boca abaixo. Esse dia ficou  marcado tanto para ele como para mim e só a simples evocação de que eu possa voltar fazer o mesmo coloca-o na linha de água. E digo, não há nada de mais horrível do que vê-lo chorar quando se sente ofendido. Não faz alarde. Fica muito sério, quase não se mexe, e de repente a água vem-lhe em jorros aos olhos. É tudo tão rápido que só nessa altura é que percebo que fiz asneira. Mas desta vez o ele rir-se pareceu-me estranho.
- Olha, Pedro, tu sabes que eu estou à beira de um ataque de nervos e que daqui a nada sou capaz de fazer um disparate e enfiar-te o ovo pela boca adentro? Tu percebes o quanto enervado estou? Estava a querer fazer tudo bem, fiz um arroz sopinpa, o hambúrguer é muito bom e agora estragamos uma refeição porque tu não consegues comer ovo estrelado? Tu percebes mesmo o quanto enervado estou
- Sei, claro que sei, é por isso que estou a sorrir. 
- É por isso que estava a sorrir?
- Sim. Para ver se o pai fica mais bem disposto.
- O que é que disseste?
- Eu percebi que o pai estava muito enervado e por isso é que estava a sorrir. Para ver se o pai ficava bem disposto outra vez.
Confesso que percebi logo que a história do ovo tinha acabado ali. Abraçámo-nos e pusémos um ponto final neste imbróglio todo. E fez-se mais uma vez luz sobre o veredicto de um amigo quando, no nascimento do Pedro, lhe telefonei desesperado,"é pá Manel, como é que eu faço para ser um bom pai". Ele, do outro lado, calmo: "o teu filho vai-te ensinar a ser bom pai".  Não sei se me ensina a ser bom pai. Mas melhor pessoa sem dúvida. 

Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

É difícil esperar a morte em Portugal

Há dias que parece que nunca mais acabam ou que nunca acabarão dentro de nós.   A frase é quase banal: ela ontem andou à procura de um sitio para morrer. Um plano B se chegar a uma altura em que não possa esperar pela morte na sua casa. Todas as pessoas em todos os dias procuram alguma coisa de tangível  e tudo seria banal nesta frase. Até o modo como ela se ria e dizia que todos os três sítios lhe pareceram bons, excepto um, por causa de um pequeno aspecto, o de não terem quartos individuais. Ou de como barafustou contra o Estado, já que não compreendia porque é que quando ao fim de uma longa lista de espera, quando uma pessoa consegue chegar finalmente a um destes lugares, se depois melhora e vai querer beneficiar de apoio domiciliário, se voltar a precisar entra novamente na lista de espera. É por isso que muitas pessoas optam por já não saírem de lá. É difícil esperar a morte em Portugal, chegámos à conclusão e gargalhada atrás de gargalhada até nos esquecemos de que era da sua próxima morte que estávamos a falar. Aliás, no outro dia, e foi a única vez desde este reencontro que lhe vi um bocadinho de água nos olhos, uma nesgazita de nada, quando falou da comoção que tivera ao ler o Sinto muito, do Nuno Lobo Antunes, em que dissera, comoveu-me ver que o que estava escrito é o que eu penso.  E depois: " a única coisa que eu gostava ainda de fazer era ajudar as pessoas a não terem medo da morte." São dias que têm horas, minutos e segundos como os outros, são iguaizinhos, não há nada que os distinga, senão esta sensação de que nunca acabarão dentro de nós. 

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

O amor, esse lugar efémero


Não sei porque escolhi um barco no meio do Tejo, entre a lezíria e a cidade,  para escrever sobre o amor. Talvez seja porque, e não sei se em desacordo ideológico com muito do que sobre o amor é comum partilharmos uns com os outros, ele, sendo construído sobre um sentimento, é, tal como a arte, uma experiência onde essa identidade mutante, mutável, que habita em cada um de nós durante aquilo a que chamamos o tempo das nossas vidas, é sempre o ponto de partida e de chegada. Sendo o amor um lento trabalho de depuração, ele será sempre injusto para com as suas histórias pretéritas, já que é no presente e no futuro que ele há-de projectar corrigir os erros, as omissões, e as acções cometidas no passado. Poderá parecer isto ingrato, cruel até, no entanto também é a forma de sabermos que o amor verdadeiro não é mais do que uma busca sempre em movimento de devir.

Quinta-feira, Dezembro 01, 2011

Transparência


Surge-me uma palavra para dar título a um post que ainda não sei se escreverei. Nojo, período de. Entra dentro de mim um silêncio ingénuo e transparente e eu sei que sou os olhos que me vêem. Sei-o com tanta simplicidade que estaco a palavra naquele lugar onde ela nunca diz. Nunca fui daquela ciência profunda dos corpos revirados até ao mais intímo pormenor, mas agora imagino a fina ironia do cardiologista ao perceber que, um pouco em contra-mão com aquilo que as literaturas e até as próprias religiões insinuam, o batimento cardíaco é um dos movimentos mais egoístas que o ser humano tem. E poderá ser talvez nesse instante de sobrevivência egóica que vislumbremos o verdadeiro, autêntico e sincero altruísmo do mundo.

Sábado, Novembro 19, 2011

A grande lição


Há trinta e um anos aprendi a desmanchar a minha vida na sala de tapetes vermelhos da Comuna Teatro Pesquisa. Foi uma viagem, um aprendizado num curso de expressão dramático dirigido pelo João Mota. Numa altura em que todos precisamos de ter os nossos mestres, aprendi com ele a vontade de ser verdade, de querer ser autêntico, de não ser auto-complacente. Ele tinha 38 anos. Hoje tem 69 anos e voltou a dar-me uma grande lição. A de que não há uma idade para baixarmos os braços. O orçamento é importante mas não é tudo. Serve até, muitas vezes, para replicar uma atitude de consumo na cultura, a mesma atitude consumista que queremos muito sinceramente contrariar na sociedade. Há muitas coisas de base que o Teatro D. Maria não faz e que não têm a ver com dinheiro. Tem a ver com uma ideia de teatro. O corte brutal no orçamento do Teatro D. Maria II coloca um problema sério, grave. Diogo Infante achou que não o conseguia resolver. João Mota achou que pode tentar fazê-lo. E gostei das suas palavras:  “Nunca pensei em dirigir o Nacional. Aceitei porque é um desafio, tal como foi um desafio fundar A Comuna no pré-25 de Abril, sem dinheiro, sem apoios e em ditadura. Não sei se vou ser capaz, com tão pouco dinheiro e um corte tão grande.Menos 36% é muita coisa, mas vou tentar, com muita energia.” E conclui: “Tenho coragem para isso e também me dará muito prazer tentar. O país está em crise, todos temos obrigação de tentar, de fazer a nossa parte.”



Terça-feira, Novembro 15, 2011

Greve Geral dia 24

Hoje dei por mim a pensar que a diferença entre um capitalista e um sindicalista é que este é o único que ainda acredita no capitalismo.
Enquanto que o primeiro já percebeu que o sistema deu de si e,  extremando a molécula de rapinagem que sempre perturbou o seu ADN,  quer sacar tudo o que pode já nem se preocupando em salvar a aparência democrática com que a sociedade de mercado sempre tratou dos seus negócios, o sindicalista continua a acreditar que com um pouco mais de solidariedade e respeito pelos mais desprotegidos o capitalismo ainda pode sentar-se à mesa de uma qualquer negociação destinada a melhorar a vida da humanidade.
          O sindicalista irá ao enterro do capitalista como que velando a sua própria morte.

Cultura: provocação e debate

Há bastantes anos um jornal, num repto a umas declarações de Santos Silva, o ministro da Cultura de então, entrevistava uma série de intelectuais conotados com a Direita e a quem perguntava se a Cultura era de Esquerda. Pacheco Pereira, num célebre artigo, "O que não acontece no acontece", glosava também o tema. E eu, enquanto ia para o debate "A Cultura e a Greve Geral", que o Teatro do Bairro acolheu e dava pontapés nas pedras do caminho, hábito que tenho quando estou irritado ( hoje por causa da "livraria" Pingo Doce) ia cá pensando no título do debate, e a pensar que era bem curiosa a nossa relação com a cultura: achamos que ela é  o que os agentes culturais fazem e ainda mais comummente achamos que é aquilo que os criadores artísticos fazem . E essa produção cultural, e esses artistas - e por uma história que é bem mais complexa do que este post pode pretender contar - são geralmente conotados com os povos e as tribos de esquerda, da mesma forma que a área da economia - por razões bem menos complexas - é geralmente conotada com os povos e tribos de direita. 

Este tipo de maniqueísmo pode ser muito divertido mas distrai a nossa atenção de se concentrar numa coisa bem mais importante: a cultura não sendo o que os produtores culturais e criadores artísticos produzem, é tudo aquilo que as pessoas produzem como resultado da sua relação com os outros, com o mundo, consigo próprias, com os seus tempos livres, com os seus tempos de trabalho. Assim se passamos mais ou menos tempo frente a uma televisão,  nas associações de bairro, nas igrejas, em actividades de grupo ou individuais, nos corredores de um centro comercial, na entrega mais ou menos obcecada a satisfações da ordem do consumo, se vamos pouco ou muito ao teatro, ao cinema, a exposições, aos nossos jardins, passear à beira rio, visitar a família, fazer desporto, na internet, se temos ou não uma relação mais de usufruto através do consumo do que da participação, tudo isso são elementos importantes para definir culturalmente a comunidade onde estamos inseridos, porque todos esses gestos são carregados de cultura. Isso tudo e muito mais, claro.

Essa cultura não se explicita por protocolos claros: quem vai a um centro comercial passar horas a ver uma montra não sente que esteja a produzir cultura, e se na recepção não é claro, também não o é na produção. Sendo tão grande o prazer que as pessoas têm em ver as montras sem comprar nada seria natural que as grandes superfícies usassem esse espaço de mostra para se financiarem cobrando aos que por lá passam sem intenção de comprar. Quem trabalha numa repartição pública e durante oito horas por dia não produz outra coisa visível que não seja a obediência a uma chefia, está a participar culturalmente de uma relação que transcende a relação laboral. Quem trabalha numa empresa privada durante oito horas e se vê confrontado com uma redução de salário por causa de crise e a crise e mais a crise e o raio que o parta, está a participar de uma relação cultural que é maior do que a relação profissional. Essa cultura que não se explicita por protocolos claros ao não necessitar que a comunidade participante se assuma no acto cultural, cria uma espécie de estado de sonambulismo cultural que se traduz por um estado de constante recepção que não sendo marcado por um começo e um fim tem no zapping o seu momento de libertação da tensão receptora. 

E é entre estes dois tipos de produção cultural que estamos: uma, marcada pela relação com objectos caracterizados e claramente definidos no campo cultural feitos por agentes identificados, autorizados para produzir factos e artefactos culturais e que promove uma relação mais ou menos clara de recepção.  Outra, erupção simbólica e criação de imaginários e identidades em catadupa, produzida por espaços onde não é suposto existir uma relação de criação/produção/cultural, como centros comerciais, estádios de futebol, discotecas, bares, televisão, etc. 

Por exemplo, quando se fala que o dinheiro para a cultura desceu mais uma vez com este orçamento, não é totalmente verdade. Desceu para a actividade cultural realizada pelos tais agentes licenciados, identificados e autorizados a produzir cultura. Mas aumentou por exemplo para o Ministério da Administração Interna. Ora como uma das marcas da produção mais recente desta cultura de um certo estado sonâmbulo é o discurso securitário em torno de um anunciado aumento da conflitualidade social, o investimento feito nas forças de segurança pode ser entendido como um investimento cultural. 





A cultura é um pingo doce na nossa vida


Fui como vou sempre à procura de pão, de azeite, ovos. É geralmente isso que procuro num supermercado. De repente dei de caras com este expositor. Não estou a fazer critica literária aos títulos expostos. Apenas ao reclame: "No Pingo Doce pode comprar as últimas novidades de livros sempre com 10 % de desconto. E depois em letra mais pequena, a frase que tanto me indignou: "Para quê ir a outra livraria?"

É claro que isto é possível porque vivemos num país em que as discussões culturais não passam por aqui, por estas pequenas diatribes no quotidiano e porque se calhar grande parte das pessoas que lerem este post ainda vai pensar, este tipo está a indignar-se com quê, afinal?

Vou apresentar queixa à ASAE. E à entidade reguladora da Publicidade. Antes que as extingam hão-de lá ficar com um email de denúncia. Não sendo eles uma livraria, é publicidade enganosa. 



Quinta-feira, Novembro 10, 2011

a Barbearia do Senhor Luís

Na Barbearia do Senhor Luís, podemos continuar a seguir um folhetim, pouco feliz, e não muito edificante sobre as relações entre uma cadeia como a FNAC e um cliente, do Cartão Tanto. O Luís solicitou esclarecimentos sobre as suas dúvidas às entidades competentes e estas...pois, e estas. O folhetim Tanto está para durar. E nós por cá, para seguirmos o seu desenlace. A história tem diferentes contornos e não estou totalmente certo da justeza de todos os argumentos do Luís, nomeadamente sobre a questão do IVA (eu creio que o cartão tanto será um produto e não um depósito).De qualquer forma este é um argumento marginal para o caso em concreto, seria ou será central sim se se demonstrar haver um ilícito ou seja, a uma recepção de verbas sem pagamento da correspondente taxa de IVA.

O que é decisivo é que, independentemente do tamanho das letras dos contratos do cartão Tanto, a FNAC recebeu 120 euros que alguém lhe confiou num gesto de amizade para terceiro, e que, por diversos motivos que podem ir até ao descuido, a pessoa a quem se destinava este gesto de amizade se vê impossibilitada de beneficiar deste gesto sem se compreender como é que o usufruto desse benefício poderia trazer algum prejuízo à FNAC, que não fosse o de ter de assumir que a sua regra iria ter uma excepção. Quando a única razão que uma prestadora de bens e serviços pode utilizar para com um seu cliente é a das letras miudinhas de um contrato alguma coisa vai muito mal nessa mesma empresa e a FNAC deveria analisá-lo. E sem perceber  ainda algo mais complexo: a FNAC ao criar um produto que visa intermediar uma relação de amizade está a intervir no campo das relações entre as pessoas e se já é estranho para muitos de nós que isso seja feito a nível comercial, mais estranho é se essa intervenção não corresponder de alguma forma ao espírito que a originou. Não sei que motívos tem a FNAC para, ao contrário de outras empresas, colocar o prazo de um ano para o usufruto de um cartão de oferta. Embora isto não signifique que não hajam razões (o que eu acho é que numa situação destas era devida ao cliente uma explicação cabal e não uma esfarrapada sobre os limites de um sistema informático (sorrio, logo a quem foram da esta argumentação!)). O que me parece é que esta situação revela problemas de informação sobre o cartão Tanto que podem implicar com a sua implantação comercial. Dado que é admissível que a FNAC queira cuidar dos produtos comerciais que cria, isto é razão mais do que suficiente para que a empresa possa tirar proveito desta situação, escrevendo uma carta simpática ao Luís Novaes Tito dizendo-lhe que face à situação criada irá rever o procedimento da entrega de cartão, tornando mais clara a indicação da sua validade e que, agradecendo-lhe a oportunidade de poder melhorar a sua relação com os clientes, lhe devolve o dinheiro. 
          Se a FNAC tiver uma política de relações públicas e marketing inteligente é isto que fará.


Feliz por ter crescido ao pé do teatro

Do texto Memórias ao pé da estante encontro este excerto a que volto hoje.

"Vou finalmente terminar o texto com aquilo que o designou: há pouco, ao procurar alguns livros na estante, ao ver que ainda bem que não mandei às urtigas as dezenas de peças de autores portugueses que fui guardando (tal como se fizesse colecção de objectos excêntricos), fiquei contente por ter querido e podido crescer ao pé do teatro; fiquei a pensar no imenso privilégio que foi poder ter crescido ao pé, ou ao lado, ou dentro de experiências como as da sala de tapete vermelho da Comuna, com os nossos gritos e exorcismos; da sala das escadinhas da Esbal, com a desbunda organizada da Máscara Teatro de Grupo, do Pisco, Wilson e Alpiarça; do palacete da D. Carlos I onde o Luigi e o João Grosso, entre tantos outros percursores do movimento okupa montaram o estandarte da Culturona; das salas e corredores escuros do Teatro Imagem, Centro Cultural e depois Palco Oriental; da intencionalidade vagabunda da Oficina do Grotesco do Luis Beato e da Maria Morais, da Rua Mimo Trupe dos Joões, o Ricardo e o Carneiro; do teatro na escola, com o Horácio e a Fátima, abelhas trabalhadeiras, é o que éramos ( fazíamos num dia espectáculos para quatrocentas, oitocentas crianças, todas sentadinhas e perfiladas no chão das P3, uma récita de manhã e outra à tarde); daquela sala da Rua da Fé onde a Águeda Sena dirigia o Teatro Espaço, onde, entre outros que nunca mais vi, conheci o Júlio Martin, a Manuela Pedroso, o António Fontinha, o João Simões e o José Figueiredo Martins; dos fabulosos Encontros Acarte a fazerem de Lisboa uma cidade onde era importante estar; a daquele buraco na Alexandre Herculano onde a Barraca nos deixava brincar com o Estás a Ficar Careca, Hermengarda!, dos espaços alternativos como o Teatro do Século, ou outros, como a Ocarina, onde vi espectáculos de não alinhados, a Ângela Pinto, o João Grosso, o Miguel Abreu, aquele delicioso O Paraíso não está à vista do Maizum; as salas atulhadas de fumo dos Encontros de Teatro para a Infância e Juventude, onde as conversas e os debates se prolongavam até às tantas, o pessoal adorava falar, o Brites gesticulava, o Caldas cantava, um dia há que estudar os anos oitenta no nosso teatro. Das salas do Conservatório onde a Gisele Barret, o Ryngaert, o Vautelet, o Monod, o Voltz, o Lemaiheu, o André Marechal, nos levavam - pelas mãos, e teimosia do Nóvoa e do Fragateiro (com a ajuda, entre muitos outros, da Paula Folhadela, do Beja e do Gil) ao coração do movimento internacional da expressão dramática. Os setenta ficaram na nossa memória, por causa do aparecimento de companhias independentes que estão também associadas a um período onde o teatro estava muito visível, o teatro estava na rua, era uma grande cegada a nossa vida, os noventa beneficiaram da visibilidade que a Gulbenkian, o Acarte,a Madalena Perdigão (que já antes, no princípio de setenta tinha ajudado a criar e a fortalecer o movimento renovador da educação pela arte) conquistaram para a garagem, para a pequena sala, para o experimentalismo, mas os oitenta, os oitenta até porque muitos grupos que tinham uma grande criatividade no modo como experimentavam a sua expressão teatral sucumbiram à autêntica lotaria que eram os apoios do Estado ao teatro, os anos oitenta cairam num buraco de onde quase nada do que é relevante ficou para a memória futura. Sobrevive ainda, na pele dos vivos, quando olho para o Miguel Guilherme, para o Zé Pedro Gomes, para a Lucinda Loureiro, Ângela Pinto, Wilson, Pisco, vejo uma espécie de conta-me como foi do teatro dos anos oitenta, mas terão de vir os investigadores para retirarem a película de pó, de acáros, e iluminarem um pouco a importância dos anos oitenta para o nosso teatro.
Estou em pé diante da estante. Apoio, como faço sempre, o cotovelo numa prateleira, curvo o corpo. É sinal de que vou ficar aqui muito tempo, por regra só um entorpecimento muscular prenúncio da caibra me fará sair daqui. Não faz mal. Mesmo que já não leia os livros, apenas os títulos, depois são os títulos que me lêem a mim, nunca regatearei o tempo que passo diante de uma estante."


Fotosíntese


 "A Terra está em tua mão /Como tu a tens criado./Se tu resplandeces, eles vivem,/Se tu te pões no horizonte, eles morrem;/Tu és a própria duração da vida./E se vive de ti."
do Hino ao Sol de Akhenaton.
Quando me tornei agnóstico o meu espírito ficou órfão de crença. Não foi uma condição fácil em mim que vivia a vida com algum desmesurado fervor. Até que aos 15 anos encontrei nas páginas do livro de história, o único e definitivo deus da minha vida. Depois da incerteza em que me deixaram Sartre, Virgílio Ferreira, Bertrand Russel, saudei incandescentemente o Sol pela mão de Akhenaton. É por isso que os dias como ontem desexistem na minha vida. E não foi pelas diatribes da Ângela ou do seu apaniguado Sarkozy. Foi porque a noite se colou ao anoitecer sem entretanto ter havido algum sinal de evidência divina, quero dizer, solar. Hoje a vida voltou a ser vida. O meu deus bate na minha janela, as gardénias que ainda não o são esvoaçam todas gaiatas embaladas pelos farrapos de ventos, esta função clorofilina que em fim se cumpre é, tanto nelas como em mim, o viço que nos arrebita. 


Quinta-feira, Novembro 03, 2011

Trabalho aos domingos

Há um aspecto curioso da proposta de trabalho que o Governo pretende aprovar, com meia hora de trabalho suplementar: a entidade profissional pode pegar em todas as meias-horas e tirar um dia inteiro de descanso, incluindo o domingo. Eu compreendo que o Governo queira dar sinais aos empresários e patrões dizendo-lhes que valeu a pena ter-se elegido um governo com esta configuração política. O que eu não percebo é que o Governo não compreenda que desproteger assim o trabalhador, fazê-lo sentir tão miserável que até já o seu domingo pode ser do patrão, seja afectar de forma grave...a produção.

A ilha grega, o disfarce e a ideologia dominante


É difícil saber por onde pegar em relação à discussão sobre a tomada de decisão do Governo Grego de submeter a referendo um novo pacote de apoio da UE. Há coisas que roçam o absurdo. Como o de instituições que imanam de governos democráticos poderem hesitar em assumir a evidência de que uma decisão de referendo é adequada à complexidade do que envolve e compromete um novo plano de salvação da Grécia. Face à dimensão do que implica é natural que se envolva todo o país na decisão.

O pensar-se que isso é abrir uma caixa de pandorra não é errado. Só que a caixa de pandorra que se abriu não foi a da irresponsabilidade da Grécia, sim a de percebermos que o pressuposto democrático de que estas soluções da crise tentam convencer-nos, é falso, um disfarce. Estamos a entrar num período negro não por causa desta ou daquela acção ou iniciativa, sim porque não temos nenhuma capacidade de ler os factos fora de uma perspectiva ideológica livre.  Esse é que é o problema, os constrangimentos chegam-nos de todos os lados.





Sábado, Outubro 29, 2011

Petição As artes e a Cultura para além da Crise

Corre aqui a petição As Artes e a Cultura para além da crise, cuja assinatura recomendo. E não me interessa o meu desacordo em relação ao modo como os promotores da petição enquadram o papel do Estado nas artes e na Cultura (o que origina também algumas ideias menos claras sobre o papel da sociedade de mercado em relação à circulação dos produtos artísticos e culturais). 

Interessa-me apenas que estou de acordo com o essencial: a criação de uma Lei de Bases da Cultura (que enquadre, sistematize e organize o conjunto da dispersa actividade e investimento público (Governo (Cultura, Ciência, Educação, Ambiente, Solidariedade Social, Negócios Estrangeiros, etc), Autarquias, Institutos e Fundações e outros organismos desconcentrados da Administração Geral do Estado, IPSSs) em torno da Cultura, interligando-a com a Ciência e a Educação e colocando como meta mínima o 1% do OGE. 



O meu herói

Passos Coelho é cada vez mais o meu herói. Foi a um país irmão para preparar a próxima cimeira e conseguiu falar da economia e do emprego e das empresas e das privatizações e do emprego da economia e das empresas e das privatizações e dos próprios empregos sem perceber que não era por uma daquelas poupanças de recursos próprias de países a empobrecer que ele estava a falar sem tradutor na sua língua. Era porque entre ele e os que o escutavam havia uma dimensão cultural irrecusável. Chama-se lusofonia e até permite umas rimas pobres - que os tempos não estão para esbanjamentos - com economia.

O ser em estado de indignação


"Tudo hoje aponta, a meu ver, para o facto de a crise que estamos a viver exigir uma revolução no modo de fazer política. Mas uma revolução que aumente a sua eficácia, e esse é sem dúvida o grande problema que os movimentos de “indignados” enfrentam. Porque é bom não ter ilusões: a indignação, apesar de ser um forte detonador mediático, é na verdade um fraco operador político."

É compreensível a crítica de Manuel Maria Carrilho ao movimento dos indignados (que encontrei primeiro no Ma-schamba).  Tal como é avisado o alerta de que pela apologia de uma democracia impolítica (que é já em si um conceito crítico) pode estar a abrir-se a porta ao indesejável. E nem me interessa entrar em linha de confronto dizendo que a democracia política se encontra seriamente ameaçada e que de todas as ameaças talvez a menor seja a ideia de uma democracia impolítica.
Apetece-me reflectir um pouco mais sobre este trajecto da indignação. Acompanhei alguns destes movimentos, fui a muitas assembleias populares do Rossio. Ouvi pessoas a falarem, a ouvirem-se, a aplaudirem-se, a criarem aquele clima de estados de alma a que se refere Carrilho.

Sexta-feira, Outubro 28, 2011

Repôr a confiança no (meu) mundo

Não creio que nisto seja muito diferente dos demais, há dias em que não me apetece confrontar-me com os outros, em que desejaria passear invisível na multidão ou pelo menos, que ninguém me olhasse nos olhos. E digo isto mesmo tendo a consciência de que o meu brevet de ser-em estado-de-exposição tem mais horas de registo do que muitos dos que me lêem. Mas há dias em que não nos apetece, e contra isso não há nada a fazer. Durante muito tempo temi, por antecipação, esses momentos. Se tinha de fazer um espectáculo, dar uma aula, fazer uma comunicação, uma conferência, pensava, e se naquele dia eu estiver virado para dentro? E angustiava-me. Andei em psicólogos, psicoterapeutas, fiz terapia reiki, actividades radicais como asa dela, yoga, sexo tântrico, tentei de tudo. Mas no momento certo, quer dizer, no momento errado, a minha confiança estatelava-se em cima do estrado, do palco, do palanque. Não havia nada a fazer. Até que um dia encontrei uma máquina de tirar a timidez do mundo. Numa loja de roupa da moda jovem. Uns sapatos coloridos, encarnados, vermelhos. Basta-me calçá-los e consigo andar perfeitamente na multidão, sabendo que ninguém me vai olhar para os olhos, para a cara. Chega a ser cómico seguir o olhar de surpresa dos outros quando os seus olhares encontram os meus sapatos. Agora, sempre que tenho um acto de exposição pública, coloco-os na mochila. Para o que der e vier. É tão simples descomplicar o (meu) mundo.

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Sobre as alternativas

"Basta, por exemplo, olhar para o que aconteceu com a taxa Tobin sobre as transacções financeiras desde que foi proposta (em rigor, retomada) no fim dos anos 90, para se compreender como o chavão “não há alternativas” funciona como um garrote em relação a possibilidades tão efectivas como realistas. A prová-lo, aí está o modo como, depois de durante quinze anos ter sistematicamente acusada de radicalismo delirante, ela acabou por ser adoptada por N.Sarkozy, A.Merkel ou J.M.Barroso." MM Carrilho
Ler o resto do artigo aqui. Neste mesmo texto MMC faz uma critica ao movimento dos indignados, ou melhor, à capacidade política da indignação.

Sábado, Outubro 15, 2011

Até já

Acordei com uma dúvida: vou à manifestação ficando em casa ou indo para a rua? Estava a pensar ir, revejo-me neste movimento internacional, mas como já escrevi, o último comunicado dos promotores tirou-me a vontade de ir. A actualidade das declarações de Passos Coelho trouxe ao de cima uma questão de política interna que não me parece tão sedutora politicamente como o movimento global por uma cidadania com maior participação política. Aquilo que tinha sido muito claro no 12 de Março foi a firmeza com que os promotores conseguiram manter o seu discurso político de integração e de inclusão de pessoas que encontravam espaço para uma multiplicidade política que reforça a nossa cidadania. Porque a realidade política é uma pressão muito forte. Aquilo que me desagradou no último comunicado dos promotores do 15 de Outubro é que eles estavam a abrir a possibilidade do movimento ser conotado como um movimento contra este governo e as suas medidas impopulares conotando-o com um movimento de contestação ao governo que tem uma determinada expressão política e partidária. Abrindo caminho a que a mediatização do movimento seja feita por aí também. Não me revejo nessa linha de contestação política ao Governo. Partilho com ela muitas questões essenciais, entre elas a necessidade da renegociação da dívida, a necessidade de tributação de muitos rendimentos do capital que andam por aí a passear-se vistosamente, a necessidade acabar com ruinosos negócios público privados, a necessidade de uma política com maior componente de solidariedade social mas subsistem diferendos mais ou menos insuperáveis sobre a precariedade, o Estado, os direitos adquiridos, entre outros e, do ponto de vista da política portuguesa responsabilizo-os directamente, com o Partido Socialista, por estarmos com um governo de direita. É para mim de uma evidência cristalina que por mais pequeno que fosse o mínimo denominador político comum de um governo com apoio parlamentar do PS, do PCP e do BE, seria sempre maior do que aquele que existe com uma política defendida por um governo PSD/PP. E nesta perspectiva, não creio que este governo tenha feito algo ( excepto no plano constitucional, no qual algumas medidas deste governo já deviam ter sido colocadas, nomeadamente a da alienação de posições públicas a favor de privadas com evidente destrato do interesse público) que esteja para além daquilo que se esperaria de um governo como este. Está a defender a solidariedade com os seus grupos de interesses declarados, conhecidos. É portanto sobre um sistema político partidário que não permite encontrar as soluções para uma melhor governação da comunidade que eu, enquanto cidadão, me rebelo, me revolto, me indigno. E mesmo que continue a legitimá-lo através do meu voto, porque o sistema é tão viciado que o meu não voto é também uma legitimação do sistema, comecei, paralelamente, a tentar encontrar outras maneiras de dar sentido à minha participação política enquanto cidadão. Continuo com esta dúvida: vou à manifestação ficando em casa ou indo para a rua?

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

O poder de Francisco

Vou entrar em contra-corrente com muitos daqueles com quem geralmente estou de acordo. Já exprimi publicamente o que penso sobre a supressão do Ministério da Cultura e sobre a ideia de reduzir as entradas gratuitas nos museus. Confio na ideia dos especialistas de museus que já vieram dizer que, para além dos prejuízos na missão, há também a possibilidade de prejuízos financeiros ( não só as receitas não aumentam aquilo que se esperava com a cobrança dessas entradas, também porque elas podem provocar um efeito inibidor no acesso). São questões que para uma pessoa que falou tanto em avaliação...deviam ser melhor avaliadas.
Mas não seria honesto se não dissesse que fui agradavelmente surpreendido por esta entrevista. Mesmo naquilo que é a questão mais crispada na relação que a esquerda e a direita têm com a cultura, os apoios públicos, FJV não se muniu de nenhum daqueles argumentos populistas que a direita muitas vezes emprega. Disse aquilo que qualquer povo de esquerda pode subscrever. E defendeu de forma sincera e honesta a sua ideia de cultura. É certo que repetiu aqueles slogans da direita sobre a cultura: o dinheiro dos contribuintes e o dinheiro dos contribuintes e ainda, o dinheiro dos contribuintes. Mas o que é que se esperava de alguém que é secretário de estado da cultura - advogando a supressão do Ministério - de um Governo de direita numa altura em que a escassez de recursos é a palavra de ordem?
Fiquei com algumas esperanças de uma coisa: o ponto de encontro entre a direita e a esquerda no que toca à Cultura é a questão da avaliação, da organização dos recursos, dos princípios de gestão. Gabriela Canavilhas era ministra da Cultura de um Governo do Partido Socialista num mandato governativo em que o primeiro-ministro assumira que o seu grande erro no mandato anterior tinha sido não apostar tanto na Cultura e aceitou cortes por percentagem nas verbas destinadas ao apoio à criação no orçamento da Cultura. Francisco José Viegas é secretário de Estado da Cultura de um governo do PSD/PP e diz, na entrevista, que não quer fazer cortes cegos. A mim, que a minha tribo política é cada vez mais a Cultura, Canavilhas, que era de um Governo em que eu tinha votado, desiludiu-me. E agora surpreendi-me agradavelmente com esta primeira grande conversa pública de Francisco José Viegas (cujo alinhamento à direita sempre me irritou). É a vida! O lado perverso disto tudo é que ele aceitou uma supressão do poder que um Ministério da Cultura pode ter em troca de um encontro semanal e intimo, num "conselho de ministrozinho" com Passos Coelho.

Segunda-feira, Setembro 19, 2011

Num ter razom

Breves palavras. Dividido por outras plataformas, Artistas e Públicos Indignados, pelo facebook que nos permitiu realizar o evento e começar a juntar este punhado de pessoas que vão aclarando a sua intervenção, o tempo é menos que pouco para este pequeno momento reflexivo de que necessito no meu respirar. Preciso de não desabitar este encontro comigo. Já não é apenas nele que tenho a minha força, houve alturas em que sim, há muitos anos, hoje já tenho passos de pessoas em volta de mim, mas mesmo assim preciso de abrir este buraco, esta caverna onde me empenho na escuridão possível. Mas agora quero apenas festejar este pequeno grupo que trocou centenas de mensagens facebookianas, que se gastou em emergências diárias onde o humor se misturava com a ideologia, a ideologia com a política, com a filosofia e tudo isso com um afecto que advém do facto de sentirmos que estávamos a construir alguma coisa em comum. O quê? Não sei, não sabemos. Aproxima-se de uma evidência política sobre o papel da arte e da cultura na vida quotidiana, na cidadania. A minha prática política mudou nos últimos meses. Deixei de ir para a inacção política por ter medo de errar, por poder estar enganado. Também porque compreendi que a minha intervenção enquanto cidadão é a deste campo. O da cultura e o da arte. E isso muda desde logo o paradigma político: na arte e na cultura construímos processos para aprofundarmos visões sobre um determinado assunto. Não precisamos de ter razão previamente. Precisamos de a encontrar na sombra fresca dos caminhos, nas veredas íngremes e socalcadas dos percursos.

Domingo, Setembro 11, 2011

Fomos ontem ver o Cisne. A última sessão, no Corte Inglês. Como sempre que vemos um filme português, a proximidade que o filme nos oferece com lugares, pessoas, climas, incita-nos sempre a uma operação de reconhecimento que nos vai dando um à vontade com a obra. Quando saímos falámos sobre aquele ou aqueloutro plano, aquele ou aqueloutra fala ou sequência, num tu cá tu lá com o filme que nunca fazemos quando nos encontramos no cinema padronizado. A certa altura mimetizamos os parâmetros críticos que ouvimos por aí, eu falo da actriz, digo que a Ana Batarda estava magnífica, ela corrige-me, não é Ana, é Beatriz, isso, anuo, a Batarda tinha feito um papelão na Costa dos Murmúrios, diz-me ela, que tem sido a principal responsável por eu ter dedicado nos últimos anos mais atenção ao cinema português. O filme, para além daquele fascínio do reconhecimento que advém da proximidade é muito estimulante porque é um filme a sério, é cinema, é qualquer coisa que na sua improbalidade sobreviverá muito para além daqueles milhares de espectadores que o vão ver como se ele fosse também um filme igual aos outros (os outros, aqueles que todas as segundas-feiras, o dia de ir ao cinema, trazem com naturalidade aquela pergunta, vamos ao cinema?). Começa por ser estimulante do ponto de vista narrativo porque procura uma forma diferente de fazer aquilo que sempre nos disseram que o cinema iria fazer: contar-nos uma história. Há nisso, durante todo o filme, um investimento - quase obsessivo - nas ligações improváveis, nas teias invisíveis que se criam, nas estratégias que como num jogo de esconde-esconde o espectador vai fazendo para perceber o filme. Lembro-me da minha alegria quando Pablo leva Vera à porta de casa da sua mãe e eu digo interiormente, ele é o Cisne. Ou quando Sam aparece pela primeira vez e eu faço um paralelismo com o Pablo e conjecturo, ele é o Pablo uns anos depois. E mesmo quando descubro que não é, há algum desse meu esforço que faz com que a minha relação entre esses dois personagens seja enriquecida por esse vaivém narrativo. As personagens principais, Vera, Sam, Pablo, tem densidade e suscitam interesse e o filme, ao mesmo tempo que tem essa irrequietude narrativa tem também uma sentido de economia dos planos e isso valoriza a humanidade com que as personagens são construídas. Há também, é certo, alturas onde o cinema se deixa auto-seduzir pela sua capacidade de criar plasticidade, como aquela sequência em que Sam está dentro do pequeno lago e isso aparece-me como algo de supérfluo mas ao longo do filme vou-os encarando como os custos necessários da aventura de um filme querer criar uma forma própria de narrar. E em que entre uma narratividade padronizada e completamente focalizada em emergir-nos no ficcional como se ele fosse real, tão presente no cinema americano, vai, aqui e acolá, buscar algo à herança de um cinema português - nomeadamente ao tão característico plano fixo, demorado, quase pitagórico, de Oliveira - mas intensificando-o quer através de elementos que nos remetem para uma dimensão não verbal da interpretação dos actores, o som da respiração por exemplo, quer jogando com planos aproximados. Fiquei com vontade de ver o que vem a seguir neste trajecto, porque me parece que há aqui um chão fértil. Até porque há algo de irrealizado neste projecto, já que há sequências - como aquela em que Vera conta a Pablo a questão da casa - que ainda hesitam em desfazer-se de uma teatralidade cuja integração no cinema talvez ainda tenha de fazer algum caminho para poder ter aquele efeito refrescante de virtualidade e autenticidade que faz do teatro um repente intraduzível.
Quanto saio para a rua, vendo aquele mamaracho do Corte Inglês, penso na desigualdade com que aquele filme surge em relação aos outros filmes e o que isso pode significar para todos nós. É aí que a questão cultural, a questão da cultura, se coloca. No plano estrito do seu trabalho de cineasta (é um absurdo, eu sei, como se ele pudesse existir em sentido tão limitado, como se não houvesse algo de político em continuar a filmar), a realizadora não tem muito a perder com a inexistência de um sistema de difusão que crie a possibilidade de fruição deste objecto por parte dos espectadores. Até pode beneficiar disso porque o sistema de legitimação do cânone cinematográfico será sempre mais familiar quanto mais frágil for o dispositivo político da passagem da criação artística para a produção cultural. No caso do cinema foi preciso que os festivais internacionais começassem a valorizar o nosso cinema para que nós o começássemos a tolerar um pouco melhor. O problema não está na criação artística. Ninguém deixa de fazer filmes, de escrever peças de teatro, sinfonias, livros, por não ter reconhecimento público. É o nosso imaginário colectivo que em vez de ir por aqui vai por outro lado. O que sofremos por não conseguirmos fazer valer a ideia de que precisamos de uma política cultural é a perda destes objectos, destes gestos - e fazer um filme, escrever um livro, são gestos de dádiva - para o nosso imaginário enquanto comunidade. Que terá cada vez menos os nossos lugares, os nossos ambientes, as nossas cores, as nossas maneiras de falar. A partilha do sensível. Eu só não consigo perceber como divergimos tanto nesta percepção: há pessoas, como eu, que acham que isto é uma ferida de morte na nossa identidade, na nossa soberania, no nosso "nós", outras que acham que isto não tem importância nenhuma, nickles, zero. Entre uns e outros, nestes momentos, sinto a falta de um pequeno fio no horizonte que há uns anos, numa página ímpar do Público, nos lembrava isto com ar doce mas firme, categórico.

Sábado, Setembro 03, 2011

Comunidade dos patetas alegres

Poderia dizer que deixei entrar em mim o desânimo, a descrença. Que chego a temer que este buraco onde colectivamente nos enfiámos não vá dar a lado nenhum. Que me apetecia pegar no calão millorista fernandes e desatar às caralhadas a torto e direito. E depois estaco. Temos alguma responsabilidade diante dos outros. Somos uma comunidade, quer dizer, um pedaço de gente com a alma virada para fora. Escrever é um acto responsável. Parece que é gratuito ( quer dizer, pagamos de outra forma) mas a possibilidade de escrever publicamente é um acto de responsabilidade. A primeira tecla lembra-me sempre que o uso livre da expressão já foi proibido e pode voltar a vir a sê-lo. É uma possibilidade não uma probabilidade. Escreverei por isso com o ar grave de quem cumpre uma responsabilidade para com os outros. E escrever é também uma enunciação do Outro, uma saudação, um virar para fora o avesso em que me sinto. Há milhões de anos um antepassado meu andou a penar por este mundo e eu hoje estou aqui a escrever e alguém, sei lá quem, cujo antepassado também se cruzou com o meu, vai-se cruzar comigo. Essa possibilidade deixa-me em festa. Mesmo sendo sábado vou vestir o fato domingueiro. E já me esqueci de onde me vinha o desânimo, a descrença. Claro, a crise de vida, esta merda do custo de vida, do desemprego, da dívida pública, a porcaria dos partidos, pois é, pá. Não há troica que me privatize o sol, o ar que respiro, esta sensação de privilégio da humanidade não ser ainda um produto descontinuado no cortejo das espécies em vias de extinção. Agora eu tenho a certeza: eu nunca deixarei de lutar por aquilo que é importante por ser um pateta alegre.

Absurdo?

Uma mensagem breve diz-nos que o Absorto de Eduardo Graça foi bloqueado. Dado que se trata de um blogue de todos os dias irei tentar perceber quando é que volta ao seu funcionamento regular. E tentar perceber as razões.

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

Sombras

Continuo a esvaziar-me de todo um aparato que ingenuamente
fui integrando pensando que me fazia melhor pessoa, mais solidário, mais atento. Faltam-me
nomes para a conversa com muitos dos meus amigos
que vivem da refrega quotidiana com esta bolsa de valores ficcionais com que nos enquadramos.
Gosto agora do fora de campo. Do fora de tópico. Gosto do silêncio.
A respiração volta a ser um lugar de encontro na areia.
Nem está frio nem calor. É verão mas não parece.
O que é verdadeiramente revolucionário é que o fim da revolução - o terninar inevitável de todas as revoluções - não apague o fervor revolucionário.
Aí na acalmia inexpiável de uma tempestade de cinzas, renasce o fogo.
O fogo somos nós.

Quinta-feira, Setembro 01, 2011

Quereres

Esvazio-me de quase tudo e ainda estou cheio. Há um exercício de depuração a fazer. Antes de recuperar o fluxo, a palavra, esse dom que ela é, ainda há um exercício de depuração a fazer. É muito fácil deixar-me levar pela raiva, pela fúria. Mas talvez isso agora seja desistir de outra maneira. Deixo apenas aqui uma prece, como se fosse uma oração, agnóstica: agora que a chuva veio lembrar-nos que até o verão nos quer abandonar, que nunca me falte estes quereres. Este reconhecimento.

Quarta-feira, Agosto 24, 2011

O real cansa-me

Quantas vezes diante desta pulsão descontrolada para pixelizar o real me pergunto se este é uma doença, uma mania, uma religião, um mitema? Qualquer coisa, e não necessariamente boa, é. Até uma certa altura a minha relação com a realidade foi dominada pela ideia de rigor. Sempre que comprava um novo equipamento fotográfico ou de vídeo ía analisar cuidadosamente a sensibilidade, a exposição, procurando uma performance que me desse a sensação de que o real, a sua riqueza, a sua diversidade, a sua explosiva paradoxalidade, pudesse ficar contido na pequena amostra capturada pelo frame, fragmento do visivel. Hoje já não confio nada nesses artíficios e prefiro a inteligibilidade do borrão. Gosto quando a imagem se parece pintura, quando ela desfaz o autoritarismo realista e se entrelaça com o imaginário.

Segunda-feira, Agosto 01, 2011

Depois da noite eleitoral

Há uma sensação estranha no ar. Ouvir o Prós e Contras depois de ter estado um bom pedaço da tarde em torno do Portugal Hoje: O Medo de Existir de José Gil, é uma sensação muito esquisita. Como se o livro fosse um oráculo, ía dizer pequeno mas depois lembrei-me da crítica dele a esta ideia do pequeno, do pequenino, do atamancadinho. E ouvir o oráculo depois da profecia se concretizar é terrível. Fica-me sempre a pergunta: o que é que eu estava a fazer enquanto devia estar a ler este livro. É uma sensação estranha no palato, terrível mas não é necessariamente má. Ou então sou eu que tenho esta ideia distorcida de que quando consigo apanhar o fio condutor as coisas não estão assim tão más. Vim até com um fiozinho de esperança atrás de mim, dos meus pensamentos. Uma sombra que me iluminou o caminho até casa. Não me apetece analisar o que se passou ontem com lamentos, queixumes. Não era nada que eu e tantos outros não tivessemos previsto. De certa forma sofri mais até votar do que depois. Depois fiquei com a sensação de alívio. Não doeu nada. O optimismo não depende dos factos. Os factos é que dependem de um olhar optimista. E embora este metáfora do poder, dos rituais de passagem do poder, sejam tão importantes nas nossas sociedades democráticas, a verdade é que elas permitem a confluência de uma multiplicidade de poderes que nunca vão a votos. Ora esse poder de cada um de nós influenciar de uma maneira positiva o mundo onde vive mantem-se inalterável. Não é lirismo. É a realidade. Temos poder, somos poder. E a sociedade é dinâmica. O PSD e o CDS vão ter menos espaço de acção. A situação está longe, para pior, do que estava quando Guterres deixou de ser primeiro-ministro e Barroso e Portas inventaram a metáfora política criminosa O país está de tanga com que tentaram castigar o PS.

Sábado, Julho 23, 2011

Fado do cativo

O gira-discos entrou em nossa casa poucos anos depois de termos chegado a Lisboa. Foi um dia cerimonioso, o de o desembrulhar. Ainda me lembro. Tinha um suporte para ir fazendo descair os discos, até um limite de sete. Os meus pais dançaram ao som de um disco de Mantovani, uma colectânea que vinha de oferta. Quase logo a seguir veio um disco que se tornou uma companhia nas minhas tardes: Amália, ao vivo, no Café do Luso. Não sei, hoje, à distância do tempo, o que a minha adolescência, e toda a minha vida depois, teria ganho se tivesse trocado essas tardes imensas deitado no chão da sala a apaixonar-me por Amália por alguma coisa mais palpável e menos platónica(anos mais tarde a mesma paixão, mas mais férrea, por Jeanne Moreau) . E não sei não porque não saiba. Se me pensar enquanto personagem há inúmeras variáveis que começam a tornar-se hipóteses e a minha vida poderia ter seguido uma data de coisas. Não sei porque nunca me deitei muito a pensar verdadeiramente nisso. Talvez o fado, tão cedo em mim, me tenha predisposto para me pensar a partir do que me acontece. E se ao pensá-lo assim o fado me surge um pouco como lugar de cativeiro, sempre que olho para Amália, como há pouco tempo no vejo-a como um imenso espaço de liberdade. Aquele ambiente quente, acalorado, meio nebuloso das noites do Café do Luso, que chegava assim à minha sala depois das aulas da manhã, fez-me crescer afectivamente, sensorialmente, emocionalmente.