quinta-feira, março 27, 2014

Estranhas formas de barro rasgadas pela luz


São três da tarde. Subo a Rua Nova da Trindade e ao olhar para umas portas envidraçadas do Convento da Trindade vislumbro umas estranhas obras de barro rasgadas pela luz, que me atraem como se me estivessem a convidar para dois dedos de conversa. O barro exerce sobre mim um magnetismo muito poderoso. No lugarejo de onde vim havia um dos mais importantes ceramistas do século passado, José Franco, e eu e os meus amigos pegávamos muitas vezes nas bicicletas para irmos da Ada-Pera ao Sobreiro vê-lo trabalhar. Começo sempre por ser um pouco infantil nas minhas conversas com as formas, e o meu diálogo com estas obras de Rosa Anahory não foge à regra: procuro formas humanas, caras, olhos, bocas, costas, seios, troncos, rabos. Fico divertido uns bons dez minutos a juntá-las assim umas com as outras, enquanto ela assiste, um pouco perplexa, a este meu permanecer misteriosamente em silêncio diante das suas peças. Não percebo quase nada sobre as artes plásticas, sobre a escultura, as suas tendências, os seus impasses; aliás não percebo nada de coisa nenhuma. Sobra-me em ingenuidade o que me falta em conhecimento sobre a história da arte. No entanto há uma coisa que aprendi de uma forma transversal: qualquer obra ou trabalho artístico tem lá dentro simultaneamente um silêncio e um diálogo com o mundo que é preciso saber procurar, encontrar, escutar. E esta conversa está a ficar cada vez mais fascinante. Já deixei o primarismo da tentativa de humanização das formas; descobri nelas algumas características que me entusiasmam pelo seu carácter recorrente, permanente: uma intensificação de um movimento que, em espiral, sugere um percurso ascensional. Essa leitura é de uma grande simplicidade e clareza: por mais que as formas se misturem, se enlacem, se cruzem, se confrontem, elas suportam sempre a leitura de um percurso que começa no base da peça e foge para a sua extremidade superior e este movimento, sendo em espiral sugere um movimento da matéria em fuga do próprio corpo. A segunda característica é a de uma conversa embutida na própria peça. Existem frequentemente dois corpos dentro do mesmo corpo e esses corpos estão em diálogo. Não raro estes corpos dialogantes terminam em forma de boca, uma boca escancarada, desenhada em forma de grito. A terceira característica que me chama a atenção nas suas peças é a de que nestes corpos burilados dentro da mesma peça há uma presença de sentimentos como a ternura, o encosto, o toque. Por vezes estão de costas voltadas, em direções opostas, mas há sempre um amalgamento que sugere uma forma de romper a solidão. Já não sendo uma faceta recorrente, encontro também nalgumas peças uma grande plasticidade das suas formas, em contraponto com outras que são mais densas; diria mais pesadas se a dinâmica de movimento que contêm, quase que uma dança, não as tornasse surpreendentemente leves. Estive meia hora a viajar entre as peças da Rosa Anahory. A tirar-lhes a estranheza inicial de obras rasgadas pela luz e a substitui-la por um cruzamento de leituras. E sobretudo ingénuas. Eu não sabia que aquelas formas inusitadas podiam conter tantos diálogos comigo mesmo. Porque eu tenho a certeza de que estive ali sentado a conversar comigo mesmo, a ver-me refletido naquelas esculturas. Como se elas fossem uma superfície vidrada, espelhada. Descobri-lhes uma humanidade essencial. Um movimento de matéria em fuga do seu próprio corpo. Uma tensão entre solidão e corpo-a-corpo, dança. E quando saio para a rua olho novamente as peças. Acrescento à impressão do meu primeiro olhar: estranhas obras de barro rasgadas pela luz, pelo movimento, pela solidão; matéria fugindo dos corpos.

1 comentário:

Sara Anahory disse...

Lindo. O texto, as peças, a leitura das peças e o sentir das peças. E como ela - a Rosa que eu conheço e a Rosa que eu intuo - está nas palavras que escreveu. Incrivel. A passagem dela para o barro e do barro para as suas palavras.