quinta-feira, dezembro 16, 2004
Precisamos de pensar mal
Escreveu a Van Rose: "Em último caso não é preciso fazer nada, nada que seja pálpavel, apenas olhar e saber que existem. Não fechar os olhos mas tomar consciência. Não nos sentirmos culpados e sobretudo não praticar a autoflagelação. E mais que tudo...é...sempre...uma questão política... e temos de ter essa consciência. Da política, claro, que é o mais falta neste país. Sobretudo se tivermos uma consciência cívica e conhecimento dos nossos direitos." Já muitas vezes disse o que ela disse e soou-me bem. Agora não. Precisamos de ser "ágeis e fortes como um cavalo branco", creio que o ouvi ao Gonçalo M. Tavares, talvez em Évora, e repito-o. Quando num ano morrem cinco milhões de crianças à fome e sabemos que é por indecisão dos políticos em adoptarem os programas e as politicas de distribuição de excedentes, não há consciência que resista quando se aquieta no seu bem pensar. Precisamos de pensar mal. Como disse Brecht, precisamos de pensar o pior destes politicos. Precisamos que eles sintam que não os queremos assim e que, como o nosso voto, estamos dispostos a limpar a politica dessa mancha, dessa nódoa da democracia. Precisamos de perceber que entre a culpa e a responsabilização se joga a nossa cidadania. Não há autoflagelação quando a nosssa vida é flagelada diáriamente com o nosso crime. Ou alguém duvida que grande parte do nosso conforto, abundância e prosperidade é feito de fome, de miséria e de desconforto alheios?
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3 comentários:
Tive há uns anos uma "cunhada" holandesa. Todos os dias fazia a selecção de lixos. Plásticos para um lado, papéis para outro, vidros para aqueloutro. Isto sem contar com os chamados lixos sujos. Viva ali na zona de Cascais e na altura não havia ainda a separação de lixos. O que quer dizer que os diferentes lixos assim acondicionados íam parar todos ao mesmo contentor. E eu perguntava-lhe: "-Alie, porque é que continuas a separar os lixos se eles vão estar todos misturados?". A sua resposta variava. Às vezes calava-se, sorrindo. Outras respondia que era porque se sentia bem assim, que sempre assim tinha aprendido. Que até ali, e apontava a porta da rua, as coisas eram feitas como deviam ser feitas. Que queria que os seus filhos a vissem a fazer isso. Lá fora, um dia haveria contentores separados.
Outra coisa: para me desobrigares de apresentar esse comportamento como "males da juventude" deveríamos talvez discutir melhor esse conceito de "jovens" do PS. Por exemplo, a propósito do meu post sobre o observatório, recebi um mail de um amigo do PS, "jovem há mais tempo", e que está a colaborar com o programa da cultura que achava importante estas questões sobre o Observatório e da Circulação de Produtos Culturais estarem reflectidas nas propostas a apresentar pelo Partido Socialista. O que quer dizer, e por isso esta referência, que há jovens, ou se quiseres, assim, "que há malta a trabalhar prás ideias e prós programas". Bj
Rsss! São mais do que julgas.E, principalmente, são mais os potenciais interessados por fazer da politica um lugar interessante do que o contrário. Talvez os outros sejam mais vistosos, é-lhes do feitio. Mas da minha curta experiência de militante de um Partido, e pese embora a minha fraca militância, não tenho uma ideia assim tão derrotista. Talvez porque a minha expectativa era muito baixa, concedo. Mas sinceramente, não tenho. Não creio que seja 0,00001%. Quanto muito, na pior das hipóteses, 0,00002%. O que em reuniões e sessões partidárias convém muito, porque assim já temos com quem falar e discutir e ganhar a noite.
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