quinta-feira, fevereiro 24, 2005

EXIT

Esta ideia de comoção que começou no post anterior, ainda não parou. Sou aquilo a que se chama um peito aberto. A própria ideia de comoção já é, para mim, comovente. Comovo-me por exemplo com os entardeceres. Talvez porque na rua Domingos Machado, em Mafra, íamos sentarmo-nos à tardinha na varanda à espera que o meu pai chegasse da FOC. Da varanda, que ficava perto do Hospital e à beirinha do Seminário, viamos a silhueta da estrada e já percebíamos quando vinha de lá o Ami 8. Eu e os meus dois irmãos e a minha mãe. Foi antes de tudo ser alguma coisa e eu confesso, nessa altura esperava mais da vida. Não da minha vida, da nossa vida. Outra coisa que me comove: a vida que não tivémos, que nunca teremos. Ou melhor, a forma como avançarmos na vida que temos é negarmo-nos à vida que não temos, que nunca teremos. O que fazer? Não podemos parar a vida, a nossa vida porque, por um mistério que nos escapa, a nossa vida está ligada às vidas de todos os outros e parar a nossa vida seria estancar a própria vida do mundo. Restar-nos-ía o suícidio mas nem isso, ele pode resolver muitos outros dramas mas em relação a este, nicles. Não há mesmo saída. Claro, podemos comovermo-nos.

2 comentários:

Anónimo disse...

Nada disso vai mudar o mundo, o mundo já cá está há tempo de mais, nós não vamos mudar nada, de todo. Em que é que o podemos afectar? O que é que lhe poderíamos fazer? portas que se fecham e se abrem? A vida continua.

maresia disse...

Já alguma vez deste por ti a imaginar o dia do teu fim? O dia em que a terra vai absorver o que resta do teu corpo. Ver aqueles que nos vão ver por uma última vez. Imaginar as suas caras. Acreditar que a sua tristeza é insuportável. Como é que vão poder viver sem mim?! O maior medo não é a morte, o maior medo é pensar que a vida continua para além de nós.